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História Campeões de Ghalya: A Vingança de Crotus - Capítulo 4


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Notas do Autor


Quarto capítulo de uma história em desenvolvimento. Opiniões não são obrigatórias mas são bem-vindas contanto que tragam bons tópicos de discussão ou respeitem a obra, o autor e outros comentadores.

Capítulo 4 - Túneis Pútridos e Galhos Pálidos


Fanfic / Fanfiction Campeões de Ghalya: A Vingança de Crotus - Capítulo 4 - Túneis Pútridos e Galhos Pálidos

PARTE-1:"Salão Trufado."

-Não, não, não aí, rapaz de madeira.-o golem se apressa em explicar para Krord.-Essa tinta é mole demais, serve apenas para o tronco e para o pescoço.-

-Você tem pescoço?-diz Krord, pegando um punhado de tinta do frasco.

-...bem...é...sim, mas...não.-

-Desenvolva.-

-É...complicado, e irrelevante!...mas eu diria que faz parte do tronco, não?-

-Então...não têm um pescoço?-

-...só passe a maldita tinta no lugar certo.-

-Tudo bem, tudo bem.-

O grupo encontra-se reunido ao redor do golem despedaçado, sujando suas mãos com tinta para reconstruir seu corpo, despedaçado e cortado pelo inimigo feroz que fugira pela porta arrombada do salão. Sua roupa rasgada se encontrava nas mãos de Khale e Kriv, que costuravam os trapos com mesma linha cirúrgica negra que segurava a máscara e vestimentas do dono.

-Esse punho...-pergunta Thália.-...é o direito, né?-

O golem aperta os olhos, seus punhos fechando ao comando.

-É, esse é o direito.-

-Imaginei, esse aqui, tipo, é bem mais duro que o esquerdo, não?-

-É o mais usado pra bater em coisas.-

-E o que você faz com o esquerdo?-

-Uso este para canalizar a pouca Arcana que me pertence.-responde a voz feminina.-O corpo grosso de tinta não permite muita passagem de energia.-

-Oh...-Thália diz, empurrando o braço contra o corpo, tentando encaixá-lo.-...mas então por que não reduz a quantidade de tinta no corpo?-

-A estrutura de giz não aguentaria o tranco.-

-Nem se fosse só no punho esquerdo? Você nem usa esse direito, como disse.-

-É...olha, talvez...depois eu testo isso...-o golem responde e então nota Tom pegando um frasco menor de tinta do cinto.-...ei ei ei ei! Esse não.-

-Não pode usar esse aqui? Mas essa pena seria muito boa pra reparar uns fragmentos pequenos.-diz o anão, mostrando uma pena azul, essa pingando tinta de sua agulha prateada.

-A pena sim, mas não a tinta. Uso essa pra escrever os reportes de missão.-

-Reportes de missão?-

-Isso, devo descrever nossas ações e complicações ao longo da jornada, para que Ultha saiba o quanto retribuir.-

-Verdade, né? Quanto a gente ganha por salvar o mundo do Senhor da Magia Negra?-

-Ultha geralmente retribui contratados como vocês com valores entre quatro e cinco mil unidades de platina.-

-QUATRO MIL PLATINAS?-todos respondem, espantados.

-Considerando que estão salvando o mundo às escondidas do conselho da magia, talvez o dobro, isso para cada um de vocês, claro.-

-OITO MIL PLATINAS? PRA TODOS NÓS?-

-Por que a surpresa?-

-Tem ideia de o que você pode fazer com quatro mil platinas, golem?-pergunta Julian, ainda espantado.

-Não sou chegado em economia.-

-Posso mandar fazer uma muralha como a Archass com quatro mil platinas!-diz Krord, rindo.

-E para cada um de nós?-Khale diz, um sorriso leve se formando.-Poderíamos alugar mansões e viver com o resto da riqueza sem problema algum, se quiséssemos!-

-A riqueza digna de um salvador do mundo, eu imagino, mas devo lembrá-los de que deverão voltar VIVOS e cumprir sua parte do acordo.-

-Não precisamos nem matar o Dragão! Ultha pode fazer isso sem nós!-Thália diz, animada.

-Foco, pessoal!-diz Kriv.-Apesar de também estar embasbacado, o golem tem razão, devemos voltar vivos, o que significa que, muito provavelmente, deveremos sim matar o Dragão. Mesmo que não precisemos confrontá-lo diretamente, lembrem-se que ele tem seus campeões.-

-Sim, mas não vamos achar nenhum campeão nessas cavernas, eu imagino.-diz Krord, olhando ao redor.

O grupo se encontrava numa sala de tijolos de pedra e concreto, as raízes negras e ancestrais da floresta escorrendo pelo teto de terra, que era sustentado por vigas de madeira. O javali havia quebrado uma das vigas, o que permitiu o deslizamento de terra. O chão da sala era de concreto, ao menos onde a terra não havia caído, mas estava repleto de trufas negras e um mofo escuro e esverdeado. Haviam mesas quebradas e o que pareciam ser trapos de toalhas brancas, manchados pelo mofo que escorria pelas paredes.

A sala possuía apenas duas saídas para outros recintos: uma grande porta de madeira despedaçada, pela qual o animal fugira, e um buraco enorme na parede, esse repleto de trufas negras.

-Sinto que já vi esse lugar...-diz Thália, apertando os olhos para as paredes.

-Provavelmente já vira.-disse Khale, terminado a costura dos farrapos do golem.-O estilo dos anões está em todo lugar, seus salões possuem um desenho muito semelhante.-

-Não, tipo...num sonho, sabe? Só que tava bem mais limpo, menos ferrado...tinha um cavalheiro numa armadura de ossos...-

-Cavalheiro em uma armadura de ossos?-

-Ah, sei lá, eu devo ter visto a sala quando caí e tido um sonho rápido com um dos heróis sobre o qual eu li...só não lembro qual.-

-Ele lhe contou seu nome?-

-Sim, sim, ele disse que era...o Cão.-

-O Cão?-

-Aah, o Cachorro?-diz Kriv, colocando o blusão sobre o colega enfaixado.

-Ele se chamou de o Cão.-

-Chamavam ele assim, também. Dependia do quanto gostavam dele, pelo o que eu li, he-he-he!-

-O que sabe sobre ele?-

-Ele era um mercenário que lutou junto com Fae, eu acho...lembro dos desenhos, ele usava armaduras monstruosas...acho que ele serviu alguma seita da vida aí...é, faz tempo que eu li sobre ele, não tenho como ajudar muito.-

-Armaduras monstruosas eu sei...mas seita?-

-É, acho que eram rumores que diziam sobre ele, o povo não gostava muito da presença de alguém tão medonho e poderoso.-

-Ele não parecia tão poderoso assim no sonho...ah, esquece, o que importa é que eu vi esse lugar no sonho, e tinha um monstro por aqui.-

-O "Cão"...-diz Khale, preocupada.-...viu se este saiu vitorioso contra a criatura?-

-Não...saí de lá o mais rápido que pude no sonho, e ele saiu da sala pra enfrentar a coisa.-

-Se você viu algo perigoso no sonho nesse lugar, coisa boa aqui não deve ter. Melhor saírmos daqui.-

-Devo lembrá-los, patetas, que há um javali enfurecido e esfolado a solta.-diz o golem, levantando-se reformado.-Ele vai chamar ajuda.-

-Em menos de...três horas, eu diria, esta sala e a floresta acima de nós serão iluminadas apenas pela luz branca e fraca da lua. Seria arriscado vagar pelos arredores sem uma iluminação decente.-

-A gente pode montar um acampamento aqui.-diz Julian, olhando a sala.

-E quanto ao porco-selvagem?-

-Se ele é esperto, vai tentar voltar pela porta, não pelo buraco no teto.-

-É, ia ser uma queda feia sem um deslizamento de terra.-Thália concorda.-Então faríamos uma barricada na porta?-

-É a ideia. Temos que fechar aquele buraco cheio de trufas também, vai que sai um rato trufado.-

-Hehehe, rato trufado.-Tom ri para si mesmo.

-Posso cuidar da barricada.-diz Krord.-Trouxe sementes do Ébano para dar e vender...bem, talvez não vender.-

-Do Ébano!?-o golem diz, assustado.

-Sim.-

-Onde conseguiu isso, garoto?-

-Enthros tem passe livre no Ébano, sabia não?-

-Como assim, "passe livre no Ébano"? Tem ideia do que é o Ébano, rapaz?-

-Um lugar de dor e sofrimento, blá-blá-blá.-

-Não só isso, rapaz, o Ébano é a dimensão da caça, onde criaturas ferozes e multidimensionais vivem apenas para satisfazer seus desejos insaciáveis de sangue, morte e violência. Lá é onde se enviam os criminosos mais horrendos e imperdoáveis, forçando-os a pagar sua pena com sangue, dor e sofrimento. Nenhum deles sai de lá, a não ser que o próprio Ébano queira que saiam por estarem usados demais. Essa dimensão é um ser vivo interdimensional que clama pela desgraça, então COMO FOI que você escapou de lá?-

-...atualiza a sabedoria de raças e para com o texto expositivo, golem. Eu VIM de lá. Enthros cinzentos como eu só nascem no Ébano, mas geralmente saem de lá por causa da falta de sol. Nossa dor é a dor do Ébano, por isso ele nos quer bem longe dele, pra evitar nos sentir, sabe?-

-...o quê?-

-Eu vim do Ébano, é isso que você precisa saber. Com essas sementes eu...ah, melhor mostrar do que falar, né?.-
Krord tira do cinto uma de suas sementes pulsantes, a pulsação dessa tornando-se espasmódica e agressiva, como se a semente quisesse escapar das mãos do enthro. Krord a segura com vigor, tomando cuidado para não danificar a casca grossa do embrião interdimensional.

Aproximando-se da porta destruída, Krord se apoia nos joelhos, posicionando a semente sobre a madeira podre e o entulho.
Ao tocar o solo, a semente guincha de maneira monstruosa e aguda, como se estivesse agoniada com o solo incomum. Atendendo o chamado da criatura, Krord pega um punhado do solo caído e circula-a com a lama da floresta. Ao mesmo passo que a semente sente a lama, sua casca estoura em galhos cinzentos e grossos, que se espalham pelo entulho  e contornam o antigo arco da porta, formando uma parede grossa de troncos e galhos. A lama ao redor perde toda a água que a mantinha unida, formando uma pilha de poeira marrom e seca.

-Agora o buraco de trufas.-diz Krord, tirando outra semente da cintura, essa fechando no toque.

-Você conjurou uma parede de madeira do ébano?-o golem pergunta, olhos arregalados.

-Não, eu plantei uma árvore do ébano. São meus...colegas de bioma...-

Krord posiciona outra semente no buraco cheio de trufas, essa explodindo também em troncos cinzentos, que serpenteiam pelas trufas e raízes do mundo acima. Assim como a lama na porta, a terra onde as trufas se encontravam perde sua cor e umidade, formando também montes de poeira marrom e seca. As trufas são engolidas entre as raízes, secando e murchando, mas as raízes das árvores da floresta acima se unem à nova formação,entrelaçando com os galhos cinzentos em nódulos rígidos que emanavam uma fraca luz lilás.

-...nada passa por eles. Bem...nada que eles não deixem passar.-

-Eles deixam você passar, Krord?-questiona Thália, olhando o buraco de trufas sendo fechado.

-Se eles têm amor à vida, sim.-

-E nós?-pergunta Khale.

-Eu faço eles abrirem exceções. Ou eu abro eles, os dois dão na mesma.-

-Tudo seguro, então.-conclue Kriv.-Fazemos uma fogueira e acampamos ao redor?-

-Não vejo por que não.-

-Quanto ao porco-selvagem...?-Khale questiona.

-Já disse, é uma queda e tanto.-diz Julian.

-Se armarmos uma fogueira no meio, vai ser ainda menos convidativo entrar também.-diz Thália.

-Ficarei de olho também.-diz o golem.-É meu trabalho.-

-Ao trabalho então pessoal! Eu armo as barracas, busquem algo que a gente possa adicionar pra lenha, as pernas das mesas aqui devem dar um bom combustível.-

Todos acenam entre si, e então olham para o golem.

-...hm? É comigo?...ah, claro...bom plano, eu aprovo, também.-

PARTE-2 "Acampamento no buraco."

Julian, Thália e Tom adentram o salão, virando a mobília de madeira, arrancando as pernas menos úmidas das mesas e os encostos das cadeiras quebradas. Enquanto isso, Krord, Kriv e Khale acoplam lençóis às hastes de madeira e enterram estacas no solo fragilizado de concreto. O golem, mesmo que ainda um tanto quanto debilitado, começa a armar a fogueira com algumas lajotas do chão quebrado no impacto, formando uma pequena barreira para a montagem da futura fogueira.

-Ajuda golem?-questiona Kriv ao defensor de tinta, segurando uma estaca entre os dentes.

