História Wicked Heart - Capítulo 14


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Categorias Candelaria Molfese, Karol Sevilla, Ruggero Pasquarelli
Tags Lutteo, Ruggarol, Ruggelaria, Soy Luna
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Palavras 6.637
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Ficção, Ficção Adolescente, Hentai, Poesias, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Não postei ontem porque viajei e mal tive tempo de fazer alguma coisa. Passei muito mal e não deu. Então, cá estou eu.

Boa Leitura. ♡

Capítulo 14 - Chapter Fourteen.



É domingo à noite, antes de nossa terceira semana de ensaios, e acabo de me acomodar para uma noite tranquila, me enchendo de queijo, e quando estou prestes a desligar o celular, um olhar rápido na tela mostra uma linda morena, com a legenda “Cassie Taylor, Domadora do Ethan”. Quando atendo, uma voz animada grita:

— Você está na tv.

Afasto o aparelho do meu ouvido. Não é de se admirar que a noiva do meu irmão seja uma ótima atriz. Sua projeção vocal poderia estilhaçar um vidro.

— Oi pra você também, srta.Taylor.

— Não, é sério — diz Cassie, e abaixa um pouco sua voz. — Você está na tv. E está incrível.

— Estou no segundo plano.

— Sim, mas parecendo maravilhosa no segundo plano. Eles fizeram algumas  filmagens de você.

O primeiro episódio de Ruggelaria: Um romance de conto de fadas vai ao ar hoje à noite. Jorge está assistindo na sala, com um caixa de cerveja e uma pizza, certo de que esse show será o início de seus quinze minutos de fama.

— Lá estou eu! — grita ele ao mesmo tempo que Cassie.

— Jorge! Lá está o Jorge!

— Caramba, estou bem — grita ele, e Cassie faz coro.

— Fale pro Jorge que ele está ótimo. Um nerd sensual em sua melhor forma.

Quem diria que um reality show poderia deixar as pessoas tão entusiasmadas?

Ouço a voz do meu irmão murmurando alguma coisa, seguido de um grito de dor. Cassie volta ao telefone e diz:

— Ethan disse pra te dizer que você parece mais magra na tv e queria saber que tipo de efeito especial de edição eles estão usando pra fazer isso acontecer. Não se preocupe, já bati nele por você.

Eu rio.

— Tenho muito mais tempo livre agora que você está por perto pra chutar sua bunda vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Obrigada.

— Ah, não se preocupe. Gosto de castigar seu irmão. Muito.

Ouço Ethan gritar.

— Por favor, não conte à minha irmã sobre nossa vida sexual. Essa droga é particular.

Cassie diz para ele se calar.

— Ah, outra imagem sua! E lá está Marco atrás de Candelaria! Ah, sentimos falta de vocês.

Estou evitando assistir. Estou feliz por Rugg ter conseguido cortar minhas falas comprometedoras sobre ele, mas ainda assim não preciso assistir a uma hora de programa sobre seu amor eterno por Cande. Não quando vejo suas demonstrações de afeto todos os dias, de perto e pessoalmente.

— Certo, então — diz Cassie, me lembrando que eu deveria estar conversando com ela e não contemplando minha vida amorosa inexistente. — Jantar, no próximo domingo. Desde que você saiu do nosso espetáculo, Ethan e eu mal a vemos, e quero os carinhos da Karol, caramba.

— Ótimo. Domingo — respondo —, mas só se Ethan cozinhar. Não você.

Cassie é possivelmente a pior cozinheira do planeta. Na verdade, não, ela e sua colega de quarto, Ruby, empatariam. Uma vez, elas me convidaram para jantar, quando todas estávamos estudando na Grove, e, juro por Deus, meu aparelho digestivo nunca mais foi o mesmo.

— Karol Sevilla. Você está zombando do meu conhecimento culinário?

— De modo algum. Sua comida faz isso por si mesma.

Cassie solta suspiros dramáticos.

— Ei! Sua mãe tem me ensinado. Estou melhorando na cozinha, obrigada.

Duvido. Minha mãe pode comandar um bufê, mas ela não faz milagres.

— Sim, mamãe me disse que o bombeiro foi chamado no outro dia, quando ela estava te ensinando a fazer caramelo.

— Isso é verdade, mas, em minha defesa, aquele açúcar derretido virou uma larva em uma fração de segundos. Tinha acabado de tirar os olhos dele, só o tempo de beijar seu irmão.

— Ai, que nojento. Posso imaginar o amasso que estava acontecendo enquanto o pobre caramelo entrava em combustão.

Cassie ri.

— Culpo o Ethan. Se ele não ficasse me distraindo com sua beleza, eu seria uma chef agora. Sua mãe o proibiu de ficar na cozinha comigo. Caramba, a Maggie pode ser uma estraga-prazeres às vezes.

Sorrio enquanto imagino o quanto Cassie está fazendo manha agora.

— Então, pra esclarecer, Ethan vai cozinhar no domingo, certo?

— Se você insiste. Às sete da noite, na nossa casa?

— Combinado.

— Como os ensaios estão indo? Ruggero Pasquarelli é tão maravilhoso pessoalmente quanto é na tela?

— Cassie, você vai se casar com meu irmão. Não deveria notar outros homens.

