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História Wicked Souls - Capítulo 5


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Notas do Autor


Boa leitura!

Capítulo 5 - O errado; o mundano; o profano


Fanfic / Fanfiction Wicked Souls - Capítulo 5 - O errado; o mundano; o profano

"Não tenha medo do que você está prestes a sofrer."

(Apocalipse 2:10)

*Evangeline*

As notas no piano pareciam especialmente melancólicas naquele dia. A cada toque nas teclas, mais eu sentia como se a música estivesse me puxando para baixo. As minhas costas ainda ardiam a cada movimento que eu fazia, não me deixando esquecer o que acontecia toda semana. Eu nunca havia admitido a ninguém, mas algo havia mudado. Apesar dos ensinamentos do Profeta David relatarem que o fogo mais ardente do inferno aguardava por aqueles que desviavam do caminho proposto por ele, eu costumava acreditar em um Deus misericordioso há três anos atrás. Quando ia até o canteiro de narcisos perto da cerca, eu não podia acreditar que algo tão belo poderia ser criação de alguém que não fosse bondoso. Quando eu via bebês de poucos dias de vida que nasciam na comuna e que dormiam tranquilamente nos braços das suas mães, eu tinha a mais absoluta certeza de que se de fato existisse um ser divino em algum lugar, por nos agraciar com coisas tão simples e tão bonitas, ele só poderia amar aos seus filhos incondicionalmente. E se ele nos amava, nos protegeria de todo o mal do mundo, que acreditávamos estar além dos limites da cerca.

Mas agora eu duvidava, mesmo sabendo que a dúvida é considerada uma forma de blasfêmia. Não podíamos duvidar do que era pregado pelo profeta. Acreditávamos que ele era o líder soberano, o escolhido por Deus a dedo para disseminar a palavra divina, portanto o que sai da sua boca deveria ser incontestável. Mas eu já tinha certeza de que ele estava errado em um ponto. Se tudo lá fora fosse mesmo tão mau, o meu encontro com o garoto atrás da cerca não teria sido daquela maneira. Ele era como eu. Era como todos nós da comuna. Não haviam monstros lá fora. Pelo menos eu acreditava que não houvessem em lugar algum até o Ancião Jacob. Eu não conseguia olha-lo no rosto e acreditar que ele era um homem bom, também escolhido por Deus para nos proteger. Ele me machucou de forma tão severa por três anos inteiros, não apenas superficialmente nas marcas que eu simplesmente não podia mais ignorar na minha pele quando eu era permitida a ter breves momentos em frente ao espelho, mas também por dentro. Nas minhas entranhas. No cerne da minha alma. O fato de não poder fazer nada para me proteger me enraivece há algum tempo. Eu sabia que a ira era um dos pecados mais graves, mas eu não podia controlar. Pedir perdão ajoelhada a Jacob mesmo sem fazer nada de errado faz com que eu me sinta humilhada ao extremo toda maldita vez que ele ousa usar o chicote contra mim.

Eu parecia quebrada.

Uma garotinha frágil e destrutível.

Era essa a impressão que eu tinha de mim mesma.

— Evangeline?

Eu pulei de susto quando uma mão tocou o meu ombro, e em um movimento involuntário de defesa, eu me afastei um pouco, abalada, causando um som terrível no piano que fez todos os presentes olharem em minha direção no canto direito do pequeno palco. Eu fiquei um pouco mais calma ao ver o rosto da irmã Marlene. Ela era a responsável pela organização das cerimônias cultuais da comuna, e também a mulher que havia me ensinado tudo sobre música. Depois de Jacob, ela estava sendo o meu maior refúgio naqueles dias sombrios. Quando eu tocava as teclas, ouvia as notas e cantava, era só naquilo que eu me concentrava e consequentemente eu podia esquecer tudo ao meu redor e não pensar mais em nada. A dor física e psicológica não existiam nas entrelinhas das melodias, e só assim eu me sentia liberta. Pelo menos pelos poucos minutos que me eram permitidos.

— Estão chamando por você. — A doce mulher baixinha e magra disse, com o típico sorriso preocupado que sempre parecia carregar no rosto, assim como os olhos castanhos arregalados. Ela sempre parecia doente, e na maioria das vezes eu me perguntava se ela realmente não estava. Mas esse não era o tipo de pergunta que poderíamos fazer às outras aqui.

