História Wall of Love - Capítulo 1


Escrita por:

Postado
Categorias EXO
Personagens Sehun, Suho
Tags Faculdade, Geek, Geek!au, Seho, Senhor Dos Anéis
Visualizações 99
Palavras 8.011
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Fluffy, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


#FANFIC_REPOSTADA

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Howdy, pessoas! Tudo bem? Espero que sim. Então, eu fui desafiada pela linda da Tae a escrever uma SeHo aqui para inaugurar o projeto suhoniverse (agora extinto) e eu aceitei sob um céu cheio de fogo de artifício, porque né.

Primeira vez a escrever SeHo em toda a minha existência e primeira vez em vários anos a escrever uma one-shot a sério (eu não escrevo one-shots, gente, elas tornam-se sempre three-shots ou short-fics, EU E ONE-SHOTS NÃO COMBINAMOS). E daí se ficou com +7k palavras? Continua a ser uma one-shot, ámen.

A música que eu escolhi foi ‘Wall of Love ― Diogo Piçarra ft Karetus’. Daí o título, né. E quis fazer algo fluffy, e essa foi a parte complicada porque eu não sou boa com fluffy (#dramaqueen).

Além disso, sempre que eu vejo fanfics do universo geek, giram sempre à volta dos mesmos temas e nunca vejo fanboys nem fangirls do universo de Tolkien E ISSO DEIXA-ME MUITO OFENDIDA. Então juntei o útil ao agradável e o resultado é uma fanfic sobre dois fanboys de Senhor dos Anéis, escrita por uma fangirl de Senhor dos Anéis. ÁMEN, TOLKIEN.

Como eu entendo que este é um universo geek menos mediático, logo, muita gente vai ficar à nora, deixo-vos um mini-glossário nas notas finais.

É isso, povo. Espero que gostem. Foi divertido escrever esta fic e um desafio ~daqueles~. BOA LEITURA. <3

Capítulo 1 - Diogo Piçarra feat Karetus


Fanfic / Fanfiction Wall of Love - Capítulo 1 - Diogo Piçarra feat Karetus

Único.

 

Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado.

 

Kim Junmyeon é o meu segredo mais bem guardado.

Guardo-o no meu coração há tanto tempo que já perdi a conta, mas as minhas estimativas dizem-me que já rondarão os três anos. Três anos a admirá-lo secretamente e a suspirar como o grande imbecil que sou, incapaz de lhe mostrar ou dizer ou dar a entender que estou apaixonado por ele.

Sim, ele sabe quem eu sou; não, não somos melhores amigos. Isto não é uma história cliché. Eu acho.

Junmyeon é… Junmyeon é incrível.

Desde que o conheci que ele se revelou daquelas pessoas fascinantes que toda a gente admira. Sorri e fala com toda a gente, é simpático até com quem não merece, ativista de um montão de causas importantes e, mais importante de tudo, fã de Senhor dos Anéis.

Se eu fosse o Bilbo Baggins, Junmyeon seria O Anel ― belo, poderoso e capaz de me levar a cometer loucuras por ele.

Por isso guardo-o bem guardado, um segredo tão especial que jamais poderá ser descoberto. Temo que, no dia em que revelar o meu amor por Junmyeon, Sauron irá despertar e roubar-mo. E quando digo ‘Sauron’ quero dizer ‘vai dar merda’. E eu nem preciso de lutar contra Nâzgul, subir um vulcão em erupção ou quase ser comido pela Shelob para saber isso.

Quero dizer, vá lá: Junmyeon é o anel mais bonito de todos os anéis do mundo e eu sou só um hobbit. Um hobbit excecionalmente alto, mas ainda assim um hobbit. E eu…

― Eu tenho um problema.

Viro-me, precisamente no mesmo instante em que Chanyeol puxa uma cadeira e se senta à minha frente. Nos últimos dez minutos estive ocupado a observar Junmyeon na banquinha de venda de pulseiras para o convívio de amanhã. Ainda não decidi se quero ou não ir, apesar de Baekhyun jurar que consegue arranjar-nos pulseiras por metade do preço.

― Só um? ― questiono, erguendo as sobrancelhas. Chanyeol bate com os dedos na mesa e lança-me um olhar enjoado.

― Bem, não… ― faz uma careta desconsolada ― Mas de momento esse é o maior.

Encolho os ombros, demonstrando que sou um grande amigo ao não fazer caso do assunto. Todos os dias Chanyeol tem um problema novo ― normalmente, variam de ‘acabaram as baguetes de atum na cantina’ para ‘o Kyungsoo está a dar mais atenção ao Baekhyun do que a mim’; mas ocasionalmente as coisas ficam interessantes, como ‘tentei misturar coca-cola com fanta e vomitei a cozinha toda’ ou ‘parti a jarra favorita da minha mãe e estou fodido’.

― Conta. ― digo por fim, voltando a olhar para Junmyeon.

― Ok, então, o Kyungsoo quer ir ao convívio de amanhã. Acreditas nisso? O Kyungsoo? Aposto que foi o Baekhyun que meteu essa ideia absurda na cabeça dele.

Viro-me novamente para ele, com a minha melhor expressão interrogadora.

― E então?

― E então amanhã é o nosso aniversário de seis meses e eu não quero passa-lo no meio de bêbados.

― Chanyeol ― suspiro profundamente, olhando para ele e encarando-o bem fundo nos olhos ― tu és um imbecil.

― Eu sei.

― Não, és mesmo. Não admira que o Kyungsoo prefira embebedar-se do que estar contigo no vosso mesiversárvio. Sagrado deus do céu, Chanyeol, não existe aniversário de meses.

― Não?

― Não! ― espalmo a mão na minha própria cara ― O nome diz tudo. ‘ANIversário’. ANO.

― Nunca tinha pensado nisso. ― admite. Depois, apoiando o rosto na mão, amolece a expressão e fica com aquele ar de cachorrinho abandonado que ele é muito bom a fazer ― Ainda assim, Sehun, ele prefere ir a uma festa do que estar comigo.

― Ele pode estar contigo todos os dias, mas convívios só acontecem três vezes por semestre.

― Vai à merda, Sehun. És o pior melhor amigo que a história dos melhores amigos já viu.

― Também te amo. ― encolho os ombros.

E dez minutos e mais um rol de choramingo depois, Chanyeol decide ir procurar o namorado e deixar-me a sós para poder observar Junmyeon em paz. É um hobbie muito fascinante, este. Há dias em que Junmyeon traz camisolas fofinhas de desenhos animados, há dias em que traz penteados diferentes e há dias em que traz uma meia de cada cor. Depois há dias em que ele cumprimenta toda a gente com sorrisos grandes, dias em que cumprimenta toda a gente com sorrisos médios, e dias em que cumprimenta absolutamente toda a gente com sorrisos gigantescos. Não há dias em que não cumprimente ou em que não haja sorrisos bonitos.