— Ah, por favor — diz ela com uma risada. — Como se qualquer homem um dia fosse competir com Ethan. Mas uma mulher pode apreciar belos exemplares de homens, mesmo que ela esteja fora do mercado. Só uma fantasia. Ele é tão sexy quanto pareceu em Rageheart? Ou só fica bem com maquiagem de demônio?

Fecho os olhos. Rugg ficou incrível em sua maquiagem de demônio. Pele cinzenta, cabelo preto e olhos brilhantes e azuis. Músculos torneados que quase nunca estavam cobertos por uma camisa. Sexy como numa espécie de revista em quadrinhos fantástica.

Mas Rugg em carne e osso era ainda mais impressionante.

— Lindo — admito a contragosto.

— Eu sabia! — exclama Cassie. — Ele parece ser de comer nesse reality show. Mas por favor, me diga que Ethan e eu nunca parecemos tão nauseantemente apaixonados. Esses dois são como Ken e Barbie, se ela fosse uma ruiva alegre e Ken tivesse pênis e sex appeal.

Eu rio. Se ela soubesse o quanto de pênis e sex appeal Rugg tem.

— Sim, eles são bem nojentos.

— E Candelaria Molfese? Ela parece mesmo uma querida… Mas não sei. Ninguém pode ser assim tão perfeito, pode?

Suspiro.

— Aparentemente, pode. Ela é uma boneca. Rugg e ela têm uma química incrível juntos, e é isso que as pessoas vão ver.

— Como eu e Ethan, então. Mas não é segredo que Ethan carrega nossa peça nas costas e estou ali apenas para me esfregar nele em frente a uma plateia lotada. Ainda não entendo por que sou paga pra isso.

— Ah, cale a boca. Você é uma atriz incrível e sabe disso.

— É. Eu sou.

Tem outra ligação para mim, e quando olho para a tela, meu coração dá um salto.

— Hum, Cassie? Preciso ir. Vejo você no domingo?

— Sim, vejo você domingo. Serei banida da cozinha. Amo você!

Desligo e atendo o outro telefonema.

— Rugg?

— Ei. — Ele parece péssimo.

— Você está bem?

— Não mesmo — responde ele. — Tive um dia ruim.

— O que aconteceu?

— Não quero falar sobre isso por telefone. Você pode me encontrar?

— Onde você está?

— Em um bar. Um bar muito ruim.

— Quanto você já bebeu?

— Não o bastante. Venha e beba comigo.

Eu quase respondo “tudo bem” antes de ser atingida pelo meu bom senso.

— Não acho que seja uma boa ideia.

— Por favor, Ka. Preciso de uma amiga hoje à noite.

— E Cande?

— Tivemos uma briga. Eu comecei, mas ainda assim. Preciso de um tempo. Preciso de você. Por favor.

Suspiro e pressiono a mão sobre os olhos.

— Rugg, eu não deveria.

— Você deve. Estou próximo da esquina da 50a com a 9a. O bar se chama Badger’s Den. Venha apenas pra uma bebida e eu te deixarei em paz. Juro. Droga, eu deveria dizer não, mas não consigo.

— Certo. Estarei aí em quinze minutos.

Depois de desligar, tiro minha calça de comer queijo e visto meu jeans.

Depois me maquio e vou para a sala.

Jorge está franzindo a testa para a tela de seu computador.

— Inacreditável — murmura.

— O quê?

— Só lendo a hashtag Ruggelaria no Twitter. Parece que tem um monte de mulheres odiando Cande só porque ela está com Pasquarelli. Meu Deus, os comentários são grosseiros. — Ele pega o celular. 

— Quem está ligando?

— Cande. Espero que ela não esteja lendo nada disso, e se está, ela precisa saber que é tudo besteira. — Antes de atender, ele olha para mim. — Onde você está indo?

— Encontrar Rugg. Ele está em um bar. Acho que posso tirá-lo de lá antes que alguém o reconheça.

— Certo, boa sorte com isso. Essa peça fará dele um alvo ainda maior. Apenas se certifique de ficar fora do caminho se ele começar a dar socos, tudo bem?

— Combinado. — Pego as minhas chaves na mesa e enfio na bolsa.

— Vejo você depois?

— Ficarei aqui.

Quando fecho a porta, ouço-o dizer:

— Ei, Cande. É o Jorge. Você está bem?

Vinte minutos depois, eu estou vagando pela 50 a procurando o Badger’s Den.

Acaba que eu o encontro facilmente. Se uma fábrica de lâmpadas e o vírus Ebola se conhecessem e dessem à luz um bar, seria parecido com esse lugar.

— Argh.

Contra todos os meus instintos, empurro a porta e entro. Está escuro e cheira a cerveja choca e solidão. Há um cara sentado próximo da porta vendo tv, que fica nos fundos do bar, e as únicas pessoas no lugar são um casal de meia-idade  dando uns amassos numa mesa de canto. A mão do cara está sob a mesa, ou ele está tocando a mulher em regiões muito especiais ou aquela taça de vinho tinto é boa de verdade.

Que amor.

Vejo um vulto familiar perto da parede oposta, sentado a uma mesa, sozinho.

Quando me aproximo, Rugg me olha e sorri.

