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História Zero Hertz - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Me conta mais


Jeongguk

As cerejeiras desabrochadas da faculdade contrastavam com o gramado vibrante do campus. Era como se, a cada passo apressado que Jeon desse, com o balançar da brisa elas devolvessem um gentil "olá, bem-vindo de volta".

Jeongguk ainda estava mal. Agora que estava sem a presença de Jimin, a melancolia consumia seu âmago de modo que não conseguia parar de lembrar do olhar maldoso de sua mãe. Aquelas palavras tão sujas.
Não pensou que fosse ficar tão afetado.

O céu estava voltando a colorir-se daquele azul imaculado típico da primavera, mandando as nuvens escuras embora, como aquele beijo que Jimin havia dado na bochecha de Jeongguk, dissipando todos os maus pensamentos.

Olhou para o céu novamente, só para parte de seu rosto ser iluminada com um feixe de luz da manhã.

Logo quando Jimin leva meu casaco, a chuva para.

Era estranho ficar sem seu casaco. O usava tanto que quando isso acontecia, se sentia quase que nu. É, ele sabia que provavelmente parecia um daqueles protagonistas de filmes dos anos 80 que, ao saírem de suas motos, vestem seus casacos de couro, penteiam seus topetes e beijam quantas garotas quiserem.
Mas não vivia de impressões, gostava de pensar que seu interior era um mar profundo e quem quisesse conhecer que mergulhasse de cabeça.

Sem seu casaco, usava uma regata escura (e úmida pela chuva) que mostrava todas as tatuagens que tinha em ambos os braços, e sabia que era provável do coordenador reclamar.
Mas não estava dando uma foda. Não hoje.

O campus estava totalmente vazio, a não ser pelos pássaros que cantavam e alguns esquilos correndo ao redor das árvores.

Quando estava prestes a subir as escadas, alguém surgiu ao seu lado e pisou numa poça, fazendo com que parte de sua calça jeans ficasse encharcada.

- Qual foi, porra? Tá me tirando? - gritou, parando no lugar ao ver quem era.

- Também senti saudades - suspirou ao ver aquele sorrisinho familiar de formato quadrado, nem um pouco intimidado.

Talvez todo o seu mantra de ser paciente tivesse ido embora de repente, ou talvez ele só funcionasse quando Jimin estava por perto. Ou ainda, só com Jimin.
Com qualquer outra pessoa ele voltava a ser aquele Jeongguk que banca o durão, arregaça a manga da jaqueta enquanto fica com o cigarro entre os dedos e sorri que nem um canalha.
Mas quando ninguém está vendo, chora no sofá enquanto assiste Como Eu Era Antes de Você. Essa era uma bela definição de Jeongguk.

- Desculpa Tae, eu não... vi que era você - resmungou, voltando a subir as escadas.

- E você estava prestes a dar um soco na cara de alguém só porque molhou sua calça?

- Se não fosse você... talvez.

- Me sinto honrado - riu, e apressou o passo ao ver Jeongguk se afastando no longo corredor.

Jeon, por um segundo, tinha se esquecido de que Taehyung chegava sempre atrasado. Todos os dias. Nem era do seu curso e sabia que ele estava quase de dependência por falta, então por esse motivo, Taehyung passou a programar o alarme para meia hora antes.
E ele desligava o alarme, virava para o outro lado e voltava a dormir.

Em questão de alguns segundos estavam ao lado da porta da sala de Jeon.

- Você está melhor? Não me parece melhor. O que houve?

Jeon respirou fundo. Odiava isso. Ele tinha uma ligação tão forte com o garoto que, mesmo a 90 km de distância, Tae conseguia sentir quando tinha algo de errado.

- Cara, não sei nem por onde eu começo - murmurou, lembrando que a última vez que havia visto algum de seus amigos foi quando ainda estava no hospital. Mais especificamente, quase três semanas atrás. Eles tinham visto Jimin aquele dia na boate, e só. Não faziam a mínima ideia do que estava rolando.

