História DayNight - O Conto do Dia e da Noite - Capítulo 2


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Categorias TWICE
Personagens Chaeyoung, Dahyun, Jihyo, Mina, Momo, Sana, Tzuyu
Tags Dahmo, Michaeng, saida, Satzu
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Palavras 7.391
Terminada Não
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Espero que gostem, e peço desculpas por qualquer persistente erro.

Capítulo 2 - Capítulo Um - Festival Anual da Sopa


 

Haviam três meses que havia chegado na minha nova aldeia, e confesso que estava tudo indo melhor do que eu esperava. As pessoas dali eram solidárias, gentis, e a mistura de culturas era algo fascinante. Por um motivo geográfico e de ataques mongóis, a cidade tinha mais refugiados coreanos do que outros povos, mas ainda haviam vários japoneses, chineses, e pessoas da Ásia em geral. Na verdade, haviam até mesmo alguns ocidentais, mas esses eram bem infrequentes.

Nunca havia visto traços tão diferentes, cores, medidas e vozes. Línguas encantadoras que eu não entendia. Os monges me ensinaram coreano e chinês desde cedo, mas haviam outras línguas e dialetos dos quais eu desconhecia. Toda aquela mistura nova de sons soavam como músicas para meus ouvidos.

- Somi e o pai devem estar discutindo sobre a massa do pão novamente - Chaeyoung comentou me fazendo dar um pulinho assustado. Não esperava alguém surgir assim tão de repente.

Eu assistia Somi, uma garota mestiça de pai europeu e mãe coreana, discutir com o pai na língua natal do mesmo. Eu não entendia uma palavra sequer, mas amava assistir a forma que as palavras saiam de suas bocas, os sons diferentes que emitiam, os gestos indignados da mais nova enquanto o pai apontava para a massa de pão que ela provavelmente havia errado novamente. Como pai, o Sr. Matthew era um completo coruja, mas como padeiro, ele era bem exigente.

- E aí? Terminou de cortar os legumes? - a baixinha perguntou apontando para os pedaços de pepino a minha frente.

Senti meu rosto ruborizar ao notar que havia me perdido em meus pensamentos novamente. Era comum eu me perder em meus devaneios, observar o meu arredor e esquecer de que eu também fazia parte daquele mundo.

A garota sorriu, fazendo meu coração palpitar com a forma que seus lábios se levantavam ao lado da pintinha que possuía embaixo de sua boca.

- Anda, vamos levar isso logo para a Jihyo unnie - e dizendo isso, ela juntou os legumes cortados em uma cesta enquanto eu fazia o mesmo com outra.

Era o dia da sopa no vilarejo, e Jihyo - uma jovem coreana da minha idade da qual eu também havia feito amizade - explicou que faziam isso todo ano para comemorar uma boa colheita e celebrar a paz entre os povos, que todos sonhávamos em um dia conquistar. A quantidade de sopa era absurda, e por isso, neste dia, todos os jovens eram convocados para ajudar na preparação. Talvez por isso o pai de Somi estivesse sendo mais rígido do que o de costume, ele insistira que faria vários pães beneficentes para acompanhar o prato principal do evento, e quem acabara pagando parte do preço fora sua jovem filha.

- Você é tão quieta - ouvi Chaeyoung comentar enquanto andávamos em direção ao casebre separado para a preparação da sopa - Não estou reclamando, só queria puxar papo mesmo.

- Meu silêncio te incomoda? - perguntei criando coragem em lhe encarar, coisa que não era nada fácil para mim.

Desde que eu chegara na aldeia, e conheci Son Chaeyoun - uma jovem coreana dois anos mais nova do que eu - eu era incapaz de segurar um contato visual com a garota muito tempo, não quando a pequena havia mexido com meu coração de maneira peculiar.

Chaeyoung era uma jovem rebelde, usava cabelos curtos e trajes poucos femininos. Ela dizia que não era porque não achava os vestidos bonitos, pois achava, mas os mesmos a atrapalhavam a treinar propriamente, e por isso preferia usar roupas que as pessoas consideravam mais "masculinas". De fato, os trajes das garotas da cidade dificultavam uma desenvoltura corporal no treinamento de artes marciais, como uma pessoa que usava tanto trajes popularmente masculinos e femininos, eu podia afirmar que a pequena tinha um ponto.

- Não é isso - ela disse - É que você é nova aqui, quero que saiba que caso precise de alguém para conversar, pode contar comigo – avisou em um sorriso, e não era nada justo aquele sorriso, não mesmo.

Tão injusto era, que não reparei que já havíamos chegado na porta do casebre. Estava perdida demais no belo rosto da mais nova para notar que havia uma porta em minha frente.

- Ai, droga!  - resmunguei em minha língua nativa enquanto via o estrago que minha falta de atenção havia causado.

Eu havia batido meu cesto contra a porta, fazendo boa parte dos legumes dentro do mesmo se espalhar pelo chão.

- Calma, isso acontece - Chaeyoung riu enquanto pousava seu cesto no chão e se ajoelhava ao meu lado - Vem, deixa isso aí, vamos primeiro deixar essas coisas lá dentro e depois cuidamos disso - e dizendo isso, a jovem me ajudou a levantar e entramos no casebre.

