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História As Máscaras da Fama - Capítulo 10


Escrita por: Imagination

Notas do Autor


Obrigada a todos pelo feedback seja através de comentários e/ou mensagens e também aos que acompanham o enredo na qualidade de leitores fantasma ^^

Referências musicais:
Daft Punk - One More Time
Stromae - Alors On Danse

Capítulo 10 - Capítulo IX


 

Com a música ainda a sufocar a maior parte das conversas e o aroma do álcool pelo ar, Levi deteve-se no caminho de regresso ao espaço reservado. Olhou para a outra escadaria que dava acesso ao piso onde estava a esmagadora maioria das pessoas que veriam Connie poucas vezes naquela noite, mas diziam estar ali por ter sido convidadas por ele.

Antes de descer pela escadaria, os olhos cinzentos foram para o ecrã do telemóvel que desbloqueou antes de enviar uma mensagem. Precisava desesperadamente de uma distração. Aquele momento com Eren não tinha sido de todo planeado. A intenção era conseguir forçar um pedido de desculpa por ter levado a brincadeira um pouco além do previsto. Porém, tudo isso desapareceu dos seus planos quando em frente ao moreno, a pouca distância e perante um olhar que reconheceu em outras ocasiões em outras pessoas e não esperava ver nele.

Desejo.

De alguma forma, isso explicava por fim, todos os olhares que recebeu naquela noite. Uma parte teria sem dúvida, a ver com aquela última vez que se tinham visto, mas era óbvio que não era apenas isso. Quem sabe a ingestão de bebidas alcoólicas também tenha contribuído para aquilo que viu refletido nos olhos verdes mais exóticos e expressivos que alguma vez tinha encontrado.

Era pedir muito que mantivesse a cabeça fria com aqueles olhos mesmo à minha frente. E se fossem apenas os olhos… por que razão alguém com tudo aquilo que me atrai, tem que ser tão arrogante e falso? Tch, atração pelo tipo errado, é tudo o que não preciso na minha vida. Recriminava-se, vendo que a resposta tardava em chegar após o envio da mensagem. Se o Rafa não estiver disponível, vou ter que encontrar outra distração.

Desceu os degraus da escadaria, escutando a batida da música One More Time dos Daft Punk ecoar pelas paredes e em seguida, quase que diretamente nos ouvidos. Recebeu alguns sorrisos interessados enquanto passava pela multidão. As silhuetas femininas desinteressantes, as masculinas também não captavam a atenção dos olhos cinzentos.

– Hei! – Veio a voz de protesto de um rapaz que Levi não diria que teria mais do que quinze anos e claramente, não deveria ter entrado num local daqueles. O referido rapaz de cabelos castanhos numa tonalidade bem clara, momentos antes segurava um cigarro que agora o detentor dele confirmava a teoria. Não era apenas um cigarro.

Encostou o dito cigarro aos lábios e logo sentiu que o adolescente podia estar no local errado, só que o facto era que pelo menos, trouxera algo decente para fumar. Não para a idade dele, mas era o que Levi precisava.

– Queres que apague o cigarro na tua cara, pirralho? – Perguntou quando o adolescente se aproximou com a intenção de recuperar o cigarro, mas logo se sentiu intimidado pela postura e olhar que recebia.

Decisão inteligente. Concluiu ao ver o adolescente desistir da ideia perigosa de desafiá-lo. Entre a falta de paciência para aturar imaturidade e esta frustração sexual com que fiquei desnecessariamente, era capaz de desfigurar este idiota se me desafiasse. Puxou novamente pelo fumo do cigarro e sentiu o telemóvel vibrar.

Assim que pegou no aparelho, sorriu ao ver a resposta.

 

Raven – Mensagem:

Sorry, daddy estava numa live. Terminei agora e mais uma vez não viste T.T

Quando queres aparecer?

 

Levi – Mensagem:

Sei que é muito em cima da hora, mas podes sair agora à noite?

Hotel da última vez?

 

Raven – Mensagem:

Estou com preguiça de sair. Vem cá a casa.

