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História Yin Yang - Crónicas do Equilíbrio. Volume I - Capítulo 41


Escrita por:


Notas do Autor


Olá pessoal!

Eu sei, eu sei, que vergonha. Quase 1 mês sem postar! Mas foi-me verdadeiramente impossível. Como estudo na área da saúde acabei por me voluntariar para ajudar com os idosos em lares e instituições devido à pandemia. Isso levou a ficar fora de casa por 3 semanas por razões de segurança e não tinha acesso ao pc, já que não vinha a casa. Ainda tentei no telemovel, mas não dá...é muita palavra para escrever num ecrã e teclado tão pequeno xD
Voltei na passada segunda feira para casa e estou em isolamento e à espera de resultados do teste… mas sinto-me bem, não me parece que tenha nada. Mas, dado o isolamento, até da família, nada melhor do que me dedicar de novo ao estudo e à história.

Está enorme! Peço desculpa. Ainda pensei dividir em dois, mas não encontrei nenhum sítio que achasse ter sentido "partir" o capítulo e por isso vai assim mesmo.

Sem mais bláblá, aí está o capítulo. Espero que gostem!

Os textos a negrito e itálico são pensamentos.
As frases a negrito são conversas normais.

Capítulo 41 - Burning desire


Fanfic / Fanfiction Yin Yang - Crónicas do Equilíbrio. Volume I - Capítulo 41 - Burning desire

Hon


Domingo e segunda-feira pareceram tardar uma eternidade em passar. Ser um vampiro podia ter imensas desvantagens quando tudo o que uma pessoa precisa é de distrações. Já tinha arrumado a casa, já tinha lido, estudado, jogado, escrito 7 novas letras para possíveis canções e respetivas melodias… Nem mesmo as horas de trabalho de segunda ajudaram, tendo sido as únicas 7 horas do dia que passaram a correr, sendo aquelas que eu mais queria que tardassem.
Ao chegar a casa conversei uns minutos com o Jon antes de o deixar voltar aos seus jogos, fazendo um memo mental de que tinha de o forçar a estudar alguma coisa antes das aulas recomeçarem! Fui para o quarto e deitei-me, deixando-me fluir para os recantos da minha mente.


Lilith: Oh, por favor! Não vamos falar do mesmo outra vez vamos?

Hon: Mas ainda não chegamos a nenhuma conclusão!

Kyūbi: Hon, estares horas seguidas a pensar no mesmo também não te fará concluir nada.

Lilith: Relaxa e vive a vida miúda! O que passou passou!

Hon: Só podes estar a brincar!

Lilith: Não estou! Tu pensas de mais, preocupas-te de mais com o que não podes mudar!


Não podia negar aquilo… a verdade era que eu não queria pensar no que poderia potencialmente mudar… era o tema do qual eu precisava de me distrair.

Lilith: Não podes fugir para sempre disso!

Kyūbi: Isso valeria mais a pena pensar…algo em que podes ter influencia…

Hon: E como é que posso? Não posso simplesmente obriga-lo a lembrar-se né!?

Lilith: …até podes…

Kyūbi: Lilith…

Hon: Como?

Kyūbi: Devias falar com ele outra vez…quem sabe não o convences?

Hon: … Lilith?
- Kyūbi suspirou fundo e deitou-se. Havia algo que ele não queria que ela me dissesse…

Lilith: Tu és tão patética! - Esperei que ela dissesse algo útil. - ELE É TEU! Tu marcaste-o! Tu és um vampiro! Toma o que é teu e ponto!

Hon: Que queres dizer com isso?

Lilith: … se ele não quer ser teu…obriga-o…

Hon: Não posso fazer isso! - Ela estava louca? - E mesmo que quisesse…que queres que faça? Que o amarre numa masmorra? - Ouvi um som de reprovação vindo do grande animal. Lilith demorou um pouco mais a responder-me.

Lilith: Podes se quiseres…só tens de deixar o calor invadir-te…

Esta criatura só dizia baboseiras…

Hon: O calor…claro…como não pensei nisso antes!? - Enfatizei o tom irónico do comentário.

Lilith: Quando estiveres de facto interessada…é só pedires…a ajuda chegará…

Obriguei-me a sair dali, voltando ao meu quarto. Eu ia falar com eles para tentar esquecer aquilo…mas claro que ela tinha de estragar tudo…

O meu telemovel vibrou na mesa. Era uma mensagem da April. “Ainda estamos combinadas para amanhã?”. Digitei rapidamente a resposta, confirmando que estaria às 8h30 no apartamento dela para irmos à sua consulta. Uma parte de mim estava ansiosa por saber se iria ter um afilhado ou uma afilhada. Literalmente, já que a April me pediu para ser madrinha do seu filho. A verdade é que não tinha realmente aceite, dizendo-lhe que teria de pensar um pouco, pois seria uma grande responsabilidade. A realidade era que eu ainda nem sabia se iria estar ali para conhecer a criança.


Lilith: OH NÃO! Isso outra vez? - Quem é que a tinha chamado?

Hon: E qual é o teu problema? - Desde que tinha comentado com o Jon o meu plano de me distanciar por uns tempos de NY que ouvia os resmungos e desincentivos dela!

Lilith: Já te disse que isso é uma estupidez! Não vais deixar de pensar neles indo embora. Pior, vais ficar ainda mais ansiosa e preocupada!

Hon: E isso chateia-te porque…?

Lilith: Porque sou eu que acabo por ter de aturar os teus desvaneios mentais! Como sempre! Tu dás-me dores de cabeça! - Apeteceu-me rir.

Hon: Se quiseres tomo uma aspirina uma hora antes da tua próxima refeição…pode ser que faça efeito!

Lilith: Brinca brinca! Não vamos a lado nenhum! Tu ganha é tomatinhos e fala com o roxinho de uma vez! Crianças irritantes!


Algo no eu íntimo me dizia que a aversão dela a partir estava conectada com um certo alguém…mas desviei rapidamente esse pensamento antes que ela o captasse e se passasse de novo.

Lilith: E por falar … estou a ficar com fome!

Suspirei. Sim, já sabia disso! Ou melhor, o meu corpo provava-me isso. O que alimentava a minha vontade em descobrir que raios se passou na minha vida!
A última vez que eu me tinha alimentado de sangue tinha sido nada mais nada menos que do Donatello! Ele mesmo! Sabem os Deuses o quanto me custou ter de partilhar o sangue dele com o demoniozinho com quem partilhava a mente, mas não tive outra opção. E isso tinha sido à praticamente um mês. Claro que, segundo o Jon, nós íamos caçar todas as semanas. Tanto que, na semana antes do Natal eu tinha-me aventurado a colher 4 sacos de sangue para ele ter com que se alimentar na dita data festiva. O azul, agora escuro dos meus olhos provava que eu não me alimentava à bem mais de uma semana. Eu aguentava relativamente bem e sem alteração da coloração ocular por 18 a 20 dias. 8 não iam provocar aquela alteração e a sensação de fome. Mas agora não podia ir até quinta feira, que era o meu último dia de trabalho este ano. As aulas iniciariam dia 3 de Janeiro, mas eu estava de férias do trabalho até dia 16. Por isso, ia mesmo ter de fazer uma caçada rápida antes do final do ano. Ir para a escola sedenta não iria ser boa ideia, até para mim. O Jon também iria retomar as aulas dia 3, por isso também precisaria de atestar. Iriamos ter de voltar ao ritmo de caçadas aos fins de semana. Ele necessitava de sangue semanalmente. Ainda era muito novo. Se bem que ele estava desejoso da sua sede começar a espaçar, mesmo que nunca fosse espaçar muito.

O telemovel voltou a dar sinal de ter recebido uma sms. Era do Leo. “Lasanha no covil hoje?”. Mmm…normalmente o convite chegava a meio da semana. Porque estaria o Leo a convidar-nos a uma segunda feira?

Hon: Jon, jantamos com os rapazes hoje?

Jon: Lá ou cá?

Hon: Lá!

Jon: Ya, bora!


Digitei a mensagem de volta a dizer que podia contar connosco, mas acrescentei um ponto de interrogação à parte.

Um minuto depois, uma resposta simples de “depois vês” confirmou a minha suspeita… ele devia querer falar comigo de algo.


***


Fazia algum tempo que não ia ao covil, mesmo na realidade em que me encontrava, o que me fez sentir uma imensa nostalgia assim que entrei. Tudo estava igual. As cores, os odores, os móveis, a sujidade…tudo me fazia sentir em casa, bem mais que a minha própria casa.

Mikey: Hon! - Mikey correu para mim, conseguindo levantar-me do chão e rodopiar comigo.  Eu ri do seu entusiasmo.

Hon: Calma mano! Parece que não me vês há meses! - Aquele pequeno comentário fez com que eu sentisse uma pontada de culpa. E, pareceu-me ver o seu semblante entristecer ligeiramente.

Mikey: Não posso ter saudades da minha única irmã?

Hon: Podes e deves!
- Rodei-o com os braços e dei vários beijinhos na sua testa.

O amor era algo realmente visível entre a minha família, assim como as diferentes formas do mesmo.

Raph: Não és o único que tem saudades, chega pra lá! - Senti-me ser arremessada dos braços do Mike, sendo, literalmente transferida dos braços de um para os do outro, sem sequer tocar com os pés no chão. Ainda bem que eu não era exatamente frágil ou já teria uma ou duas costelas fraturadas pela força que o Raph fez para me arrancar do Mike. - Vai masé ver se cozinhas senão nem amanhã comemos!

Hon: Credo Raph! Que brutalidade!
- O meu ar chocado mas divertido não o demoveu.

Mikey: É, podias pelo menos ter maneiras. - Resmungando, Mike seguiu para a cozinha.

Raph: Já sabes que eu sou muito hardcore! - Senti uma pontada de malicia na sua voz, mas não a alimentei.

Hon: Mas que vos deu para terem tantas saudades? Estivemos juntos anteontem!

Raph: mmm…quem sabe?
- A resposta soou forçada, o que me fez suspeitar que pudesse ter a ver com o que levou o Leo a chamar-me. Estava a ficar preocupada.

Hon: Hahum… nada suspeito. Bem, vou ajudar o Mike.

Raph: Não! Ele fica bem sozinho. Fica comigo…podemos dançar um bocado.
- Era tentador…

Hon: mmm…não não… não posso chegar aqui e simplesmente esperar que me alimentem. Fica a fazer companhia ao Jon vá. Eu vou controlar o nosso mano caçula antes que ele se lembre me meter gomas e marshmallows na lasanha!

Raph: Menino para isso é ele com certeza!


Saí da sala. Sabia que o Leo e o Mestre estavam no Dojo e que o Donny estava no laboratório. Se não tinham saído ainda é porque só os veria à hora de jantar.

Como sempre, estar na cozinha com o Mike encontrava-se no meu top 10 de coisas mais divertidas. Não sei como ele me convenceu que seria sensato colocar anchovas e iogurte na lasanha… como nunca sabia como ele acabava sempre por conseguir o que queria. Depois de uma discussão sobre o assunto e de perceber que ele estava a conseguir levar a sua avante, desisti de tentar chama-lo à razão e fui procurar os ingredientes que me permitissem fazer brigadeiro. Eu adorava, eles também e era relativamente rápido de se fazer. Só tinha de garantir que ele não me convencia a colocar nada de estranho neles.
No final, acabei por moldar as bolinhas e de passar algumas por marshmallows derretido. Não era o mais descabido…pelo menos era tudo doce.


Ah ah oh oh


A melodia chegou até mim, vibrando e ecoando pelos túneis do covil, preenchendo toda a área.

Mikey: Hon?


Ah ah oh oh


Agora, não ecoou. Vinha claramente de fora do covil, do lado esquerdo.

Mikey: Estás bem?

Não lhe respondi. Corri como o vento e em menos de um segundo estava no cruzamento entre a entrado do covil e o túnel onde desembocava. Não havia nada ali… ninguém…
Esperei que a voz voltasse…mas tinha desaparecido.

Mikey: Hon? O que se passa? - Mas eu não liguei. Não importava responder-lhe.

Havia algo naquela voz que me fazia querer segui-la. Que me puxava. Como se fosse a coisa mais importante e nada mais se pudesse sobrepor a ela.

Donny: Hon? - …depois dele. Mesmo assim, foi com certo custo que desviei o olhar para o olhar. - Estás bem?

Hon: S-sim. Desculpa. Desculpa Mikey. Foi uma estupidez sair assim.


Mikey: Parecia que tinhas visto um fantasma! Ah ah…ah… …Não viste um fantasma, pois não?

Hon: Não… não vi… só ouvi. E talvez seja isso mesmo…um fantasma…

Donny: A-uma voz?
- O meu olhar prendeu-se ao dele. Aquela troca do inicio frase teria sido completamente impercetível…se eu não tivesse uma audição extremamente apurada.
Ele desviou o olhar do meu, uma ligeira cor aflorou as suas bochechas.

Hon: Sim…é uma voz que já ouço há algum tempo… mas não deve ser nada. Afinal estamos a falar de mim não é?

Ele apenas sorriu, assim como Mike.
Voltamos a entrar no covil, onde o meu pai e o Leo estavam à nossa espera com olhares curiosos.

Leo: Já não sabes entrar mana?

Hon: Para tua informação querido irmão, já cá estou há mais de uma hora. O que me lembra, Mike, 5 minutos.

Mikey: Uuu! Vou espreitar a ver se está a ficar douradinha!
- Não existem palavras para descrever o Mike a correr animado para a cozinha…mas se conseguirem imaginar uma personagem Disney…é mais ou menos isso.

Mestre: O que fazias lá fora então minha filha?

Hon: Anormalidades minhas, pai. Pensei ter ouvido algo…só isso
.

Ele apenas acenou, com o seu ar profundo.

Leo: Já estamos habituados às tuas estranhezas. Não te preocupes! - Deitei-lhe a língua de fora… um gesto nada apropriado… mas quem quereria saber?

Hon: Engraçadinho!



O jantar correu bem, de forma natural e descontraída em ambiente familiar. A lasanha, por estranho que fosse, estava deliciosa e eu não tive outro remédio senão admitir em voz alta que o Mike merecia uma estrela Michelin pelo seu talento culinário. Os brigadeiros também tinham evaporado da mesa, por isso só podia constatar que estavam bons.
No final, ajudei-os a arrumar e ficamos algum tempo simplesmente a conversar sobre vários acontecimentos do ano.

Leo: Espera…Hon…pensei que não te lembravas disto!

Bem…eventualmente eles descobririam…

Hon: Bem…a verdade é que as memórias simplesmente regressaram…não sei como, mas de repente lembrava-me desta realidade. - Olhei para o Raph, entendendo que também ele não queria mencionar o nosso beijo.

Mestre: E as outras? - A voz dele saiu nitidamente preocupada.

Hon: Lembro-me das duas coisas.