— Quem?

— Ancião Jacob. — Ela disse baixo, me olhando em um misto de alerta e pena. O típico olhar que direcionam a alguém quando sabem que ela está encrencada, mesmo sem saber o que eu poderia ter feito mais uma vez. Sempre funcionava assim. Eu nunca sabia se estava pecando ou não, e geralmente apenas copiava o que todos estavam fazendo ao meu redor para não ter que sofrer as consequências. — Ele está na porta dos fundos.

— O que ele quer comigo, Marlene? — Eu perguntei, exasperada, me virando no banco em frente ao piano e olhando-a com desespero ao segurar as suas mãos com força, como se ela pudesse fazer qualquer coisa para me tirar daquela situação, mesmo que ambas soubéssemos que essa possibilidade simplesmente não existia. Os meus olhos arderam e eu tive que me controlar ao extremo para que eu não chorasse na frente dela e de todos os outros fiéis presentes na cerimônia.

— Eu não saberia dizer, minha querida.

— Por favor, eu não quero vê-lo.

— Você sabe que precisa ir até ele.

— Marlene...

— Evangeline, você deve cumprir o seu dever e ir até o Ancião Jacob. Se é isso que ele deseja, você tem de fazê-lo. Você sabe disso muito bem, desde que não é mais uma criança desobediente.

Eu engoli em seco, soltando as mãos um pouco enrugadas da mulher de cabelos castanhos claros e presos em um coque na minha frente, assentindo, com a cabeça baixa em obediência. Eu fechei a tampa de madeira do piano com delicadeza e me levantei silenciosamente, tentando não tremer por inteira enquanto caminhava pela lateral da Igreja até a tão temida porta dos fundos. Eu não ergui a cabeça. Só soube que era ele na minha frente por encarar o seus sapatos sociais pretos e perfeitamente engraxados. Ele abriu a porta e tocou as minhas costas, me indicando a direção a ser seguida, o que me fez pular. Eu não gostava do seu toque. Principalmente quando ele estava tocando a região que sempre estava extremamente sensível por sua própria causa. Caminhar por aquele corredor era pior que qualquer tipo de tortura. Eu nunca sabia o que eu tinha feito de errado, e por isso eu tinha a mesma sensação de estar cega e não saber que direção eu estava tomando. Qual seria o meu destino. Mas, dessa vez, eu não fui levada a uma sala escura para ser punida, e sim a um escritório. Quando eu vi o Profeta David atrás da mesa, um homem não tão alto, que estava acima do peso e que era um pouco calvo, eu soube que aquilo era importante ou ele não estaria ali.

— Ajoelhe-se, menina. — Jacob disse, pressionando o meu ombro direito para baixo com força, o que facilmente me colocou de joelhos sobre o tapete vermelho. Eu apoiei as minhas mãos nele e abaixei a cabeça em sinal de respeito, o que todos deveriam fazer ao estarem na presença do profeta, e então esperei pelo seu sinal.

— Levante-se. — O homem disse, pigarreando com força. Eu me levantei e observei-o levando um lenço branco à boca ao tossir violentamente antes que ele mesmo se levantasse da sua poltrona de couro marrom. — Você disse que ela tinha potencial.

— Acabou de completar quinze anos. É a melhor de todas na minha opinião, senhor. Estive observando-a há um bom tempo. Ela está pronta.

O profeta pegou os seus óculos de cima da mesa e os colocou, dando a volta na mesma e se aproximando de mim em passos desajeitados, com os olhos semicerrados e a boca entreaberta enquanto me observava. Eu estava confusa e com muito medo. Não tinha a menor ideia do que eu fazia ali e do que eles estavam conversando sobre.

— Evangeline, não é? — Ele não estava perguntando para mim. Ficou ainda mais claro que aquela conversa era entre o profeta e Jacob quando ele confirmou o meu próprio nome por mim. — Solte o cabelo dela.

O meu coração estava prestes a sair pela minha boca. As ordens sempre foram explícitas. Eu não podia mostrar o meu cabelo solto a ninguém, apenas ao meu marido depois que estivéssemos casados. Mesmo assim, não tive coragem de dizer ou fazer qualquer coisa quando Jacob tirou o pequeno elástico da ponta da trança que eu usava, desfazendo-a rapidamente com os dedos e soltando o meu longo cabelo pelas minhas costas como uma cascata castanha e ondulada. Eu estava com a mandíbula tão tensa que temia que fosse quebrar os meus próprio dentes usando a minha força.

