História You are my clarity - Capítulo 21


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Categorias Stranger Things
Personagens Chefe Jim Hopper, Dr. Martin Brenner, Dustin Henderson, Eleven (Onze), Jonathan Byers, Joyce Byers, Kali "Eight" (Oito), Karen Wheeler, Lucas Sinclair, Maxine "Max" Mayfield / "Madmax", Mike Wheeler, Nancy Wheeler, Personagens Originais, Sam Owens, Steve Harrington, Will Byers
Visualizações 53
Palavras 5.662
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Ficção Científica, Mistério, Romance e Novela, Suspense
Avisos: Álcool, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Spoilers, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Adivinha quem resolveu dar o ar de sua graça aqui hoje com um capítulo fresquinho? Nope, não foi a Madonna ou a Camila Cabello (fada cubana dos céus). Sim, sim, fui euzinha aqui. O capítulo tem uma média de palavras que me agradou bastante e, por incrível que pareça, eu consegui fazer com que todos os personagens interagissem em algum momento e não os deixei de lado (por que eu tenho esse habito horrível).

E com vocês, meus amores, o capítulo a partir do ponto de vista do Mike e com algumas participações especiais como: as priminhas da El, Nissa/Nine, Brenner (esses dois não são tão especiais; são detestáveis) e... ~ rufem os tambores  ~ nossa garota apaixonada e guerreira: Eleven.

Uma perguntinha antes de começar o capítulo: quem ai quer ver a Nissa levando uma surra? Se alguém tiver esse desejo, acredito que hoje pode ser seu dia de sorte.

❤❤❤

Capítulo 21 - Como reconhecer um semelhnte de dor


21 de dezembro de 1987

"Você não parece bem. Tipo, você é um dez na escala da aparência merda da galáxia."

Will, sentado ao lado dele na imponente varanda da casa de Becky observando uma discussão nada produtiva entre Dustin e Ten, bufa em desdém para a afirmação dele. Mike não estava brincando ou tentando quebrar o frio silêncio que pairava entre eles (okay, talvez esse fosse um dos motivos dele); era verdade — ele estava horrível.

Olheiras escuras, olhos verdes cansados e o cabelo castanho, que sempre era cuidadosamente penteado para mostrar quão certinho ele era, estava quase tão bagunçado quanto o de Mike. E isso sem falar na palidez. Enquanto todos eram naturalmente pálidos — exceto El; ela era a única que não precisava pegar sol para se bronzear —, Will sempre tinha um rubor saudável nas bochechas. No entanto, não havia sinal de rubor naquele momento. Ele parecia um cadáver que estava a esperava de uma alma caridosa o empurrasse para o descanso eterno.

Mike se lembrava de Jonathan tendo uma aparência parecida há anos atrás, quando o próprio Will estava desaparecido. Jonathan era um pouco mais determinado enquanto Will só parecia perturbado, mas era a mesma aparência. Só um cego negaria isso.

"Você também não parece muito melhor, Wheeler." Will desdenha roucamente em resposta. "Minha irmã correria para longe, com medo de você ser um zumbi comedor de cérebros se te visse agora."

Concordou em silêncio. É, ele também não estava muito atrás de Will no quesito aparência lamentável. As mesmas olheiras, a mesmas palidez e o cansaço evidente. Fazer o quê? As noites dele estavam sendo uma merda de tão longas e o dia a dia em uma casa repleta de pessoas que o enchiam de tarefas para que ele não pudesse pensar muito não ajudava em nada.

"Está assumindo que a minha irmã te largaria, Wheeler?"

"Pff, claro que não!" Se apoiou contra uma das vigas que davam sustentação ao telhado da varanda. "Sua irmã me ama."

Os dois se calaram por alguns segundos, contemplando Ten acertar um soco visivelmente fraco no ombro de Dustin e o jogar alguns centímetros para longe de si. Ten não queria machucar Dustin realmente.

"É, ela te ama. Não vou me surpreender nada se dentro de quatro anos vocês dois estiverem se casando e tendo filhos." Will suspira e, pelo canto do olho, Mike o vê franzindo o cenho para algo não dito. "Você tem tido pesadelos nos últimos dias?"

Balançou a cabeça positivamente, a mão voando para acariciar a área em que Ted tinha acertado-o há alguns dias atrás.

"Todas as noites. E você?"

"Todas as noites e todos os dias. Também tenho pesadelos quando estou acordado. Isso é possível?"

Uma pessoa atormentada sabe reconhecer outra pessoa que é atormentada pelo mesmo motivo, é por isso que Mike não se sente surpreso com o fato de Will estar tendo pesadelos.

"Quais ruins são os seus?"