Já sabes o caminho ; )

 

Levi confirmou que chegaria em mais ou menos uns vinte minutos. Calculou que seria o tempo desde que avisasse a irmã por mensagem que ia sair, chamasse o Uber e chegasse na casa de Rafael. Os olhos cinzentos focavam na mensagem que acabava de enviar a Christa quando escutou uma voz feminina chamar o nome dele.

Ergueu o rosto e surpreendeu-se ao ver Sasha acenar na direção dele. A jovem sorriu ao ver que conseguira a atenção dele, mas antes que pudesse avançar mais pela multidão, foi interpelada por pessoas que a reconheceram. Já era o expectável, uma vez que estavam fora do espaço reservado por Connie - a área VIP daquele estabelecimento.

Viu a jovem mulher de cabelos castanhos sorrir e aceitar tirar algumas selfies com quem a reconhecia, mas depois tentava desculpar-se e sair do meio sem grande sucesso. Deixando escapar mais uma vez o fumo por entre os lábios, Levi foi ao encontro dela.

– Não podes ir chamar o Connie? Adorava uma selfie com o Duplo Impakto completo! – Pedia uma das pessoas que cercava Sasha, que repentinamente sentiu alguém segurar com cuidado no braço dela.

– Não, ela não pode ir chamar ninguém porque tem um assunto comigo. – Interrompeu Levi, dispensando com um olhar que não deixava margem para argumentações e Sasha sorriu entre a diversão pelo método dele e teve alguma pena de quem claramente, ficou intimidado com aquela postura de quem não iria tolerar que argumentassem com ele.

Levi cantava baixinho a música Alors On Danse de Stromae que ecoava no espaço, quando após uma troca curta de palavras com um dos seguranças saíram por uma das portas laterais rumo ao exterior.

– Tens uma pronúncia fantástica do francês.

– Era a língua materna da minha mãe. – Respondeu Levi, encolhendo os ombros agora mais aliviado por estar sem tanta gente à sua volta e podendo ter um tom de voz normal com a música a ecoar mais abafada na porta atrás das costas dele. – Estavas à minha procura?

– Desapareceste a seguir à brincadeira com o Eren. – Esboçou um sorriso amarelo. – Podemos ter exagerado também com a insistência para beber. Acho que nunca o tinha visto provar mais do que um copo, mas até eu mesma consegui que desse dois goles na minha bebida.

– Ele vai sobreviver. – Levi revirou os olhos, deixando o fumo escapar mais uma vez por entre os lábios, mantendo o cigarro entre os dedos.

– O que estás a fumar? Cheira a…

– Exatamente. – Confirmou. – Alguém que claramente não tinha idade para sequer estar lá dentro tinha isto nas mãos. Acredita, estou a fazer um favor a fumar isto. – Observou a expressão da figura feminina à sua frente. – Mas desconfio que esse não é o único motivo para teres vindo aqui. Seria menos estranho que a minha irmã viesse procurar-me ou até o Jean com quem sou mais próximo, tendo em conta o vosso círculo de amigos.

Sasha suspirou.

– Tive uma pequena discussão com o Niccolo por isso, voluntariei-me para vir ver onde estavas quando a tua irmã perguntou se já tinhas voltado. Precisava arejar as ideias.

– Discussão com o Niccolo? – Perguntou, estendendo o cigarro a Sasha que aceitou apenas para poder fumar um pouco antes de devolver a Levi, mantendo um semblante pensativo. – Suponho que não seja grave e parte até possa ser explicado com algum excesso de bebida, ainda que ele…

– Ele bebe pouco. – Disse Sasha com um pequeno sorriso. – Mas não, é um reacender de uma discussão recorrente. – Deixou escapar um longo suspiro. – Ele tem ciúmes do Connie por isso, veio à festa de aniversário.