— Oh, você estava certo, Jacob. Ela é uma menina estonteante. — Ele disse aquilo com um pequeno sorriso no rosto enquanto tocava o meu queixo com a ponta do dedo, ainda me observando com atenção. Porém, de repente, ele ficou sério e uma faísca de ira brilhou por trás de seus olhos negros. — É mais uma descendente da legião de Lilith. A beleza suprema, ardente e tentadora que pode cegar o homem mais fiel e temente a Deus, guiando-o para o caminho do inferno. Não permitiremos que faça nossos irmãos pecarem.

Eu nunca havia ouvido nada sobre aquilo. Não fazia a menor ideia de quem era Lilith e do porquê eu fazia parte da sua “legião”. Era algo que ele nunca havia sido mencionado nas cerimônias cultuais. Além disso, eu estava assustada. Nunca havia ouvido tanta raiva por trás do tom de voz de alguém antes, direcionada unicamente a mim por uma razão desconhecida. Eu não entendia porquê eu era o alvo de homens tão grandes e poderosos sendo que eu só tinha quinze anos de idade.

— Você é amaldiçoada. — O profeta disse, aproximando o seu rosto do meu e me olhando com desprezo. — E por isso merece ser punida.

Eu ainda não sabia, mas os piores anos da minha vida estavam prestes a começar.

 

[...]

 

A dor era a única coisa que me fez perceber que eu não estava morta. Quando eu caí na floresta, exausta e sem forças depois de correr por horas e a minha bochecha atingiu a neve, o frio extremo pareceu perfurar a minha pele como agulhas minúsculas, drenando todas as chances que eu poderia ter de tentar lutar pela minha própria vida. Seria simplesmente mais fácil e cômodo desistir. A morte seria a escolha reconfortante, e as minhas pálpebras se fecharam de um modo tão agradável em resposta ao cansaço que eu pude jurar que sorri por um segundo. E então, a escuridão.

Eu achei que aquele fosse o fim da linha para mim, mas aparentemente eu estava enganada.

Eu não sentia mais frio. Pelo contrário, eu estava muito aquecida. Quando abri os meus olhos, no entanto, eu me assustei ao encarar o teto de madeira. Eu não estava mais sob o infinito céu escuro e estrelado, livre ao sentir o vento frio pela minha pele. Talvez eles tivessem me alcançado e me capturado de novo. Se este fosse o caso, eu realmente fiquei surpresa por ainda estar viva. Eu sabia que não havia futuro para aquelas que optavam pela fuga e eram encontradas pela Ordem no meio do caminho. Olhei para os dois lados do quarto mal-iluminado com cautela, ainda deitada, chegando à conclusão de que eu estava sozinha. Soltei um suspiro aliviado, fechando os meus olhos por alguns segundos antes de me sentar na cama. Eu me arrependi instantaneamente ao sentir uma pontada aguda de dor do lado direito da minha barriga, tocando a região com as duas mãos e fazendo uma careta. Eu me lembrei do tiro no mesmo momento e em como eu pensei que a morte estivesse próxima de mim naquele momento. Eu não podia acreditar que os Anciões estavam dispostos a arriscar a minha própria vida apenas para poderem me aprisionar novamente. Ergui a blusa branca o suficiente para ver que o ferimento da bala que havia me atingido de raspão estava limpo e fechado com pontos. Eu franzi as minhas sobrancelhas em confusão. Por quanto tempo eu havia dormido?

Ergui a minha cabeça e congelei no momento em que percebi que não estava sozinha. Na frente da cama na qual eu estava deitada, um homem moreno estava deitado de barriga para cima e com as pernas para fora de um sofá de couro marrom desgastado, não usando nada além de uma única calça de moletom. Eu não o reconheci da comuna, mas ele era um discípulo, eu não tinha dúvida. Isso significava que eu tinha que sair. Eu deveria imaginar que os Anciões poderiam me rastrear, afinal. Talvez eu estivesse prestes a ser punida.

