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História You know I do - Avatrice - Capítulo 19


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Notas do Autor


"A mulher bondosa conquista o respeito, mas os homens cruéis só conquistam riquezas - Provérbios 11:16"

Capítulo 19 - Capítulo 18 - Provérbios 11:16


18

 

BEATRICE

 

— Não acho que isso seja uma boa ideia — mexeu na ponta das luvas de forma nervosa.

De forma que pudesse se esconder – mesmo sendo impossível naquela situação – ela se afundou ao banco do carro, chutando o pedal de acelerar de forma frenética com a lateral da bota que usava. JC estava sentado ao seu lado, tinha o cotovelo esquerdo apoiado no suporte da janela, a outra mão estava no câmbio automático, mas ele apenas arranhava o couro com o indicador. Pelo canto dos olhos, ela o viu inclinar a cabeça, talvez tentando observar seu rosto. Desviou-se dele, virando-se para seu próprio lado da porta, observando através do vidro enquanto observava as calçadas com as bordas em montanhas pequenas de neve; elas derretiam aos poucos, deixando toda a superfície de concreto encharcada. As árvores dos jardins residenciais pingavam conforme os flocos iam se desfazendo das folhas alaranjadas, a cor intensa indicando a estação em que estavam e o frio intenso gritando com ventos gelados que já estavam em seu ultimo mês; o inverno logo chegaria com a entrada de dezembro.

— Por quê? — a voz masculina saiu grave e sussurrada.

— Não sei se estou pronta para isso — ofegou, tendo que puxar um pouco do cachecol para baixo ao se sentir sufocada.

— Nós conversamos sobre isso por semanas.

Era verdade. Durante inúmeros dias, Jonhan a ajudou com os famosos três metais que compunham as correntes que a prendiam, alegando que eles teriam que cuidar primeiro do “Beatrice”, para só então lidar com os outros porque, segundo ele, a aceitação própria era a chave principal para lidar com os outros fatores. JC a encorajou a mandar uma mensagem para suas companheiras as avisando que estava bem, não a deixando esquecer de colocar no conteúdo do texto que voltaria para elas assim que resolvesse seus problemas pessoais. “Não importa se você não quer vê-las agora, elas merecem ter pelo menos alguma noticia sua.”, foi o que ele a disse.

Chanel foi a responsável por manter conversas diárias sobre sua sexualidade, inclusive a contando seu testemunho sobre como foi se assumir para seus pais como uma garota transgênero. Beatrice a questionou sobre o resultado e, por mais que não quisesse aterrorizá-la, a de olhos claros foi verdadeira quando respondeu: “Fui expulsa de casa, JC é a minha única família agora.”. Entretanto, foi o necessário para mantê-la trancada no quarto por uma tarde inteira; mais tarde Chanel invadiu o cômodo e a pediu para se lembrar da própria família, não a de sangue, mas as três garotas que a esperavam num pequeno apartamento perto da orla e uma outra que estava presa num outro plano, frisando que ela não estava sozinha.

Jonhan foi um pouco mais radical. Em um final de semana, ele a levou para uma boate e ela só descobriu depois se tratar de um lugar frequentado apenas pela comunidade LGBT+ quando olhou para um dos cantos escuros perto do bar, avistando dois rapazes num momento um tanto íntimo. Beatrice o questionou sobre a escolha do lugar e se ele costumava frequentar ali. JC apenas deu de ombros, a empurrando um copo de bebida antes que ela pudesse dizer que não se dava bem com álcool – só não era pior que Ava. Sentiu-se envergonhada quando algumas mulheres piscaram para si, ou no momento em que algumas mais ousadas se aproximara, passando a mão pelo seu braço e perguntando educadamente se ela estava acompanhada ou se queria “se divertir”. Não sabia como reagir a tais ações, sempre tendo que recorrer a JC para se esconder das investidas. Isso até o álcool fazer efeito em seu organismo. Sentou-se sozinha em uma das mesas, recebendo companhia minutos depois. Uma garota se colocou a frente dela, perguntando o porque de estar mantendo uma expressão tão entediada num local como aquele. Foi direta quando respondeu com manhã que sentia falta de Ava.