Observo-o por algum tempo, ocasionalmente fazendo pausas para verificar as redes sociais ou cumprimentar colegas que passam. O que é? Lá porque sou um bocado nerd não significa que não seja social. Ultrapassem esses estereótipos de Mean Girls e sigam em frente, isso é muito 2004.

Faltando cinco minutos para a primeira aula da tarde, levanto-me calmante, despejo o lixo que sobrou do almoço e regresso ao mundo real ― aquele em que tenho de ir a aulas, ouvir professores e aturar colegas um bocado otários.  Mas hey, quem corre por gosto não cansa, não é? Eu quis vir para a faculdade, agora tenho de lidar com isso.

Baekhyun está junto à porta, com o seu caderninho violeta e a brincar com uma caneta entre os dedos enquanto observa as pessoas que passam. Tem aquela expressão julgadora de quem se acha Deus. Identifico-me muito com Baekhyun. Mas isso não me impede de querer dar a volta e ir embora, porque Baekhyun = conversa sobre convívio de amanhã = não me apetece.

― Hunnie! ― Tarde demais para dar a volta.

Hyung! ― levanto a mão, em que ele bate com a sua, e encosto-me ao seu lado na parede. Ele gira a caneta entre os dedos algumas vezes antes de falar.

― Hunnie, preciso de um favor teu... ― diz.

Hyung, eu realmente não tenho vontade de ir ao convívio. ― interrompo. Baekhyun lança-me um olhar ofendido e preparo-me para um sermão sobre aproveitar a vida académia e yadda, yadda, yadda.

― Ofende-me que me tenhas em tão baixa consideração ao ponto de acreditares que só quero saber de festa. ― diz levando a mão ao peito.

― Ok. ― ergo uma sobrancelha ― Se não é isso, o quê?

― Preciso do teu quarto.

― Do meu quarto? ― ergo a outra sobrancelha.

― O teu quarto.

― Para quê?

― Bem… ― gira novamente a caneta entre os dedos ― Ninguém lá em casa gosta do Yixing e…

― Ah, não. ― interrompo. ― De modo nenhum.

― Hunie, por favor!

―Não.

― Hunnie!

Nope.

― Eu faço o que tu quiseres durante um mês!

― Ah… ― quase irresistível ― Mas não.

― Empresto-te o ‘Aragorn’s Quest’ por tempo limitado.

― Já o tenho. Nyet.

― Faço contigo uma maratona de Senhor dos Anéis!

Nein.

― Versão extendida!

― Não eras capaz.

― Seria sim!

Nihil.

― Onde é que aprendeste a dizer não em tantas línguas?

 ― Tumblr.

― Ugh. ― sacode o cabelo, frustrado, e eu mantenho-me imperturbável. ― Ok, ok. Eu não pensei que teria de chegar tão longe, mas… ― suspira dramaticamente ― Tu não me dás escolha.

Olho para ele de lado, com um ponto de interrogação no rosto.

What? ― questiono.

― Se não me emprestares o quarto esta noite… ― Baekhyun vira-se para mim, apontando ameaçadoramente a sua caneta à minha cara; olha-me com uma expressão sinistra, os olhos pequeninos semicerrados. ― Oh Sehun, se não me emprestares o quarto esta noite ― repete ― eu faço questão de que o Junmyeon descubra da tua paixoneta.

― Não serias capaz. ― por fora eu estou inabalável, mas só santo Gandalf sabe como eu estou todo mole e trémulo por dentro.

― Sabes perfeitamente bem que sou.

Ele é. Não duvidem que ele é, porque a minha dúvida também é só esperança. Baekhyun é o demónio em pessoa. Eu disse que me identifico com ele, não disse? Praguejo, revoltado. Baekhyun continua a encarar-me de forma demoníaca e entretanto o professor já está ao fundo do corredor.

― Maldito sejas. ― cedo, grunhindo de raiva de seguida ― Tenta não destruir o meu santuário. Onde é que eu vou ficar entretanto?

Baekhyun dá um pulo e abraça-me, extasiado de alegria, como se há dois milésimos de segundo não estivesse a ameaçar atirar-me para o oitavo círculo do inferno de Dante.

― Ficas no meu, é claro. ― responde por fim.

Eu já devia saber que era isso que ele ia dizer, mas quis acreditar que ele teria alguma outra solução.

― Baek, não me faças isso. ― imploro.

― Ah, vá lá, Hunnie. ― ele aperta-me o ombro ― Tu és forte. Tu consegues. Tu és mais poderoso que o Serumano ou lá como se chama a criatura.

― Saruman. E esse é o feiticeiro mau que…

― Adiante. ― corta-me ― Tu és forte para lidar com isso.

― Não sou não. Sabes que não. E se ele decide andar a passear-se nu pela casa outra vez? ― lembro-me da última vez que dormi em casa de Baekhyun e sinto arrepios. Foi uma noite tenebrosa em que satanás quase me conquistou. Quase. Sou demasiado devoto a Sauron para mudar de equipe.

― O que há de errado com isso? Eu adoraria poder ver o Xing nu mais vezes.

― Tu vês o Yixing nu, tipo, todos os dias.

― E daí? Podia ver mais e não posso.

Solto um grunhido exasperado. O professor pede-nos licença para sairmos do caminho e nós desviamo-nos. Enquanto o docente abre a porta, lanço um último olhar desesperado a Baekhyun.

Hyung, por favor.

― Estou em tua casa às seis, sim?

― Eu odeio-te.

― Porquê? Sou uma pessoa adorável.

E desaparece para dentro da sala assim que o professor abre a porta.

 

◂▸✶◂▸

 

É um empreendimento perigoso, Frodo, sair pela tua porta. Tu dás um passo na estrada e se não mantiveres os teus pés, não há como saber onde irás parar.
 

 

 

Dizer que estou nervoso é um eufemismo, porque a forma corretor de expressar a minha situação seria dizer que estou um Evereste de nervos. Não, uma Montanha da Perdição de nervos.

Arrumo a minha mochila com o básico, faço uma mala à parte com alguns livros e o meu laptop, e atiro com uma embalagem de noodles para dentro da mochila como quem não vai roubar a comida de Baekhyun assim que chegar a casa dele.

O meu (nada) querido amigo aparece às seis em ponto e eu nem me digno a reclamar ― apenas entrego-lhe as minha chaves, fazendo por ignorar o seu sorriso malicioso quando me entrega a sua, e praticamente sou expulso do meu próprio apartamento.

Se eu mereço? Não, não mereço.

Baekhyun vive a três quadras de mim com mais dois estudantes da mesma faculdade que nós. Um é Kim Minseok, estudante de medicina e gente boa para caramba (talvez por isso não goste do Yixing). E o outro é… bem, o outro é Kim Junmyeon.

Entendem o meu desespero?

