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História Wolf's Bane - taekook - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


E aqui estou eu...

Não sei o que dizer porque estou insegura com essa fanfic visto que é a primeira ABO que escrevo na vida...

Mas os comentários de vocês no prólogo, no twitter e na tag me deixaram menos angustiada haha.

Então espero, de verdade, que gostem desse capítulo. Ele tá bem grande então se puder comentem bastante para me motivar e favoritem também, por favor.

Não esqueçam de usar a tag no twitter para falar sobre a fic #WolfsBaneTK

Agradeço a HiShinySmiles pela betagem.

Boa leitura ~~

Capítulo 2 - Um bom ômega deve...


Fanfic / Fanfiction Wolf's Bane - taekook - Capítulo 2 - Um bom ômega deve...

 

❝— Maldição! – Dizia ele. — Eis como é preciso ser! Basta ser belo e nada mais!❞

— Victor Hugo

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[Ano 1741 d.e]

Maio, Vigésima primeira Lua do mês, fim da primavera

 

Gargalhei alto, enquanto corria descalço pelo jardim, ouvindo os gritos de minha ama logo atrás de mim. Respirei o ar puro das flores que caiam das árvores com leveza, sendo carregadas pelo vento enquanto espalhavam-se pelo chão, tocando o solo com louvor. Eu gostaria de me deitar junto a elas, mas a voz de Ahri arrancou-me de meus pensamentos, obrigando-me a forçar os pés no chão de terra enquanto vasculhava o ambiente em busca da árvore mais alta.

Não foi difícil encontrar minha bela Neun — nome este que eu dera sim a árvore — e impulsionando-me, agarrei um dos troncos, forçando o corpo para cima, até conseguir sentar-me. Não era alto o suficiente, os portões da aldeia ainda pareciam distantes demais aos meus olhos, e com cuidado me ergui, escapulindo pelos galhos, apoiando as costas no tronco e subindo cada vez mais. 

— Jovem mestre! — a voz de Ahri soou e tornei a desviar os olhos do imenso portão para o rosto aflito e enrugado de minha ama. — Desça já daí! — gritou e ri soprado, incapaz de conter a euforia que me dominou ao sentir a brisa fria acariciar minha pele.

— O dia está tão lindo, não acha? — perguntei, sentando-me em um dos ramos, erguendo os braços, tentando tocar uma das folhas.

— Pelos Espíritos, Jeongguk! — Ahri gritou, as mãos balançando-se desesperada. — Você irá se machucar!

— Eu estou bem — digo, revirando os olhos, segurando a folha alaranjada entre os dedos. 

— O jantar será servido em algumas horas jovem mestre, precisa se aprontar!

— Não me chame assim Ahri — bufo, sentindo minhas bochechas esquentarem em pura irritação. 

— É como deve ser chamado, jovem mestre — minha ama responde, olhando para os lados. — Desça logo, está todo sujo e pelos Espíritos, se sua mãe o ver nessas condições quebrará minhas mãos! Vamos, desça!

— Eu não quero ir ao jantar! — Digo, voltando a encarar os portões de entrada para a aldeia.

Nossa hanok¹ se encontra no local mais alto, permitindo que, mesmo com tamanha distância, eu possa enxergar os portões, mas eles permanecem fechados. 

Estou aguardando por notícias, desde que-

— Se não descer, terei de chamar os guardas Jeongguk! — a voz de Ahri desperta meus sentidos e desvio o olhar para seu rosto aflito novamente.

— Não pode chamar os guardas — digo, sorrindo de canto. — Não me banhei ainda e meu inibidor está em meus aposentos — respondo desafiador, abrindo um sorriso travesso assim que os olhos castanhos de Ahri brilham surpresos.

É mentira, claro. Não posso ficar sem o inibidor, mas Ahri não precisa saber que o escondi no bolso.

— Jovem mestre! Você sabe que não pode ficar sem ele! E deve banhar-se e perfumar-se para-

— Eu sei — reviro os olhos, pressionando os lábios em uma linha fina, descontente.

— Teremos visita jovem mestre, então desça daí, está agindo como um vira lata!!

— Que palavra mais chula Ahri! — repreendo-a, embora não me sinta nem um pouco ofendido.

— És um ômega jovem mestre e deve estar apresentável ao alf-

— Então meu Abeoji² convidou outro alfa? — a interrompo, sentindo meu lobo interior rosnar em pura irritação. — Sabes bem que não dará certo e eu não irei banhar-me para um alfa, apenas para agradá-lo. 

— Deve se casar!

— Eu não quero me casar!

— Jovem mestre! Um ômega como o senhor deve encontrar um noivo o quanto antes, em breve fará dezoito anos e sequer está desposado. Sabe como a honra de sua família está em jogo, não?

Suas palavras são duras e por um momento penso em descer da árvore e segui-la para meus aposentos, mas uma palavra em especial me impede de fazê-lo. 

Ômega.

Tudo isso porque sou um ômega. Se fosse um alfa, meu pai estaria levando-me a celebrações pós-batalhas, apresentando-me betas e belos ômegas para tomar por uma noite e só pensaria em um casamento quando uma grande oportunidade de aliança surgisse.

Mas essa não era minha realidade. Não que eu fosse desejar fazer estas coisas de qualquer forma, só me irritava não receber o mesmo tratamento que um alfa receberia. 

Como ômega, meu pai exigiu os melhores alfas, filhos de líderes e soldados, mas fui rejeitado por todos eles, simplesmente porque não gostam de quem sou, como sou. E eu não iria conter minha risada "escandalosa", concordar com tudo que dizem ou usar roupas menos confortáveis apenas para satisfazê-los  

Para o quinto dos infernos todos os alfas! Eu não precisava deles! 

— Diga ao alfa que meu abeoji convidou para voltar de onde veio! — esbravejei, inflando as bochechas irritado. 

— Jovem mestre, não complique mais as coisas, em breve o Mestre Seokjin chegará e ele parece ter uma grande notícia para-

— Jin estará aqui?! — Arregalo os olhos, endireitando-me. — Mesmo?

Ahri sorri de canto e concorda.

— Sim, o Mestre Kim deverá chegar em poucas horas com sua alcatéia, então desça já daí!

Volto a olhar para o imenso portão, esperando que a carruagem de Jin Hyung apareça e me livre do tédio momentâneo.

— Por que ele virá?

— Não sei lhe dizer jovem mestre, mas parece que é algo importante, por isso seu pai ordenou que se preparasse para o jantar, venha!

Pisco surpreso, incapaz de acreditar em suas palavras, há algo mais acontecendo, que Ahri não quer me contar. Antes que eu possa dizer algo, o som de tambores anunciam a chegada do Kim e levantando-me animado, abraço o galho da árvore e observo o imenso portão de madeira se abrir.

Ahri está gritando comigo, temendo que eu caia da árvore, mas meus olhos e atenção estão totalmente focados nos guardas de Seokjin que circulam sua bela carruagem rosa. Pisco confuso quando mais deles surgem, alguns em cima de cavalos com o brasão de Bane, nossa aldeia, e outros com o brasão de Lótus, aldeia de Seokjin.

— Os soldados de meu abeoji também chegaram — digo, piscando confuso.

Estão distantes demais para que possa ver com mais clareza e apenas a cor roxo índigo de suas bandeiras e trajes me indicam que nossos guerreiros também vieram acompanhando Jin Hyung.

— E o que está fazendo aí?! Jeongguk! — Ahri esperneia, jogando um pequeno galho em minhas costas. — Desça logo, temos que aprontá-lo! 

Faço uma careta e concordo, observando os soldados de meu vilarejo tomarem a frente, fazendo seus cavalos galoparem com fervor em nossa direção. Certamente chegariam em poucos minutos.

— Jovem mestre! Se apresse, não temos tempo! — minha ama implora e mesmo que eu aprecie provocá-la, compreendo que não é o momento. 

— Está bem — respondo, descendo com facilidade da árvore, sentindo o gramado acariciar meus dedos dos pés e sorrio pequeno. Se pudesse, andaria descalço para todos os lugares.

Permito que Ahri me arraste pelos cômodos, resmungando sobre meu cheiro que está começando a se intensificar, devido ao suor que escorre por meu pescoço graças aos pequenos exercícios que fiz fugindo de minha ama.

O inibidor que geralmente carrego em meu pescoço e as ervas medicinais que tomo são o suficiente para ocultar meu cheiro, mas não posso me contentar apenas com ele e logo entro na banheira preenchida com água morna que outras criadas prepararam para mim.

Jieun, minha ómoni³ ainda não apareceu, o que significa que terei alguns minutos de paz.

