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História World Legacy - Capítulo 5


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Notas do Autor


E lá vamos nós...

Esse capítulo é o término do primeiro arco, novamente eu reforço que esse começo lento é necessário, gosto de personagens bem estabelecidos, além de que o mundo Pokémon não é só batalhas. (Na verdade, é sim. Mas aqui não é. XD).

Demorou um pouquinho mais que o esperado para escrever, eu simplesmente travei em como construir os diálogos em algumas cenas. Algo que eu esqueci de avisar no capítulo passado foi quanto ao aumento da classificação indicativa de 16 para 18; não foi para colocar hentai, longe disso, é apenas para evitar possíveis problemas com o nível de violência.

Outro detalhe foi eu ter esquecido de colocar as datas nos epitáfios de May e Noah; prometo colocar logo, pois é bem importante. Então quem tiver curiosidade pode olhar depois, garanto que no máximo até 25/03 elas já estarão lá.

Nota: Estarei deixando links para músicas em determinadas cenas, os links estarão nas notas finais, como de praxe. E as cenas terão um "aviso" constituído de "L" + "número". Exemplo: (L1).

Boa leitura!!!

Capítulo 5 - Opressão, O Gatilho das Revoluções.


Vozes, haviam muitas delas; todas murmuravam simultaneamente, em um tom tão alto que a pobre garota mal conseguia ouvir os próprios pensamentos. Sua cabeça latejava e seus pulmões falhavam.

Era uma situação desagradável, e ter sua visão ofuscada pelo brilho do sol poente apenas aumentava seu mal-estar. Suas pequenas mãos, cuja as unhas estavam completamente roídas, repousavam em suas orelhas em uma tentativa de amenizar aquela sensação.

Ela fechou os olhos e balançou a cabeça em sinal negativo, como se recusasse a ouvir o que as vozes lhe diziam. As lágrimas já molhavam sua delicada face, e seu rosto avermelhado demonstrava uma expressão de desespero.

Logo, elas cessaram, e a garota veio ao chão caindo de joelhos; suas mãos que anteriormente lhe ajudavam a amenizar as vozes, agora lhe davam auxílio para se sustentar naquele... chão? Aquilo não parecia terra, era gelado e liso.

Abrindo seus olhos, ela se deparou com o próprio reflexo, este que estava levemente deturpado pelas ondulações na água. Ela pôs-se de pé, utilizando das mangas de seu casaco para secar suas lágrimas. Olhando em volta notou que, inexplicavelmente, estava de pé sobre um grande lago. A água refletia toda a paisagem ao seu redor: Árvores de um verde tão vívido que ela questionava ser real, vários pedregulhos cobertos de musgos próximos à borda e flores silvestres entre um rochedo e outro. Alguns Volbeats e Illumises sobrevoavam ali perto, em uma verdadeira dança de cores verdes e vermelhas.

A moça encarou os próprios pés, rindo docemente ao ver o belo céu alaranjado, cheio de pequenas nuvens, refletido perfeitamente sobre as águas cristalinas. Sem dúvidas aquele era o mais belo por do sol que ela já vira em toda sua vida.

– Queria que o papai e a mamãe pudessem ver isto também... – Lamentou, elevando sua destra com o punho cerrado próximo ao busto, suspirando profundamente. Embora já estivesse mais calma do que momentos atrás, ela ainda temia por algo.

Seus orbes azuis ainda estavam aflitos, mas nem ela sabia explicar o que sentia naquele momento. Encarando aqueles Illumises ela teve vontade de sair dali para poder brincar com eles, afinal, só tinha os visto nos livros de biologia de sua mãe.

Sobretudo, ela temia dar um passo a frente, não conseguia ver o quão profundo era aquele lago e não pretendia se afogar. Novamente ela se frustrava por não saber nadar, por vezes, se odiava por ter tantas limitações.

O fim se aproxima.

Ela estremeceu, aquela voz se assemelhava a um trovão, era rouca e imponente. Por algum motivo, ela sentiu novamente o ar faltar em seus pulmões, enquanto todo seu corpo tremia de nervosismo; antes que se desse conta, já estava chorando novamente.

Mas, por quê chorava? Ela não sabia, a única coisa que tinha certeza era do medo que crescia descontroladamente em seu peito.

De frente para ela, agora haviam sete pilares de pedra e, no topo de cada um, haviam figuras sombrias. A do centro se assemelhava muito com um humano, enquanto as outras seis eram criaturas bestiais, pareciam Pokémon, embora a garota jamais tivesse visto algo que se assemelhava àquilo.

– O-o q-que vocês são? – Indagou em prantos, gaguejando levemente.

Nós? Somos aqueles que devastarão e reconstruirão o mundo que você conhece, Celine. – Disse a voz do meio, os outros apenas concordaram com berros selvagens.

Destruir, reconstruir... Tais palavras carregavam uma profundidade que Celine sequer conseguia compreender. Ela molhou seus lábios ressecados, ainda estava amedrontada com aqueles seres, mas jamais daria o braço a torcer, afinal...

... Era filha de Paul, a herdeira da família Hikari. Sempre fora ensinada por seu pai que medo era uma fraqueza, e os fracos são apenas vermes que se rastejam pela terra.

– Vou perguntar só mais uma vez: quem são, ou melhor, o que são vocês? – Seu peito estufado mascarava parcialmente seu medo. Entretanto o olhar de desprezo daquelas coisas faziam com que ela estremecesse ainda mais.

Mas eles nada responderam, apenas se puseram a encarar a pequena jovem.

– Respondam! – Disse a azulada ficando furiosa, por que eles não a respondiam?

Uma névoa surgiu de repente, tampando a visão da garota e ocultando as figuras novamente nas sombras. Celine entrou em desespero quando se deu conta de que estava pouco a pouco afundando na água, era como uma areia movediça. Mas seus gritos de desespero jamais seriam ouvidos, afinal, ela estava sozinha...

... De novo.

(...)

– Kyaaaaaah!!!! – Celine acordou de supetão, dando um grito agudo de desespero. Seu coração palpitava forte, e ela sentia sua costa e testa molhadas de suor.

