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História You know I do - Avatrice - Capítulo 20


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Notas do Autor


"A morte e a vida estão no poder da língua, cujos amadores comerão dos frutos dela. - Provérbios 18:21"

Capítulo 20 - Capítulo 19 - Provérbios 18:21


19

 

AVA

 

Escorregou na grama molhada quando seus pés parraram de correr; o desequilíbrio repentino a fazendo chutar pedaços de terra até que se arrastasse até a árvore mais próxima, batendo as costas com força no tronco e escolhendo as pernas ao máximo. Aproveitou do momento para limpas as mãos e secar o cabo da espada de divinium que segurava como se sua vida dependesse daquilo. Tentou ao máximo acalmar a respiração que, de tão forte, fazia um barulho que ela não gostaria de fazer, inclusive deixando fumaças de ar quente pelo ar congelante que facilmente denunciariam sua posição. Preferiu ficar de frente para a árvore, apoiando a testa nas lascas soltas e sentindo aquilo a incomodar, mas aquela posição era mais propicia para esconder o brilho que emanava da espada.

Os olhos castanhos se abriram com rapidez quando escutou um galho se quebrar, mas não quis pensar que tinha sido achada. Não seria negativa. Suas pálpebras se fecharam conforme ela se lembrava dos ensinamentos de Lilith e focava apenas em sua percepção, apurando os sentidos de seu corpo. Podia sentir o cheiro da terra úmida e da madeira desgastada a sua frente, sentia o gosto salgado do suor que escorria de sua testa e tocava os lábios, percebia o cabo metálico e gelado da espada esquentar por conta de todos os apertos nervosos e, por fim, podia claramente escutar as folhas caídas das árvores se afastarem pelo solo ao mesmo tempo em que eram empurradas por uma bota de couro. Não esperou que seu perseguidor aparecesse, apenas saiu de onde se escondia e cortou o ar com a espada. Alguns troncos se entortaram com a onda de energia, outros caíram, mas sua audição captou o baque oco das costas do homem contra um deles.

— Golpe baixo, Ava — a voz saiu abafada e seca.

E só então pode vê-lo. Lúcifer já estava se pé e alinhava o terno enquanto batia no tecido para tirar os resquícios de terra que tinham voado junto a seu golpe. Com uma expressão calma em seu rosto ele moveu os punhos no ar, retrucando o ataque da garota. Respirou fundo após desviar dificilmente das três rajadas de energia que foram enviadas contra si. Ainda era impressionante para ela que tivessem poderes similares, mesmo tendo consciência de que ele já fora um anjo e, bom, suas habilidades eram provenientes de uma auréola de um.

Mesmo que os movimentos com a espada fossem mais forte e perfeitamente direcionados, eles eram lentos comparados aos golpes certeiros e arredondados de Lúcifer. Tal constatação a fez largar a arma, unindo-se ao anjo caído numa luta onde ambos usavam da mesma técnica. Era uma batalha quase silenciosa já que as ondas que saiam se seus membros eram similares a ventos fortes, só que mais precisos. Ava podia jurar que se não fosse o leve tilintar áspero e vibrante, parecido com o som de pequenos raios elétricos, ela com certeza se imaginaria no mundo de Avatar onde ela e Lúcifer seriam dobradores de ar. Lúcifer certamente era um Mestre e ela não passava de uma aprendiz, o que tornava aquela luta assustadora para si. Tudo era tão similar ao desenho animado, a pagã podia até mesmo sentir os arrepios na pele a alertarem da proximidade dos golpes do homem, ajudando-a a desviar deles.

— Peguei você — de início, ela não entendeu o sorriso presunçoso que ele carregava nos lábios, nem mesmo a posição em que se encontrava; os joelhos dobrados, as mãos abertas com os dedos juntos enquanto apontava para o chão. Ao olhar para baixo ela viu o que pareciam chicotes de ar fazerem seu caminho por entre as gramíneas no chão. Era rápido e ela nem conseguiu se mover antes dos chicotes agarrarem seus tornozelos. Seus olhos se levantaram em surpresa, voltando a encarar a expressão divertida no rosto de Lúcifer. Ele piscou um dos olhos, fechando as mãos em punho e, puxando os cotovelos para trás, ela sentiu os pés saírem do chão, perdendo o ar quando suas costas bateram no solo; alguns galhos finos e sorrateiros perfurando sua pele.