-Preocupe-se com as tendas, draconarte.-o golem responde com sua voz grossa.

-Só perguntei, calma.-

-O sol cairá logo. Coloquem alguém para preparar o seu jantar. E caprichem! Que eu me lembre, patetas, ninguém almoçou por aqui.-

-Verdade, né?-diz Julian.

-Ficamos tanto tempo assim na carruagem e no bosque?-

-Passou mais devagar para nós, Charles é muitíssimo veloz. Até demais, eu diria.-

-Claro, mas então o quão longe estamos de Archass?-pergunta Khale.

-Os valores, não tenho forças para calcular, mas sei que estamos quase nos limites de Equardia, eu imagino, elfa.-

-...pelos deuses.-

-Mas só por eles mesmo, viu?-Krord diz, terminando uma barraca.-Viajamos por um dia inteiro pra enfrentar só UM javali? Cadê meu prêmio, Karocho?!-

-Não mataram a criatura, e quase perderam. Não é surpresa que Karocho não se manifestou. Não que ela fosse, primeiramente.-

-Aí, a gente tava indo bem, que eu me lembre era você que tava no chão.-Tom diz, ao longe.

-Estava protegendo vocês patetas. E você só deu a última alfinetada, anão. Nem chamaria de alfinetada, já que não usou sua força física, mas era de se esperar, considerando-a.-

-Hã. Falando da minha força física, esqueleto de giz?-

-Prefiro ter um esqueleto frágil e uma pele bruta do que um corpo molenga e cortável com um esqueleto duro que só serve para fazer seu crânio soar mais como o chocalho vazio que é-

-Chocalho vazio? Precisa de alguma coisa pra fazer barulho dentro do crânio, tem alguma coisa dentro dessa cabeça de tinta aí?-

-Muito mais do que nessa cabeça fedida que "só é lavada em ocasiões".-

-Rapazes, por favor...-Khale tenta acalmar os dois, que se aproximam apontando dedos.

-Tá reclamando do MEU cheiro? Você é feito de tinta! Parece que tô numa papelaria desde que a gente entrou naquela carruagem!-

-Como se você soubesse como uma é. Roubava papéis, também?-

-Eu não sou ladrão!-

-Então por que não emprestava que nem uma pessoa normal?-

-Você pode até não saber, trancado naquela biblioteca com pessoas de alto padrão social, mas é bem difícil ser levado a sério como uma pessoa de respeito à altura desses aí do alto padrão quando você é literalmente metade do tamanho da maioria delas por natureza!-

O golem abre a boca para falar, mas se cala com a mão esquerda, seus olhos, antes enfurecidos, arregalam-se em surpresa. Tom encara irritado, mas perde o olhar ao perceber suas palavras. O rapaz então olha para o chão, cerrando os punhos e os lábios. O grupo se mantém em silêncio.

-...é...sabe de uma coisa pessoal? Eu tive uma ideia!-diz Kriv, colocando-se entre o golem e o anão.

-...e...qual é a ideia, Kriv?-Krord pergunta, olhando para Tom.

-Que tal eu e o Tom  aqui darmos uma explorada fora da sala enquanto os outros e o golem ficam aqui? Uma missão de reconhecimento, sabe? Temos que achar as coisas que a Ultha pediu, não temos, peq...rapaz?-

-É...temos.-Tom diz, tentando sorrir para Kriv.

-Pois então, comigo! Alguém mais?-

-Eu...posso ir com vocês?-Thália diz, jogando a madeira no meio da fogueira.

Kriv abre a boca para a fogueira numa baforada incandescente, tossindo chamas laranjas sobre os comburentes. Ele então se vira para Thália.

-Tem certeza?-ele diz, lambendo os lábios secos pelas chamas.-Seu braço já melhorou?-

-Ah, eu vou viver.-

-Tudo bem para mim, mas avise se tiver problemas. Khal, Krord, Julian, quem se atreve a preparar a bóia?-

-Bóia, Kri?-

-A janta, a refeição da noite, a comida! He-he-he!-

-Eu posso preparar.-diz Julian.-Se quiserem, claro.-

-A panela é sua, Julian.-Khale diz, estendendo uma panela de metal para o rapaz.-Escolha, o que irá preparar para nós hoje?-

-O que a gente tem?-

-Ée...-Krord começa, olhando a mochila de Kriv.-...tem...carne bovina, suína e um...misturado assombroso? Que parada nojenta você comprou dessa vez, lagartixo?-

-Uma mistura de carnes de variadas espécies de fantasma, amigo viga de sustentação!-

-Oh sim, a mistura! Deixe que prepararei esta em outra ocasião.-

-Ah, tá bom então...gente estranha com quem eu ando, vou te contar...tem frango, também, Juuj.-

-É, eu acho que sei fazer frango.-

-Frango então.-

-Beleza, tem água aí?-

-Não acho que vai precisar.-

Krord lança para Julian um bloco transparente alaranjado, no qual se encontrava um frango depenado e decapitado. O bloco era extremamente gelado, grudando no toque.

-Que qué isso?-

-Frango congelado, depenado e degolado, na ordem contrária, claro. Facilita a vida.-

-Só...coloco na panela então?-

-Depois mexe e tempera também, cabeção.-Thália diz pegando sua aljava.-Se cuida aí, e cuidado pra não queimar, hein?-

-Ah, vai lá ver se me encontra nos túneis, beleza?-

-Há! Cuidado, Juuj.-

-Cuidado você, Tháta.-

-Preste atenção neles, Kri.-Khale diz, sentando ao lado da fogueira.-E não demore muito, entendido?-

-Sim senhora!-diz Kriv.-Só até encontrarmos alguma coisa, ou até o fim dos raios do sol.-

-Tudo bem, mas não se coloquem em perigo desnecessário, entendido?-

-Entendido, Khal. Estão seguros comigo.-

-Sei que estão.-

-...é...veja bem onde vai...draconarte.-diz o golem, deitando-se no chão.-Ainda...está com o mapa?-

-Err...-Kriv olha os bolsos, puxando o mapa.-...sim! Aqui está!-

-Hrm, dá aqui.-

Kriv estende o mapa para o golem, que pega o mapa num puxão. O golem encara o mapa por alguns segundos, aproximando-se com a visão.

-Vidrória.-o golem diz para o mapa e para os três à sua frente.-Nós...precisamos de um galho de Vidrória.-

-Que são...?-

-Árvores de folhas transparentes como vidro, meu caro. Seus troncos nublados e brancos são inconfundíveis, e suas propriedades de canalização são muito úteis. Precisamos de apenas um galho, o mapa os guiará para a região, como eu te expliquei na carruagem.-

-Ah, beleza.-

-Qual a precisão do mapa, golem?-questiona Thália.

-...como?-

-Ele mostra a exata localização ou...-

-Hm, bem...dentro de uma área circular de trinta, trinta e dois ou três metros é certeza, eu diria.-

-Ah, que ótimo. Sabe o quão pouco isso ajuda?-

-Reclame aos deuses, não sou eu que dito os limites de conjuração.-

-Essa precisão já é suficiente para mim.-

-Então...nós partimos agora?-questiona Tom, colocando sua mochila nas costas.

-Não vejo porque não! Thália, conosco?-
Thália olha para o braço que enfaixou, um leve sentimento fisgando suas entranhas, mas inspira fundo batendo nas bandagens, calando suas dores.

-Logo atrás de vocês.-ela diz, dirigindo-se à aljava, que descansava perto da fogueira.

-Muito bem então! Pau-sem-sebo, diga ao seu colega de ecossistema para abrir a passagem!-

-Então vão mesmo sair, lagartixo?-Krord diz, levantando ao terminar de pregar uma última estaca para uma barraca grande.

-Já me viu desistir de uma exploração?-

-É, nunca te vi em uma.-

Krord se dirige à parede de madeira do Ébano, abanando as mãos como se estivesse afugentando o ser plantado. Um guincho parte da mesma, mas Krord responde com um tapa contra a mesma, que abre numa convulsão, revelando outra sala do complexo.

PARTE-3 "Complexo Trufado."

A sala era uma galeria de portas e portais para corredores e outros salões, esses com suas portas em dois estados: fechadas ou arrombadas. As paredes de tijolos e blocos de pedra estavam manchadas com um micélio negro que escorria entre suas partes, trufas crescendo nos encontros entre paredes e solo e nas próprias paredes. Um odor forte preenchia a atmosfera do ambiente, mas estava mais aturável do que o encontrado no buraco de trufas, graças ao ar da floresta que entrava na galeria por uma grande claraboia, a qual faltava um de seus enormes painéis de vidro. Este, supostamente, se encontrava no chão em grandes pedaços de vidro, descolado das armações de metal negro da redoma.

-Para entrar...-Krord diz, arrancando um pedaço de suas costas.-...cutuquem a parede bem forte com isso.-

-Cutucar como?-Kriv pergunta, confuso.-Eu só...-

-Cutuca como se quisesse furar alguém.-

-Oh, entendido.-

-Boa sorte aí fora, galera. 'Cês tem comida, água, tochas?-

-Eu tô levando um kit básico, Krord.-diz Thália, mostrando a mochila.-Fica tranquilo.-

-Bota nas costas do lagartixo, ele gosta de carregar coisas.-

-E gosto mesmo! Há-há!-

-Hehehe! Não, não precisa, Kriv.-

-Muito bem então, boa expedição!-

A parede se fecha com o distanciamento de Krord, voltando a ser uma sólida barreira orgânica. Suas raízes se estendem um pouco além para devorar algumas trufas azaradas. O trio olha ao redor, encarando cada uma das portas da galeria.

-Pra onde o mapa tá apontando, chefia?-Tom diz, ainda um pouco cabisbaixo, mas no seu tom de voz mais comum.

-Bem...-Kriv diz, olhando no mapa.-...aqui é aqui...e ali é ali...-

-Lá é lá?-

-Há! Sim. Aquele portal.-

Kriv aponta para um dos portais de pedra. Majoritariamente intacto, mas algumas pedras pareciam ter sido danificadas e empurradas para os lados.

-...e aquele portal, é aquele?-

-O mapa diz que é.-

-Simbora então. Vamo lá, pessoal.-

O trio parte a caminho do portal antigo, Tom liderava o pequeno grupo, suas botas de borracha amarelas esmagando pedaços de trufa e lama no chão do recinto. O lugar estava abandonado há muito tempo, a poeira do mundo exterior acumulada e unida à lama, água e micélio, formando uma massa cinzenta que se unia com o líquido negro produzido pelas trufas. Dos três exploradores, Kriv era o que mais sofria com a lama cinzenta, suas garras destroçavam qualquer corpo fúngico que brotava do solo, cobrindo-as com o líquido negro e a terra podre. No entanto, este não se abalava, mais preocupado em encarar o mapa, olhando para cima ou para a frente a cada meia dúzia de passos.

O grupo não demora a atravessar a galeria, cruzando o arco de pedra sem prestar muita atenção a suas feições anormais. Tom começa a recuar para entre seus companheiros, deixando Kriv liderar o caminho. Era ele que carregava o mapa, afinal de contas. Entrando na passagem alargada, eles conseguem ver uma outra galeria ao longe, iluminada também pelo mundo afora. Kriv acende uma tocha num tossido flamejante e faz sinal para ser seguido.

-Por ali tem outra galeria com claraboia.-diz Tom.-Quem projetou o lugar gostava mesmo da luz solar, hein?-

-A energia elétrica não devia nem existir quando esse lugar ainda funcionava, he-he!-Kriv diz, liderando-o grupo pelo túnel.

-Então eles deviam usar tochas que nem essa aí.-

-Tochas são perigosas em lugares fechados.-Thália diz.-A fumaça fica sem ter onde ir e sufoca aqueles no recinto.-

-Sorte a nossa que essas claraboias já foram pro saco.-Tom diz, entrando com Kriv em outra galeria.

O trio se depara com uma nova galeria. Essa, por sua vez na arquitetura e decoração de ladrilhos no solo, era igual à primeira que haviam visto, somente um pouco mais maltratada pelo tempo, grandes pedaços das paredes em ruínas sobre o piso quebrado. As portas estavam, nesse caso, todas arrombadas, as trufas cobrindo quaisquer vestígios de madeira que poderiam ter sido deixados pelo invasor. A claraboia, assim como a anterior, estava embaçada e suja, grandes seções da vidraça quebradas em cacos no chão, misturadas na lama da terra que escorria da superfície.

-Pra que lado agora, chefia?-Tom questiona, intrigado com algumas depressões numa parede próxima.

-Bem...parece que...por aqui.-Kriv aponta para uma das portas arrombadas e começa a caminhar até o entulho.

O trio contorna o centro da sala redonda, investigando a distância a ilha de sujeira formada nesse. Uma grama verde, semelhante à da floresta acima, crescia no monte de barro junto de alguns fungos maiores que as trufas. Uma pequena porção do bosque ancestral, plantada pelo tempo e pelo vento. Não se viam flores ou brotos, mas era um início da retomada natural do território abandonado.