Ele tinha um dos braços sobre a barriga e a outra sobre a cabeça, dormindo tranquilidade conforme os movimentos de seu peito mostravam sobre a sua respiração calma. Seu rosto estava levemente inclinado para o lado oposto ao meu, portanto eu não podia ver muito, e então os meus olhos se prenderam em todas as inúmeras tatuagens que ele tinha marcadas em sua pele. Fiquei hipnotizada, principalmente, pelos seus braços, mesmo de longe. Eu sabia que não o conhecia e que por isso não poderia estar dentro da cerca da Ordem, o que me deixava extremamente aliviada, mas não ter ideia de onde eu estava não era nem um pouco reconfortante de qualquer maneira. Mesmo assim, eu me vi afastando os cobertores e jogando as minhas pernas para fora da cama silenciosamente, sem tirar os meus olhos dele, intrigada e curiosa. Minhas pernas ainda pareciam bambas depois de correr tanto, ou talvez eu ainda estivesse com medo, mas eu me sentia um pouco mais forte do que antes, mesmo sem saber porquê. Sentindo que seria bom ter algo com que pudesse me proteger no caso de um ataque, eu encontrei um guarda-chuva pequeno e de cor preta no chão, perto da porta, e o segurei com firmeza perto do rosto. Meus passos eram silenciados pelo tapete macio enquanto eu me aproximava cautelosamente do homem no sofá, sentindo o meu coração martelando o meu peito em expectativa. Agarrei o guarda-chuva com ainda mais afinco assim que parei na sua frente e observei com mais atenção, sem muito sucesso por conta da iluminação baixa.

Seus cabelos quase negros estavam um pouco bagunçados, com a cabeça apoiada em uma almofada. Ele tinha sobrancelhas marcantes e expressivas, assim como uma longa e espessa camada de cílios negros. Ele tinha uma barba espessa no rosto que entregava a sua idade, talvez tendo no máximo cinco anos a mais que eu, já que seu rosto parecia jovem. Me peguei encarando os seus lábios por uma razão desconhecida, e então uma onda de familiaridade pareceu me atingir em cheio. Notei que ele tinha uma argola de metal no nariz, assim como em suas orelhas. Desci os meus olhos até o seu peitoral e engoli em seco ao encarar algo vermelho e com chifres em meio a asas que parecia muito com um demônio. Um ensino de toda uma vida disparou um alarme em minha mente.

O mal está lhe perseguindo. O mal vai pegar você. O mal vai destruir a sua alma por meio do pecado.

Mas, ao contrário de tudo que eu fui ensinada a acreditar, de repente eu me sentia mais aliviada por ele não ser alguém que fazia parte da comunidade, já que claramente tinha Satanás pintado no corpo. Queria dizer que eu estava mesmo livre das cercas e que o meu plano tinha dado certo.

Ainda encarando o seu peitoral, subitamente eu senti que aquele quarto estava ainda mais quente do que antes. Eu definitivamente não deveria estar encarando um homem nu e que estava desacordado daquele jeito, mas a sua pele dourada nos espaços em que a tinta preta não cobria era muito tentadora, devo dizer. Eram ombros largos e os braços fortes. Fechei os olhos com força e mexi a cabeça, me obrigado a parar de observá-lo. Eu sabia que era errado. Era pecado. No entanto, não adiantou muito quando eu abri um deles, mordendo o lábio inferior, e espiei a sua barriga, onde ele tinha alguns gominhos. O cós da calça de moletom cinza estava muito baixo, o que também me permitia a visão do V logo abaixo do seu umbigo. Eu mal percebi como a minha respiração estava entrecortada ou como eu sentia as minhas bochechas e orelhas quentes. Me obrigando a voltar a olhar um pouco mais para cima, algo que ele segurava em sua mão direita me chamou a atenção. Passei todo o peso do meu corpo para a outra perna para ter uma visão melhor, arfando quando percebi que era o meu isqueiro.

Onde eu estava?!

Quem era ele?!

Por que mexeu nas minhas coisas?!

Ele poderia ter roubado tudo de mim, menos aquele isqueiro, já que tinha tanto valor sentimental para mim. A única coisa que me permitiu a liberdade. O único meio que eu tive de obtê-la depois de arquitetar um plano por anos. Talvez, se eu o atingisse com o guarda-chuva com força suficiente, poderia deixá-lo inconsciente. Pegaria o isqueiro e as minhas outras coisas e daria um jeito de dar o fora dali. Eu não gostava da ideia de agredir uma pessoa, mas eu não estava enxergando outra escolha. Apertei o guarda-chuva preto com força, pressionando os meus lábios um contra o outro e me afastando um pouco do sofá, preparada.

