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História Como Treinar o seu Kwami - Capítulo 27


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Notas do Autor


E ai gente, tudo bom com vocês? Voltei um pouco mais cedo dessa vez para lançar logo esse capítulo da esperada aparição do Luka (finally). Não poderia deixar de agradecer à malavilosa @Hai_The_Wolfox pela incrível arte da capa! Você é demais Hai!

Pessoas, esse capítulo trata de um tema bem complicado, mas espero que vocês entendam a crítica que fiz. Na vida, não há vilões ou heróis, há pontos de vista. E eu tentei trazer um pouco da visão de um pensador chamado John Rawls, pelo qual eu nutro tanto admiração quanto críticas. Dito isso, boa leitura, espero que gostem!

Capítulo 27 - Reflexos


Fanfic / Fanfiction Como Treinar o seu Kwami - Capítulo 27 - Reflexos

V: O que fizeram comigo me criou. É um princípio básico do universo. Que toda ação cria uma reação igual e oposta

- V de Vingança

P.O.V de Juleka

 Senti as gotículas de suor escorrerem pelas minhas mãos, enquanto eu aguardava ao lado dos outros candidatos, os quais vinham de todos os jeitos. Alguns já tinham os braços repletos cicatrizes, enquanto outros pareciam ter mais barba do que rosto em si. Uns eram rápidos e baixos, outros grandes e musculosos.

Mas, apesar daquelas diferenças, todos demonstravam ter algo que me faltava: a segurança e a garra de verdadeiros capturadores. Aquele último pensamento fez minha mão vacilar e, pela terceira vez, derrubei o meu arco, bem no instante em que uma mulher, de aparência séria, entrou na sala e ordenou para ficássemos em silêncio:

- Bom dia para todos – ela começou, em voz ríspida – Sejam bem-vindos à 35o prova de bolsa da Academia Belle Vue, para a formação de futuros capturadores. Como primeira parte do teste, vou pedir para que vocês preparem seus arcos e tentem acertar o alvo central. Boa sorte!

Respirei fundo, quase podendo ouvir a voz do meu irmão: “Não é difícil Jules, primeiro você tem que posicionar os seus pés na linha demarcada, e ficar de lado para o alvo. Depois, você coloca a flecha na corda com a mão esquerda, e puxa suavemente com a direita. Inspire, olhe para o alvo, e puxe a corda até ela tocar a ponta do seu nariz. Então, você alinha o arco e solta a flecha. Viu? Simples? Eu sabia que você ia conseguir”. 

Ai meu irmão, tão bondoso, mas sempre tão iludido quando se tratava das minhas habilidades. Balancei a cabeça em negação, no instante em que som de uma campainha me trouxe de volta à realidade. Enquanto divagava, ainda tentando lembrar em como manusear aquela arma, todos os candidatos tinham realizado o disparo. Sendo que oito dos nove haviam acertado bem no centro.

- Tempo esgotado! – murmurou a instrutora.

Que? Como assim? Mas, eu nem tinha tido a chance! Será que ela deu pelo menos um minuto para que realizássemos aquela prova?

- Ma-ma – tentei protestar.

- Coloquem os arcos no lugar e me sigam até a próxima sala. – falou ela, me ignorando completamente.

Em obediência, corri para guardar o meu arco junto com os outros, sentindo um grande nó na garganta. Incrível, o teste mal tinha começado e eu já estava para trás, como de costume.  

Às vezes eu sentia como se a vida fosse uma grande corrida, em que nem todos começavam da linha de largada. Quando o apito soava, indicando o início da grande competição, alguns já se encontravam no meio na pista, enquanto outros eram forçados a correr com correntes de 10kg amarradas nos pés. A meritocracia não passava de uma história bonita, contada aos filhos dos grandes poderosos. Já a realidade, bom, ela era um pouco mais complicada. Por que eu não soltara o arco alguns segundos antes? Por que?

Sem ter muita escolha, segui os outros alunos, que exalaram ainda mais confiança ao verem qual seria a próxima prova: uma parede de escalada. Como exatamente aquilo nos ajudaria a capturar um akuma estava além da minha compreensão. Antes de começar o desafio, parei para passar talco sob as mãos, que estavam muito úmidas. Mas, aparentemente, os outros não tinham problema com aquilo. Pelo contrário, mais pareciam ter teias nas mãos, como se fossem mini-versões da Anansi.

Quando me dei conta, todos já estavam pelo menos na metade do percurso, e três se encontravam bem no topo. Sem desejar ficar (ainda mais) para trás, iniciei enfim a nova provação.  No entanto, minhas mãos estavam tão suadas que, mesmo com o talco, escorreguei ainda na metade da escalada, não quebrando o pescoço por muito pouco. Os outros candidatos riram do meu desastre e, antes que eu pudesse reiniciar o processo, a instrutora avisou, novamente, que o nosso tempo estava esgotado.

