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História Crônicas Mágicas: Ascensão Queda - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo 1 - O homem e sua cartola


Fanfic / Fanfiction Crônicas Mágicas: Ascensão Queda - Capítulo 1 - Capítulo 1 - O homem e sua cartola

"Já vai, já vai! Pelas barbas de Merlin". Esta já era a 4ª ou 5ª vez que a porta de entrada da casa do Senhor Juarez recebia ligeiros toques em sequências de três. Na primeira delas, ele pensou apenas se tratar dos ruidosos trovões que pareciam travar uma guerra do lado de fora. Na segunda, algum animal fugindo da chuva fria que batia com ainda mais violência na janela de seu quarto. Na terceira, o Senhor se levantou de sua confortável e aquecida cama, vestiu um roupão marrom escuro, e rumou apressado - à medida que conseguia - em direção a porta no andar de baixo, demonstrando mais raiva do que, de fato, preocupação. As batidas seguintes vieram no longo intervalo de sua descida. Juarez era um Senhor de idade, e o peso dos ombros há muito já lhe vencera, fazendo com que sua coluna se inclinasse para frente, deixando-o com o aspecto corcunda; e suas pernas agora pareciam mais se arrastar, tentando acompanhar o resto do surrado corpo, fazendo força para sair do lugar.

Quando terminara de descer as escadas, ainda recuperando o fôlego, passou por uma cômoda com um espelho, tão antiga quanto seu dono, pelo qual se pôde ver um rosto carrancudo, com um bigode que parecia ainda mais volumoso que seus ralos cabelos grisalhos. Bem ao lado estava disposto um relógio que indicava exatamente Uma hora da manhã, mas o velho não parou para se dar conta de quão tarde era - não queria ser mais uma vez incomodado pelo som das batidas. Em tempo, abriu a porta da frente logo quando os toques recomeçaram.

Ao fazer isso, o Senhor se deparou não com um animal como pensara outrora. Parado diante dele estava um homem alto e esguio, trajando um sobretudo preto e, na cabeça, uma cartola de mesma cor, que Juarez pensou dar ao jovem uma aparência de, ao menos, 10 anos mais velho do que ele deveria ter. A cartola, no entanto, não fora capaz de proteger seu rosto da chuva, bem como os compridos fios de cabelo que lhe caíam à frente dos olhos, estes ainda mais escuros que a própria noite. Juarez o encarou de cima a baixo, quando não pôde deixar de notar que o homem, à altura do umbigo, segurava com as duas mãos uma varinha de aspecto triangular, com várias runas escritas em suas laterais.

Com um leve sorriso no rosto, de quem não demonstrara importância para com a forte chuva às suas costas, o estranho perguntou:

Seria uma má hora para uma xícara de café, Senhor Amâncio?

Juarez não respondeu. Encarou-o como se ainda tentasse entender o que lhe estava acontecendo, roçando as mãos gastas nos olhos cansados. Por fim, abaixou-as e fez um gesto para que ele entrasse.

Eu devo dizer que não esperava ter que vir aqui tão cedo - disse o homem ao retirar sua cartola e jogar os cabelos molhados para trás, ao mesmo tempo que secava a sola dos sapatos no tapete de entrada.

Cedo? - a cara carrancuda do velho agora voltava a se expressar com nitidez, olhando para o relógio na cômoda que até então ignorara – você tem noção de que horas são?

...Ele está realmente furioso – continuou sem se importar com o que o velho ia dizendo, nem mesmo com sua poltrona, que o homem acabara de se sentar com suas vestes molhadas. Depositava agora sua varinha triangular em uma pequena mesa ao lado.

O velho, ainda com seu roupão, sentou no sofá, se sentindo extremamente desconfortável, como se não fosse o lugar que ele costumava se sentar normalmente. Estava de frente para a poltrona em que estava o homem, que o mirava com o mesmo sorriso de antes.

A sala em que estavam era um tanto grande. Poderia ser descrita como aconchegante, se não fosse por algumas teias espalhadas por aqui e montes de poeira acolá, que agora com as luzes das inúmeras velas acesas em conjunto pela varinha do Senhor Juarez, que mais lembrava um galho de árvore torto, estavam bem visíveis sobre os móveis barrocos espalhados pelo cômodo.

Parecendo de súbito tomar conhecimento do que se tratava, o velho agora expunha uma faceta ainda mais carrancuda.

Pois diga a Ele que a resposta continua sendo a mesma. Ela ainda não deu as caras. Agora, se me permi...

Isso é péssimo. - o sorriso do homem se desfez.

