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História Carpe Noctem - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Fêmea Fatal


Fanfic / Fanfiction Carpe Noctem - Capítulo 6 - Fêmea Fatal

Mais uma noite chegava para Zenith, Deimos aumentou seu brilho vermelho sobre o céu ao passo que a outra lua perdia seu luar azul, sendo aos poucos engolida pelas vorazes nuvens escuras que rastejavam naquele etéreo oceano negro.

Era o meio da madrugada e Lykania perambulava pela floresta extremamente preocupada, a professora de artes havia imposto um projeto musical para os alunos de todas as turmas do segundo ano, o problema é que ela não sabia nada de música.

A garota caminhava desesperada entre o matagal pensando em como contornaria a situação, seus amigos da cidade entendiam tão pouco quanto ela, e suas poucas amizades dentro da academia também estavam no mesmo barco. Ela sabia que seria difícil se adaptar à melhor escola do país, mas isso já era demais.

De tanto perambular entre as árvores a garota chegou em um ambiente estranho, árvores mortas cercavam sua visão, todas sem folhas e completamente sem vida. O solo revestido por uma camada de folhas secas que estalavam a cada pisada de suas botas e um vento álgido assobiava cantando junto com aquela música. Sim, havia uma música no ar, era som de piano.

E então ela se viu diante de uma casa velha, era de lá que vinha aquela melodia melancólica. Três lápides decoravam a entrada e uma luz amarelada era vista em uma das janelas, olhando melhor também era possível ver uma sombra do que parecia ser um pianista tocando seu instrumento. Apesar de fazer apenas uma semana desde que pisou no colégio ela já tinha ouvido falar na "casa amaldiçoada".

Apesar da má fama do lugar ela estava curiosa demais para simplesmente dar meia volta, se aquilo fosse um fantasma tocando talvez ele a ensinasse música.

A garota entrou e a casa a recebeu prendendo teias de aranha em seus cabelos, aquele alojamento tinha tantas delas que parecia mais uma comunidade de aracnídeos. A garota retirou os fios com um pouco de nojo e seguiu caminho. Estava se preparando para cruzar a sala onde o pianista estava. Mesmo com o receio de se arrepender depois, ela entrou na sala.

A maior parte das peças da sala estavam cobertas por várias camadas de seda, tecidas pelos aracnídeos da casa. No centro da sala havia uma mesa com uma lamparina acesa, a luz amarelada reproduzia a sombra do pianista.

E falando nele, que decepção, não era um fantasma como ela pensou. Era um garoto comum, usava a jaqueta negra com adornos vermelhos do turno da noite, tinha cabelos brancos à altura do pescoço, só a pele que era pálida demais. Seus dedos dedilhavam com fervor as teclas do instrumento, seja lá quem ele fosse, estava tão concentrado em tocar que não a percebeu se aproximar.

—O que você tá fazendo aqui?

O garoto teve um sobressalto assustado, o que acabou assustando a garota também. Virou-se bruscamente como se tivesse fitando alguém que invadiu sua casa.

Agora se encarando melhor os dois se reconheceram.

—Ei, você é aquele cara do primeiro dia!

Ângelo encarava surpreso a invasora que por acaso era a garota que encontrou no almoço da semana passada. Alta e de corpo atlético, longos cabelos castanhos e a pele de tonalidade parda. Em seu braço direito havia um braçadeira vermelha com um grande número "4" estampado, indicando sua nova posição no conselho.

—O que você tá fazendo aqui?! —Indagou nervoso.

—Foi o que eu acabei de te perguntar. —Ela respondeu.

O garoto estava muito nervoso e sem saber como sair daquela situação, só sabia que alguém invadiu seu refúgio e queria aquela garota fora dele. Tentando manter a respiração controlada ele voltou-se para o piano tentando não demonstrar medo, isso seria demonstrar fraqueza. A má fama daquela garota se espalhou rápido pelo colégio, ela não era da nobreza e nem da burguesia, era filha de trabalhadores comuns que entrou na academia como bolsista.

Mas o problema não era esse, e sim sua fama de delinquente. Os boatos diziam que ela veio da zona centro-oeste da cidade onde gangues de delinquentes são comuns, gangues como a de Arseth. Se isso era verdade ou não Ângelo não sabia, mas depois dela ter desfigurado o rosto de Antônio naquela primeira ocasião ele não duvida da possibilidade.

