História Zelda: Echoes - Capítulo 1


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Categorias The Legend Of Zelda
Personagens Ganondorf, Link, Personagens Originais, Zelda
Tags A Lenda De Zelda, Ação, Aventura, Deku, Gaepora, Ganon, Ganondorf, Gerudo, Guerra, Hoenn, Hyrule, Kokiri, Legend, Link, Linkle, Majora, Malon, Ocarina, The Legend Of, The Legend Of Zelda, Triforce, Zelda, Zora
Visualizações 58
Palavras 4.654
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Romance e Novela, Saga, Shounen, Sobrenatural, Suspense, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Mutilação, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Eu adoro Zelda desde que eu era bem pequeno, aos 10 anos joguei Ocarina of Time, acho. Meu amor pela série só cresceu desde então, junto com meu gosto por escrever, mas nunca achei que estava bom o suficiente ou tinha uma ideia interessante ao qual merecesse ser desenvolvida. Bem, dessa vez acho que alcancei o resultado que queria : )

Se você nunca jogou um jogo de Zelda na sua vida, não se preocupe, ainda vai entender a história perfeitamente. Talvez uma referência pequena ou outra passe despercebida, mas no geral, acredito que ainda vai ser divertido. Obrigado por tirar seu tempo para checar essa história, e espero que tenha uma ótima leitura.
(PS: Se nunca jogou Zelda, jogue, vai adorar. Confie em mim.)

Capítulo 1 - Despertar


A primeira coisa que o rapaz contemplou ao abrir os olhos foi o vasto céu azul que se estendia infinitamente, pincelado por largas e densas nuvens brancas que pareciam ter sido propositalmente pintadas ali como em uma tela branca por um artista inspirado. De suas extremidades, se era possível reparar nos raios de luz que se fracionavam, dando-lhes um leve tom de dourado, um sinal do Sol que se encontrava atrás daquelas nuvens, no centro de toda imensidão do céu azulado enquanto parecia levemente se inclinar em direção Oeste, dando o entendimento ao rapaz de que já era o inicio da tarde. Embora ele tivesse a certeza de que já havia contemplado aquela maravilhosa vista várias vezes anteriormente, sentia-se como uma criança que vira o céu pela primeira vez, e se admirava com a beleza do mundo que as deusas haviam criado.

Olhando ao redor, percebeu que estava deitado confortavelmente sobre o chão, em um solo macio, em parte graças à grama verde e alta que o circundava, junto de gramíneas e dentes de leão que compunham a flora do local.

Ergueu parte do corpo, sentando-se no chão, e percebeu o estranho cheiro de queimado, ou chamuscado, que vinham de suas roupas. Puxando parte da gola da túnica azul que vestia e aproximando do rosto, percebeu que o cheiro realmente vinha de suas vestimentas, como se ele houvesse acabado de escapar de um incêndio, embora elas estivessem devidamente limpas. Olhou então ao redor, e constatou que a região era uma longa planície que se estendia até o horizonte, por onde começavam uma série de colinas que terminavam por dar entrada a uma floresta de árvores altas, bem distante. Do lado oposto, conseguia ver uma enorme construção não muito longe, com uma muralha de pedra alta e bem longa, que se estendiam por muito longe, em seu centro contendo enorme portão de madeira erguido por correntes que era a entrada principal para a cidade adiante. Acima disso, o rapaz conseguia ver os telhados pontiagudos e torres de um enorme castelo, que se estendiam na distância, alcançando sua visão por cima da muralha de pedra. Estonteado, e ao mesmo tempo maravilhado com a visão das terras ao redor, o rapaz percebeu então que não conhecia, e nem ao menos tinha ideia de onde estava. Mais importante, não tinha certeza nem mesmo de quem era, e qual era seu nome.

