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História Vou conquistar o temível Capitão - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Resolvendo problemas pendentes e...


Capítulo 06: Resolvendo problemas pendentes e construindo uma amizade


Desviei meu olhar do seu e observei o espaço á frente, olhando para o apartamento escuro que era iluminado pela luz da lua que entrava pela janela atrás de nós. A mesma luz que clareava parcialmente a cama e que me permitiu ver seu rosto mais cedo. — Daqui a alguns anos, talvez você não esteja mais disponível — comentei não conseguindo conter as minhas incertezas.

— Você...

— Não diga nada! — interrompi suas palavras, me virando para ele e fazendo sinal para que parasse de falar. Com uma expressão levemente confusa, ele acatou o meu pedido e não se pronunciou novamente.

— Esqueça essa última frase que te disse agora — pedi olhando para seus olhos. — Você me disse para refazer a pergunta daqui uns anos e eu a farei. Até lá, vou me esforçar para conseguir ter uma chance com você e mesmo se eu não conseguir, vou apenas tentar por mais alguns anos — afirmei determinado. 

— Não vou pressioná-lo a gostar de mim e não vou contar para ninguém sobre os meus sentimentos. Não quero te causar problemas e estou completamente ciente do quão problemático pode ser.

Eu tinha lembrado... Quando a bolha daquela reconfortante conversa naquela cama estourou, eu me lembrei do mundo fora daquelas paredes e dos problemas fora dela. 

Fiquei tão envolvido naquela conversa e minhas esperanças cresceram tanto que por um momento esqueci o quão perigoso era ter um relacionamento com ele, perigoso em muitos sentidos. Voltei a olhar para frente e depois me deitei de costas sobre a cama, assim como ele, ainda sendo honesto nas palavras que foram ditas em seguida.

— Quando percebi que gostava de você, me preocupei muito em te causar problemas. Também não tenho experiência em falar sobre sentimentos ou relações, sejam elas sentimentais ou físicas. Então acho que estou pulando alguns passos do que deveria ser a "criação de uma relação".

Parei um pouco para respirar e percebi que já estava falando em relação e sentimentos, sendo que ainda nem nos conhecíamos direito. Levei as mãos até o rosto e me senti envergonhado.

— Desculpe, estou falando demais... Acho que realmente sou uma criança ainda — admiti, completando com: —  Foi um longo dia e meu coração e minha mente tem sofrido com ataques da sua presença — brinquei com um sorriso no rosto, olhando para cima e focando minha atenção no teto branco sobre nós.

— Vamos conversar um outro dia. Eu não pretendo ir a lugar algum, então temos muito tempo para falar sobre isso no futuro. Até lá, meus sentimentos ainda serão os mesmos — afirmei com coragem e dessa vez mais calmo, retomando o controle sobre minhas próprias emoções.

— Tudo bem. Boa noite — encerrou aquela conversa com seu tom neutro. Respirei profundamente, me sentindo aliviado por ele não reagir negativamente a tudo o que lhe disse e após um "boa noite", me concentrei em dormir, pois tinha muito o que fazer no dia que estava por vir.

O dia começou de um modo incomum e isso sem dúvida era um presságio para a minha vida a partir daquele momento. A noite tinha sido tranquila e dormi melhor do que eu esperava, só não esperava acordar sendo jogado para fora da cama com um chute.

A queda certamente doeu, mas a força do seu chute doeu ainda mais.

— O que está fazendo?! — perguntei irritado, assim que consegui levantar, sentindo como se tivesse quebrado algo.

— Você vai se atrasar — respondeu de olhos fechados e com tom calmo. 

— O quê? — Ao ouvir sua resposta, olhei imediatamente para o relógio na parede e percebi que só faltava trinta minutos para o sinal da primeira aula tocar. — Por que você não me acordou antes!? — questionei bravo, enquanto corria para o banheiro para jogar uma água no rosto e escovar os dentes.

