História Where is Alyssa? - Capítulo 5


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Palavras 9.613
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Mistério, Policial, Romance e Novela, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Algumas explicação antes do "Nos vemos lá embaixo".

✔️ Esse é o nosso último capítulo antes do final do prazo. Percebam que o capítulo terminará exatamente no momento em que os demais personagens serão introduzidos. Estão ansiosos? Eu estou!
✔️ Vocês perceberão que, em um momento deste capítulo, Noah estará ouvindo uma música em seu café. O nome da Música é Complainte de La Butte - interpretada pelo Rufus Wainwright. A música faz parte da trilha sonora de Moulin Rouge. Seria uma experiencia lega para você se ouvisse está musica durante esta parte da história. Já que a cena foi pensada para ornar com a música. O link para a canção está nas notas finais e ela também está disponível na Playlist desta historia no Spotify.
✔️ É a despedida do Cartaz da Alyssa como capa dos capítulos. Finalmente. rsrsrs
✔️ O prazo é até dia 09 de Junho. Uma semana. Não deixem de participar.
✔️ Precisando de alguma coisa para completar as fichas, me chamem.
✔️ Atenção as notas finais.

Agora vamos nessa: Bem-vindos á Bloodstone.

Capítulo 5 - Noah conseguia reconhecer uma pessoa ferida de longe


Fanfic / Fanfiction Where is Alyssa? - Capítulo 5 - Noah conseguia reconhecer uma pessoa ferida de longe

Bloodstone, Louisiana

Algum dia depois do Natal de 2002

Edgar Norton apagou o cigarro na mesa de mogno caro dos Turner sem se importar se iria manchar ou não. Nunca tinha se importado com aquelas merdas chiques. Quem eles pensavam que eram? “Riquinhos de merda, Turner não valem porra nenhuma”, ele pensou. Edgar pulava em sua cadeira bem acolchoada e sempre olhava para trás, mal estava conseguindo se aguentar sentado. Ele nunca tinha sido muito bom em esperar. Olhou ao seu redor, aqueles malditos quadros o olhavam, acusando-o de pecados que ele não achava que tinha cometido. Engoliu sua saliva com gosto de tabaco e álcool, pensou mais uma vez em todas as coisas que iria dizer a Anthony quando ele cruzasse aquela porta, mas perdeu a coragem assim que pensou melhor.

Ele alcançou sua garrafa de bolso e a abriu. Deu um longo gole em seu whisky puro e apertou os olhos. Não podia dizer tudo o que pensava ao Turner, já que era do cofre da família Turner que vinha a maior parte do dinheiro que recebia no mês. Apreciou o gosto do álcool em sua boca e deu um sorriso satisfeito. Quando Edgar era jovem, Maggie costumava a dizer que ele não deveria beber muito, que um bom homem bebia apenas socialmente. A verdade era que aquela puta não sabia de nada. A vagabunda o tinha deixado, assim como todo mundo em sua maldita vida. E agora ali estavam os Turner, se metendo em sua vida mais uma vez. Como tinham feito anos antes.

– Eddie? – Anthony disse enquanto desfazia o nó de sua gravata azul. Edgar revirou os olhos e respirou fundo. Em um passado distante, quando eles eram jovens, os dois eram amigos. Os melhores amigos. Quem poderia imaginar vendo aqueles dois ali agora? Mas eles eram. Onde Edgar estava, Anthony também estava. Mas tudo tinha mudado e ruído. – Meu caro, que prazer te ver. – Anthony Turner mentiu e tentou não se surpreender com o rosto do velho amigo, mas a cada vez que o via, Edgar parecia-se menos com um ser humano e mais com o monstro que todos falavam que ele era.

Edgar Norton tinha deixado crescer uma barba enorme e não penteava os cabelos a um tempo. Ele escondia os fios escuros, ralos e estranhos por um boné bem velho e encardido. O homem cheirava a peixe podre, mijo e cigarro. Anthony não sabia como é que as pessoas conseguiam mantê-lo por perto. E também não sabia como ele mesmo ainda o mantinha por perto.

– Tony. – Edgar não sorriu, apenas coçou a barba e olhou para seu amigo. Edgar estava com inveja. Ele não sabia exatamente em que momento Anthony tinha se tornado um homem tão importante, quando ele tinha se tornado um dos pilares mais importantes de Bloodstone. Edgar apenas se lembrava de quando eles eram jovens e de que Anthony Turner era um merda.

– A que devo a honra de sua presença? – Anthony resmungou, se sentando em sua cadeira. Os dois se olharam por um tempo, em silêncio.

Anthony respirou fundo. Aquele homem que estava sentado diante dele, aquele completo estranho, tinha sido seu melhor amigo. Aquele homem que fedia como um banheiro público tinha sido o cara que ele mais admirava quando era um garoto. Aquele homem que parecia doente e perverso era o mesmo cara que tinha lhe ensinado tudo sobre como conquistar uma mulher.

Edgar era um rapaz galante, com um sorriso encantador e um charme misterioso. Na época da escola, todos queriam ser como ele. E todas as garotas queriam namorá-lo. Anthony ficava feliz em ser apenas seu coadjuvante, sendo apenas plateia para os feitos de Eddie.

Era complicado associar a imagem do Edgar divertido e animado que ele tinha conhecido no ensino médio, com aquele homem que estava diante dele. Anthony deveria ter percebido quando ele mudou tão radicalmente. Ele deveria ter notado que seu amigo estava enlouquecendo, deveria ter visto toda a dor de Maggie. E ele deveria ter tirado a menina da guarda de Edgar assim que teve chance. Ele deveria ter contado toda a verdade. Anthony tentou conter a raiva e a culpa que cresciam em seu coração. Aquele inferno era culpa dele.

– Preciso que tire a sua filha do meu caminho. – Edgar nunca tinha sido bom em medir suas palavras, mas mesmo assim, aquilo surpreendeu Anthony, que ergueu sua sobrancelha. Edgar não se importou com a surpresa estampada no rosto de seu velho amigo, precisava apenas tirar aquela putinha de sua vida. Os Turner tinham uma mania estranha de se meter em sua vida e aquela tinha sido a gota d’água.

– O que quer dizer com isso? – Anthony cruzou os braços junto ao peito e ergueu a cabeça, em um movimento ameaçador. Ele era pai, sabia de todos os defeitos de suas meninas. Mas ele jamais permitiria que alguém falasse mal de uma de suas meninas. Mesmo se fosse verdade.

– A sua filha tem se intrometido na minha vida, Anthony. Na vida da minha filha também. E isso não começou agora. – Edgar bufou e se inclinou para perto da mesa. Era um tom ameaçador, um tom que o Turner não gostou nenhum pouco. – Eu não deveria me meter na educação que você dá a suas filhas, mas essa menina precisa de limites.

– Ela tem nome, Edgar! – Anthony disse, sem se exaltar. Tudo o que ele menos queria em sua vida era recomeçar uma briga com Edgar Norton. Os dois tinham desfeito sua amizade na época do colégio e as consequências para todos envolvidos naquela história tinham sido terríveis.

– Eu não ligo para a porra do nome da sua menina. Apenas dê limites a ela e peça para que se afaste de mim e da minha filha. – Edgar berrou e bateu na mesa. Anthony trincou os dentes de raiva. O Turner sabia muito bem do que Edgar estava falando. Ele conhecia sua Alyssa como a palma de sua mão e sabia que ela jamais deixaria de tentar ajudar sua amiga.

