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História Wolf's Prey - Capítulo 5


Escrita por:


Notas do Autor


Oi lindezas,

Eu esqueci de atualizar essa história, me perdoem.
Mas enfim, aqui está ':D

~ Boa leitura

Capítulo 5 - 05


Fanfic / Fanfiction Wolf's Prey - Capítulo 5 - 05

Notas: *Mananan é um deus gaélico dos mares, tem relação a crença da bruxa.


Faziam quinze minutos que Angel e Jimin mudaram o caminho até a casa da Sra May, a menina parecia tranquila e leve enquanto andava quase saltitando por entre as árvores. 

Jimin tentava manter o mesmo ritmo, mas ficava distraído com a garota que parecia fazer parte daquele lugar cheio de árvores e plantas. Angel parecia até um dos espíritos da floresta das histórias que suas guardiãs contavam de noite no lar de amparo. 

— Huuum... Você não havia dito que ia me esclarecer algumas coisas se saíssemos da trilha? — Jimin perguntou após tropeçar em umas pedras 


Angel riu e ajudou Jimin a recuperar o equilíbrio. 


— Por onde quer que eu comece? 

— Que tal me contar sobre esse mal que assombra Youn-Hae ao ponto de benzer uma trilha inteira que leva até o portão principal do vilarejo? 


A garota suspirou e ajeitou a alça da bolsa que carregava, Jimin estendeu a mão para pega-la, mas Angel negou com a cabeça. 


— Não precisa, eu levo... Bom, acho que seria melhor eu te contar mais sobre Youn-Hae, e vou te dar uma aulinha básica da história que aprendemos na escola. Preparado? 

Jimin riu da animação de Angel. 

— Preparado. 


Angel continuou a andar e ia olhando para Jimin de canto de olho para ver se o garoto não estava cansado e se estava prestando atenção ao que ela contava. 


— Antes de Youn-Hae existir e antes das famílias que foram expulsas sequer existissem nas proximidades, o país estava em guerra e o local onde hoje é o nosso vilarejo, foi um campo de batalha. Dizem que foi uma das batalhas mais sangrentas e cruéis que aconteceram, e deixou muita lembrança e sangue nas terras do vilarejo. 


Jimin assentiu silenciosamente mostrando que acompanhava o que Angel estava narrando. 


— Youn-Hae tem uma crença antiga de que as almas que ali morreram batalhando, ainda buscam vingança e nunca conseguirão encontrar paz por terem sido cruéis com seus semelhantes... E isso despertou uma maldição. 


Jimin não conteve uma risada baixinha e a garota o olhou desconfiada. 


— Me desculpe, eu não acredito em coisas como maldições e espíritos. 


Angel levantou os ombros demonstrando que tinha a mesma opinião. 


— Lembra que perguntou sobre as vigílias? Elas ocorrem por ser uma forma de proteção ao vilarejo, o patriarca da primeira geração dos Noh disse que isso ajudaria e por um tempo pareceu que a maldição havia desaparecido, mas só deu um pequeno descanso. As vigílias de oração são a clama pela proteção e misericórdia, por isso soa tão desesperadora... A maldição levou plantações que amanheciam embebidas de sangue de animais mortos e deixou todos os moradores de Youn-Hae com medo pela segurança da própria vida... A maldição é um demônio protegido pela noite e pelas sombras que aparece quando quer para causar desespero e caos. 


Jimin arregalou um pouco os olhos, tentava encaixar as informações. 


— A trilha benzida é para afastar esse demônio? 


Angel assentiu. 


— Ela foi benzida, mas isso não afasta o demônio, apenas o deixa distante dos arredores, mas ele consegue encontrar uma brecha. O mesmo vale para as vigílias, Youn-Hae é um lugar esquecido por quem quer que seja que ouça as orações... O demônio quem da descanso, não são as vigílias que o afastam. 


Jimin crispou os lábios, nunca havia ouvido nada parecido. 


— E sobre o toque de recolher? Pra que ele serve? 

Angel parou e começou a ajeitar os cabelos em um rabo de cavalo com uma fita azul que tirou da bolsa. 

— Ele serve apenas para tirar os moradores das ruas e voltarem pras suas casas. Todos respeitam até hoje, pois já estão acostumados e também porque não querem morrer em algum ataque desse demônio. 


