1. Spirit Fanfics >
  2. Vou conquistar o temível Capitão >
  3. Falando mais abertamente sobre...

História Vou conquistar o temível Capitão - Capítulo 8


Escrita por:


Capítulo 8 - Falando mais abertamente sobre...


Capítulo 08: Falando mais abertamente sobre sentimentos e problemas


 — V-você... — Mayers parecia ainda mais em choque do que o próprio Linus.

Ainda olhando para o homem que amo, disse seriamente e em tom baixo, quase como um sussurro.

— Você podia ter me impedido agora, mas não o fez. Tenho certeza de que sabe melhor do que ninguém o que isso significa.

— Isso significa que eu gosto de você. Não sou idiota, Haru. Sei bem o que sinto por você — respondeu em tom levemente hostil. — Mas mesmo que um ano tenha se passado, você ainda continua agindo como uma criança. Enquanto você não mudar essa atitude, não vou te dar chance alguma — completou fazendo menção aquela conversa na minha primeira noite em sua casa.

— Vamos — chamou os outros dois e começou a andar. Eles nada disseram, apenas olharam de mim para ele e dele para mim, antes de começar a andar.

Respirei fundo. Peguei a minha mochila no chão e segui atrás deles.

— Capitão Linus. Por favor, seja honesto comigo e me diga qual é o problema que está nos impedindo de ficar juntos? Se você me der uma resposta honesta, prometo que não vou mais lhe causar problemas ou tocar nesse assunto novamente — disse-lhe calmamente, enquanto usada o dedão e o dedo indicador para apertar o espaço entre os olhos e acima do nariz. Estava cansado e com uma leve dor de cabeça

— Tudo bem — concordou para a minha surpresa. Acrescentando aos outros dois. — Deixem-nos a sós — Mayers e Nina olharam para mim e depois saíram. Segundos depois estávamos sozinhos em meio a floresta.

— Quando eu digo que você ainda é uma criança, me refiro ao fato de suas ações serem baseadas apenas em suas emoções. Mas você está certo... essa não é a principal questão que me impediu de te dar uma resposta positiva aos seus avanços e sentimentos — disse ainda de costas para mim. Não podia ver seu rosto, então não sabia que tipo de expressão estava fazendo, porém sentia como se suas palavras fossem tristes.

— Para ser sincero, ainda não consigo aceitar completamente os seus sentimentos — Essas palavras me surpreenderam, não tanto quanto as que vieram a seguir. — Eu não consigo imaginar o motivo para alguém gostar de mim e minhas experiências passadas envolvendo romances, estão longe de ter sido experiências agradáveis. Não consigo acreditar e tenho medo de confiar.

— Temo que mesmo que seus sentimentos sejam honestos e que realmente goste de mim, eles possam mudar no futuro. Afinal, você ainda é jovem.

— Não fale como se você fosse um velho! Além disso, se eu não estivesse certo dos meus sentimentos, não teria me confessado. Você faz ideia do quão assustado eu estava quando descobri que gostava de você?! 

Disse aquelas palavras meio irritado pela suposição de que meus sentimentos não fossem verdadeiros e para a minha surpresa, ele riu. 

Foi como naquele dia, naquela primeira noite que dormimos na mesma cama. Era um som baixo, quase inexistente e por um momento achei que estivesse enganado, mas quando ele se virou, um pequeno sorriso estava em seus lábios, dando-me a prova de que ele realmente estava rindo.

— De fato, ter a coragem para me dizer o que sente, mostra que você realmente gosta de mim. Mas como eu disse, tudo pode mudar no futuro. Além de seus próprios sentimentos terem a possibilidade de mudar, quanto mais você me conhecer, maiores são as chances de você decidir se afastar de mim — De frente para mim, ele ainda sorria, porém seu pequeno sorriso era de tristeza.

— ... Mesmo que um milagre aconteça e que seus sentimentos permaneçam os mesmos, isso não diminuí meus medos — disse-me seriamente. Ele estava a apenas uns três passos de distância, mas quanto mais ele falava, maior era a sensação de distanciamento que eu sentia entre nós.