— Eu não sou seu empregado e nem sua babá, por que eu deveria te acordar? Isso é responsabilidade sua — disse ainda deitado. Eu estava no banheiro e escovava os dentes quando ouvi a sua resposta. Estava realmente irritado, mas não com ele, e sim comigo mesmo. Afinal, ele tinha toda a razão, a responsabilidade de acordar era minha.

— Desculpe — pedi quando voltei para perto da cama, para onde tinha colocado a minha mochila. Ele nada disse, mas não me repreendeu novamente, então considerei como algo bom. Tirei minhas roupas de dentro da mochila e objetos desnecessários. Levando a minha carteira e meus documentos junto com alguns livros da escola que tinha levado para casa dentro da mochila.

Saí de casa às pressas e sem perder tempo para pegar o elevador, corri pelas escadas, passando ao lado de Nina que também estava descendo.

— Bom dia, Nina! — disse ao passar correndo do lado dela.

— Onde é o incêndio, garoto? — questionou com um leve tom de brincadeira.

— Estou atrasado para a escola! — respondi sem olhar para trás, descendo os degraus enquanto os pulava de dois em dois. Ao sair do prédio, felizmente encontrei um motorista de aluguel ali em frente e com ele consegui chegar na escola dois minutos antes do horário. Foi por muito pouco.

Depois de trocar os livros no meu armário e pegar os que eu usaria naquele dia, segui para a sala e acompanhei as três primeiras aulas. No intervalo, estava cansado e apesar de estar com fome, não podia gastar o meu precioso dinheiro comprando aquelas comidas caras que eram vendidas ali, pois não sabia quando faríamos uma missão e quando teria mais dinheiro. Deitado no banco de cimento do pátio, fechei os olhos e cochilei por alguns minutos.

— Sério mesmo, Haru. Qual é a desse banco? Isso está me matando de curiosidade — disse a voz conhecida de Mayers. Apesar de ser uma surpresa encontrá-lo ali, não me surpreendi tanto quanto das outras vezes e apenas me sentei calmamente e fiz sinal para que ele se sentasse ao meu lado.

— Tem um boato na escola de que esse banco é amaldiçoado. Uns dizem que uma estudante se suicidou aqui, outros dizem que três alunos que sentaram aqui morreram e tem muitas outras histórias. Nunca soube quais eram verdadeiras e quais não, mas sei que ninguém se aproxima daqui e que por isso é um ótimo lugar para pensar e dormir — expliquei ouvindo-o rir da minha resposta.

— E você, o que faz aqui novamente? — perguntei para o homem sentado ao meu lado que procurava algo na mochila que carregava. Surpreendente, hoje ele estava vestindo jeans e camisa azul escura, bem diferente do seu habitual uniforme preto que era característico da segurança.

— Eu trouxe a documentação para a escola. Você deve usar um tempinho dentre as duas próximas aulas para pagar as mensalidades e fazer as alterações necessárias — explicou assim que retirou duas folhas e as entregou a mim.

— A de cima são as informações da casa do Capitão, incluindo o nome do proprietário, o endereço e o número para contato. Você deve usar esse documento para substituir o endereço da sua casa e o nome dos seus pais como seus guardiões. A partir de agora, se algum problema acontecer na escola, o Capitão Linus vai se responsabilizar. Esse segundo documento fala sobre isso e sobre o seu trabalho. Esse deve ser entregue diretamente para o diretor.

— E esse é o documento que seus pais devem assinar para garantir que você não está mais sob os cuidados deles — continuou a sua explicação, puxando da mochila um fino envelope amarelo e me entregando-o.

— Há duas folhas, uma deve ser assinada pelo General e a outra pela sua mãe. No documento está especificado que eles não se responsabilizam mais por você e que o Capitão Linus cuidará de qualquer problema que possa vir a surgir e que seja necessário a autoridade de alguém de maior idade — completou calmamente.