Por fim, a senhora nos conduziu até um pátio aberto, coberto de grama. Todos nós nos olhamos em confusão, nos perguntando onde estaria o próximo teste. Até que um homem abriu uma porta no fundo, liberando um verdadeiro exército de cães selvagens, os quais vieram bem em nossa direção.

Alguns dos candidatos arremessaram objetos para distrair ou incapacitar os cães, enquanto os mais medrosos, se jogaram no chão em posição fetal, uma da melhores estratégias biológicas para ser ignorado por uma fera. Mas, é claro, eu tive que fazer a coisa mais estupida de todas: sai correndo em disparada.

Atraídos pelos meus movimentos bruscos, todos os cães partiram para cima de mim, ao mesmo tempo. E quando eu senti o primeiro agarrando a parte inferior da minha coxa, joguei-me no solo, preparando-me para meu fim.  Só que, aparentemente, a Academia Belle Vue não tinha autorização para matar ninguém logo no processo seletivo. Ainda.

Bem naquela hora, a instrutora soprou um longo apito, fazendo com que os cães caíssem no chão, como gatinhos adormecidos. Infelizmente, meu alívio não durou quase nada:

- Você! – disse ela apontando para mim – Está fora! Nunca em todos meus anos vi uma candidata mais despreparada, você nunca...nunca conseguirá uma vaga em nossa Academia!

Assim, machucada, suja de terra e humilhada, saí da sala, enquanto todos os outros comemoravam que havia “menos uma concorrente”. Meu plano era sair  correndo até em casa, onde eu poderia chorar em paz até desabar. Mas, assim que eu cheguei na entrada do centro de treinamento, algo me impediu. Ou melhor, alguém me impediu. Era Luka, que segurava na mão um pequeno lírio-do-campo, a minha flor preferida:

- Jules, você... – a voz dele morreu ao ver meu estado – O que aconteceu, irmãzinha?

Nem tive como responder, apenas me joguei nos braços dele e comecei a soluçar. Ele me abraçou de forma doce, e passou a mão nos meus cabelos, da mesma forma que fazia desde que eu era criança. E, somente depois deu ter me acalmado um pouco, o garoto voltou a falar:

- Ju, não pode ter sido tão ruim assim... – ele falou na sua habitual calmaria – Eles demoram uma semana para oficializar os resultados..talvez...

- Eles me expulsaram – o interrompi – De novo, eu nem consegui terminar o teste.

- Ainda terão outros seletivos de bolsa. – ele me lembrou – Ouvi dizer que terá um outro teste amanhã mesmo, você pode...

- NÃO! Você não entende Luka? Eu não tenho nenhuma chance, nenhuma! – explodi -  Todos esses outros frequentaram um milhão de escolas preparatórias, antes de fazer os seletivos para as bolsas. Se nem você, que é muito mais habilidoso que eu, conseguiu uma...como eu... Oh céus – pausei – O que a Rose vai pensar de mim? – disse, citando o nome da minha namorada.

Apesar da Rose também não ter sido capaz de adquirir uma bolsa em uma das academias “de elite”, ela conseguira ser admitida em um dos poucos centros comunitários de Berk. No entanto, as vagas desses locais eram escassas, e ela tinha sido a única do nosso grupo de amigos que conseguira atender todos os minuciosos critérios socioeconômicos.

  – Ela vai achar que eu sou uma decepção, eu sou uma decepção – enfatizei, com o coração na mão.

- Juleka – meu irmão exclamou – Você não é uma decepção, nunca!

- Tem razão! – disse certa – Eu não sou uma decepção! O Governo de Berk é que é! Eles gostam de se vangloriar que “todo mundo tem a chance de virar capturador aos 16 anos”. Todo mundo uma ova, quem realmente precisa de uma bolsa nunca consegue! Não tem como competir com esses riquinhos filhos de papai!

- JULEKA! – ele gritou – Se continuar assim você vai...

Entendi de cara o que Luka queria dizer, mas era tarde demais. Antes que eu pudesse perceber, uma borboletinha surgiu no ar, pronta para se apoderar de mim.

- Juleka – disse uma voz dentro da minha cabeça – Eu sei como você se sente. Esse governo de Berk, cheio de inúteis.  Nunca olham para invisíveis como você. Mas, não se preocupe, tudo vai dar certo. – a voz pausou -  Agora, Reflekta, você terá o poder de criar reflexos da sua versão akumatizada. E em troca, só peço uma coisa: vá até os cursinhos preparatórios e se certifique em tornar o sistema justo para todos, do nosso jeito.

 – Com todo o prazer, meu mestre. – concordei.