Não tanto quanto ter sua noite de sono interrompida por gente como a sua. Sinceramente! Não bastasse o Ministério estar me vigiando cada vez mais de perto... Mesmo semana passada – mais uma ruga de desprezo surgia em sua cara ao se lembrar, e seguiu com uma voz rouca – alguns aurores, os quais evidentemente não me dei o trabalho de guardar os nomes, também vieram me interrogar sobre o paradeiro dela. A resposta foi a mesma que lhe dei, antes que me pergunte. Pareciam demasiado preocupados. O que ela andou aprontando dessa vez, eu não sei.

Bom, sobre isso - voltou a falar o homem, retirando de dentro de seu sobretudo um pedaço de papel dobrado, que diferente do resto de seu corpo, estava seco. O papel então flutuou lentamente à medida que ia se abrindo, e se desposou no colo de Juarez.

Os olhos antes miúdos se despertaram em uma dose de adrenalina.

Não é possível! - disse incrédulo.

Tratava-se de um jornal, que no título de letras grandes e pomposas lia-se: Gazeta Encantada. Logo abaixo estava uma foto de uma bruxa um pouco mais nova que o Senhor Juarez. Seus cabelos também grisalhos, no entanto, estavam amarrados em um coque simétrico. Usava uma espécie de vestido de gola alta na cor verde esmeralda, tal qual seus olhos. A foto se mexia e, de vez enquanto, a bruxa sorria, sempre se reposicionando com a cabeça para novos flashes. Mas o que realmente se destacava era seu colar. Uma fina e longa corrente escamada de prata em forma de dragão (um de cada lado) sustentavam com suas bocas vorazes um pingente de formato hexagonal na cor preta - tão escura como os olhos do homem estranho - que parecia extremamente familiar a Juarez.

Abaixo da foto estava um novo título:

DESAPARECIDA A MESES, OLÍMPIA AMÂNCIO, EX-MINISTRA DA MAGIA, É ECONTRADA MORTA NO VILAREJO TROUXA DE BÚZIOS, RIO DE JANEIRO

Assim a matéria seguia, em letras pequenas o suficiente para forçarem Juarez apertar os olhos para conseguir ler:

Desde seu desaparecimento, o Ministério tem se ocupado incansavelmente na tarefa de procurar a Senhora Amâncio, cujo cargo de Ministra da Magia agora é temporariamente ocupado por seu substituto, Alfredo Maciel. A última pessoa que a viu foi sua secretária pessoal, que afirmou que sua chefe estava agindo bastante diferente do habitual, "muito nervosa, como se tivesse visto um corpo seco andando por aí". Desde então, pouco se teve notícias de seu paradeiro durante as buscas, nem mesmo seu irmão, Juarez Amâncio, parece ter notícias a respeito de Olímpia, ou, ao menos, demonstrado qualquer ar de preocupação desde seu repentino sumiço.

Juarez segurou firme o jornal e continuou, a contragosto, saltando alguns parágrafos que julgou ser irrelevantes.

O corpo foi encontrado por trouxas, caído sem sinais de agressão em uma viela afastada do centro da cidade. O governo trouxa notificou o Ministério da Magia, que procedeu para ter acesso ao corpo, para então ser analisado por legistas mágicos do Ministério. Aparentemente, Olímpia não estava portando sua varinha, e parecia bastante descuidada, como se tivesse sido mantida em cativeiro por todo esse tempo. A grande questão agora é, tratando-se de assassinato, o que teria motivado o absorto crim...

Antes que pudesse concluir a desgostosa leitura, ele foi interrompido pelo homem sentado na poltrona, que não parecia interessado se Juarez terminara ou não de ler a notícia.

Muito provável que não seja possível mesmo, afinal. Mas, de toda forma, significa que ela está agindo - disse o homem que lhe entregara o jornal.

Antes que Juarez levantasse a voz, teve sua dúvida respondida, como se o homem tivesse lido seus pensamentos. - O jornal ainda não foi publicado. Digamos que consegui esse rascunho de forma... privilegiada. Acharam o copo dela a poucas horas - disse apontando para a foto de Olímpia e seus inúmero flashes, recolhendo o jornal para si - pretendem lança-lo na edição matutina. Vai ser um grande dia para a Gazeta.

Porque vir me informar isso pessoalmente, a essas horas, Conrado? - disse com um ar de desconfiança, parecendo se esquecer bruscamente da notícia de sua irmã ter sido encontrada morta - Você não acha que eu tenho alguma coisa a ver com isso, acha?

Claro que não. Só achei melhor que tomasse conhecimento do fato a partir de mim, antes que sua casa fique lotada nas próximas horas por aurores, além de repórteres e curiosos. Não creio que vamos poder nos comunicar por um bom tempo, enquanto você for o centro das atenções. Mas que fique bem claro, não estou fazendo isso por Ele, mas sim pelo apreço que tenho pelo Senhor.

Juarez baixou a testa como se pressentisse toda a dor de cabeça que ainda passaria com a notícia se espalhando de boca em boca no dia seguinte, e como demoraria a ter de volta a tranquilidade de seu lar, por ele tanto prezada.