— Eu nunca entendi muito isso e só posso dizer que acho estranho que possa ser considerado um adulto para algumas questões, mas para outras não — comentei aquela questão da idade que me incomodava. — Obrigado por ter tido o trabalho de vir me trazer tudo isso. Depois da escola eu vou até eles — garanti com um pequeno sorriso.

— Estou de folga hoje e a tarde vamos nos encontrar de qualquer maneira, pois hoje é meu dia de sair com você, então quer que eu te espere e te dê uma carona? — perguntou gentilmente.

— Seria de grande ajuda — respondi honestamente. 

— Ah! Já ia esquecendo. Isso também é para você — Com um sorriso, Mayers puxou um pacote marrom e colocou em meu colo. O cheiro de pão fresco atingiu meu nariz e minha barriga roncou, para o meu constrangimento e a sua diversão.

— Obrigado. Como sabia que eu estaria com fome? — perguntei após largar os papeis e pegar um dos pães, ainda quentes, comendo sem me conter.

— Você parece estar sempre com fome — disse com um sorriso e tom de brincadeira, antes de me dar uma verdadeira resposta. — Passei na casa do Capitão para dizer a ele a nossa programação de hoje e ele me disse para trazer algo para você comer, pois saiu de casa atrasado essa manhã e não teve tempo de se alimentar.

Sua resposta me fez ter um sentimento maior de culpa sobre o ocorrido naquela manhã. Eu briguei com ele por ter me acordado tarde, mas a verdade era que se ele não tivesse me acordado, eu nem sequer teria conseguido vir para a escola. Além disso, foi muito legal da parte dele se preocupar com meu café da manhã, eu deveria ser grato.

— O Capitão Linus é um cara legal... Vou fazer um esforço para esquecer o fato dele ter me chutado para fora da cama — comentei em voz alta, não contendo uma expressão de dor ao lembrar da minha queda.

— Você... dormiu na cama do Capitão?

— O quê? — perguntei ao ouvi-lo falar comigo, pois não tinha certeza se tinha escutado corretamente a pergunta.

— Você e o Capitão Linus, dividiram a cama? — perguntou novamente, mas com outras palavras.

— Sim. Ele me disse para dormir em qualquer lugar, desde que não atrapalhasse seu sono e o chão era desconfortável, por isso optei pela cama. Algum problema? — questionei ao perceber que ele tinha uma expressão estranha no rosto.

— Não há nenhum problema. É que o Capitão costuma evitar contato físico com as pessoas, então me surpreendi por ele ter permitido que você dormisse em sua cama. Fico feliz que vocês estejam se dando bem — comentou com um sorriso, parecendo realmente feliz. 

— Isso de não gostar de contato físico é realmente verdade? — Não pude deixar de perguntar, parando de comer e olhando seriamente para ele. — Eu já tinha ouvido boatos sobre isso. Mesmo antes de tê-lo conhecido pessoalmente. Mas ele realmente evita contato com as pessoas?

— Sim e não — respondeu com um leve sorriso triste. — A resposta mais honesta que posso dar para essa questão, é que ele realmente não gosta de tocar em algumas pessoas. Porém não sei muito mais além disso — Ele parecia estar me escondendo alguma coisa, mas eu o conhecia há pouco tempo, então nem sequer podia imaginar o que era que estava sendo escondido.

— Obrigado pela resposta — agradeci honestamente.

— Por nada. Bom, eu vou indo, pois tenho algumas voltas para fazer. Vou te esperar no portão, no horário da saída. Não esqueça do que precisa fazer — avisou apontando para os documentos, depois deu-me um leve toque no ombro e se retirou. 

Enquanto terminava de comer, lutava contra minhas esperanças, dizendo a mim mesmo que tudo aquilo não significava nada. Mesmo que ele só evitasse as pessoas de quem não gostava, isso não significava que ele gostasse de mim... Amar alguém não dá garantias de que também será amado. Infelizmente, essa era uma verdade.