— Ahri — digo, sentindo os olhares de minha ama e das criadas sob minhas costas. Eu odiava ser lavado por outras pessoas, tenho plena capacidade para fazê-lo sozinho. — Vá buscar minhas roupas e deixe que eu mesmo me banho.

— Jovem mestre-

— Por favor — peço, sorrindo gentil. Sei o que ela está pensando, que não irei banhar-me corretamente, com todos aqueles óleos e perfumes para esconder meu cheiro e agradar o possível alfa que virá, e ela está certa. 

— Jovem mestre, sabe que deve banhar-se adequadamente essa noite, certo? — noto a hesitação em seu olhar.

Ela geralmente negaria e esfregaria meus pés com fúria ao notar o quão sujo estão, mas não temos tempo, Seokjin e sua alcatéia logo chegarão e eu ainda não estou apresentável.

— Prometo lavar-me adequadamente — minto, porque mesmo sentindo falta de Seokjin, não posso evitar suspeitar que ele trará um pretendente junto a ele e não desejo atraí-lo de forma alguma.

Ahri e as criadas concordam e saem rapidamente. Não seria difícil enganá-las, visto que são todas humanas, apenas com poucas características lupinas em seu sangue.

Nem todos possuem um lobo dentro de si. O meu lugarejo e todos os outros da Coréia do Sul — e do mundo, suponho — possuem uma quantidade bem específica de descendentes lupinos. Em sua maioria, os betas dominam as aldeias e vilarejos, sendo seguidos pelos humanos com características lupinas, como olfato; audição e raramente força, logo em seguida os ômegas e então, os alfas — existindo apenas dez deles em Bane, minha aldeia.

Meu pai o líder, é um deles — um alfa lúpus — e além dele, conheço apenas a senhorita Ahn, uma bela alfa fêmea, com fortes características e a única que tem minha total admiração. Provavelmente por ser a única alfa fêmea de Bane e por ter que provar todos os dias que é tão poderosa quanto os homens de nosso vilarejo. Hwasa era incrível.

Lavo os cabelos e meu corpo com cuidado, apenas porque amo banhar-me após bons exercícios e fugir de minha ama sempre será divertido. Pego um dos frascos com as ervas que o Sábio dos Montes me deu e despejo na água. Estão quase acabando e sei que receberei outro pote com mais destas em meu aniversário de dezoito anos. 

Olho os frascos de óleos florais ao meu lado e faço uma careta. Meu cheiro não é incômodo para mim, na verdade a flor de aconitum tem uma fragrância doce e fresca, embora faça os demais lobos franzirem o nariz e piscarem angustiados, os olhos lacrimejando, como se estivessem cortando cebolas. E tal fato sempre me deixa magoado e constrangido. 

Eu gostaria de ter um cheiro atraente para os lobos, talvez isso facilitasse a minha vida, sem banhos demorados e perfumes falsos impregnados em minha pele. Me levanto e agarro o roupão que minha ama deixou ao lado da banheira, cobrindo meu corpo nu sem demoras. Se tardar em lavar-me, Ahri ou minha ómoni podem aparecer e notar que não usei os óleos perfumados.

Eu só preciso tomar um dos medicamentos que o Grande Sábio ordenou e colocar o medalhão com o inibidor em meu pescoço novamente, seria o bastante para esconder meu cheiro verdadeiro. Os perfumes e óleos serviam apenas para substituir a ausência de um odor doce em minha pele e atrair os lobos. 

— Jovem mestre, está pronto? — ouço Ahri perguntar e logo abro as portas, caminhando em sua direção com um sorriso pequeno.

— Certamente — digo, agarrando o medalhão que joguei sobre a escrivaninha, mas Ahri apenas o afasta de meu toque, piscando atenta. 

— Usou os óleos corporais, jovem mestre? — questiona e dou um passo atrás, concordando com a cabeça. — E por que não estou sentindo o perfume?

— Eu não passei muito — respondo, soando indiferente. — Vamos, tenho que me vestir logo para-

— Eu cuido de você desde que vivia no ventre de sua mãe, jovem mestre! — ela bufou, cruzando os braços. — Posso não ser uma alfa, beta ou ômega, mas sei quando você está mentindo e quando seu cheiro não está totalmente camuflado.

Ela está certa. Sem o inibidor em meu medalhão e os medicamentos, o banho com as ervas apenas diminuem o odor que a flor de aconitum deixa em minha pele.

— Eu não quero banhar-me com dezenas de frascos de perfume, deixa meu nariz irritado, sabe disso — murmuro, porque de fato tanto perfume e óleos corporais irritam demasiadamente meu olfato. Mais acima de tudo, porque não quero parecer um jovem ômega, prestes a fazer dezoito anos desesperado para ser desposado por um alfa.

— Jovem mes- Jeongguk — ela arquejou, sabendo que eu não irei acatar aos desejos de meus pais. — Não seja mimado e vamos voltar a banheira, ainda há tempo e um ômega como você não pode-

— Eu sou muito mais que um ômega — digo, sentindo a raiva inundar-me. Mas não é culpa de Ahri e como costumo fazer, abro um sorriso travesso, sabendo que é a melhor forma de ocultar meu descontentamento. 

— Não ouse, jovem mestre! — Ahri dá um passo à frente, temendo que eu faça exatamente o que pretendo e sem pensar duas vezes, giro em meus calcanhares e abro a porta de meu quarto rapidamente, correndo em direção as escadas. 

Uma risada escapa de meus lábios quando viro o primeiro corredor, ouvindo os passos apressados de Ahri e das criadas que a acompanhavam, enquanto gritam meu nome irritadas. Desço as escadas rapidamente após despistá-las no último corredor do segundo andar e mordo os lábios contendo outra risada travessa, virando em direção ao corredor da porta de entrada. Se eu conseguisse dar a volta, poderia entrar em meu quarto usando as janelas. Não era adequado que um ômega fizesse tal coisa, mas quem se importava? 

Bem... Todos, menos eu.

Mas meus planos são arruinados quando meu rosto bate nas costas de alguém, então pisco confuso. 

Inferno! Quem ficava parado como uma estátua em frente a escada? 

Bufo e agarro o pulso de quem suponho ser um dos guardas e o puxo para baixo da escada, curvando minha cabeça um pouco, olhando para trás.

— O que- o interrompo, colocando o dedo indicador em seus lábios, pedindo que ficasse quieto.

— Jovem mestre! — Ahri passa correndo por mim, sem sequer notar minha presença. 

Afasto o dedo da boca do guarda e cubro a minha própria, evitando que outra risada escape, sentindo seu olhar pesar sobre mim. E então eu finalmente sinto, ou me atento ao cheiro ao meu lado. Um alfa.

Meu corpo reage instantaneamente, enquanto me mantenho paralisado, o ômega dentro de mim parece choramingar para sentir mais seu cheiro, o que é humilhante e muito irritante, visto que isso nunca tinha ocorrido antes.

Cacau e grama molhada. Interessante, diferente... Delicioso.

— Jovem mestre?! — ele sussurra, como se compreendesse que não poderia fazer barulho e entregar onde estou me escondendo. E é sua voz grave e rouca que me faz estremecer, mas desta vez não é meu lobo interior e sim o homem, Jeongguk, que está totalmente surpreso com o timbre aveludado do alfa ao meu lado.

Ergo os olhos, virando o rosto para fitá-lo finalmente, nós estamos tão próximos que consigo sentir sua respiração tocar meus lábios e engulo em seco, sentindo meu coração acelerar e meu rosto corar por saber que ele é capaz de ouvi-lo com seus sentidos de alfa. Seus olhos são castanhos, mas estão tão escuros que parecem negros como os meus e suas orbes parecem penetrar o fundo de minha alma, enquanto ele analisa meu rosto sem qualquer receio, até descer para o roupão que cobre meu corpo nu. 

Faço o mesmo, tão lentamente que me repreendo mentalmente por gostar do que vejo. Ele é lindo e a forma como sua franja longa e escura cai sobre seus olhos o torna absurdamente atraente. E seu cheiro... É-

Desconcertado, me endireito, afastando-me minimamente do alfa a minha frente. Fui pego de surpresa e deixei que o lobo dentro de mim dominasse minhas ações, mas não me mostraria atraído por ele, de forma alguma. Todos os alfas que conheci tinham um cheiro atraente, todos eram belos, mas no fim, todos eram igualmente desprezíveis, orgulhosos e exigentes.

— Sou eu — digo, sorrindo de canto, meu autocontrole havia retornado. — E você? — pergunto levantando uma das sobrancelhas, a voz soando mais doce que o habitual, quase sedutora.

Não quero seduzi-lo, apenas mostrar que não sou o tipo de ômega que sorri envergonhado e é incapaz de proferir uma frase sem gaguejar. O alfa pisca surpreso e não parece se incomodar com a falta de modos ao me dirigir a ele, na verdade, meu tom desafiador parece diverti-lo.