— Ka. — O modo como ele diz meu nome soa como um suspiro de alívio. — Estou tão feliz por você estar aqui. O que vai beber? Vamos, eu pago.

Ele se levanta e me abraça para me levar até o bar.

O bartender aparece e nos cumprimenta com um aceno de cabeça.

— O que vai ser?

Dou de ombros e aponto para a mulher no canto, que agora está gemendo claramente, enquanto bebe.

— Vou beber o que ela está bebendo.

Rugg olha para o casal e faz uma careta.

— Deve ser um vinho bom.

— Não é?

Rugg pede o uísque mais caro do lugar, o que lhe custa um total de seis dólares. Quando nossas bebidas chegam, voltamos para nossa mesa.

Bebo meu vinho e estudo Rugg. Ele parece odiar o mundo no momento, e eu não sei o motivo.

— O que está acontecendo com você? — pergunto. — Brigou com Cande?

— Ultimamente, parece que estou sempre brigando com ela.

— Por quê?

Ele dá de ombros.

— A peça. O casamento. As malditas câmeras sempre presentes. Tudo isso.

— Vocês parecem felizes.

Ele ri com amargura.

— Claro que parecemos. É assim que deve ser.

Seu celular vibra sobre a mesa. Quando ele o pega e toca na tela, uma voz feminina e sintetizada sai do altofalante: Ruggero, onde você está, droga? Telefone pra mim quando ouvir esta mensagem.

Franzo a testa.

— O que é isso?

— Um aplicativo pra transformar mensagens de texto em mensagens de voz. Funciona com e-mails também.

— Isso é legal.

— Sim. Teoricamente é pra pessoas cegas, mas também funciona para idiotas disléxicos. — Ele desliga o celular e o põe de volta na mesa.

— Era a Cande?

— Sim. Era para eu estar em uma festa que o canal está dando por causa da estreia do reality show. Apenas mais oportunidades para fotografias. Como se o mundo precisasse de mais imagens idiotas de nós dois. Como as pessoas já não estão enjoadas? Somos como as Kardashian. Estamos em todos os malditos lugares.

— As pessoas amam vocês. Vocês são uma inspiração.

Ruggero ri.

— As pessoas não têm ideia. Se nos conhecessem de verdade, elas nos desprezariam.

— Por quê?

Ele toma outro gole do uísque.

— Taaaantos motivos.

— Algum sobre o qual você queira conversar?

— Sim, mas eu meio que gosto de você me olhando como se eu não fosse um monte de merda, então vamos deixar pra lá.

Intrigante. Não quero forçá-lo a falar mais sobre seus problemas com Cande, porque isso poderia me fazer parecer insensível, mas, caramba, eu realmente queria saber.

Algumas pessoas entram no bar. Um homem na casa dos trinta anos avalia o lugar antes de se sentar no banco mais próximo a nós.

Tomo meu vinho. Tem um sabor horrível. A mulher entusiasmada no canto nem mesmo está fingindo tomar o dela. Ela e o Andy Mãozinha estão dando uns amassos mais ousados. É fascinante.

— Amantes — diz Rugg, apontando para eles.

— Você acha?

— Sim. Este bar? Aquela mesa? Definitivamente tentando ficar fora do radar. — Ele aponta para o resto do lugar. — Por que você acha que estou aqui? Ninguém olhou pra mim tempo o bastante para me reconhecer. Nenhuma pessoa me pediu autógrafo ou implorou para tirar uma foto comigo. Sou um ninguém aqui, como todo mundo. É o paraíso.

Eu o estudo por um segundo.

— É isso que você quer? Ser um ninguém?

Ele dá de ombros e brinca com sua bebida.

— Às vezes. Na verdade, a maior parte do tempo. As coisas eram muito mais simples quando eu era um ninguém. Agora, tudo que faço é posto sob um microscópio. Cada decisão. Cada pedaço de informação pessoal é colhido pelos abutres da mídia desesperados pra encontrar alguma coisa pra vender em suas malditas revistas e em seus sites, não importa o custo. — Ele pega um iPad em sua bolsa, ao lado da mesa, e o põe na minha frente.

— Isso aconteceu hoje, o que é legal, considerando que é o aniversário de morte do meu irmão.

Pego o tablet. Um site popular de fofocas está estampado com a manchete: O inferno particular do destruidor de corações de Hollywood.

Há uma imagem de Rugg sentado diante de um túmulo, chorando. A legenda diz: Astro de filmes de ação Ruggero Pasquarelli desmorona diante do túmulo de seu irmão. Imagens exclusivas!

Ah, meu Deus.

Olho para Rugg. Seu queixo está rígido e seus olhos, pesados.

— Fui visitar o túmulo de Lino há alguns dias e acho que algum bosta me seguiu. Amanhã isso estará em todos os lugares.

Ao longo dos anos não houve muita informação sobre a morte de Lino na imprensa. “Morto em acidente em construção” é tudo que já foi dito, mas não tenho dúvidas de que essas imagens vão despertar um interesse novo sobre a morte do irmão gêmeo de Rugg.

— Rugg, eu sinto muito. — Há mais imagens dele mais abaixo, e sinto uma pontada de raiva com a ideia de que alguém pensaria em lucrar com seu momento particular de dor.