Não que Alyssa percebesse, mas seu pai sempre tinha ciência de onde sua filha estava e dos planos que ela tinha armado. Anthony podia não ser o melhor pai do mundo, mas ele tinha passado grande parte de sua vida preocupado com quem sua filha estava se tornando. E agora ele sabia de tudo. Sabia sobre a pichação no barco de Edgar, sabia sobre todas as armações que sua Lyssa estava pensando em fazer para que o Norton soubesse que as pessoas se importavam com a segurança de Allegra.

– Ela está fazendo tudo isso para proteger a sua filha. Deveria estar feliz porque Allegra tem uma amiga que faria qualquer coisa por ela. – Anthony disse, contraindo cada músculo de seu corpo, se forçando a ficar exatamente ali, onde estava. Mas tudo que o Turner queria fazer era bater em Edgar, bater até não aguentar mais. E matá-lo, como deveria ter feito anos antes de toda a desgraça começar.

– Eu sei o que é bom para a minha filha. Não preciso que você ou sua família me digam o que é melhor para nós. – Edgar empurrou a cadeira e se levantou. Anthony viu a raiva borbulhando no fundo dos olhos azuis de seu velho amigo, mas aquilo não o intimidou. Turner também se levantou e por um minuto, eles se encararam como se não houvesse mais um mundo entre eles. Eles eram apenas tensão e medo. Anthony sabia que Edgar era capaz de tudo. E então sentiu medo.

Haviam mais coisas a dizer, mas Anthony não teve mais tempo. Edgar chutou a mesa e saiu, correndo como um maluco. Norton bateu os ombros na porta, ele ficaria ferido, mas não se importou. Poucas coisas realmente importavam para ele naquela altura.

Já estava quase alcançando a porta principal da mansão quando passou por Alyssa Turner. Era não era mais que uma menina. Tinha aqueles olhares cheios de acusação, como se ela fosse capaz de desvendar todos segredos. Edgar sentiu o sangue fervendo, sua carne doendo, seu mundo desmoronando quando olhou aqueles olhos azuis.

Ela o viu, mas não pareceu muito interessada. Os olhos da menina voltaram para o celular, como se não se importasse. Alyssa Turner tinha um dom. Ela era ótima em desdenhar das pessoas.

– Você é mesmo uma piranha, não é? – Edgar disse, antes de cuspir no chão. Foi naquele momento em que Alyssa apenas ergueu as sobrancelhas. “Piranha” era um nome que a mais velha das irmãs Turner estava mais que acostumada. Os caras mais velhos a chamavam assim, as meninas que não gostavam dela a chamavam assim, até as que fingiam gostar a chamavam assim. E não era Edgar Norton que iria intimidá-la.

Alyssa deu a ele um sorriso cínico e voltou a atenção para seu celular. Mandando um SMS para qualquer um de seus amigos. O desdém fez com que a raiva de Edgar borbulhasse em seu corpo.

– Não tem xingamentos melhores, Senhor Norton? – Alyssa ergueu os olhos. Ela era maldade pura, Edgar sabia.

– Não se aproxime mais da minha filha. – Edgar sibilou, como uma cobra. E, pela segunda vez, o máximo que conseguiu de Alyssa foi um sorriso. – Se você chegar perto da minha Allegra mais uma vez...

– O que o senhor vai fazer, hum? – Alyssa abaixou o celular, finalmente. Ela olhou para ele como se não fosse nada. E foi como se Edgar estivesse no colegial outra vez, sendo julgado, apontado. Sendo trocado. – Vai me bater? É assim que você faz as pessoas calarem a boca? Ou você vai me comprar como tem feito com a metade dessa merda de cidade?

– Eu vou matar você, Alyssa. Vou acabar com essa sua vidinha de merda. – Aquela não foi a primeira vez que Alyssa fora ameaçada. De forma alguma. Ela convivia com aquilo quase diariamente.

– Faça isso. Acabe com a minha vida. – Alyssa sorriu. Ele quis envolver as mãos naquele pescoço fino da menina e apertá-lo até ver a vida indo embora daquele corpinho sem nenhum atrativo, mas não podia matá-la ali. Por mais que quisesse. Ele devia muito. – Mas espero que você saiba que eu nunca vou desaparecer da sua vida, que eu nunca vou te deixar em paz. Porque eu não vou deixar que você continue estuprando a minha amiga. Ela não é uma propriedade sua. Espero que você saiba que eu nunca vou deixar ninguém esquecer o que você é. – E, pela primeira vez em toda a sua vida, Edgar temeu uma mulher. Temeu uma garota. – Seu estuprador filho de uma puta.

Alyssa era fúria pura. E Edgar deu mais um passo na direção da menina. Estava prestes a feri-la, queria dar uma surra naquela menina, mas viu os olhos enormes de sua filha da janela.

Os mesmos olhos azuis de Marjorie. O mesmo ímpeto que havia em Alyssa. Ele se afastou em um rompante e correu. Seguiu sem olhar para trás. Queria só ir embora. E os Turner que se fodessem sozinhos.

...

 

– Noah, tem alguém no telefone querendo falar com você! – Joseph Jacobsen entrou no quarto de seu filho como um furacão. E ele era exatamente assim. Contudo, o mais velho ficou paralisado assim que passou pela porta, já que foi surpreendido com seu filho deitado pelado em sua cama, olhando para o teto, usando seus headphones. Joseph queria apenas cobrir seus olhos pra não ver o pau de seu filho. – Oh, meu Deus. Noah Martin! – Joseph berrou e atirou a primeira coisa que viu em seu filho. Noah tirou os fones apenas depois de ser atingido por uma grafic novel de zumbis. O adolescente deu um pulo de sua cama, puxando seu lençol para cobrir seu corpo.

– O que você está fazendo aqui, pai? Você não sabe bater na porta? – Noah berrou enquanto tentava não se envergonhar com aquela situação totalmente constrangedora. Mas era impossível.

– E você não sabe usar calça? – Joseph berrou de volta, mas ele não conseguiu conter uma gargalhada divertida. Era estranho para Joseph pensar em seu filho envelhecendo, se tornando um homem. Ele ainda se lembrava de Noah como o menininho magrelo e de óculos grossos, que estava sempre entrando em brigas de escola apenas por ser diferente e que não conseguia alcançar o armário mais alto da casa. Mas ali estava o seu menino: com o corpo de um homem e um pau enorme, escondido com um lençol esquisito e manchado.

– Pai, o que é que você tem? – Noah berrou enquanto puxava um travesseiro para cobrir seu membro. Joseph riu ao ver seu menino corar e atirou outra grafic novel no menino, que desviou do objeto voador.

– Tem alguém querendo falar no telefone com você, garoto. – Joseph revirou os olhos e ajeitou seu bigode, deu as costas para o menino e dando a ele privacidade para que vestisse um calção. O pai sentiu sua mão tremendo e coçou seu bigode. Ele nunca tinha se preocupado com Noah, porque seu menino sempre tinha sido exemplar em todos os sentidos, mas naquele momento, ele conseguia ver algumas mudanças que o assustavam. Noah estava escondendo segredos, estava mentindo de uma forma quase perfeita. Seu menino estava mudando, estava crescendo e se descobrindo. E isso estava fazendo Joseph se sentir um pai de merda. – É um menino. Parece ser aquele que largou a escola... Henry Pines, não é? Sabe que eu não quero que ande com pessoas de má índole, certo? Nem que se envolva com...