Em vez de me fazer de dono do pedaço e entrar com a chave, opto por ser bem educado e bater à porta. Minseok abre com um dos seus sorrisos habituais e deixa-me entrar.

― Então, foste expulso de tua própria casa? ― pergunta enquanto eu pouso a minha mala dos livros em cima do sofá da sala. Junmyeon não está à vista, por isso imagino que esteja no seu quarto ou fora de casa.

― Outra vez. ― retruco, com um suspiro.

― És demasiado precioso para seres amigo de um sacana como o Baekhyun, Sehun. ― ele ri, mas dou por mim a acenar com a cabeça em concordância.

― Modéstia à parte, sou mesmo.― concordo ― Aquele miserável não me merece. ― encaminho-me ao corredor, com Minseok no meu encalço. Abro a porta do quarto de Baekhyun e atiro com a mochila da roupa para cima da cama. Minseok está a abrir a porta do seu próprio quarto quando me viro novamente. ― Vou tentar não incomodar, sim?

― Nunca incomodas, Sehunie. ― ele pisca o olho, e eu sorrio-lhe ―Está à vontade. Eu vou voltar a estudar.

Depois de a porta dele se fechar, volto para a sala e, ocupando o sofá, tiro o meu laptop da mala e dedico-me a um dos duzentos trabalhos da faculdade que tenho para fazer.

É o som da porta da entrada que me esperta, três horas depois, e eu me apercebo que já é noite e eu ainda não jantei. Mas antes que eu possa pensar a fundo sobre isso, viro-me para a entrada da sala e encontro Junmyeon com um sorriso divertido encostado à batente.

― Outra vez? ― pergunta, quando olho para ele. Sinto-me subitamente muito pequeno e tímido, mas obrigo-me a responder como uma pessoa normal.

― Outra vez. ― digo simplesmente, tentando imprimir alguma da minha habitual acidez.

 Ele desencosta-se da batente e vem sentar-se no sofá. Pousa a sua mochila no chão e gira as chaves entre os dedos, soltando um suspiro cansado conforme estica as pernas. Tem um ar cansado.

― Na verdade é um tanto genial ―diz, e levo alguns segundos a perceber o que ele disse porque estava demasiado concentrado a analisá-lo de cima a baixo ― Tipo ‘se não podes levar Maomé à montanha, leva a montanha a Maomé’. Só que um bocado distorcido.

―Se não podes levar a Montanha a Maomé, leva Maomé à Montanha? ― arrisco, confuso.

― Não. ― ri ― se não podes trazer Maomé à montanha, rouba a casa do teu amigo e fiquem na planície.

Rio-me, porque tem a sua piada, e sacudo a cabeça. Baekhyun é um traste, mesmo. Instala-se um silêncio desconfortável quando as nossas risadas cessam e encaro o ecrã do meu computador só para ter para onde olhar. Junmyeon remexe-se e eu volto a olhar para ele.

― Já jantaste? ―pergunta.

― Não, mas tenho ali noodles.

― Ah, noodles. ― acena como se eu tivesse dito uma verdade universal ― Salvadores da pátria. A melhor invenção culinária depois da pizza.

― Não posso discordar. ― sorrio.

― Sabes o que é que é ainda melhor que noodles?  ― nego com a cabeça ― Esparguete à moda do Suho. Sendo que o Suho sou eu e a moda na verdade é atum. ― levanta-se, esticando os braços acima da cabeça para se espreguiçar, antes de pegar novamente na sua mochila e se virar para mim ― Vou tratar do meu jantar, és servido?

― Não, obrigada.

 Só estou a tentar ser bem educado, juro.

― Tu é que perdes. ― encolhe os ombros. Mordo o lábio inferior e ele vai-se embora (provavelmente guardar as coisas no quarto).

Deixo passar alguns segundos antes de soltar um suspiro nervoso. De cada vez que falo com Junmyeon parece que A Batalha dos Cinco Exércitos se desenrola no meu estômago. Quando estou quase a acalmar-me, Junmyeon volta, assobiando um dos últimos hits da rádio, e ocupa-se a revirar a cozinha a fazer o jantar. Eu ainda tento voltar ao meu trabalho, mas o barulho das panelas atrás de mim recorda-me constantemente que Junmyeon está ali, pertinho, e eu não consigo concentrar-me.

Acabo por desistir e vou buscar a minha embalagem de noodles ao quarto de Baekhyun. Bruno Munari bem pode esperar mais um pouco. O fogão só tem dois bicos e ambos estão ocupados com o jantar de Junmyeon, então ataco o armário das taças e encho uma com água, decidido a fazer os meus sagrados noodles no micro-ondas. Depois fico aqui, de braços cruzados e cara de paisagem, a olhar para a taça a girar lá dentro sem saber o que fazer no tempo morto.

― Tens a certeza que não queres partilhar o meu jantar? ― pergunta Junmyeon, e viro-me para ele ― Estou a fazer almôndegas.

― Não ias fazer massa com atum?

― Mudei de ideias. ― encolhe os ombros.

Sorrio, mas não lhe dou uma resposta. Sinceramente, não sei se deva ou não aceitar, por mais que seja bastante tentador comer o pão que deus amassou. A água começa a ferver lá no fogão e Junmyeon dedica a sua atenção a atirar com o esparguete lá para dentro. Depois, observo-o enquanto despeja um pacote de natas e metade de um frasco de concentrado de tomate para dentro da outra panela.

― Costumo fazer comida para umas quatro refeições ― diz, enquanto mexe a mistura com uma colher de pau ― Às vezes congelo o equivalente a duas, às vezes ando a semana inteira a comer o mesmo. De uma maneira ou de outra, faço sempre comida a mais.

Nunca conheci ninguém tão determinado a que eu jantasse com ele, a sério. Fui logo ter paixoneta por alguém que gosta de partilhar a comida. Que posso fazer? Tenho bom gosto.

― Estás assim tão determinado a envenenar-me? ― pergunto.

Ele ri-se, mas não se vira. Está a fazer bolinhas de carne picada e a coloca-las dentro da panela. Quando termina, volta a mexer com a colher de pau, devagarinho, cobrindo a carne com o molho sem que as bolinhas se desfaçam. Entretanto baixa o lume do outro tacho e começa a remexer nos frasquinhos dos temperos e a atirar com os seus conteúdos lá para dentro e volta a mexer.

Confesso que aquilo que ele está a fazer parece ser bom, e não tenho dúvidas de que vão sair dali as melhores almôndegas do mundo, mas eu só consigo prestar atenção nele em vez do que ele faz.

Kim Junmyeon normal é bonito; mas Kim Junmyeon concentrado a fazer algo é maravilhosamente bonito. A forma como os seus lábios se franzem e as sobrancelhas se tornam uma linha direitinha, os olhos focados no trabalho das suas mãos. E os seus braços torneados, a mexerem-se para um lado e para o outro, fazendo a tatuagem do seu antebraço espreitar por baixo da manga da t-shirt. Nunca a consegui ver por inteiro, mas diga-se de passagem que é um dos meus desejos de vida.