As mãos de Chaeyoung não eram macias, provavelmente devido a todo tempo cortando madeira para sua mãe e por seu treinamento árduo. O pai da garota morrera quando a mesma ainda era criança, e enquanto seu irmão mais novo passava o dia trabalhando no campo, a mesma ajudava a mãe com o que podia dentro de casa, sem contar alguns trabalhos que fazia para conseguir algumas moedas a mais.

Mesmo lhe faltando maciez em seus dedos e palma, senti meu coração acelerar com o toque de sua pele, querendo continuar a senti-la por muito mais tempo. Para meu desagrado, porém, assim que adentramos o casebre, ela soltou minha mão. Tentei não esboçar minha decepção, e logo me apressei a colocar meu cesto encima da grande mesa de madeira, enquanto a pequena fazia o mesmo.

O casebre separado para a preparação da sopa estava repleto de jovens, cestos, mesas, fogões a lenha e panelas por toda a parte. A maioria dos jovens eram mulheres, mas haviam também alguns rapazes, um deles era o irmão mais novo de Chaeyoung, quem se parecia muito com a mesma.

- Jeonghoon ah! - a pequena acenou para o irmão que ajudava Jihyo a colocar alguma coisa dentro de uma panela. Assim que viu a irmã, o jovem acenou de volta e veio ao nosso encontro - Jeonghoon, já que você estava sempre ocupado com o campo, não deu para lhe apresentar uma das novas moradoras da aldeia - ela se virou para mim e pôs uma mão em meu ombro. Senti meu corpo arrepiar com aquilo, mas tentei disfarçar sorrindo para o jovem a minha frente - Esta é a Mina unnie, ela veio do Japão com os monges - o jovem fez uma pequena reverência para mim e eu espelhei seu ato - Ela fala coreano muito bem, então é tranquilo conversar com ela.

- É um prazer, Mina noona - ele acenou brevemente com a cabeça e com um sorriso tímido. O garoto era somente um pouco mais novo do que a irmã, e já era bem mais alto do que nós duas, para a tristeza da pequena.

- Digo o mesmo - sorri tímida - Sua irmã me falou muito de você.

- É sério? - ele levantou a sobrancelha para a menor, um sorriso provocante em seus lábios.

- Yah, idiota! Não fique se achando - a pequena resmungou cruzando seus braços, e não contive meu sorriso ao ver aquele bico adorável se formar em seus lábios. Além de linda, Chaeyoung era incrivelmente fofa.

- Jeonghoon shi! Preciso de sua ajuda aqui!  - ouvimos a voz de Jihyo chamar entre as panelas.

- Bem, estão precisando de mim - ele disse - Foi um prazer conhecer a nova amiga de minha irmã, principalmente porque ela fala muito de você - vi a pequena aniquilar o irmão com os olhos após proferir aquelas palavras - Preciso ir, até breve - e fazendo mais uma reverência, o garoto correu para o lado de Jihyo.

Observamos o rapaz por algum tempo até que resolvi quebrar o silêncio. A pequena parecia sem graça com o comentário do irmão, e eu não queria que ela se sentisse desconfortável.

- Seu irmão é muito simpático - resolvi comentar - E parece muito com você.

- Mais do que eu gostaria - a pequena resmungou indo em direção à mesa de cestas, e eu a acompanhei na organização das mesmas - Jeonghoon porém é mais reservado do que eu, mesmo sendo um gaiato idiota quando se trata da irmã mais velha dele - ri do mal humor da pequena, ela de fato não gostou do comentário do irmão.

- Não liga pra isso, Chaeyoung shi - dei de ombros enquanto separava as cenouras dos nabos - Não precisa se preocupar.

Chaeyoung não respondeu, apenas continuou separando os legumes com uma feição séria. Suspirei com aquilo, não queria um silêncio incomodo entre nós, eu gostava de conversar com ela, aproveitar cada segundo ao seu lado e vendo seu sorriso, vê-la magoada me desanimava, me entristecia.

- Eu não tenho muitos amigos - Chaeyoung disse depois de algum tempo de silêncio incomodo - A maioria das meninas não gostam de mim, os meninos me evitam ou por timidez, ou porque também não vão com a minha cara, e aqueles que vem falar comigo querem me cortejar.

Não me surpreendi com aquela última informação, linda daquele jeito, devia ter vários pretendentes, mas aparentemente isso não a agradava, e eu a entendia bem, na verdade. Aquele tipo de atenção nem sempre era bem-vinda, e para mim, em especifico, nunca era.

- Antes de Momo e Sana chegarem, eu só tinha Jihyo e Dahyun, porém ambas sempre estavam ocupadas, e eu passava a maior parte do tempo só.

Chaeyoung continuou sua atenção na separação de legumes, não desviando seus olhos dos mesmos nem por um segundo enquanto eu a assistia atentamente, ouvindo cada palavra e observando cada movimento que seu rosto e boca faziam.

