História War - Capítulo 14


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Palavras 4.671
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Fantasia, Romance e Novela, Yuri (Lésbica)
Avisos: Bissexualidade, Insinuação de sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 14 - XIV - Merry, merry Christmas


 

“It’s crazy what you do for a friend” - The Neighbourhood


 

As transformações eram sempre um pouco assustadoras no início. Era estranho ver meus amigos se transformando em diferentes animais, mas agora, com o passar dos meses, minha cabeça já está acostumada com a visão de lobo, o olfato excelente e a audição impecável.

A lua brilhava com força, parecendo mais próxima do que nunca de nosso planeta, considerando seu tamanho no céu. Sua luz, naquela noite, estava amarelada e era possível ver as manchas escuras em sua superfície. Eu sempre gostei da lua, até presenciar de perto o que ela fazia com Remus - e com toda certeza, com Kieran.

Olho para ela enquanto corro pela parte não iluminada da orla da Floresta Proibida. Havia acontecido um jantar do Prof. Slughorn, que exigiu minha presença. Depois de permanecer lá durante duas horas, ser apresentada para todos os membros do Ministério da Magia que ele queria me apresentar, fugi da festa.

Me escondo entre as raízes da mesma árvore de sempre e começo a despir o vestido verde-claro que minha mãe havia comprado para mim. Jogo-o dentro de minha mochila junto com as sapatilhas e visto uma camiseta de mangas compridas e uma calça, sem sapatos. O chão fora da Floresta Proibida está cheio de neve e meus dedos provavelmente congelarão até que eu chegue à entrada do Salgueiro Lutador, mas não me importo.

Escondo a mochila entre as raízes e observo todas as janelas do castelo. Não há ninguém olhando para os terrenos da escola, e esta é a oportunidade perfeita para que eu corra como uma doida na direção do Salgueiro Lutador, lançando nele um feitiço paralisante. Me abaixo, passo pela entrada e, já na metade dela, começo a imaginar a forma do lobo - a minha forma.

Minha visão, minha audição e meu olfato melhoram muito de um momento para outro, e ao olhar para baixo, vejo patas no lugar de meus pés. O espaço é apertado para mim, então me rastejo pelo chão até alcançar a Casa dos Gritos.

Remus está quebrando tudo e parece sentir muita dor. Olho para o gigantesco cervo mais próximo da entrada - James - e ele me olha de volta. Não sei como conseguimos fazer isso, mas nós realmente entendemos o que o outro está tentando dizer, mesmo que de nossas bocas não saia nada além dos barulhos característicos de nossos animais.

Olho para as escadas que levam ao andar de cima ao perceber que os barulhos pararam. Minhas patas me guiam até lá, e empurro a porta com a cabeça. Remus parece ter se acalmado quando Sirius se aproxima e o cutuca com o focinho comprido. Ouço um muxoxo de dor vindo de Remus e me aproximo. Ele não parece gostar nem um pouco de minha aproximação, e acaba se tornando mais violento. Sua mão cheia de pelos e unhas gigantescas se ergue no ar, e ele está perto de me acertar quando Sirius late alto. O barulho ecoa pelas paredes de madeira da casa, e os olhos vermelhos daquele lobisomem - não os olhos de Remus, que por sua vez são cor de mel - se voltam para o cachorro de porte maior do que qualquer outro existente.

Não sinto raiva ou medo de Remus em momento algum, pois posso apenas tentar imaginar o quanto ele sofre em toda Lua Cheia, e todos os dias após ela. O cansaço e a aparência doente dele é visível por todos na escola, tanto que já precisamos distrair a atenção de muitos estudantes que começaram a ficar curiosos sobre qual doença deixa Remus daquela forma.

Admito que a convivência com Remus como lobisomem começou a se tornar mais pacífica com o passar dos meses. Ele tentou nos machucar muitas vezes em nossa primeira tentativa de passar a Lua Cheia em sua companhia, mas não conseguia se lembrar de nada no dia seguinte. Estranhava nossa presença, o lobisomem dentro dele parecia achar que queríamos machucá-lo e, tadinho, tudo o que estava fazendo era se defender! Não podíamos culpá-lo pelos ferimentos que acabamos recebendo e que escondemos todas as vezes. Não era nosso trabalho deixá-lo pior ainda.