Ele ficou apenas pensativo. Entendi que ele poderia ter alguma ideia, alguma teoria. Tinha de tentar falar a sós com ele.

Mestre: Se me dão licença meus filhos... - Ele simplesmente se levantou e abandonou a cozinha.

Ia tentar falar com ele ainda hoje. Tinha de saber o que ele pensava.

Donny: Bem, penso que me retiro também. Ainda tenho umas coisas para terminar antes de sairmos para a patrulha. Até já.

Não dei conta que o segui com o olhar todo o caminho até a porta do laboratório se fechar atrás dele até o Mikey falar outra vez.

Mikey: Aproveitamos agora? - Sussurrou ao Leo.

Leo: É agora ou nunca. - E então voltou-se para mim. - Tu, quarto do Mike, agora!

Não tive tempo de pensar. Raph e Jon agarraram-me, um de cada lado levantando-me na mesa e encaminhando-me para o quarto do Mike. Claro que eu deixei, mesmo que algo me dissesse que não vinha aí boa coisa! Leo e Mike vieram atrás de nós e trancaram a porta assim que estávamos os cinco lá dentro.

Fiquei apenas à espera para entender o que eles queriam e de que forma é que o Jon estaria ligado àquilo. Raph e Jon sentaram-se no chão junto da cama e Leo e Mike na cama, ficando os últimos dois a olhar para mim com ar acusador e os dois primeiros com ar culpado. Uma possível, e quase certa, ideia do que se estaria a passar me passou pela mente. Raios! Mesmo assim, nada disse, aguardando que um deles dissesse algo. Passados mais 15 segundos, Mikey finalmente falou.

Mikey: Ias mesmo embora sem nos dizeres nada? - A tristeza percetível na sua voz fez o meu, já pouco movimentado, coração escapar uma batida. Mas, ao mesmo tempo, uma parte de mim sentiu-se traída. Faltava-me saber qual dos dois arguidos, que estavam no chão, se teria descosido. Ou teriam sido ambos?

Leo: Não me parece muito justo que só tenhas contado a um de nós, fora o Jon claro.

Hon: Eu ainda não decidi nada… para quê estar a falar-vos do que pode nem acontecer?

Leo: Podias discutir isso connosco.

Hon: Com todo o respeito Leo…não é nada convosco!
- A voz transmitia a minha indignação. Vi o olhar dele estreitar, como se não entendesse o que eu disse.

Mikey: …tu és nossa irmã…és família…claro que é connosco… - Os olhos dele estavam a ficar carregados de água.

Hon: Não Mike, não é! A decisão é apenas minha! Aliás…é até inevitável que eu eventualmente tenha de sair daqui.

Raph: Porquê?
- Não consegui olhar para ele. - Quer dizer…eu entendo a situação agora, mas porque dizes ser inevitável? - Não era óbvio eu achava que sim!

Hon: Raph… eu não sou humana, nem sou como vocês! Eu nunca vou passar disto…desta aparência…até posso estudar e trabalhar uns anos mas…há um limite. Eventualmente as pessoas vão notar que não envelheço e não vou ter outra hipótese senão começar de novo noutro lado. E com esta carinha de vinte e poucos, nunca vou poder ficar muito mais de 10, 15 anos no mesmo sítio.

Mikey: Podes ficar aqui connosco! Nós

Hon: Eu tenho de fazer isso por vocês Mike!

Leo: Como assim?
- Pensei que pelo menos ele já tivesse pensado nisto.

Hon: Leo… … o dinheiro do pai não vai durar para sempre! E vocês não podem sair e trabalhar…mas eu posso! Não é só por mim que eu quero ir estudar e ter um bom trabalho…é por vocês também. Porque…vocês são tudo para mim! Mas…isso vai sempre acabar por implicar eu estar longe de vocês! Tem de ser!

Eles ficaram em silencio durante quase três minutos, a absorver as minhas palavras, julgava eu.

Raph: Mas para isso não precisas de ir já! Ainda nem acabaste o ensino secundário! Estamos a discutir a tua decisão de ires agora!

Mikey: Sim…porquê ires assim tão de repente?

Leo: Mikey! -
Olhou para ele um tanto indignado, voltando-se de novo para mim. - … nós sabemos porquê…só…achamos exagerado.

Claro que achavam…

Mikey: Vocês podem entender-se… todos achamos que sim!

Leo: Até o Mestre.

Hon: Vocês contaram-lhe?

Leo: Não…apenas falamos de vocês com ele, de que estávamos preocupados. E todos achamos que vocês só precisam de tempo.
- Todos?

Olhei de relance para Raph, que olhava o chão fixamente.

Hon: Não ajuda muito Leo… ele recusa-se a relembrar seja o que for e enquanto isso acontecer nada vai alterar.

Mikey: Eu queria perguntar-te disso. Se ele tem o tal bicho dentro dele, então porque não se lembrou quando aquela vampira fez…seja o que tenha sido?
- Era uma boa questão…

Hon: Não te sei responder Mike…supostamente o espírito devia de conseguir devolver-lhe as memórias na totalidade… mas… - Eu apenas tinha conseguido formular uma teoria…mas custava-me acreditar nela, não conseguia encontrar uma razão para ela.

Raph: Mas? - Suspirei…

Hon: Mas acho que, por alguma razão, ele está a impedir-se de se lembrar.

Jon: Ele pode fazer isso?

Hon: Talvez… não encontro outra explicação.

Raph: O que te leva a pensar isso?

Hon: …o ele insistir tanto que não tinha nenhum espírito com ele. E continuar a afirmá-lo após a Rouge o ter liberto. Não é possível que ele não tenha sentido algo. Mas…por algum motivo ele está a obrigar-se a ignorar a sua presença. E se é ele mesmo quem o bloqueia…

Jon: … de que tem ele medo?


Era a minha questão também.

Raph: … de se deixar acreditar… - Olhei para ele…aliás, todos olhamos para ele. - …Quando vocês terminaram…eu foquei-me em ti…passei muito tempo contigo, a tentar animar-te e dar-te força. Mas, não pude ignora-lo. Como podia? Mesmo vocês - Dirigiu-se a Mike e Leo - de inicio todos andamos muito em cima dele.

Leo: Sim, mas ele sempre pareceu ter aceite muito bem.


Raph: Sim, parecia. Eu só dei conta de que ele não estava nada bem quase dois meses depois. Uma noite voltei de tua casa mais cedo que o costume e vi luz na casa de banho. Achei estranho estar alguém ali aquela hora e fui ver quem era. Ele estava virado ao espelho, a chorar e repetia sem parar a frase “tu não a amas” … vezes e vezes sem conta. Ao fim de dez minutos não aguentei mais aquilo e saí dali. Depois disso perdi a conta às vezes que o apanhei assim… a falar com ele mesmo no espelho. - Há medida que ele ia falando, eu ia sentindo uma vontade indiscritível de chorar. - Ele tentou, durante tanto tanto tempo, convencer-se que não te ama… acho que ele tem um medo terrível de voltar a sentir que sim, que te ama, que te quer…que há hipótese de ser feliz contigo…

Jon: …se assim é…até é compreensível.

Leo: Hon?
- Não lhe conseguia responder… - Hey! - Ele levantou-se e veio para o meu lado, prendendo-me num abraço apertado. - Nós vamos conseguir convencê-lo! Vais ver que sim!

Mikey: Claro! Vocês foram feitos para estar juntos!


Eu não conseguia falar. Estava a pensar nele, em mim, em nós. E no que o Mike tinha acabado de proferir… que fomos feitos para estar juntos. Sim. Eu sabia que sim. Não havia ninguém que eu quisesse mais que o Donatello!

Uma imagem…a imagem de um pingente ferrugento com um tipo de abelha encrustada veio à minha mente, fazendo o meu coração parar por completo por uns segundos.

Não…o meu passado não interessava. Eu já tinha decidido que nada daquilo importaria. Eu queria-o…a ele!
Ia sempre escolhê-lo a ele e nada nos iria separar. Eu era dele…ele era meu!

Hon: Têm razão… não posso ir a lado nenhum sem tentar outra vez! Prometo que vou tentar.

Mikey: Então, não vais embora?
- Acenei negativamente. - BUYAKASHA!!!!!

Raph: Mikey, baixo!

Leo: Nós vamos ajudar em tudo o que pudermos mana.

Hon: Obrigada Leo…mas acho que isto é algo que tenho de fazer sozinha. Se bem que…podias ajudar e emparelhar-nos na patrulha de quinta-feira.

Raph: Não vens connosco o resto da semana?


Hon: Não, esta semana vou estar ocupada com coisas da banda.

Jon: Não sabia disso!

Hon: É nós… vamos dar um pequeno concerto de ano novo no sábado ao final da tarde. Temos ensaios.

Mikey: Mas hoje podias vir…

Hon: Há umas coisas de última hora que tenho mesmo de tratar. Mas quinta-feira vou.

Leo: Ok…ficamos combinados. Eu levo o Jon, o Raph com o Mike e tu com o Donny.

Raph: Porque é que eu tenho de ficar com o Mike?

Mikey: Hey! Qual é o teu problema?

Raph: Tu!

Mikey: Não precisas de ser mau!

Leo: Tu vais com o Mike porque eu sou mais qualificado para ensinar o Jon! Ponto!

Raph: Sim…claro destemido líder!


Quando saímos do quarto já era quase meia noite. Leo chamou o Donny e despedimo-nos para eles irem patrulhar.

Jon: Voltamos para casa?

Hon: Importaste de esperar uns minutos?

Jon: Nop.
- E sentou-se no sofá, ligando a tv.

Eu dirigi-me ao dojo, batendo ligeiramente esperando que me dessem autorização para entrar. Mas não ouvi qualquer som. Corri a porta ligeiramente, espreitando, vendo que o interior estava vazio. Onde estaria o Mestre? Procurei nas outras divisões, mas nem sinal dele. Estranho. Ele não costumava sair sem avisar. No entanto, ao passar na cozinha vi um recado no frigorífico: “Tive de me ausentar. Estarei de regresso em algumas horas. Não façam asneiras”.

Bem…não era hoje que iria ser capaz de falar com ele afinal.

Hon: Já podemos ir.

Jon: Foi rápido!


E então começamos a correr pelos túneis.

Hon: Eu sei que isto foi coisa tua… - Ele parou de repente, ficando uns bons 15 metros atrás de mim, com ar de culpado.

Jon: O Raph tinha a certeza que o irias culpar a ele… - A sua voz saiu envergonhada.

Hon: O Raph não me ia traicionar assim...

Jon: Desculpa…mas, eu tinha de tentar chamar-te à razão…e achei que eles deviam saber.

Hon: Contaste-lhe… a…ele?

Jon: Não…só ao Raph, que já sabia, ao Leo e ao Mike. Tinha esperança que eles pudessem ajudar a fazer-te tentar…

Hon: … parabéns…resultou. Mas se não querias ir porque não me disseste?


Jon: Não é isso! Se mantivesses a ideia de ir…já te disse que iria contigo sem pensar duas vezes. Só…acho que estás a querer ir pelas razões erradas…só isso. - Não podia argumentar contra aquilo...ele não entenderia de qualquer forma.

Hon: … bem… …vamos para casa.

E então, continuamos a nossa corrida até casa em silêncio.



***



O dia amanheceu lentamente. Ainda o céu estava bastante escuro quando cheguei a casa da April.
Seguimos na sua carrinha até ao consultório onde ela seria seguida na sua gravidez. Conseguia sentir o seu nervosismo, que se foi intensificando durante a viagem, no tempo de espera e estava a ficar deveras incomodativo depois de entrarmos na sala.

Hon: Hey…calma…eu estou aqui! - Dei-lhe a mão, tentando que ela acalmasse um pouco. Enquanto esperávamos pela enfermeira que iria fazer a entrevista inicial, senti-a acalmar ligeiramente.

A enfermeira lá veio, começando por se apresentar, chamava-se Mia. Era jovem, aparentava ter 24 ou 25 anos e tinha um belo sorriso. A April apresentou-se e a mim, como sendo sua acompanhante. A enfermeira procedeu então com a sua recolha de dados. Perguntou todos os dados da April, nome, idade, morada, escolaridade, trabalho, tipo de habitação, condição social, estado civil… aí senti a sua pulsação acelerar outra vez… ela olhou para mim e eu sorri para ela, tentando passar-lhe calma e força.

April: S-solteira.

A enfermeira continuou com algumas outras questões sobre se ela tinha noção de há quanto tempo estaria grávida e se já tinha feito algum exame. Depois de tudo apontado, fomos encaminhadas a outra sala, onde a enfermeira procedeu a uma colheita de dados mais prática. Pesou-a, mediu-a, avaliou as tensões e a temperatura. Depois, deu-lhe um copinho de colheita de urina, deu algumas indicações para uma colheita correta e saiu da sala, pedindo-lhe que fizesse a colheita assim que possível e saiu, dizendo-me que a obstetra viria em minutos. Deixei a April à vontade para ir à casa de banho. Ela voltou da casa de banho praticamente ao mesmo tempo que uma médica alta, aparentando estar na casa dos 40, loira e olhos claros entrou na sala. Cumprimentou-nos e apresentou-se como sendo a Doutora Virginia. Deu uma ligeira vista de olhos aos dados recolhidos pela enfermeira, que já estavam registados no computador e depois informou a April de que iria proceder a uma recolha de dados mais pessoal e perguntou se ela queria que eu permanecesse na sala. Eu ia levantar-me e sair, mas a April apertou a minha mão, perguntando à médica se eu poderia ficar. A Dra. explicou que faríamos segundo a vontade dela e então eu fiquei. A médica perguntou-lhe mais alguns detalhes sobre a casa dela, o trabalho, sobre a sua independência económica e, claro, acabou por ter de questionar sobre o estado civil, questionando se ela tinha apoio do pai da criança. Senti o nervosismo misturar-se com vergonha e ela não dizia nada.

Hon: Desculpe Dra, talvez eu possa explicar. A minha tia vivia junta com o pai da criança. Mas…bem, esta gravidez aconteceu por acidente e, digamos que ele…foi apanhado de surpresa e saiu por uns tempos para pensar. - Sabem os Deuses o meu esforço para soar neutra naquele assunto.

A Dra apenas acenou, dizendo que casos assim eram muitos comuns, mas que muitos pais acabavam por já aparecer na segunda consulta.
Após as questões, a Dra deixou-me acompanha-las para a sala de exames, onde ela lhe fez um breve exame ginecológico, verificando que, realmente, ela estaria com aproximadamente 16 semanas e 3 dias de gestação, propondo fazer logo a ecografia que se faz entre as 14 e as 16 semanas e 6 dias, referindo que a primeira deveria ter sido feita até às 12 semanas, mas que não haveria problema.

Achei impressionante até onde a nossa ligação ia, ao ponto de até eu sentir mais frio na minha barriga quando a Dra colocou o gel na barriga da April. Encolhi-me ligeiramente, o que fez a médica olhar para mim com ar estranho. Depressa voltou a sua atenção ao ecógrafo, para procurar pelo bebé na porção mais baixa da cavidade abdominal.