– Ciúmes? – Repetiu Levi. – Segundo sei, não são amigos desde crianças? Se fosse para acontecer alguma coisa, penso que já teria acontecido. – Acrescentou com um sorriso divertido que começou a desvanecer quando Sasha sentou num dos degraus em frente à porta fechada, à qual ele ainda se mantinha encostado. – Sasha? – Sentou ao lado dela. – Aconteceu alguma coisa? Existe razão para ele desconfiar?

Puta que pariu, será que devia estar a ter esta conversa comigo? Viu a expressão conflituosa de Sasha, hesitando em falar entre a vergonha e uma evidente mágoa nos olhos. Mas talvez seja daquelas coisas que mesmo para os amigos mais próximos teria vergonha de admitir e ser julgada, então comigo pode ser mais fácil.

– Vais achar que não presto.

– Não vou mentir e dizer que aprovo traição, mas Sasha… posso escutar, se precisares desabafar. – Disse, retirando o telemóvel do bolso para enviar uma mensagem rápida a Rafael, avisando que demoraria um pouco do que o previsto.

– Eu mesma não entendo o que aconteceu. – Disse, olhando para o chão. – Eu e o Niccolo, tu sabes… – Olhou para o Levi. – Nós conhecemo-nos no Big Brother. Sei que a grande maioria não acreditava que o nosso relacionamento fosse durar ou que sequer fosse real. Pensavam que fosse pelo jogo e eu sei conhecer o namorado ou namorada num programa desses…

– É a tua vida, Sasha. – Levi interrompeu. – A maioria das pessoas quer ser dona da moral e enchem a boca a dizer que conhecer alguém dessa forma não é normal ou só dá coisas sem futuro, mas a maioria das pessoas não vive num filme ou série. Não conhecem a donzela em apuros e salvam-na de reféns ou conhecem o príncipe que atravessa o país por amor. A maioria das pessoas conhece o futuro marido ou futura esposa em ambientes bem simples como locais em comum que frequentam como cafés, transportes públicos, o local de trabalho, entre outros e ao que se junta agora coisas como o Tinder, Grindr e afins. Não há uma fórmula exata, Sasha. Se encontraste quem te faz feliz, é o que importa. – Deitou o cigarro fora e foi surpreendido por um abraço de Sasha.

– Obrigada. – Murmurou. – E desculpa pelo abraço repentino. Sei que não deves gostar de gestos de carinho aleatórios de alguém que falas só de vez em quando, mas és um doce, Levi. Os meus amigos ficam do meu lado nestas coisas, mas… digamos que não tenho uma relação tão próxima com a minha família desde que fiz algumas escolhas na minha vida. – Mais um suspiro. – Mas mesmo assim, isso não serve de desculpa para os meus erros. – Olhou para Levi. – Quero que fique claro que não minto quando digo que amo o Niccolo. Nunca senti o que sinto por ele e essa é uma verdade absoluta.

– Mas então… o que aconteceu com o Connie? Alguma vez sentiste algo semelhante por ele?

– Não. – Negou, sorriu com amargura. – Vai soar tão descabido, mas sempre o vi como um irmão e ainda é assim que o vejo, mas naquela noite… nós tínhamos saído do programa há poucos dias. Eu estava já a mudar-me para viver com o Niccolo e o Connie ligou-me. Ele estava transtornado com mais uma discussão em casa. Enfim, as nossas famílias têm em comum a falta de aprovação pela nossa participação no Big Brother e mesmo os vídeos que gravamos para o YouTube e outras redes sociais. – Relatava com o olhar distante, recordando os factos daquela noite. – Acabámos também por discutir porque eu disse que pretendia fazer menos e quem sabe, até deixar de fazer vídeos para o nosso canal em conjunto. Já sabes, eu tinha outras coisas em que pensar. A mudança para viver com o Niccolo e investir o dinheiro que tinha conseguido para seguir alguns dos meus sonhos. Estava muita coisa a acontecer ao mesmo tempo e eu precisava focar noutras coisas.

– E o Connie não compreendeu isso? – Deduziu o dono de olhos cinzentos.