- Você passa bastante tempo fora de casa, comprando coisas para o templo e cuidando das flores ao redor da aldeia - ela finalmente mudou seu olhar para mim, e eu me contive para não me deixar hipnotizar por aqueles olhos bem desenhados - Eu tenho a oportunidade de te ver com frequência, e fico feliz por isso. Dahyun agora trabalha comigo, mas você é diferente, tem uma paciência que me acalma. Sua voz me acalma - sorriu gentil e eu retribui um pouco sem graça.

Enquanto a garota voltava sua atenção para seus legumes, eu fui deixada com suas últimas palavras se repetindo em minha cabeça. Meu coração parecia mais asas de um pássaro agitado, e eu já não conseguia me concentrar nos legumes direito. Droga! Eu não devia estar me sentindo assim. Assim que notei alguns sentimentos peculiares pela pequena, eu deveria ter me afastado, a ignorado, ou qualquer coisa do tipo. Se bem que isso a machucaria, principalmente depois de ouvir o que ela me disse.

Ah, mas ainda assim... Eu não era o Kento, eu era Mina e Kento. Eu era uma moça jovem criada por monges, para a aldeia, e a noite eu era um lobo solitário, que vagava pelos telhados para sentir a brisa noturna. Mina tinha uma vida normal durante o dia, mas era mulher, Kento era homem, mas ninguém poderia o conhecer, e mesmo que fosse o contrário, Chaeyoung não merecia viver com alguém como eu, que tinha dois corpos, duas vidas. Chaeyoung merecia mais, ela merecia muito mais.

- Você está colocando o pepino no lugar errado - Chaeyoung riu ao meu lado, e arregalei os olhos ao notar a bagunça que eu estava fazendo - Vem cá, deixa eu te ajudar - ela se aproximou mais de mim, e pude sentir o cheiro de seus cabelos... Meu coração precisava se controlar, ela nem estava cheirando bem, também não estava cheirando mal, estava com cheiro de mato. Bem, ela certamente acordara cedo para treinar perto das árvores, o que fazia sentido. Coração idiota, fique quieto!

Enquanto Chaeyoung arrumava a minha bagunça, eu tentei me afastar um pouco, tentando manter minha respiração constante. Eu precisava me adaptar a presença da pequena, já superei alguns amores que jamais poderiam ser antes, por que agora seria diferente? Tinha que ser como os outros, eu tinha que esquecer aquele sentimento, eu precisava. Mina jamais poderia casar com Chaeyoung, nunca seria permitido aquilo, e ela jamais poderia saber a existência de Kento. Além disso, ninguém jamais me amaria da forma que eu era. Eu era duas pessoas, minha alma estava presa a dois corpos, meu ser se baseava em duas rotinas, interligadas em uma só história. Eu jamais poderia me deixar levar por um romance, jamais poderia vivenciar um em minha vida. Até mesmo minhas amizades tinham de ter limites, e por mais que isso tudo me doesse, era preciso.

- Prontinho - ela disse voltando para o seu lugar - Agora tome cuidado, senão a Jihyo vai te matar - riu e voltou ao seu trabalho.

A manhã passou rápido, e a tarde a cidade já estava começando toda a decoração para o esperado evento anual. De crianças a idosos, todos riam e comentavam animados sobre a festa que ocorreria mais à noite, celebrando com antecedência toda a diversão e fartura que teriam.

Suspirei ao lembrar que não poderia comparecer àquele momento tão aguardado. Antes do sol se por, eu precisava me recolher, voltar ao templo e esperar que meu corpo sofresse sua transformação diária. Eu provavelmente treinaria e estudaria a noite toda, já que seria arriscado vagar pela cidade quando estariam todos fora comemorando. Era uma pena, queria ao menos poder ver toda aquela alegria, presenciar, mesmo que de longe, toda aquela magia.

- Pensando em mim? - senti um par de braços finos contornar a minha cintura, e logo que virei o rosto, notei que Sana sorria para mim.

Voltei meu olhar para as flores em meu cesto, sentindo meu rosto ruborizar com a falta de espaço pessoal entre nós.

- Você fica tão fofa vermelhinha - comentou apertando minha bochecha.

- Yah, Sana-chan! - vi Momo se aproximar de nós com uma cenoura em mãos - Não ataque a menina desse jeito, nem todo mundo gosta das suas brincadeiras.

- Hum? - senti Sana procurar os meus olhos - Isso te incomoda, Mina-chan? - olhei rapidamente para seus olhinhos curiosos e pidões, e neguei com a cabeça. Mesmo que eu não me sentisse confortável toda aquela aproximação, não era algo que eu odiasse tanto a ponto de arriscar magoá-la de alguma maneira.

Sana e Momo, assim como eu, eram japonesas. Elas chegaram dois anos antes de mim a aldeia, depois de seu vilarejo pegar fogo graças a maldade de um Imperador tirano e orgulhoso. Infelizmente, nenhum dos moradores da vila sobreviveram ao incêndio, exceto por Sana e Momo, que só conseguiram escapar graças a um amigo que dera a vida por elas. As duas jovens ficaram sabendo do "Vilarejo da Paz" - nome dado por muitos para a nossa atual aldeia - e partiram para cá com a ajuda de alguns pescadores - escondidas, já que temiam as maldades que aqueles homens poderiam querer fazer com as duas jovens. Depois de muito esforço, a dupla finalmente encontrou paz, um lugar pacífico para chamar de lar novamente.

