História With all my heart - Capítulo 5


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Categorias Camila Cabello, Dinah Jane, Fifth Harmony, Lauren Jauregui
Personagens Camila Cabello, Lauren Jauregui
Tags Camila Cabello, Camila G!p, Camren, Camren G!p, Lauren Jauregui
Visualizações 124
Palavras 5.161
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Bishoujo, Crossover, Drabble, Drama (Tragédia), Famí­lia, LGBT, Romance e Novela

Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 5 - Camila


“Garota, eu penso em você todos os                                                                dias agora            Houve um tempo que eu não tinha certeza                         Mas você acalmou minha mente       Não há dúvida, você está em meu coração                                                                       agora"                                   (Guns N´ Roses - Patience/1988)


Camila

Tem alguma coisa muito estranha acontecendo comigo.

Estou andando há mais de uma hora, mas não consigo parar. Não consigo entrar em nenhuma estação de metrô. Não consigo tirar aqueles olhos verdes da minha cabeça. Não consigo espantar o desejo de tomá-la nos braços e fazê-la minha.

Só minha...

Mas que merda é essa, Camila?!

Sinto o ar fugindo dos meus pulmões quando finalmente entro em casa. Meu coração está batendo tão forte que sinto uma ardência estranha no peito.

Jogo-me no sofá, mas ele parece desconfortável demais.

Vou até o segundo andar, arranco o tênis e o chuto longe. Tiro a camiseta e a calça e me jogo na cama.

Meu coração ainda está batendo fora de ritmo e minha respiração parece falhar. Então me dou conta de que não tem nada de errado com o meu corpo.

É o meu coração.

É o meu maldito coração outra vez.

Eu já vivi todas essas sensações.

Já entreguei meu coração a alguém e ele foi despedaçado.

Não posso sentir tudo isso de novo.

Eu não posso deixá-la entrar.

Mas Lauren está encontrado uma brecha.

Lauren está roubando metade dos meus pensamentos e parte dos meus sonhos.

Lauren está roubando pequenas partes do meu coração.

✨✨✨

Desperto com o som insistente do meu celular. Rolo para o lado e, ainda de olhos fechados, passo a mão sob o travesseiro, mas não encontro nada. Então, para o meu alívio, ele para de tocar. Fecho os olhos e quando estou prestes a adormecer outra vez, ele volta a tocar. E parece ainda mais alto.

Merda!

Tateio o criado mudo, mas também não encontro nada. Abro apenas um olho — porque eu não sou capaz de abrir os dois ao mesmo tempo e encarar a claridade que entra pelo quarto — e forço a vista. Também não o encontro. Presto mais atenção ao toque e percebo que ele está longe, mais precisamente na sala. Para atendê-lo eu preciso sair da cama e descer as escadas.

Novamente, a música cessa.

Espero que ela comece a tocar outra vez, mas isso não acontece. Respiro aliviada, fecho os olhos sentindo as pálpebras pesando e, quando começo a adormecer, alguém começa a bater com força à porta da frente.

Sério?!

Jogo a coberta longe e levanto em um rompante. Desço a escada cambaleante e, enquanto passo pela sala, ouço o celular tocando outra vez em algum lugar. Dou meia volta enquanto olho ao redor, cogitando atender ao celular primeiro, mas as batidas parecem ainda mais fortes.

Abro a porta sem ao menos espiar pelo olho mágico. Definitivamente, eu deveria ter olhado.

Lauren está parada na minha frente segurando o celular na orelha.

E eu estou vestida apenas uma cueca boxer preta e um top branco.

Sua boca se abre quando eu apareço na sua frente, mas se fecha no instante seguinte. Ela tenta manter os olhos fixos nos meus, mas é em vão. Eles passeiam pelo meu corpo. Sua boca se abre outra vez enquanto ela inclina a cabeça para o lado e estreita os olhos. Abro um pouco mais a porta para que ela possa entrar. Lauren ainda mantém o celular na sua orelha e o meu, continua tocando.

— Você definitivamente tem problemas com roupas — Diz de costas para mim enquanto guarda o aparelho na bolsa. O meu também para de tocar. Balanço a cabeça achando graça.

— Só um minuto — Subo as escadas de dois em dois degraus.

— Desculpe aparecer aqui assim! — Grita da sala. — Mas eu estou tentando falar com você há algumas horas.

Horas?