– Ele pensou que agora que tinha namorado, ia deixá-lo de parte. Ia ser como aqueles casais que praticamente morrem para amigos e o resto do mundo. Acusou-me de trair a amizade, os nossos planos de ser estrelas na internet. – Riu, pensando no absurdo daquelas palavras. – No meio daquela troca acesa de palavras, implorou que não o deixasse sozinho porque era a metade dele e quem melhor o entendia e… – Fechou os olhos. – Veio aquele maldito beijo que não importa o quanto tenha pensado e dito que era errado, não o empurrei quando devia, nem parei nada do que se seguiu enquanto ele pedia para só naquela noite não o deixar sozinho e esquecer todo o resto.

– Passaram a noite juntos. – Concluiu.

– Com um tremendo arrependimento no momento seguinte, comigo a chorar compulsivamente e ele a tentar consolar-me e pedir desculpas sem parar enquanto corria para a casa de banho de vez em quando para lidar com os efeitos de uma ressaca pesada. – Abanou a cabeça. – Decidimos que foi um erro, que jamais mencionaríamos que aconteceu e que tudo ficaria igual entre nós. – Olhou para o lado, vendo que o outro a escutava com atenção. – E estamos aqui. Praticamente dois anos depois a viver com a lembrança deste erro e a repetir várias vezes ao Niccolo que não há razão para ciúmes. Vais contar-lhe a verdade, Levi?

– Não. – Respondeu sem hesitar. – Não me cabe a mim dizer nada e quem sabe, até seja melhor ninguém tocar nesse assunto. Dizes que nunca mais nada aconteceu.

– Claro que não. Eu e o Connie sabemos que foi um erro. Ele não me ama e eu também não o amo. Não dessa forma. – Deixou cair algumas lágrimas. – Meu Deus… nem sei como pude contar isto. Nem nos conhecemos assim tão bem. O que vais pensar de mim?

Levi levantou dos degraus e passou a estar na frente de Sasha, abaixando-se até ficar de cócoras na frente dela.

– Escuta, eu não vou atrapalhar o teu relacionamento com o Niccolo, revelando segredos que não são meus. Eu posso não aceitar a traição, mesmo tentando entender que as pessoas cometem erros, mas não desejo o teu mal ou do Connie.

– Achas que devo contar? – Perguntou, tentando conter as lágrimas.

Não era uma pergunta com uma resposta fácil. Por mais que Levi fosse a favor de um relacionamento em que as pessoas fossem honestas, naquele caso, acreditava que pudesse envenenar de forma irremediável a relação dos dois.

Niccolo já se sentia inseguro com Connie por perto. Se sequer imaginasse que podia ter acontecido alguma coisa entre ele e a namorada, desconfiava que a reação pudesse ser péssima.

– Acho que estando com álcool a temperar as emoções e a razão, este não é o momento ideal para tomar uma decisão dessas, mas na minha opinião…– Começou Levi, vendo os olhos castanhos fixos nele com grande expectativa. – Amas o Niccolo mesmo de verdade? Nunca mais aconteceu mesmo nada? Por mais pequeno que fosse?

– Nunca mais aconteceu nada, Levi. Juro que não. – Garantiu Sasha. – E eu amo o Niccolo… como nunca pensei amar ninguém.

– Vou confiar nesse sentimento que vejo nos teus olhos e vou confiar que nunca mais farás nada de semelhante para atraiçoar esse sentimento que também vejo nos olhos do Niccolo. É com base nisso e apenas por isso, que não direi nada e acredito que também não deves tocar no assunto. – Tocou no rosto de Sasha. – Agora volta lá para dentro, chama o teu namorado e voltem para casa.

– Vou fazer isso. Obrigada, Levi… eu nem sei como agradecer. Não imaginas como senti um alívio por poder falar disto com alguém.

– Sei que pode não parecer porque sempre passo uma postura distante, mas se precisares de alguma coisa, é só dizer.

Sasha sorriu.

– O mesmo para ti. Se precisares, seja o que for, fala comigo.