Quando abriu os olhos depois de processar a dor e o movimento repentino, deparou-se com Lúcifer em pé ao seu lado averiguando a espada de divinium que ainda brilhava em um azul intenso. Seus olhos reviraram até pousarem nela e seu coração quase saiu pela boca quando a ponta da lâmina cravou na terra, mas tão perto de sua orelha direita que ela pode jurar que um pequeno corte tinha sido feito na cartilagem.

— E você está morta — ela sorriu com o tom de deboche na voz dele. — Humanos costumam sorrir quando morrem?

Nah — afastou a cabeça com cautela da lâmina, agarrando o braço do anjo caído para que pudesse levantar. — Obrigada — disse sorrindo, mesmo que ele não tivesse a ajudado e sim ficado parado enquanto ela o usava de muleta. — Aquele último truque foi legal. Você tem que me ensinar.

— Você morreu, Ava, pela... — ele parou e franziu a testa, batucando os dedos no cabo na espada. — Quinquagésima sétima vez.

— Uau, estamos fazendo isso a tanto tempo assim?

— Exatos dois meses e treze dias — o homem esfregou os olhos. — Estou treinando você desde o início e você continua falhando. É assim que você quer destruir Adriel?

— Destruir Adriel... — repetiu com amargura. — Como se eu fosse conseguir fazer isso estando presa aqui. Confio nas minhas garotas, elas vão conseguir.

— Já fazem dois...

— Eu sei que já fazem dois meses, porra. Não é como se você me deixasse esquecer com toda essa negatividade.

— Não estou sendo negativo — soou ofendido. — Apenas...

— Realista, é, eu sei — o empurrou pelos ombros, arrancando a espada de suas mãos.

Com raiva e frustrada, ela caminhou por entre as árvores, remexendo-se incomodada ao sentir suas feridas tentarem se fechar em volta das farpas de madeira. Só ao percorrer o caminho de volta para a estrada que ela percebeu o tanto que tinha corrido, finalmente encontrando a bainha da espada jogada no acostamento. A saída da floresta levou o sol do meio dia diretamente para sua cabeça; era impressionante que ele estivesse ali brilhando fortemente depois da chuva torrencial que tinha caído. Escutou seu nome ser chamado por Lúcifer logo atrás dela. No momento em que ele segurou seus braços ela se sentiu enjoada e com a vista turva, caindo no chão assim que a sensação passou. Seus dedos se apertaram sob o carpete, estranhando a nova localização.

— Um aviso toda vez que fizer isso seria útil.

— Desculpe — a voz soou profunda.

O homem a tinha teletransportado para o quarto de hotel onde ela esteve morando nos últimos dois meses. Ainda soava estranho em sua cabeça pensar que poderia estar em qualquer lugar do mundo, mas tinha sido atraída para aquele lugar com uma única cama de casal, um frigobar que nem ao menos esfriava direito, uma varanda que estava sempre inundada devido ao ar-condicionado mal instalado e uma infiltração estranha na parede, logo abaixo de onde o aparelho estava instalado. Ainda assim era o quarto onde sua mãe esteve hospedada antes de morrer. Sozinha naquele plano ninguém a impediu de fazer pesquisas. Podia estar descobrindo segredos de Estados, mas decidiu ir atrás dos arquivos que a levavam até sua mãe. Não conseguiu informações sobre de onde era, ou se tinha mais alguma família, o fim da linha de documentos era ali, num quarto econômico de um hotel três estrelas em Sevilla.

Lúcifer se sentou na única poltrona colocada em frente a uma televisão de caixa que, pasmem, não funcionava. Ava apenas balançou a cabeça, ignorando a presença do anjo – era a terceira vez que ele entrava ali – e caminhando até a saída do quarto.