Marnie, que dormia ao seu lado na cama, despertou bruscamente, ela também se assustara com o grito da garota. Recentemente Celine estava tendo pesadelos constantes e, para confortá-la, Marnie dormia gentilmente ao seu lado. A morena entendia o desespero de sua meia-irmã, pois no fim das contas, sonhos são coisas imprevisíveis e ao mesmo tempo poderosos.

A ex-soldado abraçou a azulada de prontidão, esta que agora chorava copiosamente em seu ombro. Os soluços de Celine tinham um curto intervalo, dando pouco espaço para qualquer tentativa de fala.

– Calma, já passou. – Reforçou Marnie, percorrendo sua mão pelo cabelo da jovem. – Respira fundo, foi só um sonho.

– E-eu pensava que iria me afogar, Marnie... e se eles vierem me pegar?! – Celine falou, apertando o tecido do pijama da mais velha. – Eu tive tanto medo...

A maior deu um sorriso singelo; as lágrimas de Celine se misturavam com o escarro que descia de seu nariz, molhando o ombro da morena.

– Eles não virão, confie em mim. – Garantiu beijando o topo da cabeça da menor. A azulada se distanciou um pouco, encarando os orbes verdes da garota.

– Promete? – Perguntou com receio recebendo um sorriso reconfortante de Marnie.

– Prometo. Mas, se vierem, irão se ver comigo e com Ib. – Brincou apontando para sua UltraBola em cima de uma escrivaninha ao lado.

Celine deu um riso contido, ela se sentia tranquilizada só de pensar em Ib, seu sonho era um dia ter um Pokémon tão belo quanto o de sua meia-irmã. Não que Maggie, sua Mawile e seu único Pokémon, não fosse bela, mas era arrogante compará-la com o principal membro do time de Marnie.

***

– Ela falou algo? – A indagação de Ethan fez com que Marnie parasse de comer sua fatia de bolo e passasse a encará-lo.

Ambos estavam sentados em cadeiras na sala e a única coisa que separava-os era uma pequena mesa de vidro.

– Não, parece ser um assunto delicado. – Comentou depositando seu prato sobre a mesa, pondo-se a encarar Celine que estava debruçada ao chão, desenhando.

A pequena parecia estar completamente desligada do mundo, rabiscando para lá e para cá com seu giz de cera vermelho. O leve sorriso em seu rosto dava a entender de que ela não estava ligando para a conversa de seus irmãos mais velhos.

– Todo dia um problema diferente... – Resmungou ao dar um bocejo. – Sabe, as vezes vocês me dão muito trabalho, graças àqueles gritos eu não consegui dormir ontem.

– Eu não tenho culpa alguma, sabia? – Marnie arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços sobre o peito.

– Eu sei. Enfim, você gostaria de sair hoje? Deve ser muito chato ficar só por aqui...

O rosto da garota ruborizou. Já fazia um tempo que não tinha um momento a sós com seu irmão, aquela seria uma boa oportunidade para poder ser franca com o mesmo.

Ela fez uma longa pausa para respirar, não podia transparecer seu nervosismo diante daquela situação.

– S-sair? Tipo um encontro? – Indagou ao desviar o olhar para longe do sorriso radiante de Ethan, amaldiçoando mentalmente a si mesma por ter gaguejado.

– Pode se dizer que sim, poderíamos ir alguma pub da cidade ou algo do tipo...

O rapaz deu de ombros, aquilo para ele seria apenas uma descontração comum ao lado de sua irmã; mas para Marnie aquilo significava bastante coisa. Ela jamais fora uma perita em relacionamentos, seu único contato com romance eram as obras literárias que ela leu durante a Revolução Galariana. Além de sua breve relação com Gloria, claro.

– Eu aceito.

As bochechas dela ainda estavam avermelhadas. Ethan ria alegre, por vezes, Marnie tinha o desejo de ter aquela risada apenas para si.

O rapaz se levantou, pegando calmamente seu relógio de bolso e encarando os ponteiros com demasiado tédio. Ao analisar os detalhes daquele relógio, a garota concluiu de que era um modelo antigo, uma relíquia moldada em ouro. Ela suspirou, jamais entendera a relutância do maior para com coisas modernas.

– Ethan, você tem certeza de que não prefere um relógio digital? Bem, relógios de pulso são mais fáceis de carregar e com certeza são mais leves que esse. – Sugeriu, sem jeito. Ethan suspirou.

– Não posso desfazer-me desse relógio. Jamais. – Afirmou ao guardá-lo de volta em seu bolso. – Enfim, tudo bem se sairmos, sei lá, por volta das cinco?

Marnie ergueu uma sobrancelha.

– Sim, por mim tudo bem. Mas você tem certeza de que não vai querer ver o discurso do Ketchum?

– Para ser franco, não. Independente do que ele disser nós vamos ficar sabendo de alguma forma. Seja no jornal ou na próxima reunião com a ODM; de toda forma, eu não quero trazer o clima de “tensão política” para dentro de casa. Pelo menos, não agora. – Disse com um tom enfadonho, fazendo aspas com os dedos. Marnie acenou positivamente com a cabeça.

Ele tinha razão, não era uma boa ideia trazer aquele assunto para a casa, Celine precisava de tempo. Embora não parecesse, ela era uma garota bastante inteligente para sua idade, sendo capaz de criar e aprender táticas de combate avançadas, algo que a tornava uma duelista poderosa em batalhas Pokémon.

Por mais que suas capacidades fossem surpreendentes para a idade, era notório o contraste que estas faziam com sua mentalidade infantil e inocente, afinal, ela era apenas uma criança.

– Você tem razão – suspirou ao se levantar, a moça caminhou em silêncio até Celine, agachando-se e depositando sua mão sobre os cabelos azulados da menor. – Celine. Eu e o Ethan vamos ter de sair mais tarde, você se importa de ficar sozinha?

– Não. – Disse tranquilamente sem desviar a atenção de seu desenho. – Eu e Maggie já estamos acostumadas a ficarmos sozinhas desde sempre.

Marnie sentiu uma pontada no coração, não havia tristeza alguma na voz da mais nova e isso deixava tudo mais melancólico. A forma com que ela falava passava a sensação de impotência para a morena ao seu lado. A ex-soldado sempre imaginara que Celine era feliz por ser uma criança que sempre teve tudo o que quisera, mas aquela frase foi contra tudo que Marnie acreditava saber sobre a mais nova.