"Ruins o suficiente para me fazer querer correr para a cama da minha mãe e pedir o colo dela." Will faz um ruído deselegante com a garganta. "Ruins o suficiente para me fazer querer sonhar com o mundo invertido de novo. Pelo menos assim o sonho só envolvia a mim e não..."

"Envolviam a sua irmã. Adivinha? Os meus também são sobre ela. Todas as noites, sem falha. As vezes parecem só sonhos, mas ao mesmo tempo tem uma realidade assustadora neles."

"O sangue, a dor; tudo parece horrível demais para ser coisa inventada pela cabeça." Will concorda. "Tudo é sempre tão ruim."

Estava além de ruim e sequer se enquadra na definição de horrível e asqueroso. Mike sempre tinha visto os sonhos que ele tinha com El como uma dádiva, uma outra forma de estar perto dela e de adorá-la. Mas ultimamente as coisas não vinham sendo assim. Dormir e sonhar com El não era mais um deleite.

As vezes os sonhos seguiam sua essência natural, cenas criadas pela mente de um adolescente cheio de hormônios, apaixonado e exausto. Outras vezes (a maioria delas) eram coisas ruins e sangrentas que faziam-no acordar ofegante, as imagens gravadas no fundo do cérebro e prontas para atormentá-lo durante o restante do dia.

Apoiou a cabeça contra a viga, os olhos fechados enquanto derivava em direção ao pesadelo da noite anterior.

No pesadelo daquela noite El estava sentada sobre um velho e bolorento colchão, os cotovelos apoiados sobre os joelhos. Seu lindo vestido de inverno, aquele que ela estava usando quando se jogara contra ele e o beijara há quatro dias atrás, tinha sido substituído por jeans e uma camiseta branca tão curta, tão apertada e tão fina que mal podia ser chamada de camiseta. Havia sangue nas roupas dela, sangue demais para o gosto dele.

El estava encarando os próprios braços e Mike, agachando-se diante dela, se pôs a fazer a mesma coisa. Hematomas, escoriações leves e alguns pequenos e estranhos pontinhos que se pareciam muito com as marcas deixadas por injeções. O rosto dela estava machucado e, a julgar o modo como ela se sentava duramente e evitava a todo custo se mover, as pernas também não estavam em melhores condições.

Ela parecia ter perdido pelo menos dez ou quinze quilos (isso era possível em quatro dias?), os cachos curtos e gordurosos balançando tristemente à cada vez que ela respirava fundo. Os lábios dela se moviam sem que nenhum som saísse — como se ela estivesse fazendo orações, conversando com si mesma ou cantando.

Mike ergueu uma mão para traçar a face dela, para ver se podia tocá-la e se ela poderia senti-lo, mas acabou por se deter quando uma porta que fica no canto oposto do quarto, se abriu para revelar Nine. Ela, que ainda vestia as roupas apertadas que costumava usar para transitar na escola, entra mancando com os pés envoltos em saltos negros e um curativo feito às pressas.

"Jane" Os saltos dela tilintam pelo ambiente desprovido de som quando ela se aproxima de El. Mike quer empurrá-la para longe, mas algo no fundo do cérebro dele o informa de que fazer aquilo não renderia em nada além decepção. "É a sua vez de colaborar conosco. Papa quer ver você, pequeno experimento perfeito. Vamos."

El não se levantou do colchão, permaneceu sentada exatamente onde estava. O único movimento que ela fez para indicar que tinha escutado a ordem foi mover a mão a uma altura boa o suficiente para que Nissa pudesse enxergar com clareza o gesto obsceno direcionado a ela. Lucas tinha ensinado aquilo à El e, embora na época Mike tenha ficado hesitante, agora ele se sentia orgulhoso. Essa era a garota dele: indomável.

O orgulho de Mike não dura nem mesmo cinco segundos completos e logo a preocupação surge. O rosto de Nine está vermelho, quase roxo de pura fúria. Em um piscar de olhos, mesmo com o pé manco e ferido, Nine atravessa a sala e obriga El a ficar de pé. Normalmente quando se obriga alguém a ficar de pé usá-se o braço como ponto de apoio (Mike sabe disso por que o pai dele já o fez muitas vezes para o obrigar a se levantar da mesa de jantar ou do sofá da sala de estar), no entanto, para o horror dele, Nine escolhe usar o pescoço de El para fazer aquilo.

As juntas das mãos de Nine estão brancas contra a pele bronzeada e vermelha do pescoço de El, o aperto que ela exerce é visivelmente forte o suficiente para sufocar. El não parece muito preocupada com uma possível morte por sufocamento. Ela encara Nine nos olhos, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado com um sorrisinho nos lábios rachados.

