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História A Sereia dos Olhos de Safira - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo 1


E ali, jogado na extremidade do deque, com uma perna pendendo para o mar, jazia o corpo de uma moça desconhecida, após um breve período tempestuoso.

O capitão Don Onofre olhava boquiaberto, assustado, depois de ter questionado aos gritos os seus homens e se ver sem resposta alguma.

“Simplesmente apareceu” concordavam todos.

Os homens olhavam petrificados a imagem horrenda da moça nua e ensanguentada no navio. Parecia ter vindo com a tempestade.

“Está viva!” disse um deles, checando a sua respiração.

“Pois tratem de dar espaço, homens! Deixem de fazer-se corvos em cima da pobre mulher! Tragam algum manto, pelo amor de Deus” disse Don Onofre.

Cerca de três horas atrás, o mar se agitou. Por orgulho, Don Onofre dissera ter certeza que conseguiriam atravessar certa parte do Sudeste de forma retilínea, e o casco conseguiria resistir a uma chuva moderadamente pesada – dizia ter investido em suas armações.

Confiante de que aquele seria um ótimo testemunho de que nem mesmo o mar resistiria ao domo da família Onofre, o capitão prosseguira com dizeres de silêncio e confiança aos marujos – no final das contas, já passou por desafios semelhantes. Não atrasaria a viagem contornando um espaço tão gigantesco.

Logo começara a sofrer as consequências de seu descuido.

O chuviscar parecera se intensificar sem motivo aparente. As gotas pareciam cair como granizo e as ondas batiam em ira.

Após três horas de grito e desespero, os homens finalmente começaram a ver as nuvens e raios se afastarem, a chuva se dissipando e o mar se acalmando.

E ao pensar que estava livre do inferno, jurando nunca mais ser tão irresponsável, um marujo gritara ao outro apontando um corpo desconhecido.

E ali todos se demoraram com dúvidas na cabeça.

Don Onofre colocou o manto sobre o corpo da mulher, após checar sua respiração e confirmar ele mesmo a fala do outro homem. Sua respiração era lenta e profunda, logo não estava com água em seus pulmões. Ela tinha cabelos negros e pele dourada; seus dedos não estavam enrugados, eliminando mais ainda as hipóteses de ser alguém que estava no mar por algum tempo.

“Deus! Não vejo barco ou navio algum. Seria ela vítima de algum naufrágio? Como pode explicar o fato de ainda estar viva?” disse alguém.

“Sim, o mar está deserto" concordou outro. "Era alguma tripulante?”.

Um som de espanto começou a ecoar entre os homens.

“Infernos, qual o preço do silêncio?!” gritou Don Onofre. “Procurem algo para tratar os ferimentos, pequenos diabos!”.

Três marujos correram.

Don Onofre olhou por sobre os ombros após se perguntar quem estaria no timão naquele instante. Felizmente, reconheceu Miguel, dando-lhe segurança de que não estavam em más mãos; Miguel era o único além de Don Onofre que entendia de navegação naquele navio.

A moça tossiu, ainda com os olhos fechados.

“Mantenha-se acordada, mulher!” segurou o rosto da moça. “Você está bem agora. Pode dizer alguma coisa?”.

Um silêncio tomou aquele amontoado de marujos. A mulher mexeu os lábios em sinal do início de uma frase, mas nada foi proferido.

“Levarei à minha cabine. Enquanto isso, voltem a seus postos! Vamos! Miguel está no timão por enquanto, um único capitão não fará um navio marchar!”.

Os homens se entreolharam, mas logo voltaram às suas posições, ainda assustados e comentando silenciosamente o que poderia ter ocorrido para uma visita tão esquisita.

Chegando à cabine, meia hora depois, após aquecer uma pequena lenha e acobertar a desconhecida em quatro lençóis, notou brevemente que a moça já respirava com normalidade, mexendo o rosto para mergulhar-se ainda mais no travesseiro.

“Garota, você está bem?” pensou ouvi-la acordar, mas não houve resposta. Ela parecia estar em um sono profundo.

 Pegando os poucos objetos de primeiros socorros que os três marujos lhe trouxeram, ele colocou um pano úmido e quente na testa da moça. Com outro pano úmido, limpou o sangue do seu rosto, braços e pernas. Jogou álcool em suas feridas (assemelhavam-se a fortes batidas) e enrolou cada parte com pedaços de pano.