Na última aula pedi para me ausentar e resolvi os problemas referentes a escola. A mensalidade foi toda paga, com o dinheiro que o Capitão me deu através do cartão. O endereço foi alterado para a minha atual residência e por último entreguei o documento ao diretor. 

Ele ficou surpreso ao descobrir que eu estava trabalhando com os agentes, mas não disse nada contra. Na verdade ele não disse muito, nada além do necessário. Eu não tinha falado com ele desde o incidente na floresta, então não havia percebido isso antes, mas ele parecia menos falante e sem energia. Talvez o choque de quase ter sido morto por envenenamento tenha mudado-o?... Era difícil saber.

Quando o sinal do fim da aula tocou, fiquei um pouco preocupado que não conseguisse encontrar Mayers, mas assim que saí e vi o jipe da segurança, percebi que estava me preocupando por nada. Afinal, podia facilmente vê-lo... eu e todos os demais alunos!

Com um suspiro discreto de depressão, caminhei até lá e subi no veículo, não perdendo meu tempo para brigar com ele por ter vindo me buscar em algo tão chamativo, pois pelo que havia percebido, eu ia andar muito naquele tipo de carro.

Durante o caminho até a academia de pesquisas, nós conversamos um pouco sobre o que ele costumava fazer nos dias de folga e descobri que Mayers gostava de fazer compras e que colecionava armas, um passatempo interessante e que combinava perfeitamente com seu trabalho.

— Sabe, Haru. Hoje pela manhã quando eu estive na sede da segurança para imprimir o documento referente ao seu trabalho, ouvi muitas conversas dentre o pessoal da segurança — comentou Mayers quando parou o carro no estacionamento da academia.

— A sua contratação pelo Capitão Linus está sendo fofocada para todos os lados e por mais de um motivo. Não só por você ser jovem, algo raro em um Assistente de primeiro grau, mas por ele ter finalmente recrutado um Assistente. Além disso, as suas notas nos primeiros testes foram baixas, mas mesmo assim você passou no teste final, então muitos estão tentando entender como isso é possível. 

— E o fato de você ter escolhido o Capitão Linus sem nem ouvir as outras propostas, está realmente intrigando alguns, inclusive a mim — brincou continuando o assunto, me fazendo sorrir ao saber como os seguranças gostavam de fofocar.

— Queria te fazer algumas perguntas, mas não irei te forçar a me dar uma resposta — explicou o motivo pelo qual iniciou aquele assunto. Escorando-se no banco e olhando para mim enquanto continuava: 

— Quando fiquei sabendo sobre o quão baixo foram os seus resultados nos primeiros testes, fiquei surpreso e um pouco confuso. Por que suas notas foram tão baixas, se sua mãe te ensinou tanto sobre diversos conteúdos e seu pai fez você ter vários tipos de treinamento? Você é tão inteligente e seu corpo é muito saudável, então realmente não consigo entender o motivo de um resultado tão baixo. Por acaso, foi proposital?

— Não. Não foi proposital. Eu realmente tirei aquelas notas — respondi honestamente, adicionando uma explicação: — Minha mãe sempre me ensinou muito, mas eram apenas sobre os assuntos que ela mesma tinha interesse e o meu pai me forçava a treinar, mas eu nunca desejei isso. Eu sou o tipo de pessoa que só obtenho resultados positivos quando estou fazendo algo que quero e que gosto... Sendo forçado a algo, os resultados só podem ser ruins.

— Meus pais nunca se preocuparam muito com os resultados, por isso nunca perceberam que de nada serviria me dar um corpo forte ou ensinamentos que eu nunca iria usar. Para eles, só era necessário que eu fizesse o que eles mandavam — concluí com um pequeno sorriso.

— Sob essas condições, me surpreende que tenha convivido com eles por dezesseis anos — comentou fazendo-me rir. — E sobre a sua escolha pelo Capitão Linus? Tem certeza de que não era melhor ter ido para uma equipe que poderia te trazer mais vantagens?