Jimin analisava a garota ajeitar os fios longos e ondulados dos cabelos enquanto o respondia, mais uma vez ele sentiu o aroma de canela e sálvia branca, mas estava mais suave. Limpou a garganta discretamente após realizar que estavam a um tempo em silêncio. 


— Você não acredita mesmo na maldição e na existência do demônio? 

— Quando eu era mais nova, lembro de sentir pavor sempre que mencionavam essa história, mas depois que minha mãe faleceu, descobri que os verdadeiros demônios moravam em casas próximas da minha. 


Um leve aperto foi dado em seu ombro e Jimin sorriu querendo confortar Angel. 


— Humm... Você disse que o monstro é protegido pela noite e pelas sombras... Alguém já chegou a confirmar isso?  


Angel parou seus passos e virou para ficar de frente para Jimin. 


— Alguns acreditam que seja algum tipo de força do mal que flutua sobre Youn-Hae causando tanta crueldade, outras acreditam ter visto uma forma animal deformada e grande demais pra um animal comum da floresta e outros dizem ser um homem que se esconde na escuridão e a manipula... São várias suposições que foram passadas entre gerações. 


— E nenhuma foi confirmada? 

— A suposição de que é um demônio engloba tudo, mas alguns anos atrás, quando eu tinha 12 anos, um dos Shin disse que viu um lobo muito enorme sair de dentro da floresta na escuridão, o garoto pareceu ter enlouquecido, ficou doente e faleceu de uma forma indecifrável. Então surgiu outra suposição após esse acontecimento, nunca olhar nos olhos da criatura. 


Jimin assentiu um pouco perplexo. 


— Definitivamente Youn-Hae é um lugar completamente diferente de todos os que já conheci até hoje. 

Angel pulou sobre umas pedras depois de ter voltado a caminhar, os dois subiam um pequeno monte e Jimin admirava o fato de que a garota não se desequilibrava ou tropeçava em algum galho ou raiz, buraco ou pedra. Era como se ela se lembrasse e soubesse onde pisar. 

Quando a garota se firmou nas pedras e o olhou, Jimin percebeu o brilho nos olhos dela e sorriu. 

— Você já viajou bastante, não é? 

Jimin concordou soltando um pequeno “uhum” em sua garganta. 

— Sempre fiquei indo e vindo, descobrindo e explorando lugares 

Angel suspirou profundamente imaginando. 

— O lugar mais distante que já visitei foi a casa da Sra May, sempre que tenho a chance de visitá-la, dou um passo a mais da casa, aumentando a distância que já percorri 

— Você deveria tentar viajar, notei que você gosta da liberdade e da natureza, parece se encaixar com a imensidão da floresta 

A menina sorriu. 

— Youn-Hae é onde nasci e onde é minha casa, mas eu sinto que lá não é meu lar, queria muito que meu pai deixasse que eu viajasse, mas ele só tem a mim e é difícil ele retirar as “amarras” 

— Eu viajo muito por não ter um lar, nenhum lugar parece ser o certo e sempre busco algo que me prenda, mas nunca encontro... Youn-Hae é o primeiro lugar que fico por tanto tempo 


Angel ficou observando Jimin falar, ele estava com calor, por mais que tenha amanhecido fresco naquele dia, entre as árvores por onde caminhavam era abafado. A garota retirou uma garrafa de água e entregou a Jimin que passou a língua entre os lábios e ajeitou os cabelos que estavam colando em sua testa. Angel suspirou involuntariamente ao ver Jimin penteando os cabelos para trás com os dedos enquanto tomava a água direto da garrafa que entregou. 

Ao notar que Jimin percebeu seu suspiro, virou para descer das pedras que havia subido e deu uma avançada caminhando para aumentar a distância entre eles. 

Jimin riu baixinho da atitude de Angel, ela parecia não saber lidar com algo que esperava estar surgindo nas emoções da menina. Fechou a garrafa e caminhou até onde Angel havia parado. 


— Como sabe pra onde está indo se não há mais um caminho marcado? — Jimin questionou após entregar a garrafa 

— Instinto. 

— O que? 

Angel riu. 

— Estou brincando, eu peguei esse atalho com a Sra May uma vez que ela veio me visitar anos atrás, eu a levei de volta com a permissão do meu pai e ela me ensinou esse caminho, há algumas marcas nas árvores, é isso que estamos seguindo. 


