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História When He is gone - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Why? It's why you do it


Já era a quinta vez que Osamu Dazai pedia para que fosse deixado. Mesmo que insistisse, que dissesse que estava bem ou que ficaria melhor com o tempo, nada mudaria a opinião do russo ali. Fyodor Dostoievsky não iria embora e por mais que detestasse ouvir lamúrias e palavras de ódio de um bêbado doente suicida havia escolhido ficar; escolhido ajudá-lo e dar um jeito na sua mais nova psiquê depressiva, prometendo a Agência de Detetives Armados que não levantaria um dedo sequer contra ele.

Ainda com eles nos braços, virou-se, caminhando até onde ouvira e entendera ser o banheiro, parando em um gesto quase de congelamento ao perceber que o ambiente estava uma bagunça. Havia uma poça de sangue no chão, respingos na parede e ataduras para todos os cantos e lados, além de um infinidade de embalagens de remédios espalhados. Era como se alguém tivesse morrido ali e de fato, praticamente havia.

Recusou-se a virar a face para outro lugar senão aquela cena mórbida, segurando agora, Dazai com uma de suas mãos na cabeça e outra nos quadris, como uma mãe protegendo seu filho pequeno do perigo. O moreno notara a mudança em seus gestos e suspirou baixo, buscando pensar em uma resposta que lhe fosse decente.

Qualquer uma.

- O banheiro parece... - Decidiu não ponderar, escutando o outro lhe interromper, agarrando-se a si com certa força, como se estivesse tentando confrontar a si em uma batalha interna.

- É velho. O sangue... é velho. O resto é resto. - Fôra tudo o que lhe disse, balançando a cabeça algumas vezes, suspirando outra vez. Fyodor chutou os objetos para os cantos, abrindo uma passagem até o box e o chuveiro.

Em um movimento rápido, girou a torneira, abrindo até que a água ficar morna e para que assim limpasse o sangue e fios de cabelo que estavam próximos ao ralo. Tudo ali tinha um cheiro terrível e uma aparência que lhe remetia a uma necrópole. Chutou um banquinho que encontrou próximo para dentro do box e logo, chacoalhou o corpo quase cadavérico que se encontrava em seus braços.

- Eu vou te colocar no chão, tome um banho. - Baixou o corpo dele, deixando que Osamu apoiasse nas paredes do box e se segurasse na torneira, colocando seu corpo vestido debaixo do jato de água. Os olhos e toda a carne se contraíram, assustando-se por um momento com a sensação dos respingos em sua pele.

Era como um formigamento, como quando algum membro de seu corpo adormecesse ou quando se tem alguma parte amputada e se têm a sensação de que o membro ainda está lá. De que seu corpo parecia adormecer também.

Em um sobressalto, Dazai retirou o corpo da água, levando o banquinho consigo ao quase escorregar com o rosto no vidro. Por sorte, Fyodor o agarrou antes que se ferisse ou que morresse por acidente.

- É só água. - Explicou-lhe o russo com um aceno, colocando-o debaixo da água outra vez. - Só água. - Repetiu, deixando que ele se sentasse novamente naquele banco e que se acalmasse, deixando a água cair sobre as pálpebras cansadas. Ele definitivamente estava em seu limite, usando a energia que o corpo nem sequer havia acumulado.

Antes que Dostoievsky saísse, sentiu o pulso agarrado, sentindo o toque gélido e áspero dos dedos de Dazai tocarem sua pele morna.

- O quarto não. - Pediu baixo, balançando a cabeça negativamente algumas vezes, sem sequer olhá-lo nos olhos. O russo arqueou o cenho, confuso. - Não mexa no quarto. O cheiro dele ainda está lá e eu não quero perdê-lo.

Os olhos violetas de Fyodor se fecharam por um breve instante e ele não contestou. Se não era para tocar no quarto ou arrumá-lo ele não faria, porque precisava aceitar as poucas súplicas do moreno suicida.

- Vou só organizar a sala e um lugar para dormir. - Assentiu, tocando os dedos dele. - Não mais que isso.