— Vou ao túmulo dele todos os anos — diz. — Algumas vezes, meus pais vêm comigo, mas quase sempre vou sozinho. Gosto de ter tempo pra falar com ele. Contar como minha vida está indo. — Ele olha para a mesa e eu seguro sua mão. O contato o deixa tenso e sua respiração fica ofegante, mas ele não olha para mim.

— Você não precisa falar sobre isso — digo —, mas se quiser desabafar, sou uma boa ouvinte.

Ele respira fundo, de forma trêmula, e fala devagar.

— Quanto você sabe?

— Só que foi em um projeto da Mantra. Cinco ou seis pessoas morreram.

Ele assente.

— Seis. Mantra era a empreiteira do meu pai. Lino e eu integramos a equipe quando deixamos a escola. Um dia, o operador da grua se esqueceu de verificar novamente se os pontos de ancoragem estavam devidamente apoiados. Quando a grua começou a erguer lajes de duas toneladas, ela tombou e caiu no prédio do outro lado da rua. Lino e eu vimos acontecer, então corremos até o outro edifício, pra ver como poderíamos ajudar. Estava um caos lá dentro. Escombros despencavam. Pessoas estavam gritando. Seguimos escada acima e ajudamos uma mulher e seus dois filhos a saírem dos destroços antes de chegarmos ao andar de cima, onde o dano foi pior. Foi uma coisa idiota de se fazer. Podiamos sentir que a estrutura estava prestes a ruir. O guindaste era muito pesado; as paredes não conseguiriam suportar mais. Jamie gritou que tínhamos de sair, mas eu não poderia deixar aquelas pessoas ali gritando. Quando abri a porta pro apartamento delas, o guindaste caiu sobre a parede exterior. Lino me empurrou pra fora do caminho, antes que a máquina me acertasse. Ele morreu na hora. Assim como as pessoas no apartamento. A coisa toda aconteceu tão rápido que precisei de um tempo pra perceber que a gritaria tinha parado.

Meu estômago se retorce.

— Meu Deus. Rugg. — Acaricio a mão dele, tentando lhe transmitir meu sentimento.

Ele balança a cabeça.

— Quando vi Lino lá… Não consegui me mexer. Sabia que o lugar estava instável, que não deveria ficar ali, mas não consegui ir embora. Não consegui tirar meus olhos dele. Um segundo antes meu irmão estava lá. Meu herói. No outro, ele era… nada. Apenas uma confusão de ossos e sangue que não se parecia nada com ele. Quando meu pai me encontrou, eu estava soluçando e dizendo o nome dele sem parar. Precisou de dois bombeiros pra me arrastar de lá.

Ele respira fundo, depois de um gole da bebida. Continuo acariciando sua mão e tentando deixá-lo saber que pode parar quando quiser.

— Meus pais ficaram devastados. Quero dizer, não há como superar a perda de um filho, sabe? Especialmente quando o que ficou é idêntico ao que você perdeu. Pra mim, foi ainda pior. Lino e eu éramos inseparáveis, desde que nascemos. Mamãe costumava nos chamar de “gêmeos grudados”. Sempre que saíamos, íamos juntos. Sempre foi Ruggero e Lino. Lino e Ruggero. Os garotos Pasquarelli. Pensei que seria assim pra sempre, mesmo quando estivéssemos casados e tivéssemos filhos. Então, de repente, era apenas eu. — Ele olha para mim. — Depois disso, as pessoas se esqueciam, e quando eu aparecia nos lugares, elas diziam: “Ei, é o Ruggero e…”, então se interrompiam antes de falar o nome dele. E isso resume como me senti quando ele morreu. Eu estava incompleto. Uma frase inacabada.

Ele olha de volta para a mesa, e está segurando o copo tão apertado que os nós dos seus dedos estão brancos.

— Eu sinto muito. Nem consigo imaginar como foi.

— Depois do acidente, meus pais afundaram em processos. De responsabilidade, civil, negligência. O caminho mais fácil teria sido declarar falência e fazer tudo desaparecer, mas papai nunca concordaria com isso. Ele se sentia responsável. Negociou acordos. Vendeu o negócio que construiu durante quarenta anos, todo o equipamento e nossa casa. Pagou cada centavo que podia para as famílias das vítimas, que ainda estavam esperando pelos cheques de suas companhias de seguro. Esse foi um dos motivos principais de eu ter ido para Hollywood. Eu precisava ajudar meus pais. Todos os ganhos dos meus primeiros dois filmes foram usados para saldar as dívidas deles.

— Ah, Rugg… — Aperto sua mão e posso sentir seu pulso latejando sob meus dedos, rápido e instável. Odeio pensar que ele teve de carregar o fardo da morte do irmão, e ainda as dificuldades financeiras de seus pais, por tanto tempo.

Ele deixa escapar um suspiro trêmulo e aponta para o iPad.

— E cada vez que alguma coisa assim acontece, meu primeiro pensamento é largar tudo e ir viver em uma cabana na floresta. Mas, então, vislumbro o rosto de Lino e isso me impede, porque eu sinto como se precisasse ser alguém, entende? Como se meu futuro tivesse de ser brilhante, porque preciso compensar o fato de ele não ter um. — Vejo uma lágrima correr por seu rosto quando ele sussurra: — Eu sinto tanta falta dele, Karol. Todos os dias.

