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História Whispers in the dark - Capítulo 36


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Notas do Autor


Esse capítulo atrasou por conta que eu fiquei doente, já estou melhor (não preciso ficar ais de cama), mas talvez isso atrase uns capítulos já programados.

Enfim, neste capítulo teremos uma Azurah mais acessível, alguém que luta para se e Bem... Vocês verão. Espero que gostem e boa leitura!

Capítulo 36 - Marks of past


Fanfic / Fanfiction Whispers in the dark - Capítulo 36 - Marks of past

“Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva.”

Caio Fernando Abreu

 

 

Alguns dias se passaram desde o beijo entre Lia e Reiji, a partir de então eles não olham um na cara do outro e também decidiram não conversar comigo — que culpa eu tenho? Bem, toda eu sei. Por outro lado, também estive bastante ocupada esses dias, tentando lidar com Laito que quer transar todo dia e eu não aguento mais; Shu que parece que agora entrou para o time dos que me odeiam, pois nem olha na minha cara, Subaru me evita por tudo nesse mundo, assim como Kanato, Kou e Ruki. A única diferença está em Ayato, que começou a me tratar melhor de repente — melhor talvez seja muito forte, mas não brigamos tanto quanto antes —, o que é até bom, porque eu já tenho que suportar ódio demais nessa casa. Passo a maior parte do tempo com Yuma e Azusa, mais com este último, o qual parece ainda mais depressivo e introvertido por conta da briga entre seus irmãos, o que me faz sentir culpada, por isso gosto de passar um tempo com ele, conversando sobre coisas aleatórias e comendo comidas picantes, ficando de olho se ele não irá se machucar.

Reiji me evita mesmo quando vou perguntar sobre o seu progresso traduzindo aquele livro que Lia o entregou, ele apenas diz que está trabalhando nisto, mas que traduzir do latim não é uma tarefa simples e eu, sem opções, tenho que concordar com ele, desta forma dependendo dele e da sua tradução, o que é um problema porque não confio nele. Eu lido bem com a ignorância dos sanguessugas, mas ter que lidar com o fato de Lia estar me ignorando é mais difícil, talvez eu tenha sido um pouco babaca em forçar algo entre ela e Reiji, mas que culpa eu tenho se eles se sentem atraídos, eu apenas risquei o fósforo.

Hoje estamos juntas, tudo por conta de uma carta que recebi deste tal de L.M., por isso nós duas fugimos da escola. Eu estava feliz, tinha um pouco de liberdade e aproveitei para fumar um pouco, o que incomodou a ruiva, mas eu precisava disso, estou ficando muito ansiosa.

 

“Para Azurah.

Tenho algo para você, garota misteriosa. Você irá encontrá-lo no centro, em uma das sarjetas dos diversos becos. Tenho certeza de que gostará do que tenho para você. Mas não se esqueça de não contar nada para os seus vampiros, eles só irão atrapalhar, de preferência venha sozinha.

Que os espíritos de luz a abençoe!

~L.M.

 

Mesmo que na carta esteja escrito “de preferência venha sozinha”, Lia fez questão de vir, pois ela acha que esta pessoa é muito suspeita e por conhecer os Sakamakis pode ser alguém perigoso; somente não fui contra sua posição porque pensei que seria bom para nós sairmos juntas e, quem sabe, conversarmos novamente, contudo o silêncio é o grande dominante entre nós.

—Lia... —Ouso chamá-la. —Você está brava pelo o que aconteceu com Reiji?

—Claro que estou! —Exclama furiosa. —Você basicamente quis me controlar, Azurah. Você manipulou a situação para acontecer o que aconteceu.

—Eu posso ter dado um empurrãozinho, mas foram vocês que agiram por livre e espontânea vontade. —Digo em minha defesa.

—Você convenceu a mim e àquele vampiro de que um estava afim do outro, isso para mim é manipulação. —Explica com seu rosto sardento vermelho de raiva.

—Reiji gostava de você antes, apenas reparei nisto.

—Chega Azurah! —Pede enfurecida. —Não quero mais falar neste assunto.

—Isso é porque você gostou? —Pergunto maliciosa.

Ela lançou-me apenas um único olhar de seus olhos castanho-esverdeados, suficiente para me fazer calar a boca. Sei que estou fazendo pressão, mas às vezes eu não consigo evitar.