O moreno se curvou ao sentir o toque, baixando a face debaixo da água, deixando o aperto gradativamente. Os dedos estavam frágeis e pareciam prestes a definhar a qualquer instante. Pareciam prestes a serem quebrados por ele mesmo.

- Me avise quando terminar. - Disse o russo ao deixá-lo, ainda meio incerto sobre o que exatamente deveria ter dito, ciente de que qualquer coisa seria capaz de feri-lo.

Por isso era difícil para Dostoievsky agir com preocupação e pacifismo diante de uma face de Dazai tão derrotada.

Acabou decidindo tocar apenas no necessário, descartando o que quer que considerasse lixo e jogando fora desde restos de cigarros até garrafas de saquê, além de dezenas de papéis e lenços sujos por sangue que recusava-se a perguntar de onde vieram. Teve de procurar por conta próprio os cômodos e suas respectivas funções, procurando por uma vassoura e por álcool, além de outros produtos de limpeza que usaria para dar fim aquele cenário imundo e imoral.

Levou um tempo até que tivesse tudo em mãos, mas não fôra tanto em comparação ao tempo que o moreno havia ficado imóvel no banquinho, deixando que a água caísse sobre suas costas e derretesse as bandagens e esparadrapos sem que as tocasse.

Levou certo tempo até que Osamu Dazai escolheu chamá-lo.

- Fyodor.

O russo estranhou o chamado, mas não ponderou, largando o pano com álcool que tinha em mãos para ir até o banheiro. Parou na porta, observando que Dazai ainda estava vestido.

- Você precisa dar fim a essas roupas de uma vez. - Observou com um suspiro, aproximando-se dele e ajudando-o a tirar o que quer que fosse, sem dar a mínima para o que ele faria. O moreno encarou seus olhos com os próprios olhos marejados.

Outra vez.

Dostoievsky não era capaz de acreditar o quanto ele conseguia chorar.

- É pedir muito se eu te pedir um favor? - Disse em tom baixo, encarando os olhos violetas do outro com o próprio olhar triste e carregado por mágoa. Dostoievsky lhe deu um suspiro, ciente do que ele pediria.

Porque ele conhecia a mente de Osamu e sabia muito bem o que um homem era capaz de fazer quando estava em pedaços. Balançou a cabeça, uma ou duas vezes, sem responder-lhe com palavras.

Afinal, não precisava dialogar com um suicida bêbado doente que se encontrava no fundo do poço.

- Você pode me matar agora? - Sorriu com pesar de si mesmo, estendendo os pulsos infantilmente diante do russo, pendendo o rosto para um dos lábios enquanto os lábios se retorciam numa tentativa de trêmula de conter o choro. Ele sempre tentava parar a si mesmo e sempre acabava em lágrimas. Fyodor mexeu os ombros, abaixando-se até ele, ficando agachado no chão fora do box do banheiro, apoiando os braços nos joelhos e virando a face para o mesmo lado que a do moreno. Aproximou-se, não levando em conta que poderia se molhar por completo.

- Poder eu posso. - Aproximou-se mais, colocando ambas as mãos nos olhos de Dazai, tapando-os em um gesto delicado e sutil. - Posso dar fim a tudo isso agora mesmo, mas... - Baixou a voz, falando como um sussurro. - ...a dor seria insuportável.

Osamu arrepiou-se, sentindo os pelos se eriçarem e os dedos dos pés se arquearem e curvarem em resposta a sensação de agonia misto de receio. Ele ansiava pela morte, mas ansiava sem que precisasse sofrer no caminho que percorreria até ela. Grunhiu, engolindo saliva, sentindo os dedos agora quentes do moreno russo levemente contra suas pálpebras.

- Você ainda me quer para fazer isso? - Permaneceu com as mãos em seus olhos, falando lentamente, de modo que ele entendesse e que deixasse o corpo imergir naquilo. - Porque mesmo que eu use minha habilidade, mesmo que eu te julgue, você vai anular tudo isso. - Deu uma pausa, levando uma das mãos até o pescoço de Dazai, envolvendo os dedos gradativamente em torno de seu pomo de adão e a nuca. - E vai sentir muita dor.