— Existe mais de um motivo para que eu tenha feito essa escolha e realmente não quero falar sobre alguns deles... Mas posso garantir que uma das principais razões é a sensação de conforto e segurança que tenho sempre que estou com vocês três. Não trocaria a oportunidade de estar em um ambiente como esse por nem uma outra vantagem — afirmei com um sorriso.

— Entendo... Espero que sempre continue pensando assim — comentou com um sorriso de felicidade. Afirmei em concordância, logo em seguida saí do carro e pedi a ele para me esperar, enquanto ia em direção a primeira das duas batalhas que teria que vencer naquele dia.

Eu não gostava de usar o meu status como filho da vice diretora, mas em uma ocasião na qual precisava falar com ela, isso certamente era útil. Assim que cheguei na recepção e disse quem era, não demorou muito para minha mãe ser notificada da minha presença e em pouco tempo alguém veio até mim e me levou até ela. Em sua sala, estávamos sozinhos e depois de um abraço carinhoso pela sua parte e com um sorriso no rosto, ela me perguntou o que eu fazia ali.

Como resposta, dei a ela o documento, sem acrescentar qualquer explicação. Ela sentou-se no sofá e leu cuidadosamente o que eu havia lhe entregado, sua expressão tornando-se mais séria na medida em que ela lia mais do conteúdo. Quando terminou, seu rosto estava pálido e seus olhos não ousaram olhar para os meus.

— Esse Capitão Linus... Ele é um agente, não é? Lembro-me de seu pai mencioná-lo em casa — perguntou com dificuldade, olhando para mim. Acenei em confirmação e esperei que ela dissesse tudo o que queria, pois eu sabia que não podia ser só aquilo. — Por que ele ficará responsável por você em casos de emergência?

— Porque ele é meu chefe. Eu me tornei um Assistente de primeiro grau — revelei em tom calmo.

— O quê?! Você tem noção do que isso significa? Ser Assistente de alguém como ele, significa que você terá que ir frequentemente para fora dos portões. Onde você estava com a cabeça quando aceitou isso?! — disse em tom alto e um pouco hostil, se levantando e segurando em meus ombros.

— A minha cabeça estava no lugar, como sempre esteve. Estou ciente de que terei que ir para fora dos portões com frequência... Na verdade, esse era meu principal objetivo quando escolhi esse trabalho. Estou ciente de tudo, não me trate como uma criança e — pausei minhas palavras brevemente enquanto lhe dava um olhar sério — alguém como ele, me entende melhor do que meus próprios pais. Não fale dele como se fosse alguma aberração.

— Haruka, por quê...

— Assine. Estou aqui apenas para pegar sua assinatura. Por favor não torne as coisas mais difíceis. Quanto mais você ignora minhas vontades e pedidos, mais raiva me faz ter — Fui honesto e direto. Mesmo estando na sua presença por apenas alguns minutos, toda aquela raiva que achei ter deixado naquela casa quando parti, ressurgiu dentro de mim... Era esse o tamanho do dano que aqueles dois infligiram em mim.

Para a minha surpresa ela me soltou e realmente assinou, não dizendo-me mais nada e entregando-me o documento de cabeça baixa.

— Obrigado — agradeci e peguei o papel, me preparando para sair. 

— Por que me agradecer? Estou fazendo apenas o que devo fazer — comentou em tom triste.

— Quando o seu pedido é atendido, deve-se agradecer independentemente da ocasião, foi o que minha mãe me ensinou. Eu fui bem educado e jamais esqueço das boas maneiras — expliquei vendo-a me olhar surpresa por mencioná-la. Sua boca se abriu como se ela quisesse dizer algo, mas não lhe dei oportunidade para continuar e me retirei. O meu objetivo já estava concluído, não havia necessidade de ficar mais tempo e eu nem mesmo queria isso.