- Tá vendo, Momo-chan? Ela não se incomoda - e dizendo isso, ela me abraçou mais forte e posou o queixo sobre meu ombro.

- Do que estão falando? - Dahyun perguntou se aproximando de nós, Chaeyoung logo ao seu lado.

- Momo está com ciúmes do afeto que dou pra Minari - Sana respondeu, fazendo Momo esboçar uma expressão irritada.

- Não é ciúmes nada! Só estou protegendo a coitada das suas garras de cobra - Momo se defendeu, apontando com a cabeça para Sana.

- Você fala como se eu fosse algum tipo de monstro - retrucou a outra japonesa, igualmente indignada.

- Vocês podem parar de discutir em japonês? - Dahyun interveio, e só então notei que as duas estavam batendo boca em nossa língua materna - Se querem discutir, ao menos falem em coreano, para que eu e Chaeyoung possamos dar nossa opinião a respeito e consigamos arrumar uma solução.

- Ei, eu não! Me tira fora dessa - Chaeyoung interveio instantaneamente.

- Momo está com ciúmes de mim com a Mina - Sana explicou, e antes que a outra japonesa pudesse retrucar, ela continuou - Ela diz que não, mas eu sei que no fundo ela não quer dividir meu afeto com outra japonesa. Afinal, depois que Mina chegou, somos três japas no grupo - a garota sorriu levantando os ombros, mostrando contentamento com suas palavras.

Momo bufou carrancuda. Aquelas duas eram duas figuras, e apesar de toda a falta de senso de espaço pessoal de Sana, eu sempre me divertia ao lado delas. Na minha antiga vila, eu não tinha amigos, não da minha idade, pelo menos, e devo admitir que sentia falta do que nunca tive. Por ser reservada, pensei que no novo vilarejo teria a mesma rotina cinzenta, porém não fora o caso, não quando fui logo "adotada" por Sana e Momo, que logo me apresentaram suas demais amigas. Fui acolhida de bom grado, e seria eternamente agradecida por isso.

- Bem, deixando esse arranca rabo de vocês de lado - sorri com a careta que Chaeyoung fez com as escolhas de palavras de Dahyun - Mina unnie, está animada para seu primeiro Evento Anual da Sopa? - me perguntou com olhinhos brilhantes, e meu sorriso logo se desfez.

- Na verdade - comecei, me afastando lentamente do abraço de Sana. Minha cabeça baixa, não tendo coragem em olhar para aqueles rostinhos animados

- Eu não vou poder ir.

- Eh?! - as duas outras japonesas exclamaram.

- Como assim, unnie? É seu primeiro evento na aldeia! E nosso evento mais importante! - Dahyun perguntou, e senti decepção em seu tom de voz.

- Eu já disse que devo me recolher antes do sol nascer, se o evento fosse durante o dia, eu certamente participaria, mas tenho dever a cumprir e por isso não poderei comparecer - expliquei, esperando que elas entendessem.

- Não pode pedir para repor essas obrigações outro dia? Digo, até alguns monges vão ao sopão - Momo perguntou, e sorri triste com seus olhinhos esperançosos.

- Infelizmente não, Momo-chan - respondi - Não é algo que os monges tenham controle. É algo pessoal, uma espécie de promessa.

- Então nunca lhe veremos durante a noite? - ouvi Chaeyoung perguntar, seu olhar levemente caído.

Meu coração parou. De fato, jamais poderia ver o olhar de minhas meninas brilhando a luz da lua, sentir a brisa da noite que eu tanto amava com as pessoas que a cada dia estavam se tornando ainda mais especiais para mim. Não poderia aproveitar as festas, a fartura, as risadas... Mina jamais poderia, Kento jamais deveria.

- Acho que isso foi um não - Sana suspirou tristonha.

- Não de que um dia vamos nos ver a noite, ou não de que nunca vamos? - perguntou Momo com toda a sua ingenuidade.

- Não de nunca iremos vê-la, unnie - Dahyun tocou o ombro de nosso pêssego - Bem, se é algo tão profundo, espiritual, não há nada que possamos fazer, não é mesmo? - a branquinha sorriu fraco para mim, e retribui o mesmo com um aceno e um sorriso grato.

- Vamos guardar comida pra você então, Minari! - Momo logo se propôs a dizer - Um pouquinho de cada coisa!

- Isso se você não comer tudo antes, né? - Sana brincou, levando um tapa no braço da mais velha.

Me peguei rindo de mais uma discussão entre aquelas duas, que durou mais alguns minutos antes de Dahyun conseguir mudar de assunto. Conversamos o restante da tarde toda, ajudando com a decoração da festa, comentando sobre nossos gostos para confetes e flores, rindo da forma que Momo e Sana se atrapalhavam com as fitas de tecido, e tentando entender os dizeres de Dahyun – a mesma tinha muito contato com sua vó, e por isso acabara pegando uma forma de falar “peculiar”.