 Sim, aquilo era perfeito. E já que Gabriel Agreste era incapaz de criar uma ilha com oportunidades iguais para todos, então eu me certificaria disso. Custe o que custasse.

...

 P.O.V de Adrien

Meu coração parecia estar prestes a explodir, e não somente porque eu estava em uma corrida frenética, sem intervalo.  Marinette mal tinha trocado uma palavra comigo desde a nossa “conversa” na sala dos armários, e nossos colegas não deixaram de perceber que algo havia acontecido entre nós. A tensão era tanta que poderia ser sentida no ar, e juro que por mais de uma vez vi Alya apontar o machado para mim, enquanto me fuzilava com o olhar.

Para piorar, pelo o que os civis nos indicavam, a akumatizada, que se denominava Reflekta, estava indo em direção à área escolar de Berk, o que não seria nada favorável para nós.  Assim que nos aproximamos da Ensoleillement - uma escolinha famosa, por preparar vikings desde a infância para os testes das academias – todos os boatos foram confirmados.

Diante de nós, estava uma das akumatizadas mais estranhas que eu já vira.  Ela tinha um cabelo rosa, e um vestido bufante da mesma cor. Quem a olhasse de longe poderia pensar que era inofensiva, fofa até. Mas, assim que nos viu ela pareceu ativar alguma espécie de “modo combate” e começou a nos atacar, sem piedade.

Daquela vez, Alya e Nino não agiram de imediato, como faziam no começo dos treinos. Primeiro, eles deixaram que Chloe distraíssem a akumatizada, até que ela quase morresse de irritação. E quando a Reflekta já estava estritamente focada na garota loira, o casal a cercou, um de cada lado, não deixando qualquer espaço para uma fuga.

Alya colocou o machado sobre o pescoço da akumatizada, no mesmo instante que Nino chegou por trás, quebrando uma estranha pulseira, que tínhamos quase certeza que era o local onde o akuma estava assolado. Não obstante, ao invés de voltar ao normal, a garota desapareceu no ar. Literalmente.

- O que?! – nos cinco exclamamos, em um susto compartilhado.

 Com uma expressão desconfiada, Marinette pediu para que a seguíssemos cautelosamente: teríamos que entrar dentro da escolinha preparatória para ver o que diachos estava acontecendo.  Contudo, nem foi preciso esperar muito, mal tínhamos aberto a porta quando nos deparamos, mais uma vez, com a Reflekta. Ou melhor, com três cópias dela. Sem piscar, a azulada usou sua Helena para destruir a primeira pulseira, enquanto Chloe e Alya faziam o mesmo com as duas restantes.

- O que está acontecendo aqui? – Alya deixou escapar, sem esconder o desespero.

- Calma, Al - falou Mari, com um sorriso – Já enfrentamos coisas piores, só precisamos ficar juntos, atentos e com os potes em mã.. – de repente, a voz dela morreu – Deuses, como eu sou burra! Na pressa para sair, eu esqueci de me reabastecer com potes de captura. Alguém tem um sobrando?

Eu tinha. Bem mais que o necessário, aliais. Mas, não havia como eu abrir minha bolsa na frente de todos. Não sem que o meu segredo fosse revelado. De qualquer forma, não é como se todos dessem o azar de estarem com o número mínimo de potes. Certo? Acho que o destino estava rindo da minha cara, porque todos os três negaram. Para piorar, Nino não demorou a acrescentar:

- Eu tenho apenas um. Mas, o Adrien pegou alguns potes extras enquanto vocês se arrumavam.

- Verdade? – ela perguntou, olhando para mim pela primeira vez desde o começo da luta.

- Hã-hã n-na ver-verdade – gaguejei, enquanto, por instinto, puxava minha bolsa para mais perto.

- Ah claro! – Mari disse, num tom sombrio – A bolsa misteriosa.

- O que? – perguntou Chloe, em confusão.

- Lembra daquela época que você brincava que eu namorava minha espada, Bourgeois? – perguntou Marinette olhando para a garota– Pois é, aparentemente eu deveria ter ficado nessa, porque pelo menos a Helena não guarda segredo dos outros...

- Do que ela tá falando cara? – perguntou Nino, estranhando a situação tanto quanto os outros – E por que você está segundando sua bolsa desse jeito? Como se estivesse prestes a ser assaltado? Mano, seja lá o que tenha aí dentro não importa agora, só dá um pote pra Mari. Ela realmente precisa.

Oh... se ele apenas soubesse. Se eu não desse um pote para Marinette, na pior das hipóteses, eu correria o risco de atrapalhar a nossa missão.  Mas, se eu abrisse a bolsa eu perderia não só minha namorada como todo o resto. O que eu faria? Que desculpa razoável eu tinha para recusar dar um pote de captura para minha namorada no meio de um ataque?

