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História Wings (taekook) - Capítulo 3


Escrita por:


Notas do Autor


Pessoal, eu peço desculpas desde já pela demora. Eu sou professora (em duas escolas), então essa quarentena mexeu em toda a minha rotina. Vou tentar normalizar, mas não posso prometer atualização por enquanto. Vejo vocês em breve! Peço que comentem, por favor, vocês não sabem como essa fanfic dá trabalho pra ser escrita, os comentários motivam bastante!!!

Capítulo 3 - Chapter II... we tried to forget it, but we just couldn't


"A primeira vez que largamos nossas malas no chão do apartamento,
Pegamos os nossos corações partidos e os colocamos em uma gaveta,
Todo mundo aqui já foi uma pessoa totalmente diferente antes"

 

September 10th, 2024 - Los Angeles, California.

Parecia meio de tarde quando tornaram a ver-se, e Jungkook achou prudente não falar nada sobre os seus problemas para dormir, afinal, não a conhecia direito e ela não era sua psicóloga. Não queria ser um fardo, estava ali apenas para contar sua história e fazer música.

Foi até a cabana da mesma e bateu na porta, aguardando alguns segundos. Jungkook observou ao seu redor e percebeu que, assim como na sua varanda, havia algumas cadeiras voltadas para o lago e um enorme tapete felpudo cobrindo praticamente metade do chão. Renée logo atendeu, estava usando um short curto e uma camiseta branca, com um coque desleixado prendendo seus fios ruivos.

— Interrompo? — o maior perguntou e ela logo negou, dando-lhe passagem.

A sala da casa da mulher era lotada de livros, por, literalmente, todos os lugares. Havia uma enorme estante que alcançava o teto, cheia deles e mesmo assim, havia livros na mesa de centro, no rack da televisão e na mesa de jantar.

Os móveis e as paredes do interior da cabana não variam muito e era sempre tons de branco e cinza, uma casa apagada demais para alguém que Jungkook julgou ser tão cheio de luz. As portas pretas, ao menos, e mesmo assim não há nada muito vívido na casa da Irwin, no máximo a capa de alguns livros que tinham mais cor.

— Eu estava cozinhando alguns biscoitos, ia levar eles pra sua casa, assim podemos comer enquanto você me conta mais. — o rapaz riu e assentiu.

— Fico grato que eu cheguei em boa hora. — ela sorriu um pouco fraco e foi até o forno, checando os biscoitos.

— Mas eles ainda vão demorar um pouquinho. — avisou enquanto sentava-se na cadeira à frente de Jungkook, que também estava sentado.

— Tempo suficiente pra contar uma história? — arqueou uma sobrancelha, tentando animá-la, e parece funcionar.

— Vamos ver. — respondeu simplesmente, completamente focada no novo amigo, mas deixando o relógio contador dos biscoitos ao seu lado.

— Agora eu quero te contar sobre como a minha carreira começou, e como eu conheci Taylor Alison Swift. — Renée ficou maravilhada assim que ouviu tais palavras e Jungkook observou seus olhos brilharem em antecipação.

[...]

13.12.2014

Jungkook estava em Tóquio há mais ou menos três meses e sempre cantava no mesmo bar, todas as malditas noites. Era sua distração, pois, de alguma forma, ele se sentia menos quebrado quando expunha suas feridas para dezenas de pessoas em um bar conceitual do centro da cidade.

Não havia descoberto o seu vício ainda, e, como era seu costume desde sempre, evitava o álcool que lhe era oferecido. Estava mais que sóbrio, porque na verdade a dor em seu peito era lembrança constante da sua atual realidade.

Uma dor aguda atravessando o seu peito e lhe mostrando que estava acordado, ao contrário do pesadelo no qual desejava estar. Jungkook queria tanto acordar em determinado momento e ver o rosto dele sorrindo para si. E não podia, porque estava sozinho agora, estaria sempre.