Jimin parou para olhar o que Angel apontou, eram dois círculos profundos desenhados que pareciam ter sido feitos com algo muito afiado, eles davam a volta no tronco de algumas árvores. 


— E caso ainda esteja se perguntando, esse caminho é muito seguro, de todas as vezes que fui até a casa de May, nunca aconteceu nada perigoso. 

— Acredito em você, sei que nada vai acontecer com a gente 

Angel sorriu concordando. 


...


Quase meia hora de caminhada e Jimin pediu que parassem um pouco e Angel contestou, mas acabou cedendo e os dois se sentaram em um tronco caído no meio da floresta. 


— Eu estou com um pouco de fome.


Angel abriu a bolsa e tirou um sanduíche que estava guardado e enrolado em um pano fino. Deu a Jimin que aceitou de bom grado. 


— Falta muito para chegarmos? 

Angel negou. 

— Não muito, mais uma meia hora mais ou menos. 


Jimin bufou e a menina riu. 


— Você é todo encorpado, mas reclama de uma caminhada 

— Ei, esse caminho é cheio de obstáculos, pedras e alguns lugares do chão são escorregadios, sinto também que estou subindo uma colina 


Angel riu alto. 


— Nós estamos subindo, não muito, apenas chegando próximo ao pé da grande montanha, vamos passar perto do lago que abastece Youn-Hae, um dos Kim fez um sistema todo cheio de parafernálias que leva a água até o vilarejo, ele é muito inteligente, criou todo o sistema sozinho. 

— Nossa que incrível — Jimin disse admirado 

— É incrível mesmo, décadas atrás não havia água encanada em Youn-Hae, quando nasci já haviam instalado esse sistema. 

— Eu visitei um vilarejo distante anos atrás, a água que tinham vinha de um rio, mas não havia o mesmo sistema de Youn-Hae, eles buscavam a água e abasteciam um grande tonel, dali eles pegavam a água que usariam para o dia... Tomar banho era algo horrível, tinha que usar um balde e uma pequena caneca, várias vezes eu acabava com a água do balde e tinha que sair com os cabelos ensaboados e uma toalha na cintura pra encher meu balde novamente. 


Angel riu tanto do que Jimin contou que seus olhos tinham lágrimas. 


— Ainda bem que em Youn-Hae você não precisa passar por isso novamente, mas algumas das mulheres solteiras do vilarejo talvez gostariam de ter uma vista mais reveladora de você.


Jimin fez cara de debochado e riu da menina. 

Um leve rubor surgiu em suas faces e Jimin achou graça. 


— Angel, me permite fazer uma pergunta um pouco íntima pra você? 

— Huum?! Ah... Claro, tudo bem 

— Se não quiser, não precisa responder 

— Tudo bem, pode perguntar 


Jimin esfregou as mãos uma na outra pra retirar os farelos do pão do sanduíche que havia terminado de comer, usou o pano fino para limpar os lábios e Angel pegou o pano após ele terminar, jogando o tecido no fundo da bolsa. 


— Eu meio que te observo de vez em quando, pra te conhecer melhor, seu jeito e suas manias... Já vi muito você ficando constrangida com algumas coisas simples, principalmente quando são feitas por homens, elogios, olhares de admiração... Você não reage bem, quero dizer, você fica vermelha com o mínimo, e sendo bem sincero acho isso adorável. 


Angel  ficou parada, não olhava para Jimin, fixou seu olhar em uma árvore que exalava um cheiro forte de canela. Limpou a garganta e abriu a boca, mas não saiu som, fechou. Abriu novamente e notou que Jimin aguardava que ela falasse algo. 


— Eu não tive muito contato com as pessoas do vilarejo, como eu havia dito fui excluída por sempre me tratarem de um jeito diferente... Eu me isolei, e isso de conversar olhando nos olhos, receber elogios e perceber olhares, isso me deixa sem saber como reagir. 

— Você sempre parece confortável comigo, isso me deixa feliz 

Angel então olhou para o rosto de Jimin e notou que ele estava mais próximo, o peso do corpo apoiado no braço que estava ao seu lado no tronco. 