- Então é melhor nem começar - Taehyung arregalou os olhos ao perceber o coordenador no fim do corredor, e com medo de ser visto matando aula, sussurrou um "depois a gente se fala" e saiu correndo.

Jeongguk mal encostou a palma de sua mão na maçaneta gélida da porta de sua sala, quando ouviu um pigarro às suas costas.

- Jeon Jeongguk.

Ao ouvir seu nome dito por aquela voz irritante, não pôde evitar revirar os olhos de tal forma que pensou que fosse ver seu cérebro.

- Pois não? - se virou para o coordenador, sarcástico, sem saco para qualquer coisa que fosse dizer.

- Você já parece um delinquente usando aquela sua jaqueta preta o tempo todo, e como se já não fosse o suficiente você vem com... isso à mostra? Você sabe muito bem o que pensamos sobre isso - apontou para suas tatuagens com repulsa, fazendo uma careta.

Jeongguk sabia que ele só queria encher o saco. Era só uma jaqueta de couro, afinal. Outras pessoas usavam aquilo, mas aquele homem adorava pisar no seu pé. Parecia ficar satisfeito só por vê-lo irritado.

- Me desculpe senhor, houve um grande engano... - fez uma expressão triste. - Eu pensei que a jaqueta fosse minha - pôs a mão no peito, fingindo estar realmente comovido. - Não se preocupe com as minhas tatuagens, senhor. Se você não gostou, é só não fazer igual. Você pode ter várias opções e eu posso até te passar o contato do estúdio onde vou. Mas já que está tão ocupado cuidando da minha vida, acho que você não precisa, certo?

Silêncio.

- Saia da minha frente. Desapareça. - o sujeito praticamente cuspiu as palavras e, embora o que tenha dito, foi ele quem saiu tão rápido quanto veio.

Jeongguk sabia que tinha passado um pouco dos limites. Visto que o homem não era de ter muita paciência, tinha certeza de que ele devia ter ficado muito bravo.

Mas pisar no calo de Jeon, logo hoje, era de se ter muita coragem. Estava praticamente cuspindo fogo.

Também tinha a certeza de que não seria advertido por ter respondido daquele jeito. Se fosse qualquer aluno mediano, ele sabia que o homem teria surtado completamente; mas suas notas eram tão altas que, se saísse da faculdade, seria um prejuízo e tanto para o ranking. Então, ambos só trocavam olhares cheios de raiva e se odiavam calados. Já havia virado rotina.

Com suas emoções variando entre ficar puto da vida pelo que tinha acontecido em casa e rir da cara do coordenador, entrou na sala de seu curso, com a lousa já lotada por terem se passado vários minutos de aula.

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Jimin

Com as mãos nos bolsos daquela jaqueta que era bem maior do que o seu tamanho, andava pela rua concentrado em chutar uma pedrinha no chão.
Havia escolhido o caminho do parque mesmo que este fosse bem mais comprido. Gostava da sensação de ver as pessoas se exercitando de manhã, os cachorros brincando com os donos e os pássaros criando ninhos nas árvores. Mesmo que agora tudo fosse silencioso. Se sentia melhor.

Não fazia mais de trinta minutos que havia se despedido de Jeongguk. Tudo o que fez foi passar na sua casa para alimentar seu gato e depois de dar um pouco de atenção a ele, voltar a seguir seu caminho.

Quando a pedrinha que estava chutando se perdeu de vista, Jimin fitou o chão por longos segundos e... começou a chorar.
Agora que estava sozinho, caiu na real. Aquela dor pulsante em sua boca não era de uma briga de rua. O hematoma em seu rosto não era de um tombo, ou de um assalto.

Era o seu pai. Ele estava voltando.