Esse foi o seu último pensamento antes de pegar o violão e sentir as luzes em seus olhos. Todos aplaudiram, e o rapaz podia perceber rostos familiares já que alguns iam ali com certa frequência, e o dono do bar sempre dizia que o motivo era Jungkook. Gostavam de vê-lo cantar suas dores e, às vezes, isso o fazia sentir como um animalzinho de circo.

Iria começar com a sua música favorita da Taylor Swift, que não era, nem de longe, a mais conhecida dela. "I Heart?" só lhe exigia o violão, e por isso começou a dedilhar os primeiros acordes.

A música falava sobre ter que acordar e se dar conta de que o relacionamento acabou, mencionava perder tudo de si para alguém que tratou o seu amor como um jogo. Jungkook achava deveras apropriado para seu momento.

Jungkook gostava de passar os olhos pela platéia enquanto cantava, tentando descobrir se estava cantando bem, ou se alguém parecia se identificar com a sua dor, se alguém sentia a música além dos ouvidos. Fez isso no exato momento em que a porta se abriu, revelando uma mulher alta e loira e um homem ruivo um pouco mais baixo que a mesma.

E ao lado de ambos, algo que fez o coração de Jungkook acelerar, porque parecia tanto, mas tanto. Teve de convencer-se de seu momento de insanidade, porque não era possível. Ele estava em Seul, pelo que Yoongi lhe contara. Não havia a menor chance de ele ter estado lá.

Continuou focado em cantar e evitou ao máximo que o bolo que já lhe subia à garganta o fizesse desafinar. Obteve sucesso e terminou a música perfeitamente, correndo do palco. Precisava de água e Kito, o bartender, logo lhe alcançou o copo. Jungkook passou três meses naquele bar, eles eram praticamente amigos àquela altura do campeonato.

— Você canta muito bem. E essa música? Ela não é muito conhecida, é? — negou com a cabeça, tentando se recuperar antes de responder a turista, em inglês.

— Não, mas é uma das minhas favoritas e eu estou me sentindo mais ou menos como a música descreve.

Virou-se para encarar os dois turistas e arregalou os olhos, estava cara a cara com os seus dois maiores ídolos no que dizia respeito à composição de música contemporânea. A sua expressão foi cômica e os dois músicos riram baixinho, então tentou se recompor porque não era possível que fosse agir como um idiota em uma oportunidade única como aquela.

— Não é comum encontrar pessoas que gostem dessa música, a maioria acha que é uma música country boba feita por uma adolescente dramática. — Taylor continuou indagando, enquanto sentava-se no banquinho à frente do bar junto com o seu amigo ruivo.

— Que bom pra eles que nunca passaram por algo parecido. — o sorriso da mulher em sua direção foi extremamente admirado e amigável.

Foi quando o ruivo resolveu entrar na conversa também:

— E você também compõe? — o garoto riu enquanto alcançava um pequeno bloquinho de notas de dentro de seu bolso e o entregava para os dois estrangeiros.

— Mas a maioria acha que é um bando de música romântica clichê feitas por um adolescente dramático. — Taylor riu, pois conhecia bem a sensação de escrever músicas que a maioria não compreendia.

Esse é o problema com os compositores românticos, eles escrevem coisas muito pessoais. Experiências amorosas não se repetem, duas pessoas distintas podem namorar a mesma pessoa e viver situações completamente diferentes. Você não pode esperar que alguém entenda a sua música sendo que aquilo aconteceu com você e não com o ouvinte.

Taylor e Ed já haviam entendido aquilo, devido aos longos anos na indústria, Jeon ainda teria alguns anos até finalmente compreender que música pode tocar corações ainda que eles não estejam igualmente partidos.

— São muito boas, você as acompanha só no violão? — Kook assentiu.

— Algumas até no piano, mas eu ainda estou aprendendo a tocar.

Taylor e Ed trocaram um olhar.

— Sozinho? — o sorriso no rosto de Jungkook ficou amargo com a pergunta, então Taylor pôde entender que as feridas que ele estava tentando fechar cantando sua música naquele bar em Tóquio ainda estavam frescas.

— Eu tinha um professor, mas tive que mudar de cidade e ele ficou pra trás.