"Você está sorrindo, Jane?" Nine diz ofegante, o rosto contorcido em um esgar de insanidade. "Está tão louca para morrer que já está rindo quando alguém te sufoca?"

"Estou rindo de você, Nine. Essa sua irritação é algo da sua essência ou esse é o efeito que eu tenho sobre você?" El inclina a cabeça um pouco para o lado, um falso ar de inocência. "Além do mais, é muito bom ter você assim tão perto de mim."

Mike franze o cenho para o tom de El. Ela soa satisfeita consigo mesma, como quando o induzia a abandonar o dever de casa e dar atenção a ela ou como quando um plano traçado por ela e por Max saia do jeito como tinham planejado.

"Que é isso, Eleven? Virou lésbica ou o quê? Acho que o seu cérebro fritou de vez, perfeitinha." Nine zomba. "Talvez o papa deva diminuir a voltagem do seu eletrochoque."

O estômago de Mike revira com a palavra eletrochoque. Ele não quer acreditar que seja verdade, que estejam usando choque para persuadir El a fazer algo.

"E eu acho que você é uma vadia muito burra."

Para alguém que estava em um estado tão letárgico e apático há menos de um minuto o movimento realizado por El é assustadoramente rápido. A cabeça dela colide com a de Nine que, chocada e rugindo de fúria, se afasta alguns passo e curva-se para massagear o local onde El a acertou. Mas El ainda não acabou. Ela dá um forte pisão no pé em que Nine usa curativo e, sem dar tempo para que a outra respire, ergue o joelho fazendo-o colidir contra o estômago dela.

A porta está aberta e Nine está impossibilitada de impedi-la: é a chance perfeita para El fugir. Mas, para a frustração de Mike, ela não o faz. Permanece grudada contra a parede, ofegando enquanto pequenas linhas de sangue começam a surgir de seu nariz e de suas orelhas.

"Vamos, El" Encorajou mesmo sabendo que ela não iria escutá-lo. "É a sua chance. Você pode fugir, a porta está bem ali, está vendo? Só alguns passos e você consegue fugir."

Com os olhos arregalados, Mike observa El escorregar pela parede até estar em sua posição inicial. Ela está respirando com dificuldade, o corpo trêmulo. Oh, Deus, ela não tem forças para tentar fugir; ela não tem forças o suficiente nem para ficar em pé sozinha e sem apoio.

"VOCÊ FICOU LOUCA?!" Nine urra em indignação, avançando para acertar um chute do qual El consegue se desviar. "PERDEU A NOÇÃO DO PERIGO?"

"Talvez eu tenha ficado louca, quem sabe? Louca como a minha mãe." El consegue esboçar um sorriso brilhante e orgulhoso. "Mas você tem que admitir que essa louca conseguiu te causar muita dor sem sequer usar os poderes."

Nine bufa, a testa vermelha da colisão com El.

"Então isso é sobre os seus poderes?" Nine ri com deboche. "Os poderes que você não pode usar a não ser que eu queira?"

"A não ser que Brenner queira. Você não manda em nada. É só um fantoche que ele vai descartar quando conseguir o que quer." Ela retruca roucamente. "Mas isso é sobre como posso te derrubar quando eu quiser, que você não é tão boa como eu nem mesmo quando estou sem os meus poderes."

"Eu vou te matar..."

"Não, não vai." El estala a língua. "Eu vou te matar. A você e ao seu irmão traidor. Vocês não vão ver o que os pegou, apenas vão saber que fui eu."

Mike recua alguns passos para trás, assustado com o tom de voz usado por El. Ele nunca tinha ouvido ela falar daquele jeito, com tanta dureza e sede de vingança. Claro que uma parte dele achava aquilo altamente sexy, como se ela fosse uma deusa destruidora magnífica que no auge de sua derrota total prometia uma revanche dolorosa aos inimigos, mas outra parte dele não pôde deixar de pensar como aquilo tudo estava afetando ela. El não era uma pessoa vingativa, não era aquela pessoa que estava falando.

Os olhos claros de Nine se semicerram e ainda estão assim quando Brenner entra na sala. Sua expressão em branco permanece assim mesmo quando ele arqueia uma sobrancelha para a cena das duas garotas.

"Pensei ter dito para você vir buscar a Eleven, Nine, mas pelo visto você não consegue fazer nem mesmo isso."

Nissa/Nine pestaneja, claramente magoada.

"Papa, ela não quis vir..."

"Não há nada a ser explicado, Nine." Brenner se ajoelha diante de El, os lábios tão pressionados que parecia uma linha reta. "Boa noite, Eleven, pronta para colaborar conosco?"