—Vá embora. —Ordenou, voltando a tocar o piano.

Houve um pequeno momento de silêncio, a garota cruzou os braços olhando para o jovem pianista que não lhe dava a mínima atenção, qual era o problema desse cara?

—Olha eu não sinto ódio de você, se é o que está pensando. —Ela disse, referindo-se ao jeito que os dois se olharam no primeiro dia. —Aquilo foi bizarro, mas eu não guardo rancor de uma coisa que sequer aconteceu.

—Não importa, eu quero ficar sozinho. —Respondeu friamente.

A garota não estava com paciência para ficar lidando com o mau humor alheio, já lhe bastava o seu, em qualquer outra situação ela teria simplesmente dado meia volta e ido embora. Mas ainda precisava de ajuda com o projeto musical e aquele garoto parecia ter experiência quando o assunto é música, teria que engolir o orgulho.

Ângelo continuou a tocar, ficou aliviado quando notou que a garota se distanciava, mas se frustrou quando ela pegou uma cadeira no canto da sala e voltou a se aproximar. Sentou-se ao seu lado, observando-o dedilhar as teclas do instrumento.

O garoto ficou ainda mais nervoso, não gostava de ficar muito perto de outras pessoas, mas a garota estava praticamente colada nele. Ela parecia muito interessada na maneira como tocava o piano, visto que não tirava os olhos da procissão de acordes emitida nas teclas do instrumento.

—Você toca muito bem. —Ela quebrou o silêncio entre os dois. —Não sei nada de artes, menos ainda de música, mas você toca bem.

—O que você quer? —Questionou, mas sem tirar os olhos do instrumento.

—Será que tem como... Me ensinar?

—Não.

Ele voltou a ignorá-la, voltando ao transe que estava antes. Lykania franziu os olhos em irritação.

—Está com medo?

—Como assim?

—Eu consigo ouvir seu coração batendo mais rápido. Sei farejar quando alguém está com medo de mim.

A garota aproximou o rosto próximo ao dele, por instinto o garoto recuou, parando até mesmo de tocar a música.

—Você não tem o físico de um lutador, e só essa sua postura já é suficiente para te julgar como um classe delta.

A voz dela assumiu um tom ameaçador, os olhos vermelhos fustigavam o garoto com uma sede de sangue assustadora. O garoto engoliu seco e fez o possível para não tremer. Por um segundo sua mente visualizou ele próprio caído no chão, envolto por uma poça de sangue e com o corpo rasgado.

—Agora que eu parei para notar, você parece ser bem apetitoso. —Mencionou, lambendo os lábios. —Posso tirar um pedaço?

Ele sentia respiração quente da garota escapando por entre aqueles dentes afiados, um fio de saliva escorreu pelos lábios gotejando nele quando ela chegou perto demais.

Ângelo estava congelado em apreensão, aquela situação era bem diferente das outras pela qual passou. Por mais desgraçados que Felícia e Antônio fossem nenhum dos dois eram violentos ao nível de um delinquente de verdade. Essa seria a primeira e última vez que seria o brinquedo de uma delinquente, última porque não sabia se tinha potencial para permanecer vivo depois da primeira vez.

No entanto, contrariando sua expectativa, a garota nada fez. Ao invés disso ela apenas deu uma risada travessa antes de levantar-se da cadeira, estava apenas brincando, rindo de sua cara de idiota.

—Assustei você? Foi mal, eu não devoro gente covarde, me dá indigestão. —Gargalhou enquanto deixava a sala. —A partir de agora eu vou te chamar de fantasma, a gente se vê outra noite, fantasma.

A garota saiu deixou a casa e Ângelo soltou um suspiro de alívio, por um momento achou passaria pela mesma experiência que Antônio foi submetido na primeira noite de aula. Sorte que ela simplesmente foi embora, seria um problema ter alguém perigoso como um ranker delinquente por perto. 

Apesar do alívio inicial, logo a sensação da angústia fria instaurou-se de forma súpeta em sua alma, esse sentimento invasor que o acompanhou desde a surra de boas vindas dada por Isaac já começava a ficar irritante. Apesar disso o garoto focou-se em tocar o piano, não estava nada bem, quase morreu na noite anterior e mesmo agora ainda estava se recuperando do susto.