Ali de perto, com um dedo em suas narinas, notou que sua respiração parecia demorar de um minuto a um minuto e meio. Ainda assim, ela se mexia calmamente na cama, descansando, sem demonstrar nenhum desconforto respiratório.

Talvez estivesse medindo a respiração de maneira errada, pensou o capitão Don Onofre, mas julgando ser uma provável vítima de afogamento, o descanso silencioso da moça o assustava.

Ele olhou para uma pequena vidraça, observando as nuvens rosadas e escuras. Eram os sinais do entardecer.

A moça tossiu mais uma vez.

“Tudo bem, tudo bem” disse o capitão. “Você está a salvo, minha jovem”.

E ela finalmente abriu os olhos: encarou-o aparentemente assustada, franzindo o cenho, e percorreu com o olhar o lugar onde estava. Ela se levantou em um pulo, recolhendo o manto às pressas, descobrindo-se nua.

Que olhos estranhos pensou o capitão. Eram completamente esbranquiçados.

“Não se preocupe, há algumas roupas aqui que podem lhe servir” ele apontou para uma calça e um camisolão.

Seu rosto ainda demonstrava ceticismo.

Ele levantou e se pôs ao lado da porta.

“Estarei do lado de fora. Fique o tempo que for necessário. Daqui a meia hora retornarei. Há uma garrafa de água e outra de chá perto da cama, junto com uma taça; beba, por favor. Trarei alguns pães e um pouco de mel. Quando eu chegar, te farei algumas perguntas, para assim te ajudar a voltar ao lugar que veio. Estamos entendidos?”.

Ela não esboçou nenhuma reação.

“Ao menos fala a minha língua?” se sentiu idiota por só ter perguntado aquilo naquela hora, depois de todo discurso.

Ela assentiu.

O capitão suspirou e logo se pôs do lado de fora, podendo sentir os olhos da moça percorrerem o espaço enquanto fechava a porta.

Era uma mulher adulta, mas seu olhar era de uma criança perdida.

Um pobre anjo caído do céu, assustado para com o mundo.

Um marujo se aproximou com um olhar de curiosidade enquanto o capitão descia as escadas.

“Está viva?” sua voz mais parecia denunciar surpresa do que preocupação.

“Feliz e estranhamente sim, meu rapaz. Está assustada, e aparentemente sem muito ânimo para falar”.

O marujo virou o rosto e encarou a cabine. Era a parte mais elevada do navio, como um verdadeiro trono. Praguejou silenciosamente: “não pode ser!".

“E o que faremos com ela?” disse ele.

Don Onofre percebeu o falatório estranho do homem, lançando-o um olhar carrancudo.

“Que perguntas, jovem! Claramente irei deixá-la no porto mais próximo depois de descobrir seu nome”.

“Senhor, horas atrás estávamos enfrentando a fúria do mar. Todos os homens correram para erguer nossas velas o mais longe possível da tempestade. Será que ela não estava escondida esse tempo todo em algum lugar por alguém?”.

Don Onofre parecia não entender a ligação. Pior ainda: não sabia onde o sujeito queria chegar e nem mesmo a natureza daquilo que estava dizendo.

Saberia ele alguma coisa?

“Prisioneira? Por algum dos nossos?!”.

“Já ouvi muitas coisas, meu senhor, coisas que minha alma esquenta com o fogo abaixo do solo apenas por lembrar que um dia as ouvi. Conheci muitos casos em Valência de homens que escondiam mercadorias sombrias sob os olhos despercebidos do capitão”.

Don Onofre fixava um olhar assustado às palavras dirigidas a si, aparentemente já entendendo a horrível ideia que o marujo queria explicar.

“É possível, e que isso fique por enquanto entre nós” ele continuou “que talvez estejamos sendo usados esse tempo todo como veículo de tráfico humano por alguém”.

Don Onofre parou por um momento, boquiaberto.

“Que absurdo! O que te faz pensar que meus homens fariam algo do tipo?! Escolhi esses rapazes a dedo, e minha intuição não erra. Claramente tudo isso se trata de uma pobre alma carregada por aquelas águas impiedosas” sabia que essa já era uma hipótese improvável. O mar estava deserto, sem sinais de qualquer coisa que trouxesse o corpo de alguém. Se de fato se tratasse de alguém carregado pelas águas, seu corpo já teria dado as provas, mas no lugar disso a mulher parecia ter sido jogada ali assim que a tempestade acabou.

E como a moça falava sua língua? Com certeza estava com eles desde a saída do porto.