Jungkook assistiu Taylor e Ed conversarem por olhares, como se estivessem buscando consenso em algo. Era exatamente assim que ele brigava com Jimin, sempre por olhares, nunca verbalmente.

 

Cause your eyes were louder than your mouth and colder than your heart,

Porque os seus olhos eram mais altos que a sua boca e mais frios que o seu coração,

You could break people just by going away

Você podia quebrar as pessoas apenas por ir embora,

And I was always a friend who knew you never meant to stay

E eu era sempre um amigo que sabia que você nunca pretendeu ficar,

For you can say goodbye, but I'll have you always here

Porque você dizer adeus, mas eu vou sempre ter você aqui

In Rome, my home

Em Roma, meu lar

 

Jungkook escreveu a música mais famosa de sua carreira no meio de um bar lotado e barulhento enquanto assistia dois melhores amigos brigarem por olhares. Aquela música ficou tão famosa, que no momento em que foi lançada ganhou prêmios no mundo todo, e fez de Jeon o primeiro artista a ganhar um grammy com menos de um ano de carreira.

As metáforas eram todas sobre Jimin, um jovem de coração aberto pro mundo e fechado para os seres humanos, que conheceu milhares de pessoas pelo planeta e nunca deixou de se sentir sozinho.

— A gente poderia te ensinar... — Taylor deixou a frase no ar, como se encarregasse o próprio Jungkook de terminá-la.

— Vocês nem sabem o meu nome ou me conhecem. — pontuou, e observou os dois se encararem e sorrirem.

— É verdade — Ed concordou —, mas sabemos que é um grande cantor e compositor, e nós dois queremos ver mais disso por aí. A propósito, eu sou Ed.

— Eu sou a Taylor. — Jungkook continuou encarando os dois como se estivesse presenciando a cena mais absurda do mundo. — Desculpe, eu não ouvi o seu nome.

— Jungkook. Pode me chamar de Kook. — os dois se encararam mais uma vez, porque Taylor viu aquele nome em todas as notícias, ela sabia desde aquele momento que seria um enorme sucesso.

— O que me diz, Kook? Temos um encontro? — Jungkook olhou ao seu redor, um bar pelo qual ele havia criado um enorme carinho, mas que também lhe aflorava muito as mágoas.

Ele havia se perdido três meses antes, não havia muito o que ele pudesse perder agora.

— Sim.

[...]

— É essa a história. Foi assim que eu fiquei famoso. Foi assim que conheci Taylor e Ed, viramos bons amigos e eu aprendi muito sobre escrever e tocar com eles. Swift basicamente me fez o músico que sou hoje. — Renée tinha olhos tão brilhantes que pareciam duas estrelas, Jungkook sorriu, pois preferia o olhar dela desse jeito, como duas pérolas. Era mais bonito. — As pessoas falam que ela me trouxe à fama, mas na verdade ela fez bem mais que isso, ela me ajudou a fechar algumas feridas que ardiam tanto que eu sentia dor até de respirar.

— Mas você ainda assim buscou o álcool?! — soou meio como uma acusação, mas Jungkook pôde entender as reais intenções da mulher ao dizer aquilo.

— Talvez quando eu te contar a história de verdade você entenda o quão mal eu saí da Coréia e porque nem mesmo o apoio da Taylor e do Dan conseguiram me reerguer. — ele começou a batucar um ritmo na mesa, porque estava ficando ansioso, sempre ficava quando tocava no assunto ele, e sempre que ficava ansioso bebia, quando parou de beber começou a recorrer à música. — Fiquei tão destruído que até hoje não sei se eu trouxe todos os pedaços ou se algo de mim ficou no meu país.

Renée olhou para o relógio, tentando fugir do olhar de Jungkook, porque ele doía; o fez no exato momento em que os biscoitos ficaram prontos. Levantou-se para tirá-los do forno e aproveitou para descansar o coração. Jungkook era uma ótima companhia, excelente contador de estórias ‒ estava ficando mais intrigada a cada nova peça ‒, mas o olhar que o mais novo tinha quando falava daquele assunto a fazia querer desviar os olhos.

