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Jornal Abismo


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Abismo

Do alto das pedras, ao som da eterna luta entre o mar e o rochedo, caminhei em direção ao abismo e sentei-me diante de sua entrada. Enquanto minhas pernas balançavam no lá e cá de uma aconchegante brisa, fitei-o por um longo momento.
Engraçado como a escuridão, o vazio, o silêncio; tornam-se uma bela amizade para aqueles que anseiam por paz, afagando nossos corações do sofrimento constante. São nestes momentos que se torna compreensível a atitude de inumeráveis pobres almas que decidiram por se jogar no Vazio e naquele estado permanecer.
Particularmente, não quero ser dominado pelo abismo. Eu quero olhá-lo sem pudor. Eu quero forçá-lo a minha compreensão, racionalizá-lo e torná-lo meu serviçal. Vai contra o meu amor próprio simplesmente me perder pela eternidade. Haverá bastante tempo para isto, pois o fim, meus companheiros, inevitavelmente chega para todos.
Naquele belíssimo devaneio, joguei aos Ventos uma divina composição. Enquanto seus dedos ligeiros suavemente regiam as estrelas, levantei-me e convidei todas as minhas concubinas para uma dança. Elas estavam comigo desde que eu me reconhecia como gente, acompanhando-me onde quer que eu fosse.
Todas possuidoras de seios e quadris fartos, cabelos vermelhos, pele alva e rostos finos como as mais belas obras de arte renascentista. Nuas, sem o menor tipo de pudor, vieram me acompanhar naquele bacanal: a Angústia, a Raiva, a Ódio, a Esperança, a Felicidade, a Derrota, a Vitória, a Decepção, a Vergonha...
Alternavam-se uma com as outras, enquanto eu dançava com todas. Era possuído e as possuía ao mesmo tempo.
Quando os Ventos finalmente cessaram a música, respirei fundo e agradeci a todas pela presença.
Com meus lábios quentes, beijei cada um de seus lábios frios como mármore. Uma por uma, beijaram-me, abraçaram-me e despediram-se.
Era minha hora. Eu precisava partir em uma jornada onde nada poderia me acompanhar.
Não era um adeus, e nunca seria. Enquanto meu coração batesse em meu peito, elas seriam os parentes mais próximos que eu poderia possuir.
Era apenas um até logo.
Para onde eu iria? Como eu iria retornar?
Nada importa: eu só precisava de um tempo na escuridão.
Em meio a um silêncio sepulcral, despi-me diante do Abismo. Sem medo. Lancei uma risada para a lua azulada e cintilante no céu. Eu estaria em paz comigo mesmo, seja lá o quê fosse necessário.
Respirei fundo e saltei em direção ao Nada.
Uma hora eu sairia de novo por aquela mesma porta de entrada, e ali elas estariam me esperando. Todas veriam um sorriso triunfante em meu rosto.

Escutando: Moonlight Sonata

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