— Medo de machucá-lo fisicamente, de machucá-lo emocionalmente. Medo de me envolver demais e me machucar. Medo de não conseguir separar a vida profissional da vida pessoal. Medo de perdê-lo... Tenho medo de amá-lo e ser amado.

— Eu posso ser um agente e um infectado, mas também sou apenas um homem que possui incertezas e inseguranças. Um homem com feridas no coração e com medo de revelar seu próprio passado... Sou apenas humano.

Essas palavras me fizeram sentir a culpa quase me consumir. Pois nesse tempo todo eu nunca cogitei a hipótese de que ele também tivesse inseguranças. Sempre pensei que eu era o único e não podia estar mais errado. A minha mão que segurava a alça da mochila sobre o ombros apertou-a enquanto eu me xingava internamente por ter sido tão estúpido.

— Quando te disse para me perguntar em alguns anos, sobre se você teria uma chance ou não, esperava que o tempo me ajudasse a responder essas perguntas. Esperava que até lá eu pudesse conhecê-lo o suficiente para tomar uma decisão sem arrependimentos e que você pudesse me conhecer o suficiente para não se arrepender da decisão de querer estar ao meu lado — explicou antes de tomar a iniciativa de se aproximar, parando bem em minha frente.

Sua mão tocou ao lado de meu rosto e a ponta de seus dedos me fizeram um carinho. Fechei meus olhos e aproveitei esse contato. Senti ele se aproximar e sua testa encostou-se na minha. Apesar de ele ainda ser um pouco mais alto que eu, era uma posição confortável para se estar.

Permaneci em silêncio e ele também o fez. Alguns minutos se passaram e não me atrevi a abrir meus olhos, como se estivesse sonhando e com medo de acordar.

— Haruka... Eu preciso de mais tempo — disse em tom baixo. — Quero ter certeza das decisões que vou tomar e quero ter certeza de que você está pronto para as consequências de uma possível relação.

— Tudo bem, mas diga-me... Depois que você superar seus medos e perceber que vou te amar pelo resto da minha vida. Nós vamos ficar realmente juntos?

Um novo som de riso soou e abri meus olhos surpreso ao sentir seus lábios sobre os meus. Foi apenas um simples selar de lábios, mas durou alguns segundos e a pressão foi o suficiente para que eu o sentisse por mais alguns segundos, mesmo depois que ele se afastou.

— A minha resposta é, sim. Se tudo acontecer como você descreveu, nada mais nos impedirá, mas até lá você precisa ser um bom garoto e se comportar — pediu soltando o meu rosto e dando um passo para trás, colocando alguma distância entre nós.

Coloquei os braços atrás do pescoço e com um sorriso malicioso, disse: — Não prometo nada.

— Imaginei que você fosse dizer isso — respondeu dando um suspiro, pouco antes de voltar a sua expressão séria e dizer em tom de ordem que deveríamos parar de conversar e continuar andando, para que pudéssemos alcançar a cidade antes do anoitecer.

Com um sorriso no rosto e de muito bom humor, segui com o Capitão e os outros, enquanto os dois me encaravam com curiosidade. Eles pareciam querer perguntar o que aconteceu, mas não tinham coragem para fazer isso.

Depois de caminhar por todo o dia, chegamos até o grande portão de ferro da Cidade Negra.

— Já faz quase uma semana, como foi a missão, Haru? — perguntou o guarda do turno da noite que quase sempre encontrávamos ao regressar.

— Cansativo — respondi quase dormindo em pé e fazendo-o rir. Capitão Linus assinou os documentos e nossa entrada foi autorizada.

— Ouvi dizer que sua escola está planejando outra excursão, está sabendo de algo?

— Desculpe, deve ter sido algo que foi decidido essa semana — comentei honestamente, já que não sabia de nada. Ele apenas acenou em compreensão e se despediu. 