Observou El fuzilar Brenner, seus olhos castanhos brilhando com um fogo de puro ódio (e um pouco de medo) durante três ou quatro segundos até que ela vire o rosto para o outro lado. Brenner respirou fundo para aquela reação, a mão direita mexendo em algo dentro do bolso interno do blazer negro.

"Você precisa parar com esse comportamento pouco colaborativo, Eleven. Não gosto quando meus filhos agem desta forma."

A mão de Brenner sai de dentro do blazer e Mike sente um calafrio ao ver uma seringa metálica brilhar sob a fraca luz do ambiente. El, abandonando sua pose, choraminga baixinho quando ele pega o braço dela, a puxa para perto de si e enfia a seringa em seu braço. Ela estremece, reluta por alguns poucos segundos até que seu corpo esteja completamente mole e sem nenhum indício de vida que não seja sua respiração escassa.

Mike quer puxá-la para si, quer ser ele a carregá-la nos braços (muito embora fazer isso o tornaria sem fôlego por sua essência nerd), mas é Brenner que faz isso e ver aquele velho fazendo tocando em El torna-o enojado. Ninguém deveria tocar em El sem o consentimento dela, principalmente quando ela não estava consciente do que estava acontecendo.


A vida estava sendo difícil, horrível, mas Mike não podia deixar de pensar que, mesmo que melhorassem, as coisas nunca voltariam a ser as mesmas. El voltaria quebrada, não seria mais a mesma que tinha sido antes. Tudo o que estavam fazendo com ela era cruel demais para não ter cicatrizes futuras, lembranças dolorosas que iriam perturbá-la.

Mike daria o mundo para El não ter sequelas de tudo o que Brenner estava fazendo com ela, mas não era como se isso fosse possível. Seriam mais cicatrizes para a extensa lista das que ela já tinha.

"Você acha que ela vai me odiar quando voltar para casa?" Will indaga hesitantemente. "Acha que ela vai conseguir olhar para a minha cara?"

Abriu os olhos para o mundo real e encarou Will, a mente dolosamente lenta trabalhando para longe do pesadelo da noite anterior e se voltando processar para o que tinha acabado de ouvir. Will... Oh, sim! Um dos problemas principais: o medo de que El o odeie.

"Cara, a El não pode te odiar. Nunca." Pelo menos não a você, pensou se lembrando da forma como El tinha prometido morte a Nissa. "Ela te ama como se fosse sua irmã de sangue. O sangue, na verdade, é algo que nunca fez muita diferença para El no que diz questão à família."

"Eu sei é só que..."

"Max é teimosa e ainda não te perdoou, acabou induzindo o Lucas a seguir ela, mesmo a contragosto e o Dustin ficou com medo de se aproximar?" Se ajeitou para encarar Will de uma forma mais direta e que pudesse passar a ele certeza. "Não embarca na onda deles. Ninguém pode te culpar por isso. Só a El e eu duvido que ela vá fazer isso."

Will ainda parece incerto com relação ao que Mike está falando para ele. Na verdade, ele parece incerto sobre muito mais do que apenas El — o mundo dele parecia estar cheio de incertezas.

Pensou em tudo o que o melhor amigo tinha vomitado sobre ele na noite anterior, durante sua perturbadora confissão desesperada. Ele falou algo sobre ter terminado o namoro e... Sobre um garoto o ter beijado. Essa parte era no mínimo curiosa, Mike até queria perguntar sobre ela, mas temia invadir o espaço de Will, de causar pânico nele. Will era sensível e ele não queria assustá-lo com perguntas para as quais ele não estava preparado; com perguntas para as quais talvez ele ainda não soubesse responder.

É, talvez fosse melhor deixar isso de lado e focar na questão mais importante e que, junto às preocupações por causa de El, tinha sido a causa da demora dele em cair no sono.

"O que vocês estão fazendo aqui? Não me leve a mal, adoro que vocês estejam aqui, mas... Porquê?"

Will, se possível, empalidece ainda mais e Mike não tem certeza se isso é por causa da pergunta ou do frio. Francamente, estava fazendo um frio congelante e, enquanto todos estavam agasalhados, Will vestia apenas uma velha camiseta de flanela que provavelmente pertencera a Jonathan. Ele estava querendo ter hipotermia ou o que?

"E-eu... Minha irmã me pediu..."

"O que a El te pediu?"

"Ela me pediu para ficar de olho em você." Ele diz depois de um longo tempo dedilhando a costura da calça jeans. "Na carta, ela me pediu para ficar perto de você e te ajudar no que você precisar."