Por vezes me pegava observando seus sorrisos, suas gargalhadas, a forma que o sol batia em seus rostos. Eram jovens lindas, cheias de vida, e por mim nada no mundo deveria tirar aquela alegria daquelas faces. Em um momento de devaneio, notei que havia passado tempo demais observando a forma que Chaeyoung ria, sorrindo com aquela gargalhada adorável e que soava como a mais bela canção para meus ouvidos. A pintinha embaixo de sua boca, seus olhos se comprimindo enquanto ela inclinava seu corpo para trás. Tão linda...

- Quer um lenço? - me assustei com a súbita frase de Sana, quem sentava ao meu lado enquanto cortávamos algumas fitas de tecido. Ela me oferecia um pedaço de pano azul, e eu franzi o cenho com aquilo.

- Pra que? - perguntei confusa, e logo a outra japonesa se aproximou do meu rosto, parando sua boca perto do meu ouvido.

- Você está quase babando - ela disse, e logo se afastou rindo.

Senti meu rosto queimar com aquele comentário, e agradeci pela mais velha logo ter voltado ao seu trabalho, mesmo que ainda estivesse rindo baixo do meu comportamento. Queria não ser tão óbvia, mas por sorte somente Sana parecia ter notado meus sentimentos pela caçula de nosso ciclo de amizade. Esquilo astuto, até demais para o meu gosto.

- Cuidado, unnie, vai acabar se cortan...

Assim que Chaeyoung tentou impedir que minha falta de atenção acabasse me custando um dedo, em um ligeiro movimento de pânico - a baixinha havia tocado em minha mão para que eu parasse de cortar o tecido, e aquela pele contra a minha era demais para o meu coração - acabei por rasgar parte do tecido de uma vez, fazendo a ponta da tesoura fazer um corte fundo em meu polegar.

- Ai!

- Vou pegar um pano - Momo correu para fora do casebre que nos encontrávamos.

- Unnie, você está bem? Vem cá, precisamos lavar essa ferida - Dahyun contornou a mesa e, com cuidado, me levou para fora, me sentou em um banquinho e pegou um balde ao lado da porta, molhando minha ferida.

- Obrigada, Dahyun, mas foi só um arranhão bobo - eu disse, sorrindo para a mais nova na esperança de que ela se acalmasse.

- Não é só um arranhão, está saindo muito sangue - a branquinha insistiu - Cadê a Momo unnie com os panos?

- Estou aqui - a figura da mais velha logo apareceu com alguns panos em mãos - Peguei um para estancar o sangue, e algumas fitas de tecido para fazer o curativo.

- Ótimo - Dahyun agradeceu a mais velha pegando o pano maior e o enrolando em volta do meu dedo, estancando o sangue que não parava de descer - Obrigada, unnie. Agora precisamos esperar estancar para fazer o curativo.

- Vocês agem como se eu tivesse perdido a mão - ri de suas feições assustadas.

- Yah, Mina-chan! A gente só estar querendo cuidar de você, não seja ingrata - Sana resmungou, e eu sorri com o adorável bico em seus lábios.

- Não liga, unnie. Quando eu quebrei o pé elas faltaram me levar nas costas para todo o canto - Chaeyoung riu comigo, recebendo um olhar reprovador de suas outras unnies.

- Yah, Son Chaeyoung! Talvez você não devesse se machucar tanto também, né? Vive remendada pelos cantos - Dahyun disse enquanto fazia meu curativo.

- São consequências do meu treinamento, unnie, não é algo que eu possa sempre evitar.

- Eu também treino, e nem por isso ando cheia de marcas pelo corpo - Dahyun continuou a resmungar, e eu sorri com a feição mal-humorada de Chaeyoung por estar ouvindo aquele esporro da branquinha.

Chaeyoung era marrenta e opiniosa, apesar de extremamente gentil e educada, enquanto Dahyun era bem calma e bem-humorada, exceto quando seu insisto protetor tomava conta de si, como naquele momento.

- Dahyun-chan fica tão linda quando está em seu modo unnie - Sana comentou indo até a coreana e a abraçando por trás - Acho isso um charme - a japonesa deu um risinho enquanto olhava para o rosto da mais nova, quem mantinha sua atenção em meu curativo enquanto suas bochechas ruborizavam.

Algum tempo passou e o sol já estava dando sinal de que iria para seu descanso, sendo assim, logo me pus a me despedir de minhas amigas e voltar ao templo. Como eu já esperava, elas insistiram um pouco mais para que eu ficasse, mas logo respeitaram o meu dever e voltei ao meu lar. Cumprimentei alguns de meus amigos de templo enquanto me dirigia ao meu quarto, e ao chegar ao mesmo, me apressei em tirar meu vestido e colocar os trajes de treinamento de Kento. Calças eram definitivamente mais confortáveis para treinar, não era à toa que Chaeyoung optava por sempre usá-las, mesmo com sua mãe desaprovando.

