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História You and Me - Capítulo 3


Escrita por:


Notas do Autor


Olá, leitores!
É com muito prazer que trago mais um capítulo dessa fic do meu shipp preferido. Peço desculpas pela demora, porém só agora que o bloqueio criativo me deixou escrever um pouco (espero que ele demore pra voltar rs)
Espero que gostem deste capítulo escrito com muito amor e carinho!
Beijinhos

Capítulo 3 - Segredos


A luminosidade do sol me desperta abruptamente. Tento acostumar os olhos enquanto seco uma gota de suor que escorre pela minha testa. Aquele sonho pareceu ser tão real… mas, parando para pensar, foi um sonho dentro de outro sonho, algo meio surreal. Talvez eu estivesse com muitos pensamentos na cabeça.

Não tem como não ter. Depois que Ben, Jay, Carlos e eu fomos para a Ilha, não tivemos sucesso em convencer Mal a voltar pra Auradon. Ela estava determinada a não deixar sua antiga vida de vilã, enfatizando que jamais seria uma “garota de Auradon” como eu era, segundo ela. Ben insistiu que ficássemos lá até que Mal mudasse de ideia e voltasse conosco, mas eu sei como minha melhor amiga é. No final, disse para Ben que déssemos um tempo para que Mal colocasse os pensamentos em ordem para que assim fosse possível tentar fazer com que ela voltasse para o reino.

Acontece que Ben, relutante, concordou, mas isso não o impediu de se isolar de todos nós depois de retornarmos. Eu o entendia, ao mesmo tempo em que também não julgava Mal pela sua decisão. Desde pequena fora instruída e incentivada a seguir pelo lado malvado e perverso por conta de sua mãe - e por vezes senti isso em minha própria pele. Mudanças não eram fáceis, de fato,  principalmente quando toda a sua rotina vira pelo avesso e agora você lida com pessoas totalmente diferentes, em uma realidade diferente. Mas essa realidade fora do habitual na qual eu, Jay e Carlos conseguimos nos adaptar não pertencia à Mal. Por um breve momento, quando ela fez o feitiço para reverter o encantamento de Ben na cerimônia de coroação, fui surpreendida positivamente com sua atitude: talvez ela também tivesse se adaptado a sua nova realidade, pensei na época, e tive mais certeza quando ela lutou bravamente contra a própria Malévola  para salvar todos do reino. 

Não a julgo pela escolha que fez. Somente nós sabíamos os nossos limites, até onde conseguimos chegar. Quando nos despedimos, ela me assegurou que ficaria bem, e a convicção com a qual ela sempre falava fez com que eu acreditasse em suas palavras. Eu quero vê-la, mas sem que Ben saiba. Também não quero que Mal pense que estaria levando-o para tentar convencê-la novamente a retornar.

Levanto e caminho até a janela. O céu está em um tom incrível de azul celeste, sem nenhuma nuvem, uma brisa entrando pela janela e balança de leve as cortinas. É um daqueles dias que você se sente quase que obrigado a dar uma volta pelos jardins verdes e pomares repletos de árvores carregadas de suculentas frutas. Para o dia de hoje não havia pedidos para o meu ateliê, então seria uma oportunidade perfeita de escapar por alguns instantes e conseguir ir até a Ilha. Vou até o banheiro tomar banho, não me demorando muito no processo. Escovo os dentes e saio em disparada até o guarda-roupa. Uma ideia surge em minha mente. Há uma forma de eu agir discretamente, mas para isso, devo voltar às minhas origens. E não refiro só  a retornar à Ilha, mas à minha essência herdada de minha mãe. Só de pensar sinto calafrios, temendo que eu não consiga me desprender disso depois. 

-- É pela Mal -- digo para mim mesma baixinho. -- É pela minha amiga que estou fazendo isso, e por Ben.

Mencionar ele faz com que lembre automaticamente do sonho. Toco instintivamente meus lábios, como se a sensação de tê-lo beijado ainda estivesse presente neles. Quero que Mal e Ben sejam felizes, e se isso significa custar parte da minha felicidade, eu o farei. 