Eu me aproximo e seguro o seu rosto, assim posso limpar a lágrima com o dedo.

— Tenho certeza de que, se ele estivesse aqui, diria o quanto está orgulhoso de você. Todos os dias. Você é um homem incrível, Rugg. Seu irmão sabia disso.

Ele fecha os olhos e se inclina sobre minha mão, e posso ver que está lutando para manter a respiração estável. Não tenho ideia de como é perder um irmão, mas o simples pensamento de viver em um mundo sem Ethan me faz estremecer. Eu nem mesmo consigo imaginar a dor que Rugg deve sentir sem seu irmão gêmeo.

— Desde que Lino morreu — diz ele, enquanto afasta minha mão de seu rosto e a segura entre as suas —, sinto como se uma parte de mim estivesse faltando. Como se eu sempre estivesse sozinho, não importa quantas pessoas estão comigo. Só não me sinto assim quando estou com você. — Ele olha dentro dos meus olhos. — Não com Cande. Com você.

Encaro-o por alguns segundos enquanto uma tempestade de confusão cresce dentro de mim. O que isso significa? Avalio seus olhos, mas não chego a nenhuma resposta. Agora, ele parece tão confuso quanto eu.

Puxo minha mão e olho para a pequena quantidade de vinho que resta no meu copo.

— Então, por que você não me escolheu?

Não consigo olhar para seu rosto, então observo suas mãos, enquanto elas se fecham ao redor do copo. Ele fica quieto por um bom tempo, e sinto que está tentando encontrar um modo de me contar a verdade gentilmente.

— Karol, olhe pra mim. — Quando o fito, ele se inclina para a frente. — Odeio que minhas ações te façam se sentir como a segunda opção. Você não é. Nunca poderia ser. As circunstâncias apenas não estavam do nosso lado, é isso. — Ele baixa os olhos e brinca com o líquido em seu copo. — Quando deixei aquela mensagem dizendo que a amava, falei sério. Você precisa acreditar nisso.

Olho para a mesa arranhada.

— Eu acreditei. Foi por isso que disse o mesmo pra você, ainda que me apaixonar por você nunca tenha feito parte dos meus planos.

Ele me encara antes de terminar de tomar sua bebida e larga o copo sobre a mesa.

— Viu, esse é o problema. O amor é um canalha. Não se importa com os planos das pessoas. Nunca é conveniente. Sai de dentro de você nas horas mais ridículas e faz você senti-lo, gostando você disso ou não. Mesmo depois de um longo tempo em que você deveria ter aprendido a parar de amar alguém, o amor o mantém preso a ele. Não é?

Evito seus olhos e bebo o resto da minha bebida.

— Ka? — Quando o encaro, a intensidade de sua expressão arrepia meus pelos. — Você ainda me ama?

Os arrepios se espalham por todo o meu corpo. Essa conversa toda está saindo do controle. É um território perigoso, sobretudo porque parte de mim está amando essa onda de adrenalina.

— Você sabe que não vou responder a essa pergunta.

Rugg pega minha mão. O toque suave de seu dedo faz meu braço ficar todo arrepiado.

— Se você me perguntasse a mesma coisa — diz ele, enquanto olha para meus dedos —, eu responderia imediatamente. E suspeito que você já saiba o que eu diria.

Ele leva minha mão até a boca e pressiona seus lábios com delicadeza contra minha pele. O contato me faz respirar fundo. Seus lábios são quentes e macios, e o contato com eles me deixa sem fôlego. Ele está prestes a dizer algo quando vislumbra alguma coisa sobre meu ombro e, em um segundo, sua expressão vai de apaixonada para violenta.

— Inacreditável. Babaca.

— O que foi? — Olho para trás.

— Não se preocupe com isso. Espere aqui. — Ele se levanta e vai até o homem na outra ponta do bar, que está vendo alguma coisa em seu celular. — Você acabou de tirar uma fotografia minha?

O homem o encara confuso.

— O quê? Não. Por que eu tiraria uma foto sua?

— Eu já vi você antes — diz Rugg, enquanto parte para cima do homem. — Você é repórter? Um paparazzo?

— Não. Sou contador.

— Então me mostre seu celular.

Me aproximo e coloco a mão no braço de Rugg.

— Ei. Vamos. Vamos embora.

— Não — responde ele. — Se esse cara não tem nada a esconder, ele me mostrará as fotos no seu celular.

— Não vou te mostrar meu celular. Nem sei quem você é.

Rugg tenta pegar o aparelho, mas o cara o tira de seu alcance.

— Passe a merda do celular! — A voz de Rugg ecoa pelo bar e todo mundo começa a olhar.

Quando ele pega no braço do cara, fico entre eles.

— Rugg, pare.

— Ei! — O bartender vai até onde estamos. — Não quero problemas aqui. Saiam, vocês todos.

O contador se afasta de Rugg e vai para a porta.

— Você é louco, cara. Fique longe de mim. Vou chamar a polícia.

— Bom. Aí eu vou denunciá-lo por me perseguir, seu idiota! — Rugg chuta o banco onde o cara estava sentado, que balança mais não tomba. — Filho da mãe!