– Você não o conhece, pai. Não sabe sobre a índole dele... Henry é uma das melhores pessoas que eu conheci e... Não deveria se preocupar com ele, eu já ando com as piores pessoas dessa cidade e você nem percebe. – Noah rebateu enquanto passava correndo por seu pai e descia pelas escadas correndo. Joseph queria agarrar Noah pelo braço e perguntar a ele tudo o que estava entalado na sua garganta, mas percebeu que não era o momento. O telefone fixo da família ficava no andar de baixo da casa, mas Noah não demorou nem meio minuto para chegar ali. Se atirou no sofá, desajeitadamente, como sempre e respirou fundo, procurando coragem, já que sabia que alguma merda estava perto de acontecer. Henry não ligaria para ele sem um bom motivo. Tomou o telefone entre as mãos e abaixou a cabeça, diminuindo o volume da sua voz o máximo que podia. – O que é, Pines? Eu disse que não era pra ligar pra cá. Sabe que meu pai te detesta, ele fica fazendo perguntas.

– Eu só tô te ligando porque eu não sei mais pra quem ligar. – Noah sentiu a voz de Henry trêmula, preocupada atrás de todo o som abafado do bar. Era estranho para o Jacobsen ouvi-lo assim, quase nada conseguia tirar Henry do seu estado de melancolia normal, mas, o menino parecia muito desesperado.

– O que foi? – Noah respondeu com a mesma preocupação e abaixou ainda mais o seu tom de voz. Sua mãe, Janice, passou por ele com um sorriso nos lábios, enquanto tomava um de seus remédios para emagrecer. Noah abriu um sorriso falso antes de voltar sua atenção para o telefone. – Aconteceu alguma coisa? É o Edgar? – Noah respirou fundo e sentiu seu corpo todo doer só de imaginar que Allegra poderia estar em algum perigo.

– Não. É a Alyssa. – Henry não precisou dizer mais nada. Noah já tinha entendido.

– Eu vou buscá-la. – Noah disse aquilo com uma firmeza que só ele tinha e desligou o telefone, sem se despedir. O jovem levantou-se do sofá, se deparando com a cara assustada de seu pai o encarando. Joseph queria respostas e ele teria. – Me leva a um lugar?

– Noah, são mais de uma da manhã. Eu não vou te levar a lugar nenhum. – Joseph resmungou e buscou apoio no olhar de Janice, mas ela já estava com aquele olhar vazio de quem tinha se afundado nos remédios. Joseph estava sozinho. – Você está com problemas, filho? São drogas? Sabe que pode me contar qualquer coisa, não é?

– Pai, eu preciso que me leve no bar da 75. Eu juro que te conto qualquer coisa que quiser depois disso, mas me leva até lá. É importante. – Noah disse enquanto subia para o seu quarto. Deixou que Joseph tivesse aquele tempo para pensar enquanto ele se enfiava em uma calça de moletom e em uma camisa velha e gasta do Flash. Joseph mordeu os lábios e pensou por alguns segundos, aquela era sua chance, talvez a única em muito tempo, de entrar em contato com o seu filho outra vez. O pai se encheu de coragem e pegou sua jaqueta antiga. Ele faria isso com seu filho, por seu Noah.

Quando o menino desceu as escadas, eles não trocaram nenhuma palavra. Fazia um tempo que as palavras não faziam sentido para pai e filho, eles tinham perdido a conexão em algum momento. Foram para a caminhonete antiga e Joseph tomou o caminho para a rodovia, sem acelerar muito seu carro. Havia uma tensão estranha entre pai e filho, era como se eles fossem completos desconhecidos. Joseph queria saber quando é que ele tinha perdido a ligação com seu filho, se perguntava aquilo quase diariamente. Os dois eram muito amigos quando Noah era só um menino, partilhavam tudo o que pensavam e o melhor tempo que tinham era o que passavam juntos. Mas Joseph nunca conseguia responder aquela pergunta. Ele tinha perdido seu menino e não tinha feito nada pra mudar aquilo. Ele olhou para Noah de rabo de olho e o menino respirou fundo.

– Acho que eu gosto de homens. – Noah não tinha certeza se aquele era o momento certo para falar tudo aquilo, mas ele não teria chance de falar aquilo outra vez. E nem mesmo coragem. Joseph o olhou e não disse nenhuma palavra, o que deixou Noah ainda mais preocupado. Mas isso não impediu que o menino continuasse falando. – E acho que gosto de mulheres também. Eu não sei se vai entender isso que eu tô te dizendo, não sei se vai achar que eu tô ficando louco, pai... Mas eu sou assim... E eu não tenho vergonha. Queria que não tivesse vergonha de mim também.

Silêncio. E constrangimento. Noah encostou a cabeça no vidro gelado da caminhonete e deu para seu pai um tempo para absorver tudo o que ele tinha dito. Sabia que seu pai precisaria de um tempo para aceitar e entender a sua sexualidade, mas ele só podia contar com Joseph. Sua mãe tinha se tornado uma mulher terrivelmente distante e aquilo machucava como nada no mundo. Noah tinha vividas lembranças de como ela se tornou, lentamente, uma estranha depois que se mudaram para Bloodstone. Antes, Janice era uma mulher divertida, que amava cozinhar e levar Noah ao cinema. Era uma mãe maravilhosa. Mas tudo tinha mudado. Janice tinha ficado profundamente abalada em deixar sua floricultura e sua vida em Portland para se enfiar em Bloodstone, ela tinha deixado tudo o que conquistara para trás e isso tinha feito ela se afundar em uma profunda depressão. E, à medida que o tempo passou, ela tinha se tornado viciada em remédios.

Primeiro tinham sido remédios para dormir, depois antidepressivos, então remédios para emagrecer, remédios para acordar, remédios para todas as coisas possíveis. Janice tomava tantos remédios que tinha deixado de ser ela mesma. Ela tinha se perdido em si mesma e seu olhar estava sempre vazio. Noah tinha chorado muito por causa de sua mãe. Na verdade, ele chorava sempre por tê-la perdido e se culpava por isso. Por isso, o menino acreditava que não fazia sentido se assumir para ela. Sua sexualidade e sua confusão seria apenas mais um problema para Janice. Mais um motivo para ela tomar mais e mais remédios.

– Eu tenho orgulho de você. – Joseph disse aquilo com uma calma que Noah não esperava. O menino olhou o pai com os olhos arregalados, mas acabou dando um sorriso aliviado. – Não me importo com o que você gosta ou com o que vai fazer da sua vida, Noah. Porque eu sei quem você é. Isso é o mais importante pra mim. – Noah sorriu para seu pai e sentiu seus olhos se enchendo d’água. – Amo você filho e vou amar onde quer que você esteja.

– Também amo você, papai. – Noah sussurrou e Joseph sorriu, finalmente. Faziam anos que Joseph não ouvia seu filho o chamando de Papai. Noah ainda tinha muito o que dizer, mas o brilho fluorescente da placa do bar 75 fez com que aquela conexão que eles tinham criado se quebrassem. Joseph e Noah se olharam com certo medo.

– Você não me contou o que estamos fazendo aqui. – Joseph disse enquanto estacionava o carro ao lado da fila infinita das motos dos Serpents. O mais velho sentiu medo. Pai e filho se entreolharam e o menino respirou fundo. Noah ajeitou seus cabelos escuros e olhou para o seu pai. Joseph tinha sido tão carinhoso com ele, aceitado tão bem o que ele tinha admitido que Noah não teve coragem de mentir.

– A Alyssa Turner tá lá dentro... E eu tenho que buscá-la antes que ela faça alguma merda. E ela sempre faz merdas... – Noah resmungou e Joseph assentiu com a cabeça, sem dizer mais nada. Mas naquele momento, o pai conseguiu entender que, tudo o que Noah fazia era por causa de alguém, para proteger alguém e isso o preocupou. Pai e filho desceram do carro juntos, se enchendo de coragem e caminharam até o bar com certa postura. Eles tinham que parecer intimidadores, mas Noah tinha certeza que não conseguiram.