— Onde vai? — ele perguntou.

— Tomar um banho — deu de ombros. — O chuveiro daqui não tem pressão e eu preciso de uns minutos numa banheira, então vou para a suíte máster.

 

*

 

Quando retornou ao quarto, Lúcifer ainda estava sentado no mesmo lugar, mas havia uma maleta de primeiros socorros em cima da cama. Não reclamou sobre aquilo, afinal, já tinha virado rotina. Deitou-se na cama e deixou que o amigo levantasse sua camisa, expondo suas costas que certamente estavam cheias de pequenos cortes. O escutou vestindo luvas e teve que falar:

— Sabe que não precisa disso.

— Eu já te contei quantas vezes já me formei em medicina? — o cheiro de álcool invadiu o ar e ela apertou as mãos, esperando a ardência.

— Infelizmente já — revirou os olhos. — Não vejo necessidade alguma de fazer um curso... Filho da puta! — chutou o ar como se aquilo fosse o suficiente para afastar a dor.

— Tenho novidades para você — comentou ao tirar uma pinça de dentro de uma proteção plástica. — Beatrice voltou para suas amigas.

— Quê? — tentou se erguer, mas a mão emborrachada não deixou.

— Quero dizer, ela não voltou. Na verdade, mandou uma mensagem para as outras e agora estão na casa dos pais dela.

— Então ela realmente terminou com o processo de aceitação... — divagou.

— Você fez de novo, não fez? — sua cabeça afundou no travesseiro, tentando escapar da pergunta. — Ava! Sabe que não pode interferir nas coisas por aqui.

— Não interferi em nada — resmungou. — Só fiz a mãe dela falar uma verdade.

— Certo, vou fingir que nada disso aconteceu — não pode evitar soltar uma risada, afinal, era aquilo que ele sempre dizia ao descobrir que ela tinha influenciado no plano de Beatrice. — Enfim, hoje é aniversário da Camila. Aquele seu amigo, JC, que a convenceu de chama-las para fazer uma festa.

— Não acredito que Beatrice vai finalmente participar de uma festa e eu não vou estar presente... — bufou em frustração; movendo-se em um espasmo ao sentir mais um espinho deixar sua pele.

— Escute, — passou um algodão com antisséptico mais uma vez por suas costas, abaixando a blusa e tocando seu ombro para que se virasse. — se quiser assistir a festa... eu não me importo, sei que esta com saudades, só, por favor, não mexa em nada.

— Eu me sinto tão inútil — sentou-se na cama e puxou suas pernas para que pudesse abraçá-las. — Qual o sentido de continuar treinando aqui sendo que o verdadeiro problema está em outro plano? Como se existisse alguma forma de eu voltar...?

— Bom... é que... — ele levou a mão até a boca para tossir. Ava inclinou a cabeça e estreitou os olhos.

— Não acredito... — sussurrou, o empurrando pelo peito e abrindo espaço na cama para se levantar. — Tudo bem, não vou brigar com você — respirou fundo. — Mas eu mereço a porra de uma explicação.

— Você... na verdade eu consigo te levar até lá, mas eu teria que ir junto.

— Achei que não pudesse viajar entre os planos — sua cabeça começava a doer.

— E não posso, quero dizer... eu posso, mas não duro nem três horas neles — o anjo caído secou as mãos nervosas na calça. — Eu queria que você focasse em seu treinamento e deixasse que suas amigas o achassem, depois disso eu a levaria até lá para que finalizasse todo o processo.

— Por que não me disse antes?

— Porque durante esses meses eu pude perceber que sua vontade não era realmente derrotá-lo. Seu verdadeiro objetivo era apenas fugir dessa solidão e ficar com Beatrice. Essa é você, Ava. Você foge de questões importantes apenas para alimentar seu egoísmo. Se eu contasse a você que a levaria de volta, você não veria propósito em treinar e derrotar Adriel.