— Eu me- ele faz menção de se apresentar.

— Jovem mestre! — a voz de Ahri o interrompe e eu bufo irritado, arrancando uma risadinha nasalada dele, me fazendo o olhar com curiosidade novamente.

— Jeon Jeongguk — arregalo os olhos quando a voz irritadiça de minha ómoni ecoa pelos corredores e posso sentir seu cheiro se aproximar. E eu teria sérios problemas se fosse visto apenas com um roupão, junto de um alfa desconhecido. 

Ele pisca divertido para mim, como se esperasse outra atitude rebelde de minha parte e eu adoraria fazê-lo, não para agradá-lo, apenas para provocar minha ómoni, mas me lembro de meu estado e mesmo que não deseje demonstrar vergonha, estou muito constrangido por estar dessa forma em sua frente. 

— Sinto muito lobinho... — digo com um sorriso arteiro no rosto, mas não para ele e sim para o alfa dentro dele que está louco para me tocar. Sei disso pois o ômega dentro de mim está ansiando por isso.

Pisco lentamente, molhando os lábios com a língua, amando a sensação que inunda meu corpo quando seus olhos acompanham meu ato. Sorrio, apreciando a expressão que domina seu belo rosto. Provavelmente não estava acostumado a atitudes descaradas como essa vinda de um ômega. Eu estava provocando-o? Certamente. Mas infelizmente meu estado não permitia que prolongasse essa deliciosa troca de olhares. Então me afasto.

— Eu preciso ir — e corro escadas acima, soltando a respiração que sequer notei estar prendendo, evitando sentir o cheiro agradável de grama molhada e cacau.

— Jeongguk! — Jieun entra em meu quarto enfurecida. Está usando um belo vestido tradicional, com um grande laço azulado em suas costas eretas. 

— Ómoni...

— Será que pode, uma vez na vida, ser um ômega decente? — ela bufa, abrindo a porta para que Ahri e as criadas entrassem cabisbaixas. — Jungwo está recebendo Seokjin neste momento e você sequer está vestido! E ainda faz a pobre Ahri correr por ai!

Encaro minha ama arrependido, Ahri não é tão jovem como eu e mesmo que diga em outros momentos que gosta de me arrastar por aí, sei que deve estar exausta. 

Me curvo em frente a minha ama, fazendo ela, as servas e Jieun arregalarem os olhos. 

Sou o filho do líder do vilarejo e Ahri é criada de nossa família, não deveria me curvar dessa forma a ela, mas não me importo. Ahri é mais velha do que eu, cuidou de mim desde que nasci e eu lhe devo todo respeito que sou capaz de dar.

— Me desculpe — digo, envergonhado. Por mais que goste de correr por ai, não desejo tornar a vida de minha ama um desafio. Se minha ómoni não a obrigasse a ficar em meu encalço, enquanto ordena que deve ensinar-me a ser um bom ômega, Ahri não passaria por nada disso.

Farei dezoito anos em poucas luas, não preciso de uma ama, não mais. Somi, minha irmã, não recebe tanta atenção de sua ama como eu e a resposta para isso é bem simples: eu sou um ômega macho, diferente e amaldiçoado.

— Já chega, vistam-no! — Jieun ordena, e Ahri concorda rapidamente, indicando as criadas qual seria meu traje para o jantar.

Expirei  surpreso quando Ahri coloca o medalhão em meu pescoço e me estende um copo com meu medicamento, enquanto desliza por meu pescoço e braço um dos óleos perfumados que possuo. No entanto, percebo que não estava usando-os quando encontrei o belo alfa, o que era estranho, visto que, não parecia incomodado com meu cheiro e sim... Atraído. 

Mas as ervas que usei durante o banho tinham amenizado o odor da flor de aconitum, talvez por isso ele não demonstrou repulsa ao estar tão próximo de mim.

Mas se meu cheiro não o atraiu, então o que foi? Meu rosto? Meu corpo?

— Coloque calças largas — a voz de Jieun me fizeram lembrar que não poderia ser isso. Meu corpo não era agradável para os alfas.

Eu tenho braços fortes, pernas grossas e malhadas. E minha ómoni odiava quando eles ficavam em evidência. "Nenhum alfa irá se casar com um ômega que parece mais forte que ele fisicamente Jeongguk!", Jieun dissera certa vez, enquanto escondia meu corpo em camadas de tecido, podendo usar a desculpa de que minhas curvas delicadas existiam, mas seriam preservadas para os olhos de meu marido. "Se não fizesse tantos exercícios, escalando árvores, subindo e descendo essas escadas aos gritos não teria um corpo como esse. Um ômega deve ser pequeno e delicado!"

Prendi a respiração quando Jieun tomou o lenço das mãos de uma das criadas e circulou minha cintura fina. Era a única parte de meu corpo que parecia agradar a ômega, que abusava em marcá-la sempre que podia, privando-me do ar.

— Penteie seus cabelos para o lado — ordenou e fechei os olhos quando Ahri me fez sentar em frente ao espelho, as mãos suaves acariciando meu couro cabeludo. — E lembre-se de cortar o cabelo dele depois! Um ômega não pode ter um cabelo tão comprido e bagunçado assim — ralhou e contive a vontade de abrir os olhos apenas para revirá-los.

Minha franja já atingia meu nariz e meus cabelos cobriam minha nuca, ondulando suavemente nas pontas. Eu gostava, mas segundo minha ómoni, se um ômega não se mostrava cuidadoso com sua aparência, seu cabelo, então dava sinais de que não se importava com as demais áreas de seu corpo, desagradando os alfas. Tudo isso era tão irritante que eu amava adiar minha depilação apenas para provocá-la. 

— Não temos mais tempo, Jungwo deve estar nos esperando e não é educado nos atrasar em nosso próprio jantar — Jieun segurou meu braço, arrastando-me. Sorri agradecido para Ahri e a segui. 

A voz de meu abeoji soava do outro lado da porta, mas não foi isso que chamou minha atenção e sim o forte cheiro de cacau e grama molhada do alfa. Tentei recuar, mas os dedos firmes de minha ómoni me forçaram a andar mais rapidamente. Ela abriu a porta e curvou-se para Jungwo, pedindo sua autorização para sentar-se. Repeti seu ato, sentindo o olhar do alfa sobre mim.

Não estávamos em nossa sala de jantar habitual o que me fez ficar ainda mais curioso com a visita de Seokjin e sentando-me nas almofadas, virei-me para o alfa que conversava com meu abeoji.

— Jin! O que o traz aqui? — pergunto direto, incapaz de conter minha curiosidade e sinto o beliscão de Jieun em minha perna.

Seokjin desvia o olhar para meu rosto e pisca animado com minha chegada, fazendo a cicatriz em seu olho direito enrugar-se de maneira cômica. Não sei como ele a conseguiu — embora suponha que tenha sido em uma de suas batalhas ao lado de meu abeoji.

Jin Hyung é um alfa de trinta e dois anos, com o belo rosto de um homem de vinte e seis. Líder da aldeia Lótus, nossa vizinha e aliada. E mesmo sendo quase vinte anos mais jovem que meu abeoji, o Kim parece ter muito em comum com Jungwo, desde idéias a interesses pessoais. Estou o olhando igualmente animado, porque Jin é um dos poucos alfas com o qual posso ser eu mesmo.

Somi, minha irmã mais nova sorri discreta. Ela era a ômega perfeita, e não porque Jieun exigia isso, Jeon Somi era delicada e gentil por si mesma. 

— Jeongguk, tenha modos! — Jieun me repreende, mas meus olhos permanecem fixos em Seokjin, que continua com seu sorriso de canto. 

— Está tudo bem — o Kim responde, endireitando-se. — Senti sua falta, Jeongguk-ah.

— Eu também — digo animado, erguendo-me em sua direção, para deixar que o mais velho acaricie meu rosto e bagunce meu cabelo como gosta de fazer. 

— Jeongguk, sente-se — Jungwo diz seriamente, o olhar intercalando entre mim e o alfa ao seu lado, que mantém os olhos castanhos e avaliativos fixos em minhas ações. 

Estou sentindo o olhar dele desde que entrei neste cômodo, mas desta vez parece diferente, o encaro sem disfarçar, avaliando-o igualmente. 

— Perdoe os modos de meu filho — meu abeoji diz ao alfa, que apenas meneeia a cabeça lentamente, desviando o olhar de meu rosto para o líder de nossa família.

— Tudo bem, mestre — diz, erguendo o copo em direção aos lábios.