E então, ele acordou.

Grandes olhos dourados entraram em meu campo de visão. A sua expressão sonolenta se dissipou conforme ele entendia o que estava acontecendo, entrando em alerta rapidamente e erguendo o braço que estava em cima da cabeça para proteger o seu rosto de um possível ataque da minha parte, mas eu poderia garantir que aquilo não aconteceria tão cedo tendo em vista que eu sentia como se tivesse congelado.

— Que porra é essa? — Ele perguntou tranquilamente, como se o fato de eu estar com um guarda-chuva na posição perfeita para começar a esmurra-lo não fosse nem um pouco intimidante para ele. Ele se sentou no sofá enquanto o meu peito subia e descia rapidamente e eu andava para trás. Quando percebeu como eu estava assustada, o homem ergueu as duas mãos em um gesto apaziguador. — Solte o guarda-chuva.

— Não.

— Você não precisa dele.

— E eu devo acreditar na sua palavra? — Arqueei uma das minhas sobrancelhas, um pouco ofegante. Observei o movimento do pomo-de-Adão em sua garganta conforme ele engolia em seco e olhava para baixo. Demorei um certo tempo para perceber que ele olhava para as minhas pernas, que, aliás, estavam nuas, assim como os meus braços. Eu nunca havia mostrado tanta pele e isso definitivamente era errado. Além disso, os meus cabelos estavam soltos na frente de alguém que não tinha permissão para vê-lo assim. — Não olhe para mim!

— Eu não estou olhando! — Ele grunhiu, irritado, demorando alguns segundos para tirar os olhos de mim e olhar em outra direção, levando as mãos até os cabelos e bufando, parecendo frustrado. Depois de usar alguns segundos que usou para, aparentemente, se acalmar, ele voltou a olhar para mim, para o meu rosto. — Está tudo bem. Eu não vou machucar você.

— Eu não te conheço. Não confio em você.

Eu fiquei confusa quando ele balançou a cabeça e olhou para baixo, com um leve sorriso lateral se formando em seus lábios. Com apenas um pequeno impulso, ele se colocou em pé na minha frente e eu quase dei um passo em falso ao tentar me afastar mais ao ser intimidada pela sua altura. Eu sempre fui a garota mais alta dentre as outras na comuna, mas mesmo assim, a própria aura daquele homem parecia ser naturalmente ameaçadora. Não era apenas o seu tamanho comparado ao meu, mas a confiança exacerbada que ele exalava. Além disso, eu nunca havia ficado frente a frente com alguém despido, e por isso eu não fazia a menor ideia de para onde olhar naquela situação, por mais que tudo em mim gritasse para que eu observasse aquele peitoral novamente. Eu apertei o guarda-chuva em minhas mãos com mais força, tentando me afastar mais ainda, e então as minhas panturrilhas bateram na cama. Eu estava encurralada.

Ele chegou perto o bastante para me inebriar por completo, me possibilitando de sentir a sua respiração batendo contra o meu rosto. O cheiro do seu perfume pareceu inundar todo o ambiente ao meu redor. Ele continuava com um resquício de humor em seus olhos e com um pequeno sorriso lateral no rosto, sem nunca deixar de cravar os olhos dentro dos meus. E eu continuava sentindo aquela sensação de que algo nele era familiar.

— Você não me conhece? Tem certeza disso?

Seu tom de voz era irônico. Ele estava tentando me passar uma mensagem que eu simplesmente era incapaz de captar estando tão cansada, machucada, confusa e com medo. Eu assenti com a cabeça de leve, com a boca entreaberta, talvez em um estado de choque. Depois disso, o sorriso dele sumiu de seu rosto e ele se afastou sem cortar o contato visual, com a mandíbula trincada. Por um segundo, eu jurei que o que vi em sua expressão era um misto de desdém e descrença, e logo depois, conformidade. Observei o homem andar até o sofá novamente, me dando as costas para agarrar uma camiseta e um casaco qualquer. Ele andou em direção à porta a passos rápidos, fugindo do meu olhar à qualquer custo antes de jogar o meu isqueiro em cima da cama onde eu estava desacordada momentos antes.

