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História Youngblood - Capítulo 27


Escrita por:


Notas do Autor


Oieee, tô de voltaaa!
Acho que vocês já devem estar até se acostumando com meus sumiços né kkkkkk
Enfim, vamos ao que interessa, passei dias trabalhando nesse capítulo e gente, ele ficou >enorme<, se não me engano acho que deve ser o maior da fanfic até agora, então pra quem não curte tanto, me perdoem mesmo kkkkkk Mas é que eu sempre tenho uma ordem de acontecimentos para cada capítulo, e só quando vejo que dá pra dividir em dois que eu divido, mas esse não fazia sentindo dividir pra mim. Nem reparo em número de palavras enquanto escrevo, só vou ver no final o tamanho que ficou.
De qualquer forma, espero que gostem, boa leitura!

Capítulo 27 - Cause you'll be safe in these arms of mine


Fanfic / Fanfiction Youngblood - Capítulo 27 - Cause you'll be safe in these arms of mine

— Bom dia, flor do dia. – Calum cutucou um Michael sonolento no colchonete esticado no chão do quarto que ele dividia com Ashton. – Pronto pra começar mais um dia?

   Ele se pôs de pé, encarando o garoto que ainda parecia se situar no tempo e espaço, enquanto tirava o lençol que cobria sua cabeça.

— Nem um pouco. – Michael resmungou, esfregando a mão no rosto. – São que horas?

— Seis da manhã. – Falou Ashton, que tinha acabado de sair do banheiro, com uma toalha em volta de sua cintura, enquanto esfregava o cabelo molhado com outra. – Todo mundo já está de pé preparando o café da manhã, até a sua mãe. E daqui a pouco vamos sair com meu pai para trabalhar.

— Ah, agora faz sentido. – Michael se sentou no colchonete e esfregou seus cabelos loiros, os deixando ainda mais bagunçados. – E minha mãe, como está hoje?

— Melhor, bem melhor. – Assegurou Ashton após jogar a toalha que havia usado para secar seu cabelo sobre sua cama. – Acho que ficar com a minha mãe tá ajudando ela a se distrair.

   Michael assentiu, ainda sonolento. O tranquilizava saber que sua mãe estava bem depois de tudo que havia acontecido. Ele ainda não conseguia identificar como se sentia, mas de certa forma era um alívio estar longe de seu pai. Era uma sensação de liberdade inigualável. E aquilo o fazia se sentir culpado.

— Mas então, vai querer ir pra oficina com a gente? – Perguntou Calum, dando um chutinho no pé do amigo, para que ele despertasse.

­— Vou sim. Seu tio ontem conversou comigo sobre eu trabalhar lá pelo menos por meio período pra juntar uma graninha. Acho que vai ajudar bastante.

— Então trata de se arrumar logo, porque meu pai não espera por ninguém. – Avisou Ashton, vestindo por baixo de sua toalha uma cueca limpa, que havia acabado de pegar na sua cômoda. – E acho que ele não vai deixar você trabalhar logo de cara, porque você não sabe muita coisa. Esses dias devem ser só de aprendizado mesmo.

— Bom, vou levar um dos livros que a Selene me emprestou então pra passar o tempo que eu tiver que ficar sem fazer nada.

   Michael se levantou e após se espreguiçar, ajeitou o short azul que vestia e a camisa branca que estava toda embolada em seu corpo e começou a dobrar os lençóis de sua cama, se preparando para finalmente começar o dia.

Do outro lado do quarto, Ashton escolhia sua roupa na cômoda, e Calum, de frente para o espelho, passava brilhantina no cabelo escuro, para deixar seu topete impecável.

Só a menção do nome de Selene o fez imaginar que tinha que estar preparado para o caso de encontrá-la sem esperar. Seu plano com Evangeline ia de vento em popa. Ele tentava observar Cora pela cidade em suas horas vagas para ver o que ela fazia e com quem andava quando estava fora da escola, e Evangeline cuidava de vigiar a garota ao máximo quando estava na escola, sendo discreta sempre, para saber se ela planejava fazer alguma coisa. Inclusive quando deixasse o colégio naquela tarde, ela passaria pela oficina para contar o que havia observado e se sabia o que Cora faria naquele dia. Ele estava esperançoso de que em breve descobririam alguma coisa, afinal em uma cidade pequena como Hollowtown as coisas não ficavam escondidas por muito tempo, então tinha que estar preparado para tudo.

— Meninos, venham logo, o café da manhã já está na mesa!  - Gritou Gloria da cozinha, os apressando.

— Já vamos! – Ashton gritou de volta, terminando de fechar sua camisa de botões vermelha, da cor de seu cabelo, com pequenas bolinhas brancas.

   Ele foi o primeiro a sair do quarto, sendo seguindo por Calum, deixando Michael no quarto ainda se arrumando. Os dois entraram na cozinha, que estava movimentada, e deram bom dia para todos. Perto da pia, a mãe de Michael espremia algumas laranjas para fazer um suco, enquanto Gloria, que havia acabado de tirar o bolo de fubá que fez da forma, dava tapinhas na mão de Al, que tentava beliscar um pedacinho.

— Bom dia, queridos. – Falou Glória, com um sorriso no rosto, se virando para eles. – Vão, sirvam-se e se alimentem bem para...

— Para ter um bom dia de trabalho. – Ashton a interrompeu, completando a frase, que já sabia de cor. – Já sabemos, mamãe. – Ele beijou a bochecha dela, antes de pegar um prato de louça para colocar algumas frutas cortadas.

   Calum pegou um pedaço de bolo e encheu um copo com suco e se sentou à mesa. Al puxou uma cadeira ao lado dele e se sentou, já abocanhando um pão fresco e bebericando o café na caneca.

Enquanto comia, Calum ouvia uma música agradável vinda do rádio à pilha que sua tia deixava na janela sobre a pia, misturada com as risadas de Ashton e Gloria, e às conversas paralelas da mãe de Michael e Al sobre o pão francês com a crocância perfeita.

   Ele adorava as manhãs em sua casa. Gostava da comida, das conversas à mesa, da música de fundo, tudo no ambiente era muito familiar e agradável. Aquela sensação de conforto era a melhor coisa de seus dias.

   Michael chegou na cozinha pouco tempo depois com Estopa em seus braços, ronronando enquanto recebia um carinho na cabeça. Ele desejou bom dia para todos e logo recebeu um abraço e um beijo na testa, de sua mãe, o que o fez revirar os olhos, como um típico adolescente. A mãe dele já tinha arrumado um pratinho com pão e manteiga, um pedaço de bolo e um copo de suco, então ele só colocou o gato no chão e foi se sentar.

— E então, rapazinho, pronto para seu primeiro dia conhecendo a oficina? – Perguntou Al, dando um sorriso.

— O Mike, trabalhando na oficina? – Falou a mãe dele e deu uma risadinha, sentando-se ao lado do garoto. – Mas ele não sabia nem trocar a corrente de uma bicicleta de segunda mão que dei para ele.

— Mãe! – Michael reclamou, a censurando.

   Calum e Ashton se olharam, um de frente para o outro na mesa, e riram juntos. Previram que teriam um longo trabalho para ajudar o amigo a pegar o jeito nas coisas, e que talvez fosse melhor ele só ficar no cantinho lendo mesmo.

— Enfim, estou pronto sim. – Disse Michael, emburrado.

— Então é isso que importa. – Al falou e deu uma piscadinha cúmplice para o garoto. – Ah, e estava pensando em irmos de carro hoje já que vamos todos juntos vai ser mais rápido.

— Nossa, que mordomia. Tenho certeza que é só pra agradar o Mike. – Brincou Ashton e logo recebeu um olhar torto de seu pai.

— Espera, no meu Corvette? – Perguntou Calum.

— Isso mesmo. – Al assentiu. – Vamos fazer um teste se você trocou o escapamento direito e ele realmente vai parar de fazer aquela barulheira toda. Seu trabalho como mecânico está em jogo, hein!

   Calum engoliu em seco e arregalou os olhos por um momento, repensando tudo que havia feito e em todos os parafusos, se havia os colocado certo.

— Para de assustar o menino, Albert! – Gloria o repreendeu, e deu um tapinha no ombro dele, fazendo todos rirem, menos Calum.

    Ele havia ficado nervoso demais para assimilar qualquer brincadeira. Seu tio sabia exatamente como implicar com ele.

   Quando todos os rapazes terminaram de comer e colocaram seus pratos e copos sujos na pia, Al os chamou para irem ao trabalho. Tinham um longo dia pela frente, principalmente Michael, o mais perdido, que não sabia nem nomear uma chave de fenda sequer. Já previa todo o esforço que teria que fazer para aprender tudo, mas estava determinado.