— Jeongguk, este é Taehyung — Jungwo diz, e o alfa entende seu ato como uma oportunidade para me encarar novamente, sorrindo pequeno. — Ele é o vice-general de nosso esquadrão de sentinelas, que protegem nossa aldeia. 

Encaro o dito estupefato com a informação, apesar de que suas roupas já tenham evidenciado isso. Entretanto, não imaginei que poderia ser o vice-general, ele parece muito jovem para isso. 

— É um prazer, jovem mestre — ele faz uma pequena mesura com a cabeça, erguendo a mão em minha direção, mas não o cumprimento, temendo que meu corpo reaja de forma duvidosa. 

— Jeongguk... — Jieun sussurra entredentes, mas me mantenho parado.

— Me chame de Jeongguk — digo simples, fazendo todos esbugalharem os olhos, chocados com minha ousadia. 

Mas não o digo porque desejo que sejamos mais próximos ou íntimos e sim porque este título não é de meu agrado e talvez, só talvez, eu deseje ouvi-lo dizer meu nome com seu belo timbre rouco.

O alfa contudo, apenas ri soprado, enquanto recolhe a própria mão estendida e a leva em direção aos seus lábios, como um estranho hábito que não passa despercebido por mim, infelizmente. 

— Não seria adequado, jovem mestre — ele responde, divertindo-se claramente com minha atitude. 

— Por que está aqui, Taehyung? — questiono, sentindo o beliscão de Jieun ainda mais forte e o olhar de Jungwo fixos em meu rosto.

— O vice-general Kim — meu abeoji murmura, repreendendo-me indiretamente. — Escoltou Seokjin e sua família após sua última missão.

Aturdido desvio o olhar do alfa para meu abeoji. 

— Não entendo...

— Se conter sua língua por alguns minutos e deixar que os alfas falem Jeongguk, então compreenderá! — Jieun diz desgostosa e concordo levemente, sentando-me sobre minhas pernas novamente, apoiando as mãos em minhas coxas.

— Prossiga com o relatório — Jungwo ordena e Taehyung concorda.

— A Mestra Hyuna e seu marido não suspeitaram de nada durante as luas em que estive disfarçado — murmura o alfa, e prendo a respiração ao notar que seu feromônio parece estar se intensificando e sinto meu corpo estremecer por estar tempo demais no mesmo ambiente que ele. — Consegui resgatar Hanseo sem muitas complicações, com a ajuda de meus companheiros betas Baekhyun e Chanyeol, e enviei uma mensagem ao Mestre Seokjin imediatamente. 

— Reuni minha alcatéia e viemos o mais rápido possível — Jin respondeu. — Encontrei o general Kim no meio do caminho e aceitei sua ajuda e segurança para chegar aqui o quanto antes.

Certamente tinha pego o relatório no final, mas uma pequena informação foi o bastante para deixar-me eufórico. Esta que eu estava justamente esperando, o motivo de fazer-me subir em Neun — minha bela árvore — e observar os portões. 

— Hanseo foi resgatada?! — interrompo a conversa dos três alfas novamente e apenas Jungwo, meu abeoji, parece incomodado com meu ato. Seokjin está acostumado e me conhece o suficiente para que tais modos sejam descartados. No entanto, o novo e estranho alfa me observa com curiosidade e divertimento.

Mas, enquanto tento conter meu lobo que continua choramingando, implorando para que eu me aproxime e sinta mais do cheiro do alfa, Taehyung não parece mais afetado com minha presença. Na verdade, ele torce o nariz levemente de tempos em tempos, enquanto me observa confuso. 

— Jeongguk você não pode- minha ómoni não consegue terminar de me repreender pois os criados entram com nosso jantar. 

— Desde que Hanseo foi raptada pela aldeia de Hyuna tenho tido dias repletos de aflição — Seokjin murmura, claramente abatido. — Serei eternamente grato a você general por salvar minha garotinha. 

— Me chame de Taehyung, Mestre Kim — o alfa se curva levemente e Seokjin sorri gentil.

— Neste caso, não me chame mais de mestre — Seokjin responde e ambos trocam olhares amigáveis. 

— Certamente o que você fez não será esquecido filho — Jungwo diz, sorrindo largamente, me fazendo ficar desordenado com sua reação. Meu abeoji não costuma ser tão agradável com outros alfas, muito pelo contrário. Com exceção de Jin Hyung, seu amigo e aliado de longa data, os demais alfas não recebem um sorriso como esse de meu abeoji. 

— Eu apenas cumpri com meu dever, mestre — Taehyung diz, ainda intercalando o olhar entre meu rosto e o de Jungwo.

Algo está incomodando-o e sinto um rubor em minha bochecha ao imaginar que talvez meu cheiro esteja se intensificando sem minha autorização. Meu lobo parece desesperado para atrair o alfa, liberando seu feromônio com ainda mais intensidade. E isso certamente deve estar incomodando-o, mas Taehyung parece educado demais para dizer isso em voz alta.

— Eu posso ver Hanseo? Ela está aqui? — pergunto, porque preciso sair desse cômodo o quanto antes. O cheiro do alfa é forte demais para mim e sei que, por eu ser um ômega, meu cheiro também pode ser ainda mais intenso para ele.

Hanseo é filha de Seokjin e foi raptada pela aldeia de Hyuna em uma de suas provocações devido a recusa do Kim em se aliar a ela. As aldeias estão nesse estado de guerra desde que o rei japonês Hyungsik veio a Coréia para nos informar sobre a decisão do Conselho.

O Conselho era composto por todos os reis de cada país existente e a Coréia do Sul é um dos países que não possuía um rei proclamado. 

Hyunsik então foi enviado para informar que devemos proclamar um rei, para falar pelo povo e cuidar de questões internacionais. Mas os líderes de cada aldeia não aceitaram ceder ao cargo e desde então, há três décadas, a paz se esvaiu, dando espaço à batalhas, invasões e raptos como o de Hanseo.

Esse era um dos motivos de meu abeoji estar tão desesperado para desposar-me com outro alfa, que seja de preferência filho de um dos líderes do vilarejo vizinho. Casar-me reduziria o número de aldeias em conflitos com Bane. Seokjin tem apenas Hanseo como filha, e ela é uma ômega de oito anos de idade. E sua irmã Jennie, uma alfa, me detesta com todas suas forças, devido a minha personalidade "barulhenta". 

Então, depois de ser recusado por todos os filhos dos líderes, meu abeoji tentou unir-me com os filhos dos generais e capitães, mas novamente, tenho recebido muitas recusas. Ainda haviam muitos alfas nos vilarejos e aldeias vizinhas, e cedo ou tarde, Jungwo conseguiria um que estivesse disposto a casar-se comigo, aturando meu comportamento "inadequado para um ômega" apenas para conseguir o líder de Bane como aliado.

— Hanseo está em meu quarto, orabeoni — Somi responde, a voz soando baixinha e delicada.

Ela era a salvação de nossa família, segundo minha ómoni, afinal o filho primogênito do líder de uma de nossas aldeias vizinhas, Jung Jaewon — o mesmo que rejeitou-me por ser um ômega macho —, aceitou o acordo de Jungwo para tê-la como noiva. Os detalhes ainda estavam sendo discutidos segundo meu abeoji e só firmariam sua aliança quando Somi e Jaewon se casassem, o que levaria no mínimo cinco longos anos, visto que ela só tinha treze anos. 

Não me agradava saber que minha doce irmã estava noiva de um homem dez anos mais velho que ela, dava-me repulsa e inquietação. E mesmo que eu pergunte a ela como se sente, Somi apenas responde que é seu dever.  Se eu pudesse me casar com o líder de uma dessas aldeias, conseguiria convencer meus pais a acabarem com o noivado de Somi, mas há algo nessa aliança temporária que deve ser mantida, por enquanto.

Eu poderia ceder aos caprichos dos alfas que tiveram algum interesse em mim, mas não é como se conseguisse. Eu sou assim e quando eles começam a impor suas vontades sobre mim, imediatamente os rejeito. Se tenho que me casar por poder, então deveria ao menos escolher com quem passar o resto de minha vida. E Somi não é a primogênita, se ela pedir aos nossos pais para impedirem seu casamento com Jaewon, certamente o fariam, afinal, Jungwo não é um pai ruim e Somi é sua maior preciosidade, sem dúvidas.

Todavia, ela não o faz e imagino que sinta que deve cumprir o papel que eu, infelizmente não sou capaz.  Mesmo que me casasse, não poderia gerar filhos, se beijar outra pessoa a faz convulsionar e quase morrer, o que ter um contato mais íntimo comigo geraria? É perigoso. E eu não podia esquecer das palavras do Velho Sábio: 

"O veneno dos lobos vive, dentro de você".

