Jornal Sobre luzes de natal e 91 dias de outono


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Sobre luzes de natal e 91 dias de outono

A minha lembrança mais nítida e memorável do natal é de uma noite chuvosa. Ainda nem era natal, porém algum final de semana próximo do dia 25 de dezembro. Se eu fechar os olhos, consigo ver as luzes de natal da casa vizinha a dos meus tios, embaçadas por conta das gotas que caiam insistentemente pelo vidro da parte traseira do carro. Eu tinha por volta de uns 11 ou 12 anos, não me lembro com exatidão. Porém carrego essa cena comigo desde então. Lembro-me que sozinha no carro, cantava a música noite feliz, trocando o “feliz” por “chuvosa” e me achando algum tipo de compositora renomada. É engraçado pensar que de tantos natais, tantas casas, tantas cenas e pessoas, essa lembrança é a que vem primeiro na minha cabeça quando se fala em natal.


Acontece que eu não tenho mais 11 para 12 anos. O tempo foi passando e o natal sempre foi algo muito especial para mim. A chegada de dezembro era sinônimo de uma ansiedade boa, ou melhor, uma expectativa que me movia através dos últimos dias de aula e ritmo frenético de fim de ano. Não importava a minha recuperação de matemática, ou as despedidas dos colegas das quais eu nunca participava. Eu saia da escola com minha camiseta do uniforme sem assinaturas, porém com a mente e o estômago como se fossem aqueles globos de neve que você chacoalha. Apenas a ideia de ouvir as mesmas músicas outra vez, de ver toda noite as casas iluminadas e de sentir o cheiro da comida das minhas tias era o bastante para me deixar sorrindo de orelha a orelha o mês inteiro.


Minha avó tinha o costume de fazer o jantar do dia 24 de dezembro em casa. Por isso, algumas semanas antes do natal, eu ia montar a grande arvore na sala de visitas, apenas usada para essa ocasião. A árvore parecia dar duas de mim, o que mais tarde eu fui perceber que não era bem assim. Havia uma caixa cheia de enfeites delicados, emaranhados em pisca-pisca velho e teias de aranha. O cheiro de mofo e tralha guardada ainda inunda as minhas memórias coloridas desses tempos.


Eu acho que é justo dizer que tudo começou a mudar quando minha avó faleceu uma semana antes do natal. Naquele ano, não fizemos a ceia de natal no dia 24 no velho sobrado, e em nenhum dos outros anos seguintes. Ao invés disso, íamos à casa de outros parentes para o tal. Cada ano era uma casa diferente. Lembro-me de me sentir deslocada na casa daqueles parentes ricos, e acuada na casa daqueles que só via em casamento e funerais. Não era a mesma coisa, por mais que a comida ainda fosse algo a se antecipar. Aquele foi o primeiro natal que eu passei triste.



Posso dizer que a partir daí, passei a sentir com menos intensidade aquela expectativa gostosa para o natal. Além disso, cada vez menos sentia a euforia de escolher presentes, pois, não sei se você também percebeu, mas essas coisas são mais divertidas quando somos crianças. Também paramos de sair de carro a noite para ver as luzes, ao invés disso, passamos a fazer carreata de shopping em shopping para comprar presentes e roupas bonitas para os eventos de fim de ano. Não que não fizéssemos isso antes, mas passamos a fazer mais em cima da hora, com mais pressa e menos cuidado.


A expressão “apenas por obrigação” ilustra bem essa cena.

Ano após ano, as luzes nas ruas não pareciam mais as mesmas. Menos casas se enfeitavam, até as lojas gastavam menos com luminosos e enfeites diversos. Paramos de colocar pisca-pisca na nossa varanda e guirlanda na nossa porta, porque pasme, os vizinhos estavam roubando essas coisas também. Passei a não saber o que pedir de natal e nem de amigo secreto, esperando por qualquer coisa e às vezes não pedindo nada. Sabe, gastar dinheiro dos meus pais com essas coisas começou a parecer tão trivial, tão desnecessário. Comprávamos nossos presentes duas semanas depois do natal, quando as lojas faziam as liquidações. Não tinha graça nenhuma, e nenhum pacote surpresa debaixo da árvore de natal.