● ● ●

    Após pegar carona com seu pai que foi para a prefeitura de carro, Selene chegou à escola mais cedo do que de costume. Não que fosse de sua vontade, já que com todas as perseguições de Cora, tudo que mais queria era que as horas em que não estaria na escola chegassem. Estava cansada dos esbarrões no ombro enquanto andava no corredor, cansada dos dias ficando depois da aula limpando e organizando a classe, cansada do seu material sumindo toda vez que voltava dos intervalos e aparecendo nos lugares mais impróprios, isso quando apareciam, cansada dos risinhos de deboche toda vez que passava em frente ao grupo de amigas de Cora, porque sabia exatamente sobre o que elas estavam falando sobre ela, e cansada também dos bilhetes maldosos deixados dentro de seu estojo, caderno e pasta escolar todo dia, a lembrando como era suja e imoral, disfarçada de santa.

   Desde que Cora descobriu sobre Calum e Elias ela tinha focado todas as suas energias em fazer da vida de Selene um inferno. Ela e Susana tinham até tirado um pouco suas atenções de Evangeline e das coisas grotescas que inventavam sobre ela e se concentrado apenas em espezinhar Selene. Quando Evangeline estava por perto as implicâncias eram mais sutis, às vezes até disfarçadas, mas ela tinha certeza que a amiga percebia, só fazia de tudo para distrair Selene e não deixar que se sentisse mal.

   Passou pelos três monitores do prédio, que aquela hora estavam todos na entrada, e lhes desejou bom dia. Como aquele dia não teria que formar no pátio, caminhou sozinha e receosa, pelos corredores ainda vazios, tensa ouvindo seus próprios passos ecoarem na escadaria. Torcia mentalmente para que Evangeline já tivesse chegado, já que se sentia mais segura com a amiga ao seu lado. Mas no momento que cruzou a porta de entrada de sua sala notou que estava sozinha. Respirou aliviada e foi se sentar em sua carteira ao fundo da classe.

   Ficou tão distraída ali sozinha por um longo tempo, rabiscando coisas aleatórias na última página de seu caderno, que levou um susto quando ouviu a porta se abrir. E se deparar com Cora entrando, fez o seu dia já ficar ruim, mesmo que ainda nem tivesse começado direito.

   A garota, ao notar a presença de Selene lá, logo abriu um sorriso e cruzou seus braços.    

— Ora, ora, veja só quem já está aqui tão cedo? – Perguntou ela em um tom de deboche que deu nos nervos de Selene. – Ansiosa para mais uma semana cuidando das minhas tarefas, claramente. A propósito, aquele dever de matemática da semana passada já está pronto?

   Selene engoliu todo sentimento de raiva de preenchia seu corpo e suspirou, imóvel em sua cadeira.

— Não.

— O que? – Cora perguntou a fuzilando com o olhar. – Você está ciente de que é para amanhã, certo? Então trate de fazer, porque não vou ficar sem nota.

— Então faça você. – Disse Selene de forma seca, arriscando tudo. – Você já quer que eu faça tudo que é sua obrigação, mas não vou fazer seus deveres de casa e trabalhos.

   Cora se aproximou calmamente, quase deslizando como uma cobra, com um olhar fulminante na direção de Selene.

— Creio que você deve ter esquecido a posição em que se encontra aqui, queridinha. – Ela se debruçou, apoiando os dois cotovelos sobre a mesa da garota. – Você lembra que eu sei sobre seu namorado, ou melhor, namorados, não é? – Riu em deboche. – Se não fizer o que estou pedindo, hoje mesmo logo que eu sair dessa escola vou até o seu pai na prefeitura e conto tudo.

   O coração de Selene acelerou e o nervosismo tomou conta de seu corpo, embora ela lutasse para não demonstrar. Não deixaria que Cora seguisse ganhando sobre ela. Estava exausta daquilo.

   Sob o olhar inquisidor de Cora, ela se moveu de forma contida, abriu sua pasta e pegou o caderno de matemática da garota, que havia sido posto em suas coisas na semana anterior, e o colocou sobre a mesa, entregando a ela.

— Acho que é você que não está entendendo. – Falou Selene entredentes, mantendo seu olhar fixo em seus dedos trêmulos sobre a capa verde escura do caderno. – Já disse que não vou fazer suas tarefas.

   Cora olhou do caderno para o rosto da garota e deu uma gargalhada estridente.

— Você se acha mesmo, não é? Está se arriscando dessa forma, por que? Acha que se eu contar seu segredinho para os adultos eles não vão acreditar em mim, porque você é tão boazinha e santinha? Ai, a Selene tão perfeitinha, incapaz de errar. Ah, me poupe! – Debochou. – Eu vou acabar com essa imagem sua, estou cansada de todos sempre te colocando em um pedestal, como exemplo para tudo quando na verdade você é uma nojenta.

   Selene contava até cinco várias vezes em sua mente, tentando ignorar a voz de Cora falando aquelas coisas desprezíveis. Permanecia imóvel, focando seu olhar na lousa de giz à sua frente, evitando até piscar para que as lágrimas que se formavam em seus olhos não caíssem.

— Você está me ouvindo? – Cora insistiu, cutucando o ombro e a testa dela com força, com a ponta de seu indicador. – Mas é claro que você vai se fazer de sonsa, é a sua especialidade. E aposto que deve estar pensando em como estou sendo estúpida achando que vou arruinar a sua vida com isso e que possivelmente algum de seus namoradinhos, provavelmente o pobretão que não tem nada a perder, ainda vai ficar ao seu lado. Porque claro, você é tão bonita com esses olhos claros de cachorrinho abandonado, essas bochechinhas rosadas e esses cabelos claros brilhantes e sedosos.

   Ela continuou falando de forma agressiva na frente do rosto de Selene, tentando obter uma reação dela, mas a garota não cedeu, continuou se mantendo firme e distanciando seus pensamentos daquele momento, aguentando e torcendo para que alguém chegasse logo.

— Ah é? Vamos ver se algum dos seus namoradinhos ainda vai te dar atenção depois disso. – Revoltada, Cora abriu o estojo de Selene e o revirou até encontrar a tesoura dela.

   Levou uma de suas mãos até uma mecha de cabelo na lateral da cabeça de Selene e ela pela primeira vez se moveu para longe do toque da garota e se retraiu.

— O que você está fazendo? – Perguntou com os olhos arregalados, incrédula.

— Te deixando por fora da mesma forma que você é por dentro, feia e nojenta.

   Em um gesto rápido, Cora cortou uma mecha grande da parte da frente do cabelo de Selene pela metade, fazendo com que o cumprimento ficasse na altura de seu ombro.

   Tomada pelo medo e nervosismo, Selene se levantou de sua cadeira para se afastar de Cora, mas a garota a pegou pelo cabelo antes que ela pudesse se afastar. Sentindo os fios na parte de trás de sua cabeça serem puxados com força, ela começou a chorar. Cora, cheia de raiva, picotou mais algumas mechas onde ela não conseguia ver o estrago. Selene começou a se debater e dar tapas na mão da garota para se soltar, gemendo em agonia, enquanto ela ria, sentindo-se vitoriosa.

   Conseguiu se soltar depois de muito esforço e sua mente que parecia estar em pane, tentou formular um plano para pedir ajuda, mas se lembrou que não tinha nenhum adulto pelos corredores. Mesmo assim correu pela sala, desviando das mesas no caminho, até chegar à porta. Porém antes que abrisse, Cora a puxou pela parte de trás de sua blusa do uniforme e a jogou no chão, fazendo com que ela quase batesse sua cabeça na queda, se não tivesse aparado com os braços.

   Sentindo seus cotovelos e joelhos latejarem, ela rastejou para longe no chão enquanto Cora se abaixava perto dela.

— Vamos ver quem vai sentir pena de você agora.

   Ela segurou novamente um punhado do cabelo da garota com força entre seus dedos e começou a picotá-lo, enquanto Selene batia nos braços dela e gritava, chorando. Comprimiu os olhos com força, como em um gesto involuntário para evitar ver que aquilo realmente estava acontecendo. Percebeu que não conseguiria se livrar facilmente de Cora, mas o desespero não a deixou desistir, fazendo com que distribuísse chutes no chão, na esperança de que algum a acertasse.

   Já prestes a desistir, ouviu a maçaneta da porta girar e Cora parou imediatamente o que estava fazendo, mas não se distanciou, pois sabia que não era o professor, já que ele só entrava depois que o sinal tocava.

Do chão e em meio às suas lágrimas, Selene avistou Mirella, uma menina baixinha de cabelos pretos e expressão assustada encarando a cena da porta, com os olhos arregalados. Pôde ver que ela claramente engoliu em seco, sob o olhar ameaçador de Cora, antes de se virar e fechar a porta e ir até sua mesa como se nada estivesse acontecendo.

   Selene sabia que ela não faria nada, nem sequer falaria algo. Todas as meninas naquela sala que se sentiam vulneráveis à Cora não ousavam desafiar a garota indo contra qualquer atitude dela, mesmo quando a viam fazendo algo claramente errado. Mas ainda assim, Selene era grata por ela ter entrado naquela hora.

   Cora olhou para Selene novamente e com um sorrisinho e disse:

— Depois nós duas continuamos nossa conversa.

   Ela jogou a tesoura de Selene em sua direção e se levantou, e foi até a mesa dela, onde lá se sentou e tirou suas coisas de sua mochila de uma forma tão casual, que era assustadora.

