História Agorafobia - Capítulo 4


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Agorafobia, Autodestruição, Drama, Recomeço, Romance, Superação
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Palavras 1.304
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Heterossexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 4 - Capítulo 3 - Carros


Na segunda de manhã minha mãe chega com um monte de cartas e um enorme sorriso.

- Por que está sorrindo tanto? - pergunto.

- Alguém te enviou uma carta - ela diz.

- Sempre recebo cartas - retruco. Não entendo a alegria da minha mãe, por que ela ficaria tão feliz com tão pouco?

- Você sempre recebe cartas de fãs e de empresas.

- E de quem é essa carta?

- Esse é o quê da questão, não tem remetente.

- Sem remetente? - arqueio a sobrancelha.

- Sem remetente - ela repete me estendendo o envelope azul com uma pequena rosa desenhada.

Meu coração acelera, conforme meus dedos abrem o envelope, sei a quem pertence mesmo que não tenha remetente.

“À propósito, meu nome é Bernardo.”

Seis palavras. É tudo o que diz, a frase está impressa em fonte arial 12 numa folha A4. E eu sorrio, porque por mais que eu não o conheça, essa simples frase iluminou meu dia.

Minha mãe me encara, ela sorri como uma criança que acaba de ganhar um presente novo e eu sei que tenho um sorriso igual no rosto. Então eu corro para o escritório e escrevo 4 palavras no verso.

“O meu é Eliza.”

*

“Percebo então que não somos mais apenas dois indivíduos, somos dois e um ao mesmo tempo. Não temos começo, meio ou fim, somos infinitos. Não posso distinguir onde nossos amores começam e onde terminamos. A...”

Estou prestes a terminar de escrever o parágrafo quando sou interrompida por batidas na porta. Suspiro, tentada a ignorar. Estou no meio de um dos pensamentos mais importantes do personagem principal e estou inspirada. As batidas persistem, a contra gosto me levanto e vou até a entrada. Abro a porta da frente, meus olhos se arregalam com a visão inesperada.

- Mãe? - arqueio a sobrancelha, é terça-feira, não é dia dela vir até aqui. Minha mãe nunca troca a rotina, ela sabe como sou apegada a ela. Meu coração acelera, sei antes mesmo que ela diga que algo muito ruim aconteceu.

- É a Júlia - ela diz - Ela sofreu um acidente.

Fecho os olhos, a respiração acelerada, um bolo começa a se formar na minha garganta, estou tendo um ataque de pânico, sei disso. Minha mente começa a formar imagens de minha irmã morta, seu corpo nu e pálido em uma gaveta do IML.

Dor. Sou um poço infinito de dor, dor transborda por meus poros, dor me alimenta, dor me consome. Minha vida é um abismo sem fim, onde só faço cair e cair, casa vez mais para baixo. Não há nada em que possa me agarrar e vivo temendo o dia em que o abismo terminará.

Tento repirar, tento encontrar voz para perguntar, preciso saber se ela está viva ou não, preciso saber se perdi mais alguém. Mas minha voz não saí, forço ar para dentro de meus pulmões, mas não há ar. Não há nada, apenas aquele abismo interminável de desespero.

Ar, preciso de ar ou vou sufocar, minha mãe me encara, ela não sabe o que fazer. Nós duas sabemos que a falta de ar é apenas uma sensação e que eu estou respirando, nós duas sabemos que eu só preciso me acalmar. Mesmo assim a sensação é real, mesmo assim eu sinto como se uma tonelada estivesse sobre meu peito. Ela me encara novamente.

Então, como se tivesse acordado de um sonho, ela me olha e diz as palavras que acalmam meu coração e me permitem respirar:

- Ela está viva, Liz. Ela está viva.

Aos poucos vou voltando a respirar, e o que antes era um ataque de pânico se transforma em um choro contínuo.

- Por que não disse isso primeiro, droga? - grito.

- Desculpe - ela diz.

Caminho para dentro e me sento na poltrona azul, minha mãe me segue e se senta em uma das poltronas marrons.