— Não tem problema — Grito de volta com a escova de dente na boca. Visto a calça jeans que deixei jogada no chão do quarto na noite anterior, cuspo a pasta na pia, jogo uma água no rosto e desço a escada enquanto visto uma camiseta. — Que horas são? — Pergunto enquanto procuro meu celular sobre o sofá. Tenho quase certeza de que ele estava tocando por aqui.

— Quase duas da tarde.

— O quê? — Encontro o celular entre as almofadas e confiro as horas: 13:57.

Mas que porra!

Desde quando eu durmo até as duas da tarde?

— Eu não quis te incomodar, mas eu preciso visitar um fornecedor de tecido em Newark e...

Olho para ela e, por um segundo, compreendo o motivo de eu ter dormido até agora.

Lauren é o motivo. Ela ficou na minha cabeça até os primeiros raios de sol entrarem pela janela do quarto. E quando finalmente adormeci, ela preencheu todos os meus sonhos.

Lauren está entrando.

Ela está cada vez mais perto de ter o meu coração.

E eu não estou preparado para entregá-lo.

— Camila?

— O quê?

— Você está acordada?

Assinto engolindo em seco. Seus olhos verdes parecem ainda mais brilhantes. Há algo de puro e... Esfrego as mãos no rosto quando percebo que não é só isso. Eu estou me vendo dentro dos seus olhos.

Talvez eu ainda esteja dormindo.

— Sabe? Eu vou... — Sua voz vacila e ela dá meia volta. Vai até a porta da cozinha, volta até a sala, dá uma olhada geral em tudo e vai até a cozinha outra vez. Volta alguns segundos depois com a chave do carro nas mãos. — Eu tenho mesmo que ir, então você pode... Eu não... — Ela vai até a porta, mas antes de segurar a maçaneta, volta-se para mim. — Você quer que eu...? Deixa pra lá. Eu vou... — Ela aponta para trás, na direção da porta e balança a cabeça, negando alguma coisa. — Desculpa acordar você.

E sai batendo a porta.

Levo a mão ao peito quando sinto aquela ardência novamente. Nego várias vezes o que eu estou sentindo. Passo as mãos nos cabelos, esfrego os olhos e puxo o ar com força, mas não há nenhum ar aqui dentro.

Lauren havia levado até o ar junto com ela.

Droga!

Consigo alcançá-la antes que ela entre no carro. Seguro-a pelo cotovelo e giro-a com tanta força que ela perde o equilíbrio e bate com as costas na porta. Seus olhos estão arregalados e assustados, contudo, aquele brilho ainda está lá. Eu ainda estou lá. Levo a mão que segurava seu cotovelo até seu rosto e estremeço com a chama que se propaga pelo meu corpo.

Ela está entrando.

Inspiro o ar profundamente e o perfume doce de seus cabelos invade minhas narinas e a minha cabeça.

Seu perfume invade até a minha alma.

Aproximo um pouco mais meu rosto e estremeço mais uma vez quando seu hálito quente toca a minha pele. Fecho os olhos por um segundo porque eu preciso memorizar seu cheiro. Eu preciso memorizar a maciez da sua pele.

Eu preciso beijá-la.

Preciso tanto.

Roço meu nariz na sua bochecha e um gemido baixo e tímido escapa de sua boca. E é o seu gemido que me traz de volta.

Eu não posso precisar dela.

Não posso...Eu não posso me apaixonar.

Mas não posso deixá-la ir embora.

Ainda não.

— Você tem tempo para tomar um café? — Afasto-me dela e coloco as mãos nos bolsos da minha calça. Assim não corro o risco de tocá-la.

Assim eu não me machuco.

Assim meu coração fica inteiro.

E o dela também.

Ela apenas aquiesce. Parece estar lutando com seu corpo tanto quanto eu. Desvio os olhos da vermelhidão que se forma em seu pescoço, cerro as mãos para impedi-las de tocarem-na e, com um discreto gesto de cabeça, indico a casa.

— Você disse que está indo para Newark? — Pergunto assim que passamos pela porta da frente.

— Sim, eu tenho... — Ela joga a bolsa sobre o sofá e aponta para a cozinha. — Eu posso pegar um copo de água gelada? Por favor? — Sua voz está mais baixa e contida. A minha não deve estar diferente.