Embora não houvesse tristeza na afirmação, Marnie sabia que a garota sofria com aquela solidão e a única forma de fugir dela foi aceitá-la para si. Isso explicava muita coisa, principalmente o apego de Celine para com ela e Ethan. Os irmãos mais velhos eram uma válvula de escape para o mundo triste e gélido da azulada.

– Irmãzinha, por quê você está chorando? Está se sentindo mal? – Indagou Celine preocupada ao ver as lágrimas involuntárias que desciam pelo rosto de Marnie.

Então a morena se deu conta, ela chorava por empatia com a menor, chorava por não ser atenciosa o suficiente...

...chorava porquê Celine era, de certa forma, igual a ela, ao menos na infância.

– Não é nada, não se preocupe... – Disse forçando um sorriso e secando as lágrimas que insistiam em lhe molhar a face. – O que você está desenhando?

Celine fitou o chão.

– É... são as coisas que aparecem nos meus pesadelos. Eu tenho medo deles, mas não posso negar que me deixam curiosa sobre seus nomes, me pergunto de que espécie de Pokémon eles são.

A garota entregou seu caderno para Marnie. A morena teve um breve arrepio ao olhar aquelas criaturas, embora fossem semelhantes a Pokémon, as seis figuras possuíam um aspecto macabro que ela jamais vira em qualquer outra espécie.

– Agora entendo o porquê de você ter tanto medo, sem dúvidas eu jamais vi algo tão assustador quanto. – Deu uma risadinha sem graça, ela não sabia explicar, mas as figuras lhe passavam uma sensação desagradável.

– Irmãozinho, gostaria de ver meus desenhos? – Questionou Celine encarando Ethan, o rapaz comia distraidamente o bolo de Marnie.

– Claro, eu adoraria. – O rapaz afirmou deixando o prato sobre a mesa. Aproximando-se de suas irmãs.

Ao notar a ausência de sua guloseima, Marnie franziu o cenho.

– Ei! Cadê meu bolo? – Protestou encarando Ethan, ela já imaginava a resposta.

– Ah, eu comi – deu um sorriso amarelo ao passar a mão por seus cabelos bagunçados, ajeitando levemente a franja. – Você não se importa não é, Marniezinha?

– Marniezinha? Sério? – Bufou visivelmente frustrada. – Esquece.

A morena entregou o caderno para Ethan, Celine o observava ansiosa por um elogio. Mas o que viram foi o rosto de Ethan se contrair, ele estava claramente assustado, sua face pálida e mãos tremelicando demonstravam que aquelas figuras não eram de forma alguma agradáveis para o rapaz.

Elevou sua canhota ao rosto, puxando sua franja para próximo aos olhos, soltando um suspiro de pura angústia.

– Marnie, saia da sala.

A garota franziu o cenho, encarando-lhe com demasiada confusão.

– Hã?

– Está surda por acaso? Eu mandei sair da sala. – O tom ríspido de Ethan deixou Marnie boquiaberta, ela já ouvira comentários sobre o transtorno bipolar do moreno, mas jamais havia presenciado a transição de personalidade.

– T-tudo bem. – Engoliu seco, abaixando a cabeça e saindo da sala a passos rápidos. De certa forma, aquela forma de falar lembrava o modo com que Paul a tratava anos atrás. Em qualquer outra situação, ela jamais iria abaixar a cabeça para alguém, mas aquelas palavras tinham um efeito inexplicável sobre seu psicológico.

Ao ouvir a porta se fechar Ethan colocou suas mãos sobre os ombros de Celine, apertando o local com certa força, encarando-a severamente.

– Onde você viu essas... coisas, Celine?! – Bradou Ethan em um tom alto o suficiente para fazer a garota se encolher.

A azulada travou, queria responder, mas aquela pressão lhe desconcentrava, a única coisa que lhe vinha à mente era a vontade de correr dali. Ethan aproximou suas faces subitamente, aprofundando aquela intimidação, ele sabia ser assustador quando queria.

– Só vou perguntar mais uma vez, Celine; onde os viu?

– E-eu sonho com eles todas as noites, mas nunca os vi em lugar algum, eu juro! P-por favor para com isso, irmãozinho, eu estou ficando com medo. – Confessou a garota já em lágrimas.

Ethan a puxou para um abraço, o quão idiota ele estava sendo? Ela era apenas uma criança. Mas de toda forma, aquilo jamais poderia ser ignorado. Ele conhecia bem a lenda por trás daquelas criaturas, mesmo que não acreditasse em lendas e mitologia antiga, e o medo de que fosse verdade lhe consumia tão rápido quanto uma folha de papel era incinerada.

– Desculpe, eu não queria te assustar. Me escuta, Celine, pode me contar mais sobre seus sonhos? Prometo que te explico assim que possível. – Disse acariciando os sedosos cabelos azulados da mais jovem, ela apenas acenou positivamente, ainda entre soluços e prantos.

Celine esclareceu tudo, Ethan apenas ouvia e absorvia cada informação, em silêncio. Quanto mais a garota explicava, mais o moreno se sentia um idiota por pressioná-la, a experiência que ela tinha durante o sono era horrível, com certeza.

Uma Fênix, um Grifo, uma Sereia, um Doende, um Cérbero e um Unicórnio. Aquilo não era um bom sinal, talvez, só talvez, a lenda sobre os Knightmare fosse verdade. Entretanto, o rapaz sentiu um alívio ao saber que não havia um Wyvern entre eles.

Se houvesse, ele teria razão de ficar em pânico...

[...] O decreto.

Os orbes castanhos analisavam aquela multidão com desprezo, ele podia sentir o odor fétido do medo e da apreensão. O manto de campeão em seus ombros pesava como a vida de todos que faleceram no atentado. Os holofotes que lhe eram apontados o faziam lembrar que o mundo todo ansiava por algo. Estar sobre aquele palanque o fazia sentir-se o topo do mundo; mas aquela sensação de superioridade e responsabilidade sobre todos que estavam abaixo era algo que ele já convivia há tempos, desde que recebera o título de “O mais forte do mundo” os olhares sobre ele mudaram de forma abismal, ele era tido como o exemplo, algo a ser seguido e imitado. Um deus entre os homens.