— Você ainda não jantou, Jeongguk — minha ómoni diz, lançando-me o mesmo olhar repreendedor de sempre. Desde que nasci, não me lembro de vê-la fazer outra coisa, senão gritar em meus ouvidos como devo ser perfeito.

— Abeoji — digo, interrompendo sua conversa com Taehyung novamente. — Posso me retirar para ver Hanseo? Por favor...

Sei que ele deseja manter-me por mais tempo naquele cômodo, mas o cheiro do alfa está tornando-se cada vez mais intenso para mim e posso sentir o ômega dentro de mim reagir. Se continuar aqui, logo farei Taehyung delirar e não da forma que eu gostaria.

— Claro Jeon, vá — e sem curvar-me ou me despedir, levanto em um pulo e saio correndo, sentindo o olhar de Taehyung sobre mim e seu cheiro impregnado em minhas narinas. 

Pelos Espíritos, o que estava acontecendo?

×

— Jeongguk, acorde! Anda, anda! — a voz de Ahri me desperta de um sonho da qual não me lembro, puxando o cobertor de meu corpo, fazendo a brisa fria da janela aberta atingir minha pele quente.

— O que houve? — pergunto, piscando sonolento. 

— A senhora Jieun está furiosa, furiosa! — diz, empurrando-me para fora da cama. 

— Como assim, Ahri?

— Depois que o jovem mestre saiu do jantar e ficou nos aposentos da jovem Somi junto com Hanseo, os alfas conversaram sobre o ocorrido e o vice-general não poupou esforços em perguntar sobre você ao Mestre Jeon.

Arregalei os olhos, endireitando-me na cama por fim.

— Co-Como assim?

— Ele fez diversas perguntas que deixaram seu pai encurralado. 

Levantei, deixando-me ser guiado em direção a banheira já com água quente.

— O que quer dizer? — questionei, estendendo meus braços em sua direção, deixando que Ahri os esfregasse enquanto outras duas criadas lavavam meus cabelos com pressa.

Normalmente eu estaria recusando a ajuda de todas elas, mas estava muito curioso com o que Ahr tinha a dizer. Afinal, eu era, sem dúvidas, um ômega fofoqueiro. 

Certamente nenhum outro membro da família Jeon sabia mais sobre o que ocorria na aldeia e em nossa hanok do que eu. E todos nossos criados amavam contar-me as fofocas do dia, por isso, sempre que podia, me reunia com eles depois do almoço, perto do lago onde lavavam nossas roupas para dividirmos... Informações.

— O vice-general Kim perguntou a seu pai sobre você. Disse que o jovem mestre tinha um cheiro diferente. 

— Diferente? Ruim? 

— Não, não, jovem mestre. — Ahri abriu um sorriso largo. — Ele disse que seu cheiro tinha mudado pelo menos três vezes desde que o vira e que tal fato o deixou muito curioso. 

Franzi o cenho, confuso. 

— Eu não entendo, Ahri.

— O jovem mestre estava usando óleos de rosa ontem a noite — uma das criadas diz e Ahri concorda. 

— Mas seu cheiro natural ficou evidente depois de um tempo, e eu acredito que por isso seu pai permitiu que se retirasse.

— Mas o general disse três cheiros e isso deixou o Mestre Jeon muito angustiado — outra criada, que lavava meus pés já limpos comentou. 

— O senhor o viu antes do jantar, certo jovem mestre? — Ahri perguntou e concordei. — E não estava usando o medalhão e nem havia tomado seu medicamento, certo? — concordei novamente.

Ahri e suas três criadas serviam-me diretamente desde que nasci, e mesmo sendo muito fofoqueiras, como eu, não diriam nada sobre meu cheiro a ninguém.

Poucos servos tinham conhecimento de meu segredo e eram muito bem pagos — e ameaçados — para manterem-se em silêncio.

— Eu encontrei Taehyung nas escadas. 

— Ooh, Taehyung — uma das criadas riu ao me ouvir dizer seu nome dessa forma e eu a acompanharia como gostava de fazer em nossas fofocas se não estivesse incomodado. 

Não estava interessado no alfa.

— Ele certamente notou que seu cheiro mudou drasticamente em pouco tempo e questionou sem medo algum o Mestre Jeon.

— E o que meu abeoji disse? — perguntei, sentindo o óleo floral ser despejado na água e em meu corpo.

— Ele disse que você é um grande apreciador de perfumes e está sempre banhando-se com essência e óleos corporais — Ahri respondeu. 

— E ele acreditou?

— Acredito que sim, mas continuou dizendo como você era estranhamente diferente, mas o Mestre Jeon conseguiu distraí-lo.

Pisquei surpreso. Então, Taehyung estava curioso a meu respeito...

— Mas por que minha ómoni estava furiosa? — perguntei, lembrando-me da fala de minha ama quando fui despertado. 

— Ah, sim! — Ahri arregalou os olhos, puxando-me para fora da banheira, não me dando tempo de cobrir minha própria nudez, mas as criadas estavam ocupadas demais limpando nossa bagunça. — O Mestre Jeon deu ordens claras para que ela acabasse com o mal entendido entre vocês.

— Mal entendido?

— O vice-general Kim está intrigado sobre você, por ser um ômega muito diferente. E aparentemente ele é muito curioso e o mestre Jeon não deseja que alguém como ele fique de olho em você e descubra sobre... O cheiro. 

— Ainda não entendo... — digo, vestindo as roupas que ela me entregou, notando que são diferentes do habitual. Não eram minhas roupas confortáveis para ficar no jardim. Eram limpas, pomposas e detalhadas. Como se gritassem que a pessoa que a trajava era alguém importante. O filho de um líder, o jovem mestre.

— Senhora Jieun ordenou que o preparasse adequadamente antes de se desculpar.

— Desculpar com quem? Pelo quê? — pergunto irritado, sentindo meu ar escapar quando Ahri aperta a cinta de tecido em torno de minha cintura com força. 

— Jeongguk! — Minha ómoni entra em meus aposentos, está segurando um pequeno embrulho nas mãos, sorrindo de canto, da mesma maneira que faz quando diz que há um alfa na sala esperando para humilhar-me. 

— O que está havendo? — pergunto, resmungando enquanto Ahri penteava meus cabelos para o lado e uma das criadas desliza os dedos em minha nuca e pescoço, o perfume irritando meu nariz. 

— Conversei com Jungwo esta manhã e concordamos que você foi muito desrespeitoso com nosso convidado, o vice-general Kim.

— Desrespeitoso? Quando? — pisco confuso, mantendo-me imóvel para que as criadas ponham os brincos e anéis em mim. 

— Você o interrompeu diversas vezes durante sua conversa e um ômega não deve, nunca, impor sua voz sobre a de um alfa.

Eu dou uma risada fraca, pego de surpresa.

— Está falando sério? Que tolice... — murmuro. — Taehyung não pareceu ofendido.

— Vice-general, Jeongguk — ela me corrige e mordo os lábios, indiferente. — Não pode chamá-lo pelo nome como se fossem amigos íntimos, é vulgar e desrespeitoso-

— Para um ômega — digo, sabendo que serão suas próximas palavras e Jieun sorri, concordando. 

— Exatamente. —  E se aproxima de mim, entregando-me o embrulho. — Vá ao campo de treinamento, certamente nossos soldados já estão fazendo suas obrigações e entregue ao general Kim este agrado.

— Agrado?

— Sim, é seu almoço. Diga que o preparou você mesmo, peça desculpas por seus modos e diga que sente muito por agir como um ômega desmiolado. 

— Desmiolado?— Permaneço perplexo.

— Mostre a ele que você é como todos os ômegas: gentil, educado e amável. E acabe de uma vez com a curiosidade do general Kim.

— Se eu cortejá-lo com isso só o fará pensar que estou interessado nele, certamente ampliando sua curiosidade — digo, contendo uma careta. O que eu menos quero é um alfa como ele em meu encalço.

— Na sua situação, até mesmo um camponês como o vice-general Kim servirá para poupar o nome de nossa família — ela responde, arisca. Mas sei que não aceitaria Taehyung mesmo sendo um guerreiro habilidoso. 

O título de vice-general não significava nada para meus pais. Ser o vice quer dizer que existe alguém acima e Jungwo não aceitaria o "segundo lugar" como opção. Taehyung teria de ser, no mínimo, o general do esquadrão de vigilância. 

— Eu não farei isso — respondo, colocando o embrulho do almoço do alfa em minha cama. — Certamente não o verei novamente, já que não tenho permissão para sair sempre que desejo e o vice-general tem problemas maiores para se preocupar que a falta de modos do filho do líder. 

Jieun se levanta e nega com a cabeça. 

— Ser o filho de Jungwo não o dá liberdade para agir com desrespeito com os alfas de nossa aldeia. Você é um ômega e lhes deve submissão. 