Na entrada da sala invadida, o grupo se depara com algo diferente: um corredor largo e extenso, iluminado apenas por claraboias intervaladas. Ao redor das porções iluminadas abaixo das claraboias, não se via muito além do reflexo da luz em alguns bulbos de trufa e o verde lima da grama que crescia entre os fungos. A sala se encontrava em puro breu fora do alcance da luz, podendo-se perceber apenas as silhuetas do ambiente. Ao final do corredor, outra porta arrombada, que parecia levar a outra galeria circular de portas.

-Beleza.-Thália diz, pegando sua adaga.-Corredor escuro e sinistro, gostei.-

-Eu nem tanto.-Tom responde, segurando um frasco de sua mistura efervescente vermelha.-Muito menos se tiver alguma coisa por aí nessa escuridão.-

-Temos que cruzar o corredor, de acordo com o mapa.-Kriv diz, guardando o papel.-Mas fiquemos atentos, certo?-
Tom e Thália acenam com a cabeça.

-Ótimo. Atrás de mim.-

Kriv empunha seu machado em uma mão e a tocha na outra, apontando essa para frente para revelar o caminho, que, de certa forma, ele acaba desejando ter deixado apenas para sua imaginação.

Ao lado mais iluminado da sala, fornalhas apagadas pareciam cuspir grandes montes de terra e trufas, que contornavam restos de madeira e carvão. O chão, formado por o que pareciam ser ladrilhos de granito, estava coberto por ossadas e crânios, restos mortais de criaturas florestais. Bicos e crânios de pássaros, javalis, lobos e renas. As trufas entrelaçavam seu micélio pelos esses restos, criando montes de fungos e ossos ao longo da escuridão. Em meio a esses restos, cutelos, facas e facões podiam ser vistos enterrados em meio à bagunça de cipós e pendurados em bolsos estendidos em grandes tábuas de madeira, juntamente a panelões, frigideiras e potes de metal, que pairavam sobre grandes tábuas de madeira e formações rochosas de pedra.

-Que lugar é esse?-Tom pergunta, assustado.

-É uma sala de banquete.-Kriv responde.

Ao lado mais sombrio da sala, que se estendia muito a mais do que o lado iluminado, o teto parecia haver desabado, caído sobre o que pareciam ser mesões de pedra e bancos de uma madeira branca pálida, feitos pelo tronco maciço da árvore de onde foram originados. Pratos quebrados, talheres de prata e cálices de bronze se encontravam espalhados ao redor das mesas, essas cobertas pela terra úmida e cipós de trufas negras do deslizamento.

-Parece que estava tudo bem arrumado por aqui antes.-Thália diz.

-Talvez os convidados tiveram que sair na pressa, sem tempo de arrumar o lugar.-Tom adiciona.

Kriv agacha para investigar os pratos quebrados e os objetos metálicos, percebendo uma certa falta de sujeira nesses.

-A lama que sujou esses aqui veio do próprio chão sujo, mas não tem muita poeira neles.-Kriv diz.-Parece que estão aqui a pouco tempo.-

-Alguém veio aqui? Não é meio improvável?-diz Thália

-Qualquer vagabundo entra num lugar de claraboias abertas.-Tom diz.

-Qualquer vagabundo que veio há alguns dias. Mas parecem muito limpos, ainda assim...-

-Ah, deixa isso pra lá, chefia. A gente tem um galho pra achar.-

-É, tem razão. Vamos continuar, pessoal, circulando! Há-há!-

O trio se dirige ao outro lado da grande sala de jantar, notando o chão mostrando-se cada vez mais limpo conforme se aproximavam da saída. A luz da sala ao lado clareava e revelava os ladrilhos, agora claramente de granito, decorados com desenhos estranhos que pareciam não ter sentido. As vinhas de micélio estavam muito mais esparsas e magras, algumas até secas pela luz do sol.
Haviam muitos símbolos desenhados no chão, mas um era muito mais constante e proeminente: o dragão. Uma grande serpente negra, suas escamas feitas de vidro negro contornadas com lascas de ouro. Seus dentes eram desenhados com pepitas de prata e seus olhos representados com rubis brilhantes.

-Hã, sabemos de quem era esse complexo.-Tom diz.-Exibido.-

-Dragões gostam de riquezas, e um dragão como Crotus colocaria ouro até nas suas mais escondidas minas de pedregulho.-diz Kriv.

-Tô surpreso que ele deixou tocarem nesse ouro todo! Se eu fosse um dragão mágico, ia me banhar em moedas toda manhã, hehehe!-

-Galera, olha isso aqui.-Thália diz, tocando no chão.

A figura do dragão aparecia intervalada por blocos negros, feitos de uma rocha aparentemente ígnea que era extremamente mais quente ao toque do que as outras, emanando um fraco brilho incandescente, quase imperceptível.

-Esses blocos são estranhos.-ela diz.-Parecem meio soltos, além de estarem muito mais quente, mesmo nesse sol fraco da tarde.-

-Um bloco quente? Há-há! Talvez seja útil, se conseguirmos arrancar.-Kriv pensa alto.

-Até que não seria uma má ideia.-

-Hã? Era brincadeira.-

-Sim, mas talvez sirva pra alguma coisa, se soubermos usar.-

-Fala sério?-

-Falo seríssima.-

-A gente vai levar a pedra quente ao invés de todos esses rubis?-Tom diz, indignado.

-É bem mais fácil pegar esse bloco e pode ser bem mais útil. Sem contar que os rubis tão dentro do bloco de cristal, Tom.-

-É o quê?-

Tom tenta pegar os rubis do desenho no chão, mas esses se encontravam abaixo de uma grossa camada transparente, que dava ao desenho a aparência resplandecente com a luz do sol.

-Entendeu o que eu disse?-

-...estou profundamente decepcionado.-

-Acontece com as melhores pessoas, mas que tal você pegar uma arma ao invés de procurar riquezas? Já temos uma boa recompensa pro futuro.-

-É, eu poderia pegar uma dessas facas...-Tom diz, agachando para por as mãos numa lâmina curta.-...mas isso aqui deve valer

QUANTO em comparação a um desses rubis?-

-Deve valer bastante, mas vê só. Me ajuda aqui, Kriv?-

-Pega desse lado que eu pego aqui.-

Kriv e Thália colocam as mãos no espaço entre os blocos, a pedra quente claramente mal adicionada ao piso. Forçando a rocha com unhas e garras, Kriv e Thália conseguem arrancar o bloco, Tom ajudando a empurrá-lo de vez para fora.

-Ufa.-Thália diz, tentando aliviar seus braços tensos.-Parecia bem menor quando tava encaixado.-

-Esse negócio é do tamanho da sua coxa, Kriv!-Tom diz, sentado no chão.-

-Há-há! Vamos ver se vai servir de alguma coisa.-o draconarte diz, tirando a poeira das mãos.-Amarrem isso aqui nas minhas costas e vamos indo!-

Thália coloca o bloco nas costas de Kriv, amarrando-o com uma corda na sua mochila.

-Mesmo caminho ainda, chefia?-Tom pergunta.

Kriv olha o mapa.

-O galho não andou, então parece que sim! Há-há! Comigo!-

O trio adentra mais uma galeria, mas esta era extremamente diferente. Grandes vinhas de micélio escorriam pelas paredes e se espalhavam pelo chão, reunindo-se num grande buraco redondo no centro da sala, este sendo preenchido por um líquido negro que escorria das paredes até o centro, muitos bulbos de trufa guiando o percurso do líquido. As paredes não só estavam cobertas, mas também perfuradas por esses cipós e raízes micélicas. O chão estava desigual e manchado com o líquido negro, que escurecia os padrões no granito. Olhando pela claraboia, essa completamente destituída de suas armações de ferro e painéis de vidro, não se via mais as copas da floresta verde, mas sim grandes troncos esbranquiçados, que resultavam em copas de folhas espalmadas vermelhas. Essas copas eram o que bloqueava os raios do sol e iluminavam o chão com sua pálida luz vermelha. Haviam algumas pequenas ferramentas de mineração e carrinhos de mina espalhados por toda a sala, alguns jogados contra a parede, enterrados em buracos que atravessavam o concreto e alcançavam a terra ao redor da construção. Do centro da sala partiam caminhos percorridos pelo o que havia sobrado de pequenos trilhos de aço, que seguiam por dentro da terra, para fora da construção O ar da sala era horrível, um cheiro metálico emanando do líquido negro, que borbulhava periodicamente.

-Que diabos aconteceu aqui?-Tom questiona.-Tá tudo infectado!-

-Parece que encontramos a Floresta Vermelha. Há-ha-há!-responde Kriv, olhando para cima.-Agora só precisamos descobrir como sair para o mundo lá fora!-

-Não sei não, Kriv...-Thália diz, olhando o mapa.-...a seta parece apontar pra dentro do complexo, não para fora.-

-Como sabe?-

-Ela tá apontando meio que pra baixo, sabe? Como se o objetivo estivesse um ou mais andares abaixo de nós.-

-Ah, mas o golem não me explicou isso!-

-Sério?-

-Bem...é, talvez ele tenha. Mas então... vamos descer? Como?-

-Talvez pelo buraco, chefia?-

O trio se aproxima do buraco e encara o conteúdo deste: uma pequena queda até um grande lago formado pelo líquido negro, que havia preenchido os andares inferiores do complexo. Capacetes de segurança e restos de corpos boiavam na superfície e se agarravam às margens. Quando ouvido atentamente, o líquido liberava sons de movimentos espasmódico vindo das profundezas desse.

-Melhor não, rapaz. Vai que encontramos uma...Hemo-Piranha?-

Thália e Tom olham para Kriv, confusos.

-Tipo...hemo, de sangue. Sabem? Porque a floresta é verme...deixem pra lá. Melhor não entrarmos aí.-

O trio olha ao redor, considerando todas as entradas escuras para onde os trilhos iam. À esquerda do grupo, uma porta de metal trancada chama a atenção. A porta estava socada, arranhada e amassada para fora da sala, como se algo que estava na sala atual quisesse sair. Kriv e Thália olham para o mapa, a seta agora estava apontando para a sala atrás da porta, que parecia ser igual à sala onde o trio se encontrava, a arquitetura se repetindo nas salas para frente, fora do alcance do mapa.

-Vamos derrubar a porta então.-Kriv diz, indo para a porta.

-Podemos tentar destrancar também, não?-Thália se apressa em dizer.

Kriv se aproxima da porta, olhando as trancas de metal.

-Precisaríamos de uma chave, e não temos tempo para buscar uma por aí num lugar tão gigantesco.-

-Beleza então. Como vamos derrubar a porta então?-

-Ainda bem que perguntou, essa é a minha parte favorita.-

Kriv tira a mochila das costas, colocando no chão e tirando seu ariete dos ganchos externos. Ele então inspira fundo e bafora suas chamas contra a ponta de metal do ariete, que ganha um brilho amarelo de metal derretido em questão de segundos. Kriv então ergue o ariete sobre a cabeça, descendendo o metal incandescente contra as trancas de metal da porta. A tranca superior queima, mas não se parte. Kriv força o ariete para baixo, descendendo repetidamente a arma contra o metal, entortando cada vez mais as barras, que cedem lentamente com as pancadas. Então, num rugido de animação, Kriv descende o ariete sobre as trancas, destruindo as barras em um golpe final, as outras trancas cedendo com o peso do ariete e das suas superiores derretidas e partidas caindo. A porta, agora não mais segurada pelas trancas, cai para dentro da nova sala numa pancada metálica, revelando o ambiente e espantando algumas aves ao redor, seu canto assustado e bater de asas ecoando pelo ambiente vazio.

-Vamos lá, com cuidado.-Kriv diz, arrumando a mochila nas costas.

O trio entra na sala, que estava muito parecida com a sala anterior. Líquido negro escorrendo do teto, claraboia despedaçada, trufas por todo o lado, trilhos partindo do centro  para as minas e paredes perfuradas pelas vinhas. No entanto, o cheiro já não era mais tão inaturável, e o grupo não tarda a descobrir o porquê ao olhar pelo buraco central. Este poço, ao contrário do anterior, estava vazio. O líquido negro escorria para dentro da abertura, mas algo não o permitia se acumular no fundo.

-Se o líquido não acumula...-Kriv diz.

-Tem alguma coisa absorvendo ele.-Thália completa.

-Uma árvore, talvez.-Tom começa a pensar alto.-Lembram como as sementes do Krord devoraram rápido as trufas? Essas coisas deixam a fauna maluca e, talvez, a flora também fique maluca.-

-Será que essas tais...Vidrórias nascem lá em baixo?-

-Sei lá, chefia. Vamos ter que descobrir.-

-Então o que estamos esperando?-Kriv diz, tirando um grande rolo de corda da mochila.