Eu não sabia muito sobre ele, mas parece que tinha se divorciado da esposa e seu filho estudava na mesma escola que eu, então as vezes ele me perguntava sobre assuntos relacionados a escola.

Depois que entramos, Mayers e o Capitão foram se reportar sobre a nossa investigação e Nina ficou responsável por me levar para casa.

— Você está realmente cansado — comentou ela enquanto dirigia um dos carros da segurança. — É melhor aumentar sua resistência — sugeriu calmamente.

— Vou pensar nisso quando estiver acordado — respondi de modo sonolento, fazendo esforço para me manter desperto, não obtendo o resultado esperado. Alguns segundos se passaram e quando abri meus olhos, já estávamos na frente do prédio.

Desci do veículo e meio sonolento, andei ao lado de Nina e subimos ao décimo andar, onde nossas respectivas casas ficavam. Me despedi dela e fui direto para a cama. Estava tão cansado que nem consegui comer ou tomar banho, apenas retirei meus sapatos e me joguei na cama, apagando logo em seguida e acordando como sempre, após ser jogado para o chão.

— Não se atrase — avisou aquela voz sonolenta.

— Sim, senhor — disse levantando do chão e percebendo que meu alarme já estava tocando a uns três minutos. As dores da queda eram fáceis de ignorar depois de tantas outras quedas, então estava me sentindo bem. 

Depois de desligar o alarme, percebi que meu uniforme já estava separado em cima da mesa e que havia café da manhã pronto e me esperando logo ao lado. Sorri discretamente e olhei para trás, para o homem ainda dormindo na cama. 

Aquela relação estava longe do que eu realmente queria, mas por que meu coração se sentia tão feliz mesmo com algo tão pequeno?... Mesmo ainda não sendo uma relação amorosa, era óbvio que estávamos caminhando em direção a uma e isso me deixava muito feliz. Eu podia esperar mais alguns anos... Se ele fosse ser meu, mais alguns anos não eram nada.

Depois de tomar o café que foi deixado para mim e me arrumar, fui para a escola, recebendo uma grande surpresa logo na primeira aula. O diretor veio até a sala me buscar e me pediu para acompanhá-lo sem maiores explicações. Segui com ele pelos conhecidos corredores da escola até o ginásio de esportes, lá encontramos um grupo de pessoas que parecia nos esperar.

— É esse o garoto que mencionou? — questionou um um homem de óculos ao diretor, vindo até ele para cumprimentá-lo.

— Sim. Esse é Haruka Dimitriz, ele trabalha com uma equipe de agentes. E essa equipe é aquela que sugiro contratar — disse o diretor Stuart ao homem que me olhou com dúvidas. Em seguida o diretor forneceu uma explicação a mim.

— Esse é o professor Solen, ele está no comando de uma equipe montada com quarenta alunos do terceiro ano que estão planejando fazer uma viagem para fora da cidade. Te trouxe aqui para que possa colher as informações iniciais e levá-las ao seu Capitão, junto com o nosso pedido de contratação — Após dizer isso, ele pediu licença e se retirou, deixando-me em meio as dezenas de olhares duvidosos.

— Que tipo de trabalho você faz nessa equipe? — questionou uma mulher que pela idade, não parecia ser uma aluna.

— E você, quem seria? — perguntei antes de responder e em tom sério. Não daria informações que não fossem necessárias. Na escola eu normalmente agia de modo passivo e tentava não chamar atenção, mas quando se tratava de trabalho, era preciso manter a seriedade da minha equipe.

— Sou a professora Ketty. Sou conselheira desses alunos e estou ajudando o professor Solen a fazer os preparativos para a viagem — apresentou-se enquanto me oferecia um aperto de mão. Acenei em concordância e lhe forneci uma resposta.

— Eu sou o Assistente de primeiro grau do Capitão Linus. Meu trabalho é ajudar a resolver problemas que podem surgir nas missões e fornecer auxílio a minha equipe — expliquei em poucas palavras.