Assim que terminei de me vestir, abri o meu futon e deitei-me permitindo meu corpo um pouco de descanso. Fora um dia cansativo, mas a noite não me trazia um descanso no mundo dos sonhos, meu descanso era o silêncio, os grilos cantando, a brisa fria e aconchegante, aquele era meu descanso, o único que eu podia ter.

Enquanto suspirava imaginando como deveria ser sonhar, virei meu rosto para ver a luz laranja do sol cedendo ao azul da noite através do fusuma. Voltei meu rosto para o teto, e num suspiro, fechei os olhos esperando meu corpo tomar sua forma noturna. Não demorou muito para que eu sentisse meus ossos cresceram junto aos meus músculos, meus seios diminuírem até só restar um peitoral definido, porém ainda magro. Era estranho como tudo era felizmente indolor, como se fosse algo tão natural, que mesmo tão instantâneo, meu corpo não rejeitava. Eu era Kento, assim como eu era Mina, e meu corpo entendia isso muito bem.

- É, Kento, você vai perder uma festança hoje - disse com a minha voz agora grave.

Mina possuía uma voz delicada, suave e baixa, a de Kento não era muito diferente, ainda era suave e cicio, porém, era mais firme e grave.

Esperei alguns minutos de descanso até levantar e começar a me aquecer. Enquanto me exercitava, tentava como podia ignorar os instrumentos e gargalhadas que vinham de fora do templo. Confesso que queria poder participar do festejo, assistir as pessoas dançando, tocando, conversando, gargalhando... Me perguntava como minhas amigas estariam naquele momento, quantas ligeiras discussões Sana e Momo já tiveram, quantas puxadas de orelha Jihyo havia as dado, quantas risadas Dahyun tirara enquanto fazia sua "dança da águia" e o quão linda Chaeyoung deveria estar se divertindo e trajando seu hanbok. A garota mencionara que trajaria o vestido tradicional coreano que sua mãe fizera, e me pesava saber que não poderia ver o quão bela ela ficara, se bem que eu acreditava que a garota ficaria belíssima trajando qualquer coisa.

- Posso entrar? - ouvi uma voz conhecida na porta de meu quarto, e logo que me virei, me deparei com Hiroshi-sensei me olhando com aqueles olhos gentis.

- É claro, mestre – me curvei, e logo o generoso senhor calvo adentrou o meu quarto.

- Vejo que está perdendo uma festa e tanto, meu jovem - sorriu com seus olhinhos pequenos.

- É - sorri sem graça - Mas ao menos tive a oportunidade de ajudar durante o dia.

- Plantar sementes e depois não colher os frutos? - arqueou sua sobrancelha branca para mim - Por que se privar da recompensa de seu próprio esforço?

- Senhor, - comecei, incapaz de olhar meu sensei nos olhos - Não posso interagir com os aldeões com este corpo, nem sequer arriscar que me vejam.

- Isso é tudo medo de que as garotas caiam pelo seu charme? - riu dando alguns tapinhas amigáveis em meu braço - Se fosse assim não andaria de dia, podendo ser cortejada pelos rapazes. Você teve sorte de ter traços tão belos em suas duas formas.

Hiroshi-sensei era um homem sábio e cheio de experiência na vida, mas mesmo sendo um jarro sem fim de sabedoria, e sendo respeitado por todos os que o conheciam, o velho sohei não se desapegava de seu senso de humor um tanto peculiar.

Ri tímido dos elogios do mais velho, logo recebendo mais tapinhas do mesmo.

- Anda, rapaz! Não fique trancado aqui numa noite tão bonita, vá aproveitar!

- Senhor, não posso simplesmente me juntar as pessoas da aldeia, ninguém nunca me viu, chamaria atenção - expliquei.

- Ah, mas isso não é problema! Venha, vou lhe emprestar um kimono que usava quando mais novo, ainda está novinho em folha, acredite ou não - disse enquanto me levava para fora de meu quarto pelo braço.

- Mas senhor...

- Relaxe, garoto, você usará um pano para proteger seu rosto, ninguém vai nem notar sua presença se você for discreto, coisa que sei que é - insistiu me dirigindo ao seu quarto, e ao notar que eu não tinha chances em argumentar com o mestre, me deixei levar por seu plano maluco.

Não demorou muito para que eu já estivesse trajado em seu kimono azul escuro, e usando um pano em volta do pescoço que mais me fazia parecer um ninja. Eu não estava gostando nenhum um pouco daquilo, mas como meu mestre parecia tão animado e insistente, acabei sendo incapaz de negar isso a ele.

Estranho - essa a palavra que posso descrever ao sair à noite no meio das pessoas. Havia feito isso pouquíssimas vezes na vida, e naquela cidade era a primeira vez. A aldeia estava animada, as frentes das casas decoradas e haviam mesas com comidas por toda parte. O cheiro da noite mesclava com o aroma da sopa quente, e era impossível não sorrir com a deliciosa sensação que aquela mistura trazia.