— Você está certo em dizer que eu quero sair daqui para ficar com Beatrice, mas se tivesse observado um pouco mais afundo da situação, veria que ela é o principal impedimento do meu egoísmo. Por ela, eu continuaria nessa missão e, se você tivesse me contado sobre tudo, eu me esforçaria dez vezes mais apenas para finalmente ter uma vida em paz ao lado de pessoas que amo — engoliu a seco, tentando ao máximo não piscar para que as lágrimas não escapassem de seus olhos. — Então, não diga que me conhece apenas por minhas ações. Converse comigo quando perceber que está errado.

— Ava...

— Você pode me levar até a casa de praia? Tenho uma festa para assistir.

Lúcifer soltou um longo suspiro e, assentindo com a cabeça, ele pousou a mão no braço da garota, o apertando e fazendo o que tinha que fazer. Daquela vez, o embrulho do choro que segurava era tão grande que chegou a superar o enjoo da viajem. Ava ainda caiu no chão com a chegada, perdendo as forças das pernas como de costume, mas recusou a ajuda do homem ao se levantar. Ressentida, ela deu as costas para ele, caminhando com dificuldade até o pé da escadaria.

— Depois conversamos, ok? — ela sentia no fundo de seu peito que ele estava arrependido, mas não tinha cabeça para lidar com aquilo no momento. — Volte amanhã a tarde para nos entendermos e continuarmos com os treinos.

Dito isso sem ao menos olhar em seus olhos, ela continuou seu percurso pelos degraus, saindo do ponto de vista de Lúcifer em poucos segundos. Não querendo arriscar a possibilidade dele a seguir, a pagã se trancou no quarto de Beatrice, sentando no tapete felpudo e, somente ali, naquele ambiente quase familiar, ela deixou que as lágrimas finalmente escorressem por suas bochechas. Sentia-se da mesma forma do primeiro dia em que ficou presa naquele plano. O silêncio ensurdecedor fazia sua cabeça latejar e o fato de estar chorando só piorava sua situação. Encontrava-se sozinha mais uma vez.

Supondo que a festa de Camila começaria só no início da noite, Ava aproveitou o resto de sol do lado de fora para se sentar no mesmo lugar de sua primeira sessão de meditação; a lembrança a fazendo sorrir por um instante de segundo. Naquele dia ela tinha visto Beatrice pela primeira vez em roupas casuais e ela nunca esqueceria do quão linda ela estava. As mudanças atuais dela tinham deixado Ava ainda mais encantada. O cabelo curto e os finos fios que formavam uma franja tinham combinado tão bem com o rosto da mais velha e, a cada dia, ela via uma grande diferença na forma confiante consigo mesma que Beatrice tinha adquirido. Só conseguia pensar se essa diferença faria com que a inglesa a beijasse novamente quando a visse. Apesar de ansiar por tocar seus lábios nos dela mais uma vez, não queria que ele se repetisse do mesmo jeito da primeira fez; apressado, desesperado e com um sabor de despedida. Queria sentir com calma a carne macia, aproveitar do tempo para sentir o calor do corpo dela próximo ao seu, queria segurar o rosto delicado entre as mãos e acompanhar os movimentos provenientes do beijo, sentir o gosto, não de um adeus, mas de um começo.

Quando o sol deu lugar a lua, Ava voltou ao interior da casa e se sentou no meio do sofá, fechou os olhos se se concentrou apenas na auréola em suas costas, sentindo aos poucos o calor dela. Imaginou-se viajando entre os planos até as suas amigas, levando o seu espectro até o mesmo lugar onde estava sentada, com a exceção de que ninguém teria o poder de vê-la. Ao abrir os olhos novamente, a primeira coisa que escutou foi um grito de JC vindo da cozinha. Não precisou nem se levantar para averiguar a situação, pois ele logo correu pela sala com Mary a passos largos em seu encalço; Chanel andava de forma preocupada atrás dos dois, jogando argumento do porque JC não merecia um soco.

— Agora você vai tratar de arranjar outro bolo, Jonhan Carsten — a guerreira gritou.