“Ou, no desenrolar de toda essa algazarra, alguém tenha esquecido de esconder o que levava consigo. Talvez a mulher, em virtude de toda essa bagunça, conseguiu se livrar de onde estava escondida esse tempo todo”.

Don Onofre mexeu a cabeça, embora a explicação fosse bastante plausível. Ainda assim, havia explicações menos assombrosas: uma pessoa querendo uma viagem gratuita, por exemplo.

Mas ele mesmo sabia que naqueles tempos o tráfico humano poderia pegar qualquer. Lembrou-se do caso de um conhecido que carregara um casal apaixonado em uma viagem à Inglaterra: dizia-se que os dois (um homem na casa dos quarenta e uma mulher na flor de sua juventude) acariciavam-se ao longo de todo percurso, andando de mãos dadas e trocando sorrisos.

Quem diria que a mulher estava sob pressão, obrigada a atuar como amante, quando, na realidade, estava para ser vendida como prostituta em Whitechapel.

Infelizmente era comum os casos. Comandantes eram presos antes de saberem do que se tratava – na melhor das hipóteses, perdiam a licença para sempre. Era óbvio que muitos tripulantes desconfiariam de uma moça estranha que aparecesse do nada na embarcação, temendo perderem o emprego.

Ele logo notou que poderia ser o alvo perfeito. Dificilmente checava o compartimento duas vezes, sempre certo do que carregava – e ainda se tratando de uma viagem de sua própria família, tinha a certeza de não necessitar revisar o conteúdo da embarcação. Mas a natureza maliciosa do homem era tão genial quanto assustadora, e agora viu que poderia estar de frente para uma valiosa lição quanto ao seu maior desleixo.

“Ainda é cedo para se pensar em trovões. Estarei de olhos abertos. Quero todos longe da cabine”.

“Não acho que está dando a devida importância ao que supostamente...".

“Ao que supostamente pode se tratar de algo mais simples do que um crime horrendo” interrompeu Don Onofre. “Limitar-nos-emos ao fato de que é apenas uma jovem perdida e assustada. Faremos deste navio seu melhor abrigo e conforto. Até então, poderia controlar suas teorias e não as compartilhar com ninguém? Em um momento como este, um espanto em massa é o que menos necessito".

O jovem bufou e assentiu, caminhando em direção ao compartimento interno e desaparecendo navio adentro.

Fosse o que fosse, o instinto quase infalível de Don Onofre sussurrou a si: uma energia negativa circulava ao redor de sua cabine.

 

William

O ambiente era o mesmo: os navios estavam parados no porto, esperando segunda ordem, e os poucos que chegavam logo eram recepcionados pelos fiscais.

William já se mantinha inquieto, entediado e sem muita ideia de entretenimento. Pensou em fazer uma viagem mais uma vez à cafeteria, mas percebeu que já era a décima vez que enchia seu copo, e podia sentir o café abrindo buracos em seu estômago.

A fim de se livrar da fadiga, William caminhou em direção ao posto de seu chefe. Ele precisava arranjar alguma desculpa, precisava estar em outro lugar naquele momento.

“Você disse que o navio da família Onofre chegaria neste horário” disse William, na porta. “Já preciso fazer alguma observação?".

Embora o porto de Santos fosse comercial, a família Onofre, com a mágica do seu mar de euros, conseguira uma licença da noite para o dia. William estava encarregado sem sua vontade de supervisionar com o maior cuidado todo o carregamento até seu destino.

“Deixe os papeis onde estão, William. Ainda estão dentro do período de tolerância" disse seu chefe, ocupado demais em alguma pilha de papeis que, muitas vezes, William julgou ser só uma distração inventada por ele.

“Senhor, do que se trata essa viagem?”.

“Guarde a curiosidade para os navios comerciais, meu jovem”.

“Estarei cuidando do que estão carregando! Colocaram uma responsabilidade em cima de mim apenas porque estavam ocupados demais para inventar outra desculpa. Diga-me, não se trata de uma viagem ilegal, não é?”.

Seu chefe bufou.

“Parece-me justo, então" se virou. “Trata-se de uma viagem de mudança. A família Onofre adquiriu uma residência aqui em Santos”.

“O período que estão para atracar aqui atrasou navios importantes. Parece-me uma família mesquinha”.

O chefe e gerente do porto de Santos lançou um olhar entediado pelo discurso.

“Jovem, se estiver estressado por falta de serviço, apenas admita e eu lhe ajudarei”.

William encarou-o por alguns segundos, e logo caminhou em direção à saída.