Joseph se manteve próximo de seu filho todo o tempo, mas ele sabia que Noah tinha mais coragem em si do que muitas pessoas naquele bar. Noah estava alguns passos na frente e entrou no bar como se fosse dono dele. O local estava escuro, com uma fumaça malcheirosa de cigarros e com aquele cheiro estranho de cerveja e mijo. Joseph teve que esforçar para não vomitar ali mesmo. Os dois passaram os olhos por toda a extensão do lugar. Joseph viu os motoqueiros estranhos empoleirados na mesa como bichos; havia um grupo de prostitutas sentadas sob a mesa de sinuca, fazendo gestos obscenos para alguns homens em uma mesa; também haviam pessoas no bar, pessoas normais que estavam enfiando a cara em vários e vários copos de cerveja. Mas o olhar de Noah estava mais atento e logo conseguiu identificar Henry no fundo do bar, próximo a jukebox. E ao lado dele, estava Alyssa.

Noah conhecia Alyssa bêbada com a palma de sua mão. Por mais que a família Turner não gostasse de admitir, Alyssa ficava bêbada com muita frequência. E ela estava completamente fora de si naquele momento. Lyssa estava dançando na frente de uma mesa onde homens estranhos estavam sentados, sacudia seu vestido preto, rebolando e deixando um pouco do corpo exposto. Ora, Noah conseguia ver o sutiã branco da menina, ora, via parte de sua calcinha amarela. Ela balançava os cabelos e deslizava os dedos pelas suas curvas magrelas, quase infantis.

Alyssa se inclinou em uma mesa cheia de homens muito mais velhos que ela e pediu que lhe desse um gole da cerveja que bebiam, e não demorou para que ela tivesse uma cerveja nas mãos. Ela voltou a dançar, subindo em uma mesa, cada vez mais provocante. Alyssa se alimentava de atenção e quando ela estava bêbada, tudo aquilo se tornava ainda mais intenso. Joseph deu um passo na direção de Alyssa, mas Noah segurou o braço do pai.

– Deixa que eu vou. – Noah sussurrou. Ele sabia que seu pai poderia assustar Alyssa, então tomou a dianteira. O menino deu dois passos em direção a jukebox, passando por entre as pessoas enormes e intimidadoras como se não se importasse, mesmo estando morrendo de medo. Noah trocou olhares rápidos com Henry quando se aproximou, os dois não precisavam muito de palavras, sempre tinham se entendido por olhares. Henry apontou para Alyssa com o nariz. Mesmo que o jovem pescador não gostasse da Turner, ele fazia questão de protegê-la. Assim como todo mundo. Os homens que estavam na mesa, onde Alyssa dançava, olharam o garoto esquisito e desajeitado, enfiado em roupas largas, como se ele não fosse nada. Mas Noah estava mais que acostumado com aquele olhar. – Lyssa! – Ele chamou a menina, com o coração cheio de coragem.

– Dumbo! – Alyssa berrou, ainda de cima da mesa. A menina bateu palmas, mas não parou de dançar. Alyssa rebolava ao som de uma música de Beyoncé que Noah não conhecia. Ela deu um sorriso enorme para o menino, mas continuava dançando, como se quisesse provocar todos ao seu redor, inclusive Noah.

– Vem, vamos embora! – Ele resmungou e esticou a mão para Lyssa, que apenas revirou os olhos e recusou a mão do menino, batendo os pés como uma criança mimada. Exatamente o que ela era.

– Eu não quero ir. – Alyssa gemeu e pegou uma das cervejas que estavam na mesa, um dos homens passou a mão na perna de Lyssa e ela sorriu, dando algum apoio para aquele homem, que lhe dava migalhas de atenção. Nada daquilo era culpa dela, Alyssa era uma criança que tinha descoberto cedo demais que seu corpo podia ser uma arma. Noah ficou encarando sua quase amiga enquanto ela virava todo o conteúdo da garrafa em um único gole.

– Isso não importa, Lyssa. Está na hora. – O moreno insistiu enquanto olhava para trás, buscando Henry e para seu pai, que estava um pouco distante. Eles se olharam e estavam todos compartilhando a mesma tensão. – Vamos, eu tenho que te levar para sua casa.

– Eu não vou ir pra minha casa. – Alyssa era teimosa e não tinha nada que irritava mais o jovem Jacobsen do que teimosia sem porquê. Ele esticou a mão e agarrou o pulso da menina. Aquele toque não tinha nenhuma força, mas Alyssa parou tudo o que estava fazendo para olhar seu amigo. Por mais que ela estivesse totalmente fora de si, Alyssa faria qualquer coisa que Noah mandasse.

– Você não ouviu, seu merda? Ela não quer ir. – Um dos homens, que estava sentado, analisando a calcinha de Alyssa, berrou para Noah. O menino levantou as sobrancelhas, o bastante para irritar o homem. – O que foi? Qual é o seu problema, garoto?

– Vocês sabem quem essa menina é? – Noah disse se impondo como se já fosse um homem, encarando aquele cara como se fosse um deles, um brutamontes, mesmo pesando quarenta quilos. Alyssa desceu da mesa naquele momento e caminhou até Henry. O homem também se levantou e Noah teve de engolir seu medo. O cara era muito maior que ele, muito mais forte. Ele podia tomar a surra da sua vida ali, mas não ia abaixar a cabeça. Noah nunca abaixava. – Vocês estão passando a mão na porra da filha do Anthony Turner. – Naquele momento, todo o bar parou. E todos os olhares voltaram para Noah. E ele se sentiu mais forte que nunca. – É melhor você não fazer nada conosco, ok? A não ser que queira se foder bastante.  – O menino não esperou que o cara respondesse e saiu andando. Ele estava tremendo de medo, mas não deixou que ninguém notasse.

Ele passou por seu pai, que já estava com as mãos sobre os ombros de Alyssa e saíram do bar como se fossem donos do resto do mundo. E só quando voltaram ao estacionamento que Noah conseguiu respirar. Joseph levou a jovem Turner para o carro. Joseph tentou, em vão, conversar com a menina e lhe oferecer alguma coisa pra comer, mas Alyssa estava assustada demais para entender o que estava acontecendo.

– Você é louco, Noah! Tem ideia de quem aquele cara é? – Henry gritou enquanto corria atrás dos Jacobsen. Naquele momento, Noah deixou que seu corpo relaxasse e se sentou no chão. Ele não se importou com o asfalto sujo, apenas deixou que seu corpo caísse e que a adrenalina abaixasse. Só então ele percebeu que estava quase se cagado de medo. – Você não pode fazer isso.

– Obrigado por me ligar. – Aquela doçura de Noah fez com que a raiva de Henry se quebrasse. E só então o jovem pescador entendeu como seu amigo estava ferido. Henry sentiu pena de Noah, pela primeira vez. – Eu não vou aguentar isso por muito tempo. Eu não posso defendê-la pra sempre.

– Só leva ela pra casa, Jacobsen e dê um banho nela. – Henry sussurrou e tocou o ombro de Noah. Ele fez uma carícia delicada, uma massagem que encheu o Jacobsen de coragem.

Noah sorriu e segurou os dedos de Henry antes que ele lhe desse um beijo envergonhado na testa e voltasse para o bar. Era estranho para Noah ver Henry indo em direção a aquele lugar estranho como se não se importasse, como se aquele inferno fosse sua casa. Pines tinha só treze anos e já fingia que era um adulto. Era assustador.

– Noah, vem logo! – Joseph gritou e Noah obedeceu seu pai cegamente, ele não tinha mais ânimo para discutir. Alyssa estava no banco de trás do carro e Noah se sentou ao lado dela, a menina deixou a cabeça cair no ombro do Jacobsen, já meio desacordada enquanto Joseph acelerava na direção da cidade. Era a primeira vez que Noah via seu pai dirigir daquela maneira. Ele parecia completamente desesperado enquanto acelerava pela rodovia vazia, sem se importar com a sinalização ou com o limite de velocidade. O menino se viu na obrigação de dizer algo ao seu pai, mas quando ele abriu a boca, Joseph falou por cima dele. – Você faz isso sempre? Vai a bares, encara motoqueiros malucos e fala como se fosse um deles?