Pego o vestido de tecido crepe, cuja saia não tão longa possui alguns babados. É um dos modelos mais simples que tenho, o que significa que servirá perfeitamente. Arrumo um pequeno diadema de rubis por sobre as minhas madeixas azuis enquanto me olho no espelho. Está tudo ótimo, nada que aparenta desconfiança. Levo comigo uma pequena bolsinha vermelha na qual posso esconder no bolso interno do vestido. Tranco a porta do meu quarto, meus olhos pousando por um instante na cama próxima a minha coberta por uma manta roxa e verde com dois dragões desenhados. Suspiro pesadamente antes de puxar a chave e seguir pelo corredor torcendo para não encontrar Carlos, Jay, ou ainda, o que acho mais improvável, Ben. 

Aceno para algumas pessoas conforme atravesso o castelo, tentando parecer despreocupada. As meninas sorriem, muitas usando vestidos e outras peças de roupas que confeccionei. É bom ser reconhecida pelo trabalho que faço, não posso deixar de sentir orgulho de mim mesma. 

Caminho pelas colinas verdejantes, atentando a qualquer movimento por entre os grupos. Escuto as pessoas comentarem sobre o noivado que não iria mais acontecer, sobre o que teria acontecido com a Mal… Felizmente, a Fada Madrinha conseguiu fazer com que não nos interrogaram mais sobre o assunto, e respeitassem nossa dor. Uma dentre milhares de coisas que tenho que agradecê-la.

Uma garota de longos cabelos escuros e ondulados está vindo em minha direção, acenando incessantemente. 

-- Evie! 

-- Oi, Jane! Como está? -- pergunto quando ela se aproxima. 

-- Bem. Quero dizer, não tem como estar bem com tudo isso que aconteceu, né, mas estou levando -- ela acrescenta rapidamente. -- Tem notícias da Mal?

Faço que não com a cabeça. 

-- Carlos está tão triste com tudo isso, na verdade todos estamos. Sei que Mal seria uma rainha incrível. 

-- Ela ainda poderá ser, só precisamos dar tempo ao tempo -- tento parecer otimista, o que parece funcionar por um instante com ela. 

-- Sim, mas que seja antes de Audrey retorne do retiro. 

Ok, por essa eu não esperava. 

-- Audrey está voltando? Por quê? 

Ainda que suponha o motivo, deixo Jane confirmá-lo em voz alta:

-- Bom, ela entrou em contato com a Bela, a mãe do Ben, e disse que lamentava muito o ocorrido -- o que eu duvido muito, penso. -- e que retornaria o mais breve possível para ajudar Ben no que precisasse. 

Como não pude perceber? Óbvio que Audrey está vendo essa como uma ótima oportunidade de retomar o noivado com Ben e se tornar a rainha de Auradon. Mas aquilo não poderia acontecer. O reino não merecia alguém tão egoísta e mesquinha no poder. A urgência toma conta de mim, e agora devo me apressar mais do que nunca para resolver aquela situação toda.

-- Eu vou indo nessa, vou dar uma volta com o Carlos para ver se ele distrai um pouco a mente.

-- Sim, faça isso, Jane. Obrigada.

-- Até mais! 

Acenando, ela dá as costas e corre pela grama na direção do castelo. Tomando o caminho totalmente oposto, caminho determinada por entre as árvores e arbustos a fim de chegar o quanto antes na barreira.

 

                                                                                                                 ***

 

Devo ter demorado um pouco mais do que necessário por ter tido alguns contratempos: quase fui vista por alguns dos atletas que estavam voltando do treino com Loonie e Jay, e a outra ocasião por alguns estudantes que caminhavam para um piquenique no lago. 

Paro diante de onde deve ser o início da barreira. Quando Mal fugiu, conseguiu graças ao seu livro de feitiços, mas como ela estava com ele na Ilha dos Perdidos, não há muita escolha a fazer. Fecho os olhos, concentrando-me numa fagulha dentro de mim que há muito tempo venho reprimindo. Não porque renego minhas origens, mas pelo fato de querer viver uma vida sendo comum - ainda que sendo uma filha de vilã. Sinto meus braços formigarem e foco no primeiro teste. Sei como fazer. É como andar de bicicleta: uma vez que se aprende, não tem como deixar de saber. Faço um gesto da cabeça aos pés e na mesma hora que abro os olhos o leve brilho azulado que cobria meu corpo desaparece. Aos meus olhos nada mudou, mas para as outras pessoas que me veem eu seria como uma garota qualquer da Ilha, vestida como eles.  Bom, não é tão ruim usar a magia novamente. 