Mas não era assim que funcionava, e Ash sabia disso. Ele era falho, como qualquer outro homem. O poder lhe dava dinheiro e influência, mas não o deixava imune a nenhuma fatalidade. A perfeição aplicada a ele era algo fantasioso, tão fantasioso quanto os Pokémon que as religiões adoravam. Era irônico saber que Ho-Oh, o deus que ele tanto venerou, não existia, de fato. E se existisse, havia o abandonado, assim como abandonou sua família.

Ele pigarreou, aproximando sua face do microfone. Seu manto branco balançava ao vento, dando um tom mais épico àquele momento, era chegada a hora. Nos próximos instantes o destino de seu país, não, do mundo estava em suas mãos. O Ketchum deu um breve olhar para trás, recebendo uma piscadela confiante de Skyla.

– É dada a hora de reparar nossos erros. Imagino que muitos aqui lembrem do meu discurso de cinco anos atrás, foi quando assumi o posto de campeão da Pokéliga de Avalon. Na época eu falei sobre mudança, e de fato elas ocorreram, o que o meu eu da época não contava era que elas seriam para pior; por muito tempo eu esperei, pacientemente, por uma melhora, mínima que fosse. Entretanto elas jamais ocorreram, e hoje estamos amargando o sabor da frustração – fez uma breve pausa para beber um gole de sua água oxigenada. – Esse período nos provou que o mundo sozinho não é capaz de progredir nenhum pouco, ninguém realmente se importa, apenas vivem, como seres completamente robóticos e desprovidos de qualquer opinião própria. O que nos falta é uma liderança, alguém para colocar as coisas em seus devidos lugares. Sem alguém assim eu duvido muito que possamos evoluir ou melhorar algum aspecto dessa sociedade podre, então... é por isso que estou aqui.

Havia um olhar duro em sua face, ele mirava cada jornalista como se pudesse aliviar a angústia em seu peito com tal ato. Mas isso não era possível, ele teria de carregar aquele sentimento para sempre, e essa verdade lhe doía mais que tudo.

– Pokémon... o problema está neles. Sei que parece sensato deixar qualquer um ter seus próprios Pokémon, afinal, sempre foi assim que funcionou. Mas acreditem, é algo idiota, banal. Lembrem-se de todos os casos de assassinatos em massa, em todos eles houve participação direta de Pokémon. Ditaduras são movidas pelo poder que eles possuem, serve como exemplo o caso da guerra civil que teve seu término recentemente, em Galar. – Vários holofotes lhe ofuscaram a visão, obrigando-o a semicerrar os olhos.

Ash sabia que iriam distorcer aquele discurso de alguma maneira, era assim que a mídia funcionava. Então, cabia a ele dar um ultimato àquilo, sua decisão já estava tomada, e ele iria ser claro e objetivo.

***

... A partir de agora, eu estou impondo uma trégua mundial. Casos de terrorismo, abuso de poder e até mesmo crimes menores serão tratados da mesma maneira: sentença a morte. Os Pokémon também estão oficialmente confiscados, apenas líderes políticos terão acesso à eles, além de pessoas ligadas diretamente ao exército. O resto da população deve entregar seus Pokémon. E, antes que perguntem, sim, esse é o fim da Pokéliga e batalhas Pokémon. Parece loucura, mas isso é necessário...

A sonoridade das palavras do Ketchum na televisão atingiam as pessoas daquela pub como uma pancada forte no queixo, deixando-os atordoados e boquiabertos. Era ridículo, os Pokémon eram seus melhores amigos, tomá-los à força era algo inaceitável. Um silêncio tomou conta do local, antes de uma confusão generalizada se instalar.

– Ah, para o inferno, Ketchum, seu filho da puta! – Praguejou um homem quebrando uma garrafa ao batê-la contra o balcão, assustando o barman. Ele subiu sobre o banco. – Se esse desgraçado acha que vamos aceitar algo, iremos provar que ele não tem autoridade alguma. Mostraremos o que acontece quando tentam tirar nossos amigos! Quem está comigo?!

Um grito de aprovação preencheu o local, acompanhado de pequenos discursos sobre a liberdade, e xingamentos, claro. Todos transformaram aquela noite de bebedeira em um verdadeiro caos naquele local. Ao menos, quase todos, pois um casal apenas assistia aquela confusão de uma mesa isolada da sala.

– O que acha que vai acontecer agora, Ethan? Estamos com um problemão. – Disse Marnie entre suspiros.

Ela havia se arrumado bastante para o encontro, trajando um curto vestido cor-de-rosa; o detalhe do tamanho da veste foi bastante importante para a escolha da meia ¾ preta que ela usava, acompanhado das sapatilhas preta com detalhes em rosa que ela calçava. Sua jaqueta estilosa tomava o lugar do casaco grosso que ela sempre usa, dando um ar gótico e sensual para a moça. Os olhares cheios de luxúria que ela recebia tanto de homens quanto de mulheres naquela pub corroboravam com sua autoestima.

Todavia, o único olhar que ela queria para si naquela noite era o de Ethan, mas a tentativa estava sendo frustrada. Ela sabia que os elogios dele e seus olhares de ciúmes eram algo mais de irmão do que de um namorado. O rapaz em sua frente parecia totalmente distraído com aquela confusão, não prestando atenção na pergunta que ela fizera.

– Ethan? Ei, eu estou falando com você.

Ethan a fitou, confuso. Ele deu um sorriso sem graça, que era uma espécie de pedido de desculpas por aquela distração.

– Hm? Ah sim, você está muito bonita, Marnie. – Disse nervoso e Marnie arqueou a sobrancelha, ele não havia prestado atenção.

– Do que é que você está falando? Não foi isso que perguntei, idiota. – Ela cruzou os braços sobre o peito, emburrada.

– Foi mal, é que toda essa história está mexendo com a minha cabeça – admitiu com um semblante calmo e um sorriso bobo. – Você dizia?