– Pai, não é isso...

– Noah, você é um menino. É a porra de uma criança. Tem treze anos. Quem você pensa que é? Aquele cara poderia te matar! – Joseph estava nervoso e Noah sabia que nada que ele falasse iria acalmar seu pai, então ele se calou e aproximou o rosto de Alyssa do seu peito, segurando a cabeça dela para que a menina não ficasse ainda pior do que já estava. – Você está fazendo isso por causa dos Turner? Por causa dessa menina? Aquele cara que eu vi no bar não parecia ser o meu filho.

– Pai, não é nada disso. Eu só não posso deixar que mais ninguém ao meu redor se machuque. – Aquela era a primeira vez que Noah admitia aquilo em voz alta. Ele não estava fazendo aquilo por Alyssa, não se importava tanto assim com ela. Estava defendendo a menina porque não queria que mais ninguém se ferisse. Noah não conseguia parar de pensar em Allegra, na forma como ela sofria e em como estava sendo ferida. Ele tinha quase certeza que sua Allie estava sendo ferida naquele momento. Não conseguia parar de pensar na sua mãe e de como ela tinha se perdido dela mesma. Noah só queria poder protegê-las da forma que conseguia proteger Alyssa.

– Do que você está falando? – Joseph olhou para o filho pelo retrovisor e respirou fundo. Aquela era a primeira vez, em meses, que ele pode ver seu filho com a guarda baixa. Por um segundo, Noah estava falando de seus sentimentos e das suas dores e Joseph queria aproveitar aquele momento ao máximo. Ele pode ver como os segredos de Noah o torturavam, como aquelas coisas que ele escondia estavam ferindo-o e sentiu medo. – Sabe que eu te defenderia de tudo, não é?

– Acho que a Lyssa vai vomitar. – Noah desconversou enquanto seu pai estacionava na porta da casa dos Jacobsen. Joseph olhou para trás e viu aquela cena estranha: seu filho segurando a testa da filha do seu chefe que estava completamente fora de si. Tudo o que Joseph menos queria no mundo era estar ali, vendo tudo aquilo que viu. Mas ele jamais esqueceria naquela noite. Noah aproveitou o momento de silêncio de seu pai e carregou Alyssa para fora do carro, correndo meio desengonçado. A Turner estava com o rosto muito pálido e com os lábios levemente azuis pelo frio da cidade, Noah a carregou até o banheiro do andar térreo. Ele a colocou sentada em um banquinho dentro do box, o banquinho que sua mãe usava para tomar banho, e só então ele a olhou, se abaixando para ficar com o rosto na altura do dela. – Lyssa?

– Desculpa. – A menina sussurrou enquanto abaixava a cabeça. Alyssa estava cansada e seus sentimentos estavam confusos. Seus cabelos escondiam seu rosto e sua vergonha. – Não queria que brigasse com seu pai por minha causa.

– Você precisa de um banho. Eu vou chamar a minha mãe. – Noah sussurrou e segurou os dedos de Alyssa. Sentiu os dedos dela tremendo e seu corpo balançando com aquele ataque de choro compulsivo. Ele estava entrando na fase que ele chamava de “garotas bêbadas choram demais”. Noah se levantou, mas antes que pudesse se afastar, sentiu Lyssa tocando sua perna.

– Noah, não! – Alyssa sussurrou, erguendo a cabeça e revelando seu rosto inchado e vermelho. Noah viu sua maquiada borrada, o rímel escorrendo por sua bochecha junto com as lágrimas. Pela primeira vez, em todo o tempo que ele tinha convivido com Alyssa, ela estava feia. Mas, pela primeira vez, ela parecia humana. Ele parou exatamente onde estava e a olhou. – Eu faço qualquer coisa, só não chama a sua mãe. Ela não pode me ver assim, ninguém pode.

Noah assentiu com a cabeça e deu seu melhor sorriso para Lyssa. Ninguém jamais saberia quais os segredos que Alyssa Turner escondia, mas Noah conseguia reconhecer uma pessoa ferida de longe. Ele abriu a água morna, sem dizer nenhuma palavra, e se sentou no chão, por cima do tapete antiderrapante que sua mãe adorava, ao lado de Alyssa, enquanto a água caia sobre ela.

Eles ficaram ali por algum tempo, em silêncio, mas Noah não conseguiu olhar para ela. Lyssa estava chorando bastante, engasgando em suas lágrimas e não havia nada mais constrangedor para Noah. Ele não sabia o que dizer, não sabia que atitude tomar. Então apenas esticou a mão e segurou os dedos dela entre os seus.

Noah deslizou o dedão pelas costas da mão dela, fazendo um carinho desajeitado e sem muita experiência. Alyssa chegou até a deixar um sorriso escapar. Noah parecia não saber quase nada sobre flerte, muito menos sobre carinho. Mas ela podia notar no rosto dele que Noah era daqueles que roubava corações sem nem mesmo perceber. E ele realmente roubava.

– Por que ninguém gosta de mim. Noah? – Ela sussurrou e Noah ergueu a cabeça, visivelmente confuso. Naquele momento, ele também estava encharcado e, mesmo estando levemente tonta, Alyssa conseguiu achá-lo bonito. Ele ainda era aquele nerd esquisito, mas naquele momento, ele era a única coisa que Alyssa tinha no mundo.

– Todo mundo gosta de você, Lyssa. Para de falar merda. – Noah sorriu. Aquele seu sorriso esquisito e estranhamente encantador. – Você é a rainha da escola. É a garota que todo mundo quer ser. Você é popular, bonita e inteligente. Quer dizer... Você é...

– Não, Noah! Eu sou uma filha da puta. – Lyssa disse aquilo com uma segurança e com uma verdade que assustou Noah. Ele nunca a tinha visto falar daquele jeito. E era assustador. Alyssa parecia ser dona de toda a autoestima do mundo, mas naquele momento, ela estava desprovida de todas as máscaras. E Noah se assustou com isso mais uma vez. – Eu me envolvo com caras que eu não devo, faço coisas ruins, machuco as pessoas. Eu sou má e eu gosto disso... – Alyssa se calou e fechou os olhos. Ela não podia estar mais nua do que estava ali. Noah segurou a mão de Alyssa com um pouco mais de força. – Ninguém gosta de mim de verdade. Ninguém nunca gostou. Eles têm medo de mim.

– Porra nenhuma. Você tem sua família, tem seus amigos, tem as pessoas que te admiram e tem a Allie. Isso é enorme. – Noah disse baixo e deu um sorriso torto para Alyssa. Ele não sabia ao certo quais eram os motivos de todo aquele sofrimento, mas se sentiu estranhamente responsável por aquilo que ela estava sentindo. Noah tinha aquele problema: ele se culpava por tudo.

– Noah, você é tão inocente. – Alyssa deu uma risada sem graça e cobriu seu rosto com a mão, novamente. – Eles nunca se importaram comigo. A minha mãe me detestava, o meu pai acha que eu sou... Eu sou um problema para ele. – Uma veia pulsou na testa de Alyssa. Aquilo era medo puro. Medo e verdade, que escorregava pela boca da menina. Noah puxou a mão de Lyssa para perto de seu corpo, apoiando-a em seu peito. – E na escola... Não tem ninguém que realmente se importe comigo. Eles me matariam se pudessem... Se eu sumisse hoje, eles se esqueceriam de mim no outro dia.