Camila apareceu em cena poucos segundos depois, colocando parte do corpo para fora da cozinha para gritar que não importava se o bolo estava amassado, o importante era que estava gostoso. Ava gargalhou assim que Lilith caminhou até a sala de jantar e colocou o bolo parcialmente destruído no centro da mesa. A aniversariante tinha sido gentil ao dizer que o doce estava apenas amassado.

— O restaurante acabou de ligar dizendo que o motoboy já está vindo — o sorriso em seu rosto se tornou suave ao ver Beatrice descendo as escadas. Ela usava roupas parecidas com o dia em que foram a praia, mas estava mais elegante, tirando o ar dos pulmões da pagã.

 

*

 

Ava acompanhou cada instante da festa, fazendo questão de dar atenção a todos os presentes, mesmo que eles não soubessem de sua presença. Houveram momentos em que ela verdadeiramente gostaria de estar ali para experenciar algumas sensações, como a hora dos parabéns onde o bolo estava destruído demais para ser dividido em pedaços, então cada um pegou uma colher, e comeram ele ainda na bandeja; e como a de socar o nariz de JC quando ele sugeriu um jogo de “Eu nunca” com as obvias intenções de embriagar Beatrice, já que ele sabia que ela realmente nunca tinha feito nada. Minutos depois, Chanel e Mary entraram na missão, mas dessa vez a aniversariante também tinha entrado no jogo como vítima. Camila parecia ser mais fraca que a inglesa, já que, após três shots da vodca que estavam usando, a garota já estava aérea e dava risada da forma que o vento balançava as folhas das palmeiras. Beatrice parecia resistir, mesmo que já não soubesse manter o corpo em equilíbrio – e ela estava sentada.

Ao introduzirem a frase “Eu nunca beijei uma garota”, sussurrada por JC no ouvido de Lilith, a garota de cabelos curtos estendeu a mão até o copo de vidro, mas hesitou antes de beber o conteúdo alcóolico ao perceber que os olhos de todos estavam em si. O queixo de Ava caiu quando ela virou o líquido, apertando os olhos com o sabor forte e, em seguida, deixando uma constatação despreocupada.

— Ah, sim. Eu beijei a Ava antes dela ficar por aquelas bandas com o diabo.

Entretanto, antes que pudesse receber as vozes surpresas dos outros, Beatrice agarrou a garrafa de vodca e se levantou, segurando-se no ombro de Jonhan assim que perdeu o equilíbrio, fazendo o amigo abraçar sua perna para tentar mantê-la em pé. Enviou um sorriso bêbado ao rapaz, acariciando seu cabelo antes de se soltar e caminhar escada acima. A pagã a acompanhou, mantendo as mãos erguidas em atenção, tentando proteger a garota de uma queda, o que era irônico já que a portadora do Halo não conseguia tocá-la.

Entrando em seu quarto, Beatrice trancou a porta e se sentou no centro da cama de casal, tomando um gole da bebida e abraçando a garrafa em seguida. Ava se sentou a sua frente, observando a inglesa encarar o nada atrás de si. Foi quando lágrimas brotaram de seus olhos e a mais nova se desesperou por não saber o que fazer. Permaneceu fazendo companhia à amiga – ??? – enquanto ela terminava com todo o conteúdo alcóolico e chorava seus pulmões para fora. Era algo doloroso de observar.

Ava — a pagã levantou os olhos assustada, Beatrice a encarava, mas sabia que não era vista apenas pelo olhar perdido da garota. — Você está aqui, não é? — sua voz estava embolada, tanto pela embriaguez quando pelo choro. — Deve ser um saco me ver chorando.

— Na verdade, é só frustrante não poder fazer nada — respondeu.

— Desculpa — pendeu a cabeça em confusão. — Desculpa por não te entender quando você tinha atitudes egoístas. Hoje eu percebo que as vezes isso é necessário para que possamos encontrar a nós mesmos. Por Deus, eu desisti de um mês de procuras por Adriel apenas para me entender.

— Não se preocupe, eu sei que você precisava disso.