—Vamos focar nessa carta e tentar encontrar o que essa pessoa quer dar para você. —Lia não está nada satisfeita, ela não confia mesmo nisso.

Não é como se eu confiasse nessa pessoa que eu não sei nem a cara, porém ela pode ser a única a me levar até uma resposta, porque ou estou dependendo da tradução de Reiji ou desses fantasmas que parecem mais preocupados com os sanguessugas do que com a minha sanidade mental.

—Vamos ter que revirar todo o lixo? —Pergunto com nojo. Eu já fiz isso, é nojento.

—Você vê outro jeito? —Lia está sem paciência mesmo. 

Começamos a procurar, eu até sugeri que separássemos, no entanto a caçadora não está confiante e parece temer algo, por isso ficamos o tempo todo juntas, mesmo com o silêncio predominando durante toda a busca. Não queria que ela ficasse com raiva de mim por causa daquele maldito sanguessuga, mas no fundo eu mereço isso. Eu sempre estrago tudo. Lola tinha razão, estou condenada a ficar sozinha.

—Acho que achei alguma coisa. —Diz a ruiva se esticando para catar algo.

Corro até ela, mesmo que para mim seja mais difícil, porque esses becos são quase que completamente escuros e neste quesito Lia tem vantagem por conta de seus sentidos aguçados de caçadora. Aproximo dela e vejo uma espécie de colar, com uma pedra vermelha, parecida com um rubi, tão linda e brilhante.

—Será que era isso que essa pessoa quer me dar? —Questiono indecisa.

—Provavelmente. Ninguém jogaria fora uma jóia dessas. —Responde como se fosse óbvio. —Espera! Há algo escrito nele.

Eu apanho o colar da sua mão e corro até a rua, onde os postes de iluminação me permitem enxergar o que está escrito nele, contudo, não consigo lê-lo.

—Está em uma língua que não conheço. —Esbravejo entregando-o para a ruiva.

—É uma língua que eu nunca vi. Parecendo desenhos estranhos, na verdade.—Comenta analisando-o. —Mas se reparar bem, parece com os da sua medalhinha.

Meus olhos negros se arregalam com aquela suspeita. Puxo a medalhinha e aproximo-a desse misterioso colar e ambas, feitas de prata, tem certa semelhança, por mais que o colar é sem dúvidas mais chique.

—Isso significa...

—Que provavelmente foram feitos juntos. Ou pelo menos, pela mesma pessoa. —Completa Lia. —Isso parece ser coisa de família nobre.

—Mas eu... Não, eu não posso ser de origem nobre. —Nego.

—Por que não?

—Eu não aceitaria. —Digo com ódio. —Tudo o que eu passei, sendo que eu poderia ter uma boa vida... —Sinto o ódio crescer rapidamente dentro de mim.

—Azu... —Lia me chama, segurando meu punho cerrado. —Você quer saber suas origens para poder descontar suas frustrações?

Aquela pergunta me pegou totalmente desprevenida, sem que eu tenha uma resposta para tal. Sempre quis saber minhas origens porque, bem, eu mereço saber, é minha história, ela começa antes mesmo de mim; entretanto é verdade que eu gostaria de saber porque fui abandonada, porque tive que sofrer tudo o que sofri... Acho que tenho o direito de saber.

—O que fazemos com isso? —Questiono sem respondê-la, desviando o olhar.

Eu não estou pronta para responder isso, já que nem mesmo eu sei a resposta. Lia respeita, cortando o contato entre nós.

—Vou ver o que consigo com isso. —Ela guarda o colar em sua bolsa. —Já que não podemos contar com o Sakamaki para traduzi-la.

—Sim, ninguém pode saber. —Lembro-me das palavras da carta. Isso me deixa tão confusa, Yui diz que eu estou conectada aos sanguessugas e essa pessoa misteriosa diz que eles não podem interferir.