— Eu pego para você — Passo por ela, pego a garrafa de água dentro da geladeira, encho dois copos e entrego um a ela. Viro-me de costas enquanto secoo meu copo e limpo a boca com as costas das mãos. Está difícil ficar perto dela sem tocá-la, sem pensar em beijá-la e... — Você quer um café? — Pergunto qualquer coisa porque preciso parar de pensar nesse tipo de

coisa. Assim não corro o risco de seguir meus instintos e carregá-la escada acima.

— Não foi por isso que você me convidou? — Olho para ela um pouco confusa.

— Foi, não foi? — Ela levanta as duas sobrancelhas e um sorriso ameaça surgir em seu rosto. Abro todos os armários da cozinha e me dou conta de que eu não tenho café. Na verdade, eu não tenho nada além de água e cerveja. Talvez algumas bolachas murchas em algum lugar no fundo do armário. — Sabe de uma coisa? — Viro-me para ela que agora sorri de verdade. — Eu não tenho café em casa, mas... — Dou um passo na sua direção. — ao lado daquela floricultura ali na esquina, tem um café que vende o melhor muffin do mundo.

— Sério? — Ela cruza os braços e fica me encarando com as sobrancelhas arqueadas.

— Na verdade eu não sei se são os melhores, mas eu estou sempre com fome e não sou muito exigente então... — Dou mais um passo na sua direção. — Você gostaria de tomar um café comigo?

Ela inspira profundamente e olha para o relógio que fica pregado na parede atrás de mim.

— Eu adoraria, Camila, mas preciso estar em Newark às 16:30 e depois, eu não tomo café. Não posso. Fico agitada demais.

— Mais?

Ela ri e dá de ombros ao mesmo tempo.

— Você não imagina o quanto. Enfim... — Ela dá um passo à frente, apertando as mãos na frente do corpo. Seu rosto está levemente ruborizado. — Se você está dizendo que eles fazem o melhor muffin do mundo, e eu adoro muffin, serei obrigada a experimentar — Ela coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha e dá de ombros de um jeito meio tímido, meio confiante e acho que meu coração bate um pouco mais forte nesse momento. — Se você não tiver nada melhor para fazer, podemos pedir tudo para viagem e comemos no caminho para Newark.

— Eles também têm chá — Digo com a voz levemente estrangulada.

— Perfeito.

— Só vou calçar um tênis e já volto.

— Ok.

Subo a escada de dois em dois degraus e, enquanto calço meu tênis, percebo que a minha respiração está irregular, assim como as batidas do meu coração. Não foi a pequena corrida até o segundo andar que me causou isso. Foi Lauren.

Meu coração está começando a se abrir para ela e isso não é um bom sinal.

✨✨✨

— Você comeu todos os muffins de blueberry! — Diz Lauren olhando para a embalagem vazia no seu colo. — E os de banana também! — Em seguida a arremessa de volta para mim.

— Acho que ainda tem um pedaço aqui — Estico o braço e coloco um pequeno pedaço de muffin dentro de sua boca.

— Hum! — Ela olha para mim rapidamente. — Onde você encontrou isso?

— Na minha camiseta.

— Camila!

— Desculpe ter comido tudo, mas você disse que não queria mais e... — Tento me justificar. — Olhe para frente! — Digo quando ela quase bate em um carro que está parado no sinal vermelho.

— Eu disse que não queria mais?

— Disse — Ela me olha de canto de olho e quando percebe que estou mentindo, dá um soco em meu ombro. E caramba, ela é muito forte. — Ai! — Rindo, levo a mão ao local onde ela bateu e me encolho quando ameaça me bater outra vez. Mas para quando o sinal abre.

— Você é muito malvada, Camila!

— Eu estava com muita fome — Pego o copo de refrigerante no console do carro e bebo um longo gole. — Ei! Você disse que tem uma reunião com um fornecedor de tecidos. É isso mesmo?

— Hum-hum — Ela liga a seta e entra em uma larga avenida à direita.

— Que tipo de reunião?

— Uma reunião de negócios.

— Você trabalha com o quê?

— Sou estilista — Ela me olha com um sorriso tímido no rosto. — Desenho vestidos de noiva.

— Argh! — Encolho-me no banco e tomo mais um pouco do refrigerante e tento ignorar o tipo de lembrança que um vestido de noiva me causa.

Ela estaciona em frente a um galpão que toma mais da metade de um quarteirão.

— Eu acho que não vou demorar muito — Ela rouba o copo de refrigerante da minha mão e pega a bolsa no banco de trás. — Você quer vir?