Voltando a seu posto, pegou seu casaco e olhou o endereço gravado em um papel dentro de seu bolso. Sabia que pessoas como os Onofre não obedeciam a compromissos, fazendo o que bem queriam e quando bem desejavam. Olhando o papel e sabendo que ficaria parado esperando um navio que provavelmente não chegaria naquele dia, decidiu resolver outro compromisso.

William pegou seu carro e dirigiu alguns quilômetros até o Café Matin. Dias atrás um conhecido lhe disse que Suzana estaria de passagem lá, exatamente às 11:30, e que ela convidava William a tomar um chá antes de se ocupar novamente em sua viagem a Minas Gerais. Pelo que William sabia, ela estava para viajar a serviço, em alguma espécie de reunião sobre um hospício. Talvez aquele fosse o único momento que teria consigo, sem esperar meses para um próximo encontro. Esperava que ela tivesse dito sobre sua chegada, mas já eram meses que não mandava sequer um único telegrama.

Ali estava ele então, finalmente, depois de um ano sem ouvir a sua voz e meses sem se deliciar com a caligrafia de seus textos. Sabia que a frieza de Susan era clara: William merecia uma amizade mais presente em sua vida. Ainda assim, ali estava ele. Sentia-se como uma criança se entregando de alma e corpo à primeira ilusão que encontrava, sem se poupar de nada.

Ao entrar no estabelecimento, suspirou ao vê-la sentada. Cheguei a tempo. Estava observando o fundo da sua xícara, com uma aparente profunda melancolia.

William cerrou as sobrancelhas e pensou no seu coração já machucado. Não sabia se estava pronto para um encontro direto, e menos ainda em um que a outra pessoa mantinha um ar de quem não queria contato com ninguém. Naquele caso, certamente criar um diálogo o faria estar de frente para alguém que o recepcionaria com frieza.

Mas ele precisava daquilo, ah sim. Ele necessitava sentir a sua presença mais uma única vez depois de tanto tempo. Ela entenderia.

William pediu uma xícara de chá verde e logo se pôs a andar em sua direção.

E foi então que, para sua surpresa, ela virou os olhos e encarou a figura que se aproximava, esboçando um sorriso que acalmava o dia mais tempestuoso. Pensou em pedir um abraço, mas o pensamento confuso o fez esquecer dos próprios modos.

William se sentou em sua frente, sem perceber a existência de um sorriso no próprio rosto.

“Olhe só, você veio realmente” brincou ela. “Eu não sabia como notificá-lo a tempo. Cheguei nesta parte da cidade há apenas alguns dias, não teria tempo de enviar um telegrama. Ainda bem que me encontrei com Francis e ele pôde passar o meu convite a você”.

 “Mas você simplesmente não me mandou nada nesses últimos meses. O que houve, Susan?”.

Ela se ergueu e andou em sua direção.

William se levantou, e os dois se abraçaram fortemente. Aquele cheiro que tanto caçava seus sonhos agora era um elixir de prazer.

“Planejava ainda hoje te fazer uma última visita na sua casa, mas ainda bem que estamos tendo este momento. Como está?”.

“A vida ainda é a mesma, não? Nós apenas esperamos a tempestade passar”.

Sentaram-se novamente.

“Que tempestades aparecem nos céus da sua vida, meu amigo?”.

William mexeu a cabeça.

“São nuvens passageiras, Suzana. O que tem a me dizer sobre você?”.

Ela bebericou o chá.

“Há alguns... detalhes em aberto em certos hospitais. Espero chegar em Minas Gerais em poucos dias para revisar certos documentos. Acredito que alguns pacientes estejam sendo injustiçados”.

Susan era alienista, e algumas de suas cartas mencionavam algum “trabalho árduo em prol de uma verdade oculta”. Por muito tempo tentou desvendar o que ela estava escondendo, mas tudo parecida se camuflar em uma nuvem de enigmas.

“Você comentou, mas não acho que entendi direito”.

Ela repousou a xícara.

“Laudos equivocados, pessoas sendo torturadas, abusos deixados abaixo do tapete. Estamos falando de toda uma estrutura, William, um verdadeiro campo de concentração de sofrimento”.

Impressionou-se.

“Você disse que queria mostrar algo às entidades, seria isso então? Como planeja prosseguir?”.

“Ainda não sei, mas estou em um ótimo caminho para descobrir”.

Concordou com a cabeça, embora não fizesse muita ideia sobre até onde aquele assunto ia.