Sentia seu peito arder e uma tremenda vontade de gritar só de cogitar a possibilidade de ver aquele homem de novo. Ele era o seu pior pesadelo, seu coração parecia que ia sair pela boca só de relembrar da imagem de seu rosto.

Atravessou o pequeno jardim do hospital, cumprimentando alguns médicos conhecidos com um aceno. Fazia tanto tempo que ir ao hospital fazia parte de seu cotidiano, que sabia até mesmo o nome da maioria.

Como sempre, parou no quarto andar e abriu a porta branca, se deparando com sua avó dormindo; serena. Riu baixinho ao lembrar que ela roncava, e agradeceu mentalmente por não estar ouvindo. Se sentou na cadeira ao lado da maca e pegou um livro que costumava ler quando ela estava dormindo e não tinha nada para fazer.

Depois de alguns minutos, sentiu um olhar fitá-lo e quando se virou, sua vó estava o observando.

"Não queria acordar você", sinalizou.

"A velha aqui já dormiu bastante" sorriu e suas mãos enrugadas se entrelaçaram nas dele. Deu um beijo nas costas de sua mão, e a soltou. "O doutor disse que estou reagindo bem. Logo logo vou poder voltar a te encher o saco em casa" comentou, com os olhos brilhando, e Jimin pôde perceber que na sua cabeça já não restava nem um único fio de cabelo.

"Você nunca enche o saco, vovó" fez um biquinho para fingir que estava com raiva. Seu olhar desviou de súbito para a janela, observando os pássaros abrirem o bico sem sair som algum. Tinha aprendido a se acostumar com isso.

"Você está aéreo. Alguma coisa está te incomodando" a avó ergueu uma sobrancelha, e Jimin só pôde perceber pelo leve enrugar sobre seus olhos, já que não restara pelo algum.

Mesmo antes do falecimento (odiava usar esse termo) de sua mãe, ele sempre havia sido muito próximo de sua avó. Era para ela que corria quando ele e sua mãe brigavam, era para ela que contava todos os seus problemas. Era ela quem tinha dado duro para aprender língua de sinais só para poder falar com ele.
Ela já tinha se acostumado a ler em seu rosto o que ele estava sentindo. Mas ele nunca iria contá-la o que tinha acontecido ontem, na cadeia. Em hipótese alguma. Sabia que ela provavelmente iria preferir saber a verdade, e que ia fazer aquele enorme discurso de que ocultar as coisas não é justo. Mas queria poupá-la, e era isso que iria fazer.

Quando ia fazer o gesto para responder, sua avó ergueu a cabeça para a porta e em seguida olhou para ele. Era o médico.

"Acho que alguém quer falar com você". O garoto assentiu, foi em direção ao médico e ele chamou-o para fora, fechando a porta.

O conhecimento do homem sobre língua de sinais era quase nulo, mas sempre se esforçava de alguma maneira para conseguir se comunicar. Desta vez, com uma expressão meio séria, pegou um papel e começou a escrever. Jimin esperava, do fundo do coração, que não fosse o que estava pensando. Ergueu o papel.

Jimin, você sabe que desde o dia que sua avó chegou aqui, tenho muito carinho por vocês. Eu odeio te dar essa notícia, mas o preço da internação de oncologia praticamente triplicou. Espero que não seja um problema. Sabe o que acontece se passar um prazo e você não pagar. Eles te expulsam. Só cumpro ordens, sinto muito.


Depois de seu chefe ter cortado seu salário pela metade sem que tivesse o direito de reclamar, já que não tinha carteira assinada, aquele era um dos seus maiores medos. E estava acontecendo.

Devolveu o papel para o médico com o coração apertado e uma sensação gigante de impotência. Parecia que todas as coisas boas da vida que lhe restavam estavam escorrendo por entre seus dedos.
Mas iria dar um jeito.

"O que ele queria?" perguntou, curiosa. Jimin hesitou.