Alguns veteranos começaram a falar entre si e pude ouvir claramente que eles estavam me chamando de mentiroso. Um deles até disse: "Meu primo também é um Assistente e só organiza papeis e serve café, mentiroso." Fiquei com raiva por isso, mas não me alterei. Os dois professores olhavam de um para o outro como se estivessem hesitantes em falar comigo sobre o trabalho, então me pronunciei.

— Se não querem contratar nossos serviços, avisem. Eu estou perdendo aula — lembrei um pouco irritado. Estava com um pouco de raiva da desconfiança deles. Minha equipe confiava tanto em mim e mesmo assim a maioria das pessoas me tratava daquele modo, como se eu não fosse nada, um ninguém. — Estou saindo — avisei depois de um minuto, fazendo meu caminho de volta para a sala. Durante o resto da manhã, ninguém mais me incomodou.

Quando ia saindo da escola encontrei os dois professores no portão, eles me pediram desculpas pelo que aconteceu mais cedo e me pediram para lhes ceder alguns minutos enquanto conversávamos melhor sobre o pedido deles. 

Não queria aceitar, mas não podia recusar um trabalho sem a permissão do Capitão, então aceitei. Nós voltamos para dentro da escola, para os bancos do jardim, agora que o período escolar havia acabado todos os bancos ficavam disponíveis e aquela área se tornava mais calma.

— Que tipo de informações precisa para poder repassar nosso pedido ao seu Capitão? — questionou o professor Solen em minha frente. Os dois estavam de pé, enquanto eu estava sentado.

— Seu destino. Que tipo de serviço deseja. Quantos pessoas irão no total e quem são os líderes — respondi calmamente enquanto cruzava os braços e me escorava no banco, fechando os olhos e tentando não pensar em comida, pois estava com fome.

— Existe mais de um serviço contratado?... E como assim líderes? — perguntou o professor, fazendo-me suspirar. Era por isso que Mayers sempre pegava as informações iniciais, ele era o único de nós com paciência para esta tarefa. Abri meus olhos e respondi de modo resumido.

— O serviço mais contratado é o de escolta, mas existem outros. Algumas pessoas que tem confiança em suas próprias habilidades de defesa, contratam apenas o serviço de guia e existem muitos outros. Quanto a questão dos líderes, é preciso um responsável para cada dez outros, no mínimo. Se serão quarenta alunos, é preciso que quatro professores façam parte da viagem. Pois em momentos de perigo ou nervosismo, uma única pessoa não pode acalmar ou controlar muitas outras — eles pareceram surpresos com minha resposta, mas não dei muita atenção a isso.

Nos minutos seguintes recolhi as informações e depois me despedi deles. Ao chegar em casa, estavam todos reunidos na mesa enquanto almoçavam. Larguei a minha mochila na cama e me juntei a eles. 

Como comecei por último, eles terminaram primeiro e começaram a conversar sobre nossa equipe não ter feito nem uma missão com grande renda durante as duas últimas semanas. Pelo que entendi, Nina e Mayers estavam planejando fazer algumas compras e precisavam de dinheiro.

— Vou passar na sede e ver o que eles tem para nós — respondeu-lhes o Capitão, que estava sentado ao meu lado. Os dois em sua frente acenaram em concordância e nada mais disseram, pois nada mais podia ser feito. 

— Na verdade, eu recebi um pedido de contratação na saída do colégio, por isso me atrasei — comentei para a felicidade dos dois.

— Sério!? Que pedido é?

— Vou terminar de comer primeiro, depois eu digo — respondi a Mayers, voltando a comer, pois ainda estava no meio da minha refeição. Capitão Linus sorriu discretamente e nada disse, enquanto os dois esperavam impacientes. Terminei de comer e depois lhes repassei a proposta.

— Eles querem uma escolta, então vai ser uma missão bem lucrativa. O destino é o mar e pelos meus cálculos deve levar uns dois dias para ir e uns dois dias para voltar. A escola vai pagar todas as despesas e os que vão ir, são alunos do terceiro ano, os formandos desse ano. A quantidade inicial de pessoas é de quarenta, e eles possuem apenas três líderes, mas como alguns sempre desistem, esse número pode diminuir — repassei as informações.