O forte vento vindo do Oeste acariciou então o rosto do rapaz, sacudindo seus longos cabelos loiros e chamando sua atenção para uma bainha com uma espada que não havia percebido estar no chão, ao seu lado. Apoiando a bainha de couro sobre o colo, segurou o cabo da espada com a mão esquerda que lhe era dominante, e a brandiu no ar como se fosse sua primeira vez segurando uma arma do tipo. A espada, de um metal reluzente, parecia-lhe ser leve, porém de uma lâmina longa e eficiente, como se houvesse sido prepara para o manuseio próprio do rapaz. Na lateral de sua lâmina havia um inscrito quase imperceptível no metal, ao qual o garoto pode ler perfeitamente e identificou como sendo ‘’Hylian’’, embora ele não tivesse certeza do que isso significava. O inscrito dizia ‘’Link’’, ao qual ele imediatamente identificou como sendo seu próprio nome, e tinha uma certeza firme disso, embora ainda não se lembrasse de mais nada. Imaginou que fosse algum tipo de espadachim, ou talvez algum viajante, mas nenhuma das ideias lhe parecia correta. Em sua mente, porém, Link lembrou-se que tinha um objetivo: Ele deveria encontrar alguém, mas não tinha a mínima ideia de quem a pessoa era, embora lhe parecesse um objetivo importante, quase urgente, de que se encontrasse com ela. Sem saber para onde deveria ir ou o que deveria fazer, guardou a espada e prendeu a bainha na cintura, desatento ao som das patas de um cavalo trotando contra o solo, e das rodas de uma carroça que se aproximava por um caminho de terra, ao qual se afastava até em direção as muralhas ao longe, e passava rente por onde Link estava agora.

- Está perdido, rapaz? – Disse uma voz grossa, e Link se virou naquela direção, atento graças ao susto.

A carroça de madeira havia parado, e estava agora bem próxima do rapaz. O cavalo de bom porte que a movia agora se entretinha comendo as gramíneas no solo perto de Link, após ser ordenado a parar pelo seu guia: Um homem gordinho, barbudo e não muito alto, que usava uma espécie de macacão azul por cima de uma túnica de cor vermelho-vivo. Confuso, Link se endireitou e se curvou, sendo esse o único tipo de comprimento que lhe vinha a mente, embora não tivesse certeza se aquele homem era a pessoa certa para o qual ele deveria estar fazendo aquilo. Surpreso, o senhor barbudo deu uma gargalhada que quase o fez cair da carroça, mas então se voltou e disse:

- Acho que deveria se prostrar assim para o Rei, não para mim, jovem!

- Desculpe... – Link disse, estranhando o som de sua própria voz em seguida, como se não estivesse acostumado a falar.

- Heh, você está bem? Te vi deitado aí e pensei que fosse um vagabundo, mas olhando melhor agora, suas vestimentas são de cavaleiro, não são? Essa túnica... E espada! Não, pensando melhor, és muito novo para ser cavaleiro, está então em treinamento para se tornar parte dos cavaleiros reais quando tiver a idade certa, imagino? – Disse o homem, examinando melhor Link.

- Eu... Não sei... – Disse o rapaz, voltando a estranhar suas próprias roupas.

- Não sabe? Você não está mesmo bem, não é? Será que bateu a cabeça? Se quiser, eu posso te dar uma carona, pois estou indo para a cidade. Qual seu nome, rapaz? – O homem disse, erguendo uma sobrancelha.

- Link, eu me chamo Link. – Link respondeu, sendo essa a única certeza que tinha.

- Link? Esse é um nome um tanto incomum. Eu me chamo Talon. Sobe aí garoto, eu estou indo para a cidade entregar leite, então talvez lá tenha alguém que possa te ajudar. Também pode beber uma garrafa se quiser, talvez te ajude, e é por conta da casa. – Talon respondeu, ajudando o garoto a subir. Link se sentou, pegando uma garrafa de leite do carregamento na carroça, mas sem ter certeza se lhe parecia saborosa ou não naquele momento, decidiu guardar para depois. O cavalo voltou a trotar pelo caminho de terra, e pouco a pouco eles começaram a se aproximar das muralhas da cidade.

Da carroça em movimento, o rapaz pode ter uma visão melhor dos arredores. Ao longe, outras carroças e cavalos entravam e saíam pelos portões da cidade, e mais distante, ele podia ver algumas fazendas largas perto da região das colinas, e uma área maior cercada por paredes de pedra naturais que pareciam limitar a área de um rancho. O Sol não queimava muito forte, e por isso alguns cavaleiros com espadas treinavam em aberto no topo de um declive próximo. Várias estradas de terra acabavam por levar a estrada principal, que ia direto para a entrada do enorme portão de madeira.