Depois de Sasha ter retornado para o interior do bar, Levi voltou ao plano inicial de chamar um Uber. Ainda pensava na troca de palavras e no quanto esperava que realmente o assunto nunca voltasse e muito menos alcançasse o Niccolo. Sempre me pareceram tão apaixonados e com tudo a correr bem entre eles. Nunca imaginei que existisse um segredo destes. Fez sinal ao Uber assim que viu o motorista tentar descobrir quem teria que recolher, pois havia mais gente ali também à espera de transporte. Realmente não há casais com um relacionamento perfeito. Há sempre um esqueleto qualquer no armário. Uns mais graves do que outros, sem dúvida, mas ainda assim, nada é tão perfeito como tentam aparentar.

– Boa noite. Quer que ligue o ar condicionado? – Perguntou o rapaz jovem que conduzia o carro.

– Está bom assim, obrigado. – Respondeu Levi, decidindo enviar mais uma mensagem a Rafael durante a viagem.

Em resultado dessa mensagem, foi recebido na porta com o moreno apenas de roupão e um sorriso indecente.

– Pensava que não já vinhas, bombom. – Brincou Rafael.

– Amanhã tens aulas de manhã?

– Hum, hum. – Negou com a cabeça, passando um dos dedos no peito de Levi que acabara de fechar a porta atrás dele. – Tenho o dia livre. Posso ficar acordado a noite toda, se quiseres. – O sorriso aumentou ao ver o olhar que recebia. – Estás com um ar selvagem, daddy e essa mordida aí no pescoço…

– De joelhos. – A voz soou como uma ordem e satisfeito viu o moreno obedecer.

Definitivamente, Rafael era a melhor a distração que teria naquela noite.

Precisava disso. Precisava retirar da cabeça aqueles gemidos, aquele perfume que teve tão próximo. Precisava a vontade de beijar aquela boca que esteve tão próxima da dele.

Precisava de esquecer o que sabia ser um erro.

 

&.&.&

 

– O que é que bebeste exatamente? – Perguntou Floch, olhando para o GPS e confirmando para seu alívio que estavam próximos de um drive-thru, que segundo as informações online, vendia cafés entre outras coisas.

– Bebi coisas diferentes, sei lá. – Dizia Eren deitado no banco detrás do carro. – Só conheço o gosto terrível da cerveja. O resto são… coisas. Coisas com álcool.

– Tens uma tolerância de álcool muito baixa.

– Dizes isso como se fosse um defeito. – Disse o moreno com a voz abafada contra o estofo do banco do carro. – Floch, quero ir para casa. – Pedia com uma voz manhosa. – Posso saber que caminho é este?

– Precisas de um café, Eren. – Frisou o loiro, seguindo as indicações do GPS. – Se a Yelena ligar ou se alguém aparecer, vais agradecer-me, se estiveres mais sóbrio do que estás agora.

O ruivo olhou para trás mais uma vez confirmando que Eren ainda estava acordado e sem sinal de que estivesse indisposto. Não imaginava que o moreno fosse beber ou se o fizesse, não podia supor que tivesse uma tolerância tão baixa.

Mesmo assim, teve que admitir que se surpreendeu com a capacidade de Eren, mesmo não estando sóbrio, conseguiu disfarçar até chegar ao carro. Saiu da casa de banho visivelmente ruborizado e num primeiro momento com passos pouco estáveis para depois, como se tivesse ligado qualquer coisa dentro dele, ser capaz de fingir sobriedade. Foi algo quase fascinante de se ver.

– Floch?

– Hum? – Perguntou enquanto observava mais uma vez as indicações do GPS.

– Recusarias um beijo meu?

– Quê? – O ruivo ponderava ter escutado mal a questão.

– Se eu quisesse um beijo, tu não negarias, pois não? Claro que não. Ninguém em sua sã consciência negaria um beijo meu. – Concluiu o moreno. – Então por que caralho ele tem que ser diferente da humanidade?! Diz-me uma pessoa que recusasse, Floch!

– Eren…

– Diz uma!

– O teu pai.