Kriv prega uma estaca de aço pela metade no chão de granito, enrolando uma primeira porção da corda nesta. Ele então prega mais três ao redor da principal numa formação triangular, enrolando mais uma parte do rolo nessas até formar um ponto de apoio seguro. O draconarte então martela as estacas no chão até que as cordas estivessem sendo pressionadas contra o solo pelas estacas. Corda presa, Kriv amarra nós nesta enquanto Thália desliza os nós já feitos para dentro do buraco, esse desenrolando até o final, seu excesso espirrando o líquido negro ao se encontrar com o chão molhado abaixo.

-Ponto de apoio e descida feitos.-Kriv diz, guardando o martelo e as pregas não usadas.-Quem quer ir primeiro? Depois que eu testar, claro.-

-Vai primeiro, Tom, eu fico de olho.-Thália oferece.

-Eu grito se eu morrer, tá bom? Hehehehe-Tom responde, zombeteiro.

-Fica esperto, haha!-

Kriv desce a corda, agarrando-se nos nós até uma parte, de onde se desprende e descende no chão molhado do andar abaixo. Ele então acende outra tocha, olhando ao redor para verificar o ambiente.

-Nada aqui!-Kriv grita para as alturas.-Podem vir!-

Tom se segura na corda e desce agarrado nos nós até o final, olhando sempre para cima e para baixo para ter certeza de se a corda ainda estava lá ou se Kriv ainda estava lá. No topo, Thália guardava o buraco com arco em mãos. Ao ouvir as botas de borracha de Tom pisando no chão, Thália entra no buraco para se unir aos colegas.

O trio se encontrava então numa sala forrada do teto ao chão por cipós negros, semelhante ao andar superior, mas numa escala maior. As paredes de terra estavam emaranhadas por vinhas e nódulos pulsantes de trufa negra, que guiavam o líquido para o chão da sala. O líquido, no entanto e como Kriv e Thália concluíram, escoava para fora desta, guiado por um caminho de terra aberto e forrado por raízes brancas e pálidas, essas espalhadas pelas paredes de um dos túneis abertos pelos antigos mineiros do local, supostamente. Kriv olha o mapa: a seta apontava para o túnel. O trio se entreolha e acena com a cabeça, partindo para dentro da escavação.

PARTE-4:"Cozinhando num Buraco."

No acampamento improvisado, o resto do grupo se encontrava reunido ao redor da fogueira, observando Julian preparando a comida. O golem se encontrava mais separado dos outros três: na sombra, longe do calor do sol e da fogueira. Enquanto o rapaz virava a colher de madeira, Khale e Krord encaravam a comida atentamente.

-Olha galera...-Julian diz, um pouco constrangido.-...eu sei que...vocês não me conhecem direito...-

-Ué, eu te conheço, Juuj.-Krord diz, confuso.

-Não direito, Krord. Tu mal me via direito, cara.-

-Mas...é, não conheço tão bem assim.-

-Então, mas o que eu quero dizer é...-

-Sem querer atrapalhar, cozinheiro, mas vão comer essa ave sem sal?-o golem questiona.-Só vi você dando uma colher de chá.-

-Deixe ele cozinhar, golem, deveremos provar para poder opinar em relação à falta de tempero.-

-Galera...-

-Mas se ele concluir o trabalho não poderão fazer nada e deverão comer uma carne mal-temperada. Estou apenas avisando.-

-A gente não sabe como o Julian cozinha, e muito menos você saberia da vida dele pra falar com ele desse jeito, golem. Calma! Deixa o cara em paz.-

-...galera...-

-Estamos falando do cozinheiro ou do anão?-

-Tem diferença? Você já foi um mala com um e agora vai ser com o outro também?-

-Rapazes, por favor.-

-Eu? Um mala? Eu nem conhecia o garoto direito, só falei mal sobre o que eu sabia sobre ele!-

-Talvez se tratasse as pessoas como pessoas você...-

-GALERA!! XIU! Tô tentando cozinhar aqui! Já passou o lance com o Tom, deixa o golem pensar no que ele fez sozinho e deixa eles se resolverem depois! Agora bora focar no que importa: a gente tá num buraco com eco, tô tentando preparar o jantar em paz e ninguém aqui cala a boca!...tirando você, Khale, só, por favor, para de me encarar ou encarar a panela enquanto eu preparo a comida?-

-Oh, mil perdões, Julian. Geralmente me encarrego desta tarefa, e...bem, como disse antes, não sou familiar com seus costumes, tratando-se do assunto de cozer, claro.-

-Tudo bem, Khale. Eu fazia comida preparada sem nada, quando caçava por dias perto da vila. Sei quando algo está sem tempero ou com muito tempero.-

-Entendo. Prossiga, então! Tentarei conter minha ansiedade.-

-Valeu, Khale.-

Julian continua a virar o frango na água alaranjada, o cheiro dos temperos na água fervente junto ao da carne sendo cozida preenchendo a caverna. Krord se retira para uma das tendas após um tempo, fechando-se na mesma. O golem reage com um suspiro.

-Pegamos pesado com o anão.-o golem diz, na voz feminina, mas num tom baixo.

-Você acha?-diz a voz grossa, também em tom baixo.

-Nem conhecíamos ele direito e já partimos para cima dele daquele jeito.-

-Ele...argh, não quero dizer que ele merecia, mas ele também não se ajuda.-

-É um moleque, Direito, o mais novo desse grupo.-

-O quê? Esses patetas, levando crianças para uma missão tão importante!-

-Não tão novo assim, lesado! O MAIS novo, não o infante.-

-Ufa.-

-Se ele fosse uma criança e você tivesse brigado daquele jeito com ele, eu teria me separado ali mesmo.-

-Concordo plenamente. Eu teria me separado de mim, também.-

Um som de borbulhação chama a atenção do golem para a fogueira. Julian coloca ervas na mistura para interromper a elevação da espuma, o cheiro de comida ganhando um aroma mais adocicado, como um agridoce. As espumas baixam.
O golem olha a floresta acima do buraco, percebendo aves apoiadas nas copas e galhos dos carvalhos. As aves pareciam estar confusas, estranhando os novos visitantes e o novo relevo, curiosas com o cheiro delicioso que vinha do buraco. Julian olha para cima, percebendo as criaturas observando-o, mas volta aos seus afazeres. Khale se encontra assoviando para alguns pássaros, ainda olhando para a panela, de tempos em tempos.

-Como será que eles estão lá fora?-a voz feminina diz.

-Devem estar bem.-Khale responde, ainda olhando para os pássaros.

-Ãhn?-o golem responde, surpreso.

-Aqueles que não estão aqui, Kriv, Thália e Tom, golem. Estou certa de que ficarão bem.-

-Como pode ter tanta certeza? Nem sabemos os perigos desse lugar!-

-Se é que eles existem.-Julian diz entre o vapor.

-De fato, Julian.-

-Os perigos são perigos, golem. A gente aprende a lidar com eles com as nossas forças.-

-E se "nossas forças" não forem suficiente? Deixem que eu respondo: morremos.-

-Pensamento mórbido, golem, porém verdadeiro. E por essa e outras razões, nos reunimos em grupo.-

-Unimos as forças.-

-Para termos vantagem sobre este mundo cruel sobre o qual vivemos. Olhe os pássaros, golem.-

-É, eu vi. O que tem eles?-

-Estão juntos.-

-Unidos em um grupo.-

-Tá, e daí? Ainda são pássaros. Uma pedrada em qualquer um deles já é suficiente.-

-E então? Depois da primeira pedrada, o grupo te ataca, o que cê faz?-Julian diz, enquanto adiciona outra pequena colher de sal.

-Eu jogo outra.-

-E então? Ainda tem bastante trabalho.-

-Eu continuo jogando até acabarem os pássaros.-

-E se suas pedras acabarem?-

-Eu vou...-

-E se você errar?-

-Eu...-

-E se houverem pássaros demais pra você socar?-

-...e...-

-E jogar magia, também.-

-Eu...eu...não sei. É aí que eu morro, como eu disse.-

-Sim, consegue me dizer o porquê?-Khale pergunta.

-Eles...argh, estão em grupo.-

-Correto. Mas diga-me, golem, e se você estivesse em grupo? Concorda que você teria muito mais facilidade?-

-Os outros teriam, eu ainda não poderia enfrentá-los.-

-Você continua pensando em lutar sozinho, golem.-

-É a ideia. Eu vou, eu morro, ou não, depende, e então vocês vivem. Fim de papo.-

-Mas não precisa ser assim, golem. Você não precisa ser o nosso escudo hum...escudo vivo. Você tem vida, como todos aqui.-

-Golens não possuem alma.-

-Sem alma ou com alma, você possui uma consciência. Ainda que pouco, você pensa, golem. Assim como eu, assim como Julian, Krord, Kriv, Thália, Tom, essa que vos fala...-

-Mas e daí? Meu propósito é morrer, obedecer e ajudar, por que eu iria fazer algo além disso?-

-Isso, golem, eu não posso lhe responder. Apenas você saberá a resposta.-

Khale sorri, e vira-se novamente para a fogueira, deitando-se no chão para olhar para o céu da tarde, o horizonte ganhando tons de laranja e roxo. O golem olha para os pássaros, observando suas ações. As criaturas cantavam, aparentemente sem motivo algum além de chamar outros ou cantar pelo prazer de cantar. Julian continuava a virar a carne na panela. Krord, em algum momento da conversa, saiu da barraca, e estava sentado ao redor da fogueira novamente. Quando ele saiu? Talvez não importasse tanto assim. Os outros lá fora?
Eles sabem se virar sozinhos e, se não, estão em grupo.

PARTE-5 "Túnel Pálido."

O trio adentrava o túnel de raízes pálidas, surpreendentemente limpo para um túnel subterrâneo. As raízes seguravam a terra e os blocos de pedra que formavam os túneis que impregnaram, criando uma formação grossa e resistente de madeira, que não permitia vazamentos. Os túneis eram estreitos, no entanto, extremamente perigosos no caso de uma emboscada ou um incêndio.
Kriv liderava o caminho. Machado em mãos, sua garganta incandescente emanando a luz laranja que iluminava o caminho. Tom seguia no meio, segurando seu novo utensílio de cozinha, guardado nas costas por Thália, que apontava o arco para trás, focada na retaguarda.

-Tá vendo alguma coisa aí, chefia?-Tom pergunta.

-Estamos chegando no fim do túnel, aparentemente.-Kriv responde, olhando o mapa.-Mas eu não estou vendo nada além da escuridão.

-Tente acostumar a visão, apaga a garganta.-Thália diz.

-É uma tentativa. Podemos descansar um pouco também.-

Thália e Kriv sentam no corredor, apoiando-se contra as paredes de raízes. Kriv cessa as chamas de sua garganta, deixando seus olhos acostumarem-se à escuridão. No escuro total, o trio para de andar, já que o mapa era a única coisa que podiam ver claramente, mas este não emanava luz própria.

-É sério?-Tom diz.-A gente vai parar pra poder acostumar a visão ao escuro e descansar?-

-Bem, não só para isso, rapaz. Sente-se conosco.-Kriv diz.

-Ah...tá bom, então.

Tom senta no corredor.

-Então...Tom, sabe que é sobre a discussão com o golem que eu quero falar, não?-

-É, eu sei. Não foi nada de mais, Kriv.-

-É...mas você ficou bem alterado, Tom.-Thália diz.

-Nada de mais, não é a primeira vez que uma discussão ganha essas proporções comigo. Geralmente eu tô discutindo com algum cretino na rua.-

-Por que nunca contou para mim sobre isso, Tom? Eu aqui sempre te chamando de pequenino!-

-Não, não é isso que me irrita. Você não fala com ódio, chefia, eu sei o que tu quer dizer quando cê me chama desse jeito. O meu maior problema é quando me diminuem, sabe? Quando te falam que, mesmo você sabendo fazer certas coisas muito bem, você ainda é o pior nisso só pelo o que você é. Tipo quando eu...ah, sei lá. Acho que nem faz sentido, parando pra pensar.-

Kriv ,após procurar um pouco no escuro, coloca a mão no ombro de Tom.

-Olha garoto, meu cérebro cabeça dura de lagarto não é muito bom em compreender, mas eu sei que o problema parte de que você está se sentindo como uma coisa que você não é e SABE que não é. Você se irrita com as pessoas dizendo que você não é o que você é porque, lá no fundo, você concorda. Mas você não quer concordar, e não deve. Ninguém pode te dizer o que você é, só você sabe, e elas não precisam saber. Eu, Thália, o galho-frouxo, a Khal, e eticétera, ninguém aqui precisa saber o que você é de verdade, mas sim como você está se sentindo agora, se você está bem, se precisa de algum apoio, se se sente meio fora do grupo. Começamos hoje esse negócio de campeões, para que ficar bravo quando o golem fala que estamos indo mal? Ele diz isso porque ele quer nosso bem-estar, é o trabalho dele. Por mais mala que ele seja, ele faz isso porque, lá no fundo do corpo brucutu de tinta dele, ele sabe do que somos capazes, e sabe que podemos melhorar.-

Um momento serene de silêncio preenche o ambiente, Tom olhando para a silhueta do rosto sorridente de Kriv. O pouco vento da tarde encontrava seu caminho para dentro do túnel, uivando pelos galhos que o formavam. O líquido negro escorria por dentro dos galhos, um som constante de espuma sendo formada e bolhas estourando. A madeira rangia com o movimento de respiração dos exploradores, num compasso calmo que se repetia periodicamente.