– Eu estava querendo sua opinião sobre... isso. – Falou ao apontar para o televisor, onde Ash agora terminava seu discurso.

Ethan suspirou.

– Uma péssima escolha, infantil, na verdade. Ele está cruzando a tênue linha entre o certo e o errado. Ash está tomando a pior das decisões, mas na mente dele isso é o correto. Chega a ser irônico.

– Será que realmente podemos criticar? – A garota colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Erros são comuns aos seres humanos.

– São comuns, é? Então conte-me, Marnie, sobre o que realmente é esse conto? – Ethan a encarou nos olhos. – Seria uma tragédia? Ou uma sátira à vida humana? A resposta é: Nenhum dos dois. É apenas o âmago da tolice de um homem acabado.

A morena engoliu seco, analisando profundamente os olhos dourados do rapaz. Ele tinha uma expressão indecifrável em sua face, embora houvesse um sutil tom de raiva em sua voz.

– Você fala como se não se importasse com o que o Ash passou – seus dedos agora tamborilavam sobre a mesa, enquanto sua outra mão ajeitava cuidadosamente a franja que lhe cobria o olho direito.

– São coisas diferentes, Marnie. Eu respeito a dor do Ash, mas essa decisão de criar uma ditadura é algo que não pode ser justificado. Para a minoria privilegiada isso não vai mudar em nada, mas e como ficam as pessoas que utilizam Pokémon para trabalhar? A camada pobre vai sofrer outra grande injustiça.

A garota se irritou com aquilo, o que Ethan realmente sabia sobre a pobreza? Ela havia convivido com várias vítimas de ataques por pessoas armadas com Pokémon, tinha consciência de que a ideia do Ketchum era correta, embora muitos monstrinhos fossem leais, boa parte deles tinha poder demais para ficar na mão de um civil.

– Você fala como se soubesse algo sobre a pobreza. Eu passei dois anos vendo crianças morrerem de fome enquanto tentavam sobreviver ao fogo cruzado, posso lhe afirmar, Ethan: Eles com certeza preferiam não estar ali, isso poderia ser evitado se não deixassem Pokémon poderosos nas mãos daqueles... monstros! – Algumas lágrimas já se acumulavam em seus olhos, borrando sua maquiagem, enquanto as veias saltadas e saliências em sua face faziam sua raiva transparecer.

Todavia, ela não sabia com o que realmente estava irritada.

Ethan riu em desdém, a garota realmente não sabia nada, ele já sabia a verdade por trás de sua participação na guerra, os olhos dela revelavam tudo.

– É estranho ouvir uma garota mimada como você falar sobre pobreza, sinceramente. Você fala de conviver com ela, mas saiba que eu nasci na miséria. Um delinquente qualquer, que roubava comida para poder ter a chance de ver a luz do outro dia. Alguém que possivelmente ainda estaria nas ruas roubando, isso se não tivesse a sorte de conhecer seu pai – o moreno fez uma pausa, dando um suspiro. Marnie o encarava com os olhos arregalados, sabia que Ethan fora adotado, mas jamais haviam lhe falado sobre o passado dele. Era como se não o conhecesse mais. – Também sei que você não lutou realmente na guerra, ao menos não na linha de frente. Você atuou nos primeiros socorros, não foi?

Marnie travou, ela estava surpresa. Como Ethan havia descoberto? Não havia como ele saber por fontes externas. Ela cerrou os punhos e mordeu os lábios, sua transpiração estava acelerada, assim como seu coração.

– Quem te contou? – Havia curiosidade e um temor sutil em sua voz fraca.

– Ninguém. Sabe, eu conheci o Reggie. Ele era um veterano de guerra, e os olhos dele, ao contrário dos seus, não possuíam fulgor algum. Eram vazios como a noite. Já seus orbes verdes, por outro lado, ainda tem o mesmo brilho do dia em que nos conhecemos, algo que, diga-se de passagem, é lindo.

A lembrança do dia em que se conheceram fez o rosto da garota esquentar, e a risada nostálgica de Ethan não ajudava em nada. Entretanto, o fato do rapaz ter conhecido Reggie martelava sua mente, ela só tinha ouvido falar dele, tanto por seu pai, quanto por breves comentários das serviçais.

Ela parecia ser que única que não sabia nada, mas era compreensível, parecia ser um assunto delicado para todos, principalmente Paul. Seu único medo era de nunca saber quem realmente foi seu tio. Todos falavam que ele havia morrido, então, ela ao menos queria ver uma foto dele.

Um velho questionamento brota em sua mente, uma pergunta que ela sempre quis fazer desde que entrou naquela casa pela primeira vez, mas nunca havia o feito por parecer inconveniente.

– A senhora Hikari – começou. – Eu nunca a vi saindo de casa, ela sequer sai para o jardim. Por acaso seria por...

Ethan suspirou com pesar.

– Por ser obrigada pelo Paul ou algo do tipo? – Completou a frase da garota e a morena confirmou em um menear de cabeça. O rapaz parecia já ter ouvido aquela pergunta outras vezes. – Não. O Paul é o que mais pede para ela sair, mas ela insiste em ficar lá. Nos meus primeiros anos naquela casa eu lembro que os dois brigavam diariamente por causa disso. Mamãe está sempre andando pela casa com um olhar triste, só que nunca se abriu para mim sobre o assunto.

Aquele comentário fora o suficiente para tirar a dúvida que assolava o peito de Marnie. Em Galar as mulheres eram obrigadas a ficar em suas casas, sem direito a trabalhar ou sequer sair de casa sem supervisão, eram como um objeto a ser cuidado por seus maridos, sem independência alguma. Era aliviador saber que seu pai, mesmo vindo de uma família tradicional, não participava daquela cultura desigual.

Todavia, a garota ainda queria saber a verdade por trás daquilo. Respostas, era disto que precisava. Com um gesto suave de mão a garota chamou uma Blissey que ajudava como garçonete daquele local. A Pokémon aproximou-se animadamente, tinha um bloco de anotações em sua mão e esperava atenciosamente pelo pedido da garota.

– Uma garrafa de vinho tinto seco – pediu a garota e Blissey anotou educadamente, saindo do local em seguida. – É triste imaginar que amanhã a dona dessa Pokémon terá que contratar alguém para substituí-la.