- Linda é essa terra de Hyrule, não acha? Que o Rei continue a trazer prosperidade para nosso povo pelas próximas gerações. Mas me diga Link, já tem alguma ideia de onde você vem? Para mim tem todos os traços de um rapaz Hylian, e suas vestimentas me recordam das dos cavaleiros em treinamento, mas ainda não tenho certeza. – Confessou Talon.

- Não, eu não sei... Sendo sincero, não reconheço nada aqui, não tenho nem mesmo ideia de quem eu realmente sou. Simplesmente acordei naquele campo aberto, sem me lembrar de nada, e agora não tenho muita certeza, mas acredito que eu precise encontrar alguém, alguém muito importante.– O garoto explicou.

- Isso... É realmente preocupante, não é? Não tinha ideia de que fosse tão sério assim, embora tenha reparado na sua confusão quando te vi perdido agora pouco. Bem, certamente você é da cidade, ou filho de algum proprietário de terra pelos campos ao redor. Assim que entrarmos na cidade, eu te ajudarei a ver se consegue se lembrar de alguém ou de algum lugar. Se não conseguir se lembrar de nada, e ninguém te reconhecer, pode passar uma noite no Rancho Lon Lon, minha propriedade, e amanhã te levarei para ver a Academia de Cavaleiros, ou algum médico que possa te ajudar, o que acha? – Propôs Talon.

- Eu... Agradeço. Mas não sei se tenho como te pagar... – Respondeu Link.

- Vamos fazer assim então: Você me ajuda a entregar o leite hoje na cidade, se não acharmos ninguém que te conheça, como eu disse, você já pagou sua estadia no rancho com seu trabalho. O que acha?

- Sim, eu ficaria feliz em poder ajudar. – Disse Link, sorrindo.

A carroça saiu do caminho de terra, em pouco tempo se desviando para a estrada principal que levava a entrada da cidade. Outras carroças e cavalos de comerciantes levando diferentes cargas faziam o caminho oposto, e às vezes também se voltavam para entrar, o que serviu para Link de comprovação que aquela era uma cidade movimentada. Passaram então pelo enorme portão de madeira aberto, e atrás das muralhas, Link pode ter uma ampla visão das casas, prédios, e estradas de cascalho que estavam por se abrir para seu campo de visão. Mais a frente, uma grande e circular praça central, com uma fonte de água bem no meio, barracas de vendas nos arredores, mesas externas de restaurantes, ruelas, comércios. A fumaça que saia das chaminés das casas, o cheiro de alimentos sendo tostados e pães doces sendo vendidos ao ar livre, o barulho animais domésticos correndo e as risadas altas dos Hylians que iam e vinham, conversando alegremente, tudo isso deixou Link estranhamente maravilhado. Sentia uma familiaridade estranha, como se pertencesse aquele lugar, mesmo que não se lembrasse. Sentiu como se reconhecesse aquelas pessoas que nunca havia visto antes, e passou a ter fé de que realmente morasse naquela bela cidade, e que por alguma razão perdera a memória, mas ali teria alguém procurando e preocupado com ele, ou pelo menos era isso que Link queria acreditar.

- Muito bem, vamos descarregar. – Disse Talon, descendo da carroça. – Existem muitas casas e comércios que eu preciso visitar, e como já deve ter percebido, essa cidade não é lá das menores, mas hoje é um dia corrido para todos, então certamente vamos encontrar alguém que te conheça ou tenha informações sobre você nos arredores. Enquanto isso faça como combinamos e me ajude a entregar essas caixas de manjar. Com sua ajuda, podemos terminar muito mais cedo! – Disse Talon, e Link acenou com a cabeça em afirmação, descendo da carroça e o ajudando a levar as caixas de leite.