— É... Você me deixa confortável, nunca percebi um tratamento diferente vindo de você, desde o dia em que apareceu na taverna, você sempre direcionou a mim um sorriso, você tem um olhar doce, sem julgamentos, isso me deixa confortável, gosto dos seus olhos... — Angel arregalou os próprios olhos e levou a mão a boca um pouco surpresa pelo que havia falado, sentiu o calor em sua pele aumentar e sabia estar ruborizada. — É o que queria me perguntar mesmo? — Perguntou apressada fazendo Jimin rir. 


— Sobre seu rubor, acho muito adorável realmente, e obrigado pelo elogio, mas queria saber... Você já teve algum tipo de experiência romântica com alguém? 

— Que? 


A garota ficou olhando Jimin completar o que dizia, mas pareceu que ele já havia terminado de falar e olhava para ela com os olhos meio apertados, pareciam refletir o mesmo sorriso ladino que dava. Estava Jimin querendo tirar sarro dela? Angel crispou os lábios. 


— Não... Quero dizer, já... Mas não foi romântico, enfim... Na verdade 


Jimin riu baixinho. 


— O que você tá querendo dizer com essa resposta? Não estou entendendo. 

— Que saco Jimin! Por que foi perguntar isso? 

— Você me deixou curioso, foi só isso 

— Huum ta... Eu tive sim uma experiência, anos atrás, foi só isso, não sei como reagir a flertes e nem a olhares interessados, por isso fico ruborizada... Como agora, para de olhar pra mim 


Jimin riu mais ainda e se jogou pra trás quase caindo do tronco. 


— Ei, não precisa se envergonhar, não estou querendo fazer pouco caso de você nem te constranger... Só queria saber mesmo. 

— Agora já sabe. — Angel respondeu seca e pegou a garrafa de água que estava na bolsa. 

Os dois ficaram em silêncio enquanto ela bebia água. 


— Com quem foi? 

Angel cuspiu a quantidade de água parada na boca que não conseguiu engolir quando ouviu a pergunta. 

— Não da pra esquecer esse assunto? 

— Só estou tentando ter uma conversa mais íntima, te conhecer melhor e fortalecer nossa amizade... Te deixo fazer qualquer pergunta depois, mas tem que me responder as que faço... Que tal? 


A menina apertou os olhos, a expressão travessa nas feições de Jimin a deixavam com o pé atrás, mas ela ganharia a oportunidade de fazer perguntas e isso a deixou  animada. 


— Tá bom. 

— E então, com quem foi? 

— Soomin 

— A filha mais velha dos Im?! — Jimin disse alto e surpreso. 

— Foi. A gente nunca tinha beijado ninguém e queríamos saber como era, foi em um festival anos atrás, eu tinha dezessete anos e ela também... Não tinha nenhum garoto que nos interessava, então decidimos nos beijar, fim. — Angel respondeu indiferente a reação do rapaz. 

— Hum, mas espera, por isso você disse que não foi romântico, esse foi seu único beijo? 

Angel revirou os olhos. 

— Minha vez de perguntar. 

Jimin assentiu, estava gostando de ver que a garota voltou a ficar confortável com a conversa. 

— Você viaja bastante, então nem quero imaginar a quantidade de experiências, mas já teve alguma com algum homem? 

— Bem direta, pensei que fosse perguntar algo mais simples como “quando foi seu primeiro beijo” ou “com quantos anos teve seu primeiro relacionamento”, você é quieta, mas dando chance você se solta. 


Angel empurrou o ombro de Jimin que riu da reação da menina. 


— Eu tive sim uma experiência com um homem, e pra sua informação eu não sou tão rodado como pensa, não fico com qualquer pessoa em todos os lugares que viajo. 

— Ta... 

Jimin inclinou-se para mais perto de Angel. 

— Agora me responda, seu beijo com Soomin, foi o único beijo que já deu até hoje? 


Angel escondeu o rosto nas mãos e suspirou profundamente. 


— Foi Jimin, o único beijo. Por que isso te interessa tanto de repente? 


Quando retirou as mãos do rosto  olhou para Jimin, ficou surpresa ao notar o quão próximo ele estava. 


— O-o que e-esta fazendo? 

— O que me interessa na verdade é em saber qual o sabor dos seus lábios, não importa quem você tenha beijado antes... É, é isso que me interessa. 


Jimin passou uma das mãos pela cintura de Angel e a puxou para mais perto de si, com a proximidade conseguiu encostar seu nariz no da menina, novamente o aroma de canela e sálvia branca lhe preencheu às narinas e ele finalmente parou de se controlar, tocou os lábios de Angel com os seus e sentiu as mãos dela segurarem sua camisa, os punhos segurando o tecido entre os dedos. 