Dou por mim encostado ao balcão e a encará-lo em tal estado de hipnose que só desperto depois de ele me chamar três vezes.

― Terra chama Sehun ― ele estala os dedos em frente ao meu rosto.

― Oi? ― pestanejo, despertando. Não acredito que me distraí assim tanto.

― Preciso de usar essa gaveta. ― aponta para trás de mim e eu desvio-me. Ele abre a gaveta, tira de lá um garfo, e volta a fechá-la. Eu volto a encostar-me como se não tivesse sido apanhado a babar na minha crush.

Contenho um suspiro irritado (comigo próprio) e evito olhar para Junmyeon daí em diante. O que, convenhamos, é uma tarefa muito mais difícil do que parece, porque ele é demasiado bonito para este mundo e aposto que tem algumas veias élficas. Ou, no mínimo, já que ele é baixinho, é algum primo afastado do Kili (anão lindo da porra, esse; se eu fosse a Tauriel também iria querer um pedaço).

O micro-ondas faz um ‘Plim!’ e contenho um suspiro de alívio por ter algo com que me ocupar. Tiro a taça com a água quente de lá e atiro com os noodles lá para dentro, mexendo com um garfo para acomodar tudo lá dentro. Depois despejo os pacotinhos de tempero e espero que a massa amoleça antes de voltar a mexer.

Entretanto a massa de Junmyeon está pronta e ele vai despejar a água no lava loiça antes de voltar a mexer as almôndegas. E eu dou por mim novamente hipnotizado pelos seus movimentos calmos e a sua beleza mitológica. Sim, mitológica; só mitos podem ser tão belos quanto ele.

Sento-me à mesa da cozinha com a minha tacinha de noodles no momento em que ele desliga o fogão. E como sou bem educado, espero que ele venha também para a mesa antes de atacar o meu jantar. Ele serve-se em silêncio e eu enfio um bom pedaço de massa na boca. Ele começa a comer e eu já tenho metade da taça vazia. Toda esta situação é demasiado constrangedora.

― Acho que vamos ter uma cadeira juntos este semestre. ― diz ele, momentos depois. Levanto os olhos, mas ele está ocupado a enrolar esparguete no seu garfo.

― É? ― questiono, tentando soar descontraído enquanto ele leva a comida à boca ― Qual?

― Cultura dos Novos Media. ― pousa os talheres, mastiga e bebe um gole de água ― Com o professor Minho.

― Ah, sim. ― aceno vagamente ― Disseram algo sobre termos aulas juntas com Comunicação Social.

Yep. ― olha finalmente para mim ― Vai ser interessante.

― Porquê?

― Porque vocês de Cinema percebem mais de Cultura e nós, de Comunicação Social, percebemos mais de Media. ― sorri, sacudindo a franja no processo, e algo nisso é tão bonito que o meu estômago dá uma volta sobre ele próprio ― Então vai ser interessante.

Sorrio, concordando com um aceno silencioso, e remexo os noodles com os Hashi. Há uma certa comédia em estarmos tão perto e tão longe um outro: ele, numa ponta da mesa, a comer comida italiana; e eu, do outro lado, a comer massa chinesa.

Conversamos pouco mais que isso antes de terminarmos de comer e lavarmos a loiça. Insisto em ajudá-lo com a dele, porque aflige-me perder uma oportunidade de ajudar o senpai, e ele só aceita depois de uma longe discussão com a condição de que eu apenas passe a loiça por água. Então acabamos a lavar a loiça juntos, ele a esfregar com o esfregão e o detergente, e Oh Sehun a passar por água e meter a loiça no escorredouro. A equipa perfeita para uma quinta à noite.

― Se eu te disser que é um pesadelo fazer o Baek lavar a loiça dele, tu acreditas? ― brinca ele, passando-me um copo cheio de espuma.

― Nem duvido. ― respondo, enfiando o copo debaixo da torneira e limpando a espuma ― Ele é um pesadelo para fazer seja o que for. Inclusive aceitar um não.

Ele dá uma gargalhada divertida ― uma gargalhada bonita e cheia de vida ― e dou por mim a sorrir como um tolo.

Sobretudo aceitar um não. ― completa ele.

Terminamos de lavar e arrumar a loiça e limpamos as mãos molhadas em panos da cozinha. Não sei bem o que fazer agora, então preparo-me para voltar para a sala ou algo do género, mas Junmyeon chama-me antes que eu possa abandonar a cozinha.

Hey ― diz, e viro-me ― Tens planos para esta noite?

― Apenas trabalhar. ― retruco, curioso ― Mas não é nada de urgente.

― Queres ver um filme ou fazer alguma coisa?

Mordo o lábio, sentindo um ataque de nervos a chegar. Meu deus, Kim Junmyeon quer matar-me.

― Claro. ― respondo, e nem sei como é que a minha voz soou tão firme e como é que soou tão natural. Nem pareci tão desesperado quanto estou!

Junmyeon sorri e passa por mim a caminho da sala, deixando um rasto de perfume cheiroso atrás de si. Maldito. Não basta ser bonito e interessante, também tem de cheirar bem?

Vou-me sentar no sofá, desligando meu computador (já chega por hoje, não?) e guardando-o na mala juntamente com os livros. Junmyeon agacha-se junto à pilha de DVD’s ao lado da televisão (e que bela visão eu tenho da sua traseira bonita) antes de pegar em alguns e se virar novamente para mim.

― Escolhe tu: Alien, Star Wars, Star Trek ou Harry Potter?

Encaro-o de boca aberta, pestanejando como um idiota. A sério? Não basta ter bom gosto no que toca a cinema, também tem de fazer perguntas complicadas?

―Isso é um problema matemático para o qual não tenho resposta. ― digo, quando recupero. Ele dá um sorrisinho sapeca e vira-me novamente as costas (obrigada, Deus!). Pousa três dos DVD’s e abre o quarto, colocando o disco no leitor e vindo-se sentar ao meu lado.

Quando “Harry Potter e a Pedra Filosofal” surge no ecrã, sei que eu não teria feito escolha melhor e não contenho um sorriso satisfeito.

O filme corre tranquilamente; por vezes dou por mim a desejar dar a loca e simplesmente virar-me e tacar um beijo em Junmyeon, mas se há algo que eu realmente tenho em comum com os hobbits é a covardia. Então não há beijos, nem mãos bobas, e nem sequer trocas de olhares misteriosos enquanto vemos o filme. Apenas nos concentramos os dois a ver o primeiro filme de uma das melhores sagas de cinema alguma vez feitas.

No final, espreguiçamo-nos quase em simultâneo e rimo-nos pela sincronia.

― Nunca me canso de Harry Potter ― admite ele, com um sorriso satisfeito.