— Há bastante pessoas e como o destino é longe, podemos ter um bom lucro! O que acha Capitão? — questionou Mayers sem esconder o seu entusiasmo com a notícia. 

— Qual o dia programado para a partida? — perguntou-me antes de dar uma resposta a Mayers.

— Na sexta-feira — respondi a última das perguntas que fiz a eles, sabendo que ele gostaria de ter aquela informação.

— Você marcou uma data para uma reunião formal entre nós?

— Se você aceitar, eles estarão esperando amanhã, durante o horário da quarta aula — especifiquei e ele acenou em concordância, respondendo a Mayers que iríamos pegar a missão. Meus dois colegas de equipe não esconderam seu contentamento e pareceram mais aliviados com a boa notícia.

Na parte da tarde fiz minhas tarefas escolares e li um dos livros que tinha pego na biblioteca. O Capitão ficou fora o dia todo, ele estava acertando os detalhes do meu teste com o helicóptero. Só voltou ao anoitecer e não conversamos muito, pois ele parecia cansado, então deixei-o dormir.

Na manhã seguinte, quando meu alarme tocou, ergui minha mão na direção do despertador e quando a ponta de meu dedo estava tocando-o, veio o rotineiro chute que me jogou para fora da cama. Com o passar dos meses, o tempo que eu tinha para desligar o alarme apenas diminuiu, ainda assim não desisti.

Com a testa colada no chão, não reclamei, apenas amaldiçoei-me por ter chegado tão perto e ainda assim ter falhado... Só faltava mais um centímetro!

Levantei, me arrumei, tomei o café da manhã e fui para a escola. Na quarta aula me ausentei por alguns minutos e fui buscar minha equipe que esperava no portão, levando-os até o ginásio onde estavam os professores e alunos do terceiro ano.

— Capitão, aquele de óculos é o professor responsável. Vou deixá-los e voltar para a sala, pois tenho uma prova nesse período — expliquei e ele apenas acenou em confirmação. Deixei-os e retornei para as minhas obrigações. Estava agora no segundo ano e as matérias eram mais difíceis do que no ano anterior. Estávamos fazendo missões que duravam mais de um dia com frequência, então eu faltava bastante, devido a isso precisava manter minhas notas sempre o mais alta possível.

Me concentrei na minha prova e deixei o resto para eles, pois não havia nada que a minha equipe não pudesse fazer. Depois do quinto período era hora de ir para casa, mas para a minha surpresa alguém me esperava no portão. Não era Mayers ou Nina, era Linus.

— Algum problema, Capitão? — questionei ao vê-lo ali. Ele acenou que não com a cabeça e explicou: — Vamos fazer o seu teste — Nada mais era preciso ser dito. Eu sabia exatamente do que ele estava falando.

Caminhamos até um dos carros da segurança que ele deixou estacionado ali perto e seguimos a viagem de modo silencioso. Alguns minutos depois estávamos na sede de segurança e seguimos a pé até o heliporto ali ao lado. Lá, havia um helicóptero pequeno nos esperando e um piloto que trocou algumas poucas palavras com o Capitão enquanto eu esperava mais afastado.

O piloto deu ao Capitão Linus dois fones de ouvido com microfone e ele veio até mim, colocou um deles em minha cabeça e o outro em si mesmo, acrescentando como explicação: — Os nossos fones e o do piloto estão conectados, eu conversarei com você quando achar ser necessário e se quiser descer, pode pedir diretamente a ele. O objetivo é apenas saber se você pode voar e se sim, por quanto tempo. Não se force.

Acenei em afirmação e o helicóptero teve seu motor ligado, cessando a nossa conversa e fazendo-me erguer um dos braços e cobrir os olhos para protegê-lo contra a poeira levantada. Olhei para o Capitão e ele gesticulou que eu deveria ir. Caminhei sozinho e lentamente embarquei na aeronave, sentando-me no banco perto da porta aberta.