— Ei, acalme-se. Ele não parecia saber quem você é mesmo.

— Ele estava tirando fotos de nós enquanto fingia olhar alguma coisa no celular. Isso acontece o tempo todo.

Olho para onde a porta acabou de se fechar.

— E talvez ele estivesse mesmo apenas olhando algo no celular, e toda essa coisa com Lino o deixou com os nervos à flor da pele.

Rugg abaixa a cabeça e suspira.

— Talvez. Juro por Deus, ser perseguido o tempo todo pode deixar um cara paranoico.

— Eu não te culpo.

Rugg aponta para o bar.

— Você quer beber mais?

— Sim, mas temos ensaio amanhã, então deveríamos ir embora. Além disso, as pessoas estão olhando. Vamos embora.

Pego-o pelo braço, e depois de recolhermos todas as nossas coisas, eu o empurro em direção à porta. Ele não oferece resistência.

Quando estamos do lado de fora, a umidade da noite de primavera dá lugar a uma chuva torrencial.

Rugg se vira para mim.

— Você não tem um guarda-chuva?

— Não, eu não tenho.

— Caramba, Ka. Pensava que diretores de palco fossem como escoteiros. Sempre preparados.

— Em um teatro, sim. Fora de um bar que provavelmente tem Nickelback no jukebox? Não.

Ele olha para os dois lados da rua e dá de ombros.

— Meu apartamento fica a apenas alguns quarteirões. Vamos correr?

— Sim, mas não tão rápido. Suas pernas são duas vezes maiores que as minhas.

Corremos pela calçada escorregadia. Em um minuto, estamos encharcados até os ossos. Um tempo depois, meus sapatos estão fazendo barulhos nojentos cada vez que dou um passo, e eu grito quando piso em um pedaço particularmente escorregadio do cimento.

— Espere — peço, e paro em um beco. — Essas coisas vão me matar. — Ando alguns passos para dentro do beco antes de me abaixar e tirar os sapatos e as meias. Sei que andar descalça pelas calçadas de Nova York é nojento, mas pelo menos não vou cair e quebrar algum osso.

Depois de guardar tudo dentro da bolsa, olho para Rugg e vejo que ele está me encarando.

Sua postura está rígida, e seu rosto é a mais perfeita definição de luxúria.

Sigo seu olhar até meu peito. Minha camiseta e meu sutiã, anteriormente brancos, ficaram transparentes. Eu poderia estar embrulhada em filme plástico que seria a mesma coisa.

Cruzo os braços sobre o peito.

— Droga. Desculpe.

Ele olha para mim e solta um suspiro.

— Todos os dias tento ignorar minha atração por você. Todo… maldito… dia. Digo a mim mesmo que te superei e não posso ter esses sentimentos, mas isso não ajuda. Nada ajuda.

A bolsa dele cai no chão e ele se aproxima e segura meu rosto entre as mãos.

— Rugg… — Um segundo depois, ele está se aproximando e eu me afastando, e antes que eu perceba, estou contra uma parede, agarrando sua camiseta encharcada. A marquise do edifício nos protege um pouco da chuva, mas não faz nada para me proteger da minha reação a Rugg. Sua camiseta molhada revela cada parte de seu tórax, e preciso parar de tocá-lo. Ele não parece ter nenhum escrúpulo. Passa o braço ao meu redor e me puxa contra seu corpo. Já está excitado, e sua respiração está ofegante enquanto ele me encara.

Meu Deus. Homens excitados são a coisa mais sexy do mundo. Ruggero excitado é o equivalente a uma tonelada do afrodisíaco mais potente.

— Quero te beijar — diz ele, e sua voz é quase um gemido. — Por favor, Ka.

— Rugg, você sabe a razão de não podermos.

— Vamos fingir por um momento que Cande não existe e que eu posso. Fingir que não fui pra Hollywood. Que fiquei aqui e construí minha vida com você. Uma vida em que posso fazer amor com você todos os dias. Ver você quando quiser. Uma vida em que não me sinta como se uma parte de mim estivesse morrendo sempre que estou com você.

Ele está se inclinando em minha direção. Tão perto que posso sentir seu cheiro e seu hálito doce e quente.

— Ka. — Ele segura meu rosto e olha nos meus olhos. — Finja comigo.  Imagine que estamos em um filme de como nossas vidas poderiam ter sido. Me deixe mostrar a você o que fantasio cada vez que a vejo. Por favor.

Quero parar de olhar para ele, mas não consigo.

Assim como não consigo parar de desejá-lo.

Agarro sua camiseta e o puxo. Rugg toma isso como uma permissão e esfrega seus lábios nos meus. Apenas um toque leve. Meu corpo explode com a sensação. Vibrações ferozes se espalham por todos os meus membros. Quando meus dedos dos pés se curvam, eu o agarro mais forte para trazê-lo mais para perto de mim.

Uau, o poder que ele tem sobre mim. Faz tanto tempo e, ainda assim, tudo volta, enfraquecendo meus joelhos.

Ele me beija de novo e um gemido passa de sua boca para minha quando seus lábios se abrem e sua língua se impõe.

— Meu Deus… isso — sussurra contra meus lábios. — Você. Você é tudo.