― Nem eu. ― concordo ― Mesmo sendo uma cópia um pouco mole de Senhor dos Anéis, mas eu gosto.

Junmyeon lança-me um olhar chocado e eu arrependo-me imediatamente de ter falado demais. Idiota, Sehun! Foste mesmo criticar Harry Potter junto de um Potterheard? És louco! Aceito o meu destino e preparo-me para a) ser expulso desta casa para sempre; b) levar um sermão quilométrico sobre a genialidade da J.K. Rowling; ou c) ser ignorado por Kim Junmyeon pelo resto da minha vida depois desta.

― Uau. ― diz ele. ―Pensei que era o único a achar isso!

Viro a cabeça para ele com tal rapidez que quase torço o pescoço, chocado. Desculpa, o quê? Os seus olhos têm um brilho entusiasmado e eu juro, juro, é como se ele estivesse possuído pelo poder d’O Anel (bem, ele é O Anel).

― Sempre que digo isso a alguém só falta crucificarem-me, ou atirarem-me para dentro de Azkaban, ou venderem a minha alma a um Nâzgul.  ― diz ele, entusiasmado. ― Mas é verdade, não é? Harry Potter é uma cópia de O Senhor dos Anéis.

Sorrio, mal acreditando no que estou a ouvir. AH! O senpai compreende-me!

― É mais do que óbvio que, no mínimo, a Rowling se inspirou em Tolkien. ― concordo, esforçando-me para manter a compostura e não ter um ataque de fanboy ― O que não me impede de adorar Harry Potter, mas… é, O Senhor dos Anéis é melhor e mais original.

― Onde estiveste toda a minha vida? ― ele ri, e parece genuinamente feliz com esta conversa. Pontos para mim? Yep! ― Finalmente alguém que me entende! ― atira os braços ao ar.

E ficamos quase uma hora a comparar Tolkien à Rowling, comentando todas as semelhanças entre Harry Potter Personagem e o Frodo, Dumbledore e o Gandalf, Hagrid e o Gimli, Ron e o Sam, os Dementors e os Nâzgul, a Aragog e a Shelob, o Voldemort e o Sauron.

Quando damos por nós são quase três da manhã e ambos temos aulas amanhã bem cedo. Então rumamos para os nossos quartos e despedimo-nos entre bocejos no corredor. O quarto de Junmyeon é o último, então viro-me para a porta do quarto de Baekhyun, já pensando na sua cama (mais ou menos) confortável e como irei compensar oito horas de sono em apenas quatro. A este ponto, o cansaço é tanto que nem consigo ficar histérico por ter passado uma noite ótima a conversar com a minha paixoneta.

― Hey, Sehun ― chama Junmyeon, e viro-me lentamente (cansaço, amigos, cansaço), encontrando-o ainda a meio do corredor. Por esta altura já devia estar no seu quarto, não?

― Sim? ― pergunto, sonolento.

― Devias vir cá mais vezes. ― ele sorri, e eu sorrio de volta. Que homem belo e simpático, este. Aceno, fazendo tenção de entrar no quarto, já com a mão na maçaneta e tudo, mas Junmyeon aproxima-se subitamente e nem me apercebo do que se passa até ter os seus lábios sobre os meus e o rosto entre as suas mãos.

Santo Sauron abençoado pelas forças do mal, eu não tenho estruturas para isto!

Levo alguns milésimos de segundo a reagir, fechando os olhos e agarrando-me à sua camisa antes de corresponder com o mesmo nível de pressão sobre os seus lábios. Sinto-o sorrir contra os meus antes de a sua língua lhes tocar, e entreabro-os sem demora nenhuma, mais do que pronto para receber a Língua de Cobra (não, esperem, isso é nojento, cortem, cortem, cortem!) no beijo do ano.

Meu deus, Sehun, consegues estragar até um belo de um beijo com referências nojentas? Controla-te, seu orc imbecil.

Junmyeon beija bem como tudo, deixem-me dizer-vos. E cheira bem como tudo. E é quentinho como tudo mais. E eu era capaz de ficar aqui horas a beijá-lo, agarrado a ele, a sentir o seu cheirinho e a sua língua a fazer loucuras com a minha. Não me importava nadinha de ficar aqui até amanhã a fazer isso tudo. E depois de amanhã. E depois de depois de amanhã. E, basicamente, para sempre.

Mas, como tudo o que é bom não dura para sempre, ele eventualmente afasta-se. Eu abro os olhos e encontro um sorriso sapeca e penso “Este moço quer destruir o meu juízo!”, mas ele solta-me e recua, deseja-me um “Boa noite” divertido e vai embora para o seu quarto. Quando a porta se fecha atrás dele, eu ainda estou plantado no corredor, a processar os últimos minutos, com os olhos esbugalhados e a boca aberta do choque.

 

 

◂▸✶◂▸

 

Vento mau é aquele que não sopra a favor de ninguém, é o que eu sempre digo. E bem está o que acaba melhor!

 

 

― Tive uma ideia. ― anuncia Chanyeol, ocupando o seu lugar habitual à minha frente.

― Oh, não. ― nem me digno a olhar para ele, apenas deixo cair a cabeça sobre os braços e aceito a minha miséria. Ninguém merece levar com Park Chanyeol logo de manhã cedo depois de um fim de semana de ressaca (sim, eu acabei por ir ao tal convívio; não, eu não tornei a ver Junmyeon).

― Prometo que esta é boa. ― insiste.

― Isso é estatisticamente impossível. ― retruco.

― Estatisticamente implica que não é um facto exato.

― Facto implica ser exato.

― Relativo. ― bate-me com uma caneta na cabeça, obrigando-me a levantar o olhar para ele ― Ouve-me, imbecil.

― Tenho alternativa?

― Claro que não. ― revira os olhos ― Então, é assim: descobri uma maneira de entrarmos naquela festa que vai haver na República dos Fantasmas.

― Não estou interessado.

― Claro que estás, o teu senpai vai estar lá.

Suspiro. Como lidar com Park Chanyeol?, Google pesquisar. Não mereço.

― Chanyeol, és um chato. ― resmungo ― Conta lá, vai.

E ele conta todo o seu plano terrivelmente idiota ― que consiste em fazer-se passar por estudante de Engenharia, pedir “emprestado” o cartão de estudante do Yifan, pintar o cabelo de azul e usar uma t-shirt de Star Wars para não levantar suspeitas da sua nerdice.

― Onde é que o cabelo azul entra nisso tudo? ― pergunto, confuso. É o pior plano que já ouvi em toda a minha vida.

― Ah, acho bonito. ― encolhe os ombros.

― Esse plano é tão mau que nem Saruman te aceitaria no exército de Sauron.

― O Voldemort aceitaria.

― O Darth Vader não.

― O General Zod tal…

― Não. Nunca. ― estico-me para lhe pôr uma mão no ombro ― Chanyeol, se o teu plano fosse uma pessoa nem o Hannibal Lecter o iria engolir.