   Se sentindo magoada e humilhada, Selene se levantou do chão e sem sequer pensar direito no que estava fazendo, catou suas coisas em sua mesa em uma velocidade sobrenatural e saiu da sala. Não podia mais ficar naquele lugar, não aguentaria passar o dia ali. Só de imaginar os olhares de pena que receberia se sentia angustiada. Não queria pensar na dor de cabeça que seria caso aquela confusão fosse levada para o diretor, ele com certeza não deixaria barato para ela, já que havia se envolvido em outra confusão com Cora anteriormente, e ela faria o seu melhor para jogar a culpa toda em cima de Selene. Não queria lidar com aquilo, nem com a reação de seus pais.

   Andou apressada pelos corredores, que naquele momento já estavam começando a ficar mais movimentados, fazendo de tudo para evitar os olhares tortos para seu rosto avermelhado e inchado de tanto chorar e para seus cabelos picotados.

   Foi até a parte de trás da escola, caminhou cautelosa pela grama se certificando de que não havia nenhum inspetor vigiando, e só então jogou sua pasta por cima do muro, decidida a fugir dali. Usou uma pedra alta no chão de apoio, se impulsionou e se pendurou no muro, segurando com força nas hastes de ferro no topo dele. Sua sorte era que a parede não era tão alta, senão não conseguiria fazer aquela proeza. Mesmo ralando seus joelhos contra o cimento, conseguiu subir o máximo que pôde com suas sapatilhas na parede, até poder passar uma das pernas por cima do muro de forma cautelosa para não se machucar. Evitando as pontas do ferro, se equilibrou sobre o muro, entre uma haste e outra e ficou de pé. Olhou para a calçada da rua, onde sua pasta se encontrava jogada e mesmo com as pernas tremendo, respirou fundo e saltou.

   Sentiu uma dor lancinante subir de seus calcanhares para suas panturrilhas, com o impacto. Mas, respirando, ofegante, pegou sua pasta no chão a abriu e pegou um lenço que carregava ali dentro e o amarrou em sua cabeça para disfarçar seu cabelo horrível. Ajeitou sua saia plissada e mesmo se sentindo sem rumo, caminhou pela rua, indo em direção aos únicos braços que sabia a consolariam e acolheriam naquele momento. 

● ● ●

   Embora tivesse começado seu serviço fazia pouco tempo, Calum sentia como se já tivesse trabalhado um dia inteiro. Talvez fosse a ressaca que a adrenalina da noite anterior tinha deixado em seu corpo, ou o fato de estar trocando a suspensão do carro de um dos clientes mais exigentes que iam à oficina. Romero era realmente um porre, nada podia ficar errado no conserto de seu carro, senão ele voltava lá e exigia um reparo grátis. Calum xingou seu tio mentalmente por deixar aquele serviço para ele.

   Pegou uma chave inglesa dentro da caixa de ferramentas e se abaixou de frente para um dos amortecedores traseiros. Soltou os parafusos que o prendia, retirou a suspensão com facilidade, a colocou no chão e se pôs de pé, limpando as mãos sujas na calça do macacão, antes de caminhar para pegar a nova.

Mas no momento que ia fazer isso, ouviu barulho de passos rápidos adentrando a oficina e antes que pudesse se virar para ver o que estava acontecendo, um corpo pequeno se chocou contra as costas dele e braços familiares o envolveram. Sem nem olhar ele sabia que era Selene, o cheiro do perfume dela entregava. Não conseguia entender o motivo dela estar ali, já que ela mesma tinha deixado expressamente claro que eles não poderiam mais se encontrar até o problema com a garota da escola se resolver. Fora que a escola era o exato lugar em que ela deveria estar naquele momento. Ele sentia os ombros dela se moverem para cima e para baixo de acordo com a sua respiração descompassada, talvez por ter corrido, e ele deslizou suas mãos sobre os braços dela, parando sobre as dela.

   Ergueu a cabeça e olhou para seu tio no balcão e ele os encarava confuso pelo fato da garota estar ali. E não muito distante dele, Michael e Ashton partilhavam do mesmo olhar, mas enquanto Ashton estava paralisado olhando para os dois enquanto segurava uma chave de fenda perto da moto que consertava, Michael olhava para a garota, a encarando com uma expressão quase de dor.

   Calum tentou soltar os braços dela de sua cintura para que pudesse se virar e olhá-la nos olhos, mas aquilo só fez com que Selene apertasse ainda mais seus braços nele.

— Não olha pra mim. – Pediu com a voz baixa. – Só... fica aqui comigo até isso passar.

   Ele sentiu um aperto em seu peito. Sabia que alguma coisa estava errada.

— Selene, o que aconteceu? – Perguntou firme, olhando as mãos dela entrelaçadas em sua barriga.

   O que pareceu ser um longo e tenso silêncio se formou por apenas alguns segundos, antes dela soluçar e afundar o rosto contra as costas dele.

— Eu não aguento mais, Cal. – Falou com a voz abafada e chorosa. – Já estou no meu limite.

   Calum sentiu algo dentro dele se partir ao ouvir aquelas palavras.

   Al vendo aquela situação, deixou os papéis que estava revisando no canto do balcão e chamou Ashton e Michael discretamente, para que se retirassem do ambiente e fossem com ele até o jardim no fundo da oficina, para deixar Calum e Selene sozinhos.

   Confuso, Calum separaou as mãos dela e se virou, ficando de frente para a garota. Ela usava um lenço branco com bolinhas pretas amarrado na cabeça, deixando pontas desiguais de seu longo cabelo para fora, e logo que ele se virou ela evitou olhar para o rosto dele e o escondeu seu rosto contra o peito dele.

   Ele respirou fundo, permitindo que ela chorasse à vontade ali. A envolveu em seus braços, a acariciando levemente nas costas, e apoiou seu rosto de lado no topo da cabeça dela.

— Eu preciso que você me conte o que aconteceu. Estou ficando assustado, com medo que algo muito ruim tenha acontecido. – Pediu baixinho e ela soluçou algumas vezes, sentida, antes de afastar o rosto do peito dele.

— É a Cora. – Ela fungou e olhou nos olhos dele. – Ela não vai me deixar em paz. Mas eu estou com medo... muito medo. Tenho medo do que ela pode ser capaz de fazer.

   Calum se afastou um pouco dela, a observando com cuidado, notando arranhões em suas pernas. E naquele momento ele teve medo de saber o que havia sido feito à Selene e o que aquilo poderia causar a ela. E mais medo ainda de sua reação própria reação depois que soubesse. Mas ainda assim perguntou.

— E o que ela te fez?

   Mesmo relutante, Selene desatou o nó no lenço sob seu queixo e o tirou de sua cabeça, revelando seu cabelo claro todo desfiado e picotado.

— Se uma menina da sala não tivesse chegado na hora eu nem sei o que teria acontecido. – Confessou, magoada. – Não quero nem ver a reação dos meus pais com isso. E tenho medo também que ela distorça tudo. Eu não consegui mais ficar lá, tive que fugir. Só queria poder desaparecer.

    Olhando para os olhos inchados e avermelhados dela, de tanto chorar, Calum sentiu dor. A mesma dor que sentiu quando ela chorou por ele estar machucado. Nunca entenderia como conseguia partilhar dos sentimentos dela daquela forma, mas desejava que de alguma forma sobrenatural pudesse tirar aquela dor dela e carregar consigo. Detestava ver o mundo a quebrando. E foi então que sentiu raiva.

— Tudo bem, vou lá resolver isso. – Disse firme.

— O que? – Ela perguntou assustada e levemente nervosa.

— Vou lá resolver. Ela está na escola, não está? Vou acabar com essa palhaçada. – Ele se soltou dos braços dela.

— Não! Não, Calum, você não vai! – Ela ordenou e o abraçou novamente, com toda a força que tinha, para impedi-lo de sair dali. – Não faz isso, por favor. Não quero que arrume problemas pra você por coisas minhas. Só fica aqui. Eu só preciso de você aqui, só isso, não quero que faça mais nada.

   Selene afundou seu rosto novamente contra o peito dele e choramingou ali, repetindo várias vezes e suplicando para que ele ficasse. Calum suspirou, lutando contra todos os seus sentimentos de raiva e revolta, e deu um beijo desajeitado na lateral da testa dela, como se para acalmá-la e a abraçou novamente.

— Tudo bem. Vou ficar com você. – Falou ao ouvido dela. – Fica calma.

Calum segurou Selene em seus braços pelo que pareceu ser um longo tempo e ficou em silêncio, até o momento que os ombros dela finalmente pararam de tremer e ela se acalmou mais. Não conseguia nem entender em quais níveis aquilo deveria estar doendo nela, mas sabia que doía e muito.

   Selene afastou seu rosto dele e fungou antes de secar as bochechas úmidas.

— Ai, Cal, eu estou horrível. – Ela falou finalmente. - Meus pais vão me matar quando virem o jeito que eu estou. E vai ser ainda pior quando souberem que fugi da escola.