Poucas vezes, agora, ele tentar nos machucar. Minha aproximação foi repentina e brutal, o que às vezes me esqueço que não posso fazer. Ele precisa de sutileza nesses momentos, e com todos os problemas se passando em minha mente, me esqueço de todas as regras que estabelecemos antes de nos transformarmos.

O dia amanhece com mais velocidade do que gostaríamos. É divertido ficar na forma de animal e, quando Remus está mais calmo, conseguimos nos divertir. O sol começa a surgir no horizonte, e nosso pequeno grifinório está deitado na cama, em um sono tão profundo quanto as cicatrizes em seus braços. Essa é a hora em que precisamos ir embora, pois dali alguns minutos a Profa. McGonagall aparecerá para buscá-lo e ela não pode, de forma alguma, descobrir o que eu, Elena e os meninos somos.

Nos esgueiramos pela túnel que leva de volta aos terrenos da escola e consigo ver, ao longe, a Profa. Minerva se aproximando. James joga a Capa de Invisibilidade por cima de nós e corremos para a árvore onde costumamos deixar nossas coisas. Coloco, imediatamente, uma jaqueta e um cachecol, enquanto os meninos vestem as camisetas e as blusas de lã.

Voltamos para o castelo e nos despedimos no meio do caminho; é sábado, o que significa que dormiremos mais ou menos quatro horas antes de acordarmos, fingirmos que nada aconteceu e irmos visitar Remus na ala hospitalar com chocolates, cobertores e comida.







 

“That’s a merry, merry christmas

It’s the most beautiful time of the year” - Justin Bieber


 

A mesa ainda está sendo arrumada quando a campainha toca. Eu e Elena passamos mais de meia hora decidindo qual das taças de cristal de minha avó seriam ideais para aquela noite, e mamãe acabou nos interrompendo e optando por uma que meu avô comprou em sua viagem para a França. Quando James e seus pais entram pela porta, os guardanapos já estão posicionados, os talheres na ordem correta e os presentes sendo colocados de baixo da árvore de Natal.

Potter está com uma blusa de lã natalina que combina perfeitamente com minha calça vermelha com detalhes em branco. Uma pilha flutuante de presentes vem logo atrás dele e é colocada ao redor da árvore - já que o espaço embaixo já havia terminado -. Vejo um deles com meu nome, e a curiosidade corvina que habita em mim grita para pegar o embrulho dourado.

- Nem pense nisso, Greenwald! - diz James, antes mesmo de eu me mexer.

- No quê? - pergunto inocentemente, juntando as mãos nas costas como uma criança pega no flagra. - Não estava fazendo nada!

- Mas estava pensando em fazer, e acho bom que este embrulho dourado permaneça aí durante toda noite.

Sirius, que havia chego com a família Potter, está carregando sua pilha de presentes nas mãos, e a mistura com a de James. O Sr. e a Sra. Potter aparecem para nos cumprimentar e nos desejam uma boa noite de Natal.

A tradição é sempre abrir os presentes na manhã de Natal, mas daquela vez seria diferente por conta das visitas: abriríamos logo após o jantar, durante o chocolate quente, que era quando minha família costumava se reunir ao redor da lareira para ouvir as aventuras de vovô. Eu e papai conversamos e achamos melhor não seguirmos essa tradição, por ser algo que fazíamos com ele; mas isso não significava que não poderíamos criar uma nova.

A Sr. Potter, um cozinheiro de mão cheia, deposita uma travessa de mince pies na mesa, feitas por ele, e nos alerta que nenhuma deve ser pega antes do jantar.

A campainha toca mais uma vez, e Kieran, Genevieve, o pequeno Ben, Philip e Violet chegam. Meu sobrinho está muito maior do que me lembro, e sua semelhança com Kieran é absurda. Lembro-me bem de um de seus desabafos a respeito do filho comigo, o medo que ele tinha de transferir a licantropia para Ben, e sua felicidade quando descobriu que isso não havia acontecido.