― Sabes uma coisa? ― ele semicerra os olhos de forma ameaçadora ― Desejo que o Freddy Krueger te vá puxar os pés à noite.

― O Freddy Krueger ia transformar o teu plano no teu maior pesadelo… Oh, espera!

― Essa teve piada. Até o Joker ia rir… da tua desgraça.

― Sabes uma coisa? Espero que um Alien te engravide. Pode ser que a morte te traga algum juízo.

― Blasfémia! ― dá uma palmada ruidosa na mesa, fazendo a minha latinha de coca-cola quase entornar ― Ok, estou sem resposta, mas mais tarde pago-te.

― Eu cancelo essa dívida se cancelares o teu plano.

Ele revira os olhos, pega nos restos do seu almoço e vai embora. Grito-lhe um “até logo” e ele responde mostrando-me o dedo do meio. Melhores amigos, não é verdade? Se não nos estamos a odiar metade do tempo, a amizade não é verdadeira.

Ainda tenho um quarto de hora antes de ter de ir para a próxima aula e mando uma mensagem a Baekhyun a perguntar onde está. Durante o fim de semana só falámos o suficiente para trocar novamente as chaves, então não sei de novidades nenhumas. Depois de uma breve troca de mensagens, ele vem ter comigo à cafetaria e ocupa o lugar onde Chanyeol antes estava.

― O Chinelo? ― pergunta, largando a mochila em cima da mesa. Contenho uma risada, como tenho de fazer sempre que Baekhyun chama Chanyeol dessa forma.

― Fez um plano horrível e ficou ofendido com a minha honestidade. ― retruco.

― Ah, ele contou-te essa ideia asquerosa? ― revira os olhos. ― Eu bem tentei avisá-lo.

― Chanyeol é um caso perdido.

― Esse está mais do que perdido e abandonado lá no Triângulo das Bermudas. Nem um milagre do Jack Sparrow o livra disso. Mas oi, falemos de coisas interessantes. ― ele ergue uma sobrancelha e dá um sorriso maroto, e sei que estou ferrado ― Como correu a noite maravilha?

Sinto-me murchar conforme enterro a cabeça nos braços. Já devia saber que Baekhyun não ia deixar passar em branco.

― Bem. ― respondo, com a voz abafada ― Conversámos e… e vimos um filme.

― E não houve nem mãos bobas?

Recuso-me a responder. Baekhyun começa a cutucar-me nos braços e na cabeça, chamando-me naquela vozinha irritante que normalmente me faz desistir seja do que for só para ele se calar. Mas tenho de ser forte desta vez!

― Oh Sehun, seu maroto! ― ele desiste de me cutucar, mas aposta em esganiçar ainda mais a voz e falar mais alto ― Não acredito que tu finalmente deste a… ― levanto-me de um pulo e tapo a boca dele, quase esmagando a cabeça dele em cima da mesa no processo. Nem sei onde fui buscar tamanha audácia para o atacar assim. As pessoas em nosso redor encaram-nos com um misto de surpresa e ar de “alguém interne esses garotos num hospício”, enquanto Baekhyun se ri com a cara esmagada na mesa.

― Meu deus, Baekhyun, tomara que vás tomar no cu. ― amaldiçoo, ao soltá-lo. Baekhyun apenas ri, endireitando-se, e agita as sobrancelhas. Eu simulo um vómito e volto a sentar-me. ― Ok, ok! Ele beijou-me. Nada de outro mundo.

― Não me parece que seja algo deste mundo. ― responde, sério, pousando o queixo no punho ― Não conhecendo-te como conheço.

Reviro os olhos. Não sei o que é pior: quando Baekhyun está a zoar da minha vida (não) amorosa, ou quando a está a levar a sério.

Aish, Baek-hyung, realmente não foi nada. Ele nem olhou para mim depois. ― tento soar natural e nada incomodado, mas falho redondamente e sei-o quando os olhos de Baekhyun se arregalam um pouco e as sobrancelhas se franzem. Ótimo, agora ficou com pena de mim.

― Isso nem parece coisa dele. ― comenta por fim, martelando os dedos no queixo ― Junmyeon sempre foi do tipo romântico e meloso. Tipo… tipo… tipo tu.

― Não sou romântico e meloso. ― protesto.

― Sehun, tu tens um caderno cheio de frases melosas e o teu encontro ideal é um jantar à luz das velas.

― Isso não significa nada.

― Isso significa tudo. ― suspira, levantando-se ― Mas agora está na hora da aula e, por muito interessado que eu esteja em discutir a tua vida amorosa, o dever chama-me.

Não respondo, mas sigo-o até à aula. Pelo caminho, só consigo pensar no que Baekhyun disse: que Junmyeon não é do tipo de beijar e esquecer.

Bem, talvez comigo ele seja.

 

◂▸✶◂▸

 

O tempo virá em que os Hobbits irão moldar o futuro de todos nós.

 

 

A meio da terceira aula da tarde, recebo uma mensagem anónima. Discretamente, enquanto o professor Sungmin discursa sobre a obra de David Fincher na história do cinema (ugh, não, por favor; sou team Spielberg, muito obrigada), leio a mensagem.

 

De: Número Desconhecido

“Vem ter comigo à cafetaria por favor”

 

Não tem assinatura e o número não me é nem remotamente familiar. Por isso fecho a aplicação e volto a guardar o aparelho no bolso das calças, pretendendo voltar a prestar atenção à aula. O quê? Achavam que eu ia armar-me em suicida e encontrar um desconhecido qualquer por razão nenhuma? Tenho amor a ambos os meus rins, por mais que Baekhyun diga que isso dos ladrões de rins é uma lenda urbana sem fundo de razão.

Falando nele, o demónio está a tirar tantos apontamentos que nem parece ele próprio. Baekhyun a prestar atenção numa aula? Os milagres que David Fincher é capaz de fazer (Baekhyun tem mau gosto, já sabemos isso há algum tempo, não é verdade?).

No final da aula ele lança-se num monólogo sobre ter fome e precisar desesperadamente de comer alguma coisa antes que se transforme no moço do comercial dos Snickers. Então eu, como o bom amigo que sou, acompanho-o até à cafetaria ― eu próprio já a pensar na bela sandes de peru que irei lanchar.

Assim que cruzo as portas duplas que dão para o sítio, lembro-me da mensagem e instintivamente pego no telemóvel. Depois olho em redor, procurando alguém que possa parecer um serial killer ou ter algum tipo de assunto pendente comigo. Não encontro ninguém. Então sigo Baekhyun até ao balcão e saio de lá todo satisfeito a morder a minha sandes, começando a calcular mais ou menos o tempo que levarei a chegar a casa para poder livrar-me de toda esta… roupa.