“É sua namorada?” Levantou a cabeça para encarar a garota de cabelos castanho claro, quase dourado, que mantinha uma franja. Os olhos escuros eram puxados como os seus, mas eram grandes e de um formato bonito. Usava uma maquiagem forte nas pálpebras, mas os lábios cheios estavam pintados com um gloss claro.

“Ela me deixou.” Resmungou, balançando com raiva o copo sob a mesa, derrubando um pouco do líquido.

“Então você ainda está tentando superar o término.” Apoiou os cotovelos na superfície, certificando-se de não esbarrar na parte molhada.

“Oh, não é isso.” Certificou-se de corrigir. “Ela apenas não está aqui agora, é... complicado. Ela nem é minha namorada.”

“Então, o que faz aqui?” Estreitou os olhos para a desconhecida. “Desculpe se eu estiver sendo muito invasiva.”

“Tudo bem, eu só...” Olhou ao redor, procurando o amigo. JC estava em uma roda com dois rapazes e uma mulher, eles conversavam de forma animada. “Ele me trouxe aqui para me ajudar.” Entortou a boca.

“Te ajudar?” Ela arqueou as sobrancelhas, recebendo um aceno de Beatrice. Por alguns segundos, a garota somente pendeu a cabeça, a observando como se estivesse puxando cada página de seu livro para que pudesse ler os capítulos. A desconhecida varreu o ambiente com os olhos, voltando-se para sua companhia logo depois. “Tem problemas com sua sexualidade?”

“Como sabe disso?” Perguntou de forma surpresa, sentindo o coração bater forte em seu peito.

“Você me lembra um pouco minha ex-namorada. Ela também tinha várias inseguranças sobre si mesma.”

“Foi por isso que terminaram?”

A garota ajustou a franja que já estava perfeita antes de responder: “Eu a dei todo apoio possível. Disse que esperaria até que ela se sentisse confortável com tudo. No final, ela que terminou comigo por não querer ‘me prender’ aos problemas dela.”

“Sinto muito.”

“Não se preocupe, está tudo bem agora. Digo, ela está com outra pessoa. Um garoto. Acho que ainda não se aceitou e prefere viver essa mentira. Apenas não tenho mais direito algum de me intrometer na vida dela.” Deu de ombros, mas Beatrice percebeu que ela parecia afetada com o assunto. “E você?”

“Meu pai é um político conservador que, ao descobrir sobre mim, me enfiou num internato católico para garotas, fui tão forçada por esse caminho que até virei freira.” Balançou os ombros, erguendo o copo para tomar um gole da bebida laranja com umas manchas vermelhas.

“Espera, o quê? Você é freira?” Ela parecia surpresa.

“Eu era.” Soltou uma risada grave devido a embriaguez. “Fui excomungada.” Parou por um momento, olhando para o nada. “Estranho, antes eu sentia um negócio esquisito quando falava isso. Bem aqui.” Apontou para o próprio peito; no seio esquerdo. “Agora, eu nem sei mais o que sinto.”

“Escute...” Ela gesticulou, esperando pelo seu nome. A inglesa o respondeu. “Beatrice. Não acho que você vá achar respostas aqui.”

A inglesa abaixou as sobrancelhas, se inclinando sob a mesa ao não escutar o que ela tinha dito. “Como?”

Por outro lado, a desconhecida preferiu não gritar, arrastando-se pelo banco de couro até que estivesse sentada ao lado de Beatrice. “Eu disse que aqui não é lugar que você vai encontrar o que precisa.” Disse em seu ouvido.

Virou a cabeça para o lado, observando a aproximação repentina da garota. Não era algo invasivo, ela podia ver pela respeitosa distância que as coxas alheias tomavam no assento. Ainda assim, a guerreira se sentiu nervosa, tentada. Suas mãos de repente ficaram inquietas e ela as juntou em cima de seu colo, apertando a pele com os dedos. A desconhecida desceu os olhos, analisando os movimentos trêmulos dela. Em um ato ousado, ela juntou as suas pernas, apoiando o cotovelo na mesa para que pudesse ter uma visão melhor do rosto abaixado da inglesa. Ergueu a mão, ajeitando os fios rebeldes da franja recente de Beatrice.