– Você não sabe nada, Lyssa. – Noah revirou os olhos e beijou os dedos da menina. Aquela foi a primeira vez que ele tinha feito aquilo, a primeira vez que eles tinham tido um contato como aquele. Ela deu um sorriso torto. Era estranho. – Você tem o mundo todo aos seus pés. Todo mundo faria qualquer coisa por você. – Ele sabia que aquilo não era verdade, mas era exatamente o que ela precisava ouvir naquele momento, então, ele disse.

– Você faria qualquer coisa por mim? – Aquela pergunta de Alyssa fez com que Noah engolisse em seco.

– Claro que faria, Lyssa. Eu saí da minha casa no meio da madrugada pra te resgatar no pior bar da cidade, encarei um motoqueiro que podia me matar com uma mão e eu estou sentado no chão gelado de um banheiro com você. – Noah deu um sorriso calmo e olhou nos olhos de Alyssa. – Eu me importo com você. Por mais que isso vá contra todas as regras do universo.

– Mas você não me ama, né? – Lyssa desviou o olhar, sentindo as lágrimas voltando ao seu rosto. Ela as secou o máximo de lágrimas aparentes e tentou dar um sorriso, mas aquele foi o pior deles. E Noah notou.

Só que ele não podia mentir. Não. Noah não a amava. Ele amava pouquíssimas pessoas e Alyssa era muito inconstante para que ele conseguisse lhe dedicar um pouco desse sentimento.

– Alyssa... Você precisa se deitar, ok? – Noah sussurrou e se levantou. – Eu vou buscar uma toalha para você.

– Você gosta muito mais dela do que de qualquer outra pessoa no mundo. – Lyssa sussurrou aquilo enquanto Noah se inclinava sobre um baú para pegar uma toalha limpa. Ele teve que respirar fundo para se livrar da vergonha que ele sentia. Talvez todas as pessoas do mundo tivessem notado que ele era completamente apaixonado por Allegra. Todos, menos quem ele queria que notasse. Alyssa estava certa e aquilo era estranhamente doloroso. Ele voltou a se aproximar e entregou uma toalha para ela. – Eu entendo isso, não tem como não sentir alguma coisa por ela.

– Eu preciso que você se seque. Vou arrumar uma roupa para você. – Noah tentou desconversar, porque era assim que ele fazia com todos os seus problemas. Ele os ignorava. Mas Alyssa não era como ele e ela precisava falar.

– Mas ela não é só isso. Não é só a menina boazinha que é violentada pelo pai, Noah. Somos todos um emaranhado de segredos. – Alyssa sussurrou enquanto se enrolava na toalha, Noah a olhou. – Tem tantas coisas que você não sabe...

Noah não disse nada. Apenas ficou ali, parado, olhando para Alyssa. Ela era o epicentro de um furacão de mentiras, mas toda a Bloodstone parecia ser calcada em falsidade e em segredos. A cidade era feita disso: sangue, rubis e mentiras. Cada um, cada habitante, podia se sentir morrendo engasgado em seus próprios segredos. E pouquíssimas pessoas se importavam verdadeiramente. E, naquele momento, nem Noah e nem Alyssa eram aquelas pessoas.

Noah ficou em silêncio, se culpando por tudo até que a Alyssa se aproximou para que saíssem do banheiro. Joseph estava sentado em uma poltrona e assim que os viu, se levantou. Alyssa deu ao velho um sorriso envergonhado.

– Eu preparei um sanduíche pra você comer. Não vai ser bom para você ficar com a barriga vazia. E eu liguei pro seu pai e disse que vocês... Perderam a hora estudando e que vai dormir aqui. – Joseph sussurrou, sem julgar e se aproximou dos meninos. Ele deu um sorriso meio desajeitado aos dois. E foi ali que Noah percebeu que estava próximo ao seu pai novamente. E que não queria perder aquela ligação mais. – E eu também preparei o quarto de hóspede pra você dormir.

– Obrigada, Senhor Jacobsen. Eu nem sei como te agradecer. – Alyssa sussurrou e Noah sentiu como as mãos dela buscavam algo para lhe dar algum apoio. Ela agarrou seu moletom molhado, mas seus olhos estavam claramente confusos. E assustadoramente tristes. – Mas... Eu não quero dormir sozinha.

– Podemos colocar um colchão no quarto do Noah... – Joseph sugeriu em um sussurro e Noah apenas aceitou com a cabeça. Ele não queria que ninguém percebesse, mas estava prestes a surtar. O mundo estava caindo e Noah já não conseguia mais segurá-lo sozinho. Ele só queria chorar e se enfiar no fundo de um quarto escuro, mas teve que fingir que estava tudo bem. E guardar para si, mais uma vez.

– Eu vou só trocar de roupa. Lyssa, meu pai vai te levar pra comer alguma coisa. – Noah deixou Alyssa ali e correu para seu quarto. Ele deixou suas roupas molhadas pelo chão, e se esforçou ao máximo para não pensar em nada.

Mas era difícil para alguém como ele não pensar. E não se culpar. Ele pegou qualquer coisa e se vestiu, então se sentou junto a sua cama. A culpa estava engasgada nele: se sentia culpado por sua mãe, por Allegra e agora, se sentia mal por Alyssa. Todo o abandono, o medo e tudo pesava nele. Era como se ele carregasse o peso do mundo.

Ele coçou seu pulso com certa força, olhando para suas veias azuladas sob a pele pálida. Tentou ao máximo controlar sua respiração e enganar aquele nervosismo que o fazia ficar ainda mais desesperado. Não queria ter que tomar remédios, porque sabia que, assim como sua mãe, ele perderia o controle.

– Dumbo? – Alyssa sussurrou da porta e Noah ergueu a cabeça. Ele odiava aquele apelido, mas era quase automático atender a ele. O menino não fazia ideia de quanto tempo tinha se passado, então sorriu, sem jeito. Joseph estava atrás da menina, carregando um colchão enorme. O pai ajeitou a cama improvisada e sussurrou que, caso os dois precisassem, ele estaria no quarto ao lado.

Noah sorriu para o seu pai e deixou que ele fosse embora.

– Você me empresta uma roupa limpa? – Lyssa sussurrou e se sentou junto a cama. Noah assentiu e foi até seu guarda-roupa, pegou uma camisa limpa e ofereceu a menina. – Você está com raiva de mim?

– Não, tudo bem. – Noah mentiu. – Está melhor?

– Vou ficar bem. – Alyssa também mentiu. Mas eles não se importavam com as mentiras, não naquele momento. A menina se virou tirou seu vestido molhado e o colocou sob o criado mudo. Vestiu aquela camisa velha e surrada e se sentiu melhor com ela do que em qualquer vestido de marca que tinha comprado.

– Eu vou estar aqui no colchão se você precisar. –  Noah resmungou enquanto se sentava naquele colchão gelado e meio sem jeito. Aquela cama improvisada não era confortável e Noah nem conseguia se esticar. Seus pés tocavam o chão gelado toda hora e isso o deixava levemente irritado. Eles ficaram em silêncio mais uma vez, e sempre que isso acontecia, ambos ficavam incomodados. Alyssa respirava fundo e ele conseguia ouví-la revirando na cama, até que ela não aguentou mais o vazio do silêncio, e nem o da cama.

– Deite comigo. Eu não quero ficar sozinha. – Aquilo assustou Noah, mas ele não teve coragem de negar. Se levantou, desajeitado como sempre e se sentou em sua cama. Alyssa estava encolhida em um canto da cama de casal, era miúda como uma criança. E ela realmente era uma criança, assim como ele. Noah ficou surpreso como ela parecia delicada, extremamente diferente daquela menina que costumava ser a líder do caos da escola.