— E eu sei que você vai me entender por isso — Ava sorriu com a sentença. — Tenho tanto a te dizer. É provavelmente as mesmas coisas que eu sempre impedi você de falar por medo, mas quero fazer isso com a certeza de que você vai estar na minha frente e eu vou poder tocar você. — a inglesa se deitou e se contorceu na cama, soltando um grunhido. — Droga, eu sinto tanto sua falta.

— Eu também sinto a sua — ela mantinha uma expressão calma e compreensiva para a guerreira.

— A propósito, obrigada pela ajuda com a minha mãe — Ava mudou de posição, ajoelhando-se no chão e mantendo os braços apoiados na cama para fitar o rosto de Beatrice, que agora estava deitada de lado e abraçava um dos travesseiros. — Você também é linda — o coração da garota acelerou de tal modo que ela ficou ofegante. — Eu só queria poder ver você de novo para ter cada vez mais certeza disso.

— Nós vamos nos ver em breve, Bea — tocou a mão da outra de forma fantasmagórica. — Só me espere, tudo bem?

Beatrice, claro, não a respondeu, mas o pequeno sorriso que apareceu em seus lábios antes dela cair no sono lhe confirmou que ela ainda estaria ali para quando voltasse.

 

*

 

Ava acordou com uma estranha sensação de que alguém a estava invadindo. Seu peito queimava internamente e a pele ardia como se tivesse sido chicoteada várias e várias vezes. Abriu somente um dos olhos, encarando a extensão do tapete onde tinha dormido e sentindo os fios felpudos do mesmo apoiarem sua bochecha. Não tinha sido um lugar confortável para se deitar, mas ficou cansada depois de ficar velando o sono de Beatrice e por isso apenas escorregou pelo colchão até se estabelecer naquele tapete.

Esticou-se para se sentar, só então deixando de sentir aquela queimação dentro de si. Ao olhar para o lado, ela não só entendeu o que tinha acontecido com ela, mas também levou um baita susto ao observar uma garota completamente desconhecida por ela agalhada próxima a cama. Ava era um fantasma naquele mundo, não podia ser vista ou tocada, mas tinha sensibilidade sobre as coisas, por isso sentiu como se tivesse sido invadida; a garota que estava atravessando o espaço que seu peito tomava sob o chão. Entretanto, ela não estava muito preocupada com todo o lance de ter sido pisoteada – mesmo que não literalmente –, mas sim com o fato de que tinha alguém ali que ela não conhecia e que fitava Beatrice enquanto ela ainda dormia ao mesmo tempo em que a pagã não podia fazer nada para impedir que algo de ruim acontecesse.

Esticou as mãos em defesa da guerreira de forma inútil, já que a outra ainda conseguiu os ultrapassar para tocar o braço da inglesa, o acariciando enquanto dava leves empurrões.

— Bea? — as sobrancelhas de Ava se uniram com a voz extremamente fofa e ao mesmo tempo escura da mulher. Estava sentindo as pequenas partículas se insegurança começarem a correr por suas veias. — Bea, acorde.

Hum? — ela abriu parcialmente os olhos, mas, ao ver quem estava a sua frente, sentou-se com rapidez, tendo que se segurar nos braços da garota que a tinha acordado. — Priya! Eu já estava achando que você não vinha a festa.

— Bom... — suspirou, ainda segurando as mãos da inglesa enquanto se sentava ao seu lado na cama, ainda de frente para ela. — Eu não consegui chegar a tempo — apontou para a cabeça para a janela, onde só então Bea descobriu que já era tarde de outro dia. — Tentei te ligar para avisar que meu chefe, um grande pé no saco por sinal, não me liberou mais cedo, seu celular deve estar cheio de mensagens minhas também — soltou uma risada, tentando aliviar a atmosfera de culpa que crescia em volta de Beatrice.

— Eu não mexi no celular em nenhum momento, desculpa — Priya, como sua amiga – ??? – a tinha chamado, apenas balançou a cabeça, mantendo o maldito e perfeito sorriso no rosto.

— Para compensar minha falta, pensei em irmos almoçar juntas — arqueou as sobrancelhas em expectativa.

— Não aceite, Bea ­— Ava estendeu a silaba de seu apelido de um jeito manhoso.