No nascimento dele, questionei se um dia Kieran gostaria de ter mais filhos. Ele me disse que sim, apesar de achar que isso era brincar com a sorte. O fato de Ben não ter “herdado” a licantropia do pai, não significava que um próximo bebê não o teria.

Na terceira e última vez que a campainha toca, é a família de Remus. A Sra. Lupin, assim como o Sr. Potter, cozinhou para a ceia, um dos meus pratos favoritos (não que eles soubessem disso): pigs in blankets.

- Hey, Remmy! - Sirius acena para o garoto. Estamos ao redor da lareira, conversando sobre quadribol, algo que se tornou costume. O garoto se aproxima de forma tímida e nos deseja um feliz Natal. - Feliz Natal para você também, Moony.

- Shiu! - Remus olha para os lados. - Fale baixo!

- As pessoas não podem saber de nossos apelidos? - pergunta James.

- Vocês têm apelidos? - questiona Elena. Sirius, Remus e James se entreolham, como se este fato fosse segredo. E talvez fosse, pois eu e Elena não tínhamos conhecimento nenhum a respeito. - Quais apelidos?

- Não é nada demais. - diz James. - Olhem, a Sra. Greenwald está nos chamando para jantar, vamos!

Não me lembro de quando foi a última vez que minha família se reuniu a ponto de a mesa ficar pequena com todos ao redor. Normalmente, sobra lugar, mas não naquela noite: é difícil prestar atenção em todas as conversas animadas, e minha gargalhada se funde às outras. Vovó e a Sra. Potter conversam sobre seus trabalhos quando eram mais jovens, e mamãe cochicha de forma discreta com o Sr. e a Sra. Lupin. Pelo movimento de seus lábios, sei que estão falando sobre a condição de Kieran e Remus, trocando informações e dicas.

Minha avó começa a distribuição dos presentes logo após o jantar, quando todos já estão reunidos ao redor da lareira com cobertores, almofadas e uma caneca de chocolate quente. Jack, cujo desenhos haviam melhorado muito com o passar dos anos, recebe de mim um novo kit de pinturas, com pincéis, tinta, papel, lápis e outros utensílios. Vejo seus olhos brilharem com o novo brinquedo e um sorriso quase rasgar suas pequenas bochechas.

O primeiro presente que recebo é de Elena, um livro intitulado Mulheres no Quadribol, contando as histórias das melhores jogadores de Quadribol do mundo inteiro. Vejo a foto de algumas que me inspiram desde criança, voando em suas vassouras antigas ou marcando pontos.

- Eu adorei! - meu sorriso se alarga tanto quanto o de Jack com o novo kit de pinturas em mãos. - Muito obrigada!

Finjo não perceber Domenico dar uma piscadela na direção de Elena; seguro o próximo embrulho, grande e pesado, enfeitado com um cartãozinho com os dizeres “com amor, mamãe e papai”. Imediatamente, sei que é uma coleção nova de livros e não me surpreendo ao ver que o assunto é antídotos - exatamente o assunto que estou estudando em Hogwarts. Porém, há diversos níveis, alguns que Slughorn nunca nem pensaria em ensinar.

Ao final da abertura dos presentes, estamos rodeados de papel colorido. Há em cima das poltronas, perto da lareira, na mesa de jantar, pelo chão e pelo tapete. Estou no meio de duas coleções de livros, uma caixa de doces da Dedosdemel, duas blusas de lã tricotadas pela Sra. Lupin, um Estojo Para Manutenção de Vassouras atualizado e tantas outras coisas. Estou explicando a Jack como funciona o novo kit de pinturas quando Newton pega de baixo da árvore uma última caixinha, pequena e retangular, e estende para Elena. Há um cartão pendurado.

- É para Amalia. - diz, estendendo-me, sem nem ao menos lê-lo. - É de Demeter. - Elena sussurra a última informação.

Como todos parecem concentrados em seus próprios presentes, enfio a caixinha entre as blusas de lã para abri-la mais tarde. Independente do que Demeter comprou, seja uma pedra ou um diamante, sei que atrairá olhares e comentários de minha família, e tudo o que não quero é explicar a eles quem é Demeter.