Noah se aninhou na cama, puxando seu velho cobertor por sobre seu corpo, Alyssa estava meio distante, mas ele podia sentir seu calor. Ele ficou deitado de barriga para cima, olhando para o teto.

Quando ele era pequeno e ainda morava em Portland, haviam planetas por todo o teto de seu quarto e eles brilhavam no escuro. Noah amava seus planetas e suas estrelas, amava toda aquela luz e se sentia bem quando via as estrelas brilhando, era como se ele tivesse seu próprio universo. Como se fosse o dono de alguma coisa.

Mas ali, não havia nada. Era apenas escuridão. E então, imerso naquele sentimento estranho, ele sentiu os dedos de Alyssa escorregando por seu peito até que ela deitou sua cabeça nele. Noah deslizou os dedos pelos cabelos de Alyssa e respirou fundo.

Ela estava ferida e também carregava o peso de um mundo.

– Estou com você. – Noah sussurrou. Ele não estava seguro daquelas palavras e não sabia se aquilo era verdade. – E vou sempre estar.

|∞|

Bloodstone, Louisiana

15 de Outubro de 2017

Noah se inclinou sobre seu computador e analisou a sua Playlist preferida no Spotify. Teve certeza que a maioria das crianças ali não tinham nem ideia de quem era metade daqueles cantores que Noah tanto idolatrava. Os garotos de Bloodstone High, que tinham acabado de sair da aula, começavam a se amontoar nas mesas confortáveis do Double A Café. Haviam adolescentes nos sofás, se enfiando nas mesas, se apertando no balcão para pedir um croissant de chocolate. Do lado de fora, longe do calor aconchegante da lareira da cafeteria e do burburinho ensurdecedor dos adolescentes, uma chuva fina rompia as ruas da cidade. Gotejando levemente por sobre carros e pessoas. Todos estavam correndo, mas ninguém parecia realmente saber para onde estavam indo.

A cidade parecia imersa em uma névoa eterna. E Noah gostava de dizer que aquela era a névoa das mentiras. Todos em Bloodstone eram um pouco culpados, escondiam seus segredos debaixo de sorrisos cordiais e de mentirinhas sociais.

Todos os habitantes da pequena cidade estavam mais que acostumados a aquele clima chuvoso e com o frio habitual da cidade, assim como estavam habituados as mentiras. As gotas de chuva faziam um barulho acolhedor e todos que queriam encontravam abrigo no estabelecimento de Jacobsen. Ao olhar pela janela, era mais que comum ver todos com seus guarda-chuva em dias como aqueles, andando pela rua ou correndo para não se molhar. Mas não era assim com Noah Jacobsen.

Sempre que chovia, ele saia do café e ficava alguns minutos na chuva. Noah simplesmente caminhava até a calçada e deixava a água cair sobre ele. As pessoas diziam que ele era maluco, mas ele nunca tinha dado valor a aqueles rótulos. Adorava a ideia da água escorrendo pelos seus cabelos, descendo pela sua nuca. Ele se inspirava com o toque gelado da água em sua pele, com o tamborilar da chuva por seu corpo. Tudo para Noah era cheio de significado, significados que somente ele podia dizer. O dono da cafeteria ficou em silêncio enquanto a música francesa começava a soar por todas as caixas de som do estabelecimento. Alguns adolescentes olharam para cima e se surpreenderam com a imagem de um filme antigo rompendo a parede do fundo da cafeteria.

Noah tinha quase certeza que a maioria daqueles meninos nunca tinham visto um filme em preto e branco em sua vida, nem mesmo ouvindo algo como aquilo. Ele se aproximou da lareira para esquentar seu corpo gelado pela chuva. O som suave do piano fez com que todo o lugar se enchesse de uma aura peculiar: o café parecia ter um cheiro mais forte, o chocolate dos croissants parecia mais doce e a saudade no peito começou a apertar. Noah era um profundo apreciador do silêncio e naquele momento, todos os adolescentes não conseguiam mais dizer nada.

Pareciam todos hipnotizados pelo som suave e pela voz melodiosa do homem com sotaque francês forte.

– Vocês já ouviram algo tão suave assim? – Noah disse tranquilamente enquanto cruzava os braços contra o peito. Alguns meninos se juntaram a ele, parando de frente para o projetor. A menina que usava saia longa se aproximou de Jacobsen, ele a olhou e lhe deu um sorriso. Um daqueles seus sorrisos enigmáticos que tanto despertavam interesse nas pessoas de Bloodstone. Noah não tinha notado, mas ele tinha se tornado um adulto. Um daqueles que os jovens admiravam e se apaixonavam.

No silêncio da cidade, do outro lado da porta do Double A Café, um carro escuro parou e um homem alto desceu da porta do motorista. Ele abriu a porta com muita educação e uma mulher usando um sobretudo vermelho desceu pela porta de trás. As pessoas que estavam nas ruas de Bloodstone corriam desesperados para se esconder da chuva, mas não a mulher de longos cabelos escuros. Todos estavam xingando e desviando dela, mas a mulher continuava parada no meio da calçada. Deixando que a água gelada beijasse sua pele. Era frio e revigorante.

As gotas de chuva dançavam por seus cabelos e lamberam sua pele. Ela nem se importou com a água gelada em seu Louboutin preto. Se esqueceu do preço da bolsa, dos sapatos e dos óculos. Se esqueceu de como suas costas doíam por causa da viagem e de como estava exausta. A chuva de Bloodstone era um presente.

A música de dentro da cafeteria era tão forte que Noah nem notou o barulho do sino da porta. Mas Kia percebeu. A garçonete notou a mulher baixinha que cruzou a porta sem muito jeito, confusa com sua bolsa e com seus sapatos de salto. Kia viu como ela usava óculos escuros mesmo com a chuva lá fora e quase riu daquela cena estranha, percebeu como os cabelos estavam molhados e como ela tinha um sorriso quase nostálgico nos lábios delicados.

Ela se desfez dos óculos, guardando-os no fundo da bolsa e deixou que os olhos muito azuis passassem por todos os cantos do estabelecimento. A mulher franziu as sobrancelhas, como se quisesse descobrir cada segredo da cafeteria. Kia quase conseguiu reconhecer aqueles olhos azuis. Ela era uma figura familiar, mas mesmo assim, distante. Como uma lembrança velha e embaçada.

– Oi! – Kia disse com um sorriso, se debruçando no balcão em direção a mulher. Só então Kia reparou que ela estava se desfazendo dos sapatos de marca e pendurando seu sobretudo junto com as capas de chuva. Kia teve certeza que só aquele sobretudo, pendurado como se não fosse nada, era mais caro que sua casa. – Eu posso te ajudar? – Ela era ainda menor do que Kia imaginava. O vestido também era bonito. Muito mais bonito do que todos os que Kia já tinha visto naquela cidadezinha.

– Eu gostaria de um pedaço desse bolo de chocolate e um cappuccino, com canela. – A mulher sussurrou enquanto deixava sua bolsa prada sobre uma das mesas. Kia também estava hipnotizada, mas era pelo jeito que aquela garota andava pela cafeteria. Os pés descalços, as unhas pintadas de preto, os passinhos delicados nas pontas dos dedos, como uma bailarina. Ela estava se movendo lentamente, olhando todas as prateleiras, deslizando os dedos pelas capas de couro dos livros.

Allegra conhecia aquela música, conhecia cada nota daquele piano, cada verso daquela canção. Tanto, que não conseguiu se conter e acabou balbuciando alguns trechos aleatórios. Se lembrava perfeitamente de quando ela tinha ouvido aquela música a primeira vez, de como Noah colocou um CD no rádio portátil de Alyssa e de como a loira revirou os olhos ao ouvir a música francesa. Ela se lembrava das mãos suadas de Noah tocando seu joelho nu, de como ele se inclinava na direção dela uma vez ou outra. De como ele se permitia sussurrar em seus ouvidos a tradução daquelas palavras.

