Jornal Star Wars, Mito e Redenção


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Star Wars, Mito e Redenção

A mitologia está presente no inconsciente coletivo, seja em fábulas, comédias, animações e toda sorte de produções artísticas. Segundo Pablo Hidalgo, o estudo da mitologia é essencial para a compreensão genuína de Star Wars.

O mito se origina conforme a necessidade de explicações para os fenômenos da natureza e padrões comportamentais do ser humano através de uma narrativa épica. A composição da narrativa épica é fundamentada em representações majestosas de personagens heróicos, na ação em grande escala, em lutas e batalhas, na aventura fantástica.

“Queria uma versão contemporânea do mito e dos contos de fada... há uma geração inteira que necessita urgentemente de fantasia nos dias de hoje.”
— George Lucas

C.S Lewis partilhava da perspectiva de Lucas e apontou como obrigação moral a urgência de reaprendermos a apreciar os contos de fadas. Para Sheldon Cashdan, os contos de fadas são psicodramas da infância espelhando lutas reais:

"Embora o atrativo inicial de um conto de fadas possa estar em sua capacidade de encantar e entreter, seu valor duradouro reside no poder de ajudar as crianças a lidar com os conflitos internos que elas enfrentam no processo de crescimento.”

Em Star Wars, Anakin Skywalker e Ben Solo incorporam os principais arquétipos de crianças que se desvirtuaram do caminho correto e sofreram com a mácula da escuridão devido à manipulação alheia e uma sucessão de escolhas infelizes. Em Anakin, a ingenuidade de sua juventude não estava familiarizada com a ideia de que “sempre em movimento o futuro está”, e a inconstância das visões e profecias marcou o início de seu declínio e a concretização da persona inglória de Darth Vader. Com Ben Solo — que não possuía sequer o direito básico à privacidade de seus pensamentos —, o abuso constante por parte de Snoke, a negligência parental e o vislumbre do tio que brandia o sabre de luz contra o sobrinho anunciaram o desastre por vir. Na psicologia literária e visual, o encontro com a sombra é a descida ao submundo, à barriga da baleia, à caverna psíquica. O que Anakin e Ben Solo têm em comum, além da linhagem sanguínea e o histórico vilanesco? Ambos advém de famílias relativamente bem estruturadas e amorosas, apesar dos pesares. Star Wars mostra ao espectador que assim como em toda instituição opressiva haverá membros subversivos que optam pelo correto e honroso — leia-se Finn —, há no mundo crianças que, mesmo em ambientes favoráveis, estão sucetíveis a serem corrompidas. O decorrer de suas histórias têm como objetivo a semeadura de esperança nestes jovens que imaginam-se como causas perdidas em uma estrada sem volta. O propósito alegórico das figuras trajadas em máscaras e que erguem sabres flamejantes é que enxerguemos nelas a humanidade que lhes foi negada para servirem aos interesses de outrem.

“Gosto da ideia de que a pessoa a quem julgavam vilão é, na verdade, a vítima, e que a história é sobre o vilão tentando reganhar sua humanidade.”
— George Lucas

Star Wars não é uma saga que condena a salvação através do amor e da compaixão, pelo contrário, tais atributos são tidos como virtuosos. As trilogias não são contos preventivos que afirmam que é errado perdoar o marido que enforca a esposa grávida e arranca a mão do filho em um duelo, não é um sermão de justiça social sobre heroínas que não devem, de maneira alguma, se identificar e ter sentimentos pelo vilão. Star Wars não é uma história sobre como bem derrota o mal sem conflitos morais em ambos os lados. Star Wars é uma odisseia espacial cujo teor mitológico central é a redenção, um tema edificante que reconhece o potencial humano de suceder após ter falhado. As atitudes pecaminosas dos vilões são metáforas que sempre fizeram parte do exagero épico, onde tudo é aguerrido, fantástico, romântico e simbólico. Os paralelos visuais com a mitologia ou clássicos da literatura são evidentes. Aos olhos atentos, é fácil perceber elementos de lendas salvíficas sobre amor incondicional.

Star Wars é, acima de tudo, uma reafirmação de que enquanto houver luz, todos têm uma chance.

“Não há maldição que não possa ser anulada pelo eterno amor, enquanto ainda restar um fio de esperança.“

— La Divina Commedia de Dante (Purgatorio III.135)


Fonte: Castelo da Maz Kanata


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