Quando saí da academia, Mayers ainda estava me esperando. Entrei no veículo e ele sorriu amigavelmente, um gesto equivalente a: Você fez um bom trabalho!

— Para a sede de segurança?

— Sim — confirmei antes de respirar profundamente imaginando o quão difícil seria aquela conversa. — Mayers. Se houver uma tentativa se assassinato dentro da sede, você vai saber? — perguntei completamente jogado no banco, desejando me afundar no assento e desaparecer para algum lugar longe do domínio de meu pai.

— Seu pai não vai lhe fazer nenhum mal.

— Eu sei, estou perguntando para o caso de eu perder o controle — disse ouvindo-o rir de minhas palavras.

— Seria um problema se você tentasse matar seu pai, pois isso iria atingir o Capitão Linus. Tudo o que você fizer a partir de agora irá refletir na imagem dele, por isso tome cuidado com suas palavras e ações. Retribua a confiança do Capitão, sendo o garoto gentil que é e não arrume confusão — pediu com um sorriso.

Apesar do sorriso, eu podia sentir o tom da repreensão e do aviso em sua voz e me surpreendi ao perceber que ainda não tinha parado para pensar nisso. Que meus fracassos ou minhas conquistas iriam atingir meu Capitão e que ao me escolher, ele fez muito mais do que simplesmente me dar um emprego.

— Às vezes acho que o Capitão pensa bem demais de mim e tenho medo de desapontá-lo — comentei escorando a cabeça no vidro da janela e observando a movimentação de carros na estrada ao lado.

— Ele não é o tipo de pessoa que se desaponta facilmente. Não se preocupe tanto. Mesmo se você adquirir nada além de fracassos, ele provavelmente não se arrependerá de tê-lo escolhido.

— Como pode ter tanta certeza?

— Eu o conheço há muito tempo... — comentou sem dar muita importância, acrescentando: — O simples fato dele ter te contratado como seu Assistente, já revela muito.

— Eu não acho que seja algo tão estranho ele ter me contratado... Quer dizer, eu também fiquei um pouco surpreso, mas quando penso que a ideia de me tornar um Assistente de primeiro grau veio dele, consigo aceitar a sua escolha com mais facilidade.

Quando essas palavras deixaram a minha boca, Mayers pisou no freio e o carro parou no meio da estrada, assustando-me a aos carros ao nosso redor.

— O que você disse? Isso foi ideia do Linus? — perguntou surpreso, encarando-me profundamente. Ainda estava meio em choque com um quase acidente que podia ter acontecido e o fato dele ter se referido ao outro apenas por "Linus" também me surpreendeu.

— ... Sim. Como eu disse antes, a ideia não foi minha. O Capitão sugeriu isso naquele dia em que os levei até a sala do diretor — expliquei com detalhes, surpreso por ele ainda não saber e vendo a última reação que eu poderia imaginar... risadas.

Ele riu, riu muito enquanto quase chorava. As buzinas de carros ao nosso redor começaram a se tornar irritantes então ele voltou a dirigir, mas ainda assim, continuou rindo. Só quando chegamos a sede da segurança é que ele enfim se acalmou, me dando espaço para lhe fazer alguns questionamentos.

— O que é tão engraçado? — perguntei, mas ele não respondeu. Insisti com outra pergunta.

— Há algum significado por trás do fato de ele ter sugerido a mim esse emprego?

— Pode-se dizer que sim — Finalmente respondeu, ainda com um sorriso nos lábios. — Na verdade é apenas uma velha história de muitos anos atrás, de quando Linus recém se tornou Capitão e eu era o único membro da equipe — explicou pouco antes de me contar uma história que parecia ser ainda mais velha que eu.

Escutei suas palavras enquanto mantinha uma expressão surpresa em minha face o tempo todo. Quando ele terminou, quase não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir.

— Nunca conte nada disso a ninguém e não deixe o Capitão saber que eu te contei ou sou um homem morto — brincou fazendo sinal de que teria seu pescoço degolado. Sorri e afirmei que não diria nada, saindo do carro logo em seguida e seguindo para o meu objetivo ali.