- N-Não. - Sua voz saiu falha e entrecortada, como se lhe faltasse ar e lhe faltasse força para respondê-lo, para aceitar o que precisava e para acima disso, desistir da morte. Tocou seu pulso com o indicador e o polegar, fechando os olhos outra vez enquanto deixava as lágrimas pingarem junto da água que escorria por sua costas e ombros.

- Então banhe-se. - Soltou-se dele, virando-se de costas em um giro, deixando uma sensação fria ali. Dazai ainda podia sentir sua silhueta invisível próxima de seu rosto e de sua face. - Eu vou arrumar a sala. Ou o que quer que seja aquilo agora.

Saiu praticamente em saltitos, assobiando uma sinfonia clássica, Carmen las toreadores de Bizet, com ambas as mãos no bolso e cabeça erguida.

Fyodor era belo e sorrateiro como a morte.

E pela primeira vez Dazai não quis aceitá-la.

Foi cerca de mais de meia hora até que Fyodor Dostoievsky limpou voluntariamente todo o apartamento de Osamu Dazai, organizou desde cobertores à roupas e não encontrou em lugar algum mais ataduras e bandagens, muito menos, ingredientes úteis ou verduras na geladeira. Se Dazai estava vivendo, viveu como um roedor por mais de meio ano e comeu restos e congeláveis que qualquer loja de conveniência venderia.

Isso se de fato estivesse vivido.

Não dera exatamente indícios de que havia acabado de banhar-se, apenas saiu do banheiro enrolado como uma criança em uma enorme toalha, se arrastando até o sofá a espera de que encontrasse o ambiente sujo e imundo, sua "toca" de costume como fizera todos os dias.

Irritou-se; primeiro porque o sofá estava mais limpo do que uma sala se dentista e porque tudo estava perfeitamente limpo e organizado, havia um forro colocado sobre o acolchoado e almofada deixadas em um dos cantos para que pudesse se acomodar.

Segundo porque Fyodor ainda estava ali. Sentia sua presença como um radar e tinha certeza de que ele estava fazendo sabe-se lá Deus o que com o fogão na pequena cozinha.

E terceiro porque havia uma muda de roupas preparada exatamente para si.

Como combinado, o russo não mexeria no quarto, então simplesmente foi direto aonde queria, pegou roupas limpas do armário e voltou no mesmo segundo, deixando a porta encostada. O que mais incomodava em Dazai era que Fyodor havia cumprido com o que ele havia dito, cumprido com o fato de que não era para ele mexer em nada daquele cômodo em especial, o quarto que ainda restava o cheiro de Chuuya. E isso lhe irritava porque ele desejava discutir com o russo e chutá-lo para fora, acabando mais surpreendido do que achou que acabaria aborrecido.

Secou os próprios cabelos de qualquer jeito, vestindo uma camiseta de mangas curtas e um shorts, porque mesmo que estivesse com frio, Dostoievsky não queria aquecê-lo demais a ponto se que sua febre subisse. Sem dizer nada, Dazai foi até a cozinha, surpreendendo o outro que mexia com algo no fogão.

O russo arqueou o cenho.

- As ataduras acabaram, se é o que procura. - Pegou Osamu no flagra mexendo em um dos armários, provavelmente procurando pelas ataduras. O moreno suspirou, caminhando até o lixo,

para pegar bandagens e ataduras usadas.

- Definitivamente não. - Fyodor tomou o lixo das mãos deles, revirando os olhos e grunhindo. Mesmo que evitassem contato acabavam sempre em algum confronto. Dazai mostrou-lhe a língua, como uma criança, dando de costas para ele.

- Ninguém te pediu pra ficar. - Cuspiu cruzando os braços, fechando os olhos e voltando para a sala.

O outro sorriu com divertimento, afinal, era engraçada a maneira como Dazai tentava "agradecer".