Venho a pensar o estranho sonho que tive, com Yui e aquelas taças. Se eu conseguir a confiança dos dez, será que a falecida noiva me dará alguma resposta concreta? Bem, não custa tentar. Na verdade, custa e muito! Não sei o que fazer sobre isso, acho que devo tentar; não comentei nada com Lia porque ela deve concordar comigo: já estou envolvida demais com esses sanguessugas. Já cheguei a cogitar que isso tudo não passava de uma ilusão, loucura da minha cabeça, mas como é possível eu sonhar com essa garota que nunca vi antes na vida, com essas mulheres, com eles quando crianças... Não faz o menor sentido. De acordo com o que sei, Yui parece ser morrido dezoito anos atrás, se for assim, ela morreu antes mesmo do meu nascimento.

—Tudo bem, Azu? —Lia não esconde sua preocupação enquanto caminhamos de volta ao colégio.

—Só estou pensando sobre tudo um pouco. —Confesso distante.

—Sei que ficamos distantes nesses últimos dias, mas quero que saiba que pode contar comigo. —Sorrio para ela, acho que contente pela sua preocupação.

—Obrigada Lia, de verdade. —Agradeço, de certa forma emocionada. —Mesmo que eu não seja uma boa amiga.

—Não posso falar muito porque nunca tive uma amiga, mas você não precisa pensar assim. —Lia é boa demais para mim. —Tem certeza que está tudo bem?

—É só que... —Eu solto um longo suspiro. —Estou cansada.

Lia me olha com preocupação, todavia não fala mais nada, ela sabe que eu não consigo me abrir com facilidade — na verdade, nem sei se consigo fazer isso. Muitas vezes tenho vontade de chorar, mas eu já não sei mais como fazer isso, por isso o sofrimento fica entalado na garganta e nunca sai, acumulando-se até o momento em que irei explodir. Felizmente agora Yuuki vem me dando calmantes para dormir, isso facilita com que eu não tenha pesadelos e possa descansar, porém mesmo assim me sinto mal, acho que o problema é aquela mansão, eu odeio aquele lugar e aqueles sanguessugas. Às vezes, eu penso se um dia conseguirei encontrar alguma paz, se há algum lugar para mim nesse mundo.

Estamos caminhando quando, de repente, sinto um aperto no peito, um mau pressentimento, muito semelhante àquele que senti no cemitério.

—O que houve? —Pergunta ao ver meu estado, porém logo começa a pressentir algo também. —Há um vampiro por perto...

Como eu temia, estamos sendo seguidas.

—Eles vieram atrás de mim, é melhor você ir. —Digo pedindo para que ela me deixe.

—Eu não vou te deixar com quem quer que seja. —Diz determinada.

—Lia, há algo que eu não contei a você. —Confesso com esse mau pressentimento mais agudo. —Os Mukamis estão aqui por sua causa.

Isso assusta a caçadora, pois ela sabe que os Mukamis são servos de Karlheinz.

—Eu quero que você deixe isso comigo, eu sei me virar. —Digo parecendo o mais corajosa que posso. Quero protegê-la, recompensa-la por tudo o que está fazendo por mim.

Mesmo a contragosto, a ruiva sai correndo, enquanto eu fico ali parada por um tempo, somente para vê-la se afastar segura. Escuto o som de um trovão, informando que uma chuva está se aproximando. Parece que o trovão é sempre um anúncio do pior. O mau pressentimento não desaparece do meu peito, mesmo quando sigo o caminho oposto ao de Lia, seguindo até a mansão Sakamaki.

Aos poucos, vou me acalmando, porém não abaixo a guarda, porque sei que tem alguém me seguindo, mesmo que eu não o veja. Quando vou me aproximando de uma rua menos movimentada, sinto minha boca ser tampada por uma mão fria e sou arrastada para um beco escuro.

—O que pensa que estava fazendo? —Pergunta muito perto do meu ouvido.

Reconheço sua voz na hora e tento me soltar dele, porém sua força está aumentada, mesmo que a lua cheia não esteja brilhando no céu por conta das nuvens, provavelmente ele sente a diferença.

 

—Calminha, Neko-chan. Não adianta lutar. —Eu não posso ver seu rosto, mas muito provavelmente ele sorria sadicamente.

 

Aos poucos eu vou relaxando, sabendo que realmente não adianta lutar como uma desesperada. 

—Bem melhor. —Diz me abraçando com firmeza. —O que você estava fazendo por aqui, hum? Encontrando-se com o seu amigo caçador de vampiros?

Eu quero rebatê-lo, mas o maldito está tapando a minha boca.