“Você realmente planeja se arriscar, não é mesmo?”.

Ela esboçou um sorriso.

“Chega um momento nas nossas vidas que precisamos dar um sentido a tudo o que vivemos, meu bem. Você sabe o caminho que eu decidi”.

“Eu esperava poder ter essa capacidade, Susan”.

Ela tocou em sua mão.

“Você tem um coração tão bom, meu caro, nunca se envergonhe por ter dedicado ele a alguém”.

William sorriu sarcasticamente.

“Eu tenho me preocupado com você, Susan, queria apenas que enxergasse isso”.

Ela suspirou.

“E eu enxergo!”.

“Como? Colocando-se em guerra contra o país e sumindo por meses? Por onde você andou?”.

Um silêncio pairou no ar.

Ela encarava duramente.

“Se quiser me amaldiçoar, que o faça, mas eu sinto muito. Entendo a sua frustração e não estou dizendo que não faria o mesmo se estivesse em seu lugar. Mas queria que entendesse a importância da minha missão aqui!”.

William inspirou.

“Até quando isso?”.

Ela mexeu a cabeça.

“Até quando for necessário”.

William começou a beber o seu chá, e um momento de silêncio constrangedor tomou conta do ambiente mais uma vez.

Susan ficou cabisbaixa.

“Eu sabia que você não me apoiaria, e que sua frustração o cegaria de entender o dever que estou tendo” continuou ela.

William repousou a xícara.

“Eu entenderia se você não precisasse destruir anos de sua vida em prol de algo que não a levará a lugar algum! Vamos, Susan, olhe para o que você quer, acha mesmo que uma única pessoa vai fazer o sistema mudar de ideia?!”.

“Não estarei sozinha!”.

“Então com quem?”.

Ela suspirou.

“Há pessoas que estão se interessando pelo meu trabalho”.

William riu.

“Eu tenho passado noites em claro pensando em você, em que boas razões você me daria para explicar sua tamanha negligência para com o que significa nossa amizade. Agora, tendo a oportunidade para me falar pessoalmente, sinto que me faz de tolo novamente. Susan, preste atenção, se continuar nesse caminho, abdicando da sua própria vida para servir algo que não levará menos de cem anos para mudar, sofrimento é o que te espera”.

“Pode fazer um favor?”.

Ele a encarou seriamente, como se estivesse tentando deduzir seus pensamentos.

“O que deseja?”.

“Siga a sua vida”.

Sua expressão era de um alguém completamente perdido.

“O que está querendo insinuar?”.

Ela se levantou, recolhendo suas coisas.

“Não me espere, William, eu já parti há muito tempo. Não somos mais adolescentes se encontrando em um museu. E eu não tenho tempo para ficar batendo no seu ombro esperando que crie maturidade para entender o significado de responsabilidade social”.

Susan girou o seu corpo e então parou, aparentemente pensando. Dois segundos depois e virou-se novamente para si:

“Lamento que nossa conversa tenha sido curta, mas não posso alimentar isso que você está sentindo”.

William mexeu a cabeça.

“Susan, eu... eu não queria que levasse as coisas para esse lado”.

Susan desviou o olhar.

“Nos vemos outra hora, meu nobre amigo”.

William ficou por um tempo sentado sem saber como reagir, mas logo se levantou e andou a passos largos em sua direção.

“Susan, espere!”.

Susan fechou a porta do estabelecimento fingindo não ter escutado a voz de William.

E lá esteve ele, parado e sem saber o que fazer.

 

O ar do porto era certamente um aroma calmante. William se alegrou por ao menos ter algo pelo qual se ocupar dos pensamentos recentes.

Ele se sentou no banco do próprio posto e ali deu uma olhada para onde sua vida o levara.

Diferentemente de Susan, William não teve o luxo do dinheiro. As universidades eram um sonho inalcançável para si. Trabalhara nas docas, e com reconhecimento passou de aprendiz de montador a fiscal de mercadorias portuárias.

Sua sala ali era humilde, um símbolo de um honesto trabalhador. No canto esquerdo havia ferramentas soltas de uma caixa de parafusos, enquanto na direita ele reciclava nas paredes alguns papeis que, em algum momento passado, eram assuntos que chamavam sua revisão, mas agora ele nem mesmo se lembrava do que se tratava — estavam ali apenas para enfeitar aquela paisagem cinzenta.

Ele se aconchegou na mesa, lembrando-se de como outrora dissera a Susan dos seus sonhos nos mares.

Mas parecia que seu destino se limitava a um porto.