O pouco que os olhos violetas puderam ver do corpo ferido do moreno deixavam notável que Osamu tinha se ferido nos últimos dias. Haviam cicatrizes desde o pescoço até os tornozelos, mas as marcas nos braços e próximas dos joelhos eram mais recentes. Era estranho para Fyodor aceitar o fato de que ele detestava a dor e ainda sim era capaz de ferir a si mesmo.

Ao menos ele já consegue andar um pouco, pensou com um aceno, terminando o que fazia e em gesto rápido, aparecendo na sala, observando a maneira despojada e largada que Dazai estava deitado no sofá. Um de seus braços estavam pendurados, estava deitado no outro e parecia uma criatura escondida debaixo de cobertores e almofadas. A televisão não estava ligada e ele não fazia coisa alguma, estava apenas deitado, largado, sentindo a cabeça pesada e os olhos arderem, sentindo o corpo fraco e a febre derrubar-lhe como uma facada letal. Olhou para os cabelos ainda molhados de Osamu e conteve-se a apenas, pegar uma toalha enquanto deixava o que preparou na mesa pequena que ficava de frente para o sofá.

Sua ida e volta foram ligeiras, e quando retornou, se deparou com o outro encarando a bebida que fizera com os olhos curiosos.

Havia um pequeno toque de curiosidade infantil naquele olhar abatido e cansado.

- O que é? - Questionou o moreno ao tocar a xícara, ainda envolto no sofá, imóvel, mantendo um olhar entreaberto levemente curioso. O russo se aproximou, colocando a toalha nos cabelos castanhos e alertando-o.

- Seque. Acabará ainda pior se deitar com o cabelo molhado. - Assentiu, sentando-se na poltrona de frente para a mesa, de frente para Dazai, empurrando a xícara para próximo dele. - É Toplionoie moloko.

Pela maneira como Dazai agarrou a toalha e revirou os olhos, não fazia ideia do que aquilo era ou do que poderia ser e seu péssimo humor lhe deixava suscetível a odiar o que quer que lhe fizesse pensar demais sobre. Acabou secando os próprios cabelos, encarando o nada com incerteza, pensativo. Não, acabou simplesmente deixando o pensamento fluir ao encarar a poltrona que Dostoievsky estava sentado e lembrou-se de que Chuuya tinha o hábito de sentar-se ali para fumar cedo de manhã.

E de que às vezes ficavam ambos juntos, dividindo o mesmo assento, próximos um do outro.

Trocando carícias e às vezes, apenas trocando olhares, ciente de que nunca ficariam separados mesmo que toda a Yokohama tentasse dividi-los.

Ou mesmo que o acaso viesse a ocorrer.

- É quase um leite quente. - Explicou Fyodor ao fazê-lo despertar daquela memória, tocando no pires onde a xícara estava e apontando para o conteúdo dentro. Os olhos de Osamu estava marejados outra vez e ele não sabia onde esconderia o rosto - não que fizesse alguma diferença já que o russo já havia lhe visto chorar mais de uma vez em uma noite.

- Vá embora.

- Não quero. - Recusou formalmente, cruzando ambas as pernas, apoiando as mãos nos braços da poltrona de um jeito formal, suspirando. Mesmo que fosse recusado, odiado e até chutado para fora ele não sairia.

Porque bem, Fyodor era um sujeito persistente.

- Então suma daqui. - Esbravejou com certa fúria, gesticulando com uma das mãos para que saísse. O outro deu de ombros.

Discutir sobre isso era certamente algo totalmente infundado.

- Não vou.

- Por que--

E o Fyodor o calou. Se aproximou dele em um gesto cuidadoso e calmo, abaixou-se até a face escondida por entre o tecido de Dazai e encarou profundamente seus olhos, selando seus lábios em um beijo casto e tranquilo. Seus lábios se tocaram em um toque suave e o russo intensificou o gesto ao abrir os lábios e deixar que a língua alcançasse a do moreno, tocando-a com certa força e pressionando até alcançar fundo.