— Claro! Eu adoro falar sobre tecidos — Abro a porta e desço do carro antes que ela me soque outra vez.

— Vai ser rápido, eu prometo — Ela dá a volta no carro e me entrega o copo quase vazio.

— Depois, nós podemos passar em algum restaurante super caro e jantar. Você paga a conta.

Ergo as sobrancelhas e a encaro. Ela dá de ombros, despreocupada.

— Você me deve. Pelos muffins.

— Ou... — Dou um passo à frente e inclino o rosto na sua direção. — Você pode cozinhar para mim. Eu fiquei curiosa depois que você disse que sabe cozinhar.

— Sério? — Ela arqueia as sobrancelhas, surpresa. Concordo com a cabeça e dou um longo gole no refrigerante. Na verdade, não é tão longo assim. Ela acabou com ele segundos atrás. Por isso continuo puxando e puxando até que aquele barulho irritante de bolhas e resto de líquido sendo tragadas pelo canudo comece. — Pare com isso! — Ela arranca o copo da minha mão e o joga em uma lixeira atrás de si. — Eu não vou cozinhar para você hoje!

Lauren me dá as costas e começa a caminhar na direção da porta.

— Por que não?

— Porque eu não quero.

— Você vai pelo menos fazer S´mores?

— Não — Ela nem olha na minha direção quando responde. — Hoje não.

— Droga! — Praguejo ao mesmo tempo em que dou risada. Ela para, vira-se para mim e tenta manter-se séria, mas um sorriso ameaça surgir no canto direito de sua boca. Uma covinha bem discreta também surge e sinto meu estômago se contrair.

Desde quando sinto vontade de beijar uma covinha

Quando o seu sorriso fica maior, a covinha também se destaca um pouco mais e percebo que não sinto vontade de beijá-la.

Sinto necessidade.

Coloco as duas mãos dentro dos bolsos da calça porque assim, consigo frear a vontade de tocá-la. E se eu tocá-la agora tenho a impressão de que não conseguirei soltá-la nunca mais.

A sensação da sua pele quente sob a minha ainda está impregnada em mim.

Estou tão perdida naquele pequeno momento na rua em frente de casa, onde eu quase a beijei, que não percebo que já passamos pela porta e estamos caminhando por um largo e longo corredor de paredes cinzas e escuras. Sophie anda na minha frente apressada e percebo

que, nesse exato momento, estou olhando para a sua bunda e eu nunca vi nada tão bonito. Por que ela tem que usar uma calça tão justa e tão... Será que ela está usando calcinha?

Deus! Eu estou parecendo uma adolescente.

Continuo andando, agora ao lado dela — porque assim é mais segura, porém, seu perfume parece mais forte daqui — até que chegamos ao final do corredor e paramos em um tipo de mezanino. Dá para ver toda a fábrica de tecidos funcionando lá embaixo e centenas de tecidos coloridos sendo produzidos. Olho rapidamente para Lauren e tenho a impressão de que ela está ainda mais bonita encarando todas aquelas cores lá embaixo.

— É lindo, não é?

— É — Concordo fitando seus lábios e cacete! Acho que nunca vi uma boca tão perfeita quanto essa. Acho que nunca vi olhos tão brilhantes. Sinto que respiro um pouco mais rápido e, sei que esse não é o momento apropriado para fazer o que quero fazer, mas isso pouco me importa. Aproximo meu corpo do seu e, mesmo um pouco assustada com a minha súbita aproximação, ela não me impede, pelo contrário. Sua respiração passa a trabalhar junto com a minha e mesmo com todo o barulho que vem dos maquinários no andar de baixo, o único som que escuto nesse momento são as batidas do meu coração. Elas ecoam tão alto dentro da minha cabeça que tenho a sensação de que Lauren está ouvindo também, ou sentindo ou... Fecho os olhos e aperto a sua cintura com minha mão esquerda e ela passa a língua pelo lábio inferior.

Fico hipnotizada, imaginando como seria tocar a minha língua na sua e...

— Lauren, querida — Uma voz masculina chama por ela logo atrás de mim e o que quer que esteja acontecendo aqui se evapora no ar. Lauren suspira alto e se afasta imediatamente.