E seriam apenas uns trinta e cinco minutos, potenciais atrasos dos transportes públicos já incluídos, se ninguém me chamasse ou me puxasse como se eu fosse um daqueles bonecos moldáveis que se desfazem todos. Sim, eu quase bati de cu no chão tamanho foi o esticão que a malfadada pessoa deu no meu braço.

― Caralho! ― exclamo, libertando-me da criatura e virando-me, irritado, vendo uma rodela de tomate da minha sande ir parar ao chão. Só então olho para o próximo paciente da funerária da cidade e vejo que é Junmyeon.

― Desculpa. ― diz, com um ar que parece genuinamente culpado, e toda a minha irritação desvanece. Não faz mal, era só uma rodela de tomate, não era? Está tudo bem. Ele recua um passo, mordendo o lábio inferior, e eu fico a olhar para ele com o meu melhor ar de otário.

― Ah, hyung. ― consigo pronunciar, piscando os olhos. Estou muito confuso.

― Estás-me a ignorar? ― pergunta suavemente.

― Eu? ― aponto para mim próprio; sou um bobo, eu ― Não, claro que não.

― Ah. ― solta uma espécie de suspiro, antes de abrir um pequeno sorriso ― Fui eu que te mandei uma mensagem mais cedo. ― diz. E eu devo fazer uma expressão bastante reveladora, porque ele abre ainda mais o sorriso e coça a nuca.

― Ah, eu… ― pigarreio ― Eu não conheci o número e estava em aula, então…

― Tudo bem, eu entendo.

― Mas eu….ah… o que querias? Estavas à minha espera? Estás aqui há muito tempo? ― sei que estou a falar demasiado depressa e pareço quase à beira de um ataque de pânico, mas esse é o meu jeito Sehun de ser.

― Não, não te preocupes, vim para aqui trabalhar e tinha só esperança que aparecesses. ― confessa; sinto-me um pouco aliviado ― Já agora, regista o número, sim? ― anuo, fazendo-o neste mesmo instante, e volto a guardar o aparelho. Ele parece satisfeito ― Queres sentar-te?

Penso em dizer que, na verdade, tenho de ir para casa. E lembro-me que Baekhyun estava comigo ainda há pouco, mas ele parece ter desaparecido do meu campo de visão. Então encolho os ombros e sigo-o até à mesinha isolada onde ele deixou as suas coisas. Tem o laptop aberto (o seu papel de parede são as Red Velvet! Meu deus, que fofura) e um montão de folhas espalhadas na mesa, mas arruma tudo rapidinho assim que nos sentamos.

É a primeira vez que o vejo ou falo com ele desde… bem, desde o beijo. Então a tensão e o constrangimento são quase palpáveis.

― Então, Sehun ― começa, pousando as mãos em cima da mesa de uma forma muito formal ―eu só queria pedir-te desculpas por quinta feira.

Não respondo verbalmente, limitando-me a acenar. Ele está tão composto e sério enquanto eu pareço um rapazinho a levar sermão da mãe.

― Eu não devia ter feito o que fiz. ― diz, e algo no meu coraçãozinho se quebra em pedacinhos. Ele está arrependido do beijo? Já devia saber que a felicidade dura sempre pouco. ― Foi… errado.

― Ah… ― mordo o lábio. Como responder a uma coisa destas? Junmyeon encara-me calmamente enquanto eu estou uma pilha de nervos. ― Tudo bem, eu… ah, não foi nada demais, pois não? Então tudo bem. Foi só um beijo. ― tento soar casual, mas dou por mim a mexer no cabelo e a desviar o olhar.

―O quê?

Volto a olhar para ele. Tem uma sobrancelha levantada e, pela primeira vez, parece surpreso. Devolvo-lhe um olhar confuso e ele inclina-se ligeiramente sobre a mesa.

― O quê? ― repito. Ótimo, agora sou um papagaio.

― Não é disso que estou a falar.

― Não? ― alerta, erro 404 lógica não encontrada.

― Meu deus, não. ― ele revira os olhos, passando a mão pelo seu cabelo (brilhante, sedoso, bonito e bem cuidado) ― Refiro-me a não ter insistido mais para comeres um jantar decente. Noodles não são uma refeição decente para ninguém.

O meu cérebro já estava com um delay colossal, mas neste momento decidiu congelar. Perdeu completamente o sinal e o buffering deu lugar a um aviso de ‘Conexão desligada, por favor verifique se tem o router ligado’.

Porque, oi, estou muito à toa.

― Estou confuso. ― acabo por soltar.

Junmyeom bufa, frustrado.

― Porque é que beijar-te seria errado, Sehun? ― pergunta, muito mais direto do que eu estou preparado.

― Porque é que não seria? ― retruco.

― Tu correspondeste, então definitivamente não foi errado. A menos que tu namores e eu não saiba. Namoras?

― Não.

― Foi mau?

― Não. ― as minhas bochechas estão quentes, mas vamos fazer de conta que não.

― Então porque é que havia de ser errado?

Encaro-o, estupefacto, e pestanejo algumas vezes enquanto tento ordenar as ideias e concertar o congelamento do meu cérebro. É como se tivesse cinquenta separadores abertos ao mesmo tempo e todo o sistema estivesse lento por causa disso. Demasiada informação estranha ao mesmo tempo!

Então acabo por dar um longo suspiro e chutar o balde de uma vez por todas, porque se não for agora há-de ser na próxima vida.

― Vá lá, Myeon. ― lanço-lhe um olhar de “é muito óbvio”, nem me apercebendo que o chamo pelo diminutivo que uso apenas mentalmente ― Eu sou um hobbit desastrado e tu és tipo O Anel. És lindo e fazes coisas incríveis.

Ele abre e fecha a boca algumas vezes, antes de dar uma risadinha se recostar na cadeira.

― Na verdade, Hunnie ―  diz, com um sorriso maravilhoso ― tu és o Legolas e eu sou o Gimli. Sabes porquê?

― Não. ― andou a drogar-se, ele. Só pode.

― Porque é o melhor ship que existe na saga toda e tu és alto e bonito como um elfo.

Quem fica chocado, agora, sou eu. Nunca pensei ser derrotado no meu próprio jogo e nunca pensei algum dia ouvir Junmyeon dizer as palavras ‘bonito’ e ‘melhor ship’ no que se refere a mim e aos meus personagens favoritos de Senhor dos Anéis.

― Eles nem são OTP oficial. ― respondo, por fim. Teimoso é o meu nome do meio, não sabem?

― Mas nós podemos ser.

E depois desta eu fico realmente calado e realmente sem resposta. Então apenas fico a olhar para ele, de boca aberta e olhos esbugalhados, tentando processar a quase confissão dele. Isto foi uma espécie de confissão, certo? Meu deus, não estou a conseguir processar.

E como eu fico uma eternidade parado a olhar para ele, com esta cara de idiota que Deus me deu, Junmyeon levanta-se e coloca a sua mochila do computador ao ombro e encara-me.