Volto a fechar os olhos novamente, concentrando-me em um novo feitiço. Não é possível conjurar a ponte, mas posso abrir um portal. Tiro o pequeno espelho mágico que minha mãe me dera de minha bolsa. Faz um bom tempo que prometi que não o usaria mais, porém se tratava de uma situação excepcional: 

-- Espelho, espelho meu, mostre onde a minha melhor amiga se meteu.

Não é minha intenção rimar, ainda que tenha dado certo. Pelo pequeno objeto, vejo Mal fazendo seus grafites no nosso antigo esconderijo, preenchendo uma parede toda com novos desenhos nossos. 

Faço um gesto que faz com que o espelho vá ampliando de tamanho até que seja possível atravessá-lo. Sinto como se passasse por uma cascata de água muito gelada até um lugar escuro que desaparece e dá lugar à um beco repleto de caixotes espalhados e muita sujeira. À minha direita está a placa “CUIDADO -  PEDRAS VOADORAS”, o que sinalizava nosso esconderijo nem tão secreto. Alguns habitantes passam por mim sem dar muita atenção e fico imensamente grata pelo feitiço estar dando certo. Pego uma das pedras de cima do barril, arremesso com força na direção da placa que se move por outro lado e abre o portão de grade. Rapidamente subo as escadas de dois em dois degraus, tomando cuidado para não fazer tanto barulho até o último andar. 

Chegando perto da porta na qual há um piche dizendo “MANTENHA DISTÂNCIA”, bato duas vezes. Sem demora, ela se abre e uma garota de profundos olhos verdes e cabelos longos e roxos me observa surpresa. Suas vestes escuras estão manchadas pelo spray.

-- Evie? Como você..? -- pergunta, e não consigo evitar de me lançar em sua direção dando um abraço forte. 

-- Senti tanto a sua falta, Mal. -- digo, ainda mantendo-a entre meus braços. Ela o retribui na mesma intensidade. 

-- Eu também sinto, mas estou surpresa como chegou aqui… espera um minuto -- ela se distancia e me olha de cima a baixo. -- Você usou magia?

Assinto enquanto ela cobre a boca, surpresa. Meu feitiço não funcionaria totalmente sob seus olhos, acredito que pelo fato de ser filha de dois vilões incrivelmente poderosos.

-- Evie, você não usa magia desde sei lá quando! 

-- Olha só o que você me força a fazer -- falo em tom de brincadeira e nós duas rimos. 

-- Incrível como você é talentosa em todos os sentidos, mas nunca pensei que voltasse a usar sua magia. 

-- Medidas extremas em situações extremas -- digo enquanto entro.

Ela fecha a porta e caminhamos para os sofás no meio do cômodo. Observo as paredes com suas novas ilustrações. Carlos, eu, Jay e ela vestidos como na cerimônia de coroação, dançando com nossos pares diante de um castelo cujo céu por trás explode em fogos de artifício coloridos. O desenho dela está inacabado, assim como o do rascunho de Ben.

-- Você fala que sou talentosa, mas só você poderia fazer algo tão incrível como este mural. -- comento, sentando-me no sofá. 

Ela dá de ombros. 

-- Tô tentando me distrair, então, acho que tá dando certo. 

Mal senta na poltrona ao lado. 

-- Então, o que aconteceu? 

-- Você tá conseguindo se alimentar direito? Tá conseguindo dormir?

-- Não é como dormir com os travesseiros macios do palácio, mas consigo. E estou conseguindo conjurar comida graças ao livro de feitiços, então, agradeço a preocupação. Eu sinto tanta falta de passar os dias com você, com o Carlos e com o Jay. Não é o mesmo sem vocês.

Estico o braço e seguro sua mão, implorando:

-- Volta pra Auradon, Mal. Todos nós sentimos sua falta, principalmente o Ben. Ele não sai do quarto desde que voltamos daqui. O Rei, o Fera, teve que voltar a assumir os compromissos dele até que Ben esteja disposto a voltar. 