—Você quer dizer algo? —Balanço a cabeça em positivo. —Não sei, acho que prefiro você assim... Calada.

Eu tento morder sua mão, contudo ele é eficiente em segurar meu queixo e me imobilizar.

—Eu sou o único que morde aqui, Neko-chan. —Diz maliciosamente em meu ouvido. —Melhor você se comportar, para não me ter como seu inimigo.

—Kou-kun... Por favor, me solta. —Peço assim que ele libera a minha boca, respirando pesadamente.

—E o que eu ganho com isso? —Sinto que ele está cheirando o meu pescoço. —É tão estranho você não ter cheiro, isso dificulta que eu lhe encontre, Neko-chan.

—Kou-kun, nós podemos conversar sobre isso, apenas me solte. —Eu odeio a forma como ele está me agarrando.

—Que garantia eu tenho que você não vai fugir? —Questiona desconfiado. Realmente não posso dar nenhuma garantia. —Neko-chan, você sabe que eu estou com muita raiva de você, hum? Eu e meus irmãos brigamos por sua causa.

—Eu já disse que não era o que eu queria. —Confesso tentando não demonstrar fraqueza diante do loiro. —Mas foram você e Ruki-kun que vieram atrás de mim.

—Bem, é verdade. —Ele surpreendentemente concorda. —Eu reagi mal aquele dia e isto me custou uma briga com meus irmãos.

—Eu posso ajudar, Kou-kun. —Proponho, tendo uma ótima ideia. —Eu me dou bem com Yuma-kun e Azusa-kun, posso conversar com eles, sei como eles estão para baixo por conta da briga.

—Você faria isso, Neko-chan? —Pergunta afrouxando um pouco o seu aperto. Excelente!

—Claro! Eu gosto dos dois e a última coisa que quero é uma família destruída por minha causa.

—Sabe Neko-chan... Eu não confio em você. —Ele usa uma das mãos, aquela que tampava a minha boca, para espremer o meu pescoço. —Eu tenho muita raiva de você, principalmente porque você é imprevisível.

Por que ele me odiaria por isso?

—Penso se você é melhor do que eu, com esse seu rostinho lindo que os meus irmãos não resistem.

—Kou-kun... Eu… não consigo... 

—Respirar? Eu acho que esse é o objetivo. —Ele aperta com mais força. —Eu acho melhor você colaborar, Neko-chan. Ou...

 

Não o deixo terminar, apanho a minha adaga, com muita dificuldade, e perfuro o seu ombro esquerdo, fazendo-o urrar de dor e me soltar. Tossi procurando por ar, enquanto meu pescoço ainda dói pela imensa força que ele utilizou; seguro minha adaga com firmeza, observando o loiro que agora sangra muito.

—Sua estúpida! —Exclama com muita raiva. Seu olho direito tem aquele brilho avermelhado, agora muito forte e evidente. —É melhor você correr, Neko-chan.

E é exatamente o que eu faço. Não sei porque, eu estava com a adaga na mão, ele estava sangrando, mas mesmo assim não consegui matá-lo, como se algo me impedisse; talvez seja por conta da conexão que sinto com os dois Mukamis mais novos, porém isso não importa agora, pois eu tenho que dar um jeito de me livrar desse ídolo sádico. Tenho a vantagem dele estar sangrando, mas é lua cheia e eles ficam mais fortes... Droga! Eu não tenho muito o que fazer, deveria tê-lo matado quando tive a oportunidade.

—Neko-chan! —Ele me chama, enquanto eu apenas corro.

As ruas estão vazias, porque há o perigo da chuva e já é incrivelmente tarde, sem falar que as ruas da estrada que levam à mansão são sempre pouco movimentadas e hoje não seria uma exceção. 

—Te peguei. —Ele puxa o meu braço e faz meu peito se chocar conta o dele. —Você achou mesmo que eu fosse te deixar escapar? —Em seu rosto, posso perceber o quanto o ferimento está dolorido.

Não me importo, pois não hesito em chutar seu joelho, o que o faz soltar outra exclamação de dor e me liberar, permitindo que eu possa escapar. Fui tão descuidada e apressada, sentindo um certo medo do que ele poderia fazer comigo, que não reparei que, ao tentar atravessar para o outro lado da rua, um caminhão vinha em minha direção e a única coisa que eu pude ouvir foi a buzina do veículo.