— Você não podia ficar lá depois disso ter acontecido. E não está horrível. – Ele deu um sorriso doce para reconfortá-la e acariciou a lateral de seu rosto suavemente com o indicador. – Mas fica tranquila, tem uma pessoa que tenho certeza que vai ajudar nesse problema do cabelo.

   Ela se afastou um pouco dele, o encarando com um olhar curioso.

— E quem é?

— A Hera. Esqueceu que ela é dona de um salão?

— Minha nossa, mas é claro! Mas será que ela não vai se incomodar? Fora que não estou com dinheiro nenhum aqui para pagar.

— Não se preocupe com isso, tenho certeza que se eu explicar direitinho tudo que aconteceu ela vai entender.

— Tá, tudo bem.

— Então... vamos lá?

   Selene assentiu rapidamente e Calum abriu um sorriso.

— Ótimo, então vou avisar ao meu tio que vamos dar uma saída. – Falou ele ao se afastar, mas segurando as mãos dela. – E a sua amiga, ela soube do que aconteceu?

­— A Evangeline? Não, meu deus, não! Ela deve ter ficado morrendo de preocupação por não me achar na sala quando chegou, eu nunca falto.

— Certo... então vou pedir ao Ash que avise a ela quando sair da escola tudo que aconteceu. Ela já ia passar aqui mesmo para podermos falar sobre o nosso plano. – Sorriu minimamente com o pensamento de como aquela ideia toda parecia tão boba naquele momento.

— Tudo bem. E você pode pedir também, se ela não se incomodar, pra que eu passe a noite lá? – Ela perguntou sem graça e baixou a cabeça, olhando para o pé que cutucava um buraquinho no chão de cimento. – Não quero ter que lidar com a reação dos meus pais agora. Preciso de um tempo pra assimilar tudo. Sei que ela vai inventar alguma coisa.

— Tá, pode deixar. – Ele assentiu e acariciou o braço dela antes de se afastar e ir em direção ao jardim no fundo da oficina.

   Ao chegar lá viu Michael andando de um lado para o outro, enquanto roía a unha do dedão e Ashton e Al sentados no bando de madeira, sacudindo as pernas quase de forma coordenada. No momento que eles o viram, pararam o que estavam fazendo e focaram suas atenções nele.

   Logo que viu o sobrinho à porta, Al se pôs de pé.

— E então filho, o que houve com a garota?

— É complicado. Uma menina da escola que tá no pé dela porque descobriu sobre... a gente.

   Al deu um suspiro pesado.

— Você sabe que gosto da Selene e acho que ela é um doce de menina, mas você tem certeza que vale a pena continuar insistindo, no que quer que seja que vocês têm? – Perguntou apoiando uma das mãos no ombro de Calum e olhando intensamente nos olhos dele. – Ela tem muito a perder por...

— Por ficar com um cara como eu? – Calum perguntou, perdendo um pouco a paciência, sentindo-se magoado pela fala de Al, e tirou a mão do tio de seu ombro. – Sei disso. Mas vamos dar um jeito nisso.

   Al suspirou mais uma vez e esfregou o próprio rosto.

— Claro que vão. – Falou em uma voz sem ânimo.

   Calum escolheu apenas ignorá-lo. Não tinha paciência nem tempo para entrar naquela discussão com ele naquele momento. Tudo que precisava se concentrar era em ajudar Selene, o resto resolveria depois.

— Eu vou precisar sair com ela agora. Vou até o salão da Hera ver se ela pode ajudar com o cabelo da Selene. – Avisou sob os olhares atentos. – Ash, vou precisar da sua ajuda pra uma coisa também. A Evangeline vai passar aqui quando sair da escola. Avisa pra ela que está tudo bem com a Selene, e que ela pediu para que a Evangeline avise aos seus pais que ela vai dormir na casa dela. Pede pra ela inventar alguma coisa. Vou deixar a Selene lá depois que tudo se resolver e ela vai explicar as coisas melhor.

— Tá certo, pode deixar. – Falou Ashton, assentindo.

— Bem, é isso. Al, vou compensar o trabalho perdido de hoje depois, prometo.

— Sei que vai, filho. – Al assentiu e deu um leve sorriso.

— Ei Cal, pode demorar o tempo que precisar. Eu tomo conta das coisas aqui e ajudo o Ash e o Al, pode deixar. – Disse Michael de forma determinada.

­— Mas você não sabe nem trocar um pneu, cara. – Calum implicou e cruzou os braços.

— Sei disso, mas vou dar o meu melhor. – Falou, sério e Calum não pôde evitar dar um sorriso.

— Obrigado, moleque.

   Ele esfregou uma das mãos na cabeça de Michael, fazendo com que o garoto desviasse logo, antes que seu cabelo virasse uma completa bagunça.

— Já vou indo então, só vou tirar esse macacão e pegar as chaves do Corvette.

   Após explicar tudo, Calum foi até o almoxarifado e trocou sua roupa de trabalho pela roupa casual que tinha indo. Após vestir sua calça jeans e blusa preta, pegou os sapatos de cano alto e os calçou e enquanto apoiava o pé e uma caixa de ferramentas para amarrar os cadarços, tentou não pensar em todos os planos de vingança que vinham em sua cabeça contra a garota da escola de Selene que havia causado aquilo. Não ia se permitir ficar remoendo aquele acontecimento, não naquele momento.

   Voltando para a oficina, foi até atrás do balcão, onde Al já se encontrava de volta ao trabalho e pegou as chaves do Corvette vermelho que estava estacionado do lado de fora. Olhou para Ashton explicando algo para Michael sobre o que ele teria que fazer, enquanto o garoto assentia, parecendo muito concentrado, e se despediu de todos que estava ali, antes de ir até Selene, que estava sentada, quase encolhida, sobre uma pilha de pneus do lado de fora. Ela já havia amarrado novamente o lenço em sua cabeça e mantinha os olhos baixos, talvez para tentar disfarçar para todos que passavam e olhavam que ela era a filha do prefeito e que estava na rua em horário de aula.

   Calum parou na frente da garota com as mãos nos bolsos da calça, fazendo que uma sombra se formasse sobre ela, e aquilo a fez levantar a cabeça.

— Vamos? – Perguntou ele com um leve sorriso no rosto e ela assentiu.

   Selene se levantou, pegou a pasta que estava no chão ao seu lado e foi seguindo Calum até o carro. O salão de Hera não ficava tão distante dali, mas ele achou que ficaria mais confortável para ela que não fosse andando, até por conta de toda a situação deles não poderem ser vistos juntos.

   Os dois fizeram o percurso todo em silêncio. Selene olhava tudo ao redor de forma vaga, com a cabeça distante, afundada no banco do carona. Mas dentro de poucos minutos chegaram.

E logo que adentraram a porta de vidro na fachada cor de rosa pastel do salão, viram que o lugar não estava tão movimentado, por ser cedo. Exceto por uma mulher ruiva com bob’s no cabelo sentada no banco de espera, folheando uma revista de moda com uma mão, enquanto a outra era feita por uma manicure jovem de cabelos incrivelmente vermelhos, e outra jovem morena sentada em uma das cadeiras acolchoadas de uma fileira com a cabeça dentro da máquina de fazer permanente no cabelo.

   Hera estava ao telefone, sentada atrás de um balcão também rosa, falando com um fornecedor enquanto anotava algo em seu caderninho. E assim que notou a presença de Calum em seu salão, acompanhado por uma Selene retraída logo atrás, seus olhos pareceram brilhar.

   Quando Hera terminou sua ligação, Selene reparou no momento que ela ficou de pé que até mesmo em seu local de trabalho ela ainda mantinha a aura impecável de sempre. Embora vestisse apenas uma calça preta de um tecido de caimento leve que alongava sua silhueta, uma blusa listrada preta e branca e tênis na mesma paleta de cores, ainda assim estava maravilhosa. Suas feições finas eram contornadas pelos cabelos longos e ondulados que moldavam seu rosto, e ela abriu um sorriso enorme ao caminhar em direção aos dois.

— Minha nossa, nem acredito que estão aqui no meu salão. A que devo a honra da visita de vocês, meus amores? – Falou enquanto dava um abraço apertado em Calum e depois em Selene. – Embora eu ache isso muito estranho, afinal está cedo e Selene, creio que deveria estar na aula.

   Um silêncio entre os três se instalou e Selene lançou um olhar apreensivo para Calum

— Hera, preciso te pedir um favor. – Calum falou em um tom sério e o sorriso no rosto dela diminuiu, percebendo que se tratava de algo sério.

   Calum e Hera foram para um canto mais reservado no salão, que não era tão grande, perto do balcão da recepção, para que ninguém mais ouvisse o assunto. E Selene se sentou no banco de espera próxima a mulher ruiva, que lhe lançou um breve sorriso amarelo e logo tornou a se concentrar em sua revista.

Dali ela observou mais à distância, Calum conversando com Hera e contando provavelmente todos os detalhes necessários do que havia acontecido para que entendesse a calamidade que estava. Se sentia um pouco invasiva de estar pedindo um favor daqueles para Hera, sendo que nem se conheciam tanto assim. Ela queria deixar claro que não deixaria de pagar pelos serviços, não mesmo.

