História Waterfall - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Visualizações 4
Palavras 1.646
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, Magia
Avisos: Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Essa é uma história que criei pra um concurso de literatura de 2017 e que nesse ano retirei dos fundos escuros e empoeirados do meu HD e refiz, dei uma sacudida e achei que ficou mais ou menos.
Quase 6 meses depois cá estou eu, num momento de loucura da madrugada, resolvendo postar esse pequeno conto, depois de ignorar/desiludir minhas amigas da faculdade que pediam por isso (o mundo da voltas).

Espero que qualquer alma que um dia cabe por passar por esta humilda estoria aproveite, e de antemão peço desculpas pelos erros de português, sou de humanas mas nem tanto.

* algumas palavras diferentes que usei no texto, como Yasaís e Mûros, eu retirei do dialeto tupi-guarani, outros eu bati a cabeça no teclado e ajeitei para que ficasse legal ou peguei de um gerador de RPG na net e nóis *

Capítulo 1 - Capítulo Único - Yasaís e Muros


 

Yasaís e Mûros

As crianças colhiam animadamente frutas silvestres e eram vigiadas pelos guardas de Crystalia, principal cidade da grande ilha de Atlântida. A maioria corria de um lado para o outro, agitadas por terem saído pela primeira vez dos muros de mármore branco. 

Um grupo menor de crianças colhia as frutinhas com calma, colocando-as na cesta que um dos guardas mantinha nos pés. Apenas um tinha sua própria cesta, Caim, filho de um dos guardas, que retirava com destreza as frutinhas dos arbustos. Ele estava perto dos limites que lhe era permitido por seu pai. Caim afastou os galhinhos e fitou os olhos de felino que estavam do outro lado do arbusto.

De olhos arregalados, fitava a menina que prendia seus cabelos negros com uma trança jogada sobre o ombro, e seus chifres de marfim enfeitados com flores, contrastando com seus três tons de pele: corado, azul turquesa e um tom de rubro belíssimo, porém amaldiçoado. A menina por sua vez também o observava, vendo seus cabelos cor de areia trançados duramente no topo da cabeça, e as laterais raspadas. Ambos estavam assustados. Ela por nunca ter visto um humano e ele por nunca ter visto um draconato, um ser da mitologia atlântica.

Imovéis como granito, os dois se entreolharam, inconscientemente guardando cada característica que lhes era mais estranha no outro: as orelhas pequenas e redondas dele, a longa cauda azul e vermelha que mexia apenas a pontinha, sem fazer qualquer barulho, a pele lisa do rosto do menino e os pequenos caninos que se projetavam levemente dos lábios em forma de botão de rosa da draconato, que estava sujo da tinta levemente azul escura, por conta das frutinhas.

Caim aparentava ser alguns anos mais velho que ela que deveria ter apenas uns 8 ou 9 anos, pensou o garoto, comparando-a com sua irmãzinha, que ainda deveria estar chorando por não ter ido recolher as frutinhas junto ao seu “yekeyra”. 

O nariz reto da draconato se mexeu levemente, enquanto ela descia os olhos para a cesta nas mãos de Caim, direto para as frutinhas cor de céu noturno. Como uma boa criança, Caim era um pouco egoísta então, mexeu a cesta vagarosamente para o lado, distanciando-a da menina, que continuou a segui-la com os olhos de gato. Ele não daria suas frutinhas pra ela, não mesmo, seu pai tinha lhe prometido que se ele recolhesse 60 yasaís  ou mûres (e ele já tinha 58, mas estava cada vez mais difícil de acha-las naquela área), Caim receberia um prêmio muito legal. Talvez um cinto novo ou então uma espada de madeira nova, já que a sua estava tão gasta....

E a menina estendeu a mão, mais rápido do que Caim poderia reparar, roubando-lhe uma ou duas frutinhas, enfiando-as mais rápido ainda na pequena boca, mascando vorazmente. 

Afinal, ela estava com fome.

As bochechas de Caim ficaram vermelhas, enquanto ele prendia o ar com raiva. Ela tinha acabado de roubar suas frutinhas! Como ela ousava?

-Como… - ele estava pronto para esbravejar sobre como ela era uma ladra por roubar suas frutinhas, quando a menina se inclinou um pouco, cheirando-o perto do rosto, e ele perdeu o ar.

Ela tinha cheiro de pinho queimado e brasas, ele percebeu, e também um pouco do cheiro de flores, graças aquelas presas em seus chifres. E ele cheirava a suor, madeira, grama recém cortada e raiva. Raiva, um sentimento tão comum, ela percebeu. 

-eu estava com fome - disse a draconato baixo, tombando a cabeça para o lado. Ela não pediria desculpas para aquela cria humana de pelo descolorido, se recusava a fazer aquilo. Com isso, se virou devagar, ficando de costas para a cria humana e começou a mexer nos arbustos, enquanto Caim olhava para o ponto em suas costas em que as asas nasciam, indignado com o que acabara de acontecer, mas devagar aceitava o fato de que tinha perdido suas frutinhas e por consequência, não iria conseguir seu presente.  

Relutante, o menino se ergueu, fechando o arbusto atrás da ladra de yasaís. Se virou devagar para pegar a cesta, amuado, quando um rabo longo e colorido saiu do arbusto, enrolado sob um punhado das frutas azuis escuras, assustando-o um pouco. Logo o arbusto a sua frente farfalhou e se abriu, mostrando a draconato novamente.