 

Rapidamente, sinto meu corpo ser quase que arrastado para o lado e jogado contra a sarjeta, chocando-se com o asfalto, porém não tão brutalmente como se eu tivesse sido atropelada. Abro meus olhos negros e dou de cara com aqueles olhos azuis claros, olhando para mim com uma espécie de preocupação que eu não compreendo; minha respiração se acelera, com nossos rostos tão próximos, e eu simplesmente não entendo o porquê dele fazer isso.

—Sua louca... —Esbraveja saindo de cima de mim, com uma expressão ainda mais dolorida.

—Kou! —Exclamo ao ver quanto sangue ele estava perdendo. 

Um trovão é ouvido e uma fina chuva começa a cair. Droga, ele me salvou, agora não posso deixá-lo nesta situação.

—Aqui. —Tiro meu casaco e penso em amarrar em seu braço. —Você precisa estancar o sangue...

—Não preciso disso. —Me afasta com todo o seu egoísmo. —Eu sou um vampiro, não...

—Você não é um vampiro puro, não é tão forte quanto os outros. —Digo autoritariamente. —Pode não morrer, mas está perdendo muito sangue. Sem falar que você foi ferido com uma adaga de prata, isso não irá se curar tão fácil.

Ajudo-o a se levantar, enquanto ele pressiona o meu casaco contra a ferida que causei. Ele está fraco, mas com certeza irá sobreviver.

—Se apoie em mim. —Peço enquanto ajudo-o a caminhar.

—Você está fazendo isso porque eu te salvei? —Pergunta com dificuldade.

—Achei que você, melhor do que ninguém, entende o “take-and-give” desse mundo. —Respondo ironicamente.

—Você é realmente imprevisível, Neko-chan. —Solta um riso abafado.

Já não sei se isso é algo bom ou não.

 

Chegamos à mansão molhados por conta da chuva, mas nada que fosse tão ruim quanto o machucado do ídolo. Acho que agora ele não parece me odiar tanto, principalmente porque ele sabe que eu poderia tê-lo matado em vários momentos, mas não o fiz. De repente, aquela empatia que sinto pelo seus dois irmãos começa a florecer com ele também, mesmo que não pareça tão intensa. Quando o vejo assim, sangrando, lembro-me daquela visão dos quatro fugitivos, como Kou sangrava naquela época, lógico que bem mais do que agora, mas sua expressão de dor parecia causar algo em mim — eu sentia que tinha que concertar aquilo.

—Vou levá-lo ao meu quarto, lá eu posso cuidar do seu ferimento. —Digo já subindo as escadas com o loiro.

—Nem está tão feio. —Comenta já mais recuperado.

—Não importa! —Exclamo decidida. —Deixe-me cuidar disso, eu preciso recompensa-lo por ter me salvado.

Kou entende o que eu digo, apenas não parece entender porquê faço isso. Parece que eu também não o odeio tanto assim.

Chegamos no meu quarto e eu coloco-o sentado na minha cama, para depois ir até a penteadeira para pegar uma caixinha de primeiros socorros, apanhando tudo o que preciso para cura-lo. Acabo espirrando. Droga, ótimo momento para pegar um resfriado por causa dessa chuva.

—Kou-kun, tire a blusa para eu poder limpar melhor o seu ferimento. —Ordeno trazendo tudo o que preciso até ele.

—Você é mesmo uma gatinha muito safada. —Satiriza, rindo mesmo com dor. Eu apenas o encaro severamente. —Okay~ 

Ele tira o casaco e começa a desabotoar a camiseta do seu uniforme, no entanto acaba se atrapalhando todo com os botões.

—Eu sou péssimo com isso...

—Merda! Deixa que eu faço. —Digo impaciente.

Eu faço aquilo com muita facilidade, não entendendo o que esse ídolo vê de tão complicado nisso. Seus olhos claros estão vidrados em mim, com um olhar que me deixa um pouco incomodada, pois sei que ele está me analisando, além de que estou molhada e com essa blusa branca do uniforme provavelmente dá para ver o meu sutiã de renda.

—Obrigada, eu assumo daqui. —Ele diz antes que eu tirasse tudo.