-...valeu, chefia.-Tom diz, sorrindo.

-Já falei garoto, me chama de Kriv.-

-E eu já falei que chamo de chefia quando quiser, tá legal?-Tom aumenta o tom de voz, zombeteiro.

-Há-há! Olha ele aí! Vamos continuar, seus dois! Tempo de descanso terminado, vamos chegar antes de começarem a comer! Visão acostuma...ei, ficou meio claro aqui, né?-

Conforme o grupo olhava ao redor, o que pareciam ser pequenas partículas de poeira no ar pareciam ganhar um brilho fraco, dissipando-se no ar após ascender por um tempo.

-ATCHIM!-Tom espirra para o lado, de repente.

-Saúde, Tom, mas espirra pra lá!-Thália responde, secando o braço.

-Valeu e foi mal.-

-De boa. Você é alérgico à poeira?-

-A-hã, principalmente às que NÃOESTAVAMAQUIQUANDOAGENTEENTROU, do gênero MEUSDEUSESQUEQUEÉISSOATCHIM!-

-Essas são perigosas mesmo, hein? Hahahá!-

-Me fazem escorrer pelas ventas, ê disgraça! ATCHIM!-

-Alérgica ou não, essa luz meio que veio certeira nos ajudar, hein?-Kriv diz.-Presente de Auror, vamos lá, pessoal!-

O grupo começa a avançar pelo túnel.

As luzes se tornam mais brilhantes com o tempo, partindo de um brilho fraco para uma labareda fraca e vermelha, quente, mas que emanava um calor incomum, como o de um ser vivo. As luzes não pareciam estar atreladas à proximidade do grupo ao fim do túnel, sua intensidade crescia mesmo quando paravam para testar esta mesma teoria. Depois de uma curta caminhada, o grupo chega o fim do túnel, alcançando uma sala iluminada pela luz vermelha. A sala parecia uma versão menor das galerias, porém, ao invés de um encontro de portas, era um encontro de trilhos. No centro da sala, uma grande árvore pálida crescia, seu muitos galhos e raízes crescendo pelos trilhos acima. Então Thália lembrou-se.

-Galera! Galera!-ela disse.

-A gente tá aqui do lado, Thália!-Tom reclama.-Não precisa gritar.-

-Eu sei, desculpa aí, mas essa árvore, eu vi ela nos meus sonhos!-

-Nos seus sonhos?-Kriv pergunta.-Aquele com o Cachorro?-

-Sim, sim! Bem, ela era um galhozinho, e tava brilhando, mas eu tenho certeza! É esse o lugar que eu vi!-

-Então...essa é uma Vidrória?-

-Aparentemente, sim.-

Kriv olha o mapa, a seta continuava a apontar para todos os lado onde Kriv olhava.

-Hã. Achamos uma Vidrória, olha só.-

-Então agora a gente só...pega um galho?-Tom pergunta.

-Acho que sim, né?-Thália conclui.

Kriv se aproxima da árvore com seu machado, cortando três de seus muito galhos, prestando atenção em qualquer mudança no ambiente.
Nada acontece. Kriv olha o mapa: a seta agora apontava na direção do acampamento.

-É pessoal...tarefa concluída! Há-há!-comemora Kriv.

-É!!! Háhahaha!!-comemora Tom.

-Um trabalho bem feito, pessoal!-diz Thália.

-Agora é só voltarmos ao acampamento.-

-É, né.-

-Para o túnel, de novo.-

O trio se vira, ainda contente, para entrar novamente no túnel de raízes. Mas um gargarejo horrendo partindo desse atiça um frio na espinha dos exploradores, que recuam instintivamente para as paredes ao lado do túnel.

-Que desgraça foi essa.-Tom sussurra.

-E eu sei lá?-Thália sussurra de volta.

-Silêncio, deixem que passe, o que quer que seja.-Kriv sussurra, também.-Tentem não respirar muito forte ou fazer movimentos bruscos.-

Thália e Tom acenam com a cabeça, empunhando suas lâminas. 

Conforme os gargarejos se aproximam, o ambiente da sala muda. As labaredas vermelhas , antes apenas clareando com um pálido brilho vermelho, agora brilhavam intensamente num brilho carmim, preenchendo a sala com sua luz sobrenatural. Os gargarejos se tornam o que parecia ser o som de espuma, acompanhado do som de algo sendo arrastado contra madeira. O que quer que fosse, estava intensificando o brilho das labaredas conforme se aproximava.

Do chão, folhas transparentes se ergueram, como se muitos cacos de vidro estivessem sendo formados ali mesmo, a árvore principal começa a perder sua uniformidade, revelando, em seu interior, um coração roxo, desprovido de quaisquer sinais de vida, mas pingando com o líquido negro que escorria da paredes. Um cheiro metálico forte começou a tomar conta da sala, um vapor branco, quente e úmido escapando por entre as raízes.

O ser rastejante chega ao fim do túnel, grunhindo numa excitação espásmica. As labaredas começam a ganhar uma claridade estranha, como se fossem pequenos sóis que queimavam intensamente. A criatura, então, sai do túnel.

A criatura era da mesma altura que Kriv, porém extremamente magra e esquelética, reclinada pelo peso excessivo para seu corpo frágil. Apesar de ser formada pelo o que aparentava ser puro músculo e carne, ela estava isenta de qualquer forma de pele ou gordura, tendões expostos e ossos das extremidades também. Seu corpo magro lembrava uma silhueta feminina, mas estava extremamente deformado, grandes pedaços de sua forma faltando, preenchidos pelas trufas negras. Sua cabeça era coberta por uma formação óssea e lisa, desprovida de orifícios que não fossem para seus olhos negros e vazios ou sua boca, essa um agrupamento estranho de dentes variados, todos humanos, mas nenhum em sua posição ou lugar corretos. Seu busto feminino possuía uma grande cavidade entre suas mamas que pingava o mesmo líquido negro que pulsava do coração recém-acordado. A criatura cambaleava na direção do coração, tropeçando nos seus próprios pés, esses formados apenas por ossos e tendões.

As folhas de vidro se moviam para ajudar a criatura a erguer-se quando caía num tropeço, e as luzes tornavam-se cada vez mais brilhantes conforme o ser se aproximava do coração.

-O que a gente faz, Kriv?-Tom sussurra.

-Para o buraco, com cuidado.-Kriv diz, puxando o machado.

O trio se move lentamente pelas folhas de vidro, fazendo o menor barulho possível, mas a criatura não parecia interessada no ambiente ao redor. Tudo que ela queria estava pulsando no centro da sala.

A criatura alcança o seu coração, que batia intensamente, jorrando o líquido negro sobre sua suposta dona. A criatura então agarra o músculo, que convulsiona junto à dona no que parecia ser um orgasmo selvagem e grotesco das aberrações. A criatura então, finalmente, posiciona seu coração inchado e pútrido no peito, e um clarão envolve a sala, forçando o grupo a olhar para fora do túnel e fechar os olhos.
Quando a luz volta ao brilho vermelho normal, o grupo olha novamente para dentro da sala. A criatura estava de pé, agora, suas partes deformadas restauradas e sua massa muscular, mesmo que não muito, estava mais inchada. Ela arfava, tocando todo o seu corpo muscular com seus dedos ósseos e finos, abstraída da presença do trio, que recuava de volta ao túnel.

-Tem alguma ideia de quem é essa?-Thália sussurra, quase que em linguagem labial.

-Nenhuma.-Kriv sussurra de volta.

-Galera, a-a poeira...-Tom sussurra com a boca entreaberta, prestes a dar um espirro.-...ah...socorro...-

Kriv e Thália colocam as mãos sobre o nariz de Tom, encarando a criatura, que no momento estava se tocando de maneira agressiva. O grupo encara-a por alguns longos segundos, segurando o amigo.

-Tudo bem?-Thália pergunta, ainda agarrando o nariz do anão.

Tom espera um pouco, e então acena com a cabeça positivamente. Thália e Kriv soltam o amigo.

-Agora a genteATCHIM!-Tom tenta sussurrar, mas é interrompido por um espirro.

 A criatura vira-se violentamente num estalo para o túnel, encontrando os olhares apavorados do trio de invasores. Seus olhos negros haviam ganhado uma pálida luz violeta, emanando uma aura tenebrosa, que causava um sentimento irracional profundo de tanatofobia nos observadores, formigando pela espinha da base à cabeça. A criatura abre então sua boca, revelando uma grande língua roxa, armada com espetos ósseos, salivando o líquido negro. Ela então tosse uma grande poça de líquido pútrido, tentando dizer alguma coisa enquanto se aproxima lentamente do grupo, que corre em disparada para o outro lado do túnel.

No túnel, a criatura  se coloca nos quatro membros, avançando nos exploradores desesperados. As poeira tornava-se labareda novamente, lentamente ganhando um brilho intenso, este agora com uma cor pálida semelhante ao brilho medonho dos olhos da criatura. Abastecidos pelo pânico, o trio dispara muito mais rápido para a saída, caindo na mesma sala escura de trufas e cipós.

-Posição, pessoal!-Kriv grita desesperado, tentando tirar da cabeça as imagens terríveis que emanaram dos olhos da criatura.
Tom pega uma de suas poções de dano, tremendo dos pés à cabeça. Thália tenta focar sua mente, agarrando com força no arco e tensionando uma flecha. Kriv segurava o machado de maneira trêmula, seu coração parecia querer explodir pela garganta.
A criatura sai num clarão do túnel, ainda murmurando. Então, depois do que parecia ter sido uma eternidade em poucos segundos, ela finalmente pronuncia algo compreensível, arrepiando as espinhas dos intrusos.

-C-car-c-c...Carnera.-a criatura diz.

PARTE-6: "A Dama de Carne."

O trio encara a Dama, uma sensação terrível percorrendo suas espinhas. Sua respiração torna-se ofegante, um suor frio escorrendo da cabeça ao pescoço. A criatura encarava-os de volta, um tanto indecisa sobre como prosseguir, mas isso não era claro para seus adversários.
A sala, antes preenchida pela escuridão quase total, passa a ganhar um fraco brilho vermelho, como a poeira nos túneis. A criatura enxergava as paredes cobertas pelas vinhas micélicas, mas para o trio, as paredes escorriam, rostos  de desespero e agonia formando-se do nada e desapareciam tão sobrenaturalmente quanto.

Após longos segundos encarando, a criatura decide agir, avançando lentamente contra o grupo. Braços abertos e olhos brilhando com a mesma luz pálida que começava a preencher a sala. A cada passo da criatura, os rostos nas paredes pareciam urrar de dor conforme a luz brilhava de forma cada vez mais intensa.

-Qu-q-q...KRIV!-Tom por muito pouco consegue gritar num engasgo.-O que a gente faz!?-

Thália, apesar de não ter certeza nenhuma de se poderia ferir a criatura, dispara uma flecha contra a mesma, suas mãos trêmulas e suadas sofrendo para segurar a corda ou a madeira do arco. A flecha dispara de maneira errática, ricocheteando para longe da criatura ao atingir o solo quatro palmos de distância da criatura. A criatura se assusta com o impacto, hesitando seus avanços, mas sua expressão de medo rapidamente perde lugar para um olhar frio de raiva. As luzes na sala então ganharam uma intensidade sobrenatural, os rostos nas paredes pareciam tentar sair, alcançar aqueles que enfureceram a dama de músculos.

A fúria da criatura evoca uma tensão no corpo de seus adversários, que recuam e caem sentados ao perceberem seu olhar. No entanto, ironicamente, essa tensão toma o lugar do pavor, fortalecendo em Tom um intenso sentimento de auto defesa. Num espasmo irracional, Tom consegue arremessar um de seus frascos de líquido vermelho, atingindo a criatura na cabeça.

A criatura urra em surpresa com o impacto e estouro do frasco, sua surpresa rapidamente silenciada pela dor, que a faz espumar em um berro agudo e sinistro. Os rostos na parede se calam, perdendo-se conforme a criatura lidava com a dor intensa que sentia percorrer seus músculos. As trufas espalhadas pela criatura tornam-se nódulos brilhantes e pulsantes, cada pulsação espirrando o líquido vermelho do frasco para longe. As luzes da sala desaparecem, deixando o trio e a criatura no escuro, os urros ecoando no silêncio do ambiente. Com seus olhares desconectados daquele da fera, o trio acorda do transe de pavor.

-RÁH!!-Kriv urra num engasgo, colocando-se de pé.