   Alguns minutos depois Hera se aproximou de Selene com uma expressão de quem olhava para um cachorrinho perdido na rua, se abaixou na frente dela e segurou as suas duas mãos.

— Vou te atender daqui há pouco, tudo bem, querida? – Perguntou com um leve sorriso. – Vou só terminar o atendimento dessas clientes e já te dou toda atenção necessária.

— Tudo bem, sem problemas, não quero te atrapalhar. – Falou Selene, correspondendo o sorriso.

— Não me atrapalha, vai ser uma honra de ajudar nisso. É minha especialidade. – Deu uma piscadinha e se levantou.

   Hera foi até a mulher morena que fazia permanente no cabelo quando a máquina apitou e assim que ela saiu de perto de Selene, Calum chegou lhe trazendo um pouco de água em um copo descartável. Gesto ao qual ela agradeceu e sorriu, antes de beber. Estava mesmo com sede e nem tinha se dado conta. Toda aquela correria e choradeira tinha a desidratado.

   Para que o tempo passasse mais rápido, Selene focou sua atenção na programação da rádio, ouvindo o locutor falar com alguns ouvintes sobre seus problemas amorosos. Logo a cliente do permanente já tinha ido embora após pagar Hera pelo trabalho.

Calum, já um pouco impaciente com a espera, foi até o lado de fora pegar um cigarro no porta luvas de seu carro para fumar e espairecer um pouco a cabeça. Mas não muito tempo depois a mulher ao lado de Selene, que já tinha soltado os cabelos acobreados dos bob’s, terminou de ter suas unhas pintadas pela manicure. Ela só esperou que secassem um pouco mais, jogando papo fora com a funcionária, para poder conseguir mexer em sua bolsa e pegar o dinheiro par pagar.

   Não muito tempo depois, o salão estava sem nenhuma cliente. Havia chegado a hora de Selene resolver todo o problema no seu cabelo e ver o que poderia ser feito ali. Ela estava nervosa.

   Hera disse da forma mais sutil que pôde para Miranda, sua manicure, que ela podia ir tomar o café da manhã na lanchonete que não tinha conseguido antes de sair de casa, já que a próxima cliente só chegaria dali á algumas horas. A garota assentiu sem hesitar, embora lançasse olhares desconfiados para Selene, como se a reconhecesse de algum lugar. Mas ainda assim não disse nada. E Selene agradeceu mentalmente por aquilo.

   No momento que Miranda saiu pela porta de vidro, Calum entrou, aparentando estar tão ansioso com aquela situação quanto Selene.

   A pedido de Hera, a garota se sentou em uma das cadeiras rosas de frente para um grande espelho na parede e sentiu seu nervosismo aumentar.

— Tudo bem, querida, agora vamos ver como ficaram essas madeixas. – Pediu Hera em um tom quase maternal e Selene assentiu.

   Desatou o nó em baixo de seu queixo e tirou o lenço de cima de sua cabeça, revelando o cabelo claro com pontas desiguais. Ela não tinha se visto antes no espelho, mas vendo seu reflexo naquele instante, teve receio do que estava por vir. Desde que se entendia por gente sempre teve o cabelo grande, que ia quase até o quadril. E sua mãe era muito exigente e cuidadosa com ele, sempre orientando a filha a hidratá-lo e aparando as pontas ela mesma quando era necessário. Para ser honesta consigo mesma, Selene não tinha nenhuma memória de alguma vez já ter pisado em um salão de beleza em sua vida. Então só de imaginar que teria que fazer uma mudança radical nele, ficava tensa.

   Hera olhava atentamente o cabelo de Selene, observando cada detalhe, com uma das mãos sob o queixo, enquanto pensava. Passou os dedos entre os fios, para soltá-los e olhou para a garota pelo reflexo do espelho.

— Certo, tem solução sim, fique tranquila. – Disse com um sorriso. – Porém, vou ter que cortar bastante do comprimento para tirar as pontas desiguais. Mas pensei em um corte em cima do ombro que vai ficar supimpa!

— Em cima do ombro? – Selene ecoou, com os olhos arregalados, e engoliu em seco. – É a única solução?

— Receio que sim. Mas confie em mim, vai ficar incrível, tão lindo quanto esse cabelão enorme. Podemos até fazer uns cachinhos na ponta pra te dar um ar mais maduro. Ai já estou até vendo tudo e amando! – Falou de forma empolgada e bateu palminhas.

   Selene encontrou os olhos de Calum através do espelho, ele estava parado recostado à parede observando tudo com os braços cruzados, e o olhou como se pedisse um conselho, ainda que fosse sobre um assunto que ela sabia que ele não entendia.

— Pode confiar nela. – Ele falou como se tivesse lido a mente da garota. – A Hera é muito boa no que faz.

— Viu! – Comemorou Hera. – Tenho até o voto de confiança do Cal, o ser humano mais difícil de convencer que conheço. E então, o que você decide?

   Selene ponderou consigo mesma por um momento. Deixar o cabelo como estava não era uma opção e infelizmente ninguém tinha inventado uma máquina do tempo ainda para que pudesse voltar e recuperar seu lindo e adorado cabelo longo, intacto. Talvez no futuro, quem sabe. Então a solução mesmo era confiar nas habilidades de Hera e dar adeus de vez às suas madeixas longas.

— Tudo bem. Pode cortar. – Falou segura.

   Hera comemorou com um gritinho empolgado, fazendo Selene e Calum rirem, antes de ir pegar a capa de corte de cabelo para colocar por cima da garota e puxar para perto uma mesa plástica com rodinhas, com todo o material que precisaria usar, vulgo um pente, uma tesoura e uma garrafinha spray com água para umedecer o cabelo dela.

   — Vamos começar! – Anunciou dando um sorriso para lhe transmitir segurança.

      Selene observou atentamente através do espelho enquanto Hera deslizava o pente pelo seu cabelo até parar no comprimento exato que ia cortar, de forma cuidadosa. Na primeira mecha que se foi ela chegou a prender a respiração. Mas conforme o ritmo dos cortes com a tesoura foi se mantendo, ia ficando mais fácil, talvez. Tentou evitar ao máximo pensar em qual seria a reação de seus pais ao verem seu cabelo tão curto e qual desculpa teria que inventar para que eles não tivessem um treco.

   Ainda um pouco tensa em sua cadeira, ela olhou mais uma vez para Calum através do espelho e notou que ele olhava para Hera cortando seu cabelo com uma expressão impassível no rosto, que ela não conseguia identificar o que significava. Por um momento chegou a temer que ele estivesse detestando como ela estava ficando e que aquilo estivesse o fazendo gostar menos dela. Esfregou uma mão contra a outra e ficou se questionando se estava ficando horrível. E pela primeira vez começava a se arrepender de ter aparecido na frente de Calum com aquela aparência péssima.

   Nunca tinha pensado sobre aquilo, para ser honesta consigo mesma. Era óbvio que sempre queria estar arrumadinha quando o via, mas nunca realmente se vestiu ou se arrumou ou se sequer repensou com estava a sua aparência antes de encontrá-lo. E claro que por vezes se sentia pouco arrumada, mas o ponto era, talvez tivesse ficado confortável demais com Calum e se esquecido que ele era um rapaz como todos os outros que gostava de admirar uma moça bonita.

Desejou como nunca antes saber o que se passava pela cabeça dele.

Resolveu tentar não pensar demais naquilo, porque senão voltaria a chorar. E todo o tempo que gastou tentando não pensar, foi o tempo necessário para Hera terminar de cortar seu cabelo. Ficou tensa ao ver o tamanho que estava, exatamente em seu ombro, mas sentiu-se um pouquinho aliviada ao constatar que não estava tão ruim quanto imaginou que ficaria.

— Prontinho! – Falou Hera, sorridente, passando seus dedos nos fios e sacudindo-os para soltá-los. – O que achou? Bem melhor, não?

— Sim, até que ficou legal.

— Hm, não estou convencida. Que tal se eu o secar com o secador e fizer umas ondas nas pontas, só para deixar algo mais arrumadinho e chique? – Perguntou empolgada, relembrando os tais cachos que ela tinha pensado em fazer.

  Selene ficou insegura com a ideia por um momento e Calum olhou nos olhos dela pelo espelho.

— Não precisa fazer nada que não quiser. Seu cabelo já está ajeitado, então não precisa fazer nada mais se não for da sua vontade, claro. – Assegurou Calum, por perceber que ela estava tensa.

— Ai, para de ser careta Cal, não vou forçar ela a fazer nada que não queira. – Hera falou e deu um sorrisinho.

    Analisando seu cabelo úmido caindo reto e sem graça sobre os ombros, Selene pensou que um leve volume não faria mal.

­— Tá, acho que pode fazer.

   Hera bateu palminhas em comemoração e já tratou de ligar seu secador vermelho na tomada. Calum ainda com a expressão séria, foi até o banco de espera, se sentou lá e apoiou o queixo nas mãos, parecendo tenso.