— Não, ómoni! — Respondo, me levantando irritado. — Eu sou Jeon Jeongguk, filho do líder e futuro herdeiro de Bane e quem deve submissão a mim é justamente o alfa que nos serve! 

Não gosto de como minhas palavras soam. Ninguém deveria ser submisso a ninguém aqui, mas se devemos levar as hierarquias em consideração, ela deve se lembrar de quem sou. Eu sou mais que um ômega e o filho de um líder, eu sou uma pessoa e Taehyung não pareceu ofendido durante o jantar, então não preciso me desculpar.

Ela não está fazendo isso por causa de minhas atitudes. Taehyung está curioso sobre meu cheiro e suas mudanças e aparecer lá novamente, com o mesmo perfume e óleos de rosas que usei ontem á noite, desta vez mais fortes é uma forma de mostrá-lo que esse é meu odor, para acabar com sua curiosidade, para proteger meu segredo.

E se ela me dissesse isso, eu aceitaria fazê-lo sem problemas. Eu poderia apenas passar pelo campo de treinamento e desejar um bom dia a Taehyung, ele sentiria meu cheiro e tudo estaria resolvido. Mas Jieun precisa colocar a hierarquia dos alfas e ômegas sobre mim novamente, ela precisava me obrigar a fingir ser quem não sou para agradar outro alfa e isso era tão sufocante. 

Jeon Jieun apenas baixou cabeça, com o típico olhar decepcionado em minha direção e me entregou o embrulho novamente.

— Escute bem Jeongguk, você fará o que estou dizendo porque sou sua mãe e sou a esposa de Jungwo, líder dessa aldeia e me deve obediência, estamos claros? — quero recusar, mas a forma como ela me olha é um aviso silencioso de que, se eu não acatar a essa ordem, serei castigado novamente. 

— Yoongi Hyung irá comigo — digo por fim, aceitando o embrulho, saindo de meu aposento a passos largos, não permitindo que Jieun diga mais nada. 

— Os sapatos Jeongguk! — ela grita, vindo em meu encalço com os calçados em mãos e não consigo evitar engolir em seco.

Eu odeio usar sapatos.

— Irei cavalgando, serei rápido e-

— Não pode sair descalço por aí — ela diz, obrigando-me a sentar no sofá. — Vamos, deixe que eu os coloco para você. — Isso soaria gentil se não houvesse um motivo especial para tal.

Mordo os lábios quando o calçado é forçado em meus pés e sinto meus dedos esmagarem dentro do mesmo, enquanto minha ómoni amarra seus laços com firmeza em meus calcanhares. Isso é uma de suas exigências dolorosas, não bastando o tecido demarcando minha cintura impedindo-me de respirar adequadamente, Jieun me obriga a usar sapatos menores que meus pés.

"Um ômega não deveria ter um pé desse tamanho! Não é nem um pouco delicado!"

Me levanto angustiado, sentindo meus dedos esmagados e maltratados queimar dentro dos sapatos de couro brilhante.

— Agora vá e volte cedo ou seu amigo beta terá sérios problemas. 

— Ele se chama Yoongi — digo irritado, tentando me manter de pé. 

— E é um beta — ela continua.

— E meu amigo — falo, abrindo a porta logo em seguida. — E seu pai também é um beta respeitável, não o menospreze. 

— Aquele garoto tem pensamentos deturpados demais, não me agrada.

— Nada te agrada ómoni... — murmuro, já fechando a porta, impedindo que ela me escute.

Respiro fundo e caminho a passos lentos em direção ao portão de entrada, despedindo-me dos guardas, dizendo que encontrarei Yoongi e tenho autorização para sair. 

Meu abeoji não gosta de me prender em casa, mas meu cheiro pode se tornar muito forte em determinadas situações, além de ser o primogênito e com o recente rapto de Hanseo, ele teme que o mesmo ocorra comigo. Não demoro para chegar a moradia de Yoongi Hyung. Seu pai é o ferreiro do nosso povoado e sua família é responsável pela criação de nossas armas e armaduras.

Yoongi é um nobre e nossa amizade foi bem aceita por meus pais quando nos conhecemos em meu sexto aniversário. Mas com o tempo ele se mostrou um beta "com idéias revolucionárias" demais, causando o desagrado de Jieun.

— Eu não serei um guerreiro! — O ouço dizer assim que me aproximo da oficina, o som de metal e o cheiro de fogo e suor dominando meus sentidos.

— Não gosta de fazer armas e não quer ser um guerreiro, o que fará então? — Seu pai, o senhor Min Jisung reclama. Ele é um velho beta amigável e mesmo dando um sermão em seu filho do meio, parece não estar irritado de verdade. 

— Eu serei escritor! Um romancista! — Yoongi diz, sua voz grave soando séria e me apoio na porta aberta, observando seus olhos castanhos brilharem devido ao crepitar das chamas, enquanto o leve cheiro de maçã verde pertencente ao beta domina meu olfato. 

Fecho os olhos enquanto penso como gostaria de ter um cheiro agradável como este. O senhor Jisung bufa, colocando o que parece ser uma espada dentro da imensa fornalha. 

— Escritor? Estamos em guerra filho tolo! Quem irá ler romances?

— Eu leria — digo, atraindo seus olhares para mim e sorrio gentil. 

Jisung sorri pequeno, mas logo se lembra que estava brigando com seu filho e se vira irritado. 

— Dois tolos! Bane estará condenada se nosso futuro for regado por lobos como vocês!

— O amor deveria ser capaz de nos salvar — Yoongi continua, sorrindo travesso.

— Não existe espaço para o amor na guerra! — Jisung prossegue. — Vê estas armas? Pensa que estou fazendo-as com amor? Não! Meu ódio e as chamas que a trazem a vida! 

— Que bizarro... — murmuro, acenando para meu Hyung que entende que estou aqui para convidá-lo para um passeio. 

— Certo, certo appa... — Yoongi ri e beija a bochecha do velho ranzinza. — Eu preciso ir agora. 

— Onde vão?

— Fui um ômega mal criado no jantar de ontem — digo com amargura. — E devo desculpas ao alfa e vice-general do pelotão de vigilância, Kim Taehyung. — Minha voz soa pomposa e formal, fazendo Yoongi arregalar os olhos, surpreso, e conter a risada que ameaça escapar de seus lábios.

Jisung pisca confuso enquanto me avalia. Ele sabe que não estou fazendo isso por vontade própria, ele me conhece, já teve que lidar com muitos problemas quando Yoongi e eu quase incendiamos sua oficina certa vez. 

— Estava dizendo ao meu filho que deveria ingressar no grupo de recrutas que o jovem Taehyung está formando — Jisung diz e a forma como se refere ao Kim demonstra que o conhece de longa data. E bem, ele é o ferreiro, quantas vezes o alfa não deve tê-lo visitado para restaurar suas espadas?

— E eu me recusei — Yoongi o lembra. 

— Então aproveite que irá acompanhar Jeongguk ao campo de treinamento e pense a respeito. Estamos em guerra e precisamos de mais homens. Cedo ou tarde o Mestre Jeon convocará mais betas á guarda, então não tem como fugir. 

Sei que Yoongi está com uma resposta ousada na ponta de sua língua, mas apenas concordo e o levo comigo. Meus pés doem e quanto antes eu chegar ao campo e sair de lá, melhor.

— Vamos, me diga o que de fato aconteceu — Yoongi sorri curioso, outro fofoqueiro, e não penso duas vezes em lhe contar todos os detalhes, desde o momento em que fugi de minha ama e encontrei o alfa nas escadas, ao que Ahri me disse, sobre sua curiosidade a respeito de meu cheiro. 

Yoongi é o único fora de minha família e das criadas que sabe sobre meu segredo. Isso porque certa vez ele invadiu meu quarto após brigar com seus pais e encontrou-me dormindo e suando febril. O beta avisou minha ama e presenciou quando meu medalhão foi arrancado de mim e a mulher me banhou, arrancando o cheiro dos óleos de meu corpo, fazendo meu odor atingi-lo em cheio. 

Yoongi sentiu náuseas e vomitou antes de Ahri levá-lo a outro cômodo e implorar por seu silêncio. Ele tinha dez anos quando prometeu e jurou pelos Espíritos que jamais diria o que viu. 

— Ele está interessado em você — disse, sorrindo de canto. 

— Não está não!

— Ele ficou perguntando a seu pai sobre seu cheiro e dizendo como era um ômega diferente.

— Diferente quer dizer estranho e estranho é algo ruim.

— Eu não acho — Yoongi deu de ombros, notando minha careta dolorida, até encarar meus pés. — Ela te fez usar de novo...

— Ela sempre faz. 

— Tira! Ela não saberá!