— Ernest! Desculpe o atraso eu... — Continuo de costas enquanto eles se afastam e entram em alguma das portas vermelhas espalhadas pelo lugar. Continuo observando os tecidos coloridos. Continuo pensando nos lábios rosados de Lauren. Continuo pensando no quanto a garota que usa de salto alto para ir a um estádio de futebol está mexendo comigo.

✨✨✨

— Chegamos!

Olho através do vidro para o restaurante que ela escolheu e em seguida olho para ela.

— Esse é o seu restaurante super caro?

Ela ergue as sobrancelhas e aquiesce como uma criança feliz.

— Eu estava muito tentada em escolher o Petrossian, beber vinho e comer caviar a noite toda, mas esse lugar... É mágico.

— Um lugar que vende cachorro-quente é mágico? — Pergunto achando graça.

— Nunca mais diga que o que servem ali dentro... — Ela aponta para o lugar. — é cachorro quente porque não é um simples cachorro-quente. É o melhor e mais perfeito cachorro quente do mundo inteiro.

— Okay — Digo pausadamente. Papaya faz jus a fama que tem.

Mas depois da primeira mordida, preciso admitir que ela tem razão. Esse cachorro quente é o melhor e o mais perfeito do mundo inteiro. Gray´s Papaya faz jus a fama que tem.

— Você vai comer esse? — Pergunto com a boca tão cheia que Lauren começa a rir. Eu deveria achar essa cena nojenta. Deveria! A garota está rindo na minha frente com a boca tão cheia quanto a minha e posso ver toda a comida que há dentro dela, mas droga! Isso é sexy pra caramba! Ela aponta para o cachorro-quente sobre o prato como quem diz: Vá em frente!

— Cinco! Você comeu cinco cachorros-quentes!

— Eles são pequenos — Dou uma mordida tão grande no meu sanduíche que quase o engulo inteiro.

— Eles não são pequenos — Ela dá um gole no suco de mamão (Eca!) e volta a falar comigo. — Você parece estar em fase de crescimento.

— Eu preciso saber uma coisa sobre você — Coloco o último pedaço de pão na boca, pego um pedaço de salsicha que havia caído no prato descartável e o coloco na boca também. — Preste bem atenção na sua resposta porque isso vai definir se eu quero ter algum tipo de relacionamento com você.

— O quê? — Ela meio que engasga com aquele suco e não fico surpresa por isso. Como alguém consegue comer cachorro quente enquanto toma suco de mamão? Entrego um guardanapo de papel a ela que limpa a boca e depois, alguns respingos daquele líquido laranja sobre a bancada amarela onde estamos comendo. — O que você disse? Relacionamento?

— É, você sabe... — Dou um gole no meu refrigerante. — Eu preciso saber disso se vou ser seu amiga ou... — Abano a mão no ar antes que diga algo que não devo dizer.

— Ah... — E eu não sei muito bem o que esse Ah significa aos meus ouvidos, mas tenho certeza de que ela está bastante decepcionada e talvez, ansiosa porque aquele rubor já começa a se espalhar pelo seu pescoço. Na verdade, acho que ela está nervosa. É isso! O rubor só aparece quando ela está nervosa.

— Você gosta mesmo de caviar?

Ela começa a rir.

— Ah, meu Deus!

— Porque eu jamais seria capaz de sair com uma garota que come caviar.

— Sério? — Ela me desafia com uma sobrancelha arqueada.

— Sério. Imagina só eu tendo que levar essa suposta garota para um desses restaurantes cheios de frescuras que cobram os olhos da cara da minha mãe por um prato minúsculo cheio de comida estranha... — Ela arqueia as duas sobrancelhas. Um sorriso desponta em seus lábios e me pego ansiosa por ouvir o som da sua risada. — E depois, quem em sã consciência come caviar? Aquilo são ovas de peixe. Ovas, pelo amor de Deus! — Agora ela está rindo e meu coração parece querer acompanhar o som da sua risada. Não que isso seja possível, mas é isso que penso quando esse som doce entra pelos meus ouvidos.

— Então... — Ela apoia o queixo nas mãos e me encara. — Você está pensando em me levar para jantar?

— Talvez — Tento desviar meus olhos do seu sorriso bobo e de seus lábios perfeitos, mas não consigo. Ela percebe e seu sorriso fica ainda maior. Algumas partes do meu corpo começam a ficar dormentes. 

— Qual seu restaurante preferido?

— Hum... — Ela cruza os braços na frente do corpo e pensa por um momento. — Eu gosto muito daqui — Gesticula no ar com o dedo.