Infelizmente, parece que Marinette não me daria mais tempo de pensar ou mesmo o benefício da dúvida:

- Sério? – ela perguntou, adquirindo uma coloração vermelha – Você prefere correr o risco de atrasar a captura da borboleta do que abrir a bolsa na nossa frente? O que você está escondendo de tão importante? Me responda, aqui e agora, Agreste.

Abri e fechei a boca, sentindo todos os pares de olhos em cima de mim. Levei minhas mãos trêmulas em direção à bolsa, sinto muito Plagg, pensei. Até que, de repente, tomei um dos maiores sustos da minha vida. Nós cinco estávamos tão envolvidos na briga entre eu e Mari, que nem percebemos que um dos “clones” estava se aproximando rapidamente, bem na direção da minha namorada.

Foi tudo tão rápido, e eu estava tão nervoso, que nem tive tempo de reagir.  Antes que eu percebesse, um flash azul chegou e empurrou Marinette no chão, ao mesmo tempo em que lançou um machado contra a cópia da akumatizada, a destruindo por inteiro.  

Nosso grupo se virou de imediato para encarar aquele garoto desconhecido e tão habilidoso. Ele era alto e forte, parecia até mesmo mais musculoso do que eu. Seus cabelos eram pretos, com as pontas tingidas de azul-marinho, e seus olhos cor de ciano estavam inteiramente focados em Marinette:

- Você está bem? – disse ele, parecendo genuinamente preocupado.

Percebendo que Mari parecia tonta demais para levantar sozinha, corri para lhe estender a mão, no exato instante que garoto fez o mesmo. Mas, a azulada nem hesitou, e pegou de cara a mão do nosso rapaz misterioso. O que aquilo significava?

- Sim, o-obrigada! – a garota disse, enquanto se levantava.

Espera, ela estava gaguejando? Por que ela estava gaguejando? Desde quando Marinette Dupain-Cheng ficava nervosa na frente de alguém? Quem era esse cara?

- Muito prazer – ele disse com uma voz enjoativa – Eu me chamo Luka Couffaine.

- Marinette Dupain-Cheng – a azulada respondeu com um sorriso.

- Marinette Dupain-Cheng? – ele perguntou, incrédulo – A Marinette Dupain-Cheng?

- Bom, sim.. – disse Mari, corando.

Marinette parecendo envergonhada? O que diacho estava acontecendo ali?  Pelos deuses! Eu sei que eu estava agindo como um idiota, mas... Não, não tinha nem um “mas”, uma voz me repreendeu, para Mari, eu estava sendo o maior otário de todos. E ponto. Como eu poderia esperar que ela me entendesse se eu não lhe dizia nada?

- Muito bem, muito prazer em conhece-lo. Mas, chega de conversa – interrompeu Chloe, para minha alegria – Enquanto estamos aqui discutindo, aquela akumatizada pode estar fazendo várias vítimas com aqueles reflexos dela mesma. A única forma de acabarmos com isso, é destruindo o objeto da fonte. Mas, como? A verdadeira akumatizada pode estar em qualquer lugar!

- Não se preocupe, eu sei onde ela está indo! – disse o Sr. perfeição.

- O que? Como? – questionou Alya.

- Porque ela é minha irmã! – ele revelou.

Após um segundo de silêncio, Marinette franziu as sobrancelhas, então falou:

- Ótimo! Então você vem com a gente!

- Mas, de jeito nenhum – disse em voz alta, sem conseguir mais controlar meu ciúme.

- E posso saber por que não, Agreste? – ela desafiou, com uma mão na cintura.

- Po-po-porque – disse, enquanto suava, tentando encontrar uma desculpa razoável – Porque independente de que Academia ele seja, com certeza esse garoto ainda não é preparado para enfrentar akumas! Você sabe bem que o Françoise Dupont é a única escola     que permite que os estudantes enfrentem akumatizados antes do fim do curso. Ele ainda não está pronto. – enfatizei.

Ok, aquela desculpa foi péssima. Além de muito muito idiota. Eu jamais zombaria alguém de outra academia. Até porque, sabia que apenas tinha entrado na melhor delas por conta da influência do meu pai. Mas, os meus instintos possessivos estava falando mais alto. E eu não queria, de jeito nenhum, que aquele garoto fosse conosco.

- Você não pode estar falando sério! – disse Mari – Pois está bem, aja como quiser. Mas, eu não sou obrigada a trabalhar com você assim. Vamos nos dividir em dois grupos! – anunciou - Eu, Chloe e Luka iremos procurar a nossa akumatizada. Enquanto, você, Nino e Alya lutam contra os clones e protegem as crianças.  