O draconarte bafora num tossido suas chamas incandescentes, iluminando a figura da criatura, que recua em seus urros ao perceber um de seus adversários em pé e pronto para lutar. A criatura então salta para trás, desaparecendo nas sombras.

-Crau't maaa!-a criatura diz, furiosa e oculta, seus murmúrios ecoando pelo espaço.-Ormeto't et Carnera!-

-É, eu não entendi nada, mil perdões.-Kriv diz, baforando chamas.

Thália levanta e guarda seu arco, puxando Tom junto para a batalha. Tom pega a faca de cozinha e agarra mais um frasco de líquido vermelho. Kriv guarda seu machado, agarrando duas pequenas machadinhas da mochila.

-Então chef... MAS CARAMBA!-Tom começa a dizer, mas se interrompe indignado com a visão.-Quanta coisa cê tem aí dentro!?-

-Juro que é minha última peça do arsenal, há-há!-Kriv ri, sempre tentando encarar a criatura na escuridão parcial da sala.-Todos vamos de corpo-a-corpo, então?-

-Já errei uma vez.-Thália diz.-Se vier ao caso, eu atiro de novo.-

-Se ela chegar perto eu corto, hein?!-

-Muito bem então. Posição, pessoal!-

Kriv coloca-se de costas para Thália e Tom, que fazem o mesmo, bloqueando a corda para o buraco. Os passos velozes e cambaleantes da criatura ecoavam, dificultando o seu rastreamento.

-Hulm'ek tuunt!-a criatura murmura nas sombras.

-Alguém sabe o que ela tá falando?-Tom questiona.-Fala pra ela parar ou achar um dicionário.-

-A Khal deve saber.-Kriv diz, zombeteiro.-Anotem para depois, há-há!-

-Klami'eee...-a criatura diz, sua voz tornando-se mais audível acima do trio.

O trio olha para cima, a criatura pendurada nas quatro patas contra o teto, tentando alcançar a corda. Thália rapidamente puxa uma flecha e seus arco das costas.

-Klamiê é o caramba!-Thália diz, tensionando a corda.

Thália solta a corda, estalando a madeira do arco numa onda sônica com a flecha rasgando o ar. A flecha assovia com o vento do buraco e atravessa as costas da criatura, perfurando seu ombro direito. A criatura urra de dor, perdendo seu equilíbrio e descendendo de volta ao fundo da sala sobre a flecha, que termina de perfurar seu corpo, fazendo-a berrar novamente.

A criatura se levanta rapidamente em direção ao trio, especificamente, Tom. Enfurecida pela dor e sedenta pelo sangue fresco de seus inimigos, ela avança sobre seus quatro membros, murmurando o que pareciam ser palavras indecifráveis e sem sentido. Tom, no entanto, apenas ergue o frasco e aponta a faca para interromper os avanços da fera.

-Lembra disso aqui, né?!-Tom diz.-Eu tenho muito mais de onde veio, pode vir, velha musculosa!-

-Kror'le et oi Cume ahk Carn.-a criatura murmura num tom de indignação.-Et Salver'oote!-

-Mas pelos deuses, arruma um dicionário, senhora!-

A criatura recua de volta às sombras, jogando a flecha de volta ao centro da sala.

-Furtiva, droga...prestem atenção aos movimentos, dois!-Kriv diz.

Da escuridão, só podia se ouvir os passos da coisa ferida ecoando juntamente a seus gemidos de dor. A sala escura começa a perder o pouco brilho dos raios de sol, sua fraca luz laranja esvanecendo nos céus cor de laranja do crepúsculo da tarde. O grupo se une abaixo de buraco, encarando a umbra que os rodeava.

A coisa então avança numa sequência de ataques ferozes, tentando penetrar as defesas do grupo. Ela avança sobre Kriv, agarrando-se sobre sua cabeça com as pernas e socando-o nas costas com seus dedos esqueléticos, mas estes não atravessam a armadura de aço negro. Kriv responde golpeando-a nas costas com as machadinhas, lançando-a para trás de volta à escuridão num chute com suas garras.

Ela então avança sobre Thália, jogando-a ao chão pelo cabelo, agarrando-se à garota com suas pernas e dedos esqueléticos, tentando morder seu rosto. Numa pegada cruel, a Carnera segura o braço enfaixado da garota, manchando este com o líquido negro que jorrava de seu corpo. Ela então tenta morder seu rosto, mas Thália consegue  desvia com a cabeça, colocando uma vinha na boca da criatura e mandando-a de volta ao escuro, fincando sua adaga atrás da cabeça da fera.

-Tudo bem?-Tom diz, estendendo a mão.-Ela te pegou de jeito.-

-Tá de boa.-Thália responde, apoiando-se em si mesma para levantar.-Foi...-ela continua, tirando as faixas do braço enfaixado, que ardia numa dor superficial.-...só um arranhão.-

-De olho na criatura, pessoal!-Kriv grita.

A coisa avança novamente sobre Kriv, empunhando a adaga de Thália, encontrando por azar em seu caminho um frasco de Tom no peito, seguido de uma machadinha entre seus olhos, que envia-a de volta à escuridão em gritos de dor.

A criatura continua avançando, tentando apenas cortar o trio com ataques velozes e então desaparecendo nas sombras. Num avanço, a criatura segura Kriv pela perna, tentando mordê-la, seus dentes rasgando a calça mas escorregando nas escamas rígidas do draconarte. Kriv segura a criatura pelo pescoço e lança-a para trás com uma cabeçada. Ela foge murmurando.

Com cortes cruéis e constantes, o trio sofre para se manter em formação, resistindo às investidas da besta feral com contra-ataques escorregadios, golpeando-a com chutes, socos e cortes de resposta. Seu temor rescia, sabendo que, mesmo quando atingida por ataques profundos e destrutivos, sua adversária não parecia se abalar, retornando sempre com o mesmo pique e sede por sangue.

A fera avança novamente sobre Thália, prendendo-se à sua cabeça com suas pernas abertas, travando suas canelas contra os olhos da garota, batendo sua cabeça contra a de sua rival. Entre concussões que deixavam sua visão turva, Thália se lança de costas ao chão, esmagando a criatura com seu peso. Ela então rola para o centro da formação, golpeando a cabeça da criatura com uma flecha no olho. A criatura gane, tentando fugir do meio do grupo, mas é apanhada por uma facada nas costas, vinda de Tom, que desliza a lâmina para dentro da criatura. Ela vira-se então furiosa para o anão, partindo a lâmina de seu cabo ao tentar atingir o dono na cabeça, interrompida por um golpe vertical de machado no punho. Kriv pressiona a lâmina da arma, atravessando carne e cartilagem, separando o antebraço da mão, essa agora fixa apenas por veias negras e tendões acinzentados. A fera tenta urrar de dor, calada por um soco de Tom, que recupera o que restou de sua faca das costas da coisa. Murmurando furiosamente, ela corre para as sombras, atingida novamente por um frasco de líquido vermelho nas costas.

-Argh, não adianta.-Thália diz ao ouvir as trufas da criatura removendo o líquido de Tom.-Ela não se cansa. Ela vai continuar voltando até ficarmos sem recursos ou sem forças pra lutar.-

-Então o que a gente faz?-Tom pergunta, pegando mais um frasco.

-Precisamos nocauteá-la.-

-E como planeja fazer isso?-Kriv questiona, segurando a criatura pelas mandíbulas ao impedi-la num avanço.

Kriv segura a criatura, jogando contra o chão e chutando sua cabeça repetidamente. A fera revida então tentando morder os dedos do draconarte, visando fechá-los em sua boca. Thália vem então ao resgate, agarrando-a pelos olhos com as mãos, arremessando-a pelo chão para longe, vendo-a rolar pelo chão sujo.

-Por pouco, obrigado.-Kriv agradece.

-De nada, mas me diz, ainda temos o que eu disse que ia ser útil, né?-

-O que você disse q...oh. Entendi. Temos sim.-

-Eu não, galera, me explica aí. Que que a gente tem?-

-Virem aqui. O plano é o seguinte...-

Nas sombras, a criatura observa o grupo virar as costas e abrir alguma coisa que não compreendia direito o que era mas que suas entranhas sabiam que podia carregar coisas ruins. Um sentimento feroz preenche sua mente e cega sua percepção, forçando-a a aproveitar-se  da oportunidade para avançar ferozmente contra os seus inimigos.

Num salto feroz, a criatura se lança de encontro aos seus inimigos, mirando uma bocada em Kriv, mas atingindo perfeitamente um grande bloco de pedra negra nas mãos do alvo, mergulhando com a cabeça na pedra fria e áspera. O impacto desacorda a criatura, que cai desmaiada no chão. Ao perceber vitória, o trio cai sentado no chão, cansado.

-Então...o que a gente faz com ela agora, Kriv?-Thália pergunta, deitada no chão e arfando.

-Bem, já irritamos ela demais para não terminar o serviço...-Kriv responde.-...e, se deixarmos ela ir...-

-Ela pode voltar.-

-Imagina essa coisa solta enquanto a gente dorme?-Tom diz.

-É...ãrf...tem razão.-Thália diz, e suspira.-Tudo bem. Vamos acabar logo com isso.-

Kriv ergue o bloco de pedra sobre a cabeça da criatura, largando-o sobre seu crânio monstruoso. A pedra descende e esmaga a cabeça da coisa, transformando-a numa poça de carne esmagada e pedaços de osso.

-Argh, pra que isso, Kriv?-Thália diz, indignada.

-É...foi mal.-responde o draconarte, um tanto quanto arrependido.-Passou pela minha cabeça que a dela poderia voltar a vida.-

-Bem...acho que agora não é mais o caso, né?-Tom diz, um pouco enojado.

-É...essa já era.-Thália diz.-O que será que ela queria dizer?-

-Assim, ela meio que não tava tentando muito, né? Só murmurando e atacando a gente.-

-É. Tem isso também, mas mesmo que fossem apenas murmúrios...-Thália diz, tirando das mãos da criatura sua adaga e a machadinha de Kriv, estendo essa para seu dono.-...parecia mesmo ter algum sentido nos grunhidos dela.-

-A Khal deve saber como traduzir.-diz Kriv, pegando sua machadinha.-Lembram de alguma coisa que ela disse? Querem anotar?-ele termina, pegando um pedaço de papel e uma caneta de metal.

-Seria legal, talvez nos ajude a saber de alguma coisa sobre esse lugar.-Thália responde, e se apossa do papel e da caneta.-Vamos ver...eu lembro que ela disse...-

-Carnera.-todos dizem.

-É, isso todo mundo ouviu.-diz Tom, dirigindo-se à corda.

-Ela repetiu isso umas...duas vezes, se não me engano.-Kriv diz.

-E falou um monte de besteira junto também.-Tom diz enquanto sobe, seguido por Thália.

-É, sim, ela disse Carnera. Mas eu lembro também que...klamiê...? Ah, sei lá! Mas ela falou tanta coisa sem sentido, eu não lembro de quase nada do que ela disse! Argh!-

-Calma Thália. Não esquenta a cabeça, a coisa tá morta e a gente tem o galho.-
Tom e Thália chegam ao fim da corda, agarrando-se nas bordas do buraco para sair.

-Tom está certo, Thália, já foi.-Kriv diz, subindo a corda.-Eu esmaguei a mulher de carne, vamos focar agora em voltar pro acampamento.-

Kriv sai do buraco. A galeria estava agora muito menos iluminada, o sol da tarde quase sumindo no horizonte raiva seus últimos raios laranja nas paredes, mas a maior parte do lugar se encontrava em escuridão.

-Caraca, que breu.-diz Tom.

-A gente ficou bastante tempo lá embaixo.-Thália diz.-Pelo menos fizemos algo útil.-

-Faz a luz aí, chefia!-

Kriv acende mais uma tocha, revelando a sala ao redor.

PARTE-7 "Complexo Arrasado."

A porta de metal, antes apenas sem trancas, sequer estava presa a sua parede ou arco, jogada ao chão agora estilhaçado de granito. O arco da porta, por sua vez, se encontrava alargado a ponto de se tornar grande o suficiente para um portão, a parede de concreto e tijolos expandida para os lados, marcada com garras e unhas, além de marcas de dedos, mãos, dentes, pés e patas. Um sentimento de confusão flui pelo trio, que tentava unir qualquer sinal de qualquer situação que poderia ter resultado em tal bagunça.