— Jovem Dimitriz, primeiro vamos apenas subir no ar e nada mais, por isso pode deixar a porta aberta e ficar sem o cinto de segurança — avisou-me o piloto com voz gentil, fazendo suas palavras chegarem a mim através do fone. Parecia ser alguém experiente e com paciência, agradeci mentalmente por isso.

— Entendido — respondi a ele e o helicóptero começou a se erguer, surpreendendo-me com o quão firme ele estava no ar. O piloto era muito bom, mesmo sem ter experiência nesse tipo de viagem, podia ver isso facilmente. Olhando pela porta, pude ver o chão se distanciando e o Capitão Linus que estava logo abaixo, mantendo seus olhos vigilantes sobre mim.

— Como está? — perguntou-me a voz de meu Capitão.

— Bem... Apesar da altura, o helicóptero está firmemente parado e não me causa nem um desconforto. O piloto é muito bom no seu trabalho.

— Agradeço o elogio — disse o piloto ao ouvir a minha resposta ao Capitão. Sorri discretamente e observei o interior ao invés de olhar pela porta. Aquele era muito menor se comparado com o que carregou mais de vinte pessoas da outra vez, mas eu sabia que era um helicóptero e isso em si me dava um pouco de medo.

Não era medo de morrer. Apenas não queria presenciar uma cena daquelas novamente. Pessoas em pânico, pessoas morrendo, o desespero daqueles que não queriam morrer e daqueles que viram a morte. O medo de não poder fazer nada para ajudar e o medo de fazer algo.

— No que está pensando? — Sua voz me trouxe para fora de minhas memórias.

— Nas cenas que quero esquecer e que permanecem em minha mente — respondi com um leve tom de tristeza.

— Quer descer?

— Não. Está tudo bem, eu posso aguentar mais um pouco — garanti, suspirando pesadamente.

— Jovem Dimitriz, vamos dar algumas voltas lentas e em círculo, tudo bem? — questionou o piloto.

— Sim.

— Então puxe a porta para a direita e feche-a. Com o helicóptero em movimento, é mais seguro mantê-la fechada — instruiu-me calmamente. Concordei com suas instruções e fechei a porta, logo em seguida, começou o movimento. Apesar de estar nos movendo, era um movimento suave e até mesmo confortável.

Olhei pela janela e acompanhei a vista da cidade, achando-a muito bonita pela primeira vez. Porém, mesmo com essa visão, meus medos não foram embora. Quanto mais tempo se passava ali dentro, mais eu me lembrava daquelas cenas e mais mal me sentia.

— Faz cinco minutos que você subiu, como está se sentindo? — Voltou a questionar o meu Capitão.

— Estou levemente tonto... E sinto como se estivesse aqui em cima a horas — respondi honestamente, começando a sentir um pouco de falta de ar. Para a minha surpresa, a pergunta seguinte veio do piloto.

— Soube que você sofreu um acidente quando criança. Quando está em um helicóptero, começa a rever o que presenciou nessa ocasião?

— ... Sim.

— O que exatamente você teme, morrer?

— ... Não. Eu só não quero... Não quero ter que ver aquilo novamente — respondi com um pouco de dificuldade.

— Então em vez de pensar no que não quer ver. Pense em como pode evitar isso — recomendou calmamente.

— O quê? — perguntei surpreso. Ele riu e respondeu.

— Você não é mais criança e pelo que ouvi das suas missões, é um jovem muito inteligente. Então em vez de pensar em um acidente, pense em como evitá-lo. O que faria se fosse o piloto? O que faria se o helicóptero caísse? O que faria para salvar todos os tripulantes se houvesse mais de um? E assim por diante — sugeriu com confiança.

— Eu vou tentar... Mas se continuar me sentindo desconfortável, vou pedir que faça um pouso.

— Sem problemas — confirmou o piloto, respirei fundo e foquei minha atenção no interior do helicóptero, tentando entender qual a utilidade de cada objeto, o que era mais necessário e como eu poderia usá-los. O tempo passou e eu nem sequer percebi, enquanto estava perdido em meus pensamentos.