Don Onofre

Don Onofre levava alguns pães com um pote de mel. Não sabia certamente se era a refeição enérgica correta a uma pessoa exausta, mas se dependesse dos alimentos oleosos e das carnes velhas, certamente aqueles pães duros pareceriam a dieta mais nutritiva que a pessoa veria.

Ele bateu na porta.

“Sou eu. Está vestida? Posso entrar?”.

Alguns segundos de silêncio.

“Sim, por favor” disse ela do outro lado.

A jovem estava sentada na cama, com um olhar já não tão amedrontado em seu rosto.

Don Onofre colocou o alimento sobre a pequena mesa ao lado.

“Você não bebeu nada” percebeu. “Por favor, coma alguma coisa”.

Ela pegou com calma um pão menor, pousando a colher melada ao redor da massa já envelhecida. Sorriu ao provar o sabor, aliviando Don Onofre.

“Qual seu nome, minha jovem?”.

Ela o encarou firmemente. Don Onofre pôde então perceber aqueles olhos com mais atenção: eram acinzentados, beirando à prata. Se o anel escuro ao redor de sua íris fosse mais claro, qualquer um diria que se parecia com uma pessoa morta.

“Lara” ela disse, com um sorriso amigável.

Que mulher linda, ele pensou. Seu olhar exalava alguma energia encantadora, pois no mesmo instante em que os seus olhos se encontravam com os dela, estranhamente e sem motivo algum uma sensação de súbito prazer o tomava. Era como que se em algum lugar daqueles olhos houvesse um conforto que há tanto tempo ele não se lembrava.

Era estranho pensar que apenas um único olhar poderia lhe causar aquilo.

Quem era aquela mulher?

O que e por que estava sentindo aquilo?

Estaria ela lançando algum truque ilusório sofisticado, sem motivo aparente algum?

“Lara...” evitou então olhar diretamente para ela, afastando as perguntas na sua cabeça. “Como parou aqui, Lara?”.

Ela olhou em melancolia para a vidraça.

“Eu não me lembro... eu estava em outro navio, mas tivemos um acidente interno. Estávamos depois em um bote, navegando às cegas, mas uma tempestade nos pegou. Não consigo me lembrar de mais nada”.

“Que navio era esse?”.

“Ah, era de muito longe, capitão. Estávamos indo para Santos”.

“Qual a sua origem?”.

Ela pegou a taça e a encheu de chá.

“Grécia”.

“Grécia... há alguém em Santos que esteja te esperando?”.

“Ah, sim. Tenho muitos conhecidos e eles devem estar loucos perguntando sobre a minha chegada. Estou tão cansada, você não faz ideia de como é exaustivo boiar pelo mar”.

Don Onofre fez que sim.

“Já tive experiência semelhantes, mas não vejo qualquer explicação para você ter chegado até aqui. Por quanto tempo será que ficou em alto mar? Não vimos sinal de navio ou bote algum. Como pode explicar você ainda estar viva?”.

Lara mexeu a cabeça.

“Talvez Deus aja de maneiras estranhas, capitão”.

Don Onofre pensou em perguntar mais a fundo. Sabia que ela provavelmente estava no navio por algum tempo, mas não fazia sentido aparecer da maneira que apareceu. Talvez a hora certa ainda estava por vir.

“Lara, só quero dizer que pode confiar em mim, tudo bem? Não quero pensar que esteja escondendo alguma coisa”.

Lara esboçou um sorriso.

“Obrigada, mas eu não sei como vim parar aqui. Talvez seja apenas uma brincadeira do destino”.

Don Onofre bufou.

“Que destino. Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, é só me dizer, nem que seja apenas uma companhia”.

Ela sorriu mais uma vez.

“Eu agradeço, mas acho que já estou melhorando”.

 

Susan

Sentada frente a uma mesa de madeira, Susan reorganizava os papeis dos prontuários de alguns pacientes. Estava em um quarto de hotel, alugado às pressas sem nem ao menos se dar à atenção de lembrar o nome do lugar. Queria simplesmente um espaço de calmaria após o episódio daquela manhã.

Pobre William, pensou por um momento. Será que ele entenderia o significado das suas palavras?

Mas não era momento para se lembrar daquela dor. Susan tinha uma tarefa muito mais importante a seguir: precisava organizar o próximo passo em sua viagem a Minas Gerais. Precisava voltar ao Hospital Colônia de Barbacena.