April: Já dará para ver o sexo Dra?

Dra: É bem possível, já temos avanço suficiente na gestação. Só temos de esperar que ele esteja numa posição favorável.


April olhou para mim, ansiosa.

Hon: É uma menina!

April: Achas?

Hon: Sim! E vai ser uma super corajosa e durona como a mãe!

April: E como a madrinha!


Ri da sua afirmação. Reparei pelo canto do olho que a médica também sorria do nosso pequeno momento.

Dra: Bem, há de me dizer de onde tirou toda essa confiança jovem. E posso dizer-lhe que continue com ela, porque pelo que consigo ver será realmente uma menina!

April: Maya…
- Fui invadida por uma sensação de amor indescritível… como se o facto de poder associar um nome à sua filha tivesse exponenciado ainda mais o amor que eu já sabia que ela tinha pela pequena que crescia no seu útero.

Hon: Sempre decidiste? - Vi umas pequenas lágrimas que se escaparam dos seus olhos.

April: …agora mesmo…

Hon: Maya hein… até encaixa bem já que pelas contas ela nascerá em finais de Maio.

Dra: Sim, a data será mesmo por essa altura.


A April limpou-se e vestiu-se. Ainda ficamos mais um pouco com a Dra, que transmitiu várias informações à April sobre alimentação, exercício, sobre atualizar o seu boletim de vacinas e receitou-lhe umas análises e uns suplementos.

Todo o nervosismo se tinha evaporado dela quando saímos do consultório.

Hon: Estás melhor vejo!

April: Sinceramente, neste momento nem me importa grande coisa. Só ela.
- Abraçou a barriga com as mãos e eu senti, em consequência, uma vontade imensa de a abraçar também e de a proteger mais que tudo.

Voltamos até casa dela. Eram cerca de onze da manhã e, como tinha pedido meio tempo de trabalho hoje só entrava às 2h, então fiquei com ela para almoçarmos.
Falamos animadamente de como iria ficar o quarto de Maya, combinamos ir às compras para montar o quarto dela e ela convenceu-me que teria de a acompanhar quando ela começasse as aulas de preparação para o parto. Não foi difícil de me convencer. Ao partilhar as emoções dela, eu estava igualmente emocionada e em êxtase com toda a situação. No meio de tudo, acabei por lhe confirmar que aceitava ser madrinha da Maya. Uau…ia ser madrinha! E acho que ia ser maravilhoso!

Antes de vir embora não consegui conter-me e perguntei à April se podia ter uns segundos de conversa com a minha afilhada, ao que ela riu e respondeu “claro que sim!”.
Pus-me de joelhos em frente a ela, coloquei as mãos na sua ainda pequena protuberância e simplesmente deixei as palavras saírem.

Hon: Hey pequena Maya! Ainda não me conheces mas, pelo que consta eu serei a tua madrinha. Vais ver que não vai ser fácil. Eu sou bastante estranha…mas tu vais ser espetacular como a tua mãe e vais-te adaptar muito depressa à tua estranha família. Estamos todos ansiosos por te conhecer, mas não nos deixes pressionar-te ok. Toma o teu tempo…cresce forte, determinada… nós esperamos! E…bem vinda à família!

Não resisti a dar um pequeno beijo na barriga da April, o que a fez desmanchar em lágrimas e abraçar-se a mim, ainda no chão, dizendo que eu era a melhor do mundo. Eu sabia que parte daquilo eram as hormonas a falar, e que a outra parte seria tristeza porque aquele momento não deveria ter sido meu, e sim do Casey que andava sabe-se lá onde! Ele ainda não se ia safar sem uma coça valente minha!


***


Pelas 13h15 tive mesmo de deixar a April, ainda tinha de ir a casa buscar o meu saco de trabalho, por isso optei por ir pelos esgotos. Já sabia o caminho de cor e salteado e em menos de nada já estava a subir por um tampa de um beco escondido perto da minha rua.

Jon: Então então então??? - Jon saltava  excitado à entrada de casa, mantendo-se a uma distância segura da porta para evitar qualquer luz de fora. Sorri amplamente antes de lhe responder.

Hon: Menina, como eu tinha dito!

Jon: Ah men…eu queria que fosse um menino!

Hon: Não achas que ela já tem meninos que cheguem à volta dela!? Temos necessidade de estrogénio nesta família!

Jon: Sim…pensando nessa prespectiva…mas um rapaz era melhor!

Hon: É uma menina e vai ser uma guerreira estupenda!

Jon: Uuu, a madrinha já está a fazer planos?

Hon: Aparentemente… está a mexer bastante comigo.

Jon: Instinto maternal…devo ficar com ciúmes? Quando ela nascer já não vou ser mais o teu menino…só vais ter olhinhos para ela.
- O seu tom de ciúme e birra animou-me ainda mais.

Hon: Os bebés têm sempre mais atenção. Mas tu serás sempre o meu menino! Não te preocupes! - Dei-lhe um beijo na testa e um abraço antes de ir buscar o meu saco. - Hoje chego tarde. Saio direta do trabalho para a escola para os ensaios.

Jon: Sem problema. Eu arranjo-me com o jantar para mim.
- Piscou-me o olho. Sempre com as piadas da comida.

Hon: Se quiseres podes perguntar ao Leo se querem companhia nas patrulhas.

Jon: … a sério?
- O ar de espanto dele foi cómico.

Hon: Sim, a sério.

Jon: …e posso ir ter com eles…sozinho?

Hon: Sim, podes.
- Era a primeira vez que eu o iria deixar fazer aquele percurso sozinho…ou qualquer um para bem dizer. Eu costumava acompanha-lo mesmo até às aulas e esperar por ele perto da escola. Por precaução. Mas a verdade é que ele sempre se portou maravilhosamente bem e senti que deveria começar a dar-lhe mais liberdade.

Jon: Fixe! Podes ir descansada! Eu ligo ao Leo.

Hon: Ok, manda-me mensagem se decidires ir ok. E porta-te bem!


E com o olhar dele ainda em mim, como se esperasse que eu me virasse para dizer que era uma piada e ou que tinha mudado de ideias, saí pela porta em direção ao trabalho.

Tinha acabado de me equipar quando o telemovel vibrou com a chegada da sua mensagem a dizer que ia ajudar nas patrulhas e que prometia obedecer cegamente ao Leo.
Respirei fundo. Ia correr bem.

O trabalho foi, como normalmente, tranquilo, e até tive oportunidade de dar uma mão ao Richard na clínica enquanto ele fazia uma lavagem de estomago a um dos lémures que tinha roubado comida da cafetaria. Estes primatas eram realmente malcomportados e muito difíceis de controlar! Quando estavam em dias de roubar comida era quase impossível impedi-los…e depois acabavam ali, numa marquesa, anestesiados com um tubo na garganta. Enfim…o que importava era que um dia depois já poderia voltar para o grupo, pronto para tentar roubar outra vez!


Assim que saí do zoo, andei o mais rápido que conseguia sem denunciar a minha não humanidade. Consegui chegar à escola pelas 18h30, tendo sido mesmo em cima da hora. Já todos estavam ali,

Professora: Oh, Hon. Ainda bem que chegaste!

Hon: Desculpe professora, saí agora do trabalho.

Professora: Não há problema. Então, agora que estamos todos, vamos iniciar os ensaios.


Reunimo-nos antes de tudo o resto, decidindo o que iriamos tocar nos 40 minutos que tínhamos para nós. Era um bom tempo e tínhamos de aproveitar os hits que já eram mais conhecidos, mas aproveitar para inserir novos. O Sean e a Kaycee apresentaram umas ideias, assim como a Heidi e o Richard e eu, claro. O Michael, como sempre, focava-se no aperfeiçoamento das melodias, recusando-se a escrever apelando ao seu péssimo inglês. Decidimos em apresentar 4 novos temas e começamos a trabalhar neles. Dois deles eram meus e eram simples, eram solos de piano, mas assim que os toquei eles selecionaram-nos logo. Não eram os primeiros. Claro que, com o tempo, fomos adicionando alguns sons a acompanhar o piano de músicas que, tal como estas, começaram a ser apenas solos. Com tempo, também estas iriam, quase certamente, ser atualizadas, mas para já ficariam assim.

Fizemos uma pausa perto das 20h para comermos alguma coisa e depois continuamos a praticar até perto das 23h. A professora insistiu que era tarde para irmos a pé ou de autocarro para casa e levou cada um de nós na sua SUV. No dia seguinte voltaríamos a ter ensaio e depois na sexta. Claro que sexta, eu a Heidi a Kaycee e o Sean tínhamos trabalho a começar à meia noite, mas ninguém sabia. Nem queria imaginar alguém na escola saber daquele nosso trabalho noturno. Ainda bem que usávamos máscara. Ninguém sabia quem eram os dançarinos do Blue Cielo. Tudo era mistério e secretismo era mesmo daí que vinha o seu sucesso. Não havia pole dance, nem strip, nem danças privadas. Era apenas um palco onde aparecíamos vestidas e vestidos como quiséssemos e dançávamos o que quiséssemos. E havia todo o tipo de públicos. Era servidos jantares e petiscos também, assim como bebidas, claro. Ia ali gente de todo o tipo, desde casais jovens a mais de meia idade, de todas as classes sociais. Claro que, os que nos interessava mais ver eram os engravatados, os caça talentos como lhes chamava Big Moma, a dona do estabelecimento que era uma senhora forte, negra, de cabelos todos entrançados e que nos tratava a todos como se fossemos filhos dela. Era adorável e jamais permitiria que alguém tentasse abusar de nós. Nós eramos os seus artistas e ela era a nossa manager, ajudando a apresentar e divulgar a nossa arte. O dinheiro vinha das entradas, das refeições e dos donativos. Donativos esses que vinham, claro, dos mais ricaços. E não, eles não olhavam para nós com malícia como seria de esperar. E olhavam de igual modo fosse um homem ou uma mulher a atuar. Apenas gostavam de nos ver dançar e deixava gorjetas que correspondiam ao nosso nível de apresentação. Claro que, a nível interno, isso causava algumas guerrinhas. As gorjetas eram deixadas no final de cada atuação e, por isso, Big Moma podia saber quem eram os artistas que angariavam mais dinheiro à casa, havendo bónus para os mesmos. Nem todos ficavam felizes com esse facto, mas eram as regras.



Quando entrei em casa, foi estranho sentir a mesma vazia. Voltei a respirar fundo, pegando no telemovel. Era 23h30. Os rapazes deviam já ter saído para patrulhar ou estariam em vias de o fazer. Contive a minha vontade de ligar ao Leo para saber se estava tudo bem. Eles dir-me-iam se não estivessem, certo? Certo!

Deixei-me cair no sofá e fechei os olhos por uns instantes.


Quando voltei a abri-los estava na sala de paredes vermelhas e chão gelado. Kyūbi aparentava dormir pacificamente encostado a uma das paredes. Nunca iria parar de admirar o tamanho do grande animal que se assemelhava a uma mistura de lobo e raposa, com as suas 9 caudas compridas, fofas e coloridas.

Lilith: Finalmente…vens pedir a minha ajuda? - O sorriso convencido dela era óbvio, mesmo no escuro.

Claro que ela sabia…eu tinha passado toda a noite passada a debater isso mesmo e parte do dia também. Ela dizia que sabia como fazer o Donatello “acordar” daquele estado de hibernação.

Hon: …depende… - O sorriso diminuiu ligeiramente. - … diz-me primeiro o que posso fazer?

Lilith: É muito fácil coitadinha…só tens de vir aqui…

Hon: Para quê?

Lilith: Se não deres espaço entre as perguntas como posso dar-te respostas?


Ponderei aquilo por uns segundos. Ela já me tinha provado que não era exatamente de confiança…mas ela podia ter as respostas que eu precisava… e eu tinha prometido tentar tudo não tinha?
Aproximei-me das grades, lentamente, mantendo uma distância segura.

Lilith: Não te vou morder coitadinha…ainda não tens o que eu quero de qualquer forma. - Não me mexi.

Hon: Diz-me como podes fazer com que ele se lembre.

Lilith: … se eu te disser paras com as perguntas?
- A sua voz transbordava de irritação. Arriscar…

Hon: Sim. Diz-me.

Lilith: …Tens de beber do meu sangue…

Hon: O quê? Porquê?

Lilith: SEM PERGUNTAS!
- Ela esticou o seu braço para fora das grades, dando-me acesso a ele. Porquê aquilo? O que é que aquilo faria? - Não vou esperar a noite toda coitadinha. É sugar ou largar! Tens 5 segundos. 5 - Da última vez que provei o sangue dela quase matei toda a gente! - 4 - Não conseguia entender aquilo - 3 - Iria isso realmente ter influência? - 2 - Como poderia eu saber? - 1 - Mas tinha de tentar não era…?

Kyūbi: Hon, NÃO!

Mas já foi tarde. Os meus dentes entraram na pele no seu pulso, acompanhados pelo som de rocha a ser estilhaçada e o sangue dela entrou com força na minha boca, mas, desta vez, não house nenhum tipo de transe, nenhuma vontade louca de não a largar, apesar do seu sangue ser, de facto delicioso.

Kyūbi: O que fizeste?

Após cerca de 3 golos, soltei-a. Ela tinha um sorriso rasgado no rosto e os seus olhos brilhavam, como se ela antecipasse algo. Mas, há medida que os segundos passavam, o brilho foi desaparecendo e o sorriso diminuindo. Não entendi o que ela esperava que acontecesse, mas parece que a sua espera foi em vão.

Lilith: Raios!

Hon: O que foi?

Lilith: Sem perguntas, lembras-te?

Hon: A sério? Não me vais explicar o que isto me vai fazer?

Lilith: Queres saber se vai ajudar com o roxinho?
- Acenei, dando-lhe um olhar exasperado! - Depende do quanto te deixares levar!

Hon: E isso quer dizer o quê?

Lilith: Isso descobre por ti mesma. Mas devo avisar-te, o efeito dura apenas enquanto o meu sangue estiver em ti…depois passa. Por isso, despacha-te a decidir! Não te vou dar mais de mim tão cedo! E CONTINUO COM FOME!


E com isto, desapareceu na escuridão.
Senti Kyūbi atrás de mim. Quando o olhei ele tinha um olhar triste e preocupado.

Kyūbi: Não devias ter feito isso.

Hon: O que vai acontecer?

Kyūbi: … só, tem cuidado está bem?


Novamente…não me diziam nada…

Jon: Hon? - Abri os olhos novamente para vê-lo parado à minha frente.  - Estás bem? Não é um pouco cedo para dormires?

Hon: Não estava a dormir…
- A minha voz saiu ríspida sem que essa fosse a minha intenção… mas ele desconcentrou-me num momento crítico.