“Talvez eu esteja errada.” Falou num tom alto o suficiente para que apenas ela escutasse. “Sabe, o que você está sentindo agora não é algo para se duvidar.” Arriscou levantar os olhos, encarando os brilhantes da garota. “Uma vez eu assisti um filme, ‘Um amor para recordar’, acho que todo mundo conhece.” Ela riu sozinha. “Tem uma frase que o rapaz diz para a moça doente que é assim: ‘Descubra quem você é e que seja de propósito’, por acreditar muito nisso é que eu digo que estar aqui não vai te ajudar.” Abriu um sorriso gentil. “Não importa quantas bocas você beijar, o que vai fazer você se descobrir tudo isso é o que você sente, não o que você faz.”

“Eu sinto... A Ava, ela...” Balançou a cabeça ao se enrolar com as palavras.”

“A garota que você gosta? A que não está aqui agora?” Beatrice assentiu. “Você sente medo por gostar dela?” Negou de imediato.

“Uma vez eu a disse que, se pudesse, daria a ela todo meu coração.”

“Wow, isso é lindo. O que te impedia?” Suas mãos foram imediatamente para o crucifixo prateado e discreto que usava. Ela acompanhou o ato. “Acho que você já resolveu toda sua questão pessoal.”

“Como assim?”

“Você entendeu o que eu quis dizer.” Mordeu o lábio, arqueando as sobrancelhas. “Caso você estivesse em um conflito consigo mesma, a ideia de estar apaixonada por uma garota ia te apavorar em um nível onde você se sentiria doente, nada saudável. Acredite, eu já passei por isso.”

“Bea?” A inglesa virou o rosto na direção oposta à desconhecida, encarando o amigo. “Chanel ligou e pediu que voltássemos para casa. Você sabe que com ela eu não brinco.” Esfregou a mão na nuca, parecendo preocupado.

“Certo.” Lançou um rápido olhar par sua companhia. JC entendeu no mesmo segundo.

“Vou chamar um Uber, tudo bem?” Ela assentiu, o observando afastar a barra da camisa florida para enfiar as mãos nos bolsos fronteiros da calça. “Não demore.” Foi o que disse antes de piscar um dos olhos e deixa-las a sós.

“Eu tenho que ir agora. Obrigada pela conversa.” Apoiou a mão no ombro da garota. “Você disse que eu não encontraria respostas aqui, mas você foi de grande ajuda.”

“Me dê seu celular.” Beatrice hesitou por um segundo, mas logo entregou o aparelho a ela. “Quando quiser conversar, me ligue ou mande uma mensagem, tanto faz.”

Ao receber o celular de volta, ela pode finalmente ver o nome da garota no contato, só então lembrando que tinha esquecido de perguntar. “Pranpriya?”

“É tailandês. Mas acho mais simples me chamar de Iya, hum?”

“Obrigada por tudo, mais uma vez. Agora eu realmente preciso ir, ou aquele moleque vai me deixar aqui.” Levantou-se, analisando quando sua companhia apoiou o braço no encosto do banco, tendo uma visão privilegiada de Beatrice.

“Disponha. Espero um dia encontra-la namorando essa garota, Ava, certo?”

A inglesa balançou a cabeça em concordância, dando passos curtos para longe de Iya enquanto acenava em um tímido ‘tchau’.

É claro que JC não a deixou descansar depois de toda interação que teve com a tailandesa, mas ficou contente ao saber que um dos metais já tinha derretido, então teriam que partir para o próximo. E esse era o motivo de estarem estacionados no meio fio da calçada de um dos bairros nobres de Londres, especificamente em frente ao jardim onde Beatrice se lembrava de brincar sozinha quando era criança; antes de seus pais começarem a demonstrar repulsa pela sua presença.

Era difícil estar ali, traziam memórias que ela não gostaria de ter. Não eram muitas, afinal, não viveu ali por muito tempo, mas eram traumatizantes o suficiente para querer esquecê-las. Jonhan ficou quieto ao seu lado depois de receber apenas o silencio de Beatrice. Depois de conviverem juntos por semanas, ele entendia e respeitava o espaço da inglesa. Entretanto, ele a cutucou e pediu sua atenção.