— Haru, já faz trinta minutos que está aí. Como está se sentindo? — perguntou-me o Capitão, me surpreendendo com aquela revelação.

— Estou bem. Nem vi o tempo passar — admiti honestamente. — Obrigado, senhor piloto. Seu método realmente funcionou — agradeçi-lhe sorrindo sozinho.

— Não há de quê, jovem. O método pode ser meu, mas a sua inteligência e curiosidade é o que tornou isso capaz de ser executado, meus parabéns — elogiou-me antes de acrescentar: — Podemos dar uma volta pela cidade ou ainda está inseguro?

— Eu vou, se o Capitão estiver comigo. Me sinto mais seguro com ele ao meu lado — respondi de imediato e o Capitão Linus ordenou que o helicóptero baixasse para ele subir. Minutos depois ele estava sentado ao meu lado, o cinto foi colocado e o helicóptero começou a subir um pouco mais e passear sobre a cidade.

— Não vou permitir que você presencie qualquer cena que possa fazê-lo sofrer, então não tema o helicóptero ou qualquer outra coisa. Estarei sempre por perto quando você precisar — disse ao meu lado, fazendo um sorriso de alegria surgir em meu rosto.

— Sim, senhor — concordei enquanto olhava para a janela e observava a cidade. A viagem durou mais trinta minutos e com ele ao meu lado, não senti necessidade de nada para espantar o medo e as memórias, nada além da sua presença.

Quando o meu teste se encerrou, agradeci diretamente o piloto e com um aperto de mão nos despedimos. Em seguida eu e o Capitão voltamos para casa enquanto eu mantinha um sorriso no rosto, um sorriso de orgulho pelo meu próprio esforço e resultado. Pelo que o piloto falou, uma hora de voou era o comum para as missões mais longas, então não teria problemas se precisasse sair em uma missão. Passei no meu teste com sucesso!

Já em casa, finalmente almocei, percebendo que estar no helicóptero tinha inicialmente me deixado tão nervoso que até esqueci que ainda não tinha almoçado. Depois de descansar, tomei um banho e me deitei na cama, me sentindo exausto como se tivesse vindo de uma grande missão.

Acabei dormindo sem nem perceber e acordei quando ouvi as vozes de Mayers e do Capitão conversando. Eu estava virado para a parede e por isso estava de costas para os dois sentados na mesa.

— Ele ainda pensa assim?

— Sim. Haru não se importa com sua própria vida — confirmou o Capitão para o seu amigo, com um tom de voz triste... O mais triste que já ouvi desde que o conheci.

Lembrei-me da conversa que tinha acontecido no helicóptero com o piloto, quando disse que o medo que eu tinha, não era de morrer.

— Eu me preocupo com ele... Não gosto de ver ele cuidando de todos, menos de si mesmo.

— Você não é o único — completou Linus o que seu amigo havia dito.

Senti-me um pouco culpado por fazê-los se preocupar, mas eu não sabia se podia mudar aquilo. Depois de tantos anos sem ter um motivo para viver, era difícil mudar o modo como pensei por tantos anos.

— O que vocês sugerem que eu faça? — questionei ainda deitado, revelando que estava ouvindo. Os dois ficaram em silêncio e ouvi passos vindo em direção a cama. Alguém sentou na beira da cama e o colchão balançou levemente, em seguida a voz do Segundo Tenente soou de modo interrogativa.

— Que tal você criar um objetivo e se manter vivo até conseguir alcançá-lo?

— Que tipo de objetivo? — devolvi a pergunta, virando-me para o outro lado e olhando para o meu colega de equipe que estava sentado ali.

— Pode começar com algo simples, por exemplo: Se formar na escola. E quando concluir esse, pode escolher outro — sugeriu com um sorriso.