Jon: Nem reagiste quando cheguei…achei estranho. Estavas mesmo concentrada.

Hon: Estava…e tu estragaste tudo!
- Senti-o retrair-se ligeiramente, mas não liguei.

Jon: D-desculpa. Ahm…correu bem o ensaio?

Hon: Que raios é que isso te interessa?


E saí disparada para o quarto atirando com a porta atrás de mim. Só aí é que parei e revi o que tinha acabado de fazer. Respirei fundo, abri a porta e desci as escadas. Ele ainda estava no mesmo sítio, parado a olhar para mim.

Hon: Desculpa…não sei que me deu…

Jon: … ok… não faz mal… talvez…seja melhor descansares um pouco?
- A sua afirmação com tom de questão mostrou-me que ele estava a optar por ser cauteloso.

Hon: Sim…talvez seja melhor… … Desculpa.

E então voltei para o quarto, fechando a porta e deixando-me cair à cama.



*** *** ***

Jonathan


Passei a madrugada de quarta-feira no meu sossego, a ler e a estudar. Ela já me tinha dito que eu não estava a fazer nada naquela paragem letiva, e tinha razão. A atitude dela despertou-me uma repentina vontade de o fazer. Não me lembrava da última vez que ela tinha sido agressiva comigo…acho que a última vez tinha sido praticamente há um ano atrás, quando chegamos a NY. Nem lhe consegui contar como tinha corrido a patrulha…e tinha corrido tão bem…

Estava às voltas com a matemática quando ela desceu. Disse-me bom dia, deu-me o beijo do costume na cabeça, e foi até à cozinha.

Hon: Jon? - Olhei para ela, que estava com uma bolacha na boca encostada no batente da porta da cozinha. - Desculpa outra vez por ontem. Não saber de onde aquilo veio não é justificação, mas…

Jon: Hey, não faz mal! Todos temos dias menos bons!
- Não queria que ela pensasse que eu estava zangado. E disse a verdade. Todos tínhamos direito a uma explosão ou duas.

Hon: Ok…obrigada.

Notei algo diferente na sua expressão, mas não consegui identificar o que era.

Jon: Vens a casa antes do ensaio?

Hon: Já não te tinha dito que não!?
- Arrependi-me de ter perguntado…aparentemente o dia mau ainda persistia. - Só volto pelas 23h ou mais!

Não disse mais nada. Irritá-la mais não ia ser nada positivo. Esperei até ela subir ao andar de cima para se arranjar para o trabalho antes de ir até à cozinha e de lhe preparar algo para o almoço. Deixei o saco em cima da mesa da sala e voltei aos meus problemas e contas.
Quando ela voltou a descer, já com o saco, simplesmente pegou no do almoço, disse "até já" e saiu.
Aquilo não era nada normal…ela nunca saía sem o típico recardo de “porta-te bem” ou “juízo”.

Só esperava que fosse apenas uma neura…e que passasse depressa.

 


*** *** ***
Hon


Que carapaças se estava a passar comigo? Porque é que fiquei tão irritada com uma simples pergunta? Tinha acabado de lhe pedir desculpa e logo a seguir…

Fui o caminho todo até ao zoo a sentir-me culpada e com vontade de voltar para trás. Mas não dava tempo, por isso, apenas segui caminho.

Ruthe: Olá….

Hon: Bom dia! - Ruthe era, sem sombra de dúvidas, a pessoa com quem eu menos me identificava no trabalho.

Não costumava-mos calhar em turnos juntas, porque eu fazia maioritariamente tarde, mas hoje tínhamos calhado juntas no turno da manhã. Ela não era má pessoa…era apenas muito desorganizada e pouco preocupada no trabalho. Fazia as coisas por fazer, deixando-as, muitas vezes, mal feitas. Não sabia identificar focos de possíveis problemas, nem era muito responsável. Sempre que trabalhava com ela acabava de ter de fazer quase tudo sozinha. Ela preferia passar todo o tempo que pudesse ao telemóvel. Sabia bem os ângulos mortos das câmaras, aparecendo nas mesmas apenas de x em x tempo para conseguir provar que estava a fazer algo. 

Ruthe: Já viste? Hoje estamos com os carnívoros. - A sua voz saiu em tom de fadiga…

Já eu, fiquei muito mais animada! Eu adorava todos os animais, mas os carnívoros tinham um apelo especial. Talvez por me conseguir identificar? Não sabia bem. Talvez não seria assim tão chato estar com ela se pelo menos pudesse divertir-me a ver os meus “gatos” grandes.
Saímos após a passagem de turno. Os colegas tinham-nos deixado registado que um dos tigres tinha uma prescrição de uma medicação e que teríamos que esperar pelo veterinário para ajudar na administração! Fixe!
Passamos pela clínica para combinar o horário com o Richard, que só estaria disponível antes de almoço. Decidimos então começar pelas aves: águias, corujas e condor. Esses eram os mais simples. Passamos depois para as lontras e leões marinhos e, pelas 10h30 passamos para os maiores: mabecos, fossas, raposas, leopardos e leões.
Era quase meio dia quando entramos no habitáculo dos tigres da malásia, onde em cerca de meia hora conseguimos limpar todas as zonas internas. Agora tínhamos de nos encontrar com o Richard nos tigres de Amur para à uma da tarde fazermos a alimentação dos tigres, e depois limparíamos esta zona. Ia ser apertado. Num dia normal a limpezas seria feita antes dos enriquecimentos. Depois desses ainda tinham registos para fazer, assim como adiantar as alimentações da tarde.

Richard: Tudo pronto?

Ruthe: Quem é que precisa de cuidados?

Richard: A Dourga. Vai iniciar o protocolo de reprodução e preciso de colher sangue e de lhe administrar uma injeção de estrogénio para aumentar as chances de gravidez.

Hon: Pensei que isso ainda estava a ser decidido.

Richard: A decisão chegou ontem à tarde. Ela vai ser emparelhada com o Dennar.


Tinha lógica, eles eram os mais velhos.

Ruthe: É melhor seres tu a tentar trazê-la para dentro Hon. Eu sou péssima nisso! - Aquele comentário voltou a trazer ao de cima a minha irritação.

Hon: Nem te interessa tentares, como sempre! - Num dia normal eu teria guardado o comentário…

Ruthe: Que queres dizer com isso?

Hon: Nada…esquece.


Entrei na zona dos comandos internos e abri o portão que dava acesso ao exterior, antes que a conversa descambasse. Claro que eu estava protegida atrás de grades. Tudo ali funcionava através de portas automáticas. Nós não nos podíamos aproximar assim dos animais.
Havia algo em mim que não batia, de todo, certo com o que caracterizava um vampiro. Sabia por histórias de outros, que os animais tendiam a fugir deles, sentindo o perigo que imanava. No entanto, comigo era o contrário, e eu parecia ter um dom natural para criar ligação com qualquer animal. Bastou-me chamar e assobiar um par de vezes para ver a grande fêmea entrar na zona interna, fechando de imediato o acesso ao exterior.

Ruthe: Ah…sorte!

Hon: Sorte não Ruthe…talento!


Ela não me respondeu, e ainda bem. Com a sensibilidade e humor com que estava isto podia acabar muito mal!
Observamos o Richard a preparar a arma de dardos. Eu sabia que ele odiava usar aquilo. Mas por mais que ele pedisse um upgrade dos espaços internos que lhe permitisse acesso sem perigo, o zoo ainda não tinha querido gastar dinheiro nisso. Era uma pena. Já se fazia isso noutros estabelecimentos. Bastava treinar um pouco o animal e era possível fazer quase todos os exames sem requerer a anestesia. No entanto, connosco ainda tinha de ser à moda antiga.

Após uns minutos do disparo, começamos a ver que Dourga já começava a sentir os efeitos da anestesia, começando a perder a força das patas. Esperei que Richard autorizasse e abri o portão que nos deixaria entrar. Ruthe, claro, não quis entrar. Conseguia cheirar medo nela! Que cobardolas! Não entendia porque se tinha candidatado a este trabalho, sinceramente!

A anestesia era de curta duração, por isso só teríamos cerca de 10 minutos para fazermos a colheita de sangue e a administração da medicação endovenosa.
Rapamos um pouco de pelo da pata para encontrarmos uma boa veia. O Richard deixou-me fazer a colheita, que teria corrido muito melhor, se eu não tivesse sentido uma sede imensa assim que a agulha perfurou a veia. Fiquei bloqueada por uns segundos, com ele à espera que eu pegasse o tubo de colheita. Não me tinha apercebido que estava com tanta sede… E precisei de um grande esforço para voltar a mim…e para esconder a cara. Lá consegui colher o sangue…mas não conseguia dominar os olhos. Sabia que estariam vermelhos, assim como sabia que se Dourga começasse a sair da anestesia iria reagir. Os animais toleravam bem a minha presença…mas não quando estava a caçar…

Meu pensado, real feito! Pareceu que assim que o Richard terminou de retirar a agulha com que administrou o estrogénio, ela começou a acordar. Levantou-se tão rápido que Richard acabou por cair de rabo no chão com o susto. Dourga debatia-se para ficar de pé, a anestesia ainda a ter algum efeito, mas estava nitidamente em modo de defesa, e podia atacar-me a qualquer momento. Eu tinha que me dominar…tinha de voltar ao normal, mostrar-lhe que estava tudo bem, que ela estava segura. Mas não conseguia…bem pelo contrário…a sede só aumentava…seria uma refeição tão fácil…

Richard: Hon, anda para trás de mim!

A voz dele, assutada, ajudou-me a voltar a pensar.

Hon: Dourga…está tudo bem. - Mas ela apenas rosnou, avançando com uma pata para mim. Consegui desviar, dando um passo para trás. - Richard….vou contar até três e corremos para fora ok? - Vi que ele se tinha levantado pelo canto do olho. - Ruthe, assim que sairmos tens de fechar o portão, entendes? - Ruthe estava especada, tremia ligeiramente. - Ruthe? - Não podia levantar muito a voz, iria assustar o animal. Ia ter de arriscar que ela me estivesse a ouvir. - Ok… 1… 2… 3! - Assim que me mexi, o animal mexeu-se também, saltando na minha direção. Não me acertou por pouco. Vi o Richard sair e saí também… mas o portão manteve-se aberto tempo suficiente para que Dourga saltasse para cima de nós. Não podia deixa-la magoá-los. Meti-me à frente deles, usando a minha força para agarrar o animal, que rápido conseguiu agarrar o meu braço com a boca. Sinceramente, podia comparar aquilo a o morder de um gatinho pequeno. Não doía. E eu mantive-me concentrada em tentar soltar-me sem magoar o animal e em como podia atirá-lo de voltar.

Richard gritava o meu nome e Ruthe apenas gritava…

Eu tinha de me soltar! Usando mais força daquela que queria, atirei com a cabeça do tigre para longe, conseguindo soltar o braço e, com as pernas, consegui o impulso necessário para a atirar de volta para a zona dela. O animal ficou atordoado e deu-me tempo suficiente para me levantar e carregar no botão de fecho de emergência, tendo sido forçada a empurrar a moça que ainda gritava descontroladamente!

Ficamos todos parados apenas uma fração de segundos até tudo desmoronar de novo. Ruthe voltou aos gritos…Richard aproximou-se de mim, com lágrimas nos olhos, passando as mãos e todos os lugares do meu corpo que conseguia! E, mantendo os olhos fechados, estava bloqueada apenas com um pensamento…como é que eu ia justificar o facto de ter sido atacada por um tigre e ter saído sem qualquer arranhão? Eu devia ter ficado sem braço…devia estar mutilada e a esvair em sangue… Mas tudo o que as mãos de Richard encontraram foi a minha farda destroçada em várias farripas e buracos… O que ia eu fazer agora?

Richard: H-H-Honn? T-tu estás…bem? C-como… - Não olhes para ele…não olhes!

Hon: Estou bem Richard! - Tinha de inventar alguma coisa. - Acho que ela não queria magoar-me…só se assustou! Se ela quisesse tinha-me feito em picadinho não!? - Aquilo não ia colar! Ninguém ia acreditar naquilo!

Richard: T-tu…projetaste um tigre de 150kg…

Hon: A-acho que…
- Pensa Hon, pensa! - adrenalina! Devo ter tido uma descarga daquelas! Instinto de sobrevivência! - Ruthe continuava a gritar num ataque de histeria! - QUERES CALAR-TE?

A minha voz saiu agressiva…mesmo muito agressiva! Ao ponto de que ela se calou e estava agora a olhar para mim como se tivesse visto a própria morte! E talvez fosse mesmo isso. De repente lembrei-me dos meus olhos! Desviei-os rapidamente, fazendo um esforço enorme para os fazer voltar ao normal.

Richard: T-tu devias ir para o hospital! Podes ter lesões internas! - Vi-o pegar no telefone!

Hon: Não vale a pena! - Inspirei fundo…concentrei-me…tentei por tudo voltar ao normal…e consegui. Olhei-o fundo nos olhos, tentando convencê-lo das minhas palavras. - Estou perfeitamente bem, acredita! - E, apesar de ter conseguido controlar parte de mim, havia uma parte que se mantinha irritadíssima! - Não tinha acontecido nada disto se a miss aqui tivesse carregado no botão quando devia! - Ruthe ainda olhava para mim de olhos esbugalhados, boca aberta como se quisesse dizer algo, mas nenhum som saia. - Richard…talvez devesses chamar alguém mas é para esta aqui! Acho que está em choque!

Escusado será dizer que a alimentação ao público foi cancelada. Aliás, tudo meio que parou na equipa dos tratadores quando o Richard comunicou à nossa responsável o que tinha acontecido, após ter chamado uma ambulância. Eles quiseram insistir que eu fosse ao hospital também, mas após os paramédicos me terem obrigado a despir de terem avaliado o meu estado físico (apenas observando, já que eu consegui desviá-los ao máximo de me tocarem e dos restantes testes), aceitaram que eu assinasse um termo de responsabilidade e deixaram-me ficar.

O resto do turno passou-se com perguntas, inquéritos e relatórios que tiveram de ser preenchidos. Richard culpara-se pelo incidente, dizendo que devia ter administrado uma dose mais forte de anestesia, ao que eu reforcei um milhão de vezes que não, tendo deixado isso também por escrito. A culpa tinha sido minha por ter demorado mais tempo do que devia com a colheita. Não ia deixar que ele levasse com a culpa apenas por me estar a tentar ensinar.