Um olhar pesado, cheio de dor e raiva não resolvida, porque aquela estória não havia acabado, havia simplesmente sido interrompida. E Jungkook sofreu e sofre, pois não teve o encerramento que precisava. Como alguém que não pode enterrar um ente-querido, pois não há corpo e, não havendo corpo, não há a certeza da morte.

Jungkook percebeu seu incômodo, pois ela estava demorando demais para retornar à mesa e seu peito estava subindo e descendo em um ritmo incessante. Imediatamente entendeu que o problema era consigo, e ele não queria causar chateação.

— Estou te aborrecendo com as minhas estórias? Perdão, eu realmente não tive a intenção, nós podemos só conversar sobre outros assuntos, mais felizes. Isso não precisa ir pra frente.

A mulher virou-se rapidamente assim que ouviu tais palavras, foi rápida também em negá-las: — Não, não! — explicou-se, pois realmente queria chegar ao final da história. — Não é isso!

Encararam-se por alguns minutos longos em que Jungkook estava confuso e ela envergonhada, não queria dizer aquilo, sentia que soaria rude e não queria magoar o homem.

— Algum problema? — ele tentou mais uma vez.

— É só que às vezes eu não quero olhar pra você. Porque dói. — Jungkook arregalou os olhos, pois não estava esperando aquela resposta. — É que eu consigo sentir tanto a dor que você tem aí guardada quando você conta a história, que às vezes eu não aguento olhar pros seus olhos, eu me sinto triste por você. E não, não é pena!

— Você já sentiu que não teve encerramento em algo? Como um fantasma que te cerca e que você nunca alcança? — Jungkook parecia estar explicando algo para Renée, mas ela ainda não estava entendendo. — Essa história cerca a minha vida e eu nunca consigo chegar até ela porque é como o Sol, é confortável saber que ele está lá, tocando sua pele, mas é impossível olhar pra ele e se possível, destrói sua visão e você não enxerga mais nada por alguns segundos. Eu evito essa história porque além de ser extremamente doloroso pra mim, todas as vezes que eu me permito pensar sobre isso eu fico cego. Não existe Daniel, Taylor ou Jimin que consiga me tirar do poço de sofrimento.

— É como se você tivesse perdido alguém e seu enterro foi apenas simbólico, somente para uma despedida? — sugeriu, tentando entender o que o maior dizia. — Afinal, se não há um corpo para concretizar a perda, como você tem certeza que perdeu? Sempre que não há um corpo há esperança. — Renée deu voz aos seus pensamentos e Jungkook meio assentiu e meio negou.

— Mais ou menos isso. Eu acho que tem uma parte de mim que não sente tanto ódio e que ainda queria ter ele por perto. — admitiu aquilo que nunca disse em voz alta. — Mas ao mesmo tempo é como um esqueleto guardado no meu armário. Está lá e eu sei que está, porque está fedendo e fede bastante, mas eu não consigo abrir a porta porque eu tenho medo de como vai estar lá dentro. Então eu só passo por esse armário todos os dias, sabendo que tem algo lá dentro que um dia eu vou ter que encarar. E eu continuo com a chave no pescoço, ignorando o peso que ela tem.

 

I kept you in my locker, like the box with our things

Eu te guardei no meu armário, como a caixa com as nossas coisas,

Never opened the door and never cut its wings

Nunca abri a porta e nunca cortei suas asas

I have the key and it's heavy, know there's a monster inside

Eu tenho a chave e ela pesa, sei que há um monstro dentro

He once took me to heaven, now all he do is hide

Que uma vez me levou ao céu, agora tudo que ele faz é se esconder

And he hides and he hides

E se esconde, e se esconde

And it looks like you

E parece você

Where are you tonight?

Onde você está hoje a noite?

The locker is screaming I'mma open it tonight

O armário está gritando, eu vou abrir ele hoje a noite

The monsters are laughing at me

Os monstros estão rindo de mim

And I think it's passed time

E eu acho que já passou da hora

I open the windows and let there be light in my life

De eu abrir as janelas e deixar que a luz entre em minha vida

For you took it away

Já que você a roubou

 

E foi exatamente assim que Jungkook compôs a primeira música que mandaria para Daniel, escapando dos abutres que comandavam sua empresa e garantindo seu próximo CD. Enquanto continuava sua conversa com Renée aperfeiçoava a música e elaborava batidas e melodias.