Mal abaixa os olhos, não solta a minha mão. Ela aperta um pouco mais forte do que o normal e nesse toque é como se eu sentisse parte do que ela sente no momento: tristeza, raiva, frustração. Quando ergue o rosto na minha direção, vejo seus olhos brilharem por conta das lágrimas acumuladas que ela se recusa a deixar escorrer pelo rosto. 

-- Eu sinto muito a falta de vocês, mas não é o certo. Não posso voltar a um lugar que não pertenço, e também não posso fazê-los sair de lá por minha causa. Não posso fazer o Ben deixar os compromissos de Rei também por mim… 

-- Mas ele te ama… 

-- E eu o amo muito também, de uma forma que jamais imaginei que pudesse. Ainda assim, e provavelmente por isso, não é justo ser uma má influência pra ele. Todos vocês merecem ser felizes. Você entende o que quero dizer? 

Balanço a cabeça em afirmação. Não posso e não irei julgá-la, nunca o faria. A atitude dela diante do amor é algo que considero muito corajoso. Mas eu não poderia deixar de contar o que estava por acontecer, torcendo para que isso a fizesse mudar de ideia.

-- Eu te entendo, Mal, mas não pode sacrificar sua felicidade por nossa causa. Não é justo com você. Você merece tanto a felicidade quanto nós. 

-- Vê-los felizes já é o suficiente pra mim.

-- Não é justo! Por favor, deixe a gente te ajudar a reverter isso, todos juntos podemos melhorar as coisas.

-- Evie, não vou mudar de ideia. Pertenço à Ilha dos Perdidos e acabou -- ela diz em tom sério. Em seus olhos vejo o vislumbre fluorescente verde tomar conta deles antes de desaparecer pouco depois. 

-- Olha, você pode até querer nossa felicidade, só que tem um porém nessa história: a Audrey vai voltar para Auradon.

A expressão dela se endurece por um momento. Penso que por um momento a convenci mudar de ideia e sair comigo da Ilha dos Perdidos. Mas não é o que acontece. Suas feições suavizam em seguida.

-- Bom, -- ela levanta, dando as costas pra mim e indo em direção ao mural inacabado. -- ela vai pegar de volta o que é dela.

-- “Pegar de volta o que é dela”? Mal, estamos falando do Ben, e não da Varinha Mágica da Fada Madrinha. Estamos falando de um sentimento verdadeiro entre vocês! Como pode desistir dele assim tão facilmente, sabendo que vocês se amam?

Mal começa a desenhar os detalhes de seu piche, desenhando os babados do vestido de baile que usou.

-- Às vezes o amor não é suficiente, Evie. Lamento ter que dizer isso, mas é a verdade. 

Fico sem palavras com aquela frase. Não acredito no que ela quer dizer, até porque eu espero um dia poder encontrar meu amor verdadeiro. Sempre acreditei no poder imensurável que esse sentimento é capaz. Poder esse que fez com que o amor que Mal sentiu por nós e por toda Auradon salvasse o reino da destruição que nossos pais fariam com a varinha mágica em posse deles. 

Percorro o olhar pela sala até parar em um chapéu escuro de couro por cima da poltrona. Levanto-me, indo até ele. Emana um odor de peixe e frutos do mar quando o analiso. Já vi esse chapéu antes. Ele se parecia com o que…

Espera aí.

-- O que o chapéu do Harry tá fazendo aqui? -- minha pergunta acaba saindo em voz alta. Escuto o spray que Mal segura parar. Lentamente, ela vira para mim.

-- Eu posso explicar. 

Cruzo os braços, ainda segurando o chapéu em uma das mãos. Mal suspira, descendo da escada na qual usava para desenhar na parede. 

-- O Harry veio aqui ontem. 

-- O quê? Por quê? Ele não te ameaçou não, né?

-- Não, fica tranquila. Ele soube pelos outros moradores locais que eu havia ficado na Ilha enquanto o restante de vocês voltava pra Auradon. Disse, nas palavras dele, que queria fazer um “acordo de paz”. 

-- Harry? Acordo de paz? Isso  não faz sentido.