As crianças brincavam por toda a parte, idosos riam e bebiam, os adultos faziam o mesmo, mas resmungavam quando alguma criança esbarrava nos mesmos. Pessoas de todas as idades dançavam envolta de uma alta fogueira ao som dos instrumentistas animados. Era incrível o quão bela aquela noite estava, fosse no céu, ou naquele pedaço de terra esquecido pelos imperadores.

- Sinto falta da Mina - ouço uma voz conhecida dizer há alguns passos de mim - Ela adoraria observar essa bela noite, a animação das pessoas. Tenho certeza que não pararia de sorrir boba assistindo as pessoas dançarem.

Era ninguém mais ninguém menos que Dahyun falando há poucos metros de mim, apoiada em uma das mesas cheias de fartura acompanhada de nossas amigas. Meu coração parou ao notar o quão linda todas estavam, Momo e Sana trajando kimonos típicos para eventos de festejos como aquele, enquanto Dahyun e Chaeyoung usavam seus belos hanboks.

- É, é uma pena - Chaeyoung disse desapontada.

Meu coração acelerou ao notar o quão diferente a pequena estava. Sua maquiagem, o vestido que trajava... Tudo estava tão diferente nela, tão fora de seu habitual. Enquanto observava a beleza da baixinha de longe, só tive certeza de algo que eu já sabia: Chaeyoung ficava deslumbrante de qualquer jeito; fosse num traje rasgado, velho e suado, ou em um hanbok bem costurado e feito sob medida. Son Chaeyoung era a jovem mais bela que Kento ou Mina já havia visto na vida, e disso eu não tinha dúvida.

- Hey, Chaeyoung – vi Dahyun a cutucar - Aquele rapaz mascarado não para de te encarar - virei meu rosto para evitar suspeitas.

- Ele quer brigar comigo? Porque não seria uma má ideia treinar alguns golpes que venho treinado - a mais nova respondeu puxando as mangas de seu hanbok.

- Ela quis dizer que ele parece estar afim de você, bebê - Momo explicou abraçando de lado.

- Se até a Momo sacou e você não, a coisa tá feia, hein? - Sana riu, e de rabo de olho vi a outra japonesa também abraçar a baixinha mal humorada.

Não consegui contar uma risada ao ouvir aquilo. Chaeyoung era de fato adorável.

- Ele riu - consegui ouvir Dahyun comentar, mesmo tendo virado meu rosto para o lado oposto do delas.

- Não dá pra ver o rosto dele, mas parece gatinho - reconheci a voz de Sana comentar.

Notando o interesse das garotas por minha figura, logo me apressei para me afastar das mesmas. Era arriscado permanecer ali como Kento, então fui para uma das mesas de comida e me servir um pouco de sopa e um pedaço de pão. Era uma pena, estava gostando de tê-las por perto naquela noite, mesmo que de longe.

- Ah, esse aqui está muito seco, talvez prefira esse aqui - ouvi uma voz conhecida dizer enquanto eu estendia a mão para pegar o pão - Toma - ela sorriu me entregando um outro pedaço, que parecia bem gostoso, por sinal.

- Obrigado - me curvei agradecendo.

Ela espelhou meu movimento, e após isso, me afastei antes que ela puxasse algum assunto. Jihyo era bem receptiva, e como não conhecia o garoto com um lenço no rosto, era bem capaz de comentar a respeito e oferecer amizade. Jihyo era assim, acolhedora e prestativa.

Me apoiei em uma parede perto dos músicos, observando algumas pessoas dançarem e rirem envolta da fogueira. Sorri com aquela imagem, ainda mais quando notei que minhas meninas estavam por lá, se divertindo entre elas. Jihyo havia se juntado ao restante do grupo, e Chaeyoung havia deixado de dançar para desenhar alguma coisa. Acredito que a pequena estava tão encantada quanto eu por aquela imagem feliz, e por isso devia estar perpetuando a mesma em um pedaço de pergaminho.

Quantas cores incríveis Son Chaeyoung possuía?

- Minha filha! - ouvi um grito desesperado vindo de algum lugar mais a frente - Alguém viu minha filha?!

Uma mulher, ainda jovem, perguntava aos prantos entre os cidadãos. Alguns se apressaram a pôr-se a ajudar, perguntando a mesma sobre as características da criança e quando e onde fora última vez que vira a filha. A mulher, trêmula e em meio a lágrimas, respondeu. Agora, analisando mais de perto o rosto da mulher, percebi que eu a conhecia. Era uma moradora da minha antiga aldeia, uma que ficara bem desestabilizada com o ataque que sofremos. Eu conhecia sua filha, era uma pequena fofinha que eu costumava dar flores e brincar quando a via brincando na rua. A pequena adorava Mina.

Deixei a mulher sob os cuidados de alguns cidadãos que tentavam acalmá-la, e corri a procura daquele pequeno ser. Eu sabia que a pequena era amante de flores, e por essa razão fui em direção a uma árvore bem florida ao lado da vila. Era bem perto, então não tardou para que eu chegasse na mesma e visse a pequena tentando - e falhando - pegar uma flor num dos galhos da arvore. Ela não desistia de pular, fazendo uma careta enquanto não sessava seus pulinhos. Me aproximei lentamente, e usando um galho mais baixo, peguei uma flor e me ajoelhando, ofereci a baixinha.