- Não, eu.... eu não quero ficar defesa – falei, sem querer que aquele idiota ficasse perto da minha namorada – Eu, Luka e Chloe vamos atrás da akumatizada. Enquanto vocês – falei apontando para o restante deles – Ficam com a defesa das crianças.

- Como é? – ela arqueou a sobrancelha.

- Não, tudo bem. Eu não me importo em ficar com eles – disse Luka, lançando-me um olhar de compreensão – Acho que minha namorada também ia ficar com ciúmes se soubesse que lutei do lado de uma das melhores capturadores de Berk. -  falou ele, dando ênfase a palavra “namorada”.

Oh, era oficial, eu era mesmo um grande idiota. Estava tão fora de mim que, ao invés de agradecê-lo por salvar a Marinette, inventara uma crise louca de ciúmes completamente desnecessária. Ai meus deuses, o que estava acontecendo comigo?

Sem perder mais tempo, o primeiro grupo se despediu, enquanto os três restantes de nós seguimos o caminho oposto, passando por vários corredores repletos de “reflexos” da akumatizada, como Chloe diria. Mas, se Luka se sentia incomodado ao ter que matar, repetidas vezes, duplicatas da irmã, nada demonstrou.

Sendo sincero, naquele curto período de tempo, pude perceber que o garoto era um dos guerreiros mais incríveis que eu já tinha visto. Seus movimentos com o machado eram suaves e sincronizados, o assemelhando às habilidades que Marinette tinha com sua Helena.

- Nada mal, Couffaine – disse Chloe em um dado momento – Até que para alguém que não é do Françoise Dupont você não é um desastre total. Qual sua academia? É a Nova Asgard? – ela perguntou, citando o nome do segundo centro mais renomeado.

- Não venho de nenhuma academia. – ele respondeu friamente.

O que? Nossa, aquilo era novidade. Se aquele garoto lutava tão bem quanto qualquer um de nós, sem sendo estar devidamente treinado, mal imaginava o que ele seria capaz de fazer com uma boa prática.

- Como assim? – perguntou a loira, sem esconder o choque – Isso é ridículo! Quase não temos capturadores descentes hoje em dia. Como nenhuma academia aceitou você?

 - Infelizmente nem todos são ricos, influentes ou famosos o suficiente para entrar em uma.

A expressão de Chloe endureceu com aquela frase, mas ela não ousou dizer nada. Pela primeira vez, a filha do Sr. Bourgeois estava sem palavras. A frase de Luka foi como um soco nos nossos estômagos, porque todos nós do Françoise Dupont nos encaixávamos em alguma daquelas categorias.

Nino e Chloe vinham de famílias muito ricas, por isso não tiveram grandes problemas em pagar as taxas da Academia. Marinette e Alya eram bolsistas, apesar de não serem exatamente pobres. A primeira entrara por influência do meu pai, enquanto a segunda devido à antiga fama da minha irmã. E eu..., bom, eu nunca nem sequer precisei me preocupar com testes ou mensalidades já que era filho do chefe da ilha.

Na verdade, pensando bem, pelo menos 90% dos melhores capturadores da história de Berk tinham uma origem semelhante à nossa. Havia muito poucos que não vieram de uma família rica ou influente. Como eu nunca percebera isso?

- Desculpe – Luka se apressou em dizer, enquanto ainda corríamos – Isso foi rude, vocês não tem culpa de terem a vida que tem.

- Mas, por que você não se candidatou a uma Academia Pública? – questionei – Meu pai passou anos dedicando-se à construção delas, para que todos tivessem a chance de serem capturadores.

- Aparentemente, elas não são o suficiente.  – ele falou, com um suspiro - Tem gente demais para vagas de menos. E, eu não tive a sorte de entrar em uma.  Só que isso não importa agora, vamos estamos quase chegando.

- Onde? – perguntei, curioso.

- Vocês vão ver. – o garoto se limitou a dizer.

Mas, apesar deu ter imaginado vários lugares onde Reflekta poderia estar, nunca imaginei que pararíamos em um corredor colorido, cheios de desenhos pregados nas paredes.

- Isso aqui é o corredor do jardim de infância? – perguntei, sem entender mais nada.

-  Sim – ele respondeu com um ar sombrio – Juleka sempre quis entrar nesses cursos preparatórios mais precoces, para ter mais chance de conseguir uma bolsa em uma Academia. No entanto, nossos pais sequer conseguiram arcar com a mensalidade de um cursinho desses. Se os kwamis querem mesmo que minha irmã se vingue do sistema, ela deve ter começado por aqui, na origem de todas as desigualdades.

- E como exatamente ela pretende se “vigar do sistema? – perguntei.

- Algo me diz que nós não vamos querer saber essa resposta – o garoto disse, com a voz trêmula.