No final, fico feliz de também ter comprado um presente para ele. Me sentiria péssima se não o tivesse feito.



 

A manhã de Natal é um tanto solitária; Aneska viajou para passar as datas comemorativas com nossa avó, e eu decidi permanecer em Hogwarts. Meus colegas também voltaram para casa afim de passar mais tempo com a família e, considerando os tempos complicados que estamos vivendo, admito que tomaram boas decisões. Nunca se sabe quem estará morto quando o dia amanhecer.

Há poucos presentes ao lado de minha cama. Percebo, imediatamente, que Aneska não me comprou nada - ótimo!, pois também não lhe comprei nada. -, nem minha avó. Há dois presentes de minha tia favorita, Albena, e seu marido, George. Os outros dois sei que pertencem à Valentim e Kennet, as únicas pessoas com quem eu falo na escola além de Amalia.

E, por último, há um presente que não faço ideia de quem enviou. Abro os primeiros: minha tia me presenteou com um anel prateado com uma pedra verde, mais um para a grande coleção de jóias que eu tinha. Meu tio, porém, acertou em cheio com um par de botas de couro de dragão.

Valentim me dá uma coleção nova de penas e tinteiros - há como ser mais dedicado aos estudos do que ele? - e Kennet uma nova capa de viagem, azul marinho com detalhes em dourado, pesada e, com toda certeza, muito cara.

O último presente é uma surpresa para mim. Há um cartão pequeno que parecia ter sido feito às pressas com apenas uma frase: “Espero que goste - Amalia”.

E eu não gosto.

Eu amo!

É uma grande caixa com luvas de couro apropriadas para cuidados com dragões e outras criaturas mágicas, um livro intitulado “Homens Aficionados por Dragões” e, o que mais gostei, um exemplar novo de Animais Fantásticos e Onde Habitam com uma dedicatória:

“Sr. Morstan,

Fiquei sabendo que é um grande admirador das criaturas mágicas. Fico feliz em saber que temos algo em comum!

Espero que meu guia o ajude a entendê-las e a apreciar suas companhias.

Um feliz Natal,

Newt Scamander”




 

Quando deito minha cabeça no travesseiro, repasso a noite inteira em minha cabeça e uma sensação inacreditável de felicidade me atinge. Kieran e Genevieve anunciaram um segundo bebê, que nasceria provavelmente em julho. Segundo Kieran, Ben estava adorando a ideia de ter um irmãozinho ou uma irmãzinha, e meus pais ficaram doidos com a notícia de serem avós novamente.

E eu, adorei saber que serei tia mais uma vez.

Lembro-me do presente de Demeter e, sem fazer barulho algum, levanto da cama que estou dividindo com Elena e alcanço a pilha de presentes. De dentro de uma das blusas de lã, pego a caixinha, vou até o banheiro e tranco a porta. O chão está gelado e machuca as solas de meus pés, mas ignoro completamente.

“Pertenceu à minha avó materna antes de sua morte: era uma mulher maravilhosa que lutou ao lado de outras bruxas pelo direito das mulheres de votar para Ministro da Magia. Herdei depois da morte de minha mãe, e espero que você goste!”

Imediatamente, sei que não posso aceitar. É uma herança de família, e uma herança de família deve ser passada aos herdeiros, não a… estranhos? Desconhecidos? Terceiros?

A caixa é de veludo branco e dentro há um broche maravilhoso de prata, com dezenas de diamantes e pérolas azuis. Seu formato é tão divino que descrevê-lo se torna uma tarefa impossível, e meus dedos tremem ao segurá-lo. Parece tão frágil.

Os diamantes e a prata formam dois dragões virados um para o outro, com uma pérola azul entre eles. Fogo prateado e brilhante escapa de suas bocas, e estão rodeados do que parecem ser ramos repletos de folhas. Abaixo deles há mais uma pérola azul, posicionada como se fosse o miolo de uma flor, e diamantes formando suas pétalas. Mais ramos rodeiam a flor, e abaixo deles, a terceira pérola segura a quarta, presa por duas minúsculas argolas prateadas. Ela balança quando o levanto.