"Me dizer que você está melhorando muito rápido. Fico muito feliz, vovó" fez o máximo de esforço para fingir um sorriso, enquanto a velhinha se remexeu na maca, feliz da vida.

***

Ficou mais algumas horas com a sua avó e se despediu ao ver o céu apontar um começo de fim de tarde.

Descendo as escadas, seu ombro esbarrou no ombro de outra pessoa, ligeiramente mais alta. Não queria ter que pedir desculpas. Fazer com que Jimin falasse era como se fosse uma prova de confiança, e no momento a única pessoa com quem se sentia confortável para fazer isso, era Jeongguk. Parecia que só ele entenderia.

- Ei! - o garoto falou, em seguida ficando incomodado por Jimin não ter respondido.

Alguns longos segundos de silêncio.

- Hmm, eu só queria fazer uma pergunta - falou novamente, mas dessa vez o Park não tinha nem olhado.

Ali o encarando, Taehyung sabia. Era aquele garoto que dançou na boate aquele dia. Estava escuro, tinham muitas pessoas e faziam algumas semanas. Mas ele sabia. Era ótimo em guardar rostos, ainda mais do cara que seu melhor amigo estava afim.

E Jimin fez aquele gesto pela milésima vez. Apontou para sua boca e depois para o seu ouvido, ligeiramente cansado. Cansado de as pessoas falarem tão rápido que não podia ler nem uma palavra sequer.

O garoto parou no lugar, fitando seus olhos. Parecia estar em choque, mas Jimin não conseguia ter muita certeza. As reações das pessoas eram sempre esquisitas, afinal. Para sua surpresa, o garoto respondeu. Em língua de sinais.

"Acho que te conheço" demorou algum tempo para responder, mas respondeu. Parecia que não fazia aquilo há muito tempo.

Jimin ainda estava meio extasiado, sem entender. Aquilo quase nunca acontecia.

"Aprendi pouco faz muito tempo. Não sou bom" Taehyung sinalizou ao ver sua hesitação. Sabia conduzir algumas conversas simples, mas não tinha se aprofundado tanto a ponto de ser fluente. Havia feito um semestre da disciplina optativa de libras na faculdade, então só havia aprendido o suficiente.

"Eu não te conheço" o Park respondeu, sem entender nada.

Tudo o que Taehyung sabia, era que Jeongguk havia ficado vidrado naquela silhueta harmoniosa dançando no palco, mas nada mais que isso. Era o que ele achava.

Péssimo hábito de Jeongguk de esconder as coisas.

"Te vi dançando um dia! Realmente bom" Taehyung continuou, tentando puxar assunto, depois de longos segundos pensando no que responder e em como responder.

Se dissesse que seu amigo estava afim dele, com certeza Jeongguk o mataria quando descobrisse, então tinha que inventar qualquer coisa.
Não iria contar nada disso para Jeon, não agora. Ele ficaria tão puto se soubesse o que estava fazendo...

Jimin percebeu que o garoto sinalizava muito devagar, mas era mil vezes melhor e mais confortável do que fazer com que tentasse ler seus lábios.

Antes que Jimin pudesse responder qualquer coisa, o celular de Taehyung tocou. Só percebeu porque o garoto de cabelos vermelhos fez uma careta antes de levar o telefone ao ouvido, revirando os olhos ao ouvir Namjoon gritando pelo seu almoço - que estava mais para janta.

"Sempre estou por aqui. Até mais, hum..." olhou para a etiqueta em seu peito, com seu nome e a palavra acompanhante. "Park Jimin. Até mais." Deu um sorriso quadrado, resmungou alguma coisa e deu meia volta.

Foi subindo os degraus e acenou de longe para o dançarino, sua silhueta sumindo conforme subia a escada em direção ao andar em que Namjoon estava.

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Jeongguk

- Por que demorou tanto? O resto já foi embora - Jeongguk resmungou, pisando com o calcanhar para apagar o que já devia ser seu terceiro cigarro. Tinha que parar de fumar tanto.