Quis saber se a garota permitiria mais intimidade entre o beijo e passou a língua levemente sobre os lábios macios e quentes. Angel suspirou e abriu os lábios permitindo também saborear-se com o calor vindo de Jimin, a língua tocando a sua, a mão apertando sua cintura. Por alguns segundos apagou qualquer pensamento em sua mente, só sentiu um alerta quando percebeu que ambos estavam caindo para trás do tronco em que estavam sentados. 

Os dois caíram e riram do susto ao chocarem-se no chão repleto de folhas secas e alguns gravetos. Jimin riu e retirou sua mão que ficou por baixo do corpo de Angel, levantou e ajudou a menina a levantar-se também. Parados um em frente ao outro, permitiram-se iniciar novamente um beijo que foi mais caloroso e com mais sede. Angel sentia que podia pegar fogo a qualquer momento, Jimin tinha um jeito selvagem de beijar, era rápido em conseguir o que queria, inclusive em prensar o corpo da menina entre o seu e uma árvore, os lábios que estavam explorando o sabor da boca de Angel, desceram em beijos molhados pela mandíbula da menina até o pescoço, e ali quando a língua tocou a pele de Angel, um sinal na mente da garota pareceu disparar.


— Ji-jimin — disse entre arfares — Jimin! Espera... Para. 


Jimin respirou profundamente e mordeu levemente o pescoço de Angel que gemeu com a força aplicada. Parou e afastou-se um pouco da menina, apoiando sua testa na dela. 


— Desculpa, eu avancei demais... Desculpa 

Angel tentava controlar a respiração. 

— Tudo bem, não precisa se desculpar, eu queria... É só que... Hã... Calma... 

Jimin riu soprado e beijou o rosto de Angel. 

— Entendi, quer voltar a caminhar?


Angel assentiu sorrindo. 

Os dois voltaram a tomar caminho até a casa da Sra May e desta vez ambos não conseguiam tirar o sorriso formado nos lábios. 


...


Alguns minutos passados, ainda caminhando, Jimin observava Angel comendo uma maçã que havia trazido. 


— Que frutas você gosta Jimin? — Angel perguntou após sentir o olhar do rapaz sobre si 

— Gosto de frutas vermelhas, framboesas, morangos, uvas... Maçãs 

Angel sorriu. 

— E você? 

— Gosto de frutas vermelhas, framboesas, morangos, uvas e maçãs 


Jimin riu. 


— Qual sua estação predileta? 

— Isso virou algum tipo de questionário? 

Angel assentiu sorrindo animada. 

— Tudo bem, gosto do outono, as árvores ficam bonitas e as tardes cheiram a chá de camomila e hortelã... E a sua? 

— Outono, gosto do aroma das tardes, cheiram a chá de camomila e hortelã. 


Jimin virou o rosto para encarar Angel, ela parecia alheia ao que estava acontecendo. 


—  Dia ou noite? — fez outra pergunta e Jimin sorriu ao ver que a garota quase saltitava enquanto andavam. 

— Noite, me sinto mais eu mesmo de noite. Você? 

— Noite! Me sin... 

— Pensei que não gostasse das noites por conta dos pesadelos 


A menina pareceu despertar de algo e olhou ao redor. 


— Jimin, nós pegamos alguma direção errada. 

— Como assim? Você havia dito que sabia o caminho! 

Angel deu a volta, mas Jimin segurou seu pulso a fazendo parar. 

— É por isso que estou dizendo que pegamos alguma direção errada, talvez foi quando saímos de onde estávamos sentados... Estranho isso nunca aconteceu, vamos volt... 

— Angel? O que foi? 


A menina calou-se repentinamente e olhava por sobre o ombro de Jimin que tentava entender o que estava acontecendo com a garota. 


— A clareira existe 

— Do que está falando? Que clareira Angel? Vamos voltar! 


Angel não ouviu o que Jimin falava e começou a seguir em direção onde olhava, uma parte da floresta que se abria em um campo aberto, um círculo gramado cercado por imensas árvores que estavam floridas fazendo pétalas brancas enfeitarem o chão quando caíam com o vento leve soprado. 