Mike já contou meias verdades o suficiente para saber reconhecer uma. No entanto, ele decide não contesta ou pedir pela versão completa da verdade que Will prefere guardar para si. Se Will não queria contar estava tudo bem — a terceira guerra mundial não iria começar por causa disso. Além do mais, era melhor ter o amigo dele ali, pertinho e apoiando-o, do que em Hawkins. Estar sozinho era uma merda.

"Cara, por que você trouxe o Dustin?" Apontou para o amigo cacheado que agora tentava recuperar o boné que Ten roubara dele. "E o mais importante: como você conseguiu aguentar ele e o Ten no mesmo carro? Eu estou longe dos dois e já estou considerando acertar um tiro na cabeça de um dos dois."

Will ri. É uma risada alta o suficiente para fazer Ten e Dustin darem uma pausa na discussão e também para fazer Mike ficar estático por alguns segundos. A risada de Will é natural e apazigua um pouco o peso que paira no ar.

"Cara, eu não devia ter te ensinado a atirar. Você ficou muito agressivo. Não pode ficar dizendo que vai atirar na cabeça dos outros por qualquer coisa, as pessoas vão achar que você é um sociopata ou um mentalmente perturbado com posse de arma." O de olhos verdes brinca com leveza. "Enfim, eu decidi trazer o Dustin por ele ser o menos suscetível a sucumbir ao que a Max pensa. O Lucas também teria vindo mas, você sabe, a Max domina completamente ele."

Aquilo estava certo. Apesar de já ter tido uma paixão para lá de platônica por Max, Dustin tinha superado isso de um jeito bonito. Ele tinha superado tudo e, apesar de concordar e na maior parte do tempo ficar do lado de Max, não permitia que ela se colocasse acima da opinião dele. O que ele pensava se sobressaia ao que Max pensava e queria; ao contrário de Lucas — ele, independente do que fosse ou pensasse, seguia Max e o que ela falasse.

Era isso que Mike não entendia. Ele também tinha uma namorada e não era necessário ficar concordando com tudo o que ela dizia para que os dois ficassem bem. A opinião deles era diferente sobre algo? Okay. Os dois teriam um diálogo saudável e se não chegassem a uma conclusão deixariam o assunto de lado, cada um permanecendo com sua opinião. O pai de Lucas tinha feito-o acreditar que o relacionamento dele só estaria a salvo se ele concordasse e desse tudo o que Max queria; era um pensamento retrógrado, mas que Lucas seguia sem hesitar.

Há um comentário não muito bondoso na ponta da língua de Mike que ele acaba por engolir quando a porta atrás deles se abre com um rompante. Maryse e Marlize Ives-Sunt. As priminhas de El tem cabelo castanho cacheado, olhos verdes e rostinhos gorduchos; elas são idênticas a não ser pelas roupas e lacinhos que usam na cabeça. Elas são bonitinhas, uma junção de Becky e de seu marido.

Elas avançam com altivez, muito embora uma delas muito notoriamente esteja forçando a outra a ter a mesma postura. A mais tímida, que está sendo rebocada pela mão, o lembra um pouco de El quando ele a encontrou pela primeira vez. Pequena, olhos arregalados e assustados, mas mesmo assim seguia em frente (mesmo que obrigada pela irmã).

"Olá" A mais altiva cumprimenta avaliando-os com o olhar. Ela usa um lacinho azul na cabeça e Mike tem a vaga lembrança de El falando que a pequena Marlize adorava coisas azuis. "Certo, qual de vocês dois é o irmão da Jane?"

"Esse aqui não é." A outra, que usa vestido e lacinho rosa e que ele julga se chamar Maryse, aponta para Mike. "Ele vive beijando a Jane quando ela está aqui. Mike, não é?"

Mike cora com a percepção da menina. Quando esteve ali ele nunca prestou muita atenção a nenhuma delas, estava ocupado demais sendo encurralado por El no quarto dela e beijando-a como se o mundo fosse acabar (ninguém poderia culpá-lo se El tinha lábios bastante beijáveis e mãos altamente persuasivas). Mas, aparentemente, as menininhas tinham prestado atenção nele.

"E aqueles dois também não podem ser." A de lacinho azul murmura lançando um olhar superior para Ten e Dustin. Como alguém com menos de cinco anos já se sentia superior a alguém? "São idiotas demais para ser da família da Jane."

"Ei" Repreendeu. "Eles são meus amigos."

"E você o cara que a Jane joga contra a parede e beija. É nojento."

"Você viu ele fazendo algo além de beijar a Jane?" Will interroga a menina. "Algo com as mãos ou os lábios em outro canto que não fosse a boca dela?"

"Nunquinha."

"Oh, okay. Isso é bom. Então eu sou o irmão da El... Jane." As duas garotas se agitam, murmurando entre si. "Will Byers."