O que aconteceu não era algo que podia simplesmente ignorar, o mais prudente a se fazer seria avisar a seus pais sobre Arseth, mas uma parte de seu ser o impedia de fazer isso, tinha receio disso fragilizar ainda mais sua relação com seus pais, fora o prejuízo e o trabalho que daria para a cidade se o duque decidisse bater cabeça contra o tio de Arseth.

Alguns momentos se passaram até a madrugada chegar em seu momento mais silencioso, Ângelo cansou de ficar apenas tocando e resolveu ligar o rádio em uma estação local, a voz estática começou a falar.

"Tem gente que jura ter visto o cão negro rondando a área mais baixa da cidade, mais uma para o depósito de lendas de nossa querida Risteria, assim como o espírito do monastério abandonado e os túneis das catacumbas".

Enquanto prestava atenção na voz estática do rádio Ângelo pegou um pequeno saco de pano no lado do piano. Puxou de dentro uma pequena esfera maciça de uma cor vermelha e a engoliu.

Segundo o vendedor a esfera vermelha é um cultivador milagroso capaz de aumentar o poder de um classe delta e beta. Já as esferas negras são os ativadores do cultivador. Ele deveria tomar uma vermelha toda noite por uma semana para cultivar o efeito e então tomar preta quando quisesse ativar o poder. Havia no entanto o risco de seu corpo rejeitar a droga, esse era o porém mencionado pelo vendedor, as chances são baixas, mas caso ocorra as consequências serão muito ruins para o corpo, podendo resultar em morte.

—Se essa merda funcionar de verdade então o risco vale a pena. —Disse antes de engolir.

Não sabia se aquele vendedor estranho de ontem estava falando sério, ele podia simplesmente estar mentindo sobre aquela droga "milagrosa", mas se não estivesse Ângelo nunca se perdoaria de deixar passar a chance de não ser mais "só um classe delta" como todos falam. Ninguém teria coragem de desrespeitá-lo e seus pais teriam que vê-lo da mesma forma que viam o queridinho Wagner.

***********************

Na cidade, Lykania aproveitava o resto do final de semana antes das aulas recomeçarem, e ela não estava desacompanhada. O grupo de quatro garotas estava em um beco escuro entre os prédios da cidade, a princípio o pior lugar para alguém conversar com os amigos, considerando o risco de sofrer algum tipo de crime. Mas pouca gente mexeria com elas, afinal quando se tem um grupo de jovens barulhentos reunidos em algum lugar exótico isso significa só uma coisa, delinquentes.

Delinquentes são grupos de jovens entre 14 e 20 anos de comportamento questionável, gostam de brigar e vivem perturbando a ordem pública. Eles vão desde jovens que apenas querem aproveitar ao máximo suas vidas até aspirantes à gangsteres. É um verdadeiro incômodo público que surgiu nos últimos anos.

—Hey Lykania, o que você acha desse brinquedo aqui? —Disse uma das garotas, segurando uma boneca de pano nas mãos.

—Tira isso de perto de mim! —Gritou.

Lykania deu um forte tapa na boneca, arremessando-a para o outro lado do beco.

—Você sabe que eu odeio bonecas, Débora!

As outras três garotas riam da cara patética que ela fez. Lykania era a única do grupo usando o uniforme da academia, suas amigas usavam peças de roupas mais simples comparadas às dela.

—Nunca vou entender como logo você tem medo de uma coisa dessas.

—Ah desculpa, até porque foi escolha minha não é? —Respondeu da forma mais sarcástica possível. —Onde foi que você conseguiu isso?

—Uma mulher deixou cair na rua, eu até tentei devolver, mas ela correu quando chamei por ela. Acabou que eu fiquei com a boneca, acho que vou dá-la pra minha irmã caçula.

A garota pegou a boneca, dessa vez colocando-a fora da vista de Lykania.

—Mas mudando de assunto, como está sendo lá no colégio dos riquinhos? —Perguntou outra amiga.

A garota sorriu e ostentou a braçadeira vermelha em seu braço para as amigas.