Jimin observava Angel andando como se estivesse hipnotizada, quis chamá-la novamente, mas ele também estava um pouco curioso com o que via. 

Alguns passos depois, quando estava no centro da clareira, Angel deu a volta olhando pra todos os lados, parou quando ficou de frente para Jimin que a olhava no limite da clareira, entre as árvores. 


— O que você está fazendo? Já não era pra termos chegado na casa da Sra May? Vamos, saia daí, está me deixando preocupado. 

— Jimin, você não está entendendo! 

— Não estou mesmo, volta pra cá — Jimin disse balançando as mãos chamando Angel para perto, mas a menina nem se mexeu. 

— É a clareira dos meus pesadelos, tudo sempre acontece aqui... De noite, mas eu sei que é aqui, as árvores, as flores, tudo Jimin... É nesse lugar 


Jimin respirou profundamente e soltou o ar pela boca. 


— Tudo bem, estou um pouco assustado, me explica melhor isso antes que eu decida te deixar sozinha


Angel riu, mas viu Jimin começar a andar até mais perto. 


— Meus pesadelos começaram quando eu tinha dezoito anos, é sempre o mesmo sonho, os acontecimentos, o lugar e as sensações... Ocorria tudo em uma clareira, que incrivelmente é esta em que estamos parados e eu jamais tinha vindo até aqui... Pra mim ela não existia, mas é real


A garota parou de falar e se arrepiou abraçando o próprio corpo, desabou de joelhos no chão e começou a chorar em desespero. 


— Minha nossa! Angel, o que houve? — Jimin agachou e a abraçou tentando fazer com que se acalmasse, mas Angel continuava a soluçar chorando em gemidos altos. 


— É real! Jimin que merda eu sou? Por que isso me atormenta? O demônio é real! Ele é real. 


Angel gritava em desespero, os soluços aumentaram, parecia que entraria em choque a qualquer momento e Jimin apenas a apertava entre os braços, acariciando os cabelos e as costas, não sabia o que fazer ou falar, só continuava a tê-la nós braços. 


...


Jimin estava sentado de pernas cruzadas no meio da clareira, Angel estava deitada com a cabeça apoiada em uma de suas coxas, já havia parado de chorar de forma desesperada, agora apenas algumas lágrimas escorriam por seu rosto em um choro silencioso. Os dedos de Jimin faziam carinho em seus cabelos, demonstrando que estava ali para ajudá-la e acalma-la. 


— Nos sonhos... 


Jimin parou de mover os dedos, Angel apoiou o peso do corpo com um das mãos quando virou e levantou  o tronco para ficar sentada ao lado do rapaz. 


— Nos sonhos, eu sempre sou uma pessoa que assiste tudo como se fosse um espetáculo sendo encenado na minha frente... Eu sinto a grama sob meus pés descalços, sinto quando está calor ou frio, se chove sinto as gotas na minha pele... Sempre foi tudo muito real e eu achava que estava enlouquecendo. 


Angel encarava as árvores a sua frente, Jimin apenas escutava a garota falar tudo, notou que os olhos estavam inchados por ter chorado tanto. 


— Das árvores, eu sentia também que havia algo, alguém que sempre estava a espreita e surgia de dentro da floresta, caminhando pra cá, onde estamos sentados. Eu ficava ali, uns dez passos daqui do centro, e quem surgia de dentro da floresta encontrava uma mulher, eu nunca consegui ver o rosto de ninguém... 


Angel suspirou, passou as mãos no rosto para secar as lágrimas que ainda escorriam. 


— Eu nunca consegui me mover ou desviar meus olhos também, parecia que quem estava fazendo tudo queria que eu visse. 

— Fazendo o que Angel? 

— A mulher que eu vejo nos sonhos está sempre nua, ela se deita no gramado e espera, alguns segundos depois surge um corpo coberto pela noite, é uma aparição ou espírito, não sei o que diabos é... Só vejo o contorno, e ele se deita sobre o corpo da mulher, é tudo tão explícito e sujo... Eu tenho nojo de mim por sonhar isso, mas quando acontece eu não paro de olhar e da última vez que sonhei eu... 


A menina começou a chorar novamente e Jimin a apertou, passava a mão acariciando as costas, queria que ela se tranquilizasse. 