Terminou ficando extremamente ansioso e pediu licença para a mulher enquanto corria em sua cabana e buscava um violão já devidamente afinado e com cordas de Nylon.

Estava dedilhando as cordas do instrumento quando a programação na TV da sala da escritora foi interrompida e uma música começou a tocar, uma que ele conhecia muito bem. Parou imediatamente de tocar e parecia hipnotizado, Renée percebeu isso e logo tratou de aumentar o volume do aparelho, deixando a voz suave de Taylor invadir o seu apartamento.

— Welcome to New York, it's been waiting for you. — Jungkook encarou Renée e seus olhos transmitiam nada além de calma e amor, foi tão confortável encará-los daquela vez, bem diferente das outras conversas que tinham, então ela sentou e esperou que ele tornasse a falar. — Ela fez a música depois de se mudar pra lá, mas foi quando eu fui junto. Esse "bem-vindo a Nova Iorque, ela esteve esperando por você", é para mim.

— Vocês moraram juntos? — Jungkook assentiu, deixando sua memória voltar para aqueles dias que, apesar de dolorosos, ainda eram felizes da forma como podiam ser.

— Eu não fiz faculdade e praticamente nunca trabalhei em um emprego regular, então eu não tinha dinheiro pra me sustentar quando vim pra América, Taylor já era milionária, então eu aceitei ficar com ela até lançar o meu primeiro CD. — ele puxou um colar de prata que sempre ficava para dentro de suas camisetas. — Estes colares foram comprados no meu primeiro dia em NYC, eles foram 10 dólares ou algo assim. Eu tenho um T e um E, Taylor tem um E e um J e Ed tem um T e um J. Foi uma promessa de amizade, eu estava com medo de não dar certo na música e perder o contato com eles, porque além de me ensinarem e serem meus amigos eles eram tudo o que eu tinha.

— A amizade de vocês parece só ter ganhado força. — pontuou enquanto tocava o colar em questão, que estava gasto e manchado, devido ao tempo de uso e ao fato de ser uma bijouteria. — Como foi quando eles, hm... souberam do seu vício?

Jungkook parou e pensou antes de responder, respirando fundo porque foram tempos difíceis para todos e ele realmente se arrependeu, agora que via todos os danos que causou.

Um dos piores problemas do vício é que em sua mente você é o único sendo prejudicado e, por isso, é perdoável continuar nele, há uma cortina que o impede de ver como todos ao seu redor saem tão feridos quanto você.

— Eu acho que magoei eles dois de muitas formas diferentes, sabe? Até hoje eu ainda acho que a Taylor não conseguiu recuperar completamente a confiança em mim. Uma forma de não se decepcionar novamente. Eu tentei ficar limpo outras vezes, e eu sempre recaia, e ela era sempre a primeira a acreditar e torcer por mim, mas uma hora ficou insustentável e eu não acho que eu possa pedir tanto dela. Eu só posso provar que é de verdade dessa vez, eu vou superar tudo isso e esse álbum vai ser onde eu vou abrir as minhas asas e voar por conta própria. — as últimas palavras saíram amargamente de sua boca, por tudo que elas o faziam lembrar.

— Por que foi diferente? Me explica a metáfora das asas. — Renée pediu e Jungkook assentiu, levantando-se e estendendo a mão para que ela se levantasse, ele resolveu que aquela era uma história para ser contada à beira do lago.

— Foi diferente porque eu entendi que os remédios só me ajudam a tirar o álcool do meu sistema — começou assim que passaram pela porta, ambos descalços indo em direção à areia —, eles não me impedem de querer mais quando eu tiver uma crise. Essa clínica me mostrou que eu só ficaria limpo quando encarasse o problema de cara, do contrário eu sempre teria um ponto fraco que a bebida ia explorar nos meus momentos mais frágeis. — eles não foram até o píer, Jungkook havia prometido isso para Daniel, mas estavam há uns poucos centímetros da água em si.