Ele morde meus lábios com delicadeza, em seguida, move-os de modo que nossas bocas fiquem juntas. Nós nos encaixamos tão perfeitamente como sempre, e o calor suave de sua língua me faz gemer. Ele me beija de novo, e de novo, e cada vez é mais profunda e apaixonada, mas ainda não é o suficiente. Me agarro a Rugg enquanto ele me levanta e ergue minhas pernas em volta de sua cintura. Então pouso minhas mãos em seu cabelo enquanto ele se cola em mim, e me lembro de como ele pode despertar meu corpo para o prazer em questão de segundos.

Nossas mãos não são gentis enquanto percorremos o corpo um do outro. Tudo tem um ar de desespero, não só porque estamos tão aliviados em aceitar, finalmente, esse desejo implacável, mas também porque sabemos que é um tempo emprestado, e isso não vai durar. Rugg esfrega sua virilha em mim, passando e apertando a minha pélvis macia contra sua ereção, tocando todos os lugares certos para me fazer suspirar. Quando cravo meus dedos em seus ombros, ele dá um gemido de prazer. Um som possessivo e misterioso. Me faz beijá-lo ainda mais e me agarrar a ele com mais força. Mais do que tudo, quero ser possuída por esse homem. Não apenas fisicamente. Desejo pertencer a ele, tanto quanto quero que ele me pertença. 

Mas, mesmo apesar dos músculos trêmulos e da carência de seu afeto, não posso afastar a culpa que me domina por beijar um homem que não é meu. Um eco de “Isso é errado, isso é errado” começa no meu cérebro, e não será silenciado. Mesmo que eu esteja segurando seus ombros e puxando-o para mais perto, sou bombardeada com imagens de Cande em seu vestido de casamento, o sonho vertiginoso de Rugg a esperando no altar da igreja. Seu príncipe encantado, para viverem felizes para sempre.

— Rugg. — Não há quase nenhum barulho. Apenas ar. Ele beija meu pescoço. Mordisca, acaricia com os lábios. Eu me jogo contra ele e o agarro mais forte. — Pare. Não podemos. — Coloco minhas mãos em seu peito e o empurro. Ele é tão sólido, tenho certeza que mal sente meu empurrão. Ele me beija de novo, mas eu o empurro e seguro seu rosto longe de mim. — Ruggero, pare.

Ele aperta o braço ao meu redor, enquanto ofega contra minha pele.

— Sinto muito. Não estava preparado. Você ainda parece tão perfeita. Mais perfeita do que me lembro.

— Me ponha no chão. Por favor. — Estou tremendo de frustração, pois meu coração ainda o sente como meu, mesmo ele não sendo. Ele tenta me convencer de que Ruggero ainda me ama, mas como poderia me amar? Depois de tudo que ele me fez passar? Não, isso não é amor. É apenas desejo. E fraqueza. Ele me põe no chão, depois segura meu rosto entre as mãos.

— O que há de errado?

— Preciso ir embora — digo, e me viro em direção à saída do beco.

— Ka, espere. — Ele segura meu braço, mas me solto.

— Não, Ruggero. Que droga estamos fazendo? Fingindo que podemos ficar juntos? Isso não é um filme. É a minha vida. E não sou um maldito prêmio de consolação.

Ele solta um suspiro e se afasta, seu queixo está rígido e suas mãos cerradas.

— Nunca pensei em você como um prêmio de consolação.

— Você disse que não queria ser como aqueles canalhas que pensam que podem ter tudo, mas é como você está agindo. Não pode ter Cande e a mim. Não pode.

— Então vou terminar tudo com ela.

Meu coração se encolhe.

— O quê?

Rugg dá um passo à frente e pega minhas mãos.

— Sei que a hora é ruim e que estou seis anos atrasado, mas… — A determinação em seu rosto é inconfundível. — Quero ficar com você. Espere, não é isso. Preciso ficar com você.

Eu afasto o cabelo molhado de seu rosto.

— Ruggero, você bebeu…

— Não estou bêbado. Na verdade, estou pensando claramente pela primeira vez em anos. Há tantas razões pelas quais eu nem deveria estar pensando nisso. Meu Deus, mais do que você poderia saber, mas ainda assim…

— Bem, agora você está mesmo me convencendo.

Ele respira fundo e dá um suspiro, depois me olha determinado.

— Sei que não estou falando as coisas certas, mas… Meu Deus, Ka, não posso mais viver sem você, e estou cansado de fingir que consigo fazer isso.

Apesar da chuva fria que encharca cada centímetro de minha pele, flores de esperança brotam no meu coração e o aquecem, seguidas de perto por uma sensação de pavor. Agora ele me quer? Teve anos para fazer isso e não fez. Não posso deixar de sentir como se eu fosse uma desculpa para ele escapar de todas as coisas em sua vida que não estão funcionando.

— Rugg, você está lidando com um monte de coisas agora. Ensaios, um programa de tv, o seu casamento. Para não mencionar o aniversário de morte do seu irmão. Além de tudo isso, tem paparazzi perseguindo cada movimento seu. Entendo que esteja se sentindo… frágil… ou o que quer que seja, e estou aqui para apoiá-lo em tudo que posso, mas isso?

— Você acha que estou dizendo isso porque estou… O quê… Estressado? Ou tendo algum tipo de colapso? Fala sério, Ka, não.