Com a realização das entregas o dia pareceu passar bem rápido, especialmente para Link, que quase não reparou no passar das horas, focado no trabalho que tinha de fazer enquanto admirava com curiosidade cada canto da cidade pelo qual passavam. Durante as entregas, por onde paravam em casas e comércios, Talon aproveitava para perguntar aos moradores locais, soldados de patrulha e principalmente alguns estudantes da academia dos cavaleiros reais que perambulavam pela região em seu tempo livre, mas ninguém parecia reconhecer, ou mesmo identificar Link. Conforme o céu tomou os tons dourados do entardecer e a movimentação nas ruas passou a cessar com o anúncio do fim da tarde, a carga na carroça de Talon se tornou cada vez menor, após terem circulado pela larga cidade vez após vez com a realização das entregas, e não havia ainda nenhum sinal ou pista de alguém que reconhecesse Link. Percebendo isso, o rapaz se sentia frustrado: No início tinha esperança de que alguém viria atrás dele o mais rápido possível, o reconheceria e o abraçaria com alegria, talvez sua mãe, mas percebendo que esse não seria o caso, mesmo após terem atravessado toda região da larga cidade quase mais de uma vez, o sentimento que havia tido no início, a vontade de fazer parte de tudo aquilo e a familiaridade que sentia se extinguiram, restando apenas sua frustração e o terrível pensamento que assolava sua mente, de que talvez ele realmente não fosse ninguém. Após esvaziarem o último caixote de garrafas de leite, quando a Lua já se posicionava como uma joia no céu noturno e as luzes amareladas que vinham de dentro das janelas das casas, de lampiões e postes nas ruas largas iluminavam o caminho, Talon se recostou, apoiando-se na lateral da carroça, suspirando.

- Eu estou ficando velho pra isso... – Talon disse, forçando uma risada. Após perceber a expressão distraída e triste do rapaz, foi rápido em acrescentar – Mas, ei, não se preocupe Link. Sei que não achamos ninguém, mas essa cidade é realmente muito grande, e pessoas entram e saem toda hora por causa de negócios e tudo mais. Talvez seus pais estejam viajando? Ou você seja filho de algum fazendeiro que não mora por aqui? De todos os jeitos, a oferta que fiz pra ti ainda está de pé: Venha passar uma noite no meu rancho, e amanhã de manhã eu te ajudo e voltamos a procurar. Quem sabe não passamos na academia de cavaleiros e lá tenha alguém que te reconheça?

- Eu agradeceria, mas como havia dito antes, não tenho como te pagar. – Explicou Link.

- E como EU havia dito antes, seu trabalho aqui já pagou por tudo, garoto. Agora é melhor irmos logo antes que fique completamente escuro, as estradas fora da cidade não são tão seguras quanto costumavam ser, e nem um pouco iluminadas. – Talon respondeu, subindo na carroça.

Saindo da cidade pela entrada principal, a carroça de Talon realizou o mesmo trajeto que havia feito mais cedo no dia, só que no sentido oposto. Com o caminho à frente sendo iluminado pela luz pálida da lua e um lampião apoiado na carroça, Link sentiu suas esperanças por um dia melhor se restabelecerem quando o vento fraco e frio da noite lhe atingiu o rosto, aproveitando a viagem de volta para admirar as vastas planícies da terra de Hyrule, que agora lhe davam a estranha sensação de que o mundo inteiro estava dormindo, tamanho era o silêncio daquele cenário exuberante, quebrado apenas pelo cavalgar do cavalo de Talon e do vento frio que cortava a noite, zumbindo na grama alta vez por vez. Olhando mais além, para o norte bem distante, podia ver a silhueta escura e impotente de uma longínqua cadeia montanhosa, uma de suas montanhas sendo tão alta que seu pico parecia se erguer muito acima das nuvens.

- Aquela é a Montanha da Perdição. – Disse Talon, seguindo o olhar do garoto por alguns instantes. – É um lugar bem desolado e sem vida, bem, pelo menos para os padrões que nós Hylians estamos acostumados. Lá vivem os Gorons, um povo que se alimenta de rochas. Incrível, não é? Eles produzem as melhores armas e armaduras de toda Hyrule, e de vez em quando um ou dois aparecem por aqui para realizar negócios, mas eles não estão aparecendo muito ultimamente, ouvi que está tendo uma crise de fome terrível por lá.

- É, eu... Acho que já ouvi sobre isso em algum lugar, mas não tenho muita certeza. – Confessou Link, sentindo uma pontada de dor na cabeça ao forçar uma memória.