Quando cheguei na recepção e pedi para ver meu pai, tive a surpresa de saber que ele já estava esperando por mim. Alguém me levou até ele que estava em meio a uma reunião. Quando adentrei a sala, muitos olhares nada amistosos foram direcionados a mim, pelo que sabia sobre aquelas pessoas, eram todos oficiais de alta classificação.

— Sua mãe me ligou e falou sobre o documento. Me dê ele e irei assinar para acabar logo com isso — disse-me em tom visivelmente raivoso. Entreguei a ele o papel e depois de olhar brevemente para o que estava escrito, ele o assinou e me devolveu.

Porém quando o peguei, ele não o soltou. Não querendo rasgar a folha, não fiz força e apenas encarei seus olhos, esperando que ele dissesse o que tinha a me dizer.

— Você vai se arrepender da sua decisão. Ser um Assistente de primeiro grau, não é algo tão fácil quanto você imagina. Sua vida vai estar correndo perigo diariamente e não moverei um dedo para ajudá-lo.

— Eu nem sequer desejo isso — retruquei em tom sério, vendo pelo canto do olho algumas expressões surpresas daqueles que nos observavam. — Me deixe ir. Não temos mais nada a conversar — pedi fazendo um pouco de força para recolher o documento e vendo-o enfim soltá-lo.

— Quando você voltar chorando para casa, não espere que eu o receba de braços abertos — completou em tom levemente hostil. 

— Eu nunca voltei para casa chorando, pois você nunca me permitiu chorar — lembrei-o em um sussurro, deixando a sala logo em seguida e não querendo vê-lo novamente, nem mesmo por mais um segundo.

Saí da sede sentindo-me muito mais livre, como se tivesse sido libertado de uma prisão onde usava frequentemente grossas algemas de ferro. Quando voltei ao carro, até tinha um sorriso nos lábios. Com aquela questão resolvida, deixei de lado as minhas preocupações e passei a tarde na companhia de Mayers.

Ele me levou para fazer compras e fez questão de comprar uma roupa para que eu usasse nas missões, uma roupa que seria o meu "uniforme" de trabalho. De acordo com ele, aquele era o meu presente de boas-vindas. Depois passeamos um pouco enquanto conversávamos sobre assuntos diferentes, em sua maioria, sobre as minhas experiências fora da cidade e as suas.

Mais tarde naquele mesmo dia, ele me levou até o seu apartamento e me mostrou a sua coleção de armas. Eram todas bonitas visualmente e poderosas em quesito de poder de fogo. A maioria era apenas edição de colecionador, pois não podia ser usada e embora eu não soubesse o motivo, não fiz questão de me aprofundar no assunto. Perto do anoitecer, saí do seu apartamento e fui até a minha nova casa, a porta estava aberta e ele estava na cozinha, preparando o jantar.

— Chegou cedo — comentou ao ver que ainda nem eram nove da noite.

— Mayers parecia cansado e ele me ajudou bastante, então resolvi deixá-lo descansar. Precisa de ajuda? — perguntei quando cheguei na cozinha, depois de largar a mochila na cama.

— Já está pronto. Pode ir tomar banho e depois podemos comer — respondeu sem olhar na minha direção. Assenti em concordância e segui até o banheiro. Depois de um banho rápido, sentei-me na mesa e me servi da sua comida, percebendo só depois que comecei a comer, o quanto estava faminto.

Comemos em silêncio. E como estávamos sentados um em frente ao outro, era possível que eu o observasse vez ou outra, quando ele não estava prestando atenção. Ao vê-lo em minha frente, tão perto e ao mesmo tempo tão longe, lembrei-me da conversa que tivemos na noite anterior e depois de partes das conversas que tive com Mayers.