A garotinha de rosa avança para perto de Will e entrega a ele uma das duas folhas de papel que vinha segurando. Como Mike não tinha notado o papel antes?

"Jane diz que você desenha muito bem. Foi você que desenhou isso?"

Mike se inclina mais para perto, para ter uma visão melhor do desenho. Era uma imagem lúdica de uma garota de olhos grandes e inocentes, vestida com um vestido que parecia uma mistura de medieval e atual. A garota do desenho tinha cabelo cacheado enfeitado por flores púrpura (uma das poucas partes coloridas do desenho) e segurava um cajado que exalava uma fumaça mística tricolor que a rodeava. Uma maga. El era a maga deles e Will tinha feito um desenho para ela.

"Fui eu" Will traça as pequenas flores no cabelo da maga. "Fiz isso quando nós tínhamos quatorze anos. Essas flores poderiam ser melhores e o cetro um pouco menos rústico..."

Mike não consegue ver os mesmos defeitos que Will. Para ele o desenho era perfeito.

"Você pode ensinar a minha irmã?" A garota de lacinho azul pede, impaciente. "Ela quer ser uma artista."

"E as feições estão um pouco arredondadas demais." Will continua divagando. "Muito estranhas..."

A garota de lacinho azul bufa e, impaciente, toma o desenho das mãos de Will. Ela resmunga alguma coisa sobre os garotos serem idiotas antes de chutar o joelho flexionado dele.

"Marlize!"

"Ouch! O que... Por que...?" Will choraminga.

"Ele me ignorou" A menina ergue o nariz, petulante. "Ninguém me ignora. Vem, Maryse, vamos embora."

"Eu quero que ele me ensine a desenhar bem" A outra lamenta com a voz dengosa. "Não quero ir, Lizzie, não quero."

"Mas você vem, nós vamos para o galpão. Você gosta de lá, certo?"

"Gosto, mas ele sumiu. Não está mais lá."

Isso totalmente atrai a atenção de Mike. Ele agita as mãos, como se tivesse sido picado por uma abelha, a mente em frenesi completo. A agitação dele chama a atenção de todos e logo as gêmeas, Will, Dustin e Ten estão ao redor dele. Todos estão observando-o, curiosos.

Aquela informação é ótima! Quer dizer é ruim em um sentido, mas ótima em outro. Se elas estivessem falando sobre o mesmo galpão que El tinha descrito no diário elas poderiam ser de alguma serventia. Elas poderiam dizer se o galpão era real, se ele tinha seguido o caminho errado ou algo do tipo. As gêmeas podiam ser a salvação dele (ou, em caso de uma resposta ruim, a destruição da sanidade dele, mas Mike estava tentando não pensar nisso).

"Vocês duas" Apontou para as duas crianças. "O galpão que vocês estão falando fica a leste daqui? Tipo, uns vinte minutos?" As duas se entreolharam, confusas. Oh, sim. Elas são jovens demais para saber os pontos cardeais. Apontou na direção leste. "O galpão, ele fica naquela direção? Vocês têm que caminhar pela floresta para chegar até ele, certo? Mais ou menos vinte ou trinta minutos?"

As meninas acenam positivamente.

"Certo. Você" Apontou para a menininha de rosa. "Você disse que ele sumiu. Foi do nada ou tem alguma sujeira que possa mostrar que foi destruído com máquinas?"

"Mike, você parece um louco." Will diz e Dustin concorda. "Você está assustando as crianças."

"Não está não." A pequena Maryse contra-argumenta. "Ele sumiu. O galpão. Puff! Sumiu no ar. Como se..."

"Se nunca tivesse existido."

Sorriu para as meninas e as tomou em um abraço apertado, grato pelo grande auxílio (embora elas não saibam) que tinham fornecido a ele com aquelas informações. Ambas riram e pareciam surpreendentemente encantadas quando ele as colocou no chão.

Mike ainda estava a todo vapor, ligado na potência máxima de seus pensamentos. Ele era um carro a 200 km/h em uma estrada vazia e sem nenhum empecilho a frente, nada poderia pará-lo naquele momento e se algo se metesse na frente dele seria atropelado. Algo estava muito errado naquela história. As meninas não mentiriam e muito menos El; o galpão realmente existia e ele tinha sumido do nada. Mas... Isso não era possível. Muito longe de possível. Uma construção enorme, provavelmente de não menos do que dez anos, não podia simplesmente evaporar no ar sem deixar sequer resquício de sua existência.