Se eu não estivesse exausto o bastante devido ao ocorrido na noite anterior, já teria arrancado estes calçados enquanto caminho livremente pelo chão de terra, sem me preocupar com os sermões de Jieun. Mas prefiro evitá-los por hoje. 

— Quando retornar ómoni estará na porta esperando por mim e certamente verificará meus pés, se estiverem sujos...

— Vamos trocar então! — Yoongi diz, sentando-se no chão sem cerimônias, ignorando o fato de que irá se sujar totalmente. 

Eu amaria poder me sentar ao seu lado, mas se minhas vestes forem sujas, serei castigado. 

— Não pode, seus pés irão doer — digo, recusando os calçados do beta. 

— Jovem mestre! — Yoongi responde, me mostrando a língua. — Deixe seu humilde servo ajudá-lo.

— Você não é meu servo e mesmo se fosse, não pode dar-me seus calçados.

— Ah fique quieto Jeongguk! — O Min revira os olhos e me entrega os sapatos, ajudando-me a trocá-los sem precisar me sentar no chão sujo.

— E você?

— Felizmente não sou um Jeon e posso andar descalço livremente — ele me provoca, segurando meus pequenos sapatos com uma mão e suspiro aliviado quando meus dedos se esticam livremente. 

— Obrigado Hyung...

— Não me agradeça por isso. — Ele dá de ombros e voltamos a caminhar. — Só por favor, mande o alfa pro inferno e jogue esse almoço na cara dele se for necessário. 

— Nada de desculpas? — dou risada, porque até o presente momento Taehyung não se mostrou um alfa que mereça meu ódio.

— Ah, certo, se desculpe por não fazer nada e vamos embora. — Yoongi responde sem desvios.

— Parece um bom plano — digo, sorrindo largamente. 

Eu estava ali apenas para agradar minha ómoni e acabar com as dúvidas do Kim a respeito de meu cheiro. Ele sentiria as essências de rosas e tudo estaria bem. Não havia necessidade de me humilhar ou agir como um ômega obediente quando eu claramente não era um.

Não foi difícil encontrar o campo de treinamento, afinal Yoongi era muito bom em se localizar e em pouco tempo os gritos e sons de passos pesados atraíram minha atenção. Um cercado circulava o imenso campo aberto, onde o gramado baixo se estendia por todo o terreno e pequenas casinhas, como cabanas, se encontravam mais distante.

O correto seria que os guerreiros de nossa aldeia treinassem em nossa hanok, visto que possuem espaço e estrutura para tal. Mas meu abeoji teme que algo aconteça comigo e meu odor adoeça os guardas — seria interessante e terrível se logo o filho do líder de Bane colocasse todos os lobos em estado crítico sem sequer precisar lutar contra eles.

Entramos sem preocupações e noto árvores e troncos estendendo-se logo na entrada, repletas de marcas de espadas e arranhões do que imagino serem garras de lobo. 

Ao longe, pelo caminho sinuoso de barro e folhas secas, uma fila de homens sem camisa correm em nossa direção, sincronizados, enquanto contavam em alto e bom som seus passos. Arregalo os olhos ao sentir a mistura de seus odores me atingir em um baque e encaro Yoongi que está mordendo os lábios curioso, acompanhando os betas com o olhar. 

Não havia nenhum alfa entre eles, eu poderia identificar e apenas o cheiro suave e suado dos betas chamaram minha atenção.

Mas, isso não era o que estava me deixando claramente animado. E sim seus corpos nus da cintura para cima, suados e com os olhos fixos em mim e meu amigo, notando nossa visita. 

Sinto os dedos firmes de Yoongi em minhas costas, me obrigando a andar em sua direção e caminho a passos lentos, acompanhando os betas com o olhar, mordendo o lábio levemente quando um deles me lança uma piscadela.

— O que eles... — O Min murmura, quando todos param um pouco distantes e se viram em nossa direção, eretos. 

— Eu não sei mas tô amando — digo, me aproximando cada vez mais.   

Pelos Espíritos, esse lugar era o paraíso? 

— Bom dia — uma voz grave, aquela voz grave, me tira de meus pensamentos. — O que o traz aqui, jovem mestre?

Yoongi contém um sorrisinho ao notar minha reação. Ainda era difícil manter o ômega dentro de mim quieto. O cheiro do maldito era atraente demais. Inferno!

— Bom dia — digo, sorrindo de canto, me aproximando do alfa que está sem o traje e armaduras da noite passada. 

Seu cabelo escuro e a franja longa não cobrem mais seus olhos felinos e estão jogados para trás, enquanto o suor os torna estranhamente atraentes, evidenciando a testa lisa e as sobrancelhas grossas e delineadas.

Está usando uma camisa branca de manga longa de seda, tão fina que posso — com a ajuda do suor em seu corpo — notar o tom bronzeado de seu peitoral. Ela está dobrada até seus cotovelos, enquanto a calça de linho azulada caem perfeitamente em seu corpo bonito. Na bota surrada de couro que ele está calçando há uma pequena adaga presa, quase imperceptível e pisco surpreendido ao notá-la.

— Não respondeu a minha pergunta, jovem mestre.

Concordo levemente, lembrando-me do plano de Yoongi.

— Bom... Eu vou, hum... Dar um "oi" á Yeonjun — meu amigo diz, afastando-se lentamente. É claro que ele conhece um dos soldados ali e só está criando uma desculpa para nos deixar a sós.

Beta nanico!

— Aqui — estendo o embrulho ao alfa que pisca confuso, mas o aceita mesmo assim.

Sinto meu rosto esquentar porque parece que estou aqui justamente para cortejá-lo quando na verdade só quero me manter distante dele e de qualquer alfa que exista.

— O que é isso, jovem mestre? — Taehyung pende a cabeça para o lado, os olhos brilhando curiosos e me obrigo a não sorrir ao notar a expressão em seu belo rosto. 

— Seu almoço, eu o trouxe-

— Oh, você o fez para mim? — Taehyung arregala os olhos e consigo ouvir seu coração bater mais depressa, pegando-me de surpresa. — Que gentil, jovem mestre — ele sorri, enquanto tira lentamente o tecido que embrulha seu almoço.

Mas não é um sorriso qualquer, é único e muito, muito estranho. Sua boca se abre em um quadrado perfeito e seus dentes retos e brilhantes iluminam seu rosto com doçura. 

Definitivamente estranho.

Um alfa não deveria ter um sorriso doce como esse. Geralmente eles sorriem de canto, maliciosos e orgulhosos. No entanto, Taehyung sorria largamente, como uma criança. 

Engulo em seco ao lembrar de meu plano e de meus pais. Eles queriam que o Kim não se interessasse por mim e meu cheiro peculiar, e eu não queria que ele pensasse que estou cortejando-o, então pigarreio atraindo sua atenção.

— Eu não o fiz, general — digo, mordendo o interior de minha bochecha ao notar que ele parece decepcionado. — Minhas criadas fizeram e isso é um pedido de desculpas, por interrompê-lo durante o jantar. Faltei com meus modos e sinto muito. Até mais!

Apresso o passo em direção a Yoongi mas escuto e sinto seu cheiro delicioso atrás de mim.

— Não aceito suas desculpas — ele diz, me pegando de surpresa e me viro bruscamente. 

— Como?

— Eu recuso seu pedido de desculpas. — ele repete, os olhos antes gentis sendo substituídos pelo brilho felino que vislumbrei na noite passada, debaixo da escada.

Ah ele estava lá novamente... O alfa. 

— E posso saber por quê?

— Não é sincero — o Kim dá de ombros, sorrindo de canto, como se estivesse testando meus nervos. 

Abro a boca para fazer exatamente o que Yoongi me dissera momentos antes, mas o grito de um de seus soldados me interrompe.

— General, não temos tempo para namorico! — e as risadas dos betas soam altas e irritantes. 

Bufo, revirando os olhos e Taehyung continua com a atenção fixa em mim, não parecendo se divertir e nem repudiar a atitude do beta.

— Vamos treinar? Mande o ômega voltar para casa e preparar seu jantar! — E mais risadas ecoam, fazendo-me virar de supetão e os encarar irritado.

— Vão para o inferno!

— Oh, o ômega é arisco. — Um dos betas diz, ele tem um sorriso convencido no rosto anguloso. — Delícia.

— Minjae! — Taehyung o repreende. — Não desrespeite o jovem mestre.

O beta parece finalmente notar quem sou e pisca chocado. Entretanto, não parece afetado.

— Estão os rumores estavam corretos — ele murmura, a voz soando audível o suficiente para que eu o escute. — O filho do Mestre Jeon é um ômega viralata!

— Oh, cale a boca — Yoongi revira os olhos, aproximando-se de mim.