"É que o Capitão costuma evitar contato físico com as pessoas"... Foi o que Mayers disse, mas naquele dia na floresta e ontem enquanto dividimos a cama, não parecia haver nenhum problema com a nossa proximidade.

"Eu o conheço há muito tempo... O simples fato dele ter te aceitado como seu Assistente, já revela muito."... Isso era algo que eu mesmo podia perceber, mesmo que não o conhecesse há tanto tempo. Eu estava ciente de que significava algo, mas não sabia "o quê" e essa era a parte que me incomodava.

Por último lembrei da história que me foi contada: "Quando perguntei ao Linus sobre quem seria o próximo membro da nossa equipe, questionei se essa pessoa seria o seu futuro Assistente e ele me disse que nunca teria um Assistente.

Quando perguntei o motivo, recebi como resposta: 'Ter um Assistente de primeiro grau é como estar em um casamento, precisa haver completa confiança entre as duas partes. É difícil encontrar alguém assim'. 

Baseando-me nessa resposta, sempre acreditei que ele nunca encontraria alguém que achasse ser digno de sua total confiança, mas parece que eu estava errado."

Essa história que ele me contou era sobre confiança e eu fiquei muito feliz quando ouvi sobre isso. Mas para a minha própria surpresa, a parte que mais me chamou a atenção foi que ele pensava nessa parceria como um casamento... Mesmo sendo uma esperança infundada, disse a mim mesmo que isso significava algo. Que mesmo que ele não dissesse com palavras, suas ações diziam que ele gostava de mim, assim como eu gostava dele.

Naquela noite, depois do jantar e de descansar um pouco, nós dois fomos dormir, novamente dividindo a mesma cama. Ninguém falou sobre o acontecido da última noite, mas para a minha surpresa ele resolveu conversar.

Diferente de como era durante as missões ou quando estava em casa, parecia que quando estava na cama, ele realmente gostava de conversar. Não vi problemas em lhe acompanhar por alguns minutos, então quando ele me perguntou o que fiz durante o dia, contei alegremente o que aconteceu... desde encontrar Nina na escadaria até ver a coleção de armas de Mayers. Omitindo apenas algumas poucas conversas.

Quando o meu "relatório" acabou, ele me desejou boa noite e fomos dormir. Virado de costas para ele, estava com um sorriso no rosto por aquela vida que parecia ser um sonho. O dia tinha sido divertido, apesar de alguns pequenos problemas, e estava ansioso para passar o dia seguinte com Nina. 

E mais ansioso ainda estava para passar o dia posterior com o Capitão. Tinha muito que gostaria de conversar com ele e mesmo se não obtivesse as respostas que buscava, ao menos poderia ter sua companhia.

A noite foi tranquila, mas a manhã começou novamente cheia de problemas, enquanto eu era novamente chutado para fora da cama. Dessa vez eu não estava atrasado, prova disso era o alarme tocando sobre a mesa de cabeceira. Era o alarme que tinha comprado no dia anterior quando saí com Mayers.

— Qual... o problema dessa vez? — perguntei ainda no chão, abraçando minha barriga que tinha sido acertada em cheio e sentindo como se tivesse realmente quebrado algo.

— Desliga esse barulho irritante. Quero dormir — disse com voz sonolenta, ainda debaixo das cobertas. Com dificuldades, engatinhei até o despertador e o desliguei. Depois de alguns minutos de respirações pesadas, a dor diminuiu e eu consegui levantar.

— Capitão... Pode ser um pouco mais gentil quando for me acordar? Sinto que vou quebrar uma costela qualquer dia desses — comentei com um fraco sorriso nos lábios.

— Isso é o mais gentil que posso ser — disse-me sem rodeios e sem nem olhar para mim.

Eu sabia que era errado da minha parte pensar nisso, mas quando aquelas palavras saíram da sua boca, tudo no que pensei foi: ... 

Fazer sexo com esse homem, deve ser realmente doloroso!


Notas Finais


Até mais.
:-)


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