— Talvez isso refresque a sua memória.

Eu olhei para o objeto em meio aos cobertores com as sobrancelhas franzidas por um segundo, pulando de susto no instante seguinte quando ele fechou a porta com um estrondo capaz de acordar até mesmo ursos em hibernação. Depois de um minuto inteiro encarando a porta como se ele pudesse voltar a qualquer momento, meus dedos trêmulos finalmente soltaram o guarda-chuva no chão. Eu me sentei no colchão, sem saber o que fazer e ainda me sentindo cansada demais. A cortina entreaberta me mostrava que o céu ainda estava escuro, e por tudo que era mais sagrado, o meu corpo parecia estar em cacos. Peguei o isqueiro e encarei o objeto no centro da minha palma como fiz por tantos anos. Dedilhei a letra Z com a ponta do polegar, me esforçando para tentar entender o que poderia estar acontecendo. Como em um lapso de memória, a imagem do garoto atrás da cerca invadiu as minhas lembranças. Eu balancei a minha cabeça e passei uma das minhas mãos pelo meu rosto. Eu só poderia estar enlouquecendo. Só podia ser isso. Mesmo assim, depois que me lembrei dele, não consegui mais apagá-lo da minha mente, como se o meu subconsciente estivesse insistindo a mim mesma que aquele detalhe era relevante.

Eu sabia que podia estar enganada. Eu sabia que as chances daquele homem ser o garoto que havia falado comigo atrás da cerca eram muito pequenas. Era muito improvável; seria certeiro demais. Mas aquela fagulha de esperança não deixaria com que eu sossegasse enquanto não tirasse todas as minhas dúvidas. Tentei me conter, mas no segundo seguinte me vi calçando as minhas sapatilhas. Eu não poderia sair do quarto usando apenas uma camiseta, então me obriguei a pegar um sobretudo preto que estava pendurado no cabideiro de madeira atrás da porta. Ele ficou enorme em mim, e me odiei pela minha falta de controle ao levar a parte da gola até o meu nariz ao sentir o mesmo cheiro do homem que estava tão perto de mim há pouquíssimo tempo. Quando eu abri a porta e uma enxurrada de ar frio me atingiu, expulsando o calor agradável do meu corpo, eu quase desisti da ideia. Meus pés quase afundavam na neve enquanto eu descia os degraus, apertando o sobretudo ao meu redor e sentindo o meu cabelo voando pelo ventania intensa. Eu ainda sentia a dor do ferimento do tiro em minha barriga a cada passo que eu dava, o que dificultava tudo. Apesar da neblina, eu pude ver a alguns metros dali a silhueta de alguém caminhando em meio à neve, e logo eu comecei a correr em sua direção, para onde quer que ele estivesse indo. Comecei a ouvir um som extremamente alto conforme eu me aproximava, e então o homem entrou pela porta de onde o som era advindo. Temendo pelo que encontraria se passasse daquele ponto, eu diminuí um pouco o ritmo, mas então eu passei a temer que os dedos dos meus pés pudessem cair, completamente congelados, se eu ficasse mais um minuto com as sapatilhas gastas ali. Sem escolha, eu empurrei a porta, sendo imersa em uma nuvem de sons inéditos e em um volume extraordinariamente alto. Aquele tipo de música era algo que eu nunca havia ouvido antes. Fez com que eu sentisse como se o meu coração estivesse batendo no ritmo das batidas, e os sons agudos que eu simplesmente não poderia identificar de que tipo de instrumento poderiam sair me assustaram um pouco no começo, assim como a forma enérgica com que as vozes pareciam gritar letras desconexas. Apesar disso, todos ali pareciam estar tendo o momento das suas vidas.

As paredes eram de madeira escura, mas uma delas era apenas negra e tinha a imagem de um enorme animal que parecia ser metade lobo, metade demônio, fungando. Seus olhos vermelhos contrastavam com o seu pelo negro, e eu jurei que seus dentes afiados e o focinho arreganhado perturbariam os meus sonhos. Atrás dele, apesar do fundo negro, haviam enormes labaredas alaranjadas e verdes. O desenho parecia ser tão real e aquele animal parecia estar olhando dentro dos meus olhos, me condenando ao inferno pelos pecados que ele, de alguma forma, sabia que eu cometera. Minha mão abafou um grito quando eu percebi que o Profeta David tinha razão. O inferno era real e ficava do lado de fora das cercas da comunidade da Ordem. Eu havia sido protegida a minha vida inteira e havia optado por escapar. Talvez eu, de fato, merecesse o fogo mais ardente do inferno. Talvez eu devesse mesmo ser punida por sempre ser atraída pelo pecado.