– Credo, Floch! Estou a falar de coisas sérias e tu falas em beijar o meu pai! Puta que pariu! Pára o carro! Quero sair! Quero ir a pé para casa! – Disse, começando a bater com um dos pés no banco onde o ruivo estava sentado. Este que revirou os olhos e ignorou os movimentos do moreno ainda deitado no banco detrás até que ele pareceu cansar-se e ficar em silêncio de novo.

É um bêbado emocional, quem diria. Concluiu Floch, que não sabia se devia achar que aquilo era divertido ou um incómodo. Talvez um misto das duas, mas desde que o moreno não passasse das palavras a atos impensados, por ele não havia qualquer problema.

– Vou pedir um café forte. Queres alguma coisa para acompanhar?

– Consegues dar-me um motivo razoável para ele não querer um beijo meu?

– Pronto, só café. – Concluiu o ruivo, deduzindo que não era possível ter uma conversa racional com o moreno enquanto estivesse naquele estado de embriaguez. – Posso saber por que razão essa recusa de incomoda tanto? Querias assim tanto aquele baixinho?

– O quê? Claro que não! – Disse num tom demasiado defensivo. – E quem disse que era ele?

– Eren, eu vi-o sair de lá…

– Isso não significa nada!

– Certo. – Respondeu Floch com ironia na voz. – Mas partindo do princípio que eu acredito que estamos a falar de outra pessoa…

– É bom que acredites e esqueças suposições descabidas a meu respeito. Não estou bêbado o suficiente para não te despedir e arruinar a tua vida se abrires a boca para as pessoas erradas. – Disse sem hesitar e o ruivo acreditava que de facto, ele pudesse cumprir aquelas ameaças. – Posso ser um chefe muito razoável, Floch, mas provoca o meu lado de filho da puta e terás muitos arrependimentos.

Floch suspirou.

– Vamos mudar de assunto. Aliás, podes ficar em silêncio nos próximos minutos? Estamos a chegar e acho que preferes que não reparem que não estou sozinho no carro. Sei que não deves querer que te vejam assim.

– Hum, sim. Avisa-me quando estivermos longe de olhares indiscretos de novo.

– Não durmas.

– Não vou dormir. – Murmurou com a voz abafada contra o banco do carro.

O segurança teve alguma dúvida acerca disso, mas o facto é que Eren se manteve acordado. Aliás, assim que conseguiram o café, a preocupação seguinte foi a ligeira indisposição do moreno e por isso, pararam a berma de uma estrada pouco movimentada. Algo que Eren fez questão. Dizia não querer correr o risco de ser visto por ninguém e foi assim que acabou sentado com as pernas fora do carro e com o café entre as mãos.

O ruivo estava na frente dele, observando qualquer sinal de que a indisposição ainda estivesse presente, mas parados ali na berma com a brisa fresca da noite parecia ter ajudado Eren.

– Estás melhor?

– Sim. Precisava de um pouco de ar. – Respondeu, bebendo mais gole do café.

– Nem sei se devias estar a beber café. Se estavas indisposto, um chá seria melhor ou quem sabe até passar numa farmácia. Achas que podes precisar de um médico? – Questionou o ruivo apreensivo e os olhos verdes deixaram o café entre as mãos para olhar para o segurança.

Eren sorriu. Não existia alegria nessa expressão, apenas alguma surpresa foi visível por breves instantes.

– Não esperava ver essa preocupação em ti.

– Não sou insensível, Eren. – Retrucou até um pouco ofendido. – É o meu trabalho, mas mesmo assim, nunca pode ser apenas isso. Para isso contratavas uma máquina qualquer.

– É… – Havia uma ligeira tristeza no sorriso. – É só mais habitual ver preocupação pelo próprio trabalho do que por mim. – Aclarou a garganta, mudando o sorriso para aquele que Floch começava a perceber que era o habitual do moreno, ou seja, aquele que estava habituado a colocar no dia-a-dia. – Sei que estás a ser pago para estar comigo, mas eu não devia beber e nem fazer com que saias tão tarde do trabalho como vai ser hoje o caso. Espero que me desculpes por isso e também pelas coisas que disse enquanto estávamos no carro.