Infelizmente, Luka estava certo. É, eu preferia não ter obtido a resposta. Assim que abrimos a porta da primeira sala, nos deparamos com uma cena digna de um livro de terror! Todas as crianças, mais um professor, estava caídos no chão, formando várias poças de sangue. Imediatamente, começamos a checar uma por uma. E não pude deixar de sentir um momentâneo alívio ao constatar que muitas ainda respiravam. Mas, logo a confusão veio. Por que? Por que deixa-las vivas?

- Agreste – Chloe sussurrou – Veja! Elas estão todas com os braços ou pernas feridos ou amputados.

- Sim – disse Luka, sem exibir surpresa – Estive com Juleka no momento da akumatização. Não acho que o objetivo central dela era ocasionar um massacre. Minha irmã só queria igualar as oportunidades no acesso às bolsas, para que aqueles incapazes de pagar cursos preparatórios, como nós, ao menos tivessem uma chance. Acho que ela pensou que aleijar todos os alunos dos cursinhos seria o suficiente para compensar essa diferença entre “nós” e “eles”.

Senti minhas entranhas revirarem diante daquela conclusão! Que tragédia! Elas eram apenas crianças. Mal sabiam o que era “injustiça”. Pelos deuses, provavelmente elas nem tinham aprendido a escrever naquela idade. Em quantas salas Reflekta já não teria passado? Estávamos prestes a seguir em frente, a fim de evitar mais fatalidades, quando ouvimos um pequeno choro, vindo de um armário no fundo da sala.

 Imediatamente, corri para abrir a porta do cômodo, onde havia um garotinho de uns seis ou sete anos, com olhos levemente puxados e com o cabelo escuro como o carvão. Com a abertura da porta, ele se assustou, encolhendo-se ainda mais para o fundo do armário, enquanto abraçava um objeto dourado em sua mãozinha esquerda.

- Pelos deuses! – gritou Chloe – Esse guri conseguiu escapar! Como você fez isso? Me diga! – exigiu, fazendo com que o menino se encolhesse ainda mais de medo.

- Não fala assim com ele. – pedi, tentando me manter calmo – Oi, garotinho – falei com a mais suave dos tons  – Qual o seu nome, pequeno?

- A-A... Arthur– disse ele, com uma voz baixinha. – Ma-mas, meus amigos me chamam de Artie.

- Muito prazer, Artie – falei, estendendo minha mão – Eu sou o Adrien, o Adrien Agreste.

- Adrien Agreste? – ele perguntou em surpresa – O.. o Adrien Agreste?

- Sim – concordei – E esses são Chloe e Luka, viemos te ajudar. O que aconteceu com você?

- Eu estava na minha aula de introdução ao uso de armas – ele falou, tentando controlar os soluços insistente – Quando aquela mulher com roupas engraçada apareceu do nada e nos atacou. Todos os meus amigos estão...

- Shh – pedi, enquanto a carregava no colo – Está tudo bem agora, eu estou com você. Você está seguro, Artie.

- Garotinho – falou Luka, também em voz baixa – Como você conseguiu ficar aí sem que a Reflekta te achasse?

-  Ela me achou – ele disse, fungando. – Mas, então, a Iris me protegeu.

 - Iris? – perguntou Chloe, franzindo a testa  – Mas, quem é Iris? – exigiu saber.

- Iris é o meu espelho da sorte – ele falou, revelando o objeto que carregava na mão – Foi o último presente dos meus pais, antes deles serem atacados por um akumatizado. E, meu tio me diz que, enquanto eu estiver com ela, eu estarei seguro. A Iris sempre me protege de tudo.

- Claro – disse com um sorriso, mesmo que ainda não entendesse como aquele garoto havia sido o único a escapar do ataque da akumatizada. Um milagre, talvez? Vontade dos deuses?

- Gente – falou Chloe – Sem querer cortar o clima, mas nós ainda temos uma akumatizada ridícula para derrotar.

- Mas, e ele? – questionei, sem tirar o garoto do colo – Não podemos deixa-lo aqui sozinho, é muito perigoso.

- É, não podemos – concordou Luka – Agreste? Você consegue correr com ele? Eu protejo suas costas, enquanto Chloe cuida dos reflexos da frente. Pelo menos até arrumarmos um lugar seguro para o Artie.

Sim. Depois de todas aquelas semanas treinando sem parar, tanto no Françoise Dupont quanto de noite com Plagg, finalmente sentia que meus braços estavam adquirindo resistência. Tinha plena segurança que poderia correr com a criança, sem que parecesse que meus músculos estivessem pegando fogo.

- Com certeza. – afirmei.

- A gente vai ter que ir lá fora? – ele perguntou, parecendo prestes a chorar de novo.

- Vai ficar tudo bem, Artie. – o assegurei – Vai ser como.... brincar de polícia e ladrão.