-Pelos deuses.-Tom diz.-Aconteceu uma festa enquanto a gente tava lá embaixo?-

-Uma festa bem selvagem.-Thália diz.-Parece que houve uma debandada...ou quem sabe umas pessoas passaram correndo desesperadas...será que uns javalis não...caraca, que desgraça rolou aqui?-

-O que quer que tenha sido, parecia estar com fortes emoções.-Kriv diz.-Raiva ou não, vamos não ficar para descobrir, principalmente com a noite sobre nós. Adiante, pessoal.-

O trio passa pelo arco, notando manchas do líquido negro espalhadas entre os espaços e cortes no concreto frio. Ao entrar na galeria, o grupo se depara com um ambiente extremamente revirada, as vinhas e cipós micélicos destruídos e cortados, arremessados pela sala. Os carrinhos de mina, desaparecidos, mesmo aqueles que estavam enterrados em buracos. Grandes placas de concreto foram arrancadas das paredes, jogadas pela sala contra pontos aleatórios do espaço. Saindo da sala de banquete, os crânios e ossadas de animais haviam sido lançados para fora, estilhaçados em lascas ósseas. Em meio aos crânios, no entanto, uma visão faz Tom e Thália recuarem.Era um crânio, também, mas não um crânio feral de uma criatura da floresta...

Era um crânio de anão.

-Oh...-Thália diz num engasgo.-...um crânio.-

-...é...-diz Tom, sua voz trêmula.-...u-um b-be-belo c-crânio de anão. H-ha! Ha...-

-Parece que sabemos o que rolou por aqui, então.-Kriv diz, pegando o crânio e repousando-o ao lado da porta.-Que ele descanse em paz.-

-V-va-vai p-precisar d-de mais...por-t-tas.-Tom diz, apontando para dentro da sala.

Kriv estende a tocha, revelando inúmeros outros crânios de anão espalhados pelo chão. Alguns quebrados, outros roídos, alguns até possuíam unhas e dentes espalhados pela sua superfície branco-amarelada. As órbitas oculares estavam expandidas, forçadas por garras e dedos, o líquido negro manchado por dentro e por fora das formações.

-A-alguém aqui g-gosta de brincar de massinha...c-com...ossos.-

-Acalme-se, rapaz. São apenas esqueletos de um passado muito distante. Não podem nos ferir.-

-P-pra você é f-fácil f-falar, n-não são os-s-sadas da sua esp-p-espécie.-

-Eu estou tão assustado quanto você agora, meu amigo. Sei que os anões são osso duro quando o assunto é porradaria, e tantas ossadas assim nunca é um bom sinal.-

-Temos que passar por aqui, de um jeito ou de outro.-Thália diz.-Acha que consegue, Tom?-

-N-não tenho escolha m-mesmo.-

-Muito bem. Olhos bem abertos, pessoal.-

Kriv entra na sala empunhando uma de suas machadinhas, a tocha revelando a carnificina espalhada pelo chão. Ao lado, as grandes mesas de pedra, que estranhamente pareciam ser o dobro do tamanho que eram antes.

-Essa...-Thália diz, olhando para o fundo da sala com as mesas.-...essa sala não era tão grande assim, era?-

-...agora que você falou...-Kriv nota a parede distante, um grande desenho nos seus ladrilhos.-...não, não era nem um pouco assim.-

-O-o teto tava desabado, não?-Tom diz, apavorado.

-Ele...sim! Ele tava, tipo, todo caído! Onde é que ele foi? Eu...não tô sonhando não, tô?-

-Se você está, também estamos.-

Kriv estende a tocha para o desenho na parede. Era uma grande tapeçaria cristalizada na pedra da parede. O tecido parecia ser feito de uma seda fina e translúcida, congelada no cristal, que brilhava levemente com as cores da tapeçaria.

A tapeçaria, assim como os ladrilhos, representava um grande dragão negro, escamas bordadas em fios de ouro reluzentes, olhos representados com grandes rubis. O dragão voava sobre uma multidão, seus súditos, supostamente, e parecia rir com eles, que vibravam com suas ferramentas em mãos. Os "súditos" usavam armaduras azuladas, os fios reluzentes brilhando de maneira intensa, mas não tão intensa quanto o ouro que contornava o dragão e suas escamas. Todos os súditos pareciam iguais, suas armaduras todas representadas da mesma forma, mas um se destacava, posicionado acima de todos os outros, mais próximo ao dragão. Era uma figura alta e feminina, representada vestindo uma armadura vermelha brilhante, preenchida por pequenas jóias vermelhas e brancas. Sua cabeça estava coberta por um capacete prateado que cobria todo o seu rosto, deixando a vista apenas seus olhos, representados com duas pequenas pérolas de ametista. Ela vestia uma capa que se espalhava pela multidão de soldados azuis, entrelaçando esses com suas muitas seções carmim, que perdiam sua cor até virarem um branco pálido. Uma escrita em fios dourados reluzia no rodapé da tapeçaria:

"Carnera iut jer Lakiets."

-Carnera iuti ger Laquiétis?-diz Tom.-Que d-desgraça é essa?-

-Deve ser alguma coisa do tipo...Carnera e seus alguma coisa, sei lá.-Thália responde.-É uma boa decoração de parede, embora eu não goste muito da ideia de cristalizar tapeçarias.-

-O Crotus deve ter usado esses cristais em todo o lugar onde ele deu as caras.-diz Kriv, num tom irônico.-Cara vaidoso ele.-

O trio continua a cruzar pela sala, a bagunça de restos e utensílios largados familiar, mas ligeiramente modificada.

-Será...será que aquela ali que era a moça músculos?-diz Tom, olhando ao redor pelos restos mortais de anões e animais selvagens.-Ela... ela tem, tipo, as mesmas feições.-

-É uma possibilidade bem provável.-Thália responde, colocando a mão no ombro do amigo e apontando.-A máscara parece bastante

com a cara dela, né?-

-Os olhos, também.-Kriv adiciona.

-Eu meio que tava falando das...curvas, sabe?-

-Conseguiu notar as curvas da moça mesmo com tanta coisa acontecendo? Tô impressionada.-

-É minha percepção avançada, pra saber onde atacar.-

-Saber onde atacar?-Kriv diz, risonho.-Já ouvi essa, rapaz. Há-há!-

-Não, eu tô falando sério, gente. Tipo, ela tinha pouca carne na parte de baixo das costas, então teria muita chance de eu cortar e não dar em nada, sacou? Ou se eu tentasse atacar nas canelas finas dela, ela não ia sentir nada. Ela era pura carne e osso, e a moça da pintura parece bem caquética em certos lugares ali, sabe?-

-Certos lugares...-Thália diz, rindo.-...sei.-

-Ah, qual é pessoal, eu não tava pensando na bunda da moça musculosa assassina!-

-E quem falou de bunda? Há-há!-

-Tá se entregando, Tom!-

-Mas eu...ah, esquece, vai.-

-Há-há! Essa foi boa, pequenino!-

-Com todo o respeito, vai se ferrar, Kriv.-

O grupo sai da sala de banquete rindo, deparando-se com uma das galerias de portas. Kriv estende a tocha e olha para o mapa, apontando para o portal expandido por onde haviam passado antes, mas o portal parecia...diferente.

-Ele...era tão grande assim?-Thália diz, apontando para o portal.

O portal estava muito maior do que antes, expandido de maneira violenta, semelhante ao arco da porta de metal. As vinhas haviam sido cortadas e empurradas para o lado, como se algo tivesse mordido e arrancado-as do chão.

-O que quer que passou por aqui...-Tom diz.

-Veio de lá.-Thália completa, arregalando os olhos com a realização.

-Vamos, rápido!-Kriv diz, correndo para o portal.

Tom e Thália tentam acompanhar o draconarte, puxando das costas e dos bolsos suas  armas. Kriv arma-se com o machado, cortando cipós de trufa caídos pelo túnel alargado, Tom e Thália acompanhando-o ao alcançar o colega escamado. Corte após corte, o trio imagina o que poderia ter acontecido com os outros no acampamento, que fera poderia ter causado tamanha destruição de maneira tão sorrateira? Teria essa criatura entrado pelo buraco feito pelo javali? Pensamentos irracionais corriam pela mente do grupo, atrapalhando-os no seu desespero.

PARTE-8 "Parede de Sei Lá O Quê.

Chegando à galeria inicial, o trio se depara com um desabamento. Um grande deslizamento do que pareciam ser trufas e pedaços de terra e uma lama negra. O entulho cobria a porta para o acampamento e as duas outras ao lado.

-Uou.-Tom diz, confuso e fascinado.

-Uou mesmo.-Kriv diz.-Tem uma parede entre nós e o resto do pessoal agora.-

-Mas um desabamento? Aqui?-Thália indaga, confusa.-Como?-

-Talvez o que arrombou as portas tenha tentando arrombar a parede do Krord e acabou derrubando o teto em cima dele mesmo.-

-Será que os outros estão bem?-

Kriv dispara para o deslizamento, encostando a cabeça no monte.

-KHAAAL! KROORD! JULIAAN! GOLEM! ALGUÉM AÍ!?-ele grita.Nenhuma resposta. Kriv distancia para o centro da sala, olhando para a claraboia.

-KHAAAAAL! KROOORD! JULIAAN! GOLEEEM! TUDO BEM AÍ DENTRO!?-

Um silêncio reina a atmosfera da floresta e do complexo por alguns longos segundos.

-KRI!?-A voz de Khale ecoa.

-Uff, pelos deuses. SIM! SOMOS NÓS!-

-MAS FINALMENTE, HEIN, LAGARTIXO!?-a voz de Krord ecoa.

-VAI SE FERRAR, GALHO-TORTO! PRECISAMOS DE AJUDA PRA ENTRAR!-

-É SÓ ENCOSTAR A MINHA LASCA NA PAREDE DE MADEIRA!-

-TEM UMA PAREDE NA FRENTE DA PAREDE DE MADEIRA!-

-Quê, como assim?-diz Krord, na outra sala, dirigindo-se à parede de madeira.-NÃO TEM PAREDE NENH...-

Krord abre a parede de madeira, encontrando atrás dessa um sólido pegajoso vermelho e pulsante.

-É, TEM UMA PAREDE VERMELHA AQUI!-

-VERMELHA? A MINHA TÁ MARROM, TIPO TERRA!-Kriv grita ao longe.

-E DAÍ A COR DA PAREDE!? TENTA CAVAR UM POUCO!-

Kriv enterra as garras na parede, arrancando pedaços vermelhos sujos do que parecia cada vez menos com entulho.

-Que merda é essa?-diz Thália, recuando ao ver os pedaços.

-Eita.-Kriv diz, surpreso, e para de cavar no monte.

O pedaço arrancado da parede era um punhado de restos vermelhos, semelhantes a uma carne vermelha e crua. Pequenos bulbos de trufa cresciam entre os fios do músculo, pulsando bem lentamente.

-Parece...carne.-Tom diz, cutucando o pedaço com sua lâmina pequena.-Uma carne bem nova, eu diria.-

-O que isso tava fazendo no monte de entulho que acabou de aparecer aqui?-Thália pergunta, angustiada.

-E ENTÃO!?-Krord grita.

-DENTRO DO MONTE PARECE CARNE CRUA!-Kriv grita de volta.-MUITA COISA PRA TIRAR, SE TIVER MAIS DESSA CARNE!-

-CARNE CRUA!?-

-VOCÊ ME OUVIU BEM!-

-Como assim, carne crua?-Krord pergunta para Khale.

-KRI!-Khale grita.-O QUE VOCÊ QUIS DIZER COM "PARECE COM CARNE CRUA"!?-

-ESSE MONTE PARECE SER TODO FEITO DE CARNE!-o draconarte responde, um tanto quanto apavorado.

Confuso, Krord enterra sua mão na parede vermelha, arrancando um grande pedaço carnoso pulsante que jorrava um líquido negro bizarro num ritmo quase que de respiração.

-Pelos deuses...-Krord diz, assustado com o pedaço de matéria carnosa em sua mão.

-Como isto veio parar aqui?-Khale pergunta, extremamente confusa.

-G-galera...-Julian diz, apontando apavorado para a parede.

Krord e Khale olham para o buraco, pulando para trás num susto ao perceber este abrindo. Dentro do buraco, muitos olhos e dentes afiados podiam ser vistos, suas pupilas de muitos formatos dilatando e fechando de maneira espasmódica, mas sempre encarando o monte de carne nas mãos do enthro. Krord lança a carne contra a parede, que devora seu membro, encorporando-o ao todo. Ela então começa a vibrar, grunhidos ouvidos em meio à matéria orgânica.

A Parede começa a estender pedaços de si para fora, formando muitos membros musculosos: pernas, caudas, braços, mãos, pés, cascos, garras, uma bagunça de membros de muitos animais e criaturas da floresta. Seus pseudópodes cresciam de maneira errática, sem um padrão correto ou alinhamento, como se fosse raízes procurando a água. Após formar uma certa quantidade de membros, a criatura começa a formar faces, agarradas ao grande corpo carnoso por tendões, veias e algumas até pelas mãos. As faces não possuíam olhos, esses estavam espalhados por todo o corpo, mas todas compartilhavam de possuir uma bocarra dotada de dentes, organizados de forma aleatória.