Ela tateou livros, passou os dedos por Action Figuries, até que viu aquela foto, encoberta por livros e escondida pela poeira. Allie demorou um tempo até conseguir alcançá-la na parte mais funda da prateleira, ficando na pontinha dos pés como uma criança curiosa, mas quando seus dedos tocaram o alumínio gelado do porta-retratos, ela não conseguiu conter um sorriso.

Quando tinha deixado Bloodstone para trás, a única coisa que conseguiu carregar consigo eram as lembranças. As boas e as ruins. Quando fechava os olhos, durante alguns meses após o ataque, tudo o que ela conseguia ver eram aqueles rostos que estavam na foto. Seus amigos. Aqueles que faziam parte do grupo de excluídos. Tinham os que não estavam dentro dos padrões de beleza da cidade, os que escondiam segredos, os que simplesmente não se encaixavam nos rótulos que a escola queria dar a todos.

Eles eram diferentes. Mesmo com os pecados, mesmo sendo adolescentes, Allie sabia que eles eram únicos. Ela acariciou com o dedo cada um dos rostos naquelas fotos. As meninas, os meninos. Aqueles que eram parte dela mesmo sem ela saber. Allegra sentia saudades, mas também estava com o coração pesado de arrependimentos.

Uma das adolescentes puxou os dedos de Noah e fez com que ele perdesse a atenção da música. A garota disse algo, devia ser uma piadinha inteligente ou algo que ele deveria rir, mas tudo o que Noah conseguia ver era aquela mulher minúscula revirando as suas prateleiras, com a sua lembrança mais importante nas mãos.

– Você pode me dar licença? – O primeiro sentimento que o tomou foi a raiva. Noah teve de apertar os dedos contra as palmas das mãos com força para não começar a gritar ali mesmo. Teve que se conter o máximo que pode, não podia surtar ali, na frente daquelas pessoas.

Ele se conteve como pode, apertando as mãos com força, e então olhou para aquela mulher. Aquela completa estranha que apertava seu maior tesouro em seus dedos. Os cabelos úmidos dela escorriam pelos ombros, a pele era pálida e suave, como leite quente num expresso. O vestido tinha um decote de ombro a ombro, o tecido era preto, pesado, escuro como a noite. Aquele tom escuro deixava uma cicatriz nas costas daquela mulher bem a mostra, ainda mais avermelhada do que deveria.

Noah sentiu seu corpo tremer. Ele reconheceria aquelas marcas em qualquer lugar. E mesmo se não pudesse mais enxergar, Noah as reconheceria. Seus dedos tremeram antes dele conseguir alcançá-la. As lembranças eram nebulosas, confusas. A respiração era ofegante. O coração parecia trôpego no peito.

Era como ter treze anos mais uma vez. O mesmo suor nas palmas das mãos, os mesmos sentimentos confusos. Ele estava paralisado. Sem palavras. Foi então que tudo parou. Por um segundo, não havia mais música, nem o cheiro do pão de mel na vitrine. Não tinha mais sussurros animados dos adolescentes e nem mais o som do sino da rua. Não havia mais Kia com as bandejas ou a poeira dos livros.

Não haviam pessoas. Eram apenas os dois. Como sempre tinha sido.

O tempo que Allie levou para se virar pareceu uma eternidade para Jacobsen. Mas estava tudo ali, assim como ele se lembrava. Eram aqueles olhos azuis, aqueles lábios entreabertos que pareciam sempre esconder um segredo, os cabelos castanhos. Era ela. Em toda a sua pequenez, com aquelas sobrancelhas cheias de vida. Era ela. Com os pezinhos inquietos, perdida em seu próprio corpo como sempre tinha estado. Estava escondida em uma roupa de marca, debaixo de panos que deveriam custar mais do que a renda mensal de algumas famílias de Bloodstone.

Mas ainda, sim, era a sua Allegra.

Já Noah tinha mudado. Esticado como um trampolim e Allegra mal podia acreditar que caberia naqueles braços, como cabia anos atrás. Ele não era mais o mesmo. Não tinha mais as mãos pequenas; os braços pareciam muito compridos e as pernas pareciam medir um quilômetro; já não havia mais a franja despenteada escondendo a testa; seus lábios pareciam diferentes, como se já tivesse passado por muitas histórias e aquele olhar era um segredo. Ele estava maior, o nariz estava maior, as orelhas pareciam maiores. Nada nele se encaixava mais, mas mesmo assim tudo era familiar.

E, por um segundo, as palavras pareceram inúteis. Nenhuma palavra poderia traduzir, nada seria capaz de explicar aquilo que estavam sentindo. Quatorze anos tinham passado. Aquilo era uma vida. Mas, naquele exato momento, todos aqueles anos não eram nada. Era como se eles tivessem apenas fechado uma porta e a aberto outra vez.

Ainda havia a mesma ligação entre eles, como se os corações batessem no mesmo ritmo. E, quanto mais Allie apertava aquela foto contra seu peito, mais o coração de Noah acelerava e mais ele se sentia abraçado.

– Allie. – Noah sussurrou e esticou as mãos. Ele tinha dedos trêmulos. Demorou uma eternidade para que ele tocasse sua bochecha, para secar aquela lágrima silenciosa que brotou no olho de sua velha amiga. Tudo doía, corpo e alma.

Os corpos deles se atraíram e se encaixaram em um abraço que Allegra não tinha a décadas. Os braços longos dele não foram um problema, eles pareciam ainda melhores naquele momento, mais aconchegantes para um abraço. Ela deixou que sua cabeça caísse no peito dele e se permitiu chorar.

Era a primeira vez, em anos. Aquele choro era de verdade. De alegria. Por estar de volta a aqueles braços. De volta a aqueles mesmos braços de anos atrás.

Eles estavam mais calejados agora. Com cicatrizes que vinham de histórias que um jamais contaria ao outro. Seus corpos tinham passado por outros abraços, suas mentes tinham descoberto outros sentimentos. Eles não eram mais os mesmos.  Estavam feridos e velhos. Só que não haviam “porquês” ou “como”, eles eram feitos daquilo. De sentimento e silêncio.

E naquele momento, não havia mais nenhum barulho. Bloodstone era silêncio e calmaria.

Até que tudo ruísse. Mas não importava. Tudo o que eles tinham naquele momento era um abraço. E um sentimento.

E era amor.

 


Notas Finais


✔️ Link para a música que Noah escuta em seu café:
https://www.youtube.com/watch?v=iqUazoCayx0

Oi, oi! Tudo bem com você?
Ah, pessoas, vocês não imaginam como estou feliz e ansiosa. Este é o último capítulo antes de seus personagens começarem a habitar Bloodstone. Eu poderia derreter de felicidade. Sério! Obrigada a todos que já enviaram seus personagens. Eles estão sendo escolhidos com muito cuidado por mim e por uma amiga. Qualquer dúvida, eu entrarei em contato com vocês.

Aos que ainda não entregaram as fichas: falta só uma semana. AAAAAAA. Se precisarem de alguma ajuda, podem falar comigo, eu estou sempre disposta a ajudar!

Fiquem atentos a Timeline e também ao site de WIA, já que, em breve, colocarei no ar o site do nosso fofoqueiro T, assim como postarei os aceitos.
Estou muito ansiosa para embarcarmos nessa jornada e descobrir junto com vocês onde está (a porra da) Alyssa.

Obrigada por tudo. Amo vocês

Um beijo,
Fê;


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