Estou ficando irritado e consigo sentir os feromônios de meu lobo se intensificarem, o que não é um bom sinal, pois Taehyung está me olhando confuso e curioso novamente.

— Eu vou embora — digo, mas antes que possa me virar, a voz do mesmo beta soa alta e cínica. 

— Traga meu almoço também ômega!

— Lave minhas botas! — Outro o acompanha e antes que eu possa fazer algo, sinto o cheiro do alfa ao meu lado se intensificar, enquanto seus olhos castanhos adquirem um brilho escarlate. 

— Já chega! — ele rosna, a mandíbula está cerrada e os braços tensionados. — Todos vocês, para o tronco, agora! 

Pisco desnorteado, mas noto que tal ordem parece amedrontar os betas que estremecem e se olham surpresos. 

— Ge-General foi apenas uma brincadeira... — Minjae ri sem graça, negando com a cabeça.

— Está com medo, beta? — Taehyung molha os lábios com a língua lentamente e sou incapaz de conter o frio em meu baixo ventre. 

— O jovem mestre já está indo embora, não há motivos para isso...

— Você o desrespeitou, seu mestre e seu futuro líder. — Taehyung caminha a passos largos em direção ao pelotão agora silencioso, nenhum sorriso domina seus semblantes mais. — Ômega ou não, Jeongguk é o futuro herdeiro e líder de Bane.

Arregalo os olhos e prendo a respiração ao escutá-lo dizer meu nome pela primeira vez e a forma como ele soa irritado me deixa levemente entorpecido. 

— Para o tronco! — Ordena, entregando a maçã que estava dentro do embrulho junto de seu almoço ao beta, que caminha a passos lentos em direção a uma árvore, a mesma está tingida de branco, onde o desenho de um alvo se encontra. 

Taehyung caminha lentamente em direção ao cercado, onde há um arco pendurado e retira do baú ao seu lado uma flecha. 

— Quais são as regras aqui? — Ele grita, olhando para os demais recrutas e todos estremecem, inclusive Yoongi.

Contudo, sinto meu cheiro se intensificar e um pouco de lubrificante natural molhar minhas pernas. 

Mas que porra é essa?

— Respeito em primeiro lugar, general! — Todos gritam em uníssono.

— E o que nosso amigo beta acabou de fazer? — Taehyung posiciona a flecha no arco lentamente, enquanto um sorriso sádico domina seu rosto. 

— Desrespeitou o jovem mestre!

— E o que ele merece?

— Uma punição!

— Onde? — Taehyung ri soprado, erguendo o arco e endireitando as costas eretas.

Eu não precisava ficar aqui, parado, observando tudo. Tinha feito minha parte e poderia ir embora, mas parte de mim queria ver o que ia acontecer. Minjae está segurando a maçã com as mãos trêmulas, esperando que seus companheiros — não mais tão amigáveis — escolham um lugar para ser acertado. 

— Na cabeça general! — Todos gritam segundos mais tarde e Taehyung faz um movimento lento, ordenando que o beta siga suas ordens.

— Mostre que você não é um covarde e aceite sua punição — o alfa murmura e Minjae nega com a cabeça, ainda trêmulo. 

Ele não parece conhecer Taehyung muito bem ou acreditar em seu potencial como arqueiro e me lembro que todos ali devem ser os novos recrutas para o esquadrão de vigilância. Não sei se o Kim é bom com o arco, mas não consigo conter o impulso que me leva a ficar em frente ao beta, protegendo-o da mira do alfa a sua frente. 

— Não — digo, porque mesmo que Minjae tenha me desrespeitado, não consigo evitar querer provar que não preciso que um alfa imponha respeito para mim.

Eles deveriam me respeitar por quem sou e não porque um alfa está castigando-os. Taehyung franze o cenho e antes que possa baixar o arco, tomo a maçã das mãos de Minjae que pisca confuso, junto do Kim, que agora, não parece mais animado em disparar aquela flecha. 

— O que está fazendo jovem mestre? — ele pergunta, surpreso.

— Jeongguk saia daí! — Yoongi grita, se aproximando de mim. 

— Atire alfa! — grito, colocando a maçã em minha cabeça, apoiando as costas contra o tronco da árvore. — Eu não tenho medo!

Murmúrios surpresos dos recrutas soam pelo campo e os olhos de Taehyung intercalam entre seus homens e eu. Ele sabe o que estou fazendo. Estou desafiando um alfa, estou mostrando que não tenho medo como o beta sentiu e estou mostrando que um ômega não recua.

— Vamos! — Grito, ao notar que Yoongi está cada vez mais perto e sei que ele irá me arrancar dessa árvore imediatamente. 

Os olhos dos betas estão arregalados, repletos de surpresa e admiração.

— Jovem mestre eu não-

— É uma ordem alfa, atire! — contenho o sorriso que quer se formar em meu rosto quando percebo o que acabei de dizer. Eu, um ômega, dando ordens a um alfa? Que tolice!

Os olhos do Kim brilham, ele não parece gostar de meu tom de voz em frente à seus recrutas e antes que eu possa gritar novamente, solta a ponta da flecha, que gira em pleno ar e atinge a maçã, fazendo meu coração pular uma batida, surpreso e chocado. 

O desgraçado realmente disparou uma flecha contra mim! 

Mas, como sempre, os gritos eufóricos dos betas não são direcionados a mim, o ômega que aceitou o castigo no lugar de Minjae e sim á Taehyung, o alfa que acertou uma maçã.

Babacas!

Me aproximo de Yoongi a passos pesados e o puxo pelo pulso em direção a saída, enfurecido. 

— Jovem mestre! — A voz de Taehyung soa baixa e escuto seus passos em minha direção. — Jeongguk!

Respiro fundo, odiando a mim mesmo por gostar de como meu nome soa em sua voz. 

— Ômega! — E me viro, irritado com a ousadia do Kim em me chamar desta forma. Idiota! 

— O que você- me calo quando Taehyung estende a flecha em minha direção, a maçã está ali, na ponta. 

— Pegue e eu aceitarei seu pedido de desculpas — ele sorri desafiador e sei que está se divertindo com minha expressão enfurecida.

Logo, pego a flecha e antes que outro sorriso irritante adorne os lábios do alfa, eu a parto no meio, forçando seu cabo contra meus joelhos, fazendo o som de estalo soar seco. 

Taehyung permanece boquiaberto quando empurro a flecha quebrada contra seu peito, fazendo-o cambalear para trás. Yoongi agarra a maçã antes de cair e sorri de canto. 

— Vá pro inferno! — Digo, virando-me de costas, puxando meu amigo que está ocupado mordendo a fruta com diversão.

— Oh... Você fez exatamente o que não deveria — ele murmura, enquanto abro o portão do cercado. O olho confuso, deixando que ele passe para que eu feche. — Agora ele está totalmente interessado em você. 

— Não seja tolo, Hyung — digo, revirando os olhos. — Eu o desafiei e parti a flecha dele ao meio. 

— E ele continua com aquele sorriso idiota no rosto — Yoongi diz, cantarolando. E franzindo o cenho, ergo os olhos para o alfa que sei que ainda está me encarando e de fato um sorriso pequeno está dominando seus lábios.


Notas Finais


¹hanok = casa tradicional coreana
²Abeoji/Abóji = pai (formal)
³Ómoni = mãe (formal)

MEU DEUS! QUE CAPÍTULO GRANDE! 10,6K DE PALAVRAS LOGO NO INÍCIO?

Me digam o que acharam...

Jeongguk definitivamente não é um ômega comum e eu amo demais a personalidade travessa e desafiadora que ele tem.

E Taehyung? Bem... Taehyung é um alfa pra lá de diferente, mas lembrem-se, diferente é algo bom :)

Espero que tenham gostado desse primeiro capítulo e que continuem lendo os demais que estão por vir!

Não se esqueçam de usar a hashtag #WolfsBaneTK no twitter para falar sobre a fic caso queiram né... Podem me fazer perguntas também já que o cheiro do Jeongguk e sua condição deve ter deixado vocês confusos, é só me marcar lá @taemutuals
A próxima atualização vai ser no dia 28/03 às 20:00 também :)

Não sei se vocês gostam ou se faz diferença, mas as roupas que Jeongguk usa são nesse estilo, devido a época, país e sua posição como jovem mestre: https://weheartit.com/entry/323165806

Yoongi: https://www.pinterest.de/pin/598838081683067467/

Taehyung (Só que o cabelo dele é preto, mais longo, como na era ON): https://wallpapercave.com/w/wp2473326

Se quiserem, posso postar em outros capítulos fotos dos membros ou roupas que são parecidas com as que eles usam.

É isso... Deixem seu purple heart aqui.

~até breve


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