Eu queria ir embora. Era desconfortável, alto demais, abafado demais e com um cheiro estranho de suor, comida e outro elemento que eu não conseguia identificar. E nada se comparou ao meu horror tangível quando eu passei a reparar nas pessoas. Colei as minhas costas na parede mais próxima, com a boca escancarada. Muitos pares de olhos focados em mim. Muitas pessoas. Pessoas estranhas. Pessoas assustadoras. Pessoas com inúmeros desenhos perturbadores espalhados pelo corpo. Pessoas perfuradas com argolas e bolinhas de metal em diversas parte do rosto. Parecia que eles estavam girando ao meu redor. Eu quis chorar, mas lutei contra um soluço, tentando me distrair pela enorme curiosidade que eu ainda sentia de observar tudo. Vi mulheres vestindo o que pareciam ser literalmente dois pedaços de pano, dominando o ambiente, atraindo olhares e parecendo adorar toda aquela atenção, já que tinha um sorriso grande e sedutor no rosto. A maioria dos homens pareciam ter cabelos compridos e despenteados, vestindo jaquetas de couro com seus nomes atrás além do mesmo desenho do lobo demoníaco da parede, tocando outras mulheres em lugares íntimos e muito inapropriados, enquanto elas claramente os convidavam a tais ações provocantes. Senti que estava começando a suar ao notar quando alguns deles começaram a olhar para mim. Homens e mulheres sorriram em minha direção, alguns aparentemente com bondade, algo que me pegou de surpresa, e outros em luxúria flagrante. Um pecado mortal — eu me lembrava a cada segundo. Tudo aquilo ali exalava aquilo. O errado; o mundano; o profano.

Eu estava mesmo condenada às trevas.

— Tudo bem, gatinha? Você parece perdida. — Eu entrei em pânico quando senti alguém agarrando o meu braço. Eu me virei na direção do homem às pressas, com os olhos arregalados, sentindo como se a sua mão áspera queimasse a minha pele. O homem branco era muito alto, magro e com os cabelos escuros raspados rente à cabeça. Ele tinha algumas tatuagens de chamas vermelhas no rosto, que também estava lotado de argolas metálicas. Quando ele lambeu o lábio inferior e sorriu de forma lasciva para mim, eu senti o meu estômago se revirando de medo e por um segundo achei que fosse mesmo desmaiar. — Por que não me acompanha até aquele canto ali? Aposto que consigo fazer você se sentir bem melhor rapidinho.

Eu nem mesmo cogitei a possibilidade de tentar respondê-lo. Toda a minha capacidade cerebral se resumia a um alarme mental que soava em alto em bom som mandando que eu corresse para longe dali o mais rápido possível ou a coisa ficaria feia.

— Solte ela, Flame. — A voz já ouvida por mim antes soou atrás de mim. Eu virei a minha cabeça para trás, e por mais que eu soubesse que era ele, eu me surpreendi mesmo assim ao ver aquele homem novamente. Tão grande e tão alto, esbanjando um ar de autoridade e confiança sem iguais. Agora, com uma iluminação melhor, no momento em que encarei aqueles olhos dourados, me lembrei diretamente do garoto atrás da cerca. De repente, por conta daquela única pequena manchinha castanha ao lado da sua íris esquerda, todas as minhas dúvidas foram ceifadas de uma vez por todas. Ele sequer estava olhando para mim, encarando o homem que ainda segurava o meu braço como se ele tivesse cometido um crime. Eu arfei, surpresa, sem saber como eu não tinha notado aqueles traços tão marcantes antes. Sua beleza não era delicada ou angelical; era mais agressiva, nítida, expressiva, impossível de se passar batida. Tão diferente de tudo que eu havia visto em toda a minha vida. Desde o segundo em que eu havia colocado os meus olhos nele pela primeira vez, há dez anos atrás, eu soube que sempre seria assim. Incomparável; inalcançável; inatingível.