– Não precisas pedir desculpa. – Falou um pouco surpreendido com o rumo da conversa. – E no que puder ajudar, podes contar comigo. – Hesitou nas palavras seguintes, vendo o moreno já de olhos fixos no café depois de beber mais um gole. – Podes estar mais relaxado comigo também. Não precisas de sorrir sem vontade.

Os olhos verdes voltaram a encarar os dele.

– É o meu trabalho, Floch. Quanto menos tempo quebrar o personagem, mais perfeito ele será. – Respondeu e deixou escapar um sorriso algo cínico. – Pensa no motivo para que mesmo que estejamos parados na berma desta estrada mal iluminada, eu não queira deixar esse personagem. No fundo, esse personagem e eu somos a mesma pessoa. É a explicação mais plausível. – Ao ver que o ruivo não sabia o que dizer em resposta, concluiu. – Assim que acabar de beber o café, deixa-me no apartamento e nem precisas de me acompanhar à porta. Sim, eu sei que a Yelena insiste, mas depois de entrar no prédio, já estarei num ambiente controlado pelos meios de segurança de lá. Ficamos combinados assim, Floch?

– Como quiseres, Eren.

 

&.&.&

 

– Ela já uma healer tão boa que não precisas melhorar com artefactos que tenham bónus de cura, o normal dela já é bom. – Explicava Falco que jogava com a amiga Isabel, mas no fundo nenhum dos dois conseguia focar no jogo pela preocupação com a amiga que tinham em comum.

– Obrigado, Falco. – Agradeceu Isabel. – Vou então trocar o que disseste, mas… – Suspirou. – A Gabi já disse alguma coisa?

– Nada. – Respondeu o rapaz. – Enviou aquela mensagem a dizer que estava tudo bem e estava em casa.

– E achas mesmo que é verdade? – Perguntou a adolescente de cabelos ruivos, ajustando os fones e dividindo a atenção entre o ecrã do computador e do telemóvel. – Nós sabemos como são os pais dela. Enviei outras mensagens, mas depois em certo momento parou de responder.

– Já é tarde e nós sabemos que ela costuma deitar cedo. – Lembrou Falco. – Isa?

– Hum?

– Tenho que ser honesto com uma coisa.

– O que foi? Sabes de alguma coisa? – Perguntou a amiga subitamente mais desperta e ansiosa.

– Um pouco antes do jantar, liguei para a casa dela.

– Huh?! Porquê? Não ligaste para o telemóvel? Falaste com ela? Deus do céu, pior! Falaste com o Grisha ou a Carla? – Perguntou incapaz de conter a enxurrada de perguntas.

O rapaz estava até constrangido de admitir o que tinha feito. Só que não pôde evitar a preocupação com a amiga, pois não pareceu que Gabi estivesse bem ou sequer fosse ser compreendida em casa. Mesmo que ele considerasse que a amiga podia ter-se esforçado mais durante o ano para não ter esta situação agora no fim das aulas, Falco também sabia o quão exigente era a família Jaeger, nomeadamente Grisha e Carla. Os irmãos podiam não perder uma oportunidade de mimar irmã, mas os pais não aceitavam nada abaixo daquilo que eles consideravam acima da média.

– A mãe dela atendeu.

– Credo. – Murmurou Isabel. – O que foi que disseste?

– Perguntei se estava tudo bem e depois perguntei pela Gabi.

– E? O que foi que ela disse? Fala! Estou a ficar cada vez mais nervosa! – Disse Isabel claramente esquecendo as horas da noite em que estavam a ter aquela conversa e que isso acabaria por trazer os pais dela ao quarto para a mandar dormir.

– Disse que a Gabi estava bem e perguntou como é que eu não sabia que ela não estava em casa.

– O quê? Como assim?

– Aparentemente, a Gabi foi para a casa de uma amiga. – Respondeu Falco. – Não entendi muito bem, mas não penso que estivesse a falar de ti. Não seria a primeira vez que ela dizia que ia para a casa de uma amiga e acabava por ficar com um dos irmãos, o que penso que possa ter acontecido desta vez também.