Ethan concordou em silêncio, mas fez uma careta ao lembrar-se do pedido de sua irmã.

– Tinto seco? Como você consegue beber essa coisa? – O rapaz cruzou os braços, frustrado.

– Ah, em Galar eles bebem esse tipo de vinho.

– Galarianos são estranhos.

– Devo concordar. – Riu.

[...] Flores.

As folhas secas bailavam com a ventania, dando sonoridade e preenchendo o vazio da morte naquele local. O cemitério de Durkheim, em Floaroma, era um local destinado a pessoas importantes para Sinnoh. O detalhe que mais atraía pessoas para o local era que ex-membros da Elite 4 e antigos campeões eram sepultados ali, isto desde a mais antiga geração de treinadores. Tal fator fazia com que vários turistas visitassem Sinnoh apenas para conhecer o local, embora sua atmosfera fosse, visivelmente, desagradável.

Ajoelhado em frente a uma das lápides, Paul depositava um grande buquê de flores, seu silêncio e olhar melancólico revelavam – mesmo que discretamente – sua tristeza, ainda que esta esteja mascarada por sua carranca habitual. Seu olhar pelas escrituras talhadas em mármore traziam-lhe lembranças de um passado que ele jamais esqueceria, momentos bons, em meio a amargura de sua vida.

“Cynthia Beauvoir”

“820 – 878”

A ausência de epitáfio fez brotar um leve sorriso em seus lábios, Cynthia sempre foi uma mulher muito peculiar, por mais que ela fosse, sem dúvidas, o maior nome político da história do país, a loira sempre fora contra mensagens melosas e deprimentes em lápides, tanto que sua última ordem foi para que não as colocassem em seu túmulo. Decisão esta que fora aceita em respeito à autoridade da mulher, independente da relutância de Verity.

– Me perdoe, por favor. Não há mais como lutar pelo o que acredito e proteger Verity ao mesmo tempo...

Suas palavras saíram suaves, à um tom quase inaudível, mas independente da altura de sua voz ele tinha consciência de que a mulher jamais ouviria. Entretanto, ele sempre se viu na obrigação de contar tudo para ela, era assim que funcionava quando a mesma ainda vivia e seria assim até o seu último suspiro.

Passos suaves intercalaram aquele momento tristonho, como uma ofensa àqueles instantes sagrado, uma blasfêmia. O sorriso do roxeado se desfez, embora não estivesse olhando ele sabia de quem se tratava, visto que era algo que se repetia ano após ano, nesta mesma data. Pôs-se de pé e ao virar-se não se surpreendeu.

Verity o encarava com um semblante furioso, a jovem trajava as tradicionais vestes fúnebres, assim como Paul. Em seus braços, um buquê de flores. Ambos sustentaram a troca de olhares por longos segundos, com a fúria da castanha se perdendo na inexpressividade do campeão de Sinnoh. A primeira ministra suspirou profundamente, desviando o olhar.

Caminhou em silêncio até a sepultura de sua mãe, deixando suas solenidades. Cruzou seus braços, olhando de relance para o homem em pé ao seu lado, este olhava distraído para as árvores sem folhas daquele local.

– Será que todo ano eu tenho que repetir? Não visite o túmulo de minha mãe, você não é bem-vindo.

– Este é um espaço público, garota. – Retrucou, ascendendo um de seus cigarros.

Verity vez uma careta, ela odiava fumantes pelo simples fato de Paul ser um deles. Os olhares dos dois não se cruzaram novamente, cada um prendia sua atenção em algo trivial.

– Pode ser público, mas você fere a honra de minha mãe ao vir aqui. Não quero ser mal educada, Paul, mas sua presença me tira do sério – justificou. – Aliás, pare de fumar aqui, é proibido.

O roxeado riu, irônico.

– A honra de sua mãe, é? – Deu uma tragada profunda, deixando a fuligem escapar por suas narinas. – Soa extremamente prepotente e irônico ouvir isso de você. Não era bem assim que sua mãe pensava.

A castanha mordeu os lábios. Lhe doía saber que alguém poderia conhecer mais sua mãe do que ela, embora tivesse consciência de que fosse verdade sua personalidade orgulhosa jamais daria o braço a torcer, ao menos, não para aquele homem.

O silêncio esteve presente por breves segundos, Verity respirava pausadamente, tentando manter a calma enquanto buscava por uma resposta adequada.

– Quem você acha que é para falar sobre a minha mãe?

– Eu sempre serei a pessoa que a conheceu melhor do que ninguém, garota. Independente da sua opinião sobre. Até hoje eu me pergunto sobre o por quê de sua teimosia.

– Não sou obrigada a gostar de você, Paul. – Disse, seca. – Tampouco sou obrigada a ficar ouvindo as bobagens que saem de sua boca.

– Seria o fato de ela me considerar mais um filho do que você? – Indagou, ignorando por completo a frase da mulher. – Seria por ela ter confiado mais em mim do que em você? Ou seria pela sua festa de formatura?

Ao tocar no assunto, a pele alva de Verity ruborizou, em um misto de raiva e constrangimento. Sua formatura era algo para ser enterrado.

Naquele dia, anos atrás, ela declarou seus sentimentos abertamente para Paul, estava embriagada, mas esse detalhe fora ignorado tanto pela mídia quanto pela multidão presente na festa. Ela obviamente fora rejeitada, Paul já era casado com Dawn há 14 anos, no período. Claramente o assunto fora bastante repercutido na mídia, trazendo vergonha e constrangimento para ambas as partes, mas principalmente para a castanha.

– Eu estava bêbada. Quem em sua sã consciência gostaria de alguém como você? – A resposta saiu rápida, deixando evidente o nervosismo em sua voz.

O homem suspirou, jogando o que restara do cigarro ao chão e apagando-o ao esmagá-lo com a sola de seu sapato. Pôs suas mãos no bolso e voltou a admirar a paisagem, como sempre fazia.

– Tem razão, quem se apaixonaria por mim. – O sarcasmo na frase não passou despercebido pela mulher, porém ela resolveu ignorar.