Osamu queria empurrá-lo, negá-lo e acima disso, queria mandá-lo embora, mas não o fez. Aceitou aqueles lábios sem pensar nas consequências, deixando que uma de suas mãos quase encostasse nos cabelos negros de Dostoievsky e quase o puxasse para mais perto de si.

Não era como se estivesse perfeitamente bem para aceitá-lo.

E não era como se Nakahara Chuuya não tivesse morrido.

Fyodor parou, se separando dos lábios agora mornos de Dazai, tocando seus cabelos castanhos com alguns dos dedos e rapidamente, pressionando sua testa na dele, buscando sentir sua temperatura.

Sua testa fervia e pela maneira vertiginosa que aqueles olhos de avelã olhavam para si, estava tonto e estava alheio sobre a realidade que o cercava. Não, talvez havia se dado conta de que havia sido beijado por ele e não por Chuuya e que havia aceito qualquer toque após tanto tempo de solidão.

Talvez fosse a carência e não a razão.

- Beba o leite. - Colocou a mão no pescoço de Dazai, assustando-o por um segundo com o toque de seus dedos e com o contato. Estava apenas verificando e confirmando sua febre, não havia nada de errado nisso. Alertá-lo de que estava febril e de que precisaria tomar remédio agravaria a proximidade que teve ali, por isso, apenas lhe entregou a xícara com um aceno. O moreno olhou com certo pesar para o pires, provavelmente criando uma crise pessoal interna apenas de encarar o mero objeto. De fato precisava beber o que quer que fosse - isso não incluía álcool - para que o estômago se acostumasse com sólidos e lara que a sensação de náusea sumisse. Levou a xícara até os lábios e bebeu lentamente o Toplionoie moloko. O sabor lhe parecia novo e a sensação quente percorrendo seu esôfago não era exatamente a pior.

Apenas viu o rosto de Fyodor antes de devolver a xícara no pires e simplesmente adormecer.

Talvez Fyodor estivesse colocado calmantes no leite para que Dazai pudesse realmente dormir.

Porque o russo não era exatamente o exemplo de má pessoa.

Por isso, sentou-se; acomodou a si na poltrona após cobrir Osamu adequadamente e sentou-se ali, cruzando as pernas outra vez, piscando com lentidão até decidir tirar uma pequena caixa dois bolsos com um nome entalhado nela.

Osamu Dazai, o nome estava entalhado no topo da caixinha, em uma cor metalizada que se assemelhava a prateado em uma caligrafia bonita. Dentro, um pequeno anel com o nome de Nakahara Chuuya.

Não, não era um anel, era uma aliança de compromisso.

Uma que o russo havia encontrado em meio aos destroços,

na verdade, na costa, após o rio trazê-lo junto de outros pertences mais.

- Quem sabe eu não encontre o momento certo para te dizer sobre isso. - Disse baixinho como se falasse com Dazai, apoiando o rosto em um dos punhos com um suspiro. - Ou seria melhor se eu desse isso à Agência. - Deu uma pausa, revirando os olhos. - Ou à Máfia.

Dazai apenas se mexeu no sofá, ainda tentando acomodar-se em meio a um sono perturbado, dormindo enquanto fazia ruídos com os lábios. Se estava imerso em algo provavelmente era um pesadelo e emanava uma aura ruim onde supostamente deveria estar descansando pacificamente.

Dostoievsky deu de ombros, se levantando de onde estava, devolvendo a caixa aos bolsos, encarando a expressão do moreno de perto enquanto ouvia seus resmungos e murmúrios em seu estado quase de transe. Tocou seus cabelos e sua face e por um segundo,

por um segundo sentiu como se pudesse matá-lo.

Não porque assim desejava, porque a habilidade de Osamu Dazai parecia estar fraca, parecia estar falha, e por um segundo, sentiu como se sua habilidade estivesse acima da dele; como se Dazai estivesse doente.

Talvez fossem os calmantes no leite, ou o cansaço extremo misto de seu estado de depressão, Fyodor não sabia, mas tinha em mente que se alguém além dele soubesse disso as organizações ruíram.

Pelo contrário, os espers ruíram e isso traria o caos à todas as organizações.