Já passava das 16h quando saí do zoo, significando que estava atrasadíssima para os ensaios. Iria ter de me desculpar dizendo que o trabalho atrasou, o que não era mentira. Mas não podia dizer-lhes que tinha sido atacada por um tigre…já bastavam os olhares suspeitos e incrédulos dos meus colegas de trabalho…

O ensaio correu sem grandes intercorrências…mas não posso dizer que eu estava normal…e todos notaram! Eu estava irritadiça, segundo o Sean! Qualquer pequena falha que houvesse eu sentia logo aquela raiva a fluir, tendo mesmo chegado a chamar o Michael de incompetente! Ele ficou magoado, eu sabia que sim. Mas ele estava num daqueles dias em que estava insuportável. Na realidade a insuportável devia ser eu, ao ponto de a professora dar o ensaio por terminado antes de jantar, dizendo que sentia bastante tensão no ar e que aquilo não estava a ser produtivo. Aconselhou-me a descansar e que voltaríamos com força na sexta-feira! Acabei por sair sem uma palavra, batendo com a porta atrás de mim. Não esperei por eles, nem por boleias. Já estava escuro, por isso corri até casa, tendo chegado em menos de 7 minutos!

Jon: Bem vinda?

Hon: Nem digas nada! Que dia de merda!
- Vi o olhar dele sobre mim, totalmente pasmado… - Que foi?

Jon: T---tu disseste uma asneira Hon?
- Que pergunta estúpida era aquela?

Hon: Ya, e daí?

Jon: …n-nada só…foi a primeira vez…
Hon: Alguma vez tinha de ser não?
- Não me apetecia falar com ele, não me apetecia falar de todo…só queria estar sozinha!

Jon: Queres falar do teu dia?

Hon: Não! -
E então subi para o quarto, nem me dando ao trabalho de trocar de roupa, apenas me deitei na cama, ficando olhar para a noite lá fora até a luz do dia começar a surgir.



*** *** ***

Jonathan



Uma parte de mim já contava com a resposta seca. Eu sabia que algo se passava…só não sabia o quê.

Deixei-me ficar na sala, aproveitando para deixar os jogos e passando a ouvir as notícias da noite.
Fiquei em choque quando o telejornal foi aberto com a notícia de que tinha havido um incidente no zoo de Bronx. Um tigre tinha conseguido entrar no perímetro dos tratadores durante um procedimento, mas ninguém tinha saído ferido. As imagens mostravam uma ambulância, uma jovem numa maca e a Hon com vários paramédicos à sua volta. Bem…se ela tinha tido um dia mau ontem para estar com aquele mau humor, tinha acabado de entender o porquê do mau humor agora!

O toque do telemovel dela fez-me desviar a atenção das notícias. Não a ouvi mexer-se, por isso levantei-me e fui até ao saco dela, procurando pelo aparelho. O toque era o das tartarugas, por isso achei que não fazia mal atender. Era o Leo.

Jon: Hey Leo!

Leo: Jon! A Hon? Ela está bem? Acabamos de ver o noticiário!

Jon: Sim, também eu! Ela está ótima…mas não me falou de nada. Chegou super irritada a casa e fechou-se no quarto não me tendo quase dirigido a palavra.

Leo: Não admira…o segredo dela deve estar por um fio.

Jon: Pois…

Leo: Achas que devíamos passar aí mais logo e tentar falar com ela?

Jon: Honestamente Leo…acho que devíamos deixá-la sozinha para já…talvez amanhã ela queira falar…

Leo: …ok… amanhã volto a ligar ok.


Jon: Claro. Até logo. Boa patrulha.

Pousei de novo o telefone…ainda tive esperança que ela descesse quando me ouvisse a falar com ele.
Tentei pôr-me no lugar dela…e acho que, se fosse eu…também iria querer espaço… até estar pronto para falar…


***


O dia amanheceu lentamente. Acabei por ficar a noite toda quieto. Sem vontade de fazer nada e preocupado com ela… não me dava muito entusiasmo fosse para o que fosse. No entanto, tive de se mexer quando, pelas 7h, o telemovel dela voltou a tocar. Não era um toque conhecido, por isso subi as escadas e bati à porta do quarto. Não houve resposta, então entrei, vendo-a deitada de lado, virada para a janela, aninhada em si mesma. Coloquei-me à frente dela, obrigando-a a olhar-me, e estiquei-lhe o telefone. Quem visse, entenderia que ela só ouviu o som do aparelho quando lho estendi, como se estivesse numa espécie de transe e eu a tivesse despertado.

Hon: Estou? - Consegui ouvir uma voz conhecida do outro lado. Era a chefe dela, a dizer que após o incidente de ontem, e dado que este seria o último dia de trabalho dela antes de entrar de férias, que acharia melhor ela tirar o dia hoje, sem precedentes, para recuperar do susto. Ela tentou convencê-la de que estava bem e que podia ir trabalhar, mas sem sucesso. No final, desligou, suspirou fundo, entregou-me o telefone e voltou a deitar-se na mesma posição.

Jon: Queres comer alguma coisa? - Apenas um aceno negativo.

Fiquei a olha-la.

Não sei quanto tempo passou desde que ficamos ali, imóveis. Ela deitada, eu de pé.


O meu telefone acabou por tocar, fazendo-me voltar a mover, deixando-a. Olhei para o ecrã, vendo que eram 13h27.

Jon: Leo?

Leo: Novidades?

Jon: Nada…só lhe ligaram do trabalho dizendo que ela estava dispensada pelo incidente de ontem e que entrava já de férias. Continua deitada, letárgica, não comeu…
-  O que podia eu fazer?

Leo: Nós vamos já para aí! - Algo no meu intimo me deu um aviso.

Jon: Leo…não venham.

Leo: Porque não?
- Como ia explicar-lhe?

Jon: Apenas…espera! Logo já vamos estar juntos!

Leo: E se ela não vier?

Jon: Ela vai! Tenho a certeza disso!
- Tinha de ir!

Leo: … ok miúdo. Mas se ela disser que não

Jon: Eu chamo-vos logo. Prometo!


Desliguei a chamada e voltei a deixar-me cair no sofá…ficando apenas inerte…



Eram quase 21h quando finalmente me levantei! Fui para a cozinha e preparei uma omelete de queijo e pimentos. Sabia que ela adorava aquilo! Coloquei a omelete num prato e subi. Bati e entrei, não esperando pela sua resposta.

Jon: Ok! Já chega menina! Tens de te levantar, comer e tomar um banho! Vamos encontrar-nos com os rapazes para patrulhar às 23h e hoje vais patrulhar com o Donny…para conversarem…lembraste? Oupa!

Ela não se mexeu. Pousei o prato e fui-me aninhar em frente a ela, ficando à altura dos seus olhos, que estavam fixos no vazio…e vermelhos…

Jon: Hon!? - Ela não estava ali…isso era certo… - Hon? -  Abanei-a…primeiro ligeiramente, depois com mais força. - HON!!! - Acabei por optar por uma estalada… não foi demasiado violenta, mas foi o suficiente para ela sentir. Abanou a cabeça por um segundo, tendo aquele movimento feito os seus olhos azuis voltarem, apesar de estarem bastante escuros comparado com o normal.  - Caramba! Não me assustes assim!

Hon: Desculpa… que é que queres?


Novamente aquelas respostas azedas…

Jon: Quero que comas e que te arranjes! Saímos daqui a 45 minutos! - Não lhe dei hipótese de dizer muito…mas senti. Havia um tipo de aura estranha em volta dela…algo que me fazia arrepiar… - Oupa, come! Vais ficar melhor! - Ou eu esperava que sim!

Ela não contestou e, para minha surpresa, comeu tudo o que tinha no prato. Em seguida levantou-se, pegou num dos seus conjuntos de patrulha do armário e saiu para a casa de banho. Não tardou a ouvir a água a correr. Suspirei de alívio. Pelo menos tinha conseguido que ela comesse e que se mexesse… só precisava de tirá-la de casa. Ela só precisava de algo que a distraísse…era só isso!

 

 

*** *** ***

Leonardo


Leo: Ok, até já então! - Desliguei o turtlephone.

Raph: Então?

Leo: Vão sair agora de casa.

Mikey: Ufa…por momentos tive medo que ela não quisesse vir. Não deve estar a ser fácil.

Raph: Ela é bem mais durona que isto! Só precisa de desanuviar!

Donny: O que é que eu perdi?

Leo: Nada nada. Estás pronto para sair?

Donny: Tenho mesmo?
- Isto outra vez!

Leo: Donny, já falamos disto. Andas super desleixado! Andas preguiçoso nos treinos, não queres vir patrulhar! Não pode ser!

Donny: Sim sim…está bem!

Raph: O pobre do Donnizinho anda muito cansadinho...buh uh

Donny: Cala-te!

Raph: E fazes o quê se não me calar?

Leo: Hey! Acabem lá com isso! Saímos daqui a 5 minutos e quero-vos a postos e concentrados!


Eles mantiveram contacto por mais uns segundos antes de o quebrarem e cada um seguir ao seu quarto. Eles eram impossíveis!

Mikey: Cansado?

Leo: Eles cansam-me!
- Ele olhou para todo o lado antes de se aproximar de mim.

Mikey: Logo posso sempre ir até ao teu quarto…fazer-te uma massagem…ajudar a aliviar a tensão. - Sussurrou ao meu ouvido, piscando-me o olho quando se afastou. Senti o sangue aflorar-me às bochechas. Por mais tempo que passasse com ele, Mikey tinha sempre o dom de me fazer corar…

5 minutos depois estávamos a sair em direção do Empire, o nosso ponto de encontro do costume.
Quando chegamos eles já lá estavam. Realmente não era fácil superar a velocidade de um vampiro.
Raph não esperou e avançou de imediato ao encontro dela.

Raph: Boneca… - Abriu os braços, esperando que ela escolhesse abraça-lo. Ela ponderou um pouco, mas acabou por corresponder ao abraço. - Vai ficar tudo bem! - Ela não respondeu, apenas mantendo-se encostada a ele.

Tinha de admitir que era algo que se estava a tornar desconfortável para todos os outros…além do tempo estar a passar…por isso senti que deveria de intervir.

Leo: Hahum… - Raph lançou-me um olhar chateado, mas ela apenas me olhou, aguardando as instruções. - Bem, como estamos todos, vamos separar-nos em 3 grupos. Raphael vai com o Mike, eu com o Jon e a Hon com o Donatello.

Não houve qualquer contestação, apesar de eu ter ouvido o suspiro surpreso do Donny…a verdade é que eu passei meses a evitar deixa-los juntos só os dois. No mínimo fazia grupos de 3. Mas eu queria que eles se entendessem, que conversassem de uma vez. E era o que tínhamos combinado. No entanto, mesmo ela não pareceu muito animada com aquilo. Ela teria mudado de ideias? Teria desistido?
Não, ela ter-me-ia dito algo, mandado uma mensagem ou assim se não quisesse que eu os emparelhasse… Devia estar apenas abatida pelo incidente no trabalho.

Leo: Lembrem-se, apenas atuem em caso de extrema necessidade. Voltamos a encontrar-nos aqui às 3h.

E com isto, Mike e Raph avançaram para Norte, comigo e com o Jon no seu encalço, já que a Norte havia mais terreno para patrulhar, iriam uns para os limites mais a norte da cidade e outros para a zona mais central. Hon e Don logo seguiram para sul.

Jon: Espero que eles fiquem bem…ela está muito em baixo Leo…nunca a vi assim.

Leo: Sim…espero que sim. E que se resolvam. Ter alguém que nos consiga recarregar energias é vital por vezes.

Jon: E tu que sabes disso?

Leo: …nada…é só algo que ouvi dizer…

 


*** *** ***


Donatello


Porque é que com tantas opções o Leo tinha de nos ter posto juntos? Não que eu não quisesse estar com ela…quer dizer…não queria…ou queria… Uhhhh…era por isto mesmo que eu não queria vir!

Desde antes do natal, a verdade é que as imagens do sonho que tinha tido nessa noite, começaram a expandir. Noite após noite eu sonhava com mais partes. Como se o que vi de inicio não fosse suficiente…vê-la ali…comigo…tão…

Não! Não! … Eu não podia rever aquelas imagens! Tinha passado demasiado tempo a lutar contra aquilo a fim de poder viver perto dela sem sofrer. Não podia deitar tudo a perder…

Seguimos para sul em silêncio. Descemos até às Docas, e depois de correr toda essa zona, que costumava ser bastante problemática, iniciamos o nosso zigue-zag de volta para cima.
Nenhum de nós dizia uma palavra, apesar de eu notar que, por vezes, ela me olhava de esguelha.

Era horrível…estar assim com ela. Era insuportável passarmos este tempo sem falarmos. Mas ela não falava…e eu também não queria demonstrar que isso tinha influencia em mim. Especialmente depois da noite em que ela me beijou. Os meus lábios pareciam formigar toda a vez que me lembrava daquele toque de lábios leve na ante-véspera de natal. Depois de todos os momentos íntimos com que sonhei com ela, não posso esconder que era algo em que tinha estado a pensar todo o dia. Não sei como me contive de a agarrar quando ela me beijou…acho que o facto de ela se ter assustado com a minha surpresa e a dos outros me ajudou a manter o controlo. Custava-me admitir, mas não acho que o tivesse feito se estivéssemos estado sozinhos.

E isso fazia-me sentir fraco…imensamente fraco. Para que raio tinha sido todo aquele esforço mental durante quase um ano, se bastava ela mostrar um mínimo interesse para tudo ir por água abaixo?

Porquê? Porque é que eu não a esquecia? Porque é que ela não se apaixonava pelo Raph ou alguém? Quer dizer…já há outro alguém…ou houve…

A minha cabeça estava a mil, assim como o meu coração. Algo no meu interior se revolveu, como se tentasse com toda a força libertar-se. Eu apenas disse mentalmente para a coisa parar, que não podia ir a lado nenhum! Mas a coisa não parava…e quando mais ela se mexia, mais eu duvidava. Imagens de momentos irreais voltaram a assolar-me. Ela nos meus braços, risos juntos, planos, brincadeiras, beijos, toques, sons, olhares, sabores… Dei por mim a engolir em seco. Não…não podia pensar naquilo.

Mas e se…? E se a coisa estivesse a tentar chamar-me à razão? E se estivesse a mostrar-me o quão feliz poderia ser?

Voltei a abanar a cabeça…seria demasiado arriscado… Mas…

Hon: Donatello! - Voltei a mim, não fazia ideia de onde já estávamos, nem do que estaria a acontecer…espacei por completo!

Ela fez-me sinal que olhasse para baixo. Olhando rapidamente em volta, soube que estava perto de Madison Square Park. Olhando na direção que ela apontou, vi uma jovem que caminhava em direção ao parque, provavelmente para cortar caminho até à estação de metro. Logo atrás dela, a segui-la de perto, ia um homem com ar suspeito.
Olhei para ela acenando e avançamos para o solo, no escuro e silencio.

Seguimos ambos até entrarmos no parque, onde voltamos a ficar no plano mais elevado, usando as árvores para nos mantermos escondidos e a uma distancia segura.
Eu até podia dizer que seria coincidência…mas, infelizmente, não era a primeira vez que via uma situação assim. Férias, jovens sozinhas a saírem dos bares tarde, homens atentos e que esperam presas fáceis… Seria demasiado improvável que fosse apenas acaso.
Hon, de certeza achava o mesmo. Apesar de que nunca tínhamos apanhado uma situação destas quando ela vinha connosco. Não que fosse algo de muito complicado…apenas…sensível.