A gota d’água caiu no ano passado, quando passamos a véspera de natal em casa, sozinhos e comendo as sobras da semana. Lembro-me que naquela noite eu olhava quieta pela a janela do carro. Não havia luzes no centro da cidade, e nem os mendigos estavam debaixo das marquises. Dentro da minha cabeça, apenas o silêncio e pensamentos turvos. Um sentimento estranho passou a habitar em mim depois daquela noite. Uma colherada de arroz, um pedaço de panetone e umas bolachas integrais. A ceia de natal do ano passado foi assim. Silenciosa e com um gosto insosso, não parecia natal para mim. Claro, eu estava com meus pais, mas saber que ninguém havia nos convidado para dividir a mesa na ceia era mais do que deprimente.


Esse ano, mamãe disse que não iria montar a árvore de natal, e acho que foi nesse momento que eu percebi que eu mesma havia chegado ao ápice da indiferença ao natal. Aquela expectativa que me movia através dos dias do ultimo mês do calendário simplesmente havia se acabado ao passar dos anos. A faculdade, o trabalho, as preocupações, tudo isso havia soterrado meu espírito natalino debaixo de neve imaginária, porque aqui onde eu moro faz sensação térmica de 32 graus no natal. Pensando nas férias que eu não vou ter, e em tantas coisas mais, nem consegui sentir aquela euforia, que na verdade, estava apagada já fazia anos.


Porém, alguma luzinha daquele luminoso velho ainda piscava dentro de mim, se posso dizer assim. Porque eu olhei para a minha mãe e perguntei “Por que? É natal oras, não podemos ficar ser uma árvore!” Ela disse algo sobre ela ser velha e feia, e sobre passar o resto do ano limpando os pedacinhos verdes que caiam de seus galhos. Eu ignorei. Se ninguém fosse montar a tal árvore, eu iria. Afinal, é natal, a única época do ano que em se pode fazer isso.


Mesmo assim, hoje (ontem porque já é dia 23 agora), dia 22 de dezembro eu mesma esqueci sobre o natal pelo menos umas três vezes durante o dia. Só me lembrei de fato quando uma colega de trabalho veio me abraçar e desejar feliz natal. Apressei-me para sair de lá, ainda decidida a passar em mil lugares atrás dos presentes que faltavam. Meu salário do mês de dezembro? Comprometido. Nem lembro quantas vezes passei o cartão nesses últimos dias. E mesmo fazendo todas essas compras, não me passou pela mente e estômago nenhuma vez sequer aquela neve flutuante dos globinhos de natal. Dentro de mim, apenas um sentimento nulo, sem cor e sem gosto. Nem sei se posso chamar de sentimento. Não era algo bom nem ruim, e pode parecer estranho, mas eu prefiro me sentir triste do que não sentir nada. Não sentir nada é como estar vazia. É estranho e eu não gosto.


Andava hoje mais cedo pelas ruas a passos pesados, apressados. O vazio parecia incomodar menos enquanto eu corria atrás de passar o cartão mais algumas vezes. A multidão dentro do shopping não me amedrontava. Esperei meia hora em uma fila nem chiar e nem bater os pés. Aquele sentimento anestésico havia voltado, e eu estava começando a me incomodar novamente.


Foi na hora de sair do shopping que eu me deparei com uma chuva torrencial de verão. Todas as pessoas sensatas estavam esperando a água passar, ou pelo menos abrandar um pouco. Eu, porém, abri meu pequeno guarda chuva e saí pisando nas poças com meu tênis novo. Ainda tinha que chegar em casa e fazer um embrulho feio para o presente de mamãe. A água fria pareceu me acordar de um sonho ruim. Eu era a única louca andando pelas duas debaixo daquela chuva, e a minha situação precária era engraçada. Aproveitei que estava com os fones no ouvido, liguei a música e comecei a cantar, recebendo um olhar estranho das pessoas dentro dos carros e debaixo das marquises. Senti-me feliz naquele momento, véspera da véspera de natal, encharcada dos pés à cabeça, carregando água na mochila e dentro dos tênis novos.