Coloco-o de volta na caixa, tomando todo o cuidado para que nenhum dano seja causado. Estou decidida a não aceitá-lo. Uma herança de família como aquela deveria pertencer a Aneska, ou a qualquer pessoa que tenha o mesmo sangue deles, e não a mim!

Ouço uma pequena discussão no andar de baixo, e destranco a porta do banheiro para ouvir melhor. Elena e Melissa acordaram e sentam na cama no momento exato em que atravesso o quarto para abrir a porta.

O barulho fica cada vez mais alto a medida que chego mais perto das escadas e, assim que a alcanço, consigo ver figuras encapuzadas atirando feitiços contra minha avó, meus pais, o Sr. e a Sra. Potter e meus irmãos.

Comensais da Morte.

Uma voz feminina que reconheço muito bem ordena que subam atrás de mim. Quando dois dos bruxos começam a subir as escadas, saio correndo, encontrando Elena e Melissa de varinhas empunhadas, atravessando o corredor.

- Precisamos fugir. - sibilo. - Estamos sendo atacados.

Entro na primeira porta do corredor e corro até um berço de madeira colocado ali para Ben. O garoto dorme tranquilamente, como se nada o pudesse afetar. Pego-o em meus braços, sentindo seu peso forçá-los para baixo, e volto a correr para fora.

O Sr. e a Sra. Lupin saíram de seus quartos e estão lutando contra os dois Comensais enviados atrás de mim. Melissa luta com um terceiro. Elena, James, Sirius e Remus observam a cena, parecendo perplexos, e por algum motivo, eu ter aparecido em seus campos de visão parecem tê-los despertado.

- Peguem Newton e Jack. - grito. - Precisamos sair daqui!

Luck, o pequeno e velho elfo doméstico, se aproxima, gritando por meu nome.

- Senhorita! Senhorita! O senhor seu pai, senhor Greenwald, ordenou que eu os levasse para um local seguro.

- Para onde? - questiono. Estamos, agora, em meu quarto. Benedict acorda e começa a chorar, desesperado, pela mãe. Jack, no colo de James, e Newton, no colo de Elena, entram pela porta, todos parecendo assustados. - Para onde vamos, Luck?

Luck pede para que todos encostem em alguma parte de seu braço. Obedecemos e, menos de um segundo depois, sinto um puxão forte em meu umbigo, mas tão rápido como veio, se foi, e meus pés batem contra um chão de madeira empoeirado.

- Onde estamos, Luck?

- No esconderijo do Sr. Kieran, senhorita. - responde o elfo. Vejo o medo em seus olhos, e sei que ele pode ver o medo nos meus também. - Voltarei para buscá-los, senhorita.

- Ficaremos aqui, Luck.

O elfo desaparece com um estalo. Sento-me no chão para acalmar Benedict, e James acende a ponta de sua varinha. Elena e Remus fazem o mesmo até que tudo fique bem iluminado.

Percebo, então, os detalhes de onde estamos. Não é nada mais do que um cômodo solitário, com um colchão velho e cobertas rasgadas. Não consigo identificar uma saída, mas sei que ela existe, mas não é nenhum desses detalhes que me chama atenção, e sim a quantidade de arranhões nas paredes de madeira. Vejo, também, o olhar de Remus nas marcas, e compartilho sua tristeza, me questionando o tamanho da dor que tanto ele quanto Demeter devem sentir durante a lua cheia.

- Que lugar é este? - pergunta James, aproximando a varinha iluminada das marcas na madeira.

- Não sei. - respondo, aproveitando que ele não tinha ouvido quando Luck contou que estamos no esconderijo de Kieran.