Seguimos os dois até ao centro do parque. Secretamente desejei que a jovem tomasse o caminho oeste que, apesar de deserto, tinha caminhos mais amplos e iluminados. Mas não….ela foi pela esquerda, seguindo o caminho este. Às vezes ficava palerma com as más escolhas que alguns humanos faziam! Porquê ir pelo caminho mais escuro? Ok, a resposta era fácil…ficava mais perto… E ela não tinha culpa de haverem humanos desprezíveis com pensamentos dementes.

Claro que não tardou a vermos o homem a acelerar o passo em direção à jovem, que também pareceu finalmente aperceber-se de que estava a ser seguida, acelerando também.
No entanto, antes mesmo de ele lhe conseguir tocar, Hon saltou do ramo onde estávamos, caindo mesmo atrás do homem, imobilizando-o e tapando-lhe a boca. A rapidez e silencio com que o fez foi impressionante até para mim, e de tal ordem, que a jovem nem sequer reparou. Continuou o seu caminho. Hon, escondeu-se com o homem nas sombras e ficamos a observar a jovem de longe, até ela chegar de novo ao caminho iluminado. Dali já daria para a estrada e daí para o metro. Ela ficaria bem.

Desci da árvore. Como sempre, naqueles casos tudo o que poderíamos fazer era ameaçar o tipo, dizendo que os monstros estavam a ver ou algo assim…não era bonito, mas causava medo e o medo normalmente desmotivava estes comportamentos.
No entanto, assim que olhei para o personagem, entendi que já o conhecia. Aliás, não era a primeira nem segunda vez que o apanhávamos a seguir jovens na tentativa de… bem…de lhes fazer mal.

Homem: Vocês outra vez não… - A voz do homem não saiu com medo, mas sim em tom aborrecido.

Donny: Já te avisamos mais de uma vez!

Homem: E vão fazer o quê monstrinhos verdes? Entregar-me à policia sem provas?


Tão depressa que não consegui seguir o movimento, ele foi prensado com força contra uma árvore próxima, que acabou por abanar com o estrondo. O homem gritou e eu podia jurar ter ouvido o som de ossos quebrarem no meio do estrondo. Hon tinha atirado com o homem e tinha-o agarrado pela camisola, elevando-o do chão alguns centímetros.

Donny: H-hon? - Ela olhou rapidamente para mim, desviando-os de imediato. Mesmo na escuridão, pude vislumbrar o seu olhar brilhando de um vermelho vivo intenso. - Hon…

Hon: Ele não merece viver.
- Senti toda a pele arrepiar com a sua voz. O que se passava com ela? Porque estava tão zangada?

Donny: Hon…nós não matamos ninguém…nada aconteceu…

Hon: Não, porque nós estávamos no sítio certo há hora certa. Já não é a primeira vez, não é? E se da próxima não estivermos por perto? Vamos apenas deixa-lo por aí?

Donny: Sim…é o que temos de fazer. Deixa-lo ir.
- Ela inspirou fundo, rosnando.

Hon: Não me parece… - Ouvi o homem gemer de dor novamente quando ela o pressionou de novo contra o tronco da árvore. - Aliás…estou com alguma fome. - Quê?

Donny: Hon! - Aproximei-me tocando o seu braço. A pele dela estava quente…extremamente quente. - O que… - Tentei focar-me no essencial agora. - Não podes fazer isso! Tu não fazes isso!

Hon: E porque não? Hã? - Os olhos dela voltaram a encontrar-se com os meus, emanando raiva.

Donny: Como assim? Tu…tu não queres ser um monstro lembras-te? Não queres magoar ninguém…

Hon: Sabes que mais Donatello? Estou farta! Cansada de tentar ser a menina bem comportada! Para quê? O que ganhei com isso? O que veio de bom para mim com o altruísmo e pensar nas pessoas e nesta merda de cidade hein? Só perdi com isso! Perdi amigos, perdi o Jon, perdi-te a ti, perdi tudo! Só por tentar fazer as coisas pelo bom caminho sem levar ninguém comigo. Estou saturada disso!


Ela voltou a virar-se para o homem, agora baixando-o para que este ficando quase ao seu nível e inclinou-se lentamente em direção ao seu pescoço.

Obriguei o meu corpo a mexer-se, investindo contra ela com a minha Bō, conseguindo que ela soltasse o homem. Ouvi nitidamente ela a puxar ar para os pulmões enquanto se virava lentamente para mim, desviando por completo a atenção do homem que se levantou a custo e se pôs em fuga. Toda a raiva que tinha visto há instantes parecia ter multiplicado e estava agora voltada para mim. Eu conseguia sentir o calor que irradiava da pele dela pela nossa proximidade. Um calor doentio e errado…ela não era quente…não era normal. Pela minha mente passou uma memória de há muito tempo, uma outra noite num armazém. A primeira vez que a vimos fora de si e que tivemos contacto com a entidade que se escondia dentro dela…Lilith. Mas desta vez, apesar de haverem semelhanças, a sensação era diferente.

Donny: D-devíamos voltar… - Optei por tentar fazer de conta que nada daquilo se tinha passado. Voltei-lhe as costas com intenção de conduzir o caminho. No entanto, antes de conseguir dar um passo que fosse, a minha carapaça embateu contra o mesmo tronco onde o homem tinha estado há um minuto. A força dela era tal, que mesmo eu me debatendo não conseguia soltar-me da sua mão. Era como lutar contra uma estátua.

Hon: Não vamos a lado nenhum… - Sussurrou. Por mais que aquilo arrepiasse o meu corpo, como um aviso instintivo de que ela representava perigo, eu não conseguia sentir o medo que devia acompanhar aquela reação básica.

Donny: Hon…queres por favor pôr-me no chão?

Hon: Não…
- Senti-a pressionar-me ligeiramente com mais força. Não me magoava, a minha carapaça protegia-me, mas mesmo assim era incómodo.

Donny: Vais magoar-me se continuas a apertar-me assim. - Ela olhou para mim, diminuindo de imediato a força com que me comprimia. - Porque não me queres pousar?

Hon: … tiraste-mo…

Donny: Sim, e fá-lo-ia de novo! Hon, tens de te acalmar e pensar com clareza! Só te impedi de fazeres algo do qual te irias arrepender amanhã.

Ela baixou-me até eu ter os pés de novo no chão, mas manteve a mão no meu plastron, segurando-me, como se receasse que eu fugisse. Parecia debater-se com algo.

Donny: Hon…o que se passa? Isto não é só pelo que aconteceu no trabalho…conta-me…talvez eu possa ajudar. - Uma sensação enorme de necessidade de a proteger preencheu-me, acompanhada pela vontade de a abraçar, que eu reprimi.

Hon: Porque não te queres lembrar de nós?

Donny: …
- Como é que eu ia explicar aquilo? - Tu sabes porquê.

Hon: Não!
- Voltei-me a sentir esmagado contra a árvore. - Não sei! E quero saber!

Donny: Hon…é perigoso para nós, para a nossa família…ficamos mais, frágeis…

Hon: Não… juntos ficamos mais fortes…saberias isso se te lembrasses! Porque é que lutas contra ele hein? Pára de lutar! Preciso que pares!
- Eu não queria ter aquela conversa assim…

Donny: Podemos falar disto depois?

Hon: NÃO!
- Agora começava a sentir a pressão aumentar e uma ligeira dor a começar no centro das minhas costas. - FALAMOS AGORA!

Donny: Ok ok…acalma-te!
- Mas ela não afrouxou o seu aperto contra mim. - Hon… - como é que eu ia dizer aquilo? - Nós já falamos disto…antes…os dois decidimos que assim era melhor.

Hon: Isso não é verdade! Não aconteceu! Saberia isso se te deixasses sentir!
- Sentir…era isso que eu evitava a todo o custo…deixar-me sentir. - Tu tens medo não é? Medo de sentires como era, medo de te permitires amar-me? - Como é que ela sabia? - Porquê? - Bolas! De que adiantava continuar a tentar esconder aquilo?

Donny: Sim…tenho medo! Contente? - Senti lágrimas chegarem aos meus olhos sem aviso. - Tenho medo porque estou há meses a sofrer…a tentar convencer-me de que não pertencemos juntos! O perigo é uma desculpa estupida, eu sei. Mas é real. Se algo te acontecesse…se alguém te usasse para chegar a nós…jamais me perdoaria! E se o teu amigo desconhecido voltar e te aperceberes que é ele que queres ou algum humano ou vampiro…não conseguiria aguentar! Tenho demasiado medo de te perder para me deixar ter-te!

Doeu admitir aquilo em voz alta…não a nível físico. Doeu-me interiormente, na minha alma. Não queria que ela soubesse, que ninguém soubesse.

Hon: Eu sou tua… eu dei-me a ti… - As lágrimas brilhavam com a pouca luz que passava por entre a folhagem enquanto caíam no seu rosto. - E tu aí entendeste… sentiste… deixaste o medo de lado… - Não sabia do que ela estava a falar… mas, de repente, o ar hostil voltou - LEMBRA-TE DONATELLO! TENS DE TE LEMBRAR!

E então o aperto dela deixou de ser com a mão. Todo o corpo dela se prensou no meu e as mãos dela prenderam a minha cabeça, obrigando-me a ficar imóvel enquanto os lábios dela se colaram aos meus. A pele dela continuava escaldante e era uma sensação estranha e desconhecida. O seu beijo quente não coincidia em nada com o que eu me lembrava dela, nem com o que eu desejava. Não me conseguia mexer, por isso não tive outro remédio senão o de corresponder ao seu beijo…

Quando ela finalmente parou, ficou a olhar para mim. Pelo seu olhar, também ela esperava outra coisa. Ficou a olhar-me, pensativa, por uns segundos. A realização ou obtenção de uma ideia foi óbvia no seu rosto de repente. Esperei que ela dissesse algo.

Hon: Desculpa… mas tu és meu…ou sim…ou sim!

E então, mais rápido do que pude acompanhar, uma dor repentina e aguda atacou o meu pescoço. Demorei uns segundos a entender o que estava a acontecer. Assim que entendi, uma parte de mim tentou debater-se, pedi-lhe que parasse…mas ela não ouvia. Ao mesmo tempo, a pressão dentro de mim, aquela estranha, começou a aumentar, como se fosse um balão a encher…a encher…a encher…até que se começou a tornar doloroso contê-la. Ao mesmo tempo, o meu corpo começou a reagir de forma estranho ao que se estava a passar. Senti um conhecido fluxo de ar ficar preso na garganta e uma pressão aumentar na minha cauda. Que diabos? No meio de tanta coisa, foi difícil acompanhar todo o processo. A pressão no meu peito chegou a pontos em que parecia que algo iria explodir ali…e foi mesmo isso que aconteceu. Senti um alívio instantâneo ao mesmo tempo que um raio de dor me trespassou e todo o meu corpo de encolheu. Só não caí devido a ela me estar a segurar. No mesmo instante, um churr alto e forte vibrou do meu peito, seguindo-se de imediato de um gemido dela. Aquele som não era um gemido normal e não podia negar jamais o ter ouvido. Era desconhecido e conhecido ao mesmo tempo.
Assim que a dor lancinante vinda do meu peito acalmou, fui inundado por uma sensação de formigueiro que começou nos dedos dos pés e foi irradiando pelo meu corpo lentamente. Quando passou os meus joelhos, comecei a sentir-me tonto. Ela ainda estava a sugar o meu sangue…se continuasse…

O formigueiro continuou…lento…assim como os churr que teimavam em fazer-se ouvir. Tinha perdido a noção do tempo…só sentia o formigueiro a avançar… E quando finalmente chegou à minha cabeça, preenchendo-me por completo, foi como se eu tivesse sido transportado para outro lado… uma outra realidade… parte dela minha conhecida, imagens de sonhos…mas desta vez não eram apenas imagens…traziam consigo sentimentos, emoções e sensações…traziam consigo a veracidade e realidade…

Tão rápido como começaram…as imagens foram desaparecendo…juntamente com a minha consciência…

 

 

*** *** ***

Jonathan



Raph: Eles estão atrasados… ….

Leo: Devem estar a conversar Raph… a ideia de os mandar juntos foi essa lembras-te?

Raph: Não sei Leo…estou com um pressentimento estranho.

Mikey: Estás com ciúmes queres tu dizer!

Raph: Ou te calas ou apanhas Mike!


Ri-me daquela conversa. No fundo eu concordava com o Mike. O Raph estaria, de certeza, com ciúmes. Mas, ainda mais fundo, eu também estava com um pressentimento estranho. Havia algo de estranho com a Hon e a verdade é que ela uma criatura realmente imprevisível por vezes.

Já eram 3h15 e nada deles aparecerem.

Raph: Podiam pelo menos mandar uma mensagem.

Assim que terminou a frase, o seu turtlephone tocou. Ele olhou brevemente para o ecrã antes de atender.

Raph: Finalmente! Onde é que vocês andam? - Eu estava afastado, mas mesmo assim ouvi perfeitamente a conversa. - “Raph, preciso que mandes o Jon para casa JÁ! Diz-lhe que o quero lá em dez minutos.” - Ok, mas está tudo bem? Que se passou? - “Ouve, preciso que vocês os três venham ter a Madison Square Park, mandei as cordenadas para o teu telefone. Venham o mais depressa que puderem por favor.” - Estamos a caminho, mas o que se passa Hon? - “Apenas venham ok! E Raph… perdoem-me por favor…” - E então a chamada caiu.

Raph ficou uns segundos a olhar para o telefone antes de se voltar para nós. Eu já sabia o que ele ia dizer.

Raph: Miúdo, a Hon quer-te em casa para ontem!

Jon: Sim…eu ouvi.

Leo: Que se passou?

Raph: Não sei, mas temos de ir. Já!


E nisto os três saltaram pelos telhados deixando-me só.

Algo se tinha passado. O pânico dela era percetível pelo telefone e podia jurar que ela estava a chorar.

Fiz o que ela pediu e corri o mais rápido que pude até casa.



Assim que cheguei dei com ela. O seu rosto estava uma miséria, cheio de sangue pelas lágrimas que iam caindo. Ela corria de um lado para o outro, para cima e para baixo, reunindo coisas ao acaso. Parecia nem ter dado por mim, até que me coloquei no seu caminho, fazendo-nos embater, provocando um estrondo.

Jon: O que aconteceu?

Hon: Se queres ficar comigo, faz as malas…vamos embora. Agora!

Jon: O quê?
- Que diabos lhe tinha dado de repente? - Como assim vamos embora agora?

Hon: Saímos daqui a meia hora para o aeroporto.
- Aquilo não fazia qualquer sentido…

Jon: …O K.. e pode-se saber para onde vamos?