— Deve estar sendo bem difícil pra você, se escondeu sempre e agora ter que tomar essa decisão e entender que precisa perdoar para poder ficar bem. — Renée conseguiu ouvir o grito no silêncio do Jeon.

Os olhos do rapaz começaram a lacrimejar enquanto ele desviava seu olhar, impedindo que Renée visse, mesmo sabendo que ela ainda podia ouvir. As mãos foram para dentro dos bolsos e a cabeça baixou um tanto. Sua postura tornara-se levemente defensiva.

— Voltando à música da Taylor, sabe por que ela fez essa música? — ele disse depois de alguns segundos em um silêncio doído, e Renée deu de ombros, esperando que ele respondesse a si próprio. — Uma vez nós estávamos compondo pro meu primeiro álbum e tomando vinho e eu disse pra ela que Nova York foi o segundo lugar mais seguro do mundo pra mim, eu senti que absolutamente ninguém estava prestando atenção em mim e o anonimato foi uma dádiva. Eu segurei a mão de um cara em plena luz do dia e eu beijei na frente da Times Square. Talvez se a gente tivesse se amado em New York, Taehyung e eu teríamos dado certo.

— Então o problema com ele foi o preconceito? — Jungkook assentiu.

— Claro que tiveram muitas outras coisas, mas a Coréia não é um lugar onde você pode amar um garoto da forma que quiser. Essa música toda é sobre encontrar um lugar onde você pode ser você mesmo, e eu me senti assim em Nova York, foi até eu entender que não era a cidade, era eu. — o rapaz chutou um pouco de areia enquanto dava a sua mão para a ruiva, entrelaçando-as e ajudando-a a passar por algumas rochas que separavam o fim do lago da floresta. — Eu não senti mais medo porque não havia nada aqui para me fazer sentir errado em amar.

— E quem te fazia sentir errado na Coréia? Os seus pais? — negou lentamente porque de certa forma, sim, eles tiveram papel crucial.

— Ele. Taehyung tinha tanto medo de ser quem realmente era, que, em certo ponto, eu tinha também. Eu te disse que amar ele me destruiu, certo? Porque além de colocá-lo à frente de tudo, de me apagar para que ele brilhasse, eu também tomei os demônios dele para mim. Houveram vezes em que eu achava que ele era os próprios monstros, estava tudo na cabeça dele. Ou talvez fosse só o fato de que todos os meus demônios se pareciam com ele.

— Parece que foi um amor nocivo. — Renée foi extremamente cuidadosa com seu tom de voz, já que não era algo fácil de ouvir e não queria ofender ou irritar o Jeon. — Talvez não tenha sido a intenção de nenhum de vocês, mas se tornou isso. Essa necessidade de tomar as dores do outro para poupá-lo, Jungkook isso é prejudicial para a outra parte. Claro que você não sabia disso com 18?! Mas você tem que saber agora, ninguém vive sem sentir dor. Parte do que forma um ser-humano é a dor, nós não existimos sem ela.

Jungkook continuou pensativo, ainda andava no mesmo ritmo e não soltou a mão da ruiva em momento algum, mas guardou suas palavras. Ele não tinha muito o que dizer, porque não entendia isso completamente ainda.

— Acho que entendo o que quer dizer. — ele falou baixinho, estavam andando de mãos dadas e pareciam um casal de longe, por conta da aura de intimidade que os cercava. — Que proteger alguém da dor é incapacitante.

— Sim. Uma criança que nunca se machuca se torna um adulto que não sabe lidar com perdas, com medos, com a própria dor... Não saber lidar com isso é não saber lidar com a vida, e muitas pessoas ruins começaram assim. — Jungkook assentiu, mesmo que nem ele e nem Taehyung fossem crianças, ele entendeu o principal do que Renée estava tentando dizer.

— Eu não te falei sobre as asas, certo? Mas eu acho que devemos deixar isso pra quando a história realmente começar. — a ruiva virou-se para dar um soquinho no braço do maior, que apenas riu.