Trate de manter contato com ela, ou não poderei mais garantir sua segurança – disse levantando e indo em direção a porta, com a varinha novamente em mãos.

Conrado, que já abrira a porta, deixando o ar frio entrar, virou-se mais uma vez para Juarez, que continuava sentado no sofá com as mãos à cabeça, e disse por fim:

Ela é perigosa. Você sabe disso. Entregue-a, e nós poderemos lhe livrar desse fardo.

Mas Juarez não respondeu. A porta se fechou, e do outro lado se ouviu um estampido, o que significava que o homem e sua cartola já não eram mais presentes.

Ficou parado um tempo, feito uma estátua, quando uma voz atrás dele, calma e calorosa o suficiente para esquentar o gélido aposento, disse:

É claro que eles não cairiam nessa. Mas o Ministério vai, já me certifiquei disso. Pelo menos vou conseguir tempo até terem certeza de que estou viva, e tempo é tudo de que preciso.

Juarez pareceu retornar de onde quer que seus pensamentos estiveram nos últimos minutos, e respondeu com um rosto agora mais simpático à medida que sua face permitia:

Estou me metendo mais nessa história do que gostaria Olímpia. O que devo dizer a todos amanhã?

De pé, ao lado da lareira (agora acessa), guardando em seus fundos bolsos uma espécie de capa, encarando docilmente Juarez, com o rosto sujo de graxa e arranhões cicatrizados, estava Olímpia. Não tão bela quanto na foto da Gazeta Encantada, mas tampouco morta como o mesmo jornal noticiara. Ao menos Juarez pareceu não se espantar de ver sua irmã ainda andando por aí, apesar de sua aparência estar notoriamente diferente da mulher de coque simétrico e vestido de cor esmeralda. Pelo contrário, seus cabelos agora estavam soltos, longos, porém cheios e mal lavados. Usava um casacão bege, com mais botões do que um casacão deveria ter; calças surradas e botas lamacentas. Mas se ainda lhe restasse um pouco de charme, este se encontrava entre seus peitos. O colar prateado com a pedra negra continuava com ela, destoante da figura acabada que o usava.

Você não vai precisar falar nada a ninguém. – disse lhe entregando uma carta lacrada, que até então estava em um de seus fundos bolsos do casacão – Tudo que você precisa fazer está escrito, aí.

Olímpia pegou uma porção de pó de flu com a mão direita e arremessou-o contra a lareira, cujo fogo agora se tornara verde, tal qual seus olhos. Pegou uma foto que estava logo acima do móvel, e encarou-a. Nela haviam três pessoas, Juarez estava no lado esquerdo, bem mais jovem, apresentando muito mais ânimo do que um dia lembrara ser capaz de sentir. Olímpia estava no lado direito, com a mesma elegância de sempre. Enfim, ao meio, estava uma outra mulher, a quem Olímpia não tirava os olhos, desiludidos demais para derramar sequer uma única lágrima. Aparentava ser uma versão um pouco mais velha do que ela, mas com o mesmo semblante e, o mais importante, usando o mesmo colar de dragão. Repousou a foto novamente na beirada da lareira, curvou-se para entrar nas chamas esverdeadas, mas não se queimou, e antes que desaparecesse, encarou mais uma vez o velho Senhor. Deu um leve sorriso, de quem gostaria de ficar mais tempo, mas tinha pressa. Disse antes de desaparecer, não pretendendo ouvir uma resposta:

Eu vou resolver tudo, confie em mim.

Juarez suspirou pesado, fitando a carta com medo suficiente para não ser capaz de abri-lá naquele momento, e decidiu que seria melhor aproveitar as poucas horas de sono que lhe restavam antes que uma nova onda teorias, conspirações e indagações arrombassem o seu lar. Apagou as velas com um rápido movimento de sua varinha, e subiu novamente os degraus, agora não fazendo tanta força para se mover rápido. Sentou na cama, mas não conseguiu se deitar. A tentação era grande, e o medo maior ainda, de que se não abrisse a carta naquele exato segundo, outra pessoa poderia vir bater à porta de casa em sua procura, e quando isso acontecesse, ele já deveria ser capaz de saber o que a carta lhe mandara fazer. Então começou a romper o selo, enquanto as palavras de Conrado se repetiam em sua cabeça. “Ela é perigosa. Você sabe disso”.


Notas Finais


Aproveitando a oportunidade, quero dizer que sempre foi um sonho escrever um livro, e encontrei na quarentena tempo e disposição o suficiente para fazê-lo, além dessa excelente plataforma para compartilhar histórias. Espero que vocês tenham tido uma ótima leitura, pretendo fazer um Livro completo de mais ou menos 30 capítulos, que serão lançados conforme minha disponibilidade! :D


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