Apesar de ser primavera e a semana ter sido quente, o clima ainda não havia se estabilizado. Com a chegada da noite, a ventania forte fazia com que alguns fios do cabelo de Jeon cobrissem parte de seu rosto.

- O filho da puta do Namjoon agora quer virar vegetariano e não me avisou. Ele quase jogou a marmita na minha cara, a marmita que eu arrumei com tanto carinho - Taehyung segurou a alça da mochila em seus ombros, com cara de poucos amigos. - Ninguém reconhece o que eu faço. Quero só ver quando eu morrer, aí sim vocês vão me dar valor, mas vai ser tarde demais - saiu andando a passos pesados, com Jeon ao seu lado.

- Eu reconheço. Tô aqui te esperando faz mais de meia hora - Jeongguk checou o horário no celular, se dando conta de que a aula já tinha acabado fazia mais de quarenta minutos.

- Como eu ia saber que ele não tava comendo carne? Devia ter enfiado a carne direto na goela dele - Taehyung continuou falando, ignorando-o completamente - "Não tá comendo carne não, é? Pois vou enfiar na sua garganta porque o bife tá caro e você me fez comprar. Vai comer, sim". Eu devia ter falado isso. Mas não, fiquei lá, ouvindo ele me xingando de tudo quanto é nome enquanto olhava triste pra carne no pote. - gesticulava loucamente, completamente indignado. Jeongguk queria rir, mas se conteve, porque sabia que se o fizesse ia levar uns tapas.

- Todo dia, todo santo dia eu levo comida pra ele. Porque tem dias que ele fica de plantão e nem sempre pode sair, então eu cozinho com todo o amor do mundo e levo lá. Pra quê? Me diz, pra quê? Eu não tô valendo mais nada mesmo.

- Acabou?

Taehyung suspirou.

- Acabei.

Até que a rua estava movimentada para um dia de semana. Já era quase tarde da noite e ainda assim era possível ouvir as vozes altas vindas dos bares e dos restaurantes, acompanhadas de alguma música tocando ao longe.

Os dois esperavam o farol abrir para poder atravessar, sem chance de algum carro deixá-los passar, já que o trânsito estava enorme. Estavam em silêncio e, quando isso acontecia, Jeongguk não se incomodava. Era como se pudessem se comunicar sem precisar dizer nada. Só ter a presença um do outro, já era o suficiente.

Jeon encarou o farol vermelho e respirou fundo. Conhecia seu melhor amigo muito bem e, justamente por isso, sabia que ele ia ficar extremamente irritado de ser o último a saber de algo.

Precisava contar. Precisava contar sobre Jimin.

- Tae - antes mesmo de poder continuar a frase, o ruivo virou o rosto em sua direção, tirando um de seus fones para poder ouvir melhor. - Preciso te dizer algo.

- Olha, já te disse mil vezes que não tenho grana pra te dar. Fui demitido daquele emprego de meio período, não sei o que fazer, tô mais perdido que filho da puta em dia das mães. Falando nisso, me empresta uma grana?

Jeongguk realmente queria se fingir de idiota e ver se Taehyung esquecia do assunto, e foi o que ele fez. Fingiu que não tinha ouvido nada e atravessou a rua, com o garoto logo atrás, chacoalhando seu braço.

- Eu vou te devolver! Não vai ser que nem da última vez, eu prometo!

- Droga Taehyung, tô falando sério. Preciso mesmo te contar uma coisa - respondeu, se xingando mentalmente por saber que, mais tarde, ele emprestaria o dinheiro.

O garoto parou na calçada ao perceber que o outro estava falando sério. Encostou num poste, cruzou os braços e arqueou as sobrancelhas.

- Diga.

"Lá vem merda", Taehyung pensou.

Jeongguk inspirou.

- Um dia desses, eu... - sua voz foi interrompida pelo seu toque de telefone. Jeon xingou baixinho. Logo agora?