Cheguei em casa molhando o chão, porém sorrindo. Logo que entrei, avistei a caixa velha da arvore de natal em cima da mesa. Troquei-me, coloquei uma música alta para tocar e coloquei as mãos à obra. Sim, a árvore estava velha, espalhei seus restos mortais verdes pelo chão e coloquei nela um pisca-pisca que nem foi feito para ser colocado em árvores. Apagada, parecia que alguma rena tinha vomitado em cima de uma árvore defeituosa. Acesa, porém, estava perfeita.


Observando as luzes da árvore, eu percebi que alguma coisa dentro de mim tinha tomado o espaço daquele vazio. Nada grandioso havia acontecido, fora a grande quantidade de água que torci de minhas roupas e a quantidade de pó que tirei de dentro das caixas dos enfeites.


A minha lembrança mais nítida e memorável do natal é de uma noite chuvosa. Se eu fechar os olhos, consigo ver as luzes de natal da casa vizinha a dos meus tios, embaçadas por conta das gotas que caiam insistentemente pelo vidro da parte traseira do carro.


Eu tinha uma professora que dizia que a luz podia preencher um ambiente vazio. Eu não entendo muito de física, então não vou dizer qualquer bobagem sobre a luz ter massa ou algo assim. Mas é simples de entender quando você acende a luz de uma sala e ela toma todo aquele espaço.


Pois bem.

O natal é feito de luzes, elas estão por todos os lugares. Se um dia você se sentir vazix nessa época do ano, seja lá qual for a sua crença e mesmo que você não tenha nenhuma, acenda uma luz dentro de você. Pode ser qualquer coisa, qualquer led vagabundo serve. Achar alegria em qualquer coisinha que seja, é uma luzinha colorida que você pode acender e preencher esse vazio que incomoda. Às vezes é difícil ver o lado bom das coisas quando você está encharcada, cansada e vendo seu salário ir pelo ralo. Mas natal é uma época especial do ano. Mesmo que você ache que não tem nenhum motivo para comemorar, a sua vida é um bom começo. Se você está vivx hoje, dia 22 de dezembro, foi porque você passou por vários anos sem desistir. Foi porque você passou por vários anos errando, acertando, sorrindo e chorando. Algumas luzinhas do luminoso queimaram nesse tempo, isso é normal. Mas ainda restam algumas, e você sempre pode trocar as lampadinhas de lugar e dar umas batidinhas pra ver se funcionam.


Eu não sei como é natal na casa de vocês, e talvez não seja tão fácil montar uma árvore de natal feia e capenga igual a minha. Mas sempre dá para acender umas luzinhas dentro de você mesmx, e passar um natal colorido e iluminado de coisas boas, mesmo pequenas. Sempre tem um jeito, pode estar escondido, mas está lá.


Eu desejo um feliz natal para todos vocês leitores. Esse ano foi um ano comprido e difícil, tenho certeza que não fui a única a me sentir pesada e cansada do início ao fim desse ano. Mas está acabando, logo poderemos jogar fora o calendário e dar uns belos pisões nele para relaxar. Espero que vocês passem as festas de fim de ano da melhor maneira possível, e se for difícil aí no mundo real, sabemos que temos um abrigo aqui na internet e muitas fanfics natalinas para ler!


Infelizmente eu mesma não poderei providenciar tais fanfics para vocês, pois não tive tempo nem estive no melhor estado mental para parar e escrever nesses últimos tempos...


Em 2018 estarei ocupada com meu TCC, então provavelmente postarei menos. Não se preocupem, tentarei terminar minhas fanfics em andamento. Além disso, tenho um projeto para um artbook de 91 dias de outono para quem estiver interessadx... Ainda preciso organizar melhor as ideias, mas caso você tenha ficado curiosx por favor preencha esse formulário AQUI . Vai me ajudar a ter uma ideia de quantas pessoas teriam interesse nele!

Bom, já está bem comprido e eu duvido que muita gente leia isso. Feliz natal, feliz ano novo, boas férias e lembre-se, você é uma luzinha bonita e especial demais.

Minhas mensagens privadas estão sempre abertas, para quem precisar conversar.

Um abraço,

C


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