-- Pois é -- ela se largou de volta na poltrona -- Eu também não entendi muito o que ele quis dizer, além de não acreditar nem um pouco nisso, mas deixei pra lá. 

-- E o que mais ele queria além desse acordo? -- perguntei.

Mal não me encara de volta, olhando para todos os lados como se buscasse uma forma de escapar da pergunta. 

-- Ele fez algo com você? 

Ela parece envergonhada. Desde quando Mal fica corada com alguma coisa?

-- Ele… ele e eu nos beijamos. 

O chapéu escorrega pelos meus dedos.

-- Mal… 

-- Eu não pensei na hora, estava tão… frustrada, com raiva. Ele veio aqui, conversamos por algumas horas e acabou acontecendo. 

-- Mas ele te forçou?

Ela me encara com a expressão culpada. 

Ai, não.

-- Você quis beijar ele. -- ela assente diante da informação. -- Você… você gosta dele?

-- Não, eu… ai, eu não sei, Evie. Nós nunca fomos próximos, mas parece que há algo quando estamos juntos, uma tensão. Eu não sei explicar, é muita coisa na minha cabeça. 

Volto a me sentar no sofá diante dela. 

-- É por conta do Harry que você não quer voltar pra Auradon? -- pergunto calmamente.

Ela nega.

-- Talvez seja apenas mais um motivo também. Não queria machucar o Ben ainda mais, caso ele não encare essa distância como um término, e sim como um tempo que estamos dando.

Surpreendentemente, imaginar Mal e Harry juntos não era algo que me fizesse estranhar, era tão natural quanto ela e Ben juntos, mas sem a questão dos dois serem opostos demais. Quando Uma, Gil e Harry acabavam topando com a gente, acreditava na possibilidade, no começo, de eu e Harry ficarmos juntos um dia, porém, vendo que era tão cruel e se orgulhava disso como seu pai, optei por não investir. Mas ele e a Mal pareciam ser um casal perfeito juntos, claro que  se fosse o caso de Uma não ter conhecimento do relacionamento. 

-- Acredito que Uma ainda não saiba, -- diz Mal, como se lesse meus pensamentos. -- ou já teria vindo aqui tirar satisfação. 

-- Tome muito cuidado com ela, Mal. Não dê mais um motivo para que arranje confusão com você. 

Ela pega a minha mão e a aperta gentilmente, como eu havia feito antes. 

-- Se não tiver confusão, não seria eu, né? Só o fato de eu existir já a irrita, então, não seria algo difícil de lidar. Mas não se preocupe, não vou deixar que a Camarão faça uma tempestade em copo d’água. 

Nós duas rimos. A simples menção daquele apelido era capaz de tirar Uma do sério, algo que deixava Mal satisfeita. 

Vejo pela janela que o sol está quase a pino. É hora de voltar pra Auradon antes que deem falta de mim.

-- Eu preciso ir agora -- digo sentindo a tristeza inundar minha voz. -- Promete que vai ficar bem?

Mal me puxa para um abraço. 

-- Eu prometo. E promete pra mim que vai cuidar do Ben? Não deixe que ele se machuque mais.

Meu coração para por um minuto. Ainda que ela não fizesse aquele pedido, eu o faria de toda forma. Seria algo difícil devido aos sentimentos que cresciam a cada dia em meu coração em relação ao Ben. Lembro do sonho que tive, e do que aconteceu antes de nós virmos para Ilha. Já haviam tantos segredos entre nós, e agora mais este. 

Com toda a sinceridade, respondo:

-- Não vou deixar que nada de ruim aconteça com ele, pode deixar. 

Nos separamos depois de um longo tempo. Ela me acompanha até a porta, enquanto retiro o espelho do bolso. Um barulho de metal no primeiro andar nos assusta e começo a escutar Harry cantando enquanto sobe as escadas.

-- Não posso deixar que ele me veja aqui. Espelho, espelho meu, mostre-me o lugar onde é meu lar.

A imagem de Auradon surge no reflexo. Gesticulo para que o espelho se amplie e, antes que eu adentre, aceno para Mal. 

-- Eu voltarei em breve. 