Mesmo que eu dissesse que não, Kou levantou-se para tirar a blusa, manchada quase que inteiramente de sangue. Quando ele fez isso, eu pude ver as suas costas. Meus olhos negros olham horrorizados para as suas cicatrizes tão profundas, com meu olhar chegando até a vacilar e meu coração se acelerar de maneira descontrolada, sentindo-me tonta.

—Neko-chan? —Kou me chama. 

Eu me sento na cama, tentando controlar minha respiração.

—Kou-kun... as cicatrizes... —Sou incapaz de dizer, meu olhar está trêmulo.

—O que? Elas te chocaram? —Como ele pode falar dessa maneira, tão pacífico?

—Deixe-me cuidar da sua ferida. —Peço desviando o olhar, visivelmente desconfortável.

Kou senta-se novamente na cama e eu passo um pouco antisséptico na ferida, com o loiro fazendo algumas caretas, mas ele não diz nada. Sei que seus olhos estão cravados em mim, provavelmente porque não entende a minha reação, enquanto eu não sei como lidar com isso; minhas mãos chegam a tremer enquanto limpo seu ferimento e enfaixo-o, de maneira que ninguém irá perceber.

—K,Kou-kun... —Chamo-o gaguejando. —Como você conseguiu essas cicatrizes?

Eu não consigo olhá-lo nos olhos, coisa incomum para mim, porém tenho medo de olhar e revelar coisas demais. O loiro bufa, cansado.

—Digamos que um garotinho iludido tinha um pequeno ideal de conhecer o mundo, imaginado ser o paraíso, mas na verdade descobre que é o inferno. —Ele encara o teto, enquanto eu continuo a cuidar dele. —Eles dão roupas limpas e boa comida, mas isso é apenas um bom pretexto para eles te usarem. Quando você é a criança mais bonita, esse é o preço a se pagar por receber essa dádiva.

Não sei o que deu em mim, minhas mãos tremem muito e sinto meus olhos se umedecerem, de forma que eu sinta uma lágrima escorrer — uma única e solitária lágrima após tanto tempo.

—Neko-chan, você está chorando. —Comenta Kou olhando para mim. —Minhas palavras a entristeceram?

Eu seco essa rebelde lágrima que escorre e então me levanto. Não sei porque estou fazendo isso, mas, em meu interior, eu sinto que preciso fazer. Começo a desabotoar a minha camiseta, o que deixa o loiro confuso, principalmente quando meus olhos tristes encaram os seus que parecem como vidro, os quais quebrariam facilmente. 

—N,Neko-chan... —Ele gagueja assim que tiro a camiseta, mas não dou tempo para ele admirar as minhas curvas, pois eu viro de costas.

É a primeira vez que faço isso, porque eu sempre tive vergonha das minhas cicatrizes, sempre achei que elas iriam, de alguma forma, me estragar, dizendo para mim que eu jamais encontraria a perfeição que tanto almejava. No entanto, ao olhar para Kou e ver como as suas não faziam efeito nele, isso me atingiu de uma forma inexplicável, porque acho que jamais conseguirei aceitar esse meu lado sujo e feio.

—Você... —Sua voz sai trêmula, assim como a minha de minutos atrás.

Ele olha para as cicatrizes que não são tão profundas quanto as dele, mas que são igualmente marcadas em minhas costas, assim como os hematomas que tenho nas costelas. Depois de um tempo assim, eu volto a me sentar ao seu lado na cama, cabisbaixa e envergonhada.

—Eu nunca imaginei... —Ele começa a dizer.

—Eu também. —Confesso, agora olhando para aqueles olhos claros. 

Eu jamais pensei em encontrar alguém que poderia me entender, que podia entender o que é ter que carregar as cicatrizes do seu trágico passado, entender como é olhar-se no espelho e lembrar... Dói demais! Eu e Kou estamos muito próximos, de maneira perigosa, sentindo a respiração um do outro e olhando profundamente nos olhos, cada um parecendo expor um pouco de suas dores.

A mão direita dele vem até meus fios negros, colocando-os atrás da orelha e eu sinto uma certa paz inexplicável nesse momento, olhando para esses olhos de um brilho diferente. A distância é encerrada por Kou, que me puxa para um beijo voraz, o qual faço questão de acompanha-lo, sem que eu entenda como uma conexão entre nós aconteceu tão rápido. Acabo me sentando no colo dele e puxando-o para um beijo ainda mais luxurioso, que ele incentiva com sua mão direita correndo pelas minhas costas, gerando um choque término entre o seu toque gelado e o meu corpo ardente.