Lendo tudo o que juntara, descobriu que pouco recolhera. O(a) paciente 7964, por exemplo, aparecia com laudos confusos – ora alegavam se tratar de histeria, ora esquizofrenia, sem nunca correlacionar corretamente e criar qualquer diálogo com o laudo anterior. Em uma folha aparentemente recente, ordenava-se vigília de 24 horas sobre a pessoa, tendo de estar trancada a quatro paredes – de acordo com um registo também recente, narrava-se que necessitava reforçar o comportamento do(a) paciente de comunicação grupal. Afinal, ele deveria ou não ser isolado?

A lista de inconsistências só aumentava: pessoas sem histórico algum, sem nomes e sem família. Ainda assim registros horripilantes de crimes apareciam – a fim de justificar seus métodos de tortura, alguns profissionais simplesmente inventavam que alguns pacientes eram verdadeiros assassinos antes de serem internados. Os motivos para as armações poderiam ser diversos, desde uma forma de punição por algum mau comportamento, até o simples fato de o médico não gostar do paciente sem motivo lógico algum.

Susan largou os papéis e enxugou os olhos, descansando suas vistas. Era uma realidade que não mudaria sozinha, necessitando de centenas de pessoas se movimentando.

A fim de descansar sua própria cabeça, resolveu por fim dar atenção aos seus problemas mais pessoais. Pensou em William e em como o mesmo levaria aquela situação para o lado pessoal, afinal ele era do tipo que se arriscava na maioria dos assuntos por alguém que ama, mesmo que isso custasse sua sanidade mental.

Desde que o conhecera, sabia que se tratava de uma figura doce, mas ainda assim ingênua. William não parecia compreender que existia um mundo além da sua paixão, aumentando expectativas em relação ao relacionamento de ambos. Durante meses William havia enviado cartas apaixonantes, fazendo Susan se sentir culpada por não saber quais palavras seriam corretas para respondê-lo, a fim de não magoá-lo com supostas friezas. A vida e preocupações de Susan desde o ano passado têm sido outras, enquanto o pobre rapaz se mantinha preso a uma ilusão do passado.

Os dois se conheceram em uma biblioteca municipal. Ainda podia sentir o frescor da memória passar em sua cabeça, como que se a paixão pelo momento fizesse da lembrança algo tão vivo.

“Perdão” disse Susan a um suposto funcionário. “Você trabalha aqui? Estou procurando alguém para me mostrar o local”.

O rapaz era um adolescente de pele parda, cabelos escuros e olhos castanho-claros, aparentemente da mesma idade de Susan.

“Lamento, não entendo tanto desse lugar” riu ele, e se virou novamente para a prateleira, dedilhando o que pareciam ser obras antigas.

Susan virou o corpo e tentou procurar qualquer outra pessoa, sem sucesso. O único funcionário existente era uma senhora velha no balcão, dizendo estar ali apenas temporariamente. A velha, sem saber certamente a quem recorrer ao ser questionada por Susan sobre o local dos livros de medicina, sugerira perguntar a algum possível visitante que talvez já estivesse acostumado a ir ao local.

A biblioteca era deserta, decepcionou-se. Pensava que pelo menos poderia contar com algum visitante costumeiro, mas não havia ninguém além dos dois.

Logo, aquele adolescente era o único que poderia lhe ajudar.

“Você tem alguma ideia de onde pode ficar os livros acadêmicos? Estou procurando algo relacionado à psiquiatria”.

O menino parou por um momento para consultar os pensamentos. Rodeou o corpo e procurou com os olhos algumas prateleiras distantes. Susan o seguia com o olhar, até que ele se pôs a andar.

“Acho que fica no andar de cima”.

O segundo e último andar era um local ainda mais morto. O cheiro de mofo eclodia, mas nada que já não estivesse acostumada de algumas bibliotecas de Minas Gerais. O local também parecia ser um museu, com mapas da época colonial e ferramentas de tortura da escravatura.

“Quem diria” disse o rapaz. “A verdadeira sabedoria é tímida em aparecer”.

De fato, parecia que ali eram guardados os livros mais antigos e impopulares. Pegando alguns e observando as anotações de empréstimos nas contracapas finais, deduziu que no máximo cinco pessoas passaram por ali.

O jovem se demorou em uma obra dourada pelo tempo. Susan observou a prateleira de medicina e logo se pôs a passos largos até o local.

“É... estudante?” perguntou o rapaz, em uma voz doce. Parecia tímido demais em demonstrar curiosidade em sua vida pessoal.