- Mas, eu sou péssimo nesse jogo – ele protestou – Eu sou muito lerdo e sempre tropeço nos meus próprios pés. As outras crianças sempre zombam de mim.

- Vai dar tudo certo – afirmei, tanto para ele quanto para mim mesmo – Afinal, você tem a Iris para te proteger – disse apontando para o espelho nas suas mãos – Você não confia na Iris?

Lentamente, ele afirmou com a cabeça. Então, nós quatro seguimos para o próximo corredor, avistando mais crianças desmaiadas e com os membros amputados pelo caminho. A nossa sorte foi que pedimos para que o garotinho permanecesse com os olhos fechados. Será que ele era mesmo a única criança que ficaria ileso àquele ataque?

Eu esperava que, pelo menos, meus outros colegas tivessem mais sucesso em salvar as crianças do prédio oposto... Várias salas e “reflexos” depois, chegamos no último corredor daquela área, onde a Reflekta mais brilhante de todas estava de pé, como se estivesse esperando por nós. Ela era a verdadeira, nem tivemos dúvidas:

- Meu querido irmão! – disse ela, olhando diretamente para Luka – Estava na esperança que pudéssemos nos encontrar. Junte-se à mim, e poderemos formar uma nova Berk, uma sociedade livre e justa onde todos terão chances iguais nessa vida.

- Jules – ele falou, delicadamente – Conheço dessa frustação tanto quanto você, mas essas crianças não tem culpa de nada.  Não termine o serviço, por favor, não é tarde demais.

-Meu irmãozinho tolo... Você é fraco. Sabe por que? Lhe falta ódio! - zombou ela - Vá em frente, me despreze, continue com a vida miserável que temos. Mas em breve, chegará o dia em que me entenderá, e então você virá até mim!

Luka abriu a boca, como se preparasse para responder. Mas então, a akumatizada desviou o olhar dele e passou a me encarrar. Ou melhor, a encarar a criança que eu carregava no colo:

- Você! – disse ela apontando para Artie – Agora você não me escapa!

Instantaneamente, Chloe e Luka se prepararam para iniciar um ataque em nossa defesa. Não obstante, nenhum movimento foi necessário, pois assim que Artie ouviu a voz da akumatizada, ele abriu o espelho e o apontou para a Reflekta:

- Toma isso, ser das trevas! – gritou com sua voz de criança.

Para nossa surpresa, assim que encarou o próprio reflexo, a akumatizada caiu ao chão. Sendo incapaz de se mexer durante todo o tempo em que Artie apontava o espelho para ela.

- É isso! – falei

Os espelhos são um ponto fraco dela, do mesmo modo que o suco de limão se mostrou ser o calcanhar de Aquiles da nossa Anansi. Fora assim que Artie escapara ileso! De fato, o tio da criança não mentiu, Iris era a protetora daquele garoto.

- Continua com o espelha na mão, guri! – gritou Chloe.

Enquanto o garoto, obedientemente continuava com o movimento, Luka usou o machado para destruir, finalmente, o verdadeiro objeto do akuma. Ao mesmo tempo, Chloe tirou o único pote da sua bolsa, e aprisionou a borboleta.

- Luka? – perguntou a ex-Reflekta confusa – O que eu estou fazendo aqui? O que aconteceu?

- Você foi akumatizada, Jules – disse o irmão dela, a abraçando – Mas, agora tudo vai ficar bem.

 Nenhum de nós teve coragem de mencionar sobre as centenas de crianças machucadas. Ela teria muito tempo para lidar com aquilo, depois.  Essa não era a hora nem o lugar para aquela conversa. Mas, tinha algo que eu ainda poderia consertar, talvez..

- Juleka, Luka – falei olhando para os dois – Sinto muito por nunca terem tido a chance de serem treinados. Mas, eu posso falar com meu pai, ele pode dar uma vaga para vocês e....

- É muita gentileza sua Adrien – disse ela, me cortando – Mas, eu e Luka não somos os únicos afetados por esse problema. Eu não quero uma bolsa em uma Academia, eu quero mudança. E não é porque não estou mais akumatizada, que minhas razões deixaram de existir ou de serem legitimas.

- Ma-ma

- Tudo bem – a garota continuou -  Eu poderia aceitar essa oportunidade, e assim a vida minha e de Luka poderia estar, em, parte resolvida. Mas, e as outras pessoas que nunca tem chance nos seletivos, porque não são ricas, famosas ou influentes? Você pode garantir uma bolsa para elas? Para todas elas?

- Não – afirmei derrotada – Desculpe, eu...

- Você é jovem, Adrien Agreste – Juleka disse num suspiro – E ainda tem muito o que aprender da vida. Eu só espero que no dia que chegar sua vez de assumir a liderança do clã, que você seja capaz de sair um pouco da própria bolha, e olhar ao seu redor. Nós também fazemos parte de Berk!