Nos separamos quando o ar faltou e ficamos nos encarando por um tempo, o qual pareceu tão longo e importante para mim, pois eu encontrei um semelhante naqueles olhos claros. Kou desce seus lábios até meu pescoço, onde ele morde, fazendo com que eu libere um som agudo da minha garganta; suas presas se afundam, de forma que eu sinta o seu desejo crescente e o meu corpo se aquecer imensamente.

—Tão quente... —Ele diz lambendo onde mordeu. —É amargo, mas não de um jeito ruim.

Ele morde novamente e eu só deixo que esse prazer doloroso me aqueça e traga algum sentimento para me preencher, mesmo que naquele momento eu sinto que não é tão necessário. Kou para de morder para voltar a me encarar, lambendo o sangue que mancha seus lábios.

—Neko-chan... —Ele me chama e eu o olho profundamente. —Azurah... Por que? —Não entendo, não entendo nem porque ele me chamou pelo nome. —Acho que sempre quis alguém que sofresse o mesmo que eu, de certa forma, mas agora que vejo você, não quero mais isso.

—Entendo o que você quer dizer, Kou. —Diga passando a mão por seus cabelos loiros molhados, tão macios. —Eu não sei como reagir ao fato de você ter cicatrizes parecidas com as minhas.

—Há algumas pessoas que apreciam as coisas quebradas, coisas imperfeitas. —Diz perdido na minha obscuridade. —Me desculpe, Neko-chan. Eu fui um babaca com você.

—Desculpe por destruir a sua família. 

—Não foi sua culpa, pode ter certeza. —Lamenta um pouco constrangido. —Ainda está de pé aquela ideia de você ajudar eu e meus irmãos?

Acabo rindo.

—Sim, não quero que fiquem brigados. —Ele também sorri, um sorriso muito bonito. —Achei que não confiasse em mim.

—Não sei, mas sinto que o que aconteceu nesse quarto é só o começo. —Seus braços envolvem a minha cintura, porém com esse movimento ele acaba fazendo uma careta de dor. —Droga, ainda está dolorido.

—Acho que assim você aprende a não brincar com uma garota com uma arma. —Satirizo rindo, enquanto saio de seu colo. —Você pode ficar aqui se quiser.

—Acho melhor ir para o meu quarto, porque se Ruki me encontra aqui, ele vai surtar. —Brinca levantando-se sem precisar da minha ajuda. —Neko-chan, não se preocupe. Não irei contar a ninguém sobre seu encontro às escuras com quem quer que seja.

Então ele não sabe sobre a Lia... Fico um pouco mais aliviada com isso.

—Você irá mentir para Ruki-kun? —Questiono confusa, sei que eles estão aqui por causa desse tal caçador de vampiros.

—Acho que seria o que a minha velha M Neko-chan diria para mim... Para seguir o meu coração. —Não entendo o que ele diz. Ele fala da Yui? —Não entendo, mas acho que ele está dizendo para eu apoiá-la.

Antes que ele vá, retorna para selar novamente nossos lábios, como se para selar o nosso segredo. Realmente não entendo porque Kou está fazendo isso, provavelmente irá usar isso contra mim em algum momento, porém isso não impede de meu coração bater acelerado e ser preenchido novamente por essa empatia inexplicável, mesmo quando nossos lábios se separam. A última coisa que meus olhos negros veem são as marcas do passado trágico do ídolo, marcados nas suas costas assim como marcam na minha — um passado de violência.


Notas Finais


Para aqueles que achavam que Kou e Azurah tinham muitas coisas em comum: é verdade. Eu quero explorar essa semelhança é que pode deixar muitos sanguessugas com ciúmes. Espero não ter sido muito apresada com a relação dos dois, porém também não quero enrolar demais.

Deixem nos comentários o que acharam. Prometo continuar muito em breve com a reconciliação dos Mukamis (?). Acho que é isso... Bjus vampirinhos 🖤😘
Encontre-me: https://llilithy.tumblr.com/


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