— Talvez eu deva colocar algo mais desafiador... Como conseguir ter a minha primeira vez com o Capitão. Acredito que vou ter que batalhar bastante por esse objetivo — brinquei vendo meu colega rir. — Ou talvez deva estabelecer um objetivo impossível? Por exemplo: Descobrir todos os segredos do Capitão Linus... Algo assim provavelmente me manterá vivo até eu envelhecer — concluí enquanto Mayers gargalhava alto e eu sorria discretamente.

Brincamos mais um pouco e eu concordei em começar a cuidar mais de mim mesmo. Não por mim, mas porque eles ficariam preocupados comigo. Pelo bem daquele que amo e dos meus amigos, cuidaria melhor de mim mesmo.

Logo depois Mayers foi embora e fui chamado para jantar, já era noite. Comi e depois lavei a louça, enquanto o Capitão lia algumas folhas. Pelo que percebi eram as informações que foram acertadas na escola, as informações sobre a nossa próxima missão. Depois que terminei a louça, sentei ao lado dele e o observei enquanto lia, era ainda mais fascinante e interessante do que ler algo.

— Você foi muito bem hoje — disse-me quando terminou de lê-los e os organizou em uma pilha, se virando para olhar para mim ao seu lado. Sorri para ele a acenei com a cabeça em agradecimento ao seu elogio. — Continue crescendo e evoluindo. A sua evolução no trabalho, me deixa mais confortável para querer vê-lo como um parceiro em minha vida pessoal — explicou para a minha surpresa.

— Verdade?

— Sim. Você já é muito confiável, mas ainda te faltam algumas habilidades e experiência. Quanto mais você evoluí no seu trabalho, mais confortável me sinto em recebê-lo em meu coração. Então continue se esforçando por nós dois — pediu com um pequeno sorriso, se aproximando de mim e me dando um selar de lábios.

— Considere uma recompensa por hoje — explicou sobre o beijo.

— Posso contar com esse tipo de recompensa no futuro? — questionei feliz e com um sorriso malicioso.

— Vou pensar — respondeu para a minha surpresa. Não foi um negação! 

Outra evolução!!

— A propósito... Primeira vez e descobrir meus segredos? Que tipo de objetivos são esses? Pelo que me lembro, um ano atrás, eram: ler mais livros, explorar o mundo exterior e coisas assim — comentou enquanto apoiado um braço na mesa e com ele dobrado, apoiava a cabeça na mão, olhando para mim com uma sobrancelha erguida. Uma expressão de quem estava esperando por uma resposta.

— Um ano atrás eu pensava em você apenas uma vez a cada dez pensamentos. Agora eu penso em você dez vezes para cada pensamento — respondi em tom de brincadeira.

— É uma porcentagem bem grande... Isso não te atrapalha? Como consegue tirar notas boas? Eu estou começando a ficar curioso sobre como a sua cabeça funciona — afirmou ainda sério.

— Não se preocupe, já me acostumei a dividir a minha atenção entre você e o resto do mundo — respondi ainda sorrindo. Me aproximei dele e lhe dei um beijo no rosto, não sendo repreendido e não sendo afastado. — Mesmo que já tenha dormido a tarde toda ainda estou com sono, então vou dormir, pois amanhã tenho outra prova. Boa noite.

— Boa noite — devolveu com sua expressão neutra. Se levantando e indo guardar o que lia. Me deitei na cama e me ajeitei, pouco depois ele também deitou. De costas para a tentação, dormi com um sorriso no rosto e mesmo que tenha acordado com a queda matinal da cama, meu bom humor permaneceu.

Segui a minha rotina escolar e na sexta-feira faltei a aula. Era o dia do início da nossa viagem com os alunos do terceiro ano. Capitão Linus foi na frente com Nina para pegar as permissões antes requeridas e eu fiquei arrumando as minhas coisas, iria mais tarde com Mayers. 

Enquanto arrumava minha mochila, olhei pela janela e vi o céu nublado, não gostando nenhum pouco daquilo.


Notas Finais


Até mais.
Não esqueça de deixar o seu comentário, ele ajuda muito no desenvolvimento de novas histórias.
:-)


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...