— Acho que se você realmente não conseguisse viver sem mim, teria descoberto isso anos atrás, mas esta é a primeira vez que estou ouvindo isso. — Tento manter a amargura fora da minha voz, mas não consigo. — Não recebi notícias suas, Ruggero. Nem uma mensagem de texto ou e-mail. Nem uma maldita palavra.

— Você não sabe toda a história, e eu não posso te contar tudo agora. Mas você pode dizer honestamente que não quer mais depois daquele beijo? Porque eu, com certeza, não posso.

Deixo escapar uma risada curta e sarcástica.

— Isso é loucura! — Não me dou conta do quanto de pânico aparece em minha voz até ver a dor estampada em seu rosto.

Ele não solta minhas mãos, mas seu aperto afrouxa.

— Por que estamos lutando contra isso? Pensei que fosse isso que você queria. Eu. Nós.

Quero dizer que não, porque essa é a opção menos assustadora, mas não posso. Foi isso que eu sempre quis. Mas não parece real. Ou certo. Estou acostumada a desejar Ruggero, mas tê-lo é outra questão. Mesmo agora, apesar de todas as suas declarações, não vejo como isso seja possível. É como se estivéssemos em lados opostos de um labirinto, e ele está dizendo que pode ser uma saída, enquanto ainda estou olhando para um beco.

Observo a água escorrer pelo peito dele e aperto meu maxilar contra a desesperança que sinto. Rugg segura meu rosto com as duas mãos e me obriga a olhar para ele.

— Ka, na noite em que foi escolher o vestido de noiva com Candelaria, você chorou nos meus braços porque eu estava me casando com outra pessoa, e isso me deixou péssimo. Não tinha percebido o quanto as minhas ações te magoaram, e todos os dias que passar com Cande, vou te machucar ainda mais. Não posso continuar fazendo isso. Não vou.

— Ruggero, você está dizendo que vai virar seu mundo de cabeça pra baixo.

— Não me importo.

— Você deve se importar. Cande…

— Ficará melhor sem mim. Ela pode não entender no início, mas em algum momento entenderá. Candelaria merece alguém que possa amá-la tanto quanto eu a… — Coloco a mão sobre os lábios dele.

— Não fale isso. Por favor.

Ele beija minha mão antes de afastá-la.

— É verdade. Por que não falar?

— Porque se você fizer isso, vou fazer coisas das quais me arrependerei, e estou tentando ser a voz da razão aqui. — Limpo a água do meu rosto e suspiro. — Por favor, não tome essa decisão agora. Não no calor do momento. Vá pra casa. Se acalme. Então, amanhã, se nada tiver se alterado na sua mente… — Ruggero se aproxima ainda mais.

— Não vou mudar de ideia. Isso significaria que ficar com você é uma escolha. E não é. Tentei te esquecer. Ficar longe de você. Falhei em todas as tentativas. Você sabe disso. Lutar contra o que sinto por você é cansativo, e não posso mais fazer isso. Mas a grande pergunta é: Você quer isso? — Ele segura minha mão e entrelaça seus dedos nos meus, e a esperança em seu rosto me inunda. — Depois de todo esse tempo e de tudo que eu fiz… Você ainda me quer?

Olho para nossas mãos.

— Vai ser uma enorme confusão.

— Eu sei. Mas se finalmente pudermos ficar juntos, vai valer a pena.

Olho em seus olhos.

— Sim. Vai. — Ele sorri, e mesmo que a chuva esteja nos encharcando, me sinto como se estivesse em pleno dia de sol.

Sorrio para ele, depois balanço minha cabeça por parecer tão boba.

— Você ainda precisa pensar nisso. Nós conversaremos amanhã.

Ele se inclina e me dá um beijo suave, lento.

— Tenho algumas coisas pra resolver ainda, isso vai acontecer. Acredite em mim.

Eu me afasto, mesmo que esteja tentando arduamente não dar asas às minhas esperanças, o modo como ele está sorrindo para mim torna isso impossível.

Pego minha bolsa e a jogo sobre o ombro.

— Estou indo pra casa. Se você descobrir como encarar Cande até amanhã, depois que tudo tiver acontecido, me avise. Estarei sendo engolida pela vergonha.

Estou quase na saída do beco, quando ele fala:

— Ka? — Me viro para encará-lo e vejo que, embora a chuva tenha diminuído, seu cabelo ainda cai no rosto, encharcado. — Não importa o que aconteça, não se sinta culpada por isso. Fui eu que comecei. Culpe a mim, não a si mesma.

Balanço a cabeça.

— É preciso duas pessoas pra beijar assim, Rugg. Sou tão culpada quanto você. — Me afasto dele e sigo na direção da estação de metrô. Minha culpa lateja por todos os lados, durante todo o caminho para casa. 



Mais tarde, quando rastejo para a cama, sonho com um futuro em que Rugg é meu — de mente, corpo, coração e alma. Mesmo com a consciência pesada, eles são os mais belos sonhos que já tive.





Notas Finais


Ui, senhor, que choque de realidade. Não estou preparada para definitivamente nada desse livro, cada capítulo é uma bomba.

Os vejo no próximo capítulo. ♡


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