― O que vais fazer a seguir? ― pergunta.

Encaro-o de baixo, incapaz de reagir como gente adulta.

― Na-nada. ― gaguejo, engolindo em seco. Ele dá um sorriso satisfeito.

― Então vem comigo.

― Onde?

― Sehun. ― ele faz aquela expressão de “não faças perguntas, moleque” e eu levanto-me instantaneamente. Sigo-o em silêncio conforme sai da cafetaria e se dirige à saída da faculdade, e depois em direção à paragem de autocarros.

― Hyung? ― arrisco chamar, e ele vira-se e dá-me um sorriso bonito e tranquilizador. Sinto os seus dedos discretamente tocar os meus antes de um autocarro aparecer e ele soltar um “mesmo na hora!” e me puxar para dentro. Só me apercebo de onde estamos a ir quando saímos na paragem ao fundo da rua de Baekhyun. Então sigo-o mais um pouco até ao prédio deles, e depois o apartamento, e depois até ao sofá.

― Vamos fazer uma maratona de Senhor dos Anéis, Sehunie. ― anuncia dele, com um sorriso enorme, antes de colocar o DVD no aparelho e voltar para junto de mim. Contudo, em vez de se sentar o meu lado, encara-me de cima com uma expressão desafiadora ― Mas não vamos ver os filmes.

Abro a boca para questionar, mas calo-me no instante em que Junmyeon se senta no meu colo ― Meu deus, no meu colo! Kim Junmyeon! No meu colo! ―, as suas pernas contornando as minhas coxas e os seus braços nos meus ombros.

― Oh Sehun, tu és uma criatura tão bela quanto qualquer elfo, tão iluminada quanto qualquer feiticeiro, tão poderoso quanto qualquer ent, tão adorável quanto qualquer hobbit e tão quente quanto qualquer balrog. ― diz, e mais uma vez fico boquiaberto a olhar para ele e ele dá uma risadinha divertida antes de se debruçar e me beijar superficialmente os lábios. Afasta-se novamente e eu só consigo ter reação para pousar as minhas mãos na sua cintura, tendo-o tão perto e mesmo assim não conseguindo acreditar nisto.

― E… e um orc, não? ― ouso perguntar.

Junmyeon atira a cabeça para trás numa gargalhada maravilhosa e eu resisto à tentação de beijar o seu pescoço bonito.

― A única outra criatura que te posso dizer que és, Sehun, é um valar. ― responde, voltando a aproximar-se ― E eu sou um humano muito admirador de todos os seres que tu és.

E o que é que eu posso dizer? Kim Junmyeon realmente é a minha alma gémea. E como a carne já aguentou durante bastante tempo, dou luz verde à mente para ir em frente e, puxando-o com uma força que não sabia que tinha, faço-o colar a sua boca na minha.

Descubro que Oh Sehun também tem iniciativa às vezes. Mas, mais que isso, descubro como é um verdadeiro beijo de Kim Junmyeon. Descubro que a minha paixoneta é retribuída e que Kim Junmyeon é uma aventura muito mais fascinante do que a feita por Frodo ou Bilbo. Descubro que sim, sou um elfo, e encontrei o meu anão.

E no final, tal com Bilbo Baggings ― o hobbit mais covarde de todos os hobbits ― eu também encontrei a minha coragem e fiquei com o meu tesouro.

 


Notas Finais


Espero que tenham gostado e estou completamente recetiva a todo o tipo de opiniões. Então, é isso. <3

GLOSSÁRIO:
Bilbo Baggins: protagonista do livro e filmes 'O Hobbit' de JRRTolkien
Sauron: vilão dos livros e filmes 'O Senhor dos Anéis'
Nâzgul: estão a ver os dementadores de Harry Potter? Nâzgul são os bisavôs deles, só que mais badass
Shelob: aranha gigante que quase come o Frodo (protagonista d'O Senhor dos Anéis)
Hobbits: seres humanóides que são muito baixinhos, peludos e com pés enormes; o Bilbo é um hobbit
Elfos: seres humanóides que são muito altos, muito bonitos e muito tudo de bom
Mean Girls: filme de 2004, que em Portugal se chama 'Giras e Terríveis' (bleh) e no Brasil é 'Meninas Malvadas'
Aragorn's Quest: videojogo que sobre mais ou menos os 3 filmes d'O Senhor dos Anéis (like, pode-se literalmente jogar os filmes)
Saruman: feiticeiro malvado que é do lado negro da força... digo, seguidor de Sauron
Bruno Munari: designer do século passado (lit.) que é quase santificado por ter feito uns livros todos conceptuais sem texto
Kili: anão coleguinha de aventuras do Bilbo em O Hobbit; é muito bonito esse moço, ámen Aidan Turner
Tauriel: elfa que caiu de paraquedas e só existe nos filmes d'O Hobbit; namoradinha do Kili
Anões: humanóides muito baixinhos, muito barbudos e muito mal humorados
Hashi: aqueles pauzinhos que os asiáticos usam para comer
Azkaban: prisão assustadora de Harry Potter
Orcs: basicamente são ogres, bichos feios e ranhosos e malvados criados por Sauron para fazer o seu trabalho sujo
Voldemort, Darth Vader, General Zod, Hannibal Lecter, Freddy Krueger, Joker, Alien: tudo vilões de várias sagas de cinema
Jack Sparrow: pirata louco protagonista dos filmes Os Piratas das Caraíbas; tem o dom de dar sempre a volta por cima dos problemas
David Fischer: realizador e artista de várias coisas (preguiçosa, eu) que é muito ~famosinho~ entre os hippies e os cinéfilos
Spielberg: realizador muito wow que fez filmes muito wow tipo A Lista de Schindler e E.T.
Comercial dos Snickers: https://www.youtube.com/watch?v=z_gIKQtIKSg
Legolas: elfo bonitão e phoda interpretado pelo Orlando Bloom, um dos companheiros do Frodo em O Senhor dos Anéis
Gimli: anão resmungão e muito phoda, um dos companheiros do Frodo em O Senhor dos Anéis e namoradinho não oficial do Legolas
(vai, eles têm um bromance, mas uma fã pode sonhar)
Ent: árvores com uns mil milhares de anos e super pedorosas e gigantes... ah, e falam
Balrog: criatura mais phoda de todo o universo de Tolkien, é uma bicheza feiosa e cheia de fogo no c*; é tipo um demónio
Valar: tipo deuses, anjos, seres celestiais e maravilhosos que dominam o universo
Gandalf: feiticeiro simpático e do bem, personagem mais phoda de toda a série Senhor dos Anéis + O Hobbit
Montanha da Perdição: Mount Doom, é basicamente a sede de Sauron, o vulcão todo catita de onde ele observa o mundo
A Batalha dos Cinco Exércitos: graaaaaaaaaaaaande batalha que acontece no final d'O Hobbit, que envolve um montão de gente e raças e coisas


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