— Da última vez, eu era a pessoa deitada no gramado, eu esperava aquela coisa sair da escuridão e se deitar sobre mim... Eu sentia... Jimin, eu vou vomitar! 


Angel levantou rapidamente e cambaleou um pouco, mas conseguiu correr até próximo as árvores em que se apoiou e sentiu todo seu interior revirar. 

Jimin apareceu do seu lado, puxou seus cabelos e amarrou novamente com a fita, tirou da bolsa o pano que havia jogado no fundo e a garrafa de água. Esperou que enxaguasse a boca e depois ele secou seus lábios e também o rosto que era uma mistura de suor e lágrimas. 


— Desculpe ser tão estranha... As pessoas estão certas em se afastarem de mim, nem eu sei o que sou. 

— Ei, para... Você é Angel, uma filha muito amada, uma garota vivaz e muito bonita, não se julgue por conta desses pesadelos, talvez haja alguém que possa te ajudar a entender, posso tentar te ajudar também.


Angel chorou baixinho e abraçou Jimin, não queria perde-lo, estava assustada pensando que talvez, quando voltassem, ele não gostaria mais de ficar perto dela, mas ali estava ele oferecendo ajuda e deixando no ar uma afirmação de estaria do seu lado. 


— Vamos sair daqui, não quero continuar nesse lugar. 


Jimin concordou e os dois voltaram para onde estavam sentados no tronco caído e dali pegaram a direção certa para a casa da Sra May. 


...


Jimin conseguia ver a fumaça saindo da chaminé da casa, ouviam a uma certa distância a água do lago que fazia ondas por conta do vento que soprava. A casa de madeira era pequena e um pouco coberta por plantas e musgos. 

Angel correu um pouco para se aproximar mais da casa, finalmente haviam chegado. Esperou até que Jimin parasse ao seu lado. 


— Jimin, eu tenho que te avisar sobre algo 

— O que é? 

— Não se assuste com a aparência de May, ela fica chateada quando as pessoas tem uma reação negativa com sua aparência. 


Jimin assentiu lentamente, em sua mente vários rostos de diversas formas surgiam fazendo suposições sobre como a bruxa poderia ser. 

Quando chegaram perto, Angel bateu na porta e Jimin se assustou com um gato cinza que pulou da janela, o animal se arrepiou todo quando chegou perto de suas pernas. 


— Ei Mananan!* Você geralmente é amigável 

— Tudo bem, acho que o assustamos


O gato correu para trás da casa no momento em que a porta foi aberta. 


— Song Angel! Minha amada filha, por Gaia como está linda! E quem é este rapaz? 


Angel abraçou a velha senhora e Jimin ficou estático onde estava, não esboçou reação ao ver a figura da bruxa, esperou que esta se direcionasse a ele diretamente, e quando fez, sorriu com simpatia. 

May tinha a pele escura, parecia ser feita da argila que se encontrava nas beiradas do lago, os cabelos eram grisalhos e longos, ficavam soltos e batiam em sua cintura. O rosto era preenchido e adornado por rugas revelando sua idade avançada, mas o que chamava atenção era que May tinha apenas um olho e lhe faltava um pedaço dos lábios onde seus dentes apareciam e davam a ela uma aparência um pouco amedrontadora. 

Após Angel apresentar Jimin, May os convidou para entrar e pediu que se sentassem na cozinha junto a ela. 

Jimin observava ao redor, haviam várias plantas e flores espalhados dentro de vasos ou potes, algumas estavam secas e outras mais frescas como se tivessem sido colhidas no dia. 


— Teve os pesadelos recentemente, não teve? 

Angel assustou-se com a pergunta, mas assentiu chateada. 

— Senti em seus cabelos os cheiro de canela e sálvia, fez o banho de purificação como ensinei, fico feliz que tenha seguido meu conselho, mas triste por ter tido que usá-lo.


Jimin ouvia a conversa e então entendeu o porquê de ter sentido o aroma descrito por May, era de fato canela e sálvia, mas não imaginava que seria algo como um banho para se purificar. 


— Tenho tomado o extrato que a Sra Han faz, me ajuda a não ter os pesadelos, mas o banho me deixa mais calma e tranquila... Eu tive a paralisia também, e hoje aconteceu algo estranho, gostaria de poder falar sobre com você.


A senhora mexia em uma panela no fogão a lenha, o cheiro era doce, o vapor que subia parecia dançar em círculos até se dissipar no ar mais acima. 