—Estão vendo isso? Sou a quarta mais forte do turno da noite, na minha frente só tem um vampiro e dois classe sigma!

—Aí eu gostei de ver! —Comemorou a outra amiga chamada Natália. —Cão de raça perdendo pra vira-lata

—Eu ainda queria queria o primeiro lugar no conselho, infelizmente os top 1 e 2 são classe sigma, já estão em outro nível.

O grupo comemorou a posição da amiga no colégio.

—Mas fora isso o resto tá uma bela bosta. Aquele bando de mauricinhos não gosta de mim e eu também não fui com a cara deles, sinceramente, se isso não facilitasse minha entrada para os jaegers eu dava o fora daquele lugar.

—Jaegers não amiga, não combina contigo. —Protestou Débora. —Eles não gostam de gente como nós, escolhe algo melhor, tipo a guilda dos caçadores.

—É, escolhe outra coisa. —Concordou Natália. —Jaegers dizem servir ao povo, mas são só pau mandado dos governotários e dos parlamentardados dessa cidade, você consegue coisa melhor que isso.

—E se você conseguisse um trabalho com o tio do Arseth? —Disse Tamadre, a última garota do grupo.

—Licaão que me livre, isso nem em meus piores pesadelos! —Protestou Lykania. —Odeio o aquele babuíno epiléptico do Arseth, se pudesse eu lavava a cara dele no chão assim como fiz com aquele mauricinho que derrubou comida em mim no colégio.

—Vai com calma, quer ser expulsa ainda na segunda semana de aula?

—Estou me esforçando para não ser, comecei até a fazer boas ações, por exemplo hoje mesmo encontrei um mauricinho tocando piano, apesar da atitude arrogante eu impedi que ele tomasse uma surra.

—Sério?

—Sim, tive autocontrole.

O grupo gargalhou alto, chamando a atenção de algumas pessoas na rua. As garotas trocaram papo sobre todos os problemas que já se meteram em seus antigos colégios até finalmente decidirem sair daquele beco escuro. Enquanto se aventuravam pelas ruas o assunto acabou mudando.

—Mas voltando a falar em Arseth, você soube do problema que ele se meteu?

—O que o idiota fez?

—Aconteceu ontem, o tio dele deu-lhe uma boa surra por que ele fez uma merda das grandes.

—Haha, bem feito, qualquer desgraça para ele é pouca.

—O boato que ouvi foi de que ele fez outra daquelas caçadas doentias que sempre terminam em morte, só que dessa vez tinha o filho de um aristocrata envolvido e o garoto ainda escapou no final.

—Ele mexeu com o filho de um aristocrata? ele perdeu a noção?

—Noção ele nunca teve, a diferença é que antes o tio dele fazia vista grossa.

As garotas caminhavam distraídas pela rua a caminho da parte mais baixa da cidade. Bastou um único olhar distraído em direção os flancos para Lykania cessar a caminhada, suas amigas estavam tão entretidas que passaram por ela sem notar.

A garota estava parada na frente de uma vitrine escura, as luzes do interior estavam apagadas exceto por duas órbitas vermelhas brilhando na vidraça. Ela encarava o que parecia ser um par de olhos malignos, mas havia algo estranho, quando seu reflexo passava por cima das esferas elas desapareciam e não mostrava nada do outro lado.

Era como se aquela coisa estivesse entre ela e o vidro mas apenas reflexo fosse visível, ou talvez estivesse no próprio vidro em si? As garras de Lykania cresceram em seus dedos por instinto, não fazia ideia do que estava acontecendo, mas sentia-se ameaçada, olhando fixa para a coisa no reflexo.

E então surgiu no vidro o que pareciam ser os dentes da abominação, dentes brancos e mal alinhados na boca, prontos para atacar.

—Lykania!

Assim que piscou a coisa não estava mais lá, havia apenas seu próprio reflexo. A garota ficou confusa.

—Lykania, vem logo! —Suas amigas chamavam.

—Tô indo. —Avisou.

Afastou-se lentamente daquela vidraça, mas ainda atenta e desconfiada. Suas amigas questionaram o que havia acontecido.

—Nada. —Respondeu. —Não foi nada.

 


Notas Finais


Olá pessoas, como sempre venho pedir para que comentem o que acharam.
That's all folks!


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