-- Estarei esperando -- ela sussurra, para que Harry não nos ouça. A última imagem que tenho é dela fechando a porta com os olhos embaçados de lágrimas. 

 

                                                                                                            ***

 

Não sei se o dia passou voando ou se fiquei tão imersa em meus pensamentos que nem o vi passar. Cheguei a tempo em Auradon, antes que vários colegas começassem uma busca por mim também. Não queria que pensassem que aos poucos todos estávamos voltando a morar na Ilha dos Perdidos e rejeitando a oportunidade de viver aqui, principalmente porque eu não rejeitaria. 

Almocei com Carlos, Jay e Jane, que conversavam sobre diversos assuntos à mesa a fim de se distraírem, e tentei interagir com a maioria deles. Ben continuava em seus aposentos, recusando a sair de lá para qualquer coisa. Aquilo já estava preocupante, a ponto da Fada Madrinha ter que ir pessoalmente conversar com ele. Isso foi o que Jane contou pelo menos. Meu coração se apertava com aquela notícia, e mais ainda pelo fato de que a garota que poderia ajudar a reverter a situação não iria retornar. 

Ao longo do dia, enquanto via Jay e Carlos treinarem na aula de esgrima, fiquei pensando em alguma alternativa para poder ajudar Ben a sair daquela situação. Durante o dia seria difícil, mas eu poderia vê-lo na hora do jantar. Talvez se eu levasse algo que ele gostasse de comer poderia facilitar as coisas. 

Ou talvez não, mas eu só saberia se tentasse.

Depois da janta, vou para o meu quarto como uma forma de desculpa para que eu pudesse pensar no que poderia fazer. Eu não conhecia quanto a comida preferida de Ben - vai que ele não tinha? -, o que tornava mais difícil. Tento puxar alguma informação na memória. Talvez cookies não fossem tão úteis e trouxessem memórias ruins devido ao plano que tivemos por influência dos nossos pais. Lembrando mais uma vez do sonho, a imagem do bolo de chocolate surgiu como uma lâmpada em minha cabeça. Talvez eu pudesse fazer brownies, certamente ele iria gostar. Ninguém recusa chocolate quando se está triste.

Troco de roupa, colocando minha camisola e o roupão logo em seguida. Abro uma fresta da porta, olhando o movimento pelo corredor. Quase não há alunos por ali mais. Vejo aos poucos as luzes do corredor se apagando, deixando apenas a luz do luar incidir através das janelas. Espero mais um pouco, e quando não há mais ninguém transitando, saio na ponta dos pés em direção à cozinha no primeiro andar.

Na cozinha, procuro não me demorar muito. Pego os ingredientes com todo o cuidado possível, colocando na bancada enquanto sigo a receita do livro sobre o suporte. Felizmente não era difícil. Em alguns minutos, coloco a forma contendo a mistura no forno e aguardo os 20 minutos necessários. Vasculho a geladeira enquanto isso, encontrando um pão de forma, geleia e pasta de amendoim. Pelo menos é algo para acompanhar o brownie, suficiente para forrar um pouco o estômago. Coloco um pouco de suco de laranja num copo e deposito ele e o prato com o sanduíche numa bandeja. Olho para o relógio na parede. Ainda faltam 15 min! Sinto aquele mesmo formigamento que tive pela manhã, me dando uma ideia. Posso apressar as coisas se quiser usando a magia. Antes que  faça qualquer coisa, a porta se abre e Ben adentra no cômodo.

-- Evie? O que faz aqui a essa hora? 

Não tem como deixar de notar em suas olheiras profundas emoldurando os olhos, o corpo mais magro que antes e a expressão abatida. 

-- Eu… -- penso por um instante em inventar alguma desculpa, mas não acho necessário. Melhor ser objetiva. -- Estou fazendo brownies pra você. 

Ele franze o cenho.

-- Pra mim? Por quê?

-- É que você não tá comendo ultimamente, e olhando agora tenho mais certeza disso, então eu pensei em fazer algo gostoso para que despertasse apetite. 

Ele caminha em direção à bancada, puxando o banco para se sentar. 

-- Obrigada pela sua intenção, mas eu não sinto fome. -- diz, triste. 