- Quem sabe não seria melhor se você ficasse só comigo.

Virou-se, voltando para a poltrona mas parando antes de alcançá-la. Acabou fitando as cortinas fechadas e a iluminação que refletia no vidro de prédios e bares lá fora, deixando que a reflexão néon preenchesse seus pensamentos e fizesse sua mente esvaziar por um segundo. Lembrou-se do que vira em Londres.

Encontrara a caixa com a aliança em um dos lugares de escoamento do rio Tâmisa e acabou por encontrar restos de cinzas, cadáveres e sangue junto de óleo de barco. Ele fôra o primeiro a ver o chapéu e o sobretudo de Chuuya mas optou por deixá-los ás margens do rio. Apenas a pequena caixa lhe interessou em meio a todo o cenário sangrento, em meio a sensação de que alguém estava faltando.

O motivo de Fyodor ter ido à Londres era incerto para todos, mas de uma coisa ele teve certeza, de um detalhe que observou quando levantou-se e sentiu a brisa chocar-se contra seus cabelos.

Nakahara Chuuya estava morto.

Mas Arahabaki não.

E mesmo que ambos fossem a mesma pessoa, a Corrupção era uma consciência a parte destrutiva que usava o corpo de Chuuya como uma espécie de crisálida. E ele era apenas a parte externa de uma grande massa destrutiva.

Quando naquele dia, os olhos de Dostoievsky fitaram o horizonte ele pôde sentir que Arahabaki ainda estava vivo e que Nakahara Chuuya era apenas um corpo vazio usado para proteger essa figura violenta.

Desviou então, os olhos do vidro, observando a coloração de alguns faróis alaranjados ainda refletidos. Acabou decidindo que sairia e que levaria uma quantia de dinheiro consigo.

- Se notar minha ausência é porque fui comprar bandagens e chá. - Avisou Fyodor para Dazai, ciente de que ele não ouviria e também ciente de que ele não acordaria após um longo tempo. Vestiu sua capa-sobretudo, caminhando até a porta, virando-se com um suspiro.

Era como se estivesse abandonando um ferido pós-guerra.

- Acho melhor eu deixar um bilhete.

Procurou por papel e caneta e escreveu que sairia mas não que estava fugindo em um pedaço pequeno, escreveu tudo em russo.

Ele vai entender, murmurou Fyodor após deixar na mesa e sair, encostando a porta devagar enquanto deixava seu apartamento.

Na metade do caminho, ele voltou.

Voltou, carregou Dazai cuidadosamente até um futon e o acomodou sobre o colchão, cobrindo seu corpo com alguns cobertores e novamente verificando sua febre. Ele estava extremamente quente e parecia prestes a piorar a qualquer minuto.

Foi quando Fyodor teve um ideia, levando um comprimido nos próprios lábios e despejando um pouco de água antes que engolisse. Em instantes, abriu os lábios do moreno com certo erostismo, beijando-o enquanto passava o comprimido e a água entre o beijo lento.

Mesmo que fosse uma ideia um tanto quanto perversa, funcionou e pareceu contente, - em sua expressão melancólica anêmica de praxe - mesmo que no fim das contas acabou precisando fazer Osamu engasgar-se para engolir.

Ao menos ele havia ingerido um comprimido e ao menos sua febre baixaria com o tempo.

Não que Fyodor se importasse de fato com Dazai e também não que o odiasse.

Ele apenas...

Apenas estava agindo com sua habitualidade de Fyodor Dostoievsky.

Finalmente saiu; deixou o apartamento a procura de qualquer farmácia ou loja aberta de madrugada, a procura de um qualquer lugar que vendesse chá e bandagens.

E a procura de um táxi que pudesse levá-lo até a própria casa para que pudesse se mudar para o apartamento do moreno.

Seria uma mudança surpresa.

- Talvez ele goste de surpresas. - Murmurou ao levar o indicador aos lábios, piscando com lentidão algumas vezes.

Dazai gostava de surpresas, só não gostava de Fyodor.

- Acho que com o tempo eu consigo convencê-lo. 



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