Newton, Jack e Ben estão extremamente agitados e nervosos com o que está acontecendo e, principalmente, com o quão sombrio é o cômodo onde nos encontramos. Sirius desvia seu olhar de Ben, que chora incansavelmente, para Newton, que respira com dificuldade agarrado ao pescoço de Elena, até Jack, no colo de Remus, e então faz algo que jamais imaginei que Sirius Black faria:

- Sentem. - pede, tomando a iniciativa. Coloco Ben sentado entre minhas pernas em posição de índio e limpo suas lágrimas, esperando ansiosamente para ver o que Sirius pretende. Assim que todos já estão sentados, ele começa: - Era uma vez três irmãos que estavam viajando por uma estrada deserta e tortuosa ao anoitecer… Depois de algum tempo, os irmãos chegaram a um rio fundo demais para vadear e perigoso demais para atravessar a nado. Os irmãos, porém, eram versados em magia, então simplesmente agitaram as mãos e fizeram aparecer uma ponte sobre as águas traiçoeiras. Já estavam na metade da travessia quando viram o caminho bloqueado por um vulto encapuzado. - sinto uma vontade imensa de brincar com Sirius por estar contando uma história infantil, porém, sua voz e o conto prendem a atenção das crianças, e ao decorrer de suas palavras, o choro de Ben cessa, e o aperto de Newton no pescoço de Elena se afrouxa. - E a Morte falou. Estava zangada por terem lhe roubado três vítimas, porque o normal era os viajantes se afogarem no rio. Mas a Morte foi astuta. Fingiu cumprimentar os três irmãos por sua magia, e disse que cada um ganhara um prêmio por ter sido inteligente o bastante para lhe escapar… Vocês vão precisar me ajudar aqui - Sirius sussurra para mim - Não me lembro de toda a história.

- Então, o irmão mais velho, que era um homem combativo, pediu a varinha mais poderosa que existisse. - continua Remus imediatamente. - Uma varinha que sempre vencesse os duelos para seus donos, uma varinha digna de um bruxo que derrotara a Morte! Ela atravessou a ponte e se dirigiu a um vetusto sabugueiro na margem do rio, fabricou uma varinha de um galho na árvore e entregou-a ao irmão mais velho. Então, o segundo irmão, que era um homem arrogante, resolveu humilhar ainda mais a Morte e pediu o poder de restituir a vida aos que ela levara. Então a Morte apanhou uma pedra da margem do rio e entregou-a ao segundo irmão, dizendo-lhe que a pedra tinha o poder de ressuscitar os mortos.

- Então - recomeça Sirius, agradecendo Remus com um sorrisinho bobo. - A Morte perguntou ao terceiro e mais moço dos irmãos o que queria. O mais moço era o mais humilde e também o mais sábio dos irmãos, e não confiou na Morte. Pediu,, então, algo que lhe permitisse sair daquele lugar sem ser seguido por ela. E a Morte, de má vontade, lhe entregou a própria Capa da Invisibilidade. - É impossível segurar um sorriso com a menção do objeto: todos olhamos para James, como se a Capa de Invisibilidade mencionada na história fosse realmente a mesma capa pertencente à ele. - Então, a Morte se afastou para o lado e deixou os três irmãos continuarem viagem e foi o que eles fizeram, comentando, assombrados, a aventura que tinham vivido e admirando os presentes da Morte. No devido tempo, os irmãos se separaram, cada um tomou um destino diferente. O primeiro irmão viajou uma semana ou mais e, ao chegar a uma aldeia distante, procurou um colega bruxo com quem tivera uma briga. Armado com a varinha de sabugueiro, a Varinha das Varinhas, ele não poderia deixar de vencer o duelo que se seguiu. Deixando o inimigo morto no chão, o irmão mais velho dirigiu-se a uma estalagem onde se gabou, em altas vozes, da poderosa varinha que arrebatara da própria Morte, e de que a arma o tornara invencível. Na mesma noite, outro bruxo aproximou-se sorrateiramente do irmão mais velho enquanto ele dormia em sua cama, embriagado pelo vinho. O ladrão levou a varinha e, para se garantir, cortou a garganta do irmão mais velho. Assim, a Morte levou o primeiro irmão. Entrementes, o segundo irmão viajou para a própria casa, onde vivia sozinho. Ali, tomou a pequena pedra que tinha o poder de ressuscitar os mortos e virou-a três vezes na mão. Para sua surpresa e alegria, a figura de uma moça que tivera esperança de desposar antes de sua morte precoce surgiu instantaneamente diante dele, contudo, ela estava triste e fria, como que separada dele por um véu. Embora tivesse retornado ao mundo dos mortais, seu lugar não era ali, e ela sofria. Diante disso, o segundo irmão, enlouquecido pelo desesperado desejo, matou-se para poder verdadeiramente se unir a ela. Assim, a Morte levou o segundo irmão.