Encaro a poltrona roxa à minha frente, sei que os olhos da minha mãe estão fixos em mim, analisando, julgando. Ela se sente culpada, como se o meu medo de sair de casa tivesse alguma relação com a minha criação.

Sei que ela pensa que estou anestesiada, que depois de toda dor que senti toda e qualquer emoção é apenas um eco do luto que ainda visto. Mas não é verdade, sempre senti demais, sempre senti tudo.

Sei que todos pensam que sinto tanto pela morte de Lucas porque ele era um marido incrível, mas a realidade é que ele não era. Lucas me fazia mal, eu sempre me doava e me doava, dava tudo o que tinha e para ele nunca era o suficiente.

Lucas foi meu príncipe encantado, nossa história foi um conto de fadas, e eu amei mais do que tudo. Mas ele era egoísta, ele pedia tudo de mim e não dava quase nada de si, e com o tempo eu dei a ele tudo o que tinha.

Acabei só percebendo que não restava muito de mim para dar quando Nicolas nasceu, no fim quando eles morreram eu estava esgotada, esgotada demais para tentar superar a dor.

De todos os meus arrependimentos o maior foi não ter passado mais tempo com Nicolas, queria ter podido vê-lo crescer. Sempre que penso no que ele podia ter tido meu peito se enche de um vazio infinito, exatamente como o vácuo que há entre planetas, sem ar, água ou qualquer tipo de coisa.

Quando ele morreu foi como tentar respirar no vácuo do espaço dia após dia, não havia som, não havia nenhum tipo de ar, não havia vida. Eu penso dia após dia em tudo o que ele nunca fará, em tudo o que eu devia tê-lo ensinado a fazer.

Nicolas nunca verá Star Wars ao meu lado, nunca irá se apaixonar, jamais irá beijar alguém, ele não irá se casar ou ter filhos. A vida dele foi interrompida antes mesmo de começar de verdade. Não é justo, não deveria ter sido assim, aquela lápide devia ser a minha, deveria ser meu nome lá, “Mãe amada” deveria dizer.

Olho pela janela, pelo reflexo vejo que estou chorando. Encaro minha mãe, ela sabe no que estou pensando, sabe o que estou remoendo, é sempre a mesma coisa.

- Não é justo - digo.

- A vida não é justa - ela repete a famigerada frase - Carma é baboseira, coisas horríveis acontecem com pessoas boas o tempo todo.

- Deveria haver algum tipo de justiça, não acha? - pergunto.

- Deveria. Mas não há.

Ela faz uma pausa.

- Sei no que está pensando.

- Mesmo? - arqueio a sobrancelha, totalmente desinteressada.

- Está pensando que deveria ser você. Acha que isso seria justo.

- Como sabe?

- Eu te conheço, Liz. E só te digo uma coisa: a dor que está sentindo agora, seria a mesma dor que eles sentiriam. A mesma dor que senti quando seu irmão e seu pai morreram, sei como é. Não foi sua culpa.

- Então porque eu me sinto tão culpada?

- Por que você está viva e eles não. É a culpa do sobrevivente, sinto isso todos os dias.

Solto um riso sem humor.

- Deve haver algum tipo de maldição não acha? - Ela olha atentamente para mim franzindo o cenho. - Você perdeu marido e filho de uma só vez, 10 anos depois eu perdi marido e filho de uma só vez, exatamente da mesma forma. Agora sua outra filha sofreu um acidente de carro. Eu não sou a louca aqui, loucos são vocês de ainda entrarem em carros.

- Liz… - Eu a interrompo.

- Eu não irei vê-la, diga que sinto muito. Mas que eu não entrarei em um carro nem agora e nem nunca. - Dou as costas a ela e volto ao escritório antes que ela possa dizer algo.

Respiro fundo tentando me desligar do mundo, tentando voltar ao ponto de inspiração onde estava. Mas não consigo escrever sequer uma frase relevante. Meus dedos me levam a criar um novo arquivo, e quando percebo estou escrevendo poemas e contos sobre carros batendo e pessoas morrendo.



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