-pelas frutinhas que peguei da sua cesta- disse jogando o que tinha no rabo na cesta, e meio atordoado, ele contou as que caíram:

1, 2, 3, 4, 5 e 6 yasaís. Ele tinha agora duas frutinhas a mais que o combinado. Caim estava radiante, finalmente ganharia sua espada de madeira nova, ou um cinto, ou talvez pudesse andar no cavalo de seu pai… Ele estava tão eufórico que se virou para a menina com um sorriso gigante e agradeceu dando-lhe deu duas frutinhas de sua cesta, uma azul e outra rosa, uma yasaí e outra mûro. A menina pegou as frutinhas, olhando desconfiada da rosada, cheirando-a e observando o garoto.

-não sei preocupe, ela é bem mais gostosa que a yasaí - cantarolou baixo Caim - meu nome é Caim a propósito - disse erguendo a mão, como seu pai fazia com outros homens. Se bem que ela não era um homem, mas também não era mulher, era uma draconato, não sabia se eles tinham algum tipo de cumprimento como seu pai tinha.

- Artara - respondeu segurando com delicadeza a mão do menino, tomando cuidado para que suas longas garras não cortassem sua pele macia e rosada. Após soltar a pequena mão da cria humana, Artara se esgueirou para longe, sem se despedir. 

Meio emburrado pela falta de educação, Caim se ergueu e voltou para seu pai, mostrando com satisfação o feito e foi recebido com grande alvoroço por Nalin, que passou a grande mão pela cabeça do garoto, elogiando-o. 

Eles passaram mais algum tempo do lado de fora, aguardando o fim do horário permitido para ficar fora das muralhas, e então retornaram, todos em grande festa por causa da colheita. 

Entretanto, a festa durou pouco. 

Um grande alvoroço se espalhou no meio da grande praça após grandes sinos, que ficavam no alto da mais alta torre (e a mais protegida) tocarem. As crianças não sabiam exatamente o que significava tudo aquilo, mas os adultos sim, e rosnavam e trincavam dentes e punhos com o som. Afinal, não tinha um outro jeito de se receber um Demnebloodren. 

Caim se agarrou no pescoço de seu pai, enquanto este corria em direção a grande praça, passando entre a multidão apressadamente e por consequência, derrubou a cesta de frutas do filho, que ficou sentido e se perguntou como diria a sua pequena irmã que as frutinhas que prometera foram esmagadas por pés afoitos, e se perguntou no por que de todas aquelas pessoas que passavam fome estarem esmagando o alimento sem dó.

Caim era novo demais para entender que a raiva de um povo quase dizimado era muito maior que sua fome. Mas entendeu o que era medo quando viu Artara sendo segurada pelos cabelos, sobre um palco de madeira, próximo as grandes fontes da praça e da grande estátua em seu centro.

O rosto da draconata estava todo azul claro, talvez tivesse comido muitas yasaís ou roubado das cestas das outras crianças e por isso estava ali em cima. Mas nada explicava os gritos com palavras feias, como dizia seu pai, para ela, palavras horrendas.

- DEMÔNIO VERMELHO- gritou uma senhora ao seu lado, jogando uma pedrinha na direção da menina, logo, muitas outras pessoas começaram a jogar qualquer coisa na direção de Artara, que se encolhia com o impacto de cada um dos objetos e mais líquido azul escorria por seu corpo. 

Caim aprendeu naquele dia também que, enquanto seu sangue era vermelho, o sangue de um dragonata era azul claro. E aquilo o horrorizou. Ela estava muito machucada, e a longa cauda colorida estava encolhida atrás de seu corpo, e também apresentava vários cortes no couro lustroso. O desespero encheu seu corpo, e o fez gritar para que parassem, que a estava machucando, que ela não merecia.

- Nail, você não ensina nossa história para seus filhos? - rosnou um outro guarda atrás dos dois - escuta aqui menino, esse demônio, faz parte de uma raça que matou e comeu nosso parentes na grande guerra, isso que ela está sofrendo, não é nada comparado a gente. 

Caim ia gritar que aquilo não era verdade, mas um rugido se sobrepôs a sua voz. Também pudera, sua voz não era nada comparada ao rugido que fez a terra de toda a Crystalia tremer. Seu pequeno corpo não era nada comparado ao do enorme vulto, que desceu como uma flecha, pousando nas grandes fontes, destruindo a própria estátua. 

E todo o povo tremeu e clamou, quando viram depois de tantos anos, seu grande salvador e seu deus, Maraã, o enorme dragão de couraça azul turquesa e olhos dourados, que os salvara uma vez dos Demnebloodren. E mais uma vez ele estava lá, para guia-los e …

- soltem minha filha - rosnou Maraã, com uma voz que fez todos os corpos ali presentes tremerem, em puro terror. A enorme cabeça serpenteou com seu longo pescoço parou perto do pequeno corpo de Artara, fitando-a, da mesma forma que a mãe de Caim a observava quando ele se machucava feio. 

O homem que a segurava por correntes de ferro, a soltou atônico, e ela cambaleou para a frente, caindo sobre o enorme focinho do dragão e com muita dificuldade, deu a volta na enorme cabeça até o pescoço. subindo-o. 

E então, antes de se lançar aos céus, Marãa observou a multidão a sua frente, mostrando os longos caninos brancos como ossos, como uma ameaça e uma promessa. 

Caim, na mais pura inocência de seus 10 anos, tinha certeza que seu deus se arrependerá de ter salvo aquelas pessoas algum dia e que muito provavelmente, os abandonará. 



 



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