— Nós estamos comendo cachorro-quente em pé e você está tomando suco de mamão —Faço uma careta e ela começa a rir. Acho que nunca me senti tão atraída pelo som de uma risada. Noto que uma pequena ruguinha surge no canto de seu olho esquerdo quando seus olhos quase se fecham. Por que ela tem que ser tão bonita e tão... Puxo o ar pelo nariz e volto a falar com a voz um pouco mais firme. Eu acho. — Eu sei que você acha que esse é o melhor cachorro-quente do mundo, e é mesmo, mas eu quero te levar a um restaurante de verdade.

— Tipo um encontro?

— Tipo um encontro — E quando me dou conta, eu já havia dito isso em voz alta. A confusão dentro da minha cabeça parece gigantesca apesar de minha voz estar controlada. Mas não é pior do que a confusão que se instala em meu peito desde que a conheci.

— Bom, eu gosto de comer, não tanto quanto você, mas... — Ela dá de ombros. — Eu adoro frutos-do-mar.

— Eu também — Ela revira os olhos. — Qual seu restaurante preferido?

— Ah, não! Se eu disser não vai ter graça — E, inclinando-se na minha direção, sussurra:

— Surpreenda-me.

Faço que sim com a cabeça e me perco na perfeição de sua boca mais uma vez. Será que ela usa algum batom o tempo todo ou eles são rosados naturalmente? Ela pisca para mim e boceja logo em seguida. Seu rosto assume uma careta estranha e me pego pensando que é a careta mais linda que já vi.

Aperto os lábios com força e tento conter esses pensamentos.

O que quer que esteja acontecendo dentro do meu coração precisa parar.

— Eu estou muito cansada, desculpe. Eu acordei super cedo hoje e não dormi muito bem à noite.

— Por quê?

— Por que o quê?

— Por que você não dormiu?

E existe uma parte muito agitada dentro de mim implorando para que ela diga que eu fui a causa de sua insônia.

Do mesmo jeito que ela foi a minha...

— Eu não sei — Ela passa a encarar a rua bem à nossa frente. Eu não tenho ideia de que rua é essa, sei apenas que ela fica em Nova York, no Brooklyn e que dezenas de pessoas estão passando pela calçada agora. Mesmo sendo tarde da noite, o ritmo não para, os carros não param. Meu coração não para...

Ele bate, bate, bate...

E começo a pensar que ele não é tão involuntário assim. Ele não está batendo cada vez mais rápido porque precisa. Porque é necessário e fisiológico.

Metade do dia ele bate por ela.

Para ela.

Expiro o ar com força.

Eu não posso permitir que ele seja dela.

— Você vai embora? — Ela se vira para mim de repente e me sinto desconfortável por estar encarando-a desse jeito. E pensando o que estou pensando.

— Não, eu... — Desvio meus olhos dos seus porque eles são profundos demais, mas sou atraída para a sua boca outra vez. — Eu posso pegar um metrô aqui na frente, não tem...

— Não — Ela levanta uma mão e eu paro de falar. — Eu quis dizer de Nova York.

Nego com a cabeça porque é isso o que meu coração quer dizer, que eu não vou a lugar algum, principalmente se ela não estiver lá. Mas a minha razão me impede.

— Eu ainda não pensei sobre isso.

Ela concorda e boceja outra vez.

— Melhor eu te levar embora — Estendo a mão para ela e tento ignorar a eletricidade que se propaga por todo o meu corpo quando a palma da sua mão toca a minha.

— Você sabe que eu vou te levar embora, não sabe? — Pergunta assim que passamos pela porta e ela desativa o alarme do carro.

— Não vai, não.

— Mas... — Ela para de falar quando abro a porta do passageiro e tiro a chave da sua mão.

— Eu vou levar você para a sua casa — Fecho a porta, dou a volta no carro e assumo o volante. — Você só precisa me dizer onde é.

— Siga em frente e vire a segunda rua à direita, logo depois do farol.

O percurso até a enorme casa branca onde ela mora com os pais leva cerca de vinte minutos e Lauren o faz em silêncio absoluto. Ela não me olha em nenhum momento e isso me deixa de certa forma angustiada. Preciso me concentrar em manter as mãos no volante o tempo todo para não segurar a sua mão e beijar todos os nós dos seus dedos e decorar a maciez da sua pele sob a minha boca. Mas não faço isso porque quanto menos recordações eu tiver, mas fácil será ir embora.