Leu o nome no visor. Taehyung bufou ao perceber que ele iria atender.

- Kwan? - falou alto, tapando com a mão o ouvido que não estava no celular. O ruivo ergueu os olhos, prestando atenção ao ouvir o nome.

- Fala se não é... o meu... o meu... irmão pref-ferido - soluçou. Estava com a voz embargada, ou melhor, estava bêbado pra caramba.

- Kwan? Que barulheira é essa? - Jeongguk ignorou completamente o fato de ser o único irmão dele.

- Porra, minha garrafa não! Essa aí é minha! - ouviu a voz ficar mais longe, enquanto o som de música era quase ensurdecedor.

- Kwan? Kwan?! - gritou antes de a ligação cair.

Talvez não ficasse tão preocupado se seu irmão não fosse menor de idade, e estivesse sabe se lá onde, bebendo sabe se lá o que, na companhia de sabe se lá quem.

- O que tem ele? - perguntou, agoniado. O conhecia há tanto tempo que sentia como se Kwan fosse seu irmão mais novo também.

- Eu não sei onde ele tá... ele tá muito bêbado e eu não sei onde ele tá - Jeon andava de um lado pro outro, olhando pro chão enquanto pensava no que fazer.

- Você não tem a menor ideia? - Tae questionou e ele fez que não com a cabeça. - E agora? Por onde a gente começa a... - ia terminar a frase mas parou na metade.

Jeongguk o encarou, esperando ele terminar de falar, mas não terminou. Ao invés disso, arregalou os olhos, olhou pra cima e bateu a mão na testa.

- Vamos. Eu sei onde ele tá - quase se engasgava com as palavras. Pegou no braço de seu amigo e o arrastou rua abaixo, enquanto ele se perguntava pra onde estava o levando.

***

- Você tá me zoando?

Ao ver a fachada daquela casa onde Taehyung o havia levado, aquela casa, ele estremeceu. Ele não podia estar ali.

A casa tinha dois andares, assim como a de Jeongguk, mas ainda assim era bem maior. O quintal era enorme, haviam algumas caminhonetes e motos estacionadas desleixadamente ali, logo em frente onde tudo estava rolando. Pelas janelas era possível ver luzes piscando e muita gente lá dentro.

- Ele não tá aqui. Eu tenho certeza.

- Entra e vê. Eu aposto cinq-

- Quer parar de enfiar dinheiro em tudo que é canto? Enfia no teu-

- Epa, olha a boca - franziu a sobrancelha e Jeongguk teria rido se não fosse por aquela situação. Taehyung era a pessoa que mais falava palavrão. Depois dele mesmo, é claro.

- Eu só... tô preocupado. Ele não deve estar aí dentro. Não na casa dele. Ele não pode estar.

- Só dá pra saber de um jeito - o ruivo sentou na caçamba de uma caminhonete vermelha e inclinou a cabeça, indicando para ele entrar.

Jeongguk andou rápido. Se ele estivesse lá, iria descobrir.

A porta obviamente estava aberta. Mal repararam quando entrou, já que era tanta gente junta que mal podiam distinguir. Jeon torceu o nariz ao sentir o cheiro forte de álcool, pensando em seguida na ironia disso, já que sentia o cheiro de cigarro o tempo inteiro por pura vontade.

Haviam poucas luzes acesas, então logo percebeu que seria difícil achar qualquer pessoa ali dentro.

Incomodado com o barulho molhado dos amassos daqueles estranhos, atravessou a sala enorme e se dirigiu à cozinha. Nada.

Eu disse. Eu sabia, ele não está aqui.

Quando ia sair pela porta dos fundos, uma pessoa parou bem à sua frente. Mas não era qualquer pessoa, era justamente ele.

- Jeongguk! Você aqui na minha festa, quem diria? Sabia que era dos meus - sorriu e Jeongguk fez o máximo de esforço para não revirar os olhos.