— Pode me contar tudo minha criança, farei o que estiver em meu alcance para te ajudar... Rapaz, poderia ir nos fundos da casa, colha alguns alecrins e me traga também lavanda e pétalas de rosas brancas. 

— Hã? Ah, claro... Tem uma quantidade específica? 

— Traga o quanto achar necessário.


Jimin levantou com uma expressão de que não estava entendendo o que estava acontecendo e Angel riu apenas falando com os lábios em silêncio “vai logo”, então Jimin saiu. 


— Você confia nesse jovem, falou abertamente sobre seus pesadelos na presença dele, quando vem com seu pai parece que vai sair voando pelo teto se menciono o assunto na frente dele. 


Angel riu e abaixou o rosto. 


— Você gosta dele. 

— O que? 

— Criança, esse sorriso frouxo nos lábios e o modo como se olham, alguma coisa entre vocês há, sou velha, tenho apenas um olho, mas não sou cega. 

— Sra May! 


May riu e uma risada sufocada foi ouvida, parecia que os pulmões estavam cheios. 


— Seu pai sabe? 

— Falarei com ele mais tarde 

— Ele tinha planos de te casar com um jovem do vilarejo, mas se ele ver como vocês dois são um com o outro... Se já não viu, ele vai te apoiar. 


Angel inclinou a cabeça enquanto pensava. 


— Não acho que ele tenha notado algo. 


May parou de mexer a panela e retirou de cima do fogo, trazendo a panela para o centro da mesa em que Angel estava, sentou-se após ajeitar algumas xícaras, pondo uma na frente da garota. 


— Então por que ele deixou que viesse sozinha com o rapaz? Se ele não soubesse teria vindo junto, mesmo se estivesse ocupado... Você conhece seu pai, não estou certa em dizer isso? 


Angel pareceu surpresa, mas assentiu ao que May falava. 


— Ele confia no garoto e confia em você também, seu pai é um homem muito bom, sua mãe foi abençoada nos anos em que estiveram juntos. 

— Sim, ambos foram abençoados. 


Jimin voltou de repente segurando uma tigela de madeira contendo tudo o que May havia pedido. 


— Oh! Perfeito, me traga aqui jovem e pode se sentar, obrigada. 


May pegou dois ramos de alecrim e esfregou em uma tábua de madeira, depois jogou dentro da panela que estava na mesa. Voltou até a tigela e foi pegando as pétalas brancas uma a uma como se estivesse contando, quando pareceu satisfeita apertou todas na mão e também as despejou dentro da panela, com a lavanda fez o mesmo, mas antes de jogar junto com as outras coisas, torceu nas mãos e soltou dentro da mistura que agora exalava um cheiro forte, mas muito agradável. Jimin sentia os olhos pesarem conforme o tempo ia passando e o vapor se dissipava. 


— Agora criança, diga o que aconteceu. 


Angel contou sobre os pesadelos recentes e também sobre a clareira, essa parte deixou May um pouco surpresa, mas depois parecia saber que isso iria acontecer uma hora ou outra e Angel ficou desconfiada. 

— Sabe criança, sua mãe não viveu o tempo que deveria, infelizmente... Mas quando você veio até mim naquele dia anos atrás e eu conheci sua mãe, soube na hora que ela deveria ter te preparado ou ao menos contado a você... Entendo que contar algo de tamanha importância para uma criança seja pesado, então ela quis te poupar 

— Do que está falando Sra May? 

Jimin olhava de Angel para a bruxa, tentava entender e prever o que aconteceria. 

— Antes que eu conte o que sei, tomem este chá, serve para acalmar e clarear os pensamentos. Creio que passaram por muitas emoções hoje de manhã, vai abrir o apetite para o almoço também, então tomem a vontade. 


Angel soprou o líquido da xícara que lhe foi servida, ficou receosa de tomar, mas o aroma era muito convidativo, e quando olhou para Jimin, viu que ele já estava tomando mais da metade do conteúdo da xícara que foi servida a ele. 

Segundos depois, Angel estava debruçada sobre a mesa quase se entregando completamente ao sono, Jimin parecia já estar perdido nos sonhos, mas pôde ouvir algo saindo dos lábios do rapaz. 


Taehyung... 


E Angel acabou apagando também. 




Notas Finais


Teorias? 😅


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