— Olhe — apontou no vidro para um homem que saia da casa. — É seu pai?

O senhor que agora caminhava pelo caminho coberto de neve no jardim nem merecia esse título, já que aparentava ser um homem que tinha acabado de chegar na casa dos trinta anos. Usava uma roupa social pesada devido ao frio e tentava com dificuldades fechar a bolsa lateral que tinha pendurada no ombro, ela pode ver mesmo de longe que vários papeis impediam que o imã da aba se juntasse ao outro. JC até tentou sair do carro e ceder ajuda, mas a mão de Beatrice em seu braço o parou e ali ele entendeu que não precisava da resposta da amiga. Aquele era realmente seu pai. Quando ele chegou ao meio fio, os dois amigos tiveram que observar pelo retrovisor enquanto o mais velho entrava no carro logo atrás deles, tendo que dar ré para sair. Mesmo com Jonhan tampando um pouco a sua visão da outra janela, ela pode jurar que os olhos de seu pai caíram em si por alguns segundos quando passou ao lado de seu carro – alugado –, mas ele não parou e continuou dirigindo até sumir na próxima esquina.

— Como se sente? — o rapaz perguntou com calma e receio.

— Vamos terminar logo com isso — tirou a chave da ignição com pressa, assustando JC que somente a obedeceu e saiu do carro.

Beatrice teve que afastar um pouco de neve da calçada para que conseguisse sair do carro devidamente, chutando os flocos acumulados com as botas. Caminhou pelo jardim com o pescoço encolhido no próprio cachecol, tentando proteger as orelhas do vento gelado. Ao chegarem na varanda que antecedia a porta principal, ela parou, mantendo certa distância. Já Jonhan tomou a iniciativa de por o dedo em cima do botão da campainha, lançando um olhar para a amiga e pedindo sua autorização para apertar.

— Está tudo bem — disse ao acenar.

Por mais que quisesse negar, estava nervosa e o arrepio que passou por sua espinha ao escutar o som agudo e alongado da campainha a certificou que talvez não estivesse pronta para aquela conversa.

Uma mulher abriu a porta, fixando os olhos puxados e idênticos aos da guerreira em JC. Ela vestia roupas casuais e chinelos felpudos com meias brancas. A gola de seu cardigã dobrada para dentro a denunciava de que tinha acabado de vestir aquela peça para atender quem quer que fosse sua visita.

— Bom dia — desejou ao rapaz. — Posso ajudá-lo?

— Bom dia, senhora, eu... Bom, estou aqui para...

A inglesa balançou a cabeça com a enrolação do amigo. — Oi, mãe.

A mulher parecer tensionar e ao esticar o pescoço para olhar além dos ombros de JC, ele percebeu que atrapalhava e deu um passo para trás. Ela parecia surpresa e piscava diversas vezes como se a garota a sua frente fosse uma miragem. Quando deu passos hesitantes para frente, Beatrice pareceu querer fugir, mas Jonhan apoiou a mão em suas costas, a impedindo de tal ato. Então, algo mais inesperado aconteceu: sua mãe a abraçou. Foi um ato estranho já que ela não pode se mover para a afastar ou para retribuir ao afeto, afinal, os braços da mulher prendiam os seus a lateral de seu corpo. Olhou em pânico para o amigo, mas como um bom suporte ele levantou os dois polegares e abriu o sorriso cheio de dentes.

Quando se afastaram pela vontade da mais velha, ela não deixou que a filha escapasse e segurou seu rosto.

— Você está tão diferente — os polegares alheios afagaram suas bochechas. — Está mais forte, seu cabelo está curto — suas pálpebras tremeram ao ver a mãe estreitar os olhos de forma carinhosa, como se gostasse do que estava a sua frente. — Você está linda.

— Obrigada — sussurrou ainda sem saber como reagir.

— Por favor, entrem — puxou a filha pelos ombros e, literalmente, a empurrou para dentro da casa, fazendo o mesmo com JC. — Ainda tem um pouco de água quente, vou fazer um chá. Você toma, querido?