Andou de uma ponta para a outra da varanda, se desviando de quem se interpusesse em seu caminho. Nem mesmo o melhor ilusionista podia fazer uma enorme construção sumir por mais de duas horas seguidas — uma hora a ilusão tinha que acabar. Mas Brenner não tinha ilusionista trabalhando com ele; ele tinha seus experimentos. Tinha Nine e... Será que ele tinha mais alguém com ele? Será que esse outro alguém ou até mesmo Nine poderia fazer com que o galpão sumisse das vistas de pessoas indesejadas? Isso seria genial. Horrível (digno de um psicopata), mas ainda assim genial.

Se voltou para Ten e viu que ele estava encarando-o. Ten parecia ter entendido o motivo do vai e vem de Mike, parecia ter compreendido. Ele, de todos ali, era o menos confuso.

"Nine" Mike exalou o número de datação científica pelo qual tinham nomeado a garota loira, a irmã de Ten. "Ela pode fazer isso? Pode mexer com a mente de alguém para fazer ela enxergar ou não enxergar algo?"

"Não" Ten responde quase que imediatamente. "Quem pode fazer isso é a Eight. Ela cria ilusões, imagens. Esconde coisas e as faz aparecer quando quiser."

"Ela está com o Brenner?"

"Não por vontade própria. Brenner a pegou há alguns meses, a manteve a pão, água e sedativos."

"Você acha que ela poderia estar fazendo isso?" Acenou exageradamente para indicar uma construção imaginária invisível e fora de olhares. Ele não percebeu a expressão confusa dos outros espectadores; estava focado demais em El, na possibilidade de estar no rastro dela. "Acha que ela poderia sumir com tudo?"

"Eight é uma ilusionista natural, provavelmente sim. Muito possivelmente." Ten pondera. "Você acha que ela está escondendo o galpão daqui?"

"SIM! Seria uma grande jogada, certo? Assim ele poderia se safar, ficar com os experimentos que ele quer e ainda não ter a necessidade de ficar se preocupando com alguém o encontrando."

"Grande jogada." Ten concorda. "Você sabe que não é uma certeza eles estarem fazendo isso, não é, Wheeler?"

"Totalmente é uma certeza. Eu sei que é isso, que estamos na pista certa."

Em busca de apoio, se voltou para Dustin e Will. Eles estavam parados, lado a lado, parecendo perplexos. Dustin era o mais perplexo já que Will, se bem avaliado, parecia mais curioso do que qualquer outra coisa.

Nenhum dos dois sabiam sobre o que Mike e Ten estavam falando, mas Will provavelmente tinha levado em consideração a empolgação desenfreada de Mike. Ele não ficaria tão excitado se não fosse por algo relacionado a El. Quase era possível ver as engrenagens girando dentro da cabeça dele, trabalhando furiosamente para encontrar uma medida certa entre esperança e curiosidade.

"Mike" Dustin apoia a mão amigavelmente no ombro dele. "Você andou usando drogas ilícitas essa manhã? Ou foi alguma droga lícita? Álcool?"

"Drogas?" Ten franziu o cenho. "Mike, Will?"

Os dois garotos citados reviraram os olhos para Dustin e tranquilizaram Ten com poucas palavras.

"Que mané drogas, Dustin! Foca no que importa aqui. Sobre o que era tudo isso?" Will pergunta, os olhos verdes arregalados e brilhantes e as bochechas coradas. "É sobre a Ellie, certo? É sobre a minha irmã? Vocês... Descobriram algo sobre ela?"

Mike não consegue se impedir de sorrir e essa é claramente a única coisa que Will precisa para confirmar seus questionamentos. Muito embora não saiba nada, um sorriso também surge nos lábios de Will. Ele está automaticamente empolgado com a possibilidade de encontrar a irmã, assim como Mike está com a possibilidade de encontrar a namorada.

Com a língua enrolando e o cérebro demorando para acompanhar a rapidez com que a boca estava trabalhando, Mike repassa para Dustin e Will as informações que ele tem, tudo o que El escreveu no diário dela e a conjectura que ele e Ten tinham acabado de criar nos últimos minutos. No final de tudo Dustin está com a boca ligeiramente retorcida em direção a Ten e Will parece... Parece ter sido atingido pela luz divina. O rosto dele está iluminado, do mesmo jeito que fica quando ele tem um esboço em mente e não pode se segurar para colocá-lo no papel.

A boca de Will então se abre em um grande "O" de choque e antes que qualquer um possa processar o que diabos foi isso ele começa a usar todos os palavrões possíveis para definir a si mesmo. "Burro" e "estúpido" são duas palavras bastante proferidas.

"No diário que ela deixou comigo" Ele finalmente fala. "Ela também descreve esse galpão. Descreve com todos os detalhes possíveis. Os cômodos que existem, quantos existem, como se parecem e o que existe dentro. Então..."

"Então se for o galpão onde Brenner está com ela..."