- ... Mais para o Sul também temos uma cordilheira de montanhas, mas aquelas são picos de neve, e duvido que haja pessoas por lá. Ao Leste, depois das colinas, temos a floresta perdida: o lugar de origem das maiores lendas e mitos que me aterrorizavam quando era moleque. Logo depois disso, existe o deserto Gerudo, a maior imensidão de terras desertificadas que podem existir nesse mundo. Não existe quase nada lá, só os próprios povos Gerudo, que vivem em tribos e preferem se isolar de contato com o resto de Hyrule. No mar do Oeste, vive o reinado dos Zoras, o povo aquático, mas soube que o novo Rei lá não é exatamente o mais amigável com Hylians. E, a cidade de Hyrule de onde acabamos de sair, é a capital do reino. – Continuou Talon, ao reparar que Link ouvia com interesse.

- Isso tudo me parece muito familiar, mas ainda não tenho certeza... É como se... Como se eu estivesse sendo apresentado pra tudo isso por uma segunda vez, como uma sensação nostálgica. Ainda sim, não me lembro de conhecer nada aqui. Obrigado pela sua ajuda Talon, sei que minha presença deve ser incomodante, e prometo que não tomarei mais que o necessário de seu tempo quando conseguir achar a resposta para minha falta de memórias. – Respondeu Link.

- Não é nem um pouco incomodante, afinal fui eu que escolhi te ajudar, garoto. Mas não se preocupe muito, descanse bem hoje quando chegarmos ao rancho, pedirei para que Malon lhe prepare um banho e arrume o quarto de hóspedes, enquanto eu cozinho o jantar. E, bem, aqui estamos nós... – Explicou Talon, e Link se atentou a construção que se abria a sua frente.

Dos largos e altos paredões de pedra que contornavam e que delimitavam o perímetro do Rancho Lon Lon, Link conseguia identificar o telhado de um casarão se estendendo distante, acima das paredes, cujas janelas emitiam uma luz dourada amistosa. Os paredões se abriam então em uma entrada larga que fazia uma curva, na direção de um portão aberto pequeno de ferro que dava acesso ao interior do Rancho. Sentado perto do portão, um sujeito parecido com Talon, só que mais magro e de feição mais severa, mastigava um pedaço de capim. Ao ver a carroça se aproximando, comentou:

- Se demorasse mais ia fechar e você que se virasse ao relento de novo. Quem é o garoto aí?

- Um hóspede, e que precisa da nossa ajuda. Onde está Malon? – Indagou Talon.

- Estava cuidando daquela égua dela agora pouco, mas acho que já foi pra casa. – Respondeu o sujeito, cujo nome Link lembrara graças à conversa que teve com Talon durante o percurso de volta: Era seu irmão mais novo, e se chamava Ingo.

 Tomando então as rédeas do cavalo após Link e Talon terem descido da carroça, Ingo guiou o animal na direção do estábulo, enquanto Talon mostrava com entusiasmo os arredores para Link, indicando onde exatamente ficava cada coisa. Mais à frente, guiou o rapaz por envolta de um largo percurso circular feito sob um caminho de terra, que segundo Talon, servia para o treinamento dos cavalos em corridas com obstáculos. Logo depois disso ficava o casarão, uma casa alta e larga de três andares, com o teto laranja e as paredes pintadas de bege. Entre algumas árvores por perto e um varal de roupas estendido, algumas galinhas que ciscavam do lado de fora, perto da entrada, deram um olhar inofensivo para Link, embora o rapaz o tenha interpretado como ameaçador, resolvendo se apressar em subir os curtos degraus que levavam a porta principal. Ao abrir a porta assoviando um tom alegre, Talon retirou os sapatos e os deixou no carpete da frente da casa, ato que Link repetiu ele mesmo.

- Sinta-se em casa! – Talon disse ao entrar, se aproximando da escada e chamando pelo nome da filha no segundo andar, ao qual foi lhe respondido por uma voz feminina dizendo: ‘’Já estou indo!’’, e o som de passos apressados descendo pelos degraus de madeira.