— Claro, obrigado — ele sorriu gentilmente.

— Volto em um minuto. Fiquem à vontade.

Os olhos atentos de Beatrice acompanharam a mulher arrastar os chinelos pelo piso de madeira até a cozinha, mas então desviaram-se para Jonhan, que se encolheu a expressão acusadora da amiga.

— Você não gosta de chá, seu imbecil — desferiu um tapa em seu braço.

Ouch, eu não quis ser mal-educado — soltou um longo suspiro, acenando para sua mãe com a cabeça. — Como você vai fazer?

— Ela vai entrar no assunto a qualquer momento, eu sei que vai.

Beatrice varreu todo o ambiente com os olhos. Os móveis continuavam os mesmos, até mesmo os tapetes ainda tinham a cor e a mesma textura de quando ela deixou a casa. O cheiro característico de livros novos e chá preto nunca tinha saído daquele lugar. Os dedos, agora com alguns anéis a mais, passaram pela manta que cobria o sofá, se lembrando de quando dormia por ali e magicamente acordava coberta nela. Em cima do móvel que ficava abaixo da janela com vista para o jardim tinha uma bíblia aberta, varias imagens de santos a quais sua família eram devotas também estavam ali junto com um suporte para velas vazio. Virou o dorso, olhando para a porta logo abaixo da escada para o segundo andar, ela dava acesso ao porão, mas era naquele batente que seu pai costumava medir sua altura a cada ano. Foi a primeira e única mudança que achou naquele andar, a madeira estava pintada em um bege claro, cobrindo as marcas feitas com caneta junto a sua idade.

Quando Danica Klein, sua mãe, retornou à sala, a guerreira se virou para ela, disfarçando o fato daquilo talvez a ter afetado.

— Eu não quis que ele pintasse — disse sem a olhar, colocando uma bandeja com um bule, três xicaras em cima de seus devidos pires, um prato com torradas, um pequeno recipiente com geleia de morango e, claro, alguns talheres.

— Eu não estava...

— Eu me arrependo muito, Tris — foi inevitável não ofegar ao ouvir o apelido pelo qual a mais velha a chamava. — Podemos conversar? — Danica olhou para JC.

— Ele sabe de tudo — afirmou, querendo que o amigo continuasse sentado ao seu lado. — Tudo.

— Certo — a mulher desviou-se novamente de seus olhos, preferindo servir o chá. — Eu nunca quis mandá-la para aquele internato, seu pai que achou que era a melhor opção.

— Mas a senhora...

— Sei que o apoiei na decisão, mas eu estava assustada, Tris — suspirou, desistindo de servir a própria xicara ao perceber que ninguém ali estava no clima aquilo. — As coisas tinham mudado tão drasticamente, seu pai temeu a reação da Câmara e eu também. Ele era uma das principais opções para presidente da Câmara e não queria escândalos.

— Ele conseguiu?

A mais velha assentiu. — O aplaudiam pela boa educação que estava quando a filha, sendo um perfeito chefe de família, eu só conseguia pensar no quanto sentia sua falta. Tris — a guerreira levantou a cabeça e ambas finalmente se encararam —, eu sinto muito.

— Pelo que exatamente? — Danica franziu as sobrancelhas. — Por me mandar para um internato? Ou por ter feito da minha vida um inferno antes disso?

— Por tudo — a garganta da mulher oscilou, ela engolia o choro — Sinto muito por não ter sido a mãe que você merecia, a que deveria ter sentado e conversado com você, por não entender que você estava mais assustada do que eu, por ter apoiado uma decisão que queria curar o que eu deveria amar.

Beatrice teve que fechar os olhos para esconder as lagrimas que começavam a se formar nas bordas de suas pálpebras.

— Desculpa por não perguntar antes, mas quem é você, querido?

— O nome dele é Jonhan Carsten — ela respondeu, tentando mostrar que sua voz não estava embargada.

— Mas a senhora pode me chamar de JC — estendeu a mão para que a mulher pudesse apertar. — Somos amigos, estou ajudando com todo esse processe de aceitação — ele se apressou em se apresentar.