Hon: Não interessa!
- Não interessa?

Jon: Hon! - Voltei a colocar-me em frente a ela, forçando-a a parar. - Como assim não interessa? Porquê esta pressa para sair daqui? O que aconteceu?

Hon: Apanhamos o primeiro avião que houver. Tens de decidir se vens ou ficas, ponto!


Atirou com as minhas mãos para fora dos seus ombros e voltou à sua correria.

Apesar de não estar a entender patavinas, de uma coisa eu tinha certeza…para onde ela fosse, desde que ela me quisesse como companhia, eu seguiria!

Segui os seus passos, abrindo a minha mala e começando a atirar para lá tudo aquilo que achava puder precisar. Não era muito. Roupas, material da escola, os meus jogos (claro) e livros. No final até deu uma mala composta. Levei-a para baixo, onde ela me esperava.

Hon: Tens tudo? - Acenei afirmativamente. - Tens a certeza que queres vir?

Jon: Para onde fores eu irei… mas ajudava-me saber porquê…


Ela inspirou fundo antes de finalmente me responder…baixando o olhar para o chão.

Hon: … eu fiz uma coisa terrível…

Jon: Hey…
- Obriguei-a a olhar-me. - Tenho a certeza que é pior na tua cabeça…

Hon: … eu… eu… ataquei-o Jon…

Jon: Quem?

Hon: …Donatello…
- Lágrimas voltaram a cair dos seus olhos. Ela tinha…o quê? - Não sei o que aconteceu…tenho suspeitas… eu… estava desesperada… não interessa…são só desculpas…

Jon: Não te estou a acompanhar…N

Hon: Eu bebi o sangue da Lilith…e desde aí comecei a sentir-me…mal…má…furiosa com tudo…revoltada… quase matei uma pessoa… e depois ataquei-o… quase o matei também… se não fosse o sangue dele a sobrepor-se ao dela… eles nunca me vão perdoar…ele nunca me vai perdoar…


Não sabia o que lhe dizer. Era mau…realmente mau. Não que eu achasse que eles não lhe perdoariam…fá-lo-iam facilmente. Mas entendi o lado dela… eu próprio já tinha sentido algo assim. E eu tinha-a a ela…mas eu sabia que não era suficiente para a ajudar naquele momento. Voltei a força-la a olhar-me, sorrindo-lhe.

Jon: Anda. Temos um caminho mais ou menos até ao aeroporto. Vamos aproveitar a noite que ainda resta. - Ela limpou a cara.

Pegamos nas malas e saímos sem voltar a olhar para trás.

 


*** *** ***

Raphael


Avançamos concentrados e o mais rápido e silenciosamente que podíamos até chagarmos a Madison Square Park, dirigindo-nos para este. Estava muito escuro naquela zona do parque, e o facto de não sabermos o que procurar não ajudava.

Separamo-nos, indo pelos ramos mais altos das árvores, procurando por algo estranho ou suspeito.

Não tardei a voz do Mikey, que, no meio daquele silencio, pareceu entoar como um megafone.

Mikey: Donny! Leo, Raph! Depressa!

Logo estávamos os dois ao lado dele. Donny estava desmaiado no chão. Não fazíamos ideia do que se tinha passado…e pior, se ele estava ferido porque é que ela o tinha deixado?

Leo: Donny? - Ele abanou-o ligeiramente. Colocou a mão perto da boca dele. - Respira. Donatello! Acorda!

Mikey: O que achas que aconteceu Leo?

Leo: Não faço ideia. Ele não parece ferido. Está apenas desmaiado. Vamos tentar leva-lo de volta ao covil.


Ajudei-os a pegar nele. Não era fácil. Estando completamente inanimado, era um corpo morto, parecendo pesar bastante mais.

Assim que avistamos a rua, entendemos que não íamos conseguir ser rápidos o suficiente para passar com ele assim. Voltamos a pousa-lo. Leo ficou com ele, enquanto eu e o Mikey vasculhamos o parque em busca de uma entrada para os esgotos. Mas não encontramos nenhuma, apenas sargetas, demasiado pequenas para cabermos.

Quando voltamos para junto do Leo, Donny parecia estar mais reativo. Ainda não abria os olhos, mas balbuciava algo incompreensível.

Mikey: Donny…o que aconteceu mano?

Mais balbucios. Era impossível entender. Conseguimos sentá-lo encostado a uma árvore, com a esperança que aquilo lhe passasse e que ele voltasse a si. Ainda não conseguia entender o que se poderia ter passado.

Leo: Donny…consegues abrir os olhos?

Mas ele não respondia. Mas já se mexia mais. Dobrou as pernas, ficando com os joelhos no plastron e moveu um dos braços para cima, pressionando a mão contra o pescoço.

Não sei porquê…mas de repente veio à cabeça uma ideia…

Ajoelhei-me perto dele, forçando a mão dele para fora do seu pescoço… Merda!

Raph: Pessoal…acho que já sei o que aconteceu. - Que carapaças lhe teria passado pela cabeça?

Ambos olharam para onde eu apontava, vendo as duas marcas, já quase saradas, no pescoço do Donny. Ambos arregalaram os olhos em descrença quando entenderam o que aquilo significava.

Mikey: Não… não pode…

Leo: Poder pode…mas porquê?

Donny: la niha azam…io tno dir…el…

Leo: Donny? Ele não está nada bem! Devíamos chamar o mestre Splinter!

Raph: E dizer-lhe o quê Leo? “Desculpe Mestre, mas a Hon mordeu o Donny e não fazemos ideia do que isso pode ter feito com ele”?

Leo: É exatamente isso que lhe vou dizer!


Eu apenas deixei os braços tombarem inertes…aquilo era inacreditável! Porque é que ela tinha atacado o Donny? Que raios se tinha passado?

Vi o Leo tirar o turtlephone do cinto, pronto para marcar o número já gravado, assim como vi o movimento rápido do Donny, agarrando o braço do Leo, segurando-o, impedindo-o de ligar.

Leo: Donny? Já consegues falar?

Donny: mmm…

Raph: Deve conseguir ouvir…não foi por acaso que te parou.

Leo: Donny, temos de pedir ajuda! Precisamos de te levar para o covil!


Ele apenas abanou a cabeça.

Donny: H-hon…

Mikey: Não foi ela quem te fez isto, pois não?
- Só mesmo o Mikey para duvidar daquilo.

Donny acenou, agora afirmativamente, arrancando uma arfada de ar do Mike. - Não…porquê?

Donny: xa mah ah…

Leo: Não entendi…

Donny: x amah ah…
- Esticou o braço tentando alcançar o telefone.

Raph: Ele quer que a chames! - Leo olhou para mim por uns segundos e em seguida voltou a mexer os botões rapidamente, colocando o aparelho no ouvido.

Leo: Não me atende. - Peguei no meu, tentando ligar-lhe. Chamou….chamou…e nada. Tentei o Jon… nada de novo.

Raph: Eu vou até lá!

Leo: Raph!
- Agarrou-me assim que me virei. - Não podemos deixar o Donny aqui. Estamos vulneráveis! E não conseguimos tirá-lo daqui sem ti! O sol vai nascer em menos de meia hora!

Raph: E achas que a três conseguimos?

Leo: Três são melhor que dois!


Havia algo que me fazia sentir que havia algo errado…muito errado!

Leo: Donny…achas que te consegues levantar? - Ele acenou fracamente, mas pareceu tentar levantar-se. Eu e Leo agarramos cada um dos seus braços, enquanto Mike deu apoio mais central. Custou, mas conseguimos segurá-lo de pé. Ele estava extremamente pálido e parecia prestes a vomitar a qualquer instante.

Mikey: Respira fundo…pode ser que ajude!

Quanto é que ela tinha tirado? Ele estava super fraco!

Ouvi-o respirar fundo alguma vezes, parecendo-me que alguma cor tinha voltado com o ar.

Começamos a mover-nos, tentando ao máximo sermos discretos, mas rápidos. Mikey foi á frente, tentando encontrar um acesso o mais perto possível.

Mikey: Ali, daquele lado da rua.

Só precisávamos de uma abertura…meio minuto sem faróis de carros e conseguiríamos passar.

Não sei como tivemos essa sorte…mas tivemos! Era dificil não haverem sempre carros constantemente a passarem nessa cidade, mesmo nos locais mais remotos! Com alguma arte e engenho, lá conseguimos descer com ele para os túneis, parando uns segundos para respirar.

Mikey: A que distância estaremos de casa?

Leo: Cerca de dois quilómetros…talvez…

Mikey: oh man! Donny? Ainda não consegues andar?


Donatello estava novamente sentado, com os joelhos no plastron e as mãos na cabeça.

Raph: Hey Don?! Estás a sentir-te bem?

Donny: Dor de cabeça…


Finalmente, palavras compreensíveis.

Raph: Ah…acho que também estaria se tivesse doado quase todo o meu sangue… - Tentei fazer uma piada com aquilo…feito idiota, como só eu sabia fazer.

Ele desviou o olhar para mim, com ar chateado.

Donny: Não espertinho… a minha cabeça…está cheia de informação!

Mikey: Ahmmm…não esteve sempre?

Donny: Sim mas…oh, esqueçam! Tenho de ver a Hon!

Leo: Donny, tu não estás em condições de ir a lado nenhum!

Raph: Sim. Além disso, ainda não nos contaste o que carapaças aconteceu!

Donny: Estávamos a patrulhar…cruzamo-nos com um tipo que ia a perseguir uma miúda… a Hon descontrolou-se…não era bem ela…era como se estivesse… zangada, não sei… só sei que sou um idiota! Tenho estado a ser um idiota e tenho de lhe pedir desculpa!
- Tentou levantar-se tendo perdido a força a meio e tombado de novo no chão. - Raios!

Mikey: Calma Donny…ela não vai a lado nenhum! Primeiro tens de tratar de ti!

Nesse instante, o meu turtlephone tocou com o som de uma mensagem. Era do Jon: “Não posso atender. Estamos a ir para o La Guardia…vamos embora. Assim que conseguir falo.”. Que carapaças?

Raph: Acho que vai Mike… - E então virei-lhes o ecrã.

Mikey: Eles vão embora? - Disse com pânico na voz.

Eu entendia… conseguia entender o que iria na mente dela. Ela descontrolou-se, fosse pelo que fosse…atacou o Donny… podia ter sido qualquer um de nós, a reação seria a mesma.

Raph: Ela deve achar que a odiamos…

Mikey: O quê?

Leo: Como é que ela pode pensar isso?


Donny voltou a tentar levantar-se, a custo, pressionando-se contra a parede.

Donny: Temos de ir busca-la… - Ia dando pequenos passos, apoiando-se nas paredes do túnel… - Não posso perde-la…não posso… - E então, tudo me fez sentido…acompanhado por uma dor conhecida.

Raph: Don? - Ele parou e olhou para mim. - Finalmente decidiste acordar? - Ele olhou para baixo, penso que escondendo algum vislumbre de vergonha.

Donny: Ela acordou-me… é como se estivesse estado a dormir todo este tempo… preciso… de lhe dizer… de lhe pedir perdão… de tentar pelo menos… Por favor…

Não havia nada a fazer…não era? Nunca tinha havido…

Raph: Leo, Mike, tentem levar o Donny o mais perto possível da Broadway! Eu vou buscar a battleshell!

Eles não contestaram, apenas os vi apoiarem o Donny, um de cada lado antes de desatar a correr de volta a casa.




*** *** ***

Hon



Não penses… não sintas…



Seguia, com o Jon atrás de mim pela multidão de pessoas que aquela hora já circulava em direção à zona de check-in do aeroporto de La Guardia. Não tinha sido a melhor escolha de aeroporto devido a ser muito limitado em voos internacionais. Devíamos ter ido para Newark. Mas agora estava feito. Não voltaria para trás.

Parei em frente ao grande painel que mostrava as partidas e respetivos destinos. Itália, Reino Unido, Bélgica, Alemanha, Sérvia, Dinamarca…eram essas as opções. Pelo menos a escolha era fácil.

Mesmo assim, deixei-me ficar ali…a olhar o painel que mudava ligeiramente, avisando quando o check-in abria…depois os portões de embarque…depois a abertura do embarque…

Não sei quanto tempo estive ali…a observar enquanto as informações do voo para Copenhaga se moviam desde o fundo em direção ao topo do painel. O voo sairia às 9h35 da manhã. Desviei o olhar para o relógio acima do painel. Eram 6h45 da manhã. Olhei finalmente para o jovem, que se encontrava sentado num banco não longe de onde eu me encontrava. Olhava-me, imóvel… Ainda bem que naquela zona do aeroporto as pessoas não tinham tendência a ficar á espera. Qualquer um que ficasse ali 10 ou 15 minutos, prestando a devida atenção, teria percebido algo de errado connosco. Tínhamos ambos estado um bom par de horas completamente imóveis. Eu, a olhar o painel e ele a olhar-me a mim.

Obriguei-me a mexer.

Hon: Estava a pensar…Dinamarca.

Jon: Parece-me bem.
- Não conseguia entender se ele dizia a verdade… não queria pensar, nem nisso.

Hon: Vou comprar os bilhetes. - Ele não disse nada, nem se mexeu.

Dirigi-me ao balcão onde se compravam as viagens. A fila não era grande. Não havia muita gente que chegava ao aeroporto sem os bilhetes previamente adquiridos. Meti a mão à mochila e tirei a carteira. Deixei-me divagar no dinheiro que teria. Devia chegar para duas viagens de ida, mesmo naquela altura do ano. Estava com esperança que Copenhaga fosse um destino demasiado frio para passar o ano e que as viagens não fossem muito caras.

Agora que tinha de estar ativa, era mais difícil desligar os pensamentos. Dei por mim a pensar nos meus amigos e no facto de os estar a abandonar…a eles e à banda…ainda por cima numa véspera de concerto. A ideia de que provavelmente nunca mais os veria começou por acalmar a culpa…só para me encher de tristeza em seguida. Seria assim, a nossa vida… a conhecer pessoas…a ter de desaparecer das suas vidas…e apenas poder voltar quando elas estivessem mortas. Talvez devemos estreitar a nossa rede de amizades aos da nossa espécie. Seria o mais sensato. Era realmente descabido, quando pensava assim, ponderar a ideia de que vampiros e mortais poderiam estar juntos…ser amigos…criar laços familiares…

Eu era tão idiota que precisei que um vampiro me chamasse a atenção daquilo. O meu problema era que o mal já estava feito…os laços já estavam criados… e abandona-los ia ser das coisas mais difíceis que iria fazer… E eu não o queria fazer…

Mas que opção teria? O que tinha feito tinha sido imperdoável…uma monstruosidade… Eu não os merecia…nenhum deles.

A minha mente recuou umas horas…ao momento em que eu tinha voltado a mim. O sangue da Lilith tinha turvado a minha essência…mas quando outro sangue se começou a entranhar em mim, o anterior perdeu a sua força, dando lugar ao novo que chegava. Foi aí que voltei a mim e que realizei o que tinha dito e feito.