   Enquanto Hera fazia seu trabalho e ajudava a melhorar a situação de algum jeito, Selene tentou focar na música que tocava no rádio para se distrair.

   Todo o processo pareceu demorar horas, secar, ondular, depois fixar. Selene sentia que nem estava mais presente em seu corpo àquela altura. Só foi chamada de volta quando Hera cutucou seu ombro ao terminar e perguntou o que achou. Se fosse ser sincera mesmo cairia nos prantos ali mesmo. Não era culpa de Hera, nem nada, mas ela não sentia que estava preparada para aquela mudança, era muito repentino. Porém, mesmo assim engoliu o choro e agradeceu à Hera com um sorriso, genuinamente feliz por ela ter a ajudado daquela forma.

— Bom, então terminamos aqui. – Falou Hera sorrindo e Selene se levantou da cadeira.

— Quanto ao pagamento, não tenho dinheiro aqui, mas pode deixar que assim que eu resolver tudo direitinho, volto aqui e te pago, tá?

— Que isso, meu amor, isso aqui é por conta da casa. Somos todos amigos e conhecidos. Me pague por esse serviço usando esse corte com confiança e talvez quem sabe, voltando ao salão para fazer outros penteados. – Sugeriu como quem não queria nada, piscando um de seus olhos cor de mel, de um jeito cúmplice.

   Selene riu. Ela era mesmo um anjo.

— Pode deixar, Hera. Vou tentar voltar, com certeza.

   Em meio à conversa as duas sobre penteados que ficariam lindos e combinariam com o jeito de Selene, Calum ficou de pé de forma despretensiosa, caminhou até o espelho na parede e ajeitou seu topete que estava bem arrumado em sua cabeça naquele dia. Suspirou levemente e falou, de repente:

— Sabe Hera, acho que vou aceitar aquele corte de cabelo que você vive tentando me convencer a fazer.

   As garotas ficaram em silêncio e Hera olhou para Calum tentando esconder sua surpresa diante daquele pedido.

— Oi, eu estou escutando direito? Você, Calum “por-favor-não-toque-no-meu-cabelo” Hood quer cortar o cabelo?

— É. – Balançou a cabeça afirmativamente. – Acho que tá na hora.

— Hm... tudo bem, sente-se na cadeira da tortura então. – Falou brincando, de forma pomposa.

   Calum se acomodou no assento acolchoado rosa e esfregou as palmas das mãos nas pernas da calça jeans. Hera colocou a capa de corte de cabelo sobre ele e foi pegar a tesoura para começar a aparar o cabelo.

   Selene sentou-se nos bancos de espera, colocou sua pasta da escola sobre o colo e ficou observando tudo. Não conseguia entender realmente o que se passava na cabeça de Calum. Ele estava todo sério e estranho e do nada pedia para cortar seu cabelo? Fora que pela forma como Hera falou a levava a pensar que ele não era muito fã da ideia. Mas mesmo com todas essas dúvidas, ficou calada apenas vendo.

   Quando Hera ia começar a usar a tesoura, Calum se intrometeu.

— Na verdade... vou querer que você usa a máquina mesmo. No cabelo todo.

   Hera ficou com os olhos arregalados ao ouvir aquilo e aparentava ter escutado a notícia mais chocante do mundo. E de fato era. Já tinha perdido da conta de quantas vezes tinha tentado convencer o garoto apenas a aparar seu cabelo ou então falava com Ashton para que o persuadisse, mas nada funcionava e naquele momento ele de repente estava determinado?

   Ela olhou para Selene sentada encolhida no banco de espera, com seu corte de cabelo novo contra sua vontade e entendeu tudo.

   Calum realmente era um molengo e precioso por dentro, embora tentasse esconder aquele lado dele à todo custo.

— Tudo bem. O cliente é quem manda. – Falou, indo pegar a máquina em uma de suas gavetas coloridas embaixo da mesinha sob o espelho. – Mas se tiver arrependimentos, já sabe, não tem reembolso. – Brincou, o fazendo esboçar um leve sorriso.

   Era notável que ele estava nervoso quando a máquina foi ligada, e pareceu querer desistir daquela decisão. Hera chegou a enrolar um pouco para começar, mas não queria dar muito na cara. Deixou o pente da máquina na altura quatro, já que não queria traumatizar tanto o garoto raspando a cabeça dele toda ma zero. Então a passou na lateral esquerda da cabeça dele, trazendo consigo os fios mais longos. Ele engoliu em seco, notando que não tinha mais volta, mas ainda assim estava determinado.

   O mais completo silêncio se formou entre os três no salão, e foi preenchido apenas pela música acústica vinda do rádio na parede. Hera fez tudo o mais rápido que pôde. Fez os pezinhos com o maior cuidado e perguntou ao garoto o que ele achava quando terminou.

Calum se pôs de pé, observou bem seu reflexo no espelho, passou uma das mãos pela cabeça, como se estivesse tentando se acostumar com o novo visual.

— Vou ser sincero hein. Um continuo muito boa pinta, não é, diz aí? – Se virou ao perguntar para as meninas, sorrindo.

   O clima tenso no ambiente desapareceu imediatamente conforme elas concordavam com ele, rindo.

— Obrigado por tudo, Hera. – Ele agradeceu com um sorriso.

— Que isso, foi um prazer. – Deu um tapinha no ar. - Nunca fiz corte em um casal no mesmo dia. Se querem saber, acho que vocês acabaram de me dar uma ideia do que colocar em dias de promoção aqui no salão. Vou fazer tanto sucesso que a barbearia do Gilbert vai ter uma séria concorrência! – Brincou, os fazendo rir.

— Bom, já vamos indo, então. – Falou Calum no momento que Selene se pôs de pé.

— Obrigada por tudo mesmo, Hera. – Disse Selene, dando um abraço nela.

— Ai, parem com isso! Sou só uma amiga fazendo um favor, não tem pra que isso tudo.

   Calum foi o próximo a abraçá-la, fazendo com que ela ficasse sorrindo como uma boba. Depois de todos trocarem as últimas palavras, os dois deixaram Hera para trás, limpando a sujeira de cabelo no chão e saíram do salão.

O garoto estava muito grato por tudo que Hera havia feito, mesmo sem ter obrigação. Ele vivia reclamando dela, principalmente quando estava com Ashton, por serem sempre melosos demais juntos, mas não podia deixar de reconhecer que ela era muito legal e que sempre estava lá para ajudar. Ficou grato por ter amigos daquele jeito.

   Enquanto os dois caminhavam para o Corvette vermelho, Calum perguntou à Selene o que ela queria fazer em seguida. Ainda faltavam algumas horas para o almoço, então Evangeline com certeza ainda não tinha saído da escola, portanto Selene não podia ir para lá ainda. Após pensar um pouco, ela disse que só queria comer alguma coisa, mas longe de Hollowtown. Não queria ter que lidar com o olhar das pessoas. Calum se certificou se tinha alguns trocados perdidos em seu bolso antes de concordar e logo que eles entraram no carro, foram em direção à saída da cidade, onde poderiam se afastar de todos que conheciam.

   Em alta velocidade na estrada, Selene apoiou os braços sobre a porta do carro, repousou o queixo nas mãos e fechou os olhos, sentindo o vento bater em seu rosto e levar embora todos os seus problemas. Só precisava daquilo, esquecer de tudo.

   Calum do banco do motorista, vez ou outra, olhava para ela como se ela fosse a coisa mais preciosa que existia. A luz do sol batia em seus cabelos claros esvoaçantes, fazendo-os brilhar, e ele teve vontade de passar os dedos pelos cabelos dela. Apesar do que tinha acontecido para que fizesse que ela fosse até ele, parte dele se sentia grata por tê-la de volta ao seu lado. Só os dois.

— Ei, Cal.- A voz dela o tirou de seu transe de pensamentos e ele a olhou. – Por que você decidiu raspar sua cabeça?

   Ele deu de ombros, mantendo os olhos na estrada e a pose de durão.

— Ah, você sabe né, queria dar uma mudada no visual.

— Mas por que nesse momento? Você sabe que eu não estava cortando meu cabelo porque queria.

— É claro que eu sei disso, Selene. – Falou apertando as mãos no volante. – Não foi pra implicar com você, se é o que tá pensando.

— O que? Claro que não, nunca pensaria isso. – Ela se retratou rapidamente, com receio de tê-lo magoado. – Só achei estranho. A Hera parecia muito surpresa, a forma como ela reagiu ao seu pedido deixou tudo claro. E vamos ser honestos, você amava conferir seu topete em qualquer superfície refletora que passava perto.

— Ai, até você. – Rolou os olhos se lembrando da implicância de Ashton. – Tá, eu vou te contar, mas promete que não vai rir?

   Olhou para ela de relance. Selene assentiu de forma veemente e virou seu corpo para ele, se sentando de lado no banco do carona.