– E com o teu telefonema acabaste por denunciar a verdade. – Disse Isabel, abanando a cabeça em reprovação. – Ela vai comer o teu fígado.

– Estou a tentar não pensar nisso.

– E como assim não parecia estar a falar de mim? Para que casa de outra amiga, ela iria?

– Não sei, Isa. Foi um pressentimento que eu tive. – Respondeu. – Mas pensando bem, não faz sentido, não é? De que outra pessoa poderia estar a falar?

– Então achas que estará com o Zeke ou o Eren?

– Tenho quase a certeza que sim, mas se pelo menos enviasse uma mensagem para confirmar a qualquer um de nós, pelo menos podíamos dormir mais descansados…

 

&.&.&

 

– Amanhã à hora marcada.

– Mesmo que estejas de ressaca? O café não é milagroso, Eren. O facto de já estares ligeiramente mais sóbrio, não anulará a dor de cabeça e possível vómito do dia seguinte. – Apontou Floch pouco convencido de que o moreno estivesse bem no dia seguinte. É melhor passar numa farmácia a caminho de casa e amanhã de manhã quando vier buscá-lo, pelo menos já venho prevenido.

– Sou mais resistente do que pensas. – Acenou ao ruivo. – Até amanhã, Floch e obrigado.

Assim que o moreno de olhos verdes entrou no edifício, encontrou mais dois seguranças conhecidos que o cumprimentaram e claro, o porteiro na receção que sorriu ao vê-lo. No entanto, mais do que um simples cumprimento, o homem de poucos cabelos e os que tinha já eram grisalhos, chamou pelo nome dele.

– Sim?

– Perdão pelo incómodo, mas tem alguém à sua espera na sala que reservamos para algumas reuniões. Eu deixei que fosse para lá. Coitada da pequena, parecia exausta e disse que podia descansar lá enquanto esperava.

– Pequen… Gabi? A minha irmã está aqui? – Perguntou apreensivo.

– Sim, está lá dentro.

Eren iniciou quase um passo de corrida com um aperto no peito. A sensação de culpa por ter saído à noite para dançar e beber e não ter ido ver a irmã reaparecia de novo.

Assim que entrou na sala, viu a irmã encolhida num cadeirão com uma pequena manta sobre ela e abraçada à mochila da escola. Dormia numa posição que estava longe de ser confortável e a cada passo, notava a adolescente com um ar tão frágil e com marcas de lágrimas que tinham escorrido pelo rosto.

Tocou na face da irmã com cuidado, murmurando:

– Gabi, acorda, princesa. É o mano...

Viu as pálpebras moverem-se um pouco.

– Eren?

– Sim, é o mano, princesa. – Manteve a voz sussurrada e viu os olhos abrirem e focarem nos dele antes de se encherem de lágrimas.

– Eren… – Veio o tom choroso antes de o abraçar com força, algo que ele retribuiu.

– Sshh, está tudo bem. O mano está aqui, Gabi. – Beijava os cabelos da adolescente.

– Sou uma desilusão…

– Não, querida. Claro que não. – Dizia, abraçando-a cada vez mais forte. – Nunca serás uma desilusão. Para mim és e sempre serás a princesa mais importante da minha vida. Acredita em mim quando digo que o mano te ama tanto, mas tanto que não cabe em palavras. – Distanciaram-se um pouco com Eren a tentar limpar algumas das lágrimas do rosto da irmã.

– Também te amo muito, Eren… – Murmurou. – Ainda bem que te tenho a ti e ao mano Zeke.

Ele sorriu, beijando o rosto dela.

– Vamos subir, hum? Dormir numa cama confortável e receber muitos, mas muitos mimos até perder essa vontade de chorar, ok? – Viu a irmã anuir. – Seja o que for, o mano vai fazer com que fique tudo bem. Eu prometo.

 


Notas Finais


Até ao próximo capítulo!

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