Na perspectiva de Link, a casa parecia ainda maior por dentro. Logo de entrada eles eram recebidos por uma larga sala de estar, algo incomum para Hylians, que muitas vezes usavam longos corredores que dividiam os cômodos. Link não tinha certeza de como sabia disso, mas sabia. Havia uma lareira de tijolos cujo fogo queimava calorosamente inundando o cômodo em uma luz dourada, perto de onde ficavam algumas poltronas, uma mesinha de centro e um largo tapete do qual Talon gabou-se por ter comprado de um comerciante Gerudo. Nas paredes, haviam algumas fotografias em preto e branco emolduradas, mostrando algumas pessoas de frente para a entrada do rancho, ao qual Link reconheceu como sendo Talon e Ingo mais jovens, ao lado de uma jovem mulher bonita que segurava uma menininha nos braços. Em outra das paredes havia um quadro com uma pintura do rancho, e mais ao fundo, uma escada de madeira que subia ao segundo andar, perto de um corredor que levava para os interiores da casa, e algo que parecia a entrada de um alçapão em um canto empoeirado.

- ...E como eu disse, este é Link, e ele vai passar a noite conosco. – Disse Talon, e Link só percebeu que ele estava conversando com outra pessoa ao ouvir melhor a menção de seu nome.

O rapaz se virou, reparando que Talon se dirigia a uma garota da aparente mesma idade que Link. Seus cabelos eram ruivos e longos, e ela possuía um par de olhos azuis tímidos que pareciam fitar Link com desconfiança, ou até uma pontada de pena pela situação do garoto. Usava uma blusa branca presa a um cinto de couro e uma longa saia roxa, vestimenta que Link achou similar à mulher que avistara na foto, deduzindo que ela fosse a menininha que a moça segurava no colo. A descrição que Talon lhe dera de sua filha era bem fiel a realidade, especialmente a parte em que ele exagerava sobre sua beleza, que agora Link podia constatar como não sendo um exagero.

- Olá... Eu sou Malon, é um prazer te conhecer. Sinta-se em casa, e obrigado por ajudar meu pai com o carregamento. Sinto muito pela sua... Perda de memória. – A garota se aproximou, apertando a mão de Link com as suas, mas dizendo ‘’Perda de memória’’ com certa desconfiança justificável.

- Agora, tenho certeza que Link está bem cansado. Por que não arruma o quarto de hóspedes pra ele e esquenta a água para um banho enquanto eu mesmo preparo o jantar? Acho que algumas roupas antigas minhas podem servir pra ele. – Pediu Talon, enquanto guiava Link para se acomodar em uma das poltronas próximas à lareira. Malon obedeceu, subindo pelas escadas enquanto Talon saia pelo corredor, aparentemente indo em direção à cozinha.

Se acomodando em uma poltrona confortável que era quase duas vezes o seu tamanho, Link observou o fogo crepitante da lareira por algum tempo, até sua mente começar a se afundar em uma densa nuvem de pensamentos. Não sabia quem realmente era, não tinha certeza da própria idade, se tinha família, onde vivia, e estava acomodado em uma casa de estranhos. De um jeito peculiar, sentia-se em casa, mas acreditava que aquele era apenas o efeito de paz que aquele rancho passava. O mais estranho de tudo, porém, é que Link se sentia calmo, como se todos os seus problemas fossem se resolver com o tempo, sem ter ideia da existência de uma parte de si mesmo que, presa na parte mais nublada de sua mente, gritava lhe dizendo que seu tempo era curto. Eventualmente, sentiu um cheiro delicioso vindo da cozinha que revirou seu estômago, sem ter percebido até aquele momento o quão faminto estava. Malon desceu das escadas quase no mesmo instante, se aproximando de Link enquanto carregava algumas roupas dobradas e uma toalha nos braços.

- Já esquentei a água, e separei essas roupas para você. Subindo as escadas, é só entrar na terceira e última porta a esquerda. Caso queira ver o quarto onde vai ficar, é a primeira porta depois do segundo corredor. – Explicou Malon, deixando então o garoto e se dirigindo até a cozinha.