Podia culpa-la…mas isso seria apenas tentar desculpar o indesculpável. A culpa era única e exclusivamente minha… e era eu que teria de viver com o facto de que estive a pontos de matar o amor da minha vida…o meu melhor amigo…o meu irmão…

Não…não havia como ele me querer ver novamente. Tinha apenas de aceitar que nunca o iria voltar a ver nem ouvir… que o destino não seria estarmos juntos.

Cashier: Bom dia menina. Em que posso ajudá-la?

Hon: Bom dia. Queria dois bilhetes para Copenhaga por favor.

Cashier: Muito bem, posso ver os passaportes por favor?


Entreguei-lhe os nossos passaportes. Sabia que seriam aprovados.

Cashier: Menina Hamato, tem bagagem acima de 10 quilos?

Hon: Sim, duas malas de cerca de 20 quilos.

Cashier: Muito bem, aguarde um minuto por favor.


Obriguei-me a voltar a não pensar. Já não havia muita margem para voltar atrás… Copenhaga…como seria? Frio, com certeza. Nunca tinha procurado nada sobre a Dinamarca…seria uma total aventura ao desconhecido. Nem sabia se falavam inglês… mas, aprender uma nova língua seria sempre bom, não era?

Voz: HON!

Não…por favor…que esta não seja a voz que eu sei que é.

Voz: HON!

A voz estava a aproximar-se… Oh, por favor que seja só a minha mente a pregar-me uma partida.

Donny: Hon…

Eu não queria virar-me… não queria olhar para ele… Como é que ele deu comigo aqui?

Donny: … por favor, olha para mim.

Jon…só podia ter sido ele. E como é que ele estava ali, no meio do aeroporto?
Virei-me, apenas pelo susto da ideia de uma tartaruga mutante de mais de metro e meio poder estar parado no corredor do movimentado aeroporto.
Ele estava coberto de roupas. Umas calças muito largas, botas, que não entendi como conseguiu calçar, uma camisola enorme com um carapuço que lhe tapava grande parte da cabeça e escondia-lhe o rosto, um casaco grosso e uma mochila, que, diga-se de passagem, não disfarçava grande coisa da sua carapaça. Ele ia ser descoberto!

Donny: …podemos conversar? … Por favor?

Cashier: Menina Hamato? - Voltei-me para ela. - Seriam 987, 57$ ambos os voos com as bagagens incluídas. Quer pagar em dinheiro ou cartão?

Bloquei por uns segundos, olhando para ela, que esperava por uma resposta minha.

Hon: Desculpe…importa-se de anular? Há um assunto que tenho de tratar e assim não fico a interromper a fila. Desculpe.

Cashier: Não há problema menina.

Hon: Obrigada.


Obriguei as pernas a mexerem, saindo da fila de volta em direção ao amplo corredor.

Caminhei de volta até perto do Jon cabisbaixa, evitando olha-lo, mas ouvindo os seus passos seguirem-me. Quando parei junto a ele, ele olhava-me, com a mesma ideia a gritar do seu olhar. “Ele vai ser apanhado!!!”. Tinha-mos de sair do aeroporto…

Donny: Importaste de olhar para mim? - Sim, importava-me…por um milhão de razões. Como, por exemplo, o facto de estar segura de que iria ver muitas coisas que não queria no seu olhar…desilusão? Medo? Ódio? … podia esperar qualquer uma daquelas emoções.

Jon: Ahmmm… - Emitiu ao levantar-se nervoso. - Donny? Talvez não seja a melhor ideia…estares aqui?

Donny: Não quero saber.
- Como assim ele não queria saber?

Jon: Meu… não passas exatamente despercebido e o sítio está cheio de segurança. E se és apanhado? - Jon sussurrava, olhando-o por cima do meu ombro.

Donny: Não importa… - Como é que ele podia dizer que não importava? Aquilo irritou-me…que egoísmo era aquele?

Senti o meu corpo mover-se mesmo antes de poder pensar nisso.

Hon: Vires dizer-me que me odeias é tão importante que arrisques toda a tua família Donatello? - Continuei a não olhar para dentro do capuz, cobardemente, ficando a olhar para o seu peito. - Julgava-te com mais maturidade que isso!

Donny: … que te odeio…?

Hon: Sim…se precisas mesmo de o dizer diz e pronto! Despacha lá isso! Não que eu não mereça ouvir seja o que for por horas, mas nós temos um avião para apanhar, por isso diz o que tens a dizer de uma vez e desaparece daqui!


Ele ficou calado por quase 10 segundos e depois vi o seu corpo aproximar-se de mim. Não consegui evitar recuar pela sua aproximação. Não que eu não merecesse levar uma sova…mas não podia deixá-lo perder a cabeça ali. Ele podia não querer saber do seu segredo, mas eu queria.

Parou assim que me viu recuar. Uma parte de mim dava tudo para poder saber o que ele estaria a pensar. Mas não havia muito que adivinhar…ele só podia estar zangado…

Donny: …Hon…eu não te odeio… nunca poderia odiar-te… - Aquelas palavras não fizeram qualquer sentido para mim… - …olha para mim princesa. - Aquela palavra apanhou-me tão de surpresa, que eu realmente olhei para ele. O seu olhar não transmitia medo, nem desilusão, nem raiva… era apenas o olhar dele…meigo, compreensivo, amoroso…a janela cor de avelã que dava acesso à sua alma. Senti-me colada ao chão, tentando tirar algum sentido do que se estava a passar. Porque é que ele estava ali? Porque me tinha chamado assim?

Donny: A única criatura aqui que poderia odiar alguém és tu a mim. - As suas palavras apenas me confundiam mais. - Tenho-me comportado como um miúdo imaturo e mimado da pior forma contigo. Mesmo que esta realidade possa ser alternativa…a minha teoria é que aconteceu de verdade…e não há desculpa, para nada…nem para nos ter pressionado a separarmo-nos quando me deixei influenciar pelas palavras do Leo, nem por me ter obrigado a afastar de ti, por te ter ignorado e tratado mal… entendo que me odeies por isso e não te tiro razão… - Ele parou, não sei se esperava que eu dissesse algo…mas eu não conseguia. Deixei-me apenas esperar que ele continuasse. Ele inspirou e expirou fundo antes de continuar. - Mas o pior de tudo talvez tenha mesmo sido estes últimos dias. Obriguei-me a ignorar-te o máximo que pude, a ignorar até o meu ser interior, prendendo-o o máximo que consegui. O medo de me lembrar de ser feliz contigo era tão grande… … até posso ter um QI de 187, mas não passo de uma tartaruga idiota. - Na minha mente travava-se uma batalha de hipóteses para o que eu ouvia… cada uma mais impossível do que a outra… - Ouve…eu sei que o mais provável é que seja tarde de mais para isto. Entendo porque queres ir embora, entendo que não queiras estar mais perto de mim, que tenha estragado tudo e que não haja mais oportunidades. Mas…mesmo que nós não… … pensa nos teus amigos. Na April. No Leo. No Mike. No Raph. No pai. … Não…não vás embora. Eu fico longe se for isso que precisas. Não tens de te cruzar comigo nem eles vão falar. Pode ser como se não existisse. Mas, não os deixes. És demasiado importante para todos nós.

O desejo de ler mentes nunca se tinha apoderado tanto de mim. Que diabos estava ele a dizer?

Hon: …não entendo…

Donny: … estou a tentar dizer-te que podemos encontrar uma solução para que não tenha de partir…

Hon: … eu… eu perdi o controlo… ataquei-te… quase te matei…
- Não consegui continuar a olhá-lo.

Donny: …não importa… - Ele tentou de novo aproximar-se…e de novo, senti o impulso de recuar. Como podia ele dizer que não tinha importância?

Hon: …eu sou perigosa… como podem querer que eu fique?

Donny: Quantas vezes vamos ter de te demonstrar que não importa o que és? Tu fazes parte da nossa família. E na família ninguém é deixado para trás, ninguém é julgado sem perdão e ninguém é esquecido! Nós amamos-te… não importa o que faças.


Seria possível? Podia haver perdão para os meus atos? Eu achava que não…

Hon: … sou eu a errada. Não…não sou forte que chegue para lidar com isto…

Donny: Se o problema sou eu…já te disse…eu afasto-me…
- Era tristeza que ouvia na sua voz? - Mas…antes de me dizeres que precisas que eu vá…preciso que saibas…que eu te Amo! - O meu olhar voltou a colar-se ao dele…eu tinha ouvido bem? - E sim, eu sei que é tarde para dizê-lo, tarde para arrependimentos, tarde para voltar a North Hampton e começar de novo… mas tinha de to dizer. - Aquela afirmação fez-me sentir congelada no real sentido da palavra…

Hon: T…tu lembras-te…?

Donny: … acho que no meio da experiencia de quase morte deixei de poder conter o Shocky… quando recuperei os sentidos tudo voltou e… fez-me ver o estupido que fui. E eu sei que não tenho como me redimir por não ter acreditado em ti e ter deixado o medo dominar-me…de novo, digo. Mas agora que sinto de novo…a ligação… o medo desapareceu…tal como naquela noite…
- As suas bochechas coraram ligeiramente. - Não preciso de te dizer que sou um medricas em relação a ti…já sabias…

Ele lembrava-se… ele sabia…

Donny: Mas…bem. Só queria dizer-te que, se quiseres, podemos tentar. Não tens de deixar nada nem ninguém por mim. Só achei que devias de saber. Mesmo que isso não altere muito. Claro que se quiseres ir não posso impedir-te, mas… gostava que ficasses…

Os pontos na minha mente demoraram mais um par de segundos a ligar todos os pontos e a retifica-los…quando tive a certeza de ter, finalmente, entendido o sentido de todas as suas palavras, deixei finalmente o corpo livre para seguir o que toda a minha essência necessitava.

Dei rapidamente os 4 passos que nos separavam, atirando-me para o seu colo, com os braços em volta do seu pescoço e colei os lábios aos dele fervorosamente. Tive cuidado para não deixar o carapuço cair para trás, usando as mãos para o manter no sítio, enterrando a minha cara também escondida no mesmo. Deixei-me beijá-lo sem cuidados, sem permissões, sem pudor algum. E ele correspondia na mesma intensidade, agarrando a minha cintura de uma forma nada decente. Mas quem iria querer saber de dois estranhos num ato impróprio daqueles num aeroporto? Bem, provavelmente alguém.

Jon: Ah hum… - Obriguei-me a soltar-me dele, que me olhava com amor e volúpia. Um olhar que eu não via há muito tempo e do qual sentia imensas saudades. - Desculpem interromper esta união tão maravilhosa, a sério, ninguém está mais feliz que eu…mas estamos no aeroporto, em público e estão várias pessoas a olhar para vocês, incluindo alguns seguranças e dado o Donny não estar propriamente bem disfarçado, se é que isso é possível, eu sugeriria sair daqui antes que chamemos mais atenção e que acabemos todos nas notícias ou num laboratório tipo ratinhos! Pode ser?

Não sabia se me ria ou se me mantinha séria. Ele tinha razão, mas, como sempre, aquele monólogo saiu num tom de comédia que apenas o Jon tinha o dom de utilizar, fazendo com que tanto eu como o Donny tivéssemos de conter os risos que teimavam em se soltar.

Donny: Ah…por mais que quisesse negar, não podia. Ele tem razão.

Hon: Sim…vamos sair daqui.


Peguei de novo na minha mala, arrastando-a atrás do Jon, ao lado da tartaruga que tinha o meu coração.

Donny: Então…isto quer dizer que estamos a namorar? - Queria…mas, por mais culpa que eu tivesse, ele também tinha…e por isso, achei por bem não me fazer de fácil, como diria a Heidi.

Hon: Não propriamente… não penses que me voltas a ter só porque decidiste que afinal me amas…vais ter de me reconquistar geniozinho. - Sabia que ele detestava que os irmãos usassem aquele apelido e tive de conter um riso quando vi a sua cara ao ouvir o nome.

Donny: … não posso dizer que contava com essa. Mas se for preciso vou lutar por ti até ao final da vida…princesa.

Um sorriso dominou o meu rosto ao ouvir o apelido. Não sei quem iria ter mais trabalho, se ele a tentar reconquistar-me ou se eu a evitar ser reconquistada…porque conquistada já eu estava…mas realidade acho que sempre estive.

Era um tanto ridículo, pensar em como já tínhamos perdido tanto tempo em tentarmos evitar o que sentíamos um pelo outro. Mas, quem já esperou tanto, poderia esperar mais um pouco, certo?

Ao sairmos do aeroporto, Donny levou-nos por um caminho matreiro até a um parque de estacionamento pouco iluminado, onde, de longe, eu já avistava a Battle Shell e os meus três irmãos encostados à mesma, esperando. Quando nos viram aos três, três sorrisos se formaram ao mesmo tempo que um deles veio ao nosso encontro…aos saltinhos.

Mikey: Não vão embora, pois não?

Hon: …para já não.

Mikey: BUYAKASHA!!!!!


Raph aproximou-se também, agarrando em mim e elevando-me no ar.

Raph: Não voltes a pregar-nos sustos destes palerma! Não teve graça!

Hon: Não era para ter.
- Mas não consegui manter-me séria, abraçando-o com força assim que ele me pousou.

Raph: Então…vocês estão bem?

Hon: … mais ou menos…

Leo: Mais ou menos?
- Leo olhou de mim para o Donny. Lembrei-me da ideia do Donny se afastar da família para que eu ficasse. Acredito que ele tenha partilhado essa ideia com os irmãos…

Donny: … digamos que vou ter algum trabalho… mas ninguém vai ter de ir a lado nenhum. - Ambos trocamos um olhar cúmplice, que não passou despercebido a nenhum deles, mas nada disseram.

Jon: Na realidade...podemos ir a algum lado, por favor? Tipo, para casa! Tenho imensas coisas para arrumar!

Todos nos rimos do ar dramático dele antes de entrarmos no veículo e de Raph nos conduzir de volta a casa…

 

 

 

 


Notas Finais


Opiniões e comentários são sempre bem vindos! :D
Desculpem não ter respondido a comentários.

Eu sei que estes dois últimos capítulos foram um tanto repetidos. Mas há poderes que apenas despertam quando nos encontramos em situações de emoções fortes. E O Donny vai sempre ser um ponto de fragilidade/força dela.
Mas daqui para a frente vai haver muito honatello!


Não sei se algum de vocês que leem a minha fic gostam de T-cest. Eu sou uma "weirdo" e gosto, adoro até! :P Há uma história, que é a minha preferida de todas até hoje de T-cest, mas está em inglês. Então eu pedi à autora se me deixava traduzir e ela autorizou.
Algures esta semana vou postar o primeiro capítulo. Se vos interessar, deem uma vista de olhos.


Até já! <3


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