-- Ben, eu sei como se sente, eu, Jay, Carlos, todos também estamos da mesma forma. Mas se ainda quer lutar pela Mal, não podemos desistir. Você perdeu um amor, e eu perdi minha melhor amiga. Estamos no mesmo barco.

-- Ela não vai voltar, Evie. Eu sei que você a conhece por mais tempo, mas eu vi isso nos olhos dela. Só que é tudo culpa minha e não haverá um dia em que eu não me sentirei culpado por tudo isso, e… 

Lágrimas começam a rolar pelo rosto. Instintivamente, corro até ele e o abraço por trás, de forma meio desajeitada, mas depois ele suspende os braços e enlaço sua cintura, apoiando meu queixo em seu ombro. Ficamos assim por muito tempo, e temo que Ben esteja sentindo meu coração pulsar incessantemente contra suas costas. Tudo o que eu quero agora é confortá-lo de alguma forma. Não falamos nada por alguns minutos, deixando o ar preenchido apenas com os seus soluços e o cheiro de brownie que começa a tomar conta do ambiente. 

O som de um tintilar faz com que eu me separe dele. Nem tinha percebido que Ben havia entrelaçado os seus braços nos meus. Vou até o forno e retiro a travessa fumegante com cuidado, colocando por sobre a bancada. 

-- O cheiro está maravilhoso -- ele comenta.

Não consigo evitar um sorriso.

-- Acompanha esta nobre amiga em um lanche noturno? Não faria essa desfeita comigo, né?

Ele dá de ombros.

-- Tudo bem, vamos comer.

Se antes eu achava que ele estava com fome, não tinha ideia de que na verdade estava faminto. Em poucos segundos o sanduíche e o suco desapareceram da bandeja, e seria o mesmo destino do brownie se não estivesse ainda quente. Vê-lo comer com tanta avidez me deixou realmente feliz - ainda mais por algo feito por mim.

-- Você acha que ela ainda me ama, Evie? -- a pergunta surge repentinamente. 

-- Eu acho que sim. 

-- Mas por que ela não volta? Se me ama mesmo, por que estamos separados?

-- Ben, você tem que entender uma coisa: nossas realidades foram diferentes das suas, e sempre seremos eternamente gratos pela possibilidade de mudança pela qual você nos proporcionou. Mas há mudanças pelas quais não conseguimos lidar de forma imediata, demanda tempo dependendo da pessoa, e a Mal é assim.

-- Eu sugeri mudar minha rotina para que pudéssemos ficar juntos por mais tempo.

-- Não é tão simples, quem dera fosse. Dê tempo à ela, as coisas irão se ajeitar, mas como eu disse, você tem que estar bem alimentado e vivo, de preferência para quando isso acontecer. 

Ele dá um sorriso fraco, pegando na minha mão. É tão boa a sensação de sua pele na minha, como se ao mesmo tempo algo que transmitisse paz fluísse pelo contato. Contato esse que me faz lembrar outros momentos… 

-- É incrível como você pode me fazer enxergar as coisas de outra forma.

-- Se isso quer dizer que estou lhe ajudando, fico feliz em saber. Amigos são pra essas coisas, não?

-- É -- ele dá um sorriso novamente. -- Eu só queria que tudo tivesse sido diferente.

-- Diferente? Bom, às vezes os caminhos que tomamos nos levam a diversas direções, mas no final… 

-- Queria que tivesse me apaixonado antes por você, Evie. 

Engulo seco. 

Epa. 

Aqui estamos nós de novo.

-- O-o que quer dizer com isso? 

Ben se inclina na minha direção. Estamos tão próximos agora que consigo sentir sua respiração contra meu rosto. A respiração está levemente acelerada, como a minha também.

-- Eu não esqueci o que aconteceu com nós dois aquele dia no ateliê. 

-- Ben, aquilo… 

-- Não foi um erro. Sei que não. E eu fui totalmente sincero, eu sentia algo por você, e acredito que ainda sinta. 

-- Não tem como, você ama a Mal, e ela é minha melhor amiga, nós simplesmente não podemos… -- me interrompo ao lembrar de Mal me contando sobre ela e Harry terem se beijado. Por mais que estranhasse, não poderia julgá-la principalmente por ter beijado seu namorado na época. 