Não, Jackson, eu não sou 'dos seus'.

- Hum... oi, Jackson - fingiu um sorriso mas nem isso conseguia fazer, tinha certeza que tinha dado um sorriso muito falso.

Jackson era um cara da faculdade, do curso de Hoseok. Ele era jogador do time e por isso muita gente babava ovo dele, mas Jeon definitivamente não era um deles.

- E aí, veio com quem? Quem você vai pegar? Aposto que a gostosa d-

- Não, Jackson, eu... não vim pra sua festa. Eu só tô procurando o meu irmão. Você deve conhecê-lo, ele já apareceu lá na faculdade pra me buscar - o interrompeu e Jackson murchou como se fosse um balão ao ser furado com uma agulha.

- Ah... Sim, aquele moleque, sei sim...

Jeongguk ficou parado, esperando ele continuar, mas ele parou de falar. Aquele moleque o quê? Não ia dizer mais nada?

Na verdade, nem era preciso. O barulho cessou e as pessoas ficaram olhando para uma silhueta de um garoto vomitando na grama do quintal.

O Jackson ia ficar puto. E eles queriam muito ver isso.

E é claro que Jeongguk conhecia esse alguém.

- Você sujou a porra do meu quintal? Tu vai limpar isso com a língua, tá ouvindo? Não vai sair daqui sem limpar essa porra - Jackson gritou e praticamente todo mundo da festa fez uma meia-lua no quintal pra ver o que estava acontecendo.

Não fazia sentido ele ficar tão bravo por alguém estar sujando algo, afinal, era uma festa.

Jeongguk percebeu. Percebeu que o Jackson sabia que era só um garoto, e por isso, lógico que iria abusar de sua superioridade. Afinal, ele era o Jackson.

Um garoto. Na festa da universidade. Jeongguk queria rir, mas era de desespero.

O dono da festa pegou no pescoço de Kwan e, quando estava prestes a o forçar pra baixo, Kwan limpou a boca e levantou a cabeça, sendo possível a visão de seu rosto.

Só então Jackson percebeu que aquele era o Kwan. Que era o seu irmão.

- Kwan. Você vai embora. Agora. - Jeon fitou seus olhos com tanta raiva que o irmão mais novo nem ao menos pestanejou. Saiu andando aos tropeços.

Mas ele sabia que aquela raiva toda nem era por causa dele.

O resto das pessoas ficou olhando pra cara de Jackson, já que ele tinha dito "você não sai adqui sem limpar" e Jeongguk simplesmente cagou pra isso.

- Cara, eu não sabia que ele era...

Jeongguk o interrompeu, apontando o dedo no rosto de Jackson. A cena era um tanto quanto engraçada já que, mesmo o outro sendo mais alto, Jackson era muito forte por ser do time da faculdade.

- É melhor você limpar isso logo. Seu quintal tá começando a feder, e se deixar por mais tempo, vai feder que nem você.

Andou a passos rápidos sem olhar pra trás. Não tinha sido grande coisa, por isso era engraçado como as pessoas estavam cochichando sobre ele como se tivesse sido uma briga. Algumas pessoas nem se davam o trabalho de cochichar.

Mas ninguém além dele brigava com Kwan. Ninguém.

Abriu a porta e a bateu com força, mas o barulho foi abafado pela música que tinha voltado a tocar.

Kwan estava sentado na caçamba da caminhonete ao lado de Taehyung, olhando para o chão.

- Ih. Melhor você ir inventando alguma desculpa - o ruivo sussurrou à medida que Jeon se aproximava.

O mais novo se levantou, caindo sentado em seguida. Mal conseguia andar de tão bêbado.

- Guk... Eu...

- Quieto. Fica quieto. Não quero ouvir sua voz. - resmungou, tremendamente irritado. Às vezes Kwan era tão irresponsável que Jeongguk mal podia acreditar.