— Certo, então... Nossa sou péssimo com essas coisas. – Resmungou e esfregou as duas mãos no volante. – Tá. Eu vi como você ficou chateada por ter que cortar seu cabelo contra sua vontade e... é isso, também não sou muito fã de cortes radicais no meu cabelo, sabe. Então, sei lá, acho que na minha cabeça fez sentido que se talvez eu cortasse meu cabelo também, você talvez se sentiria menos... triste?

    Ele ficou em tenso após terminar de falar, mantendo seus olhos sempre na estrada à sua frente para evitar olhar para a expressão que estava no rosto de Selene. Realmente era péssimo falando o que sentia em voz alta. Ainda que soubesse que ela não advinharia que aquela era sua intenção se não falasse, continuava a se sentir um tolo.

   A garota por outro lado não conseguia conter dentro de si os sentimentos bons que ouvir aquelas palavras haviam lhe causado. Não conseguia nem crer que Calum era real. Como uma pessoa tão imperfeita, podia ser tão perfeita?

   Sorrindo de orelha a orelha, ela estendeu uma das mãos e acariciou o ombro dele de forma demorada.

— Sabe, você é um amor, garoto.

   Ele revirou os olhos e escondeu um sorriso.

— Argh, por favor, não faz isso. – Fez um falso deboche, dramático.

— Ah, faço sim.

   Ela se levantou um pouco do banco, se debruçou na direção dele e deu beijinhos em sua bochecha, finalmente arrancando sorrisos.

— Nossa, você não tem noção do que acabou de arrumar, senhorita. – Brincou. – Você tá oficialmente sequestrada pelo dia de hoje, onde só terá a minha companhia o tempo todo. Afinal mereço isso, depois de tanto tempo separados.

   Ela se sentou no banco novamente e fez uma cara de pensativa.

— Acho justo.

   Calum sorriu ao olhar para os olhos brilhantes dela e tocou o carro em direção à uma cafeteria que conhecia na beira da estrada, onde começariam o dia deles juntos. Mais um encontro para sua coleção de memórias.  

    ● ● ●

    Ao final de um dia que Selene queria ter o poder de prolongar, o sol já estava prestes a se pôr no horizonte, mas nenhum deles tinha notado. Haviam passado o dia em uma mundinho particular só deles, conversando, conhecendo novos lugares fora de Hollowtown e aproveitando a companhia um do outro.

Durante a tarde, os dois haviam decidido fazer uma parada no parque onde tiveram o primeiro encontro, e como estava tranquilo por lá, ficaram por um longo tempo.

   Ela andava sobre uma mureta de cimento, abrindo os braços vez ou outra quando perdia do equilíbrio, e observando tudo à sua volta, enquanto Calum caminhava ao lado dela, mas pela trilha acimentada em meio a todo o verde do lugar, com as mãos nos bolsos da calça jeans.

— Ei, vamos fazer uma brincadeira? – Ela sugeriu de repente, fazendo que ele a olhasse.

— Que tipo de brincadeira?

— Tipo, um jogo de perguntas. Uma vez li em uma das revistas que a Evangeline me empresta que para melhorar um relacionamento é bom que um casal esteja sempre se comunicando.

— Nossa, mas quanta bobagem.

— Bobagem nada. Vamos! Eu falo uma palavra e você me diz a primeira coisa que te vêm a cabeça, certo? Depois você faz o mesmo comigo. – Explicou olhando atenta para mureta para não se desequilibrar.

— Tá, tá, vai lá.

— Okay. – Ela parou para pensar por um momento. – Família?

— Ah, meus parceiros de gangue, com certeza. – Respondeu sem nem pensar duas vezes.

— Uau, que legal! Eu provavelmente teria respondido os meus pais mesmo. – Deu uma risada. – E quanto os seus tios?

— Ah, eles são minha família, de sangue. Eles cuidam de mim desde sempre e sou muito grato a eles por isso. Mas quando penso nos caras da gangue... eles são por mim o tempo todo sabe, não importa o tamanho da merda que eu faça, e olha que eu já fiz muita, eles sempre estão lá, nem que seja pra me apoiar no momento, mas depois que tudo passar, berrar na minha cara.

— Isso é incrível mesmo, ter pessoas que estão ao seu lado constantemente não importa o que aconteça. Você gosta muito da sua gangue, não gosta?

— Mas é claro.

— Mesmo que estar nela te traga problemas muitas vezes?

— Ainda assim. Porque afinal, se eu não pertencer a ela, aonde eu pertenço?

   Selene o olhou de relance por um momento. Ele estava cabisbaixo, chutando as pedrinhas do chão conforme andava. Ela admirava Calum pela lealdade dele aos amigos, mas queria poder dizer a ele que ele pertencia sim mesmo fora da gangue. Ele pertencia ao mundo, afinal um mundo sem ele não faria sentido. Queria dizer para ele parar de se esconder em um determinado grupo, como se só existisse se estivesse nos Falcons, mas tinha receio de que fosse chateá-lo. Talvez ainda não fosse o momento.

— Tudo bem, sua vez agora. – Ela falou quebrando o silêncio e voltando o foco ao jogo.

— Tá, deixa eu pensar. – Ele passou uma das mãos pelo queixo, em um gesto involuntário. – Sonho.

— Essa é fácil! Casar, ter filhos, constituir uma família. – Contou sorrindo.

— Nossa... uau!  - Ele gaguejou e ruborizou. – Mas já?

— É muito precipitado? Não sei, sempre cresci ouvindo isso sabe. Casar, ter um bom casamento, uma boa família. Agora que já estou com quinze anos sinto que está ficando cada vez mais próximo. Lydia, uma conhecida da minha rua era um ano mais nova que eu quando casou com um fazendeiro há dois anos atrás e agora eles já estão esperando o segundo filho. – Comentou com naturalidade enquanto Calum parecia chocado.

   A vida dos burgueses realmente era diferente da sua.

— Tá, e se eu te dissesse que essa coisa toda de casamento e ter filho não era uma opção, qual seria o seu sonho?

   Ela parou onde estava, o fazendo parar também, enquanto olhava para o céu e parecia pensar profundamente sobre o que ele havia perguntado.

— Sinceramente? Não faço ideia.

— Bem, seja bem vinda ao clube, então. – Ele brincou e riu, fazendo que ela risse também. – Eu não faço ideia do que seja ter um sonho. Nunca fiz. Mas sei lá, achei que uma menina como você teria algum, e que pra mim ia soar como algo totalmente impossível, e aí você iria rir e dizer que ia fazer de tudo para realizar ele.

    Os dois voltaram a caminhar e Selene pensou por um momento nas palavras de Calum. Queria ter um sonho daqueles. Talvez se casar e ter filhos fosse apenas algo que já estava predestinado a acontecer em sua vida, não algo que ela realmente almejava. Mas o que fazia seu coração bater daquela forma? O que fazia que ela parasse tudo apenas para se dedicar àquilo?

   Selene se desequilibrou por um momento na mureta e Calum esticou uma de suas mãos como por instinto, para segurar a dela e ajudá-la a permanecer de pé ali. A mão dele estava quente, por estar dentro do bolso, e era firme, Selene se sentiu segura.

— Nossa, fiquei curiosa para saber como é essa sensação.  - Ela confessou. - Vou pensar com mais cuidado sobre o assunto e vou descobrir um sonho.

   Calum sorriu para o chão. Ele gostava da determinação dela.

— Vou esperar ansioso pra que me conte.

— Certo, minha vez agora, não é? – Perguntou ansiosa e ele assentiu. – Tá, vou pegar no seu pé agora hein. Beleza.

— Caramba, você é fogo na roupa hein? Realmente quer tirar as coisas de mim. – Dramatizou, a fazendo rir.

— Vai me fala!

— Tudo bem. – Fez cara de pensativo. – Ah, o meu gatinho Estopa, é claro. Ele não é a coisa mais lindinha, com aquelas manchinhas que parecem graxa? – Brincou, imitando jeito que ela falava, fazendo Selene gargalhar e aquilo quase a fez cair da mureta de novo.

— Para, fala sério vai!

— Tô falando sério, foi o que veio na minja cabeça. E qual é a primeira coisa que vem à sua cabeça ao pensar em beleza? E não vale dizer que sou eu!

   Selene gargalhou, soltou a mão dele e deu leves tapinhas ali, o que só o fez rir. E só quando voltou a manter sua compostura respondeu.

— Bom, pra começar acho que essa é uma palavra muito complicada pra mim, porque eu sinto que sou apaixonada pela vida. Eu vejo beleza em tudo, desde as paisagens cotidianas, até o sol nascendo e iluminando tudo todos os dias, no jeito que o meu pai olha todo bobinho para minha mãe sempre que ela cantarola pela casa, na forma que a Evangeline é gentil comigo mesmo eu sendo totalmente careta muitas vezes, no fato do Elias confiar em mim com todo o coração dele, e principalmente em você. – Ela parou de repente, e se virou para ele, que olhou para cima para manter contato visual com ela. - Acho a coisa mais linda como você se esforça ao máximo pra se livrar de todas as coisas do seu passado que te prendem e te machucam, pra sempre ser a melhor versão de você comigo. Seu esforço não passa despercebido, Cal. Eu noto. Eu te vejo.