[...]

Quando a noite chegou, os dois estavam jogados no sofá da casa de Jungkook, com a televisão ligada ao fundo, bem baixinha, apenas porque Jungkook não conseguia ficar no completo silêncio. Encaravam-se um momento ou outro, quando sentiam que estavam sozinhos, e então voltavam para os próprios pensamentos.

E agora nós vamos entrevistar o ator e cantor sul-coreano, Kim Taehyung... — a voz animada do apresentador chamou atenção e a notícia fez Jungkook paralisar onde estava e Renée franzir o cenho em confusão, o nome lhe era familiar.

— Por que eu não estranho esse nome? — questionou retoricamente, mas Jungkook respondeu mesmo assim:

— É ele! — a voz estava um tanto aguda, o susto e a surpresa fazendo com que adrenalina corresse todo o seu organismo em questão de segundos. — O que ele está fazendo na América, Renée?

A mulher não sabia o que fazer ou dizer, com certeza nenhum dos dois esperava isto. Poderiam apenas agradecer que Jungkook já havia começado a lidar com a situação por conta própria, ou esta entrevista poderia ser motivo de mais uma recaída. E todos sabiam que Jung não poderia aguentar mais uma recaída.

Boa noite, América. — o sorriso quadrado estava lá, e se assemelhava ao buraco no coração do cantor. Tão rápido como a voz dele saiu pelos autofalantes da televisão e preencheu toda a sala da cabana, o mundo de Jeon Jungkook parou completamente, pela segunda vez.

A primeira vez que sentiu aquilo foi quando ouviu o dono daquela voz lhe dizendo adeus.

Muitas pessoas tinham a sorte de passar pela vida sem conhecer essa sensação. Não era como um coração partido, Jungkook já teve tantos que era algo banal. Não, não. Isso doía bem mais. E não era uma dor aguda que te faz gritar bem alto e que deixa todo o seu corpo em alerta.

Era uma dor que corroía, tão lentamente e tão rapidamente que cegava e te deixa sem direção. Essa dor é tão forte que você consegue sentir ela em cada músculo, cada terminação nervosa, cada veia. É como se ela fosse carregada por todo o seu organismo através do sangue, e é como se você pudesse sentir por onde ela passa. Doeu mais do que a primeira vez, porque agora havia outros sentimentos, todos misturados.

Tinha saudade, tinha mágoa, tinha curiosidade e tinha amor. Tinha amor.

— Você tá bem? — Renée perguntou imediatamente, ao perceber toda a situação.

Todo o devaneio de Jungkook e toda a sua realização de sua dor havia sido tão rápido que ele não percebeu que nem mesmo um minuto havia se passado. Jurava que havia sido uma eternidade.

A ruiva logo alcançou o controle sobre a mesinha de centro, estava prestes a desligar a TV, porque Jungkook não merecia passar por essa tortura. Não precisava de mais uma imagem para colocar ao lado das outras que já lhe causavam dor e sofrimento, que o impedia de sonhar em paz e lhe perturbava tanto a mente que nem mesmo acordado conseguia ter paz. Ainda mais uma imagem atualizada.

— Eu o amo. — a afirmação súbita e alta do maior fez com que ela parasse no meio do caminho. — Sempre achei que você pode mascarar amor com ódio, mas a verdade é que não pode. — pausou sua fala e fechou os olhos, quando tornou a abri-los eles estavam parados em Renée. — Você não consegue odiar alguém que amou tanto, ou talvez eu não tentei o suficiente. Eu não sei mesmo, mas a verdade é que eu olho pra ele e eu sinto o meu corpo inteiro ficar leve. Ver ele sorrindo, feliz... Eu só consigo pensar que eu queria ser o motivo dessa felicidade. Eu queria que, em algum momento da estadia dele nos Estados Unidos, ele olhasse pro céu e que sorrisse simplesmente por saber que é o mesmo céu que eu vejo todas as noites. Queria me sentir culpado por ainda ser capaz de sentir o toque dele e queria não pensar em sair daqui agora mesmo e pegar um avião para me encontrar com ele.