Susan sabia onde conversas como aquela paravam.

“Em alguns anos, sim”.

“O que é psiquiatria?”.

Susan se lembrou que provavelmente as pessoas conheciam a profissão com termos mais vulgares.

“Estuda as perturbações da mente humana, basicamente. Os psiquiatras trabalham em hospícios”.

“Ah, tipo os alienistas?”.

Susan riu do termo.

A psiquiatra era principal e vulgarmente lembrada no Brasil pelo seu tratamento do alienismo; sendo designada como uma profissão cujos pacientes, em sua grande maioria, eram pessoas tão transtornadas que viviam fora da realidade. Mas Susan sabia que a maioria dos problemas discutidos dentro da profissão poderiam acometer a vida até da pessoa mais calma, rica e feliz. Não se precisava estar fora da realidade para sofrer psicologicamente.

“Sim, somos os famosos alienistas”.

Um minuto de silêncio pairou no ar.

“Interessou-se por esta parte exilada da biblioteca?” perguntou ela.

O rapaz demorou um pouco para responder, resmungando uma leitura.

“Eu... eu sou...” ele recolhia alguns livros enquanto tentava terminar a frase. “Tenho que ir, lamento” e se pôs a passos largos.

E aquela fora a primeira vez que vira William Mendes, sem saber na época que aquele estranho e então adolescente apareceria de novo em sua vida tempos depois, como uma piada do destino.

Ela pegou os papéis e voltou a seu trabalho.

 

Don Onofre

No timão, Don Onofre tentava decifrar o mistério acerca daquela mulher quando Miguel apareceu colocando uma mão em seu ombro.

“O que pode nos dizer sobre a convidada?” perguntou ele.

Don Onofre suspirou.

“Diz não se lembrar como chegou aqui. Ela veio de um navio que viajava de Grécia a Santos, mas por conta de um acidente todos acabaram naufragados. Foram acometidos por uma tempestade enquanto estavam no bote, e desde então ela apenas diz que estava boiando em alto mar até aparecer aqui”.

Viu de soslaio a cara de confusão de Miguel.

“E você acredita nisso?”.

Olhou então para Lara, que observava o oceano pelo convés. Orientara a ela que ficasse por perto por precaução, afinal uma mulher em um navio cheio de marinheiros era um perigo. Mas felizmente os rapazes que passavam a tratavam bem, perguntando como estava e trocando algumas conversas amigáveis.

“Não” respondeu Don Onofre, “mas também não tenho tempo para isso. Quero que chequem os compartimentos, vejam se nada sumiu. Não acredito que seja uma ladra, mas... na realidade não faço a mínima ideia. A aparição dessa mulher, naquelas circunstâncias, é fruto do além”.

“Capitão, não percebe o teatro?”.

“Que sentido teria esse teatro?! Se de fato fosse uma pessoa viajando escondida, por que de repente apareceria do nada cheio de marcas e nua no deque? Que merda de ladra é essa?!”.

Miguel suspirou.

“São métodos estranhos, isso eu vejo, mas ainda são métodos”.

“Entendo, Miguel, mas acho que o melhor que podemos fazer é deixar a polícia de Santos resolver esse assunto”.

Miguel ficou pensando por alguns segundos.

“Você já viu alguém com aqueles olhos?”.

Eram assustadoramente anormais.

“Não, também fiquei curioso. Não tenho a mínima ideia de qualquer lugar que possa ter uma população com essa genética”.

“Você pescou um peixe muito estranho, capitão. Qual o nome dela?”.

“Lara, não disse o sobrenome”.

Miguel riu.

“Claro, não teve tempo de inventar, eu presumo?”.

“Ela diz que conhecidos a esperam em Santos, mas não falou nada sobre eles. O que você imagina?”.

“De fato não falamos sobre gangues a estranhos”.

Don Onofre a encarou novamente. Tudo o que ela fazia era admirar a vista, e às vezes parecia uma criança enquanto andava: saltando e assobiando.

“Não sei, Miguel, mas não me parece uma ladra”.

Miguel bateu em seus ombros.

“É porque talvez seja uma ótima ladra, capitão. Esses olhinhos roubam o coração antes da sua carteira. Ela é um golpe baixo em pessoa”.

“Só esteja alerta, rapaz, deixe que eu cuido disso”.

“Claro, capitão, claro...” e sumiu atrás de si.

Olhou-a novamente, pensando em que tipo de problema lhe apareceu tão subitamente.

Lara... você está longe de parecer uma pessoa comum.



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