   Com as mãos nos bolsos e a cabeça erguida, olhando diretamente nos olhos verdes de Selene, Calum não conseguia identificar com exatidão o que estava sentindo naquele momento. Só sabia que seu coração batia de uma forma irregular, como nunca antes. Ela era especial, ele tinha a mais plena certeza daquilo. Sabia que ela nem imaginava o quanto aquelas palavras realmente significam para ele e aquilo só o fazia sentir-se ainda mais grato por ela existir. Nunca alguém pôs tanto significado em sua existência quanto ela.

   Selene inclinou a cabeça para o lado ao notar que ele sorria e sorriu de volta.

— Posso te pedir uma coisa? – Ele perguntou de repente.

— Claro.

— Nunca mude. Por favor, não deixe o mundo mudar a sua forma de ver as coisas. É incrível. Você uma vez me disse que queria saber como o mundo é através dos meus olhos. Bem... pois eu queria poder enxergar através dos seus.

   Selene sentiu cada uma das palavras que ele falou, tanto que lágrimas se formaram a ponto de embaçar sua visão e ela nem tinha notado.

   Se abaixou para descer com cuidado da mureta e depois foi andando em direção à Calum com os braços estendidos, pronta para um abraço. Ele deu um enorme sorriso, do tipo que ela adorava, que fazia os olhos dele praticamente se fecharem, e abriu os braços para que ela pudesse se acomodar em seu peito.

   Ali, aninhada nos braços dele mais uma vez, ela sentiu que era seu lugar.

   Calum se afastou um pouco dela, beijou a sua testa e entrelaçou seus dedos, colando as palmas de suas mãos.

— Olha, o sol já está se pondo. – Ele avisou, notando finalmente, olhando para o horizonte, onde por trás de várias árvores frondosas os raios alaranjados do sol passavam através dos galhos.

   Selene olhou para trás, surpresa.

— Nossa, verdade! Como hoje passou rápido. Vamos ver?

   Calum assentiu.

   Os dois foram caminhando de mãos dadas até Corvette vermelho e por ideia de Calum, subiram no capô e ficaram deitados ali, um ao lado do outro, olhando o sol baixar cada vez mais no horizonte, cobrindo o parque com uma luz dourada, que refletia na superfície do lago à distância.

— Sabe, estou cada vez mais receosa do que ainda está por acontecer quando voltarmos à nossa realidade. – Confessou Selene, enquanto olhava as folhas das árvores serem balançadas pelo vento.

— Não se preocupa com isso agora. – Pediu, a olhando de relance e cruzou os braços atrás da cabeça. – E não importa o que vai acontecer, eu vou estar do seu lado.

   Selene olhou para ele e sorriu.

— Digo o mesmo para você.

   Ela se aproximou mais dele e ficou percorrendo a ponta do indicador sobre as linhas dos desenhos das tatuagens no braço do garoto, como um hábito. Sentiu-se em paz como já não se sentia fazia um tempo. Toda vez que estava perto de Calum não conseguia nem descrever o quão sortuda se sentia por ter alguém tão especial em sua vida. Ela o abraçou e repousou sua cabeça no peito dele.

 Ali naquele silêncio agradável, com o vento soprando e apenas o som dos pássaros se acomodando nas árvores, os dois ficaram vendo o sol desaparecer no horizonte.

— Olha, a lua já está no céu! – Selene falou empolgada, apontando para o lado oposto de onde o sol se punha, uma meia lua surgia no céu. – Adoro esses encontros raros da lua e do sol.

    Calum sorriu ao ver a empolgação da garota e se lembrou do que ela havia dito a ele sobre pensar nos dois como a lua e o sol.

— Está vendo, parece que eles adivinharam que a gente se reencontraria hoje também. – Falou de forma despretensiosa.

— Não é? Com certeza temos mesmo uma ligação. – Ela falou duplamente mais animada. – Como queria ter uma câmera comigo para registrar esse momento. Queria que mesmo com o tempo as nossas memórias permanecessem intactas e perfeitas assim. Tudo passa tão rápido.

   Ele pensou sobre o que ela havia dito. Também queria o mesmo, as coisas eram tão incertas em sua vida e tudo mudava tão rápido que ele tentava ao máximo se segurar aos momentos bons o máximo que podia. Quando estava junto a Selene passou a recear pelos momentos em que eles ficariam separados novamente, porque nunca tinha certeza de quando e se realmente poderiam voltariam e se encontrar. Queria que tivesse alguma forma de ter certeza de que aquilo não terminaria, ou de pelo menos ficar mais seguro.

— Sabe, nesse tempo que a gente estava separado, eu pensei sobre algumas coisas. Sobre nós. – Ele falou de forma sutil. – Sobre o que somos um pro outro.

— Como assim?

— Não sei é que... toda vez que a gente tem que ficar separado eu sempre fico me perguntando se as coisas vão ficar assim. Se não vamos nos ver mais. Não me entenda mal, por mim eu iria te ver todo dia, mas não quero que tenha problemas com a sua família por minha causa.

— Eu entendo. Dessa última vez agora me perguntei a mesma coisa. Ai... tudo é tão complicado. Queria que meus pais fossem menos exigentes e que a Cora fosse mais legal. - Suspirou. - Mas com o que aconteceu hoje eu senti que tinha que correr pra você. Acho que sempre acabamos voltando um para o outro.

— É. – Ele suspirou também. – Mas não é só isso sabe, quero poder te apresentar propriamente quando falo de você pras pessoas.

— Você fala sobre mim para as pessoas? – Ela perguntou rindo, surpresa.

    Calum revirou os olhos.

— Só me escuta.

— Tudo bem.

— Tá. É que eu pensei muito sobre isso, principalmente depois de uma conversa com o Ash esses dias. E eu sei que não tenho nada, nada mesmo, para te oferecer, mas espero que apenas eu seja o suficiente. Então... Selene, você aceita namorar comigo?

   Selene levantou a cabeça para olhá-lo nos olhos, com uma expressão visível de choque, e viu que ele estava sério. Então não era uma brincadeira. Com o coração acelerado e sentindo como se nada daquilo fosse real, ela tomou coragem de responder.

— Meu Deus, sim? Mas é claro, que aceito. – Deu uma risada nervosa. – Nossa nem acredito nisso.

   Calum sorriu e ergueu seu tronco, se apoiando em seus cotovelos.

— Não tinha planejado nada disso, então desculpa pelo momento ser meio sem graça. Só senti que era o momento certo. Em uma próxima ocasião, prometo melhorar.

— Você tá brincando? Foi perfeito. Só o fato de você se importar o suficiente para me pedir uma coisa dessas. Não poderia desejar por nada diferente.

— Mas espera, temos que encontrar alguma coisa pra selar esse momento. – Ele se sentou no capô do carro e olhou em volta. – Ah, já sei!

    Calum se levantou, desceu do carro e foi rapidamente até uma pequena árvore na proximidade que estava toda florida. Se esticou, pegando um dos galhos, e colheu uma flor vermelha.

   Do carro, Selene o observava sorrindo toda boba com as mãos na frente do rosto. Não conseguia nem mais esconder o quanto gostava daquele garoto. Ele se aproximou dela e colocou a flor atrás de sua orelha.

— Pronto, agora sim. – Ele disse, com um sorriso no rosto.

   Selene ajeitou a flor, a prendendo com seu cabelo para que não caísse.

— E então, estou bonita? – Perguntou fazendo uma pose e piscando rapidamente, o fazendo rir.

— Perfeita. – Falou com um sorriso e correu seus dedos pelos cabelos recém cortados da garota.

   Selene sorriu tanto que suas bochechas chegaram a doer. Ficou grata por ele ter dito aquilo e ter calado as inseguranças que rondavam sua cabeça sobre sua aparência, mesmo que ela não tivesse dito nada.

   Calum acariciou a bochecha rosada da garota com as costas da mão, em seguida segurou o queixo dela e ergueu seu rosto suavemente, até seus lábios se encontrarem. Pela forma que o coração dele bateu, constatou que estava morrendo de saudades dela. Saudades de sentir a boca dela na sua, da respiração ofegante dela contra o seu rosto, e da forma que sua mão se encaixava perfeitamente na nuca dela para aprofundar o beijo.

   Selene passou seus braços por cima do ombro dele e se entregou totalmente ao momento. Queria aproveitar o máximo possível, já que nunca sabia quanto tempo iria durar. E ali naquele instante ela só queria poder agradecê-lo com palavras por amá-la, ainda que em sua vida não tivesse se sentido amado. Mas sabia que mesmo que não dissesse, de alguma forma, ele entedia.


Notas Finais


E aí, me contem tudoo!!
Gente, eu preciso confessar que esse capítulo cresceu demais no meu coração enquanto eu escrevia ele e virou um dos meus favoritos. Não sei se algum consegue superar o 16 pra mim, mas esse tá próximo kkkkk
Enfim, me digam o que acharam, eu estou morrendo de curiosidade pra saber as opiniões de vocês!
Tomara que tenham gostado, beijoos, até o próximo!


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