Não queria machucar o Ben ainda mais, caso ele não encare essa distância como um término, e sim como um tempo”, ecoa a voz dela em minha cabeça.

-- E eu sinto que você sente o mesmo por mim, ou você não permitiria que nós dois nos beijássemos. 

-- Isso é mais complicado do que parece.

-- O que você sente por mim?

-- O quê?

Seus olhos se fixam nos meus, o cansaço em seu rosto sumindo aos poucos e dando lugar a uma expressão de curiosidade.

-- Isso aí, o que você sente por mim?

Agradeço pelo ambiente pouco iluminado, ou ele veria o quão vermelha estou. Meu coração já bate tão forte que parece sair do peito.

-- E-eu sinto muito carinho, uma gratidão sem tamanho por tudo que fez e faz por nós, e… eu… -- aos poucos vou me deixando levar pelos olhos ansiosos e densos dele. Quando dou por mim, estou inclinada em sua direção, próxima o bastante para que a ponta de nossos narizes se toquem.

-- Você… ? -- ele sussurra, tocando meu rosto com as costas da mão. 

Aos poucos nossos lábios deslizam suavemente um pelo outro até se transformar em um beijo. Sentir seus lábios na vida real era ainda melhor do que no sonho, sem dúvidas. É como se tudo ao redor desaparecesse, como se o som das corujas e dos grilos do lado de fora sumissem, como se não estivéssemos em Auradon. Todas as minhas preocupações vão desaparecendo conforme nossas bocas se unem e meu coração palpita tanto agora e minhas pernas bambeiam ao ponto em que penso que se estivesse em pé poderia cair. Eu o puxo para mim, ficando contra a bancada, intensificando o beijo. Meus braços ficam ao redor do seu pescoço enquanto sinto seu toque através do tecido em minhas costas. Talvez soe como contos de fadas, mas a verdade é que os toques dele, ainda que o tecido faça uma barreira fina entre sua pele e a minha, deixam um rastro de energia que me remete à sensação da magia fluindo por mim: algo incrível, maravilhoso e intenso, como se essa sensação guiasse minhas atitudes. Sua mão vai para a parte de trás da minha cabeça, deslizando até aninhar meu rosto de forma gentil.

Interrompemos o beijo por um instante, encostando a testa um no outro.

-- É como se… -- sussurro de olhos fechados. Minha respiração está muito acelerada, as palavras quase embaralhando ao sair. -- … nós fôssemos conectados de alguma forma. 

-- Eu sei. E não só por conta do beijo, mas sempre senti algo por você que não consigo explicar, desde a primeira vez. Só que eu não tinha noção do que poderia ser. É uma espécie de… 

-- Ímã - completei. Ele assente.

-- Se você não estivesse mais aqui, eu não sei como poderia… 

Pouso meu indicador contra seus lábios, silenciando-o. 

-- Eu sempre estarei aqui, por você e por Auradon. Nunca se esqueça disso.

Beijo ele novamente de leve, afagando seus cabelos. 

-- Passe a noite comigo -- sugere, com os olhos me implorando para que eu concorde. 

-- Eu adoraria, mas podem nos encontrar e as coisas podem ficar… complicadas, entende? Não quero que pensem que estou sendo fura-olho da Mal e nem nada.

-- Não devemos explicações para ninguém, Evie.

-- Vamos deixar as coisas se acalmarem mais, aí poderemos lidar com isso da melhor forma possível, tudo bem?

Relutante, ele concorda. Por fim comemos o brownie já frio e igualmente delicioso que está sobre a bancada. Enquanto ele se dissolve em minha boca, não posso deixar de pensar em como as coisas seriam daquela noite em diante, como seria lidar com os sentimentos praticamente assumidos entre nós dois, a relação secreta de Harry e Mal, o possível retorno de Audrey. 

Mas neste momento isso tudo não importa, pelo menos não enquanto Ben e eu recomeçamos a nos beijar e tudo ao nosso redor desaparecer. 


Notas Finais


Espero que tenham gostado, e se possível, comentem. Isso incentiva demais a escrever mais capítulos, sem dúvidas!
Beijinhos e obrigada por ter lido!


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