— Você leva o meu carro amanhã de manhã? Eu preciso muito dele e...

— Você vai guardá-lo na garagem?

— Não, eu perdi meu controle e não tenho como abrir, mas... Você não vai embora com ele?

— Eu vou de metrô.

Quando termino de estacionar o carro em uma vaga apertada bem em frente da sua casa, olho para ela bem a tempo de ver a confusão instalada em seu rosto. Ela nem imagina a confusão que está acontecendo dentro de mim.

— Eu posso dormir demais amanhã e atrapalhar o seu dia, então...

— Atrapalhar? — Ela balança a cabeça, negando, e uma ruguinha se forma entre suas sobrancelhas. Dessa vez, minha mão não obedece ao meu comando de ficar parada e acabo tocando o vinco em sua pele. Lauren fecha os olhos por alguns segundos e me pergunto se ela está sentindo o mesmo que eu. É como se todas as partes do meu corpo ficassem despertas com apenas esse toque.

Coloco uma mecha da sua franja atrás da sua orelha e ela estremece, ainda de olhos fechados.

— Amanhã você pode querer comer caviar com alguém e eu não quero empatar seu encontro.

Ela arregala os olhos e deixa uma risada escapar.

Ah, Lauren! Eu acho que acabo de me apaixonar pela sua risada.

— Eu achei que você fosse me levar para um encontro?

Arqueio as sobrancelhas. Ela pega a minha mão que ainda brinca com a mecha do seu cabelo e deposita um beijo em seu dorso.

Acho que decorei a maciez dos seus cabelos.

Acho que decorei a suavidade dos seus lábios na minha pele.

Ela sorri para mim e me olha através dos seus imensos cílios negros. Depois, abre a porta e sai. Faço o mesmo e nós nos encontramos na traseira do carro.

— Só para você saber, eu não vou comer caviar amanhã porque sim, eu tenho um encontro... — Estreito o olhar e tento disfarçar a decepção que essas palavras me causam. — Essa pessoa que vai sair comigo odeia caviar então acho que o cardápio será outro. Eu não sei o que ela gosta de comer porque eu não a conheço muito bem, mas parece que ela gosta muito de S´mores.

Só percebo que estou quase arrancando a pele da minha nuca quando ela diz a última frase e sorri para mim.

— Essa mulher tem muita sorte. Eu daria tudo para comer S´mores amanhã.

— Se você não estiver atrapalhando ninguém... — Ela faz sinal de aspas com os dedos. — e quiser que eu cozinhe para você... — Ela dá de ombros e cruza os braços na frente do corpo.

— Às oito? — Pergunto ligeiramente ansiosa e preciso controlar a minha voz.

— Está ótimo — Ela dá um passo na minha direção e aponta o dedo em riste para mim. — Você compra o vinho — Aquiesço e ela sorri. Dou um passo à frente, diminuindo o espaço entre nós. — Você tem alguma comida preferida? — Nego. — Nenhuma comida pela qual você daria a vida?

Nego outra vez.

— Surpreenda-me.

Ela sorri ainda mais e quase me perco naquela covinha.

Eu poderia beijá-la agora!

Eu posso beijá-la agora!

Seguro seu rosto com a mão esquerda e me inclino na sua direção. Beijo sua covinha e  sinto uma pressão no estômago quando percebo que a pele do seu rosto é ainda mais quente e macia sob meus lábios. Inspiro o ar profundamente e me afasto antes que...

Dou um passo para trás e acho que isso a deixa surpresa porque seu corpo parece perder um pouco do equilíbrio. Coço a cabeça com a mão e tento manter meu próprio equilíbrio, não apenas físico. O emocional é o que me abala mais enquanto olho para seu pescoço quente e vermelho.

— Eu vou... — Digo apontando para trás com o polegar sem saber exatamente para o que estou apontando.

— É, eu... — Ela pigarreia. — Eu também vou.

Concordo com ela, enfio as mãos nos bolsos e dou as costas para ela.

— Camila! — Grita quando já estou a pelo menos dez passos de distância. Viro-me para ela outra vez. — Eu detesto caviar! — Um sorriso brincalhão dança em seus lábios e me pego fazendo o mesmo.

— Graças a Deus! — Grito de volta.

Seria tão mais fácil se você gostasse de caviar, Lauren!


Notas Finais


Qualquer erro corrijo depois.


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