— Fico feliz que você tenha alguém a apoiando em algo que não pude — disse diretamente a filha.

— O quê? — ainda não tinha processado bem aquela conversa.

— Bea, eu acho que sua mãe está tentando dizer que aceita você — a inglesa olhou para o rapaz, reparando em suas pupilas dilatadas e em seu sorriso terno.

— Eu preciso que você diga em voz alta para mim — pediu com certa urgência.

Danica sorriu, saindo da poltrona onde estava e tirando algumas almofadas do sofá para que pudesse se sentar ao lado da filha, pegando suas mãos e a apertando. Não soube quantas vezes piscou ou engoliu em seco apenas ao tentar lidar com aquela posição.

— Tris — chamou com um tom calmo. — Você é minha filha e eu amo você, independentemente de qualquer coisa.

A guerreira a observou olhar para algo atrás delas, parecendo se incomodar com algum barulho, mas logo balançou a cabeça e continuou:

— Não odeie o que você é — ela pode sentir o coração parar naquele instante. — O que você é, é lindo.

— O quê...? Por que está dizendo isso? Onde ouviu isso?

— Eu não sei, só senti a necessidade de dizer.

— Ava!? — quase gritou ao se levantar e olhar para os lados.

— Bea? Você está bem? — ela agarrou o braço de JC, o fitando com os olhos abertos.

—  Ela está aqui — sorriu de forma estendida. ­— Ela está aqui e bem, só não podemos vê-la.

 — Acho melhor irmos embora — ele disse parecendo preocupado.

— Espera. Mãe? — virou-se para a mulher — Como o papai... você sabe.

— Ele continua o mesmo, querida — aproximou-se, tomando as mãos da filha para si novamente. — Não se preocupe com ele, tudo bem. Seu pai sempre vai ser cabeça dura, isso não vai mudar. Só saiba que estou aqui por você. Qualquer coisa... — ela caminhou até uma pequena mesa que ficava próximo a entrada, onde sua carteira estava. Tirou um cartão de lá. — Por favor, me ligue.

Era um cartão pessoal para contrato de seus serviços como advogada. Ao encontrar sua mãe ainda em casa, ela pode jurar que ela tinha abandonado o emprego, afinal, ela sempre saia cedo para trabalhar.

— Obrigada.

— Vá, aposto que tem mais coisas a fazer e... eu tenho que sair daqui alguns minutos.

Beatrice enfiou o cartão no bolso da calça, livrando as mãos para que pudesse se jogar nos braços da mãe, a abraçando devidamente daquela vez. A mulher a apertou com força, cheirando os cabelos curtos da guerreira. Foi naquele momento que ambas se sentiram confortáveis para soltar as lágrimas que estavam segurando, molhando o tecido que cobriam seus ombros. Para JC, a cena era tão perfeita, que ele se apoiou na parede da entrada, cruzou os braços e apenas observou cada detalhe das mulheres com um sorriso orgulhoso no rosto. Olhou para o nada por alguns segundos, somente prestando atenção nos sons baixos que ecoavam pela sala, as fungadas que mãe e filha davam por conta do choro e um em especial, parecia uma brisa, mas era impossível pelas janelas fechadas. Seu sorriso se alastrou ao sentir dentro de si o toque quente e amigável.

Ele sussurrou baixinho: — Obrigado pela força, Ava.


Notas Finais


Olá, halo bearers!

O Wattpad quase não me deixa postar hoje, mas deu tudo certo e ele voltou ao normal.

Espero que vocês gostem desse capítulo e me deixem saber o que vocês estão achando desse processo de auto aceitação da Beatrice. Ela está caminhando aos poucos para longe da dor que a fez virar uma irmã guerreira (vocês lembram daquele discurso dela?) e eu me sinto tão orgulhosa dela, e olha que sou eu que estou escrevendo. Acho que alguns sabem que eu me identifico muito com a Beatrice e escrever sobre ela é quase colocar uma narrativa pessoal aqui.

As coisas até parecem calma por enquanto, mas logo as coisas mudarão e a batalha final está logo ai. Já provoquei demais, né?

Nesta vida ou na próxima,

Maluh x.


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