- O que acontece com o terceiro irmão? - questiona Jack, curioso, os grandes e redondos olhos verdes encarando Sirius com curiosidade.

- Já vou chegar lá. - responde. - Embora a Morte procurasse o terceiro irmão durante muitos anos, jamais conseguiu encontrá-lo. Somente quando atingiu uma idade avançada foi que o irmão mais moço despiu a Capa da Invisibilidade e deu-a de presente ao filho. Acolheu, então, a Morte como uma velha amiga e acompanhou-a de bom grado, e, iguais, partiram desta vida.



 

Era impossível dizer quanto tempo havia se passado desde que Luck nos deixou no esconderijo de Kieran, sozinhos e sem notícias sobre o que estava acontecendo em casa. Não ouvíamos barulho algum após a história que Sirius contou, uma história que todos nós estamos familiarizados - sempre foi costume de famílias bruxas ler Os Contos de Beedle, o Bardo para seus filhos antes de dormir. Eu mesma costumava ler para Jack antes de ir para Hogwarts, mas nunca chegamos ao Conto dos Três Irmãos, devido seu favoritismo pela história d’A Fonte da Sorte.

Deitamos Jack, Newton e Ben no colchão velho e imundo, e os cobrimos com a coberta cheia de rasgos. Enquanto isso eu, Elena e os meninos decidimos ficar mais afastados, em roda, com todas as varinhas acesas posicionadas entre nós.

- É o segundo ataque à sua família. - murmura James depois de um longo tempo. Acredito que estamos há horas ali, sentados, em silêncio, e sua voz sai rouca. - Você acha que estão atrás de você?

- Acho que sim. - balanço os ombros. - Eu… eu sinto que deveria pedir desculpas.

- Não! - diz Remus, mais alto do que qualquer um de nós está acostumado. Todos os nossos olhares se direcionam para ele. - Eu sei o que você pretende dizer, e acho errado pedir desculpas por algo que não foi você que causou.

- Mas…

- Eu sei! - Remus parece realmente transtornado. - Você acha que se tivesse tido coragem o suficiente para se entregar à Voldemort assim que soube que ele estava à sua procura, nada disso estaria acontecendo. Não acho que você deva se sacrificar em prol do bem maior para o mundo bruxo, não acho que isso seja certo. Você não tem culpa do que aquele monstro está causando à comunidade bruxa… Você não deve se entregar à ele.

- Remus tem razão. - concorda Elena. - Meu irmão está lá, e se ele morrer, jamais será sua culpa. Acredito que todos aqui pensam a mesma coisa. Se acontecer de alguém morrer naquela casa esta noite, nunca a culpa será sua. Nunca.

Como se fosse uma deixa, o teto do esconderijo é aberto e uma rajada de vento entra. Encolho-me dentro do pijama quente e levanto meus olhos: Genevieve, com o rosto e os braços cheios de machucados, está olhando para nós lá de cima.

- Estão todos bem? - pergunta. Seus olhos varrem o local, procurando por Ben. - Que ótimo, eles estão dormindo, mas precisaremos acordá-los.

- Estão todos bem? - Sirius repete a pergunta para ela.

Genevieve foge da pergunta: diz que precisamos sair logo dali e que seremos transferidos para um local seguro. Eu, talvez, tenha uma habilidade muito grande em ler as pessoas, talvez seja muito óbvio para qualquer um, mas sei que a quantidade de mortes não é pequena, mas não quero questionar. O que devemos fazer no momento é irmos para um local seguro e sentir dor mais tarde.

 


Notas Finais


Broche que o Demeter dá de presente para Amalia: https://i.pinimg.com/564x/42/2e/29/422e29249aa38e864b1eb350495d6017.jpg


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