Se ela realmente o amava? Talvez. Nem mesmo ela saberia responder àquela pergunta, era confuso e lhe machucava aceitar que alguém como Paul havia lhe roubado o coração. A diferença de idade era de quase quinze anos.

Não que a idade realmente importasse, seu maior obstáculo era o fato do homem ser casado, jamais vira a esposa do então patriarca da família Shinji, contavam que a mulher era a mais bela de Sinnoh, uma beldade nascida na família mais tradicional de todo o país. Uma princesa criada em um berço de cristal, literalmente, visto que a família de Dawn morava em um lugar em que sempre nevava.

Paul deu meia volta, se direcionando à saída, mas fora impedido pela mão da mulher, que agarrou sua camisa, como se quisesse impedir que ele fugisse. Ele franziu o cenho.

– Sua bipolaridade é algo complicado, garota. Teria como me largar? – Ele se debateu bruscamente, soltando-se da moça.

– Por que você não fica longe? Custa alguma coisa, Paul?

Ele não sabia se ela estava triste ou irritada, era confuso tentar compreendê-la. Mas, sempre fora assim.

– Me desculpe. Porém eu prometi a sua mãe que cuidaria de você.

– Não preciso de cuidados! Você não vê? Só está me machucando com isso tudo!

O comentário fora ignorado. Paul voltou a caminhar para a saída, sem ser impedido por Verity, dessa vez.

Distante, era assim que ela o via. Alguém que jamais poderia alcançar. E, se ela não podia acompanhar seus passos, a melhor das decisões era manter a distância. Seria o mais saudável para os dois.

[...] Pausa.

– Eu saber que irria encontrarr você aqui.

– Você saber, é?

Calem se sentou ao lado da garota, balançando seus pés de forma animada. Na borda da cobertura do prédio, ambos encaravam a lua, sorridentes.

A moça vestia um simples vestido vermelho, sem detalhes. Sobre seu colo havia uma UltraBola, que possuía um belo selo no formato de coração. Os seus cabelos balançavam de forma bela com a brisa noturna; suas madeixas eram uma intersecção entre o louro e o castanho-mel, uma cor bela, sem dúvidas.

Os dois olhares perdidos na beleza sempiterna daquele céu estrelado, enquanto a lua cheia iluminava seus sorrisos.

– Você ainda está chateada? – Indagou Calem, cortando o silêncio.

A moça balançou a cabeça negativamente, ampliando o sorriso em seus lábios.

– Ficar triste não vai me levar a lugar nenhum, eu só tenho que me esforçar parra a próxima vez. – Falou a garota ao voltar seus olhos azuis para Calem, ele meneou sua cabeça, contagiado pela determinação da jovem.

Ela ficou de pé, abrindo os braços e fechando seus olhos, deixando a brisa chacoalhar ainda mais seu cabelo e vestido, em uma pose metafórica de liberdade. Era como um pássaro que acabara de sair da gaiola.

Um suspiro e dois cliques no botão da UltraBola. Kricketune saiu. O grilo rodopiou e saltitou elegantemente, enquanto era envolto por corações providos do selo. Uma breve e magnífica apresentação, até porque, tanto ele quanto sua treinadora eram um dueto de Pokémon Performer.

Waltz of the Flowers, Tchaikovsky. – Pediu a garota, sendo atendida de imediato.

Os Pokémon deslizou seu braço direito sobre o esquerdo, como um arco em um violino; o que mais encabulou Calem foi o detalhe de que o Pokémon conseguia reproduzir o som de todos os instrumentos ao mesmo tempo, coisa que ele jamais vira quaisquer outros da espécie fazerem. A garota bateu suas mãos sobre o vestido, desamassando-o, dando um animado salto para trás, em seguida.

(L1)

Ela pigarreou, endireitando a postura e assumindo uma expressão séria; dobrou os joelhos e abaixou a cabeça, curvando-se levemente para a frente, suas mãos repousavam nas laterais de suas vestes, erguendo-as de modo quase imperceptível. Uma reverência.

– Poderria me conceder essa dança, senhor Calem? – Sua mão esquerda agora repousava atrás de si, enquanto a destra ainda se estendia para o rapaz.

Calem corou. Aquele clima simples e ao mesmo tempo romântico era algo que só aquela jovem conseguia lhe proporcionar. Os momentos ao lado dela eram magníficos, embora o rapaz já tivesse a certeza de que eles eram tão efêmeros quanto a duração daquela bela noite.

Serena, sua boba – sua risada fora abafada por sua mão, seu rosto ainda estava corado, enquanto o da jovem exalava confiança. Por vezes, ela parecia a mais velha da relação. – É clarro que irei aceitar.

Ele caminhou até a garota, agarrando sua mão se ajeitando adequadamente para dança, em instantes, os lentos passos começaram. A dança seguiu silenciosa por alguns segundos, apenas a bela melodia e o discreto toque das solas contra o chão.

Não faltara risos e trocas de olhares apaixonados, os dois corações batiam como um só naquele instante. Ambos já dançaram inúmeras vezes, mas aquele momento parecia único se comparado aos outros. Era o ato máximo daquele amor proibido, dançar valsa era algo que apenas casais muito íntimos faziam, bem, ao menos era assim na mente deles.

– Sere – Começou. – Sobre o casamento eu...

Ela deu um sorriso singelo, meneando negativamente.

– Eu já saber desde o começo que isso poderria acontecer, mas escolhi você mesmo assim e, se pudesse voltar no tempo, continuarria a escolher você. – A forte convicção de Serena estava estampada em seu olhar. – Sobre sua futurra esposa, bem, esperro que ela seja tão incrível quanto eu.

O rapaz riu com o comentário da loira, Serena era realmente uma figura.

– Mim duvidar que alguém possa ser tão incrível quanto você, mon chèr.

O dueto gargalhou alto, mas em momento algum erraram na dança. Passo após passo, movimento após movimento; a dança deles era tão impecável que chegava a ser robótica, entretanto...

– Sere? – Evocou o rapaz, esperando que a garota rodopiasse entorno de si mesma enquanto segurava sua mão. Entretanto, ela estava vermelha, e mordia os lábios.

– Hahahaha.