-KRIV!-Krord grita pelo saída desbloqueada.-VÊ SE CONSEGUE ENTRAR AQUI, RÁPIDO!-

Kriv acena com a cabeça, empurrando consigo Thália e Tom para a sala, desesperados com a presença do ser que erguia-se ao seu lado, movendo-se em sua direção. O trio dispara pelos flancos, evitando qualquer proximidade com os membros da criatura, suas mãos e garras estendidas com os dedos abertos, tentando agarrá-los ao mesmo tempo que arrastavam toda a massa do corpo. Fracamente iluminadas pela luz da noite e da tocha de Kriv, as faces urravam e murmuravam palavras incompreendíveis e grunhidos animalescos que compartilhavam de uma emoção perceptível de fome e raiva. Ao chegar na porta, o trio se alinha para entrar, Krord saindo da sala para ajudar Kriv a impedir os avanços da Parede. Tom arrasta-se para dentro da sala, enquanto Thália dispara flechas contra as muitas faces da criatura.

-Thália, vem logo!-Tom diz, dentro da sala.

-Preciso ajudar eles, só um pouco mais!-

Thália dispara flechas contra os olhos, cegando a criatura, enquanto Kriv e Krord golpeiam seus membros com suas lâminas, tentando alcançar o corpo.

-Se eu incinerar essa coisa, resolvemos de vez o problema.-Kriv diz.

-Continua avançando, eu cuido da sua esquerda!-Krord responde.

O draconarte e o enthro avançam pelos membros, partindo caudas e quebrando ossos, lançando os restos mortais para os lados. Uma das cabeças se solta para atacar o draconarte, mas é impedida por uma flecha entre os olhos e então um corte preciso, que corta a mesma em duas.

-Tenta acertar os olhos mais no meio, Thália!-Krord diz.

Thália tensiona mais uma flecha, disparando-a contra um grande globo ocular no centro, este brilhando com uma luz lilás, atingindo-o na pupila. Urrando de dor, o corpo se joga para trás, batendo de costas contra a parede, estremecendo o teto, que derruba partículas da lama da floresta.

-Pessoal, sai daí! Deixa a parede demoníaca pra lá!-Julian diz, desesperado.

-Kri!-Khale diz.

-Esperem um pouco, quase lá!-Kriv diz, determinado.

O draconarte, impulsionado pela pressa, corre por entre os membros da criatura, as garras e unhas arranhando sua armadura, mas falhando em penetrá-la. Krord auxilia o colega na retaguarda, arrancando pedaço após pedaço com seus golpes de machado. Thália continua a disparar, focada em perfurar os olhos da criatura. Então, corpo-a-corpo com a criatura, Kriv bafora suas chamas.

As chamas serpenteiam pela criatura, consumindo seus membros e faces numa fogueira de chamas incandescentes. A criatura rugia de dor, tentando golpear seu inimigo incandescente. Em meio às chamas, Kriv lança a mochila para fora do perigo, puxando suas machadinhas e escavando uma passagem pela criatura, envolto nas chamas. A criatura tenta recuar, golpeando as paredes, o chão e o teto, mas o draconarte continua destruindo suas entranhas, eventualmente alcançando o outro lado. Suas escamas brilhando como metal fervente, Kriv salta para longe da criatura, olhando para trás para a destruição que havia causado.

Despedaçada, a criatura ainda tenta se erguer sobre seu corpo em chamas, agarrando-se à claraboia no teto. A claraboia, fragilizada pelo tempo, desaba sobre a criatura, forçando contra o chão de concreto e granito, perfurando seu corpo com hastes de metal e grandes lascas de vidro. A claraboia leva consigo um grande pedaço do teto, que desaba sobre a porta para o salão e sobre a criatura. A Parede urra uma última vez, antes de cessar seus movimentos, seu corpo queimado lentamente perdendo as chamas, sua brasa molenga e uma gosma negra deixadas para trás.

-Uff...huff...-Kriv diz, descansando, e então olha para o buraco no teto.-TÁ MORTA!-

-E VOCÊS ESTÃO PRESOS NOVAMENTE!-Khale grita, do outro lado.-PELOS DEUSES, KRIV!

-É, ACHO QUE EXAGEREI, FOI MAL!-

O novo trio se entreolha, cansados e confusos sobre o que fazer, mas orgulhosos de seu feito.

-Pelo menos eu tô com vocês agora.-Krord diz.-Posso ajudar a cavar. Principalmente com o bicho morto assi...-ele continua, interrompido por uma sensação dolorosa na canela.
Krord olha para baixo, uma das bocas da Parede tentando penetrar sua casca. Ele esmaga a cabeça com o pé.

-...morto agora.-

Uma mão agarra Thália pela perna, mas é perfurada por sua adaga.

-A...gora?-Thália diz.

Um pedaço de carne se joga sobre Kriv, agarrando-o com pequenos membros. Kriv lança-o para a fogueira, golpeando-o com o machado.

-Agora acho que...-Kriv começa a dizer, interrompido por outro membro agarrado aos seus pés, esse mais familiar.

Era a mão da mulher de carne, acompanhada por seu corpo, arrastando-se pelo chão. Sua cabeça esmagada estava pendurada por pedaços grotescos de carne e lascas ósseas, borbulhando uma espuma negra. Assustado, Kriv lança-a para a fogueira, baforando ainda mais chamas sobre a massa de carne, mantendo a chama por mais alguns segundos, até engasgar com sua garganta seca, tossindo faíscas.

-Arf...tô sem gás.-Kriv diz, olhando apavorado para a fogueira.

-Mas...deve ser o suficiente.-Krord diz.

-Tem que ser o suficiente.-Thália adiciona.

O trio se entreolha novamente, um calafrio terrível escalando-os de baixo a cima, fazendo-os disparar para a terra desabada, cavando desesperadamente pela terra.

Atrás de seus adversários, a criatura ergue-se novamente, trufas negras expelindo o líquido negro, apagando as chamas. Sua pele solta flocos queimados, brilhando em cinzas e brasa, revelando uma nova camada carnosa e vermelha, pulsando em vibrações de vida e raiva, uma raiva profunda, que espumava de suas muitas faces e pulsava por seus músculos.

Dentro da sala, Tom, Julian e Khale se encontram tentando empurrar a terra para longe da porta forçando pedaços de madeira das mesas contra o monte. O golem havia se levantado, socando a lama junto ao grupo, seu corpo ainda um tanto fragilizado tremendo com cada golpe. As forças do grupo, unidas pelo seu desespero, possibilitam a remoção da terra, criando uma passagem grande o suficiente para alcançar a porta de galhos do ébano, que começava a se fechar, por petulância.

-Kri, Thália, Krord! Rápido, para dentro!-Khale diz, estendendo a mão.

Kriv agarra a mão de Khale, puxando-se para dentro da sala, tentando forçar a porta a manter-se aberta.

-Ragh!-Kriv grunhe, estendendo a mão.-Krord, ajuda!-
Krord se segura em Kriv, golpeando a porta de galhos com seu punho rígido, forçando-a a abrir novamente num susto.

-Agora você, Thália!-

Thália estende a mão para Krord, agarrando o amigo com força. Ela força sua entrada, jogando-se para dentro, encontrando o ar aquecido do salão iluminado pela fogueira, a porta voltando a fechar-se lentamente.

-Ufa!-Khale diz, aliviada.

-Mas que merda. Hehehe!-Kriv diz, arfando cansado.

-Tudo bem, Thália?-Julian pergunta, tenso.

-Tudo! Mas essa foi por poOUAA...!-Thália diz, interrompida por um puxão.

Um grande apêndice se ergue das sombras, agarrando Thália pelo tornozelo, puxando-a para a escuridão. Thália se agarra na porta, tentando chutar o apêndice para longe.

-Thália!-Julian grita.

Julian se joga para segurar a amiga, puxando-a pela mão direita. Krord e Kriv unem-se a Juliam, enquanto Tom e Khale agarram seu braço direito. As feridas no braço de Thália ardem, mas ela se mantém agarrada, mordendo os lábios para suportar a dor.

-Gah!-Thália urra.-Golem!-

-A caminho!-o golem diz, tentando levantar-se.

 Mesmo quase que não suportando o próprio peso, o golem se move para puxar a garota, agarrando-a por debaixo dos ombros, apoiando os pés contra as paredes da porta e forçando-a para dentro, a superfície de seus braços rachando e perdendo textura.
O grupo força e grunhe, usando todas as suas forças para salvar a colega. Mais apêndices se agarram às pernas da garota, que tenta desesperadamente arrancá-los com chutes e mordidas. Krord soca a parede para abri-la, enquanto Tom arranha-a com o pedaço de Krord. Khale tenta usar seu cajado para cutucar os apêndices, apoiada por Julian e Kriv, que golpeiam garras e mãos com as machadinhas. Até que então, um grito ecoa da escuridão, tomando a atenção do grupo. Os grunhidos de esforço e sons de corte que preenchiam a sala, os olhares desesperados do grupo, todos, de repente, calados. O foco em salvar a colega agora direcionava-se às sombras, suas.

-O que que aconteceu, patetas!?-o golem questiona, olhando para trás extremamente confuso.-Foco na...-o golem encara então a escuridão, encarado de volta por um brilho lilás tenebroso.

A Dama de Carne erguia-se sobre a massa de carne no chão, que abraçava seu corpo com seus muitos apêndices, unindo-se a ele numa unidade gigantesca, sua silhueta iluminada pela luz da lua. Sua força bruta, agora sem resistência, arranca Thália das mãos do grupo, puxando junto dessa o golem, lançando os dois para o lado contrário da sala. Num momento de consciência, Krord fecha a porta sobre a criatura, cortando seus apêndices com a força da madeira do ébano. Linha de visão cortada, o grupo cai para trás, confuso.

-O que aconteceu, galera!?-Julian diz, desesperado.-Cadê a Thália!?-

-Lá...fora...-Krord diz, assustado.-Junto do golem e...aquilo.-

Batidas violentas atacam a porta, ecoando pelo salão junto a murmúrios e sussurros.

Fora da sala, o golem e Thália tentam se levantar no escuro, agarrando-se às paredes. O golem se apoia no chão, erguendo Thália com as costas.

-Ergh...acorda, pateta.-ele diz com sua voz grossa e trêmula.-Rápido, ela tá aqui ainda.-

-Argh...onde...?-Thália diz, puxando sua adaga.-Tá um...breu aqui.-

No escuro, Thália escuta o golem procurando algo em seu casaco, quase inaudível entre as batidas e urros da criatura. Uma luz parte então das mãos do golem, um brilho intenso e amarelo partindo de um bastão de cristal nelas, clareando a sala, revelando a silhueta de seu inimigo. A criatura atacava a porta com dezenas de membros carnosos, seu corpo pulsando em espasmos. Incomodada pela nova iluminação, a Dama olha para trás, seu olhar macabro, compartilhado entre seus muitos olhos, encontrando o desespero da dupla de plebeus. Sua face demonstrava cicatrizes visíveis na casca óssea, partida antes pelo bloco de pedra. Sua bocarra salivava e espumava descontroladamente um espuma negra, mordendo o ar com seus dentes destruídos e afiados. Suas muitas faces abocanhavam o chão, arrancando pedaços do concreto e arranhando o granito com seus dentes.

-Klo'met rret!-a Dama murmura.

-C-consegue entender, golem?-Thália pergunta, olhos arregalados com a visão.

-Um...um pouco.-o golem confirma.-"Você de novo!"-

-Et net diesti'oh? Khlo et quio'te...-

-..."Já não te falei antes? Vou ter que explicar de novo..."-

-Ormeto't et empre pigme ik Carn!-

-"Você está perante a imperatriz cor de carne"!-

-Ormeto't et kio klaurre it mouss ik ma'k Anauss!-

-"Você está perante a deusa e musa dos anões"!-

-Ormeto't et Carnera.-

-"Você está perante"..."Carnera".-

-S-sem...t-t-tradução?-

-Sem tradução.-

FIM DO CAPÍTULO 4


Notas Finais


Glossário:
Ariete-Arma medieval geralmente feita de madeira feita para derrubar portões e portas com força bruta.
Draconarte-Raça fictícia do universo de Ghalya. Répteis humanoides com focinhos achatados e a habilidade de baforar fogo. Não possuem cauda nem asas como os dragões, mas possuem garras e escamas.
Enthro-Raça fictícia do universo de Ghalya. Criaturas humanoides com físico parecido com o de um humano mas que possuem uma casca grossa de madeira como epiderme e uma anatomia semelhante a de uma planta.
Golem-Golem é um ser artificial místico, associado à tradição mística do judaísmo, particularmente à cabala, que pode ser trazido à vida através de um processo divino.(definição wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Golem) No universo de Ghalya, são criaturas erguidas de materiais naturais que servem àquele que as criou.
Fantasma- Raça fictícia do universo de Ghalya. Criaturas pequenas porém ferozes que planam pelos ares procurando por alvos fáceis para atacar em enxame ou carniça para devorarem. Possuem garras nas asas(asas que não permitem voo, mas sim planar) e um ferrão venenoso na cauda, além de um crânio exposto com bico duro.


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