Zayn era bonito de uma maneira insana.

De uma maneira que me fez ter pensamentos de caráter duvidoso sem que eu sequer percebesse.

— Foi mal, Prez. Eu não sabia que você estava de olho nela. — O outro homem saiu de perto de mim rapidamente, erguendo as duas mãos em rendição, me deixando confusa. Zayn continuou encarando as costas dele enquanto ele se afastava por mais alguns segundos antes que o seu olhar duro caísse sobre mim, enviando uma série de calafrios por todo o meu corpo. Ele continuava me olhando com o desdém de antes, como se eu sequer fosse digna de um pouco da sua atenção, mas parecia ser algo forçado. O tipo de expressão que ele queria mostrar, mas não a que sentia verdadeiramente.

— Que diabos você está fazendo aqui?! Eu mandei você ficar no quarto!

— Não, você não mandou. — Ele tencionou ainda mais a mandíbula, me encarando com desafio ao arquear uma das suas sobrancelhas, o que me fez engolir em seco e hesitar.

— Eu achei que tivesse ficado subentendido que eu não queria você aqui.

Eu nunca admitiria o quanto aquilo atingiu o meu peito em cheio. Eu encarei o chão, envergonhada, sentindo toda a coragem de falar com ele sendo drenada de mim enquanto o meu rosto ficava quente. Talvez eu merecesse aquele tipo de humilhação da parte dele depois de ter ousado desmentir as suas próprias palavras em um tom tão ríspido.

— Não tomarei nem mais um minuto do seu tempo, então.

Eu dei meia volta, já de olho na porta por onde eu havia entrado, quando ele agarrou o meu antebraço e me puxou para perto novamente de maneira brusca, quase me fazendo tropeçar. O meu coração começou a galopar na velocidade da luz enquanto eu tentava esconder o quanto estava com medo à todo custo. Tudo que Zayn fez foi me encarar dentro dos meus olhos de maneira intimidante, com as longas sobrancelhas negras franzidas. Eu me sentia tão pequena e insignificante perto dele, mais ainda do que eu já estava acostumada a me sentir na comunidade da Ordem.

Você fica. — O grunhido baixo pareceu sair diretamente do cerne do seu peito, me deixando arrepiada ainda mais pelo quão próximo o rosto dele estava do meu. Eu mantive o contato visual sem dizer mais uma palavra, e mesmo assim, algo fez a sua expressão rígida falhar um pouco e ele hesitou, soltando o meu braço e se afastando. Piscando repetidamente, ele resmungou algo sobre olhos de lobo, praguejando. — Vou levar você de volta para o quarto.

— Eu lembro de você. — As palavras me escaparam e ele pareceu paralisar por alguns segundos, pensativo.

— Você está confusa. — Disse em um tom de incerteza.

— Não, eu não estou.

Ele olhou para os lados, respirando fundo e bufando logo em seguida, cruzando os braços e me olhando com ainda mais superioridade que antes, semicerrando os olhos em desconfiança.

— Prove.

Por cinco segundos, eu não entendi o que ele queria dizer com aquilo. Depois eu me aproximei dele.

— É um lobo. — Eu disse, lembrando das exatas palavras que eu havia lhe dito já dez anos atrás e o que ele havia respondido. — Um lobo bravo e que representa o lugar de onde você veio.

Mordi o meu lábio inferior e cortei o contato visual, erguendo a minha mão trêmula e gelada e puxando a manga da jaqueta de couro do seu pulso esquerdo para trás, relevando mais tatuagens e expondo o que eu esperava que ainda estivesse ali. A pulseira preta com o emblema do lobo que eu já tinha visto antes. Não haveria outra maneira de saber sobre aquilo se não fosse ele — e eu — há dez anos atrás. 

Ergui os meus olhos até os dele, notando que eu o peguei de surpresa. Com apenas duas frases, eu consegui desarmar por completo o homem que parecia inabalável, e ele também sabia disso. 


Notas Finais


Zayn putinho porque a Eva não lembrou dele na hora, enfim, a imaturidade

Já vou dizendo que é só uma questão de tempo pra ela começar a não abaixar a cabeça e aceitar tudo de graça... 👀

Muito obrigada por todo o apoio! Eu nem sei como agradecer! Espero que vocês tenham gostado!

Até o próximo capítulo ❤


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