Ao meu lado, Chloe parecia quase tão chocada quanto eu, como se tivesse levado um tapa na cara. Senti minhas pernas ficarem bambas, um dia eu seria o líder da ilha! Eu! Como eu faria isso? Até então minha maior preocupação era me tornar um bom capturador e conquistar a Marinette. Nunca nem se quer refleti sobre o tipo de líder que eu queria ser.

Como eu seria capaz de administrar uma ilha toda? Ainda mais uma tão problemática quanto Berk?  E se eu me tornasse como o meu pai? Um atarefado incorrigível que nunca tinha tempo para a própria família? Meus deuses, eu não queria ser um líder, não queria ser um líder, não queria ser... Eu não tinha jeito nenhum para essas coisas!

Meu monologo finalmente foi interrompido pelos murmúrios de Artie, o qual ainda estava assustado com aquilo tudo. Pedindo licença, saí com o garoto à procura de algum responsável por ele, no mesmo instante que os médicos chegaram e cercaram Juleka. No entanto, ao olhar para trás, não pude deixar de notar que Chloe ainda estava paralisada, como se as palavras proferidas por nossa ex-akumatizada tivessem a afetado quase tanto quanto eu mesmo.

Minutos depois, com a criança já em segurança, esbarrei com os meus outros colegas de Academia, os quais tinham conseguido salvar grande parte das crianças mais velhas do segundo prédio. Mas, mesmo parecendo estar feliz com a nossa relativa vitória, Marinette não me olhou nos olhos, nem uma vez.

Quando todos estavam saindo e eu mesmo estava prestes a voltar para a minha casa, esbarrei no irmão da ex-akumatizada.

-  Oi, Adrien – disse Luka – Eu estava mesmo querendo me desculpar com você. – ele pausou, me dando um sorriso – Por mais que eu concorde com a decisão dela, Juleka não deveria ter sido tão áspera com você. Afinal, não é como se você tivesse culpa do sistema ou dos atos de gestão do seu pai, e foi muito gentil da sua parte oferecer a bolsa para nós dois.

- Eu realmente gostaria de poder fazer algo por vocês. Você seria um ótimo capturador, Luka. – falei com sinceridade, deixando todo meu orgulho de lado.

- Diz isso porque não conhece minha namorada – ele afirmou – Ela tem uma garra e ferocidade como nunca vi. Com um pouco de treino, acho que ela conseguiria até superar a Dupain-Cheng.

- Essa é boa. – falei com uma risada. Quem poderia ser comparável à minha Princesa?

- E Adrien – ele falou – Se me permite um último conselho. Eu não consegui deixar de ouvir a discussão que você estava tendo com ela, um pouco antes do clone quase a atingir. Desculpa me intrometer, mas você está a traindo ou algo assim?

- Não! Claro que não! – protestei.

Quem aquele menino achava que eu era?

- Calma, foi só uma pergunta – ele pediu – Se você não está traindo a Marinette, por que tem mentido? Você não confia nela?

- Não é isso – disse passando as mãos no cabelo – Tem uma coisa, que ninguém sabe sobre mim e eu tenho medo de dizer a ela. Eu só... não sei o que eu faria se a perdesse.

- Cara – ele continuou – Sinto te dizer isso, mas você a está perdendo nesse minuto. E quanto mais mentir, mais ela ficará desconfiada de você. E com razão.

- Você não entende! – continuei – Eu não posso contar, nunca. Ela vai terminar comigo ou coisa pior.

- Se ela for terminar com você, não é melhor que ela saiba pelo menos o real motivo de estar fazendo isso?

- Bom er... talvez?

- Você parece ser um bom garoto, Adrien. – ele disse – Sei que fará a coisa certa.

Suspirei. É, Plagg e Luka tinham razão. Eu não podia mesmo continuar com aquilo. E se no final Marinette decidisse mesmo terminar comigo, pelo menos ela teria o direito de saber a verdadeira razão pela qual estava terminando.


Notas Finais


E aí gente, o que acharam? Acho que esse capítulo foi bem diferente, né? Espero que tenham gostado da crítica. Apesar das atitudes da Juleka akumatizada estarem MUITO erradas, a chateação dela é legitima. Infelizmente, vivemos em um mundo muito desigual, e com o EAD parece que essas disparidades educacionais aumentam ainda mais.
Gostaram da aparição do Luka? Espero que sim. No arco 3 teremos mais uma desse personagem tão adorado. Finalmente parece que o Adrien ouviu o conselho de alguém né? Será que ele vai contar mesmo para a Mari? Em breve saberemos hehe. Não deixem de comentar para eu saber o que estão achando da fic, e nos vemos no próx capítulo. Bjs


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