Taehyung se levantou e deu um soquinho no ombro de Jeon, como sempre faziam.

- Você sabe que eu moro aqui perto, então eu já vou indo. Acho melhor você pegar um táxi - apontou para o garoto, que estava quase vomitando de novo. - Se cuida viu, pivete? - Tae bagunçou o cabelo do mais novo e ele grunhiu.

- Até amanhã, Taehyung - Jeon falou mas não adiantou de muita coisa, já que Tae havia dado meia volta e ido embora.

Olhou para o seu irmão, sentado no chão, olhando pro nada.

- Kwan. A gente tem muito o que conversar.

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Caminhou a passos lentos com uma mochila nas costas, se sentindo completamente livre.
Sabia que devia uma, e tanto, mas tudo o que conseguia pensar era que finalmente estava sentindo o sol sobre sua pele de novo.

- Você sabe que tá me devendo uma - mal pisou na calçada e o homem de meia-idade resmungou, mas com um leve sorriso ladino - Eu não tinha um puto no bolso e mesmo assim paguei sua pena, então 'cê me deve e muito.

- Se eu pudesse te pedir só mais uma coisa - o homem falou e o outro parou de caminhar pela rua da cadeia e o olhou sério.

- Se for dinheiro, eu mesmo te boto de volta lá dentro agora - irritado, voltou a andar.

- Não é nada disso... lembra do Jimin? - perguntou, enquanto o outro fazia uma careta como quem tentava lembrar.

- Mentira que o filho da vadia ainda tá vivo, mesmo depois daquilo. Fazem anos, mal lembro da cara dele - riu ao lembrar de quem se tratava - O que cê quer, então? Que eu ache ele e pague umas pessoas pra...

- Não, idiota, presta atenção. Esses dias ele teve a coragem de aparecer aqui, na minha frente, e quando eu ia dar um sacode nele, um cara veio defender e me ameaçou! Dá pra acreditar? - gargalhou alto, como quem contava uma piada.

- Então agora além de tudo ele ainda é viado? Sempre teve jeito - o homem cuspiu no chão. Ele era tão nojento quanto o que falava, enquanto o pai de Jimin só sabia rir.

- Eu dou um jeito no cara, então.

- Não é isso que eu quero. O Jimin não deve ter muita coisa ultimamente, mas se ele gosta desse cara, eu vou tirá-lo da vida dele. Eu quero que você faça o que você puder pra fazer com que eles não fiquem juntos. - deu uma pausa, ainda pensando no que ia fazer. - Descobre qualquer coisa sobre a vida do Jimin agora, descobre quem é esse cara e qualquer coisa sobre a vida dele. Eu ainda vou achar o nome dele.

- Você tá parecendo diretor de novela mexicana, como vai ser o próximo capítulo? Um acidente de carro? - riu, sarcástico - Não vai dar a porra de um trato no moleque?

- Não agora. Não sobrou muita coisa, mas vou tirar tudo o que ele tem. - falou meio baixo, lembrando dos tempos em que ainda moravam juntos. Lembrando daquele dia.
Jimin tinha estragado todos os seus planos. Quando estava quase conseguindo acabar com a vida dela, ele a defendeu e acabou atrapalhando tudo. O homem ainda sentia raiva disso.

- Enfim - continuou, balançando a cabeça enquanto afastava as lembranças - ele usava uma jaqueta de couro, tinha olhos grandes, o cabelo mais ou menos assim e tatuagens nos dedos - gesticulou.

- Engraçado, parece um cara aí que eu parti pra cima faz umas semanas. Tem vários caras desse tipo na cidade, então bem provável que não seja ele, mas foi engraçado. - riu com deboche, lembrando do dia. - Parecia um adolescente, um maluco que veio defender um moleque, ameaçou de furar minha garganta com uma garrafa - era nítida a diversão em seu olhar.

- Hum... me conta mais sobre isso.


Notas Finais




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