"Com certeza é esse galpão, Dustin. Ela está lá. Eu tenho certeza."

Eu quase posso sentir.

"Certo, Mike, você tem certeza e, se as informações do diário dela estiverem certas, nós temos a planta do lugar. Isso é ótimo, cara, mas..." Dustin hesita, não querendo destruir a alegria de Will e Mike. Era a primeira vez em dias que qualquer um dos dois sorria com tanto. Ele não quer ser a pessoa a fazer isso. "Mas..."

A expressão de ambos, de Mike e Will, cai para decepção pura. Era como se a mente dos dois estivesse conectada e eles tivessem chegado a mesma conclusão ao mesmo tempo.

"Mas nós não sabemos como encontrar. Estar invisível e não tem como encontrar algo invisível."

Os dois garotos têm reações diferentes depois de afirmar aquilo em voz alta: Will cruza os braços e murcha enquanto Mike avança e se põe a chutar a parede da varanda. O plano dele tinha ido por água abaixo e ele nem tinha sido colocado em execução. Dustin tinha conseguido esmagar a esperança dele.

"Talvez" Dustin tenta desesperadamente levantar os ânimos dos dois amigos. "Talvez se a gente andar com os braços estendidos a gente possa esbarrar nele."

"Eu já tentei isso e a única coisa que eu consegui foi me sentir um completo idiota." Mike solta um grunhido logo em seguida a isso e apoia a testa contra a parede. "Idiota, idiota!"

"Vamos, caras, vocês não podem ficar assim."

O desespero de Dustin é tanto que ele olha para Ten em busca de ideias. Ele odeia Ten, mas a questão aqui é sobre os amigos dele e El e Dustin faria qualquer coisa pelos membros do partido e, principalmente, por El. Aquela pequena comedora de eggos tinha o coração dele nas mãos dela (no bom sentido, no sentido amizade).

"Ei, babaca!" Porra, Dustin, você não pede a ajuda de alguém ofendendo ela. "Ten! Ei, Ten! Você não poderia, sei lá, farejar o rastro da El?"

"Não sou um cachorro!" Ten responde, os olhos claros fixos sobre Mike. "Mas eu acho que talvez eu possa sentir o rastro dela."

Isso atrai a atenção de Mike e Will.

"O que? Que rastro?"

"Você disse que seu lance eram as emoções." Mike funga. "Como você poderia seguir o rastro de alguma coisa?"

"Emoções deixam rastro, você sabia? Geralmente uma pessoa em específico, em determinadas épocas, tem uma sequência de sentimentos. Uma ordem. Raiva, medo. E, enfim, esses sentimentos geralmente são iguais se não existisse uma variante de personalidade. Bom, era isso que Brenner falava para mim." Ten explica. "Se eu passar um tempo perto de uma pessoa eu posso determinar as emoções dela e..."

"Que porra de idioma você está falando? Grego? Sim, por que o nosso idioma não é."

Mas Mike meio que captou a ideia central de tudo o que Ten estava falando.

"Você pode seguir o rastro dos sentimentos dela?"

"Acho que sim. Ou talvez os da Nine. Eu a conheço mais e, bom, onde a Nine estiver a El vai estar."

"Então, ele é tipo um cão farejador de sentimentos?"

"Quem se importa, Dustin?" Mike exclama alto. "O que importa é que talvez a gente possa encontrar a El. Talvez a gente possa fazer algo para salvar ela!"

Aguenta firme, baixinha, nós vamos encontrar você. Logo esse inferno vai ter fim e nós dois vamos estar juntos novamente.


Notas Finais


As gêmeas da Becky não são umas coisinhas confusas? Adoro colocar crianças nas fic. Acho elas tão fofas que até tenho vontade de entrar na historia e fica falando com voz de bebê sempre que elas surgissem na minha frente. Elas não vão sumir tão cedo e, se elas sumirem, teremos a adorável Holly com sua presença de espírito para nos fazer pirar com sua fofura.

E em que vamos focar agora? Na amizade fabulosa do Mike e do Will ou na pequena surra lavadora de almas que a El deu na Nissa? Os dois são tão lindos, tão delirantes. Mike e Will são como Batman e Robin, Scott e Stiles: uma dupla dinâmica até mesmo na depressão. E a El? Quem não adorou ela batendo na Nissa? Eu escrevi cada linha com um sorriso empolgado.

E que comecem as apostas, meus jogadores: quem acha que eles vão conseguir encontrar a El? Quem acha que não? Façam suas apostas, sejam ousados, por que no próximo capítulo coisas importantes vão acontecer e, quem sabe (I know 😋), podemos ter grandes coisas para o rumo da fic.

Beijinhos ❤❤❤


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