Link seguiu as instruções da moça, subindo as escadas e entrando na sala de banho. O cômodo era largo e baixo, de paredes e de chão feitas de tijolo liso. Em um dos cantos havia uma larga banheira de madeira transbordando de água quente, que emitia um vapor caloroso. Após tomar banho, Link trocou suas roupas pelas que Malon havia lhe dado, que pareciam um tanto largas para o garoto, mas era um tecido de algodão confortável. Desceu as escadas então, sendo guiado por Talon até a sala de jantar e se sentando em uma larga mesa redonda, perto de uma janela que lhe dava uma boa vista dos arredores silenciosos do rancho durante a noite calma. Após todos terem se sentado, Link se serviu do ensopado preparado por Talon, que usou de cogumelos e cenouras fervidas durante o preparo, prato que foi acompanhado por pães e carne assada. Link comeu como nunca antes, ou pelo menos como não se lembrara de ter comido antes, procurando em todos os momentos manter a educação na mesa, algo que pareceu não ser muito importante para Ingo: O sujeito comia com pressa, parecendo perturbado pela presença de uma quarta pessoa à mesa. Enquanto comiam e conversavam entusiasmados, Malon e Ingo realizando perguntas para Link enquanto Talon contava mais sobre a história do rancho e o dia a dia da família ali, parte da gola larga da vestimenta de Link deslizou, revelando uma tatuagem numa região entre sua nuca e ombro. A tatuagem, que era o símbolo de um triângulo com uma abertura triangular inversa no meio, chamou atenção de todos na mesa, embora Link não houvesse percebido aquilo em seu corpo até Ingo comentar:

- Espera um pouco, essa aí não é uma...

- A tatuagem dos cavaleiros reais, sim, é a mesma. – Confirmou Talon, ao seguir os olhares dos outros. Confuso, Link perguntou:

- Isso... Eu não havia notado isso antes... O que significa?

- Confirma minhas suspeitas, garoto. Você é, de alguma forma, ligado aos cavaleiros reais, ao exército ou a academia de cavaleiros de algum modo. O que é ainda mais estranho, porque na cidade nenhum aluno da academia com quem falamos pareceu te reconhecer... Talvez essa sua perda de memórias seja culpa deles? Alguma rivalidade interna, e por isso fingiram não te conhecer? Eu não faço ideia, mas agora já sei pra onde devo te levar de manhã.

- Um cavaleiro real...? Mas ele parece novo demais pra isso... – Comentou Malon, impressionada.

- Mas é a mesma tatuagem que Hoenn e os outros cavaleiros que passam por aqui de vez em quando usam, então ele só pode ser estudante da academia. Se é assim, os instrutores podem te reconhecer, certamente vai ter alguém procurando por você quando voltarmos amanhã, Link. – Respondeu Talon, tentando reconfortar o rapaz.

Mas Link não queria ser reconfortado, e simplesmente se manteve em silêncio, focando apenas em sua comida e seus próprios pensamentos. Ao contrário do que Talon havia imaginado, a revelação da possibilidade do rapaz estar ligado aos cavaleiros reais pareceu um pouco desapontante para Link, que havia apreciado tanto e se identificado com a vida simples no curto tempo que passara naquele rancho que parte de si mesmo se alegrava com a possibilidade de que ele acabasse por morar ali, talvez fazendo parte daquela família, no caso de alguém nunca vir atrás dele. Ao pensar nisso, porém, o sentimento que Link havia tido mais cedo de que tinha um objetivo maior e importante gritou alto, alto o suficiente para que a ideia desaparecesse da mente do garoto tão rápido quanto ele havia pensado nela. Ele sentia no fundo do coração que nunca seria parte daquela família ou teria uma vida simples como aquela, mesmo que não soubesse o porquê disso. Essa certeza permaneceu na mente do rapaz até o término do jantar, quando todos haviam voltado para seus quartos. No quarto de hóspedes, apagando a luz do lampião para que ninguém se incomodasse, Link apoiou os braços na janela e encarou parte da área do rancho, observando a maioria dos animais ao longe enquanto dormiam sobre a grama macia. O rapaz acreditava que também deveria estar dormindo, mas não sentia sono, e decidira permanecer ali, olhando para o céu noturno e encarando as estrelas distantes.

Por alguma razão, sentia que o destino planejara algo de muito importante para ele, mesmo que não entendesse esse sentimento.

 

 

 


Notas Finais


Obrigado por ler! :)


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