Gargalhou Serena, envolvendo sua barriga com as mãos, tentando se conter. Ela quebrou o clima, tanto que seu Pokémon parou de tocar, passando a encará-la tão confuso quanto o rapaz em sua frente.

Depois de um breve momento ela parou com sua risada, secando as lágrimas com seus dedos e dando leves soluços. Calem ainda a encarava com uma sobrancelha arqueada.

– Mille pardons, Mon chèr. – Pediu, ainda com um sorriso estampado em sua face. – É que eu nunca terr a chance de falar em outras ocasiões. É estranho girrar quando seu parceiro é menorr que você.

O comentário fez Calem fechar a cara, ele reconhecia que era oito centímetros menor que a garota, mas era extremamente vergonhoso ouvir isso vindo dela.

– Chega a serr ultrajante ouvir isso de você, Sere. – Calem cruzou os braços e ficou de costa para ela, era evidente que seu ego havia sido ferido com aquilo.

– Calma, mon amour – ela o abraçou por trás. – Serr só uma brincadeira.

Calem bufou.

– Um homem serr baixo é uma vergonha mesmo.

– Eu discordar. É extremamente fofo. – Sussurrou-lhe.

Calem sentiu o rosto ficar rubro novamente quando o nariz de sua amada lhe roçou a nuca, era agradável sentir o calor dela tão próximo de si.

Ela agarrou-o pela camiseta, lhe fazendo ficar de frente para ela. Os dois pares de olhos azuis se encontraram, cheios de paixão. A respiração ofegante faziam um se embriagar no cheiro do outro, os lábios ansiando por aquele momento. Serena tomou a iniciativa, aproximando seus corpos, Calem, por sua vez, fez um esforço para se aproximar dos lábios de sua amada – ficando na ponta dos pés.

– Caham. – Pigarreou uma voz próxima.

O casal se separou rapidamente, envergonhados. O Cavaleiro de Prata olhou para o lado, vendo que se tratava de Hector, seu subordinado. Serena recolheu Kricketune de volta para a UltraBola, ignorando o ocorrido completamente.

– Perdão pela interrupção, senhor. Mas a senhora Diantha solicita sua presença. – O homem falava rápido, claramente constrangido pelo ocorrido.

Calem franziu o cenho, e acenou em confirmação.

– Tudo bem. Terrei de ir mon amour, cuide-se – ele caminhou em direção à Hector, sem olhá-la diretamente. – Au revoir.

– Não serr um adeus, amour, mas sim um até logo. – Ela recitou um trecho de uma poesia escrita e entregue à ela por Calem, anos atrás.

Ele abriu um discreto sorriso, mas nada disse, apenas continuou a andar.

[...] ???

O cheiro metálico de sangue se misturava à garoa. Ao longe, o estalar da palha em brasas. Boa parte daquela vila não teria como ser restaurada, mas ainda assim alguns nativos tentavam apagar as chamas com água e/ou terra. Enquanto outros fugiam com seus filhos para longe dali.

De longe, um albino observava tudo, com uma expressão indecifrável em sua face. Pouco a pouco, um sorriso de satisfação se formava em seus lábios. Tanto ele quanto sua Gothitelle estavam banhados com sangue, tanto deles quanto do Pokémon sem vida abaixo de seus pés.

Zacian... agora eles estava morto. Um deus havia caído. Talvez agora seu vilarejo pudesse comer os alimentos que produziam, ao invés de dá-los como tributo à divindades.

– Deuses também são feitos de carne e osso, afinal.

Ele não sabia explicar, mas estava excitado com aquilo. Era satisfatório ver o motivo de tanta desgraça ter acabado. Poderiam tirar tudo dele, exceto esse sentimento; os olhares repreensivos dos aldeões já nem lhe incomodavam mais.

– Tem ideia do que fez, moleque?! – Questionou um homem de idade, ao se aproximar. A revolta em sua voz era notória.

O albino riu, encarando o homem de relance, como se estivesse enojado com sua presença.

– Claro que eu sei. Eu livrei vocês de uma praga; no final, o deus de vocês era apenas um Pokémon patético, um lixo.

O ancião rangeu os dentes.

– Pare de blasfemar!!!

– Blasfemar contra quem?! Um deus morto?! – Chutou o corpo já sem vida do lobo, afastando-o. – Esqueçam-no. A era do seu deus já acabou.

O velho se enfureceu ainda mais, tentando desferir um soco contra o rapaz, mas fora impedido pela telecinese de Gothitelle, sendo arremessado metros de distância. Alguns homens correram para ajudar o ancião, levantando-o.

Eles encararam o albino, furiosos. Mas nada podiam fazer, ele era poderoso demais, tentar algo seria suicídio.

– Escutem bem – iniciou, com um leve tom de repúdio. – Não quero matá-los, então, não venham atrás de mim. Se vierem, serei tão misericordioso quanto fui com Zacian. – Desdenhou.

– O que pretende com tudo isso garoto? – Indagou um dos homens.

– Vingança. Dizem que tudo de ruim que me aconteceu foi por causa dos deuses; se eles são meus carrascos, eu serei o deles. Contem as outras tribos que a era dos deuses está acabada, pois Bede, o carniceiro de deuses, irá matar todos eles.


Notas Finais


Link 1: https://youtu.be/lFxQztPf5_I

Notas do autor:

Prometo que as pretendentes do Paul param por aqui, ao menos por enquanto. O cara não consegue nem respirar. XD.

Já temos três personagens de Galar introduzidos, sendo Bede o segundo a participar ativamente. Ele é um personagem que promete, ainda mais com essa ideologia distorcida.

Quanto a Ash, é bem duvidoso como esse método de governo dele vai funcionar; radical demais, eu diria. XD. E a população parece concordar comigo. Falando nela, peço perdão quanto ao palavrão na cena "O Decreto"; não gosto de colocá-los, é algo que polui a leitura, mas o contexto meio que me obrigava. ^^".

Well, aqui termina o primeiro arco; há muitos espaços e pontas soltas para serem preenchidas, de toda forma. Espero que a ideia tenha ficado bastante clara nesses capítulos inicias, não é uma proposta tão complexa, mas não é das mais simples.

P.S: Não há data para o próximo capítulo, possivelmente saia depois que o autor terminar de assistir os filmes de "K".


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