— Claro, eu só vou tomar um banho — a portadora do Halo bateu na própria testa em derrota. — Pode me esperar lá embaixo?

Uhum — murmurou. — Tome banho com calma, tudo bem? Posso perceber que ainda tem álcool circulando por aí — encostou o indicador no nariz inglesa rapidamente antes de se levantar e sair do quarto.

Ava também decidiu dar privacidade a Bea e, como uma boa fantasma, colocou a tal Priya como seu alvo de assombração. Andou na frente, medindo cada passo da garota pela casa. Ela se direcionou para a cozinha, de onde vinham varias vozes. A pagã correu, vendo que Jonhan estava sentado em frente a bancada e se adiantou em conversar com ele.

— Vai, JC — fechou os punhos em torcida. — Expulsa essa mulher dessa casa, pelo amor que você tem por mim — grunhiu.

— Hey, franjinha! — o rapaz a cumprimentou de forma alegre, tirando o sorriso que estampava os lábios de Ava. — Vai almoçar com a gente? — a garota aproveitou da pausa para acenar para Chanel. — A propósito, esse pessoal aqui você ainda não conhecia. Lilith, Mary e Camila, essa é a Pranpriya.

— Mas me chamem de Priya, ou apenas Iya. É um prazer conhece-las. Feliz aniversário, Camila, mesmo que atrasado.

As bochechas da pequena guerreira ficaram vermelhas ao que ela respondeu acanhada: — Obrigada.

—  E não vou ficar para jantar — pontou. —  Eu e Bea vamos sair.

— Ah, certo — Jonhan deu de ombros. — Nós vamos fazer uma sessão de cinema as quatro horas e você está convidada.

Filho da puta, de qual lado você está? — Ava gritou.

Esperando o tempo de Beatrice se arrumar, a pagã observou Pranpiya se colocar entre as outras garotas, conversando com elas como se fossem amigas de longa data. Não se aproximou muito. Não queria saber o tema da conversa ou ler suas expressões faciais. Apenas acompanhou toda a interação de longe, sentindo os olhos arderem conforme ela segurava as lágrimas por pensar que, há alguns meses atrás, ela era a responsável pelo sorriso de todas ali. Sentia ciúmes, mas não sentia raiva. Ficava feliz por ver que pelo menos elas não estavam sofrendo com a sua falta e que estavam se mantendo saudáveis. Era tudo que Ava precisava saber para manter o coração tranquilo. Julgou Pranpryia, mas dali, apenas deixando os olhos correrem pelos gestos da garota, podia ver que ela não era uma má pessoa. Tinha sua personalidade fofa e cuidadosa que encantava qualquer um, mas também demonstrava seu lado mais sério, competente e responsável. Por Deus, aquela mulher era simplesmente perfeita e Beatrice estaria em boas mãos. Passaram por muito para não confiar na inglesa – que tinha seu coração em mãos para fazer o que quiser.

Com um sorriso singelo, ela apenas esperou que seu amor descesse as escadas. Queria todos ali a sua frente para que pudesse acenar um tchau, tendo completa consciência de que ninguém a veria. Com um último olhar em cada um, Ava aos poucos desligou sua conexão com aquele plano, vendo seus amigos, Beatrice e Pranpriya sumirem como uma fumaça lenta, até que ela se visse completamente sozinha no meio da cozinha.


Notas Finais


Olá, halo bearers!

Sentiram minha falta? rs

Eu sei que prometi postar as 23h, mas meu aniversário se estendeu e eu perdi a hora. Enfim, aqui está o meu presente para vocês, mesmo que a data seja minha eu pensei em entregar finalmente um capítulo a vocês.

Agora que todos os meus vestibulares acabaram as atualizações voltarão a ser frequentes, então sem mais esperas de dois meses ou mais.

Obrigada a todos que esperaram e continuam votando, adicionando a estória às suas bibliotecas e listas de leitura, dando visualizações a toda hora. Vocês tem um espacinho pessoal no meu coração.

Nesta vida ou na próxima,

Maluh x.


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