Renée ficou em silêncio, encarou os olhos de Jungkook porque havia percebido que eles sempre falavam mais sobre si. Viu que havia muita dor neles, tanta que sabia que o seu amigo estava lutando para manter-se firme. E percebeu que não era a mesma dor de sempre, aquela de quando ele estava tentando odiar Kim Taehyung. Era uma dor de saudade, mas não de ódio. Porque amar faz com que até mesmo a dor seja algo suportável.

O amor não faz doer, ele ameniza a dor. Porque o amor entende que a dor é necessária, e não foge dela, mas ensina a aguentá-la. Ódio, mágoa e mesquinharia é que fazem um coração partir.

— Eu queria ter sido o endgame dele. Queria que ele tivesse escolhido a mim sobre todas as coisas. Eu queria não estar sentindo falta dele neste exato momento. Renée, eu só queria ter dito 4 palavras pra ele, naquele dia. Eu não acho que teria uma carga tão pesada no meu coração se tivesse dito.

A ruiva o encarou enquanto o programa retornava da pausa. Jungkook desviou os olhos, se fosse dizer aquilo para alguém, teria que ser para ele, teria que ser olhando para ele. Quando a imagem de Taehyung entrou na tela, encarando às câmeras e respondendo perguntas sobre seu novo álbum, Jungkook finalmente disse:

— Eu sempre amarei você. Isso não é só uma promessa, não é tão simples como um "eu te amo", é uma confissão. Ele marcou tantas partes da minha alma, roubou tanto de mim, que eu sempre soube que ele estaria marcado em mim para sempre.

— Kook, você quer conversar com ele não quer? — Renée foi cautelosa em falar.

— Sim, mas não agora. Eu posso não ter sido o endgame de Taehyung, mas ele sempre foi o meu. E eu não tô pronto ainda, pra ver, com os meus próprios olhos, que tudo em mim ainda pertence a ele. Ao menos, não quando eu vejo que há coisas mais importantes pra ele.

— O que mais te assusta nisso tudo? Eu vejo que tem algo te deixando muito inquieto, e não é só o fato de ver ele. — Renée era bastante perceptiva e isso assusta o suficiente para que Jeon decidisse não mentir.

— Eu encontrei Taehyung uma vez, depois do termino. Foi em um evento, na Itália, algum desfile, acho que era Gucci... E eu me senti tão feliz de ver ele lá. Você sabe que ele é casado? Desde 17 de setembro de 2014. Eu fui. Ele estava com a esposa nesse evento. Nossos olhares se cruzaram apenas uma vez, e ele me olhou como se não me conhecesse, como se eu já fosse uma história velha do passado. E não é justo — sua voz quebrou, Renée o encarando sem saber exatamente o que fazer —, Renée não é justo, que eu tenha perdido tudo de mim e ele consiga me olhar daquele jeito frio, como se nunca houvesse me visto. Ele viu! Ele viu e tocou e ele conhece tudo de mim, coisas que eu talvez não saiba. Taehyung não tem o direito de me negar um sorriso, de mostrar que está feliz em me ver.

Jungkook gostaria que aquilo houvesse sido apenas uma boa atuação, pois Kim Taehyung é um excelente ator. E mais uma vez, Jungkook desejou ter sido a escolha final do rapaz. Que naquele dia, na igreja, ele houvesse lhe seguido.

Não sabia expressar o que sentia, ainda não. Era muito confuso pensar que todas as suas razões estavam no mesmo país que ele; que poderia apenas cruzar algumas fronteiras e poderia estar nos braços que julgou que jamais deveria ter saído.

Sua casa finalmente estava mais perto de seu coração.


Notas Finais


Obrigada a todos que leram e deixaram seu feedback <3 Espero que estejam gostando da história, ela começou de verdade nesse capítulo, espero que acompanhem nos próximos e que se surpreendam e se emocionem tanto quanto eu.
O que acham que aconteceu entre Jungkook e Taehyung? Vocês conseguem entender como o Jungkook tá quebrado por dentro?
Até a próxima!!!


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