- Aqui - sorri pra garotinha - Deveria ter vindo com sua mãe, ela é mais alta, poderia te levantar e lhe ajudar a pegar a mais bela flor do pessegueiro.

- Obrigada - agradeceu com as bochechinhas rosadas, enquanto olhava para o chão com a flor contra seu rostinho. Ri encantado com a doçura da cena.

- Hana shi? - uma voz chamou um pouco afastado de nós.

Meu corpo congelou ao notar de quem se tratava a dona da voz. Uma figura pequena, jovem, e mais bela e charmosa do que qualquer flor de pessegueiro. Chaeyoung havia aparecido um pouco mais as nossas costas, logo correndo para falar com a pequena a minha frente. Não tive tempo de fazer nada, de pensar em nada, simplesmente fiquei imóvel, com meu rosto agora descoberto a amostra para alguém que eu já conhecia, porém nunca vira Kento.

- Hana shi, sua mãe está te procurando – disse Chaeyoung, se ajoelhando ao lado da pequenina, ainda tímida com o presente que recebera.

- O rapaz bonito me deu essa flor, Chaeyoung unnie – ela disse mostrando com o orgulho a flor de pessegueiro para a mais velha, o rostinho rosadinho de timidez.

Chaeyoung mudou seu olhar para mim, seu olhar diferente de como quando olhava para Mina, havia curiosidade e preocupação naquelas orbitas castanhas. Pigarreei mudando meu olhar para o chão, incapaz de segurar aquele olhar por muito tempo. Fosse Mina ou Kento, o efeito que a jovem tinha em mim era sempre o mesmo.

- Ouvi a mãe de Hana-chan a procurar, e resolvi ajudar na procura – expliquei ainda incapaz de lhe olhar nos olhos – Não queria assustá-la, então lhe dei a flor que estava tentando pegar.

- É verdade, unnie. O moço bonito pegou a flor de pessegueiro pra mim – reafirmou a pequena, e logo depois, voltou sua atenção para mim – Obrigada, moço bonito – agradeceu se curvando, porém, logo após sua breve reverencia, ela se jogou nos braços de sua unnie, escondendo seu rostinho ruborizado na curva do pescoço de Chaeyoung. Não contive um sorriso com a doçura que era aquela cena.

- Sua mãe está preocupada, Hana shi – Chaeyoung disse, mas antes que a pequena pudesse responder, ouvimos uma voz trêmula atrás de nós.

- Hana! Minha filha! – disse a jovem mãe, se ajoelhando de braços abertos, rosto molhado e vermelho de tanto chorar.

- Mamãe! – correu a pequena para o abraço de sua mãe, se segurando firme nos braços da mesma.

- A pequena Hana havia se distraído com o pessegueiro, eu e este rapaz a achamos tentando pegar algumas flores – Chaeyoung explicou, apontando brevemente para mim com sua mão, porém felizmente não virando seu rosto para mim. Quanto menos do rosto de Kento ela se lembrasse, melhor seria.

- Obrigada, Chaeyoung shi, obrigada rapaz – curvou-se a mulher com sua filha em seus braços – Hana terá de aprender a ser mais atenciosa e não andar por aí sozinha, não é mesmo, mocinha?

- Desculpa, mamãe – a pequena se desculpou com um biquinho em seus lábios.

E agradecendo mais uma vez a nós, a mulher foi embora com a pequena Hana em seus braços, que inclusive ainda segurava firme, porém cautelosamente, a flor em suas mãozinhas. A pequena era de fato uma figura, porém isso só dava mais preocupações a sua já emocionalmente frágil mãe, o que não era nada bom.

- Não lembro de vê-lo pela vila antes – Chaeyoung disse, me acordando de meus pensamentos e me fazendo perceber que agora erámos só eu, ela, o pessegueiro e à noite. Seus olhos curiosos me encarando. Aquilo não era bom, Kento não poderia ter contato com ninguém que Mina conhecesse.

- Eu só saio durante a noite – respondi, incapaz de retornar seu olhar.

- E por que estava usando um pano em seu rosto? Alguns estavam achando que você era algum ladrão ou assassino – ela disse, seu tom não demonstrava sinal de brincadeira, mas também não era rude, era simplesmente curioso.

- Não gosto de mostrar meu rosto – respondi, incapaz de inventar uma resposta digna, e dizendo a primeira coisa que me passou pela cabeça. Idiota.

- Você é tímido, isso explica porque não está me olhando nos olhos – Chaeyoung riu, o que fez a tensão nos meus ombros diminuir um pouco.

Aquela primeira vez de Chaeyoung falando com Kento, me lembrara bastante a primeira vez que Mina falou com a pequena. Eu sempre fui tímido, e não costumava a falar com pessoas da minha idade, ainda mais alguém que mesmo à primeira vista, me trouxe sentimentos que eu não deveria ter. Mesmo com meu jeito calado, quieto e tímido, Chaeyoung não desistiu de puxar assunto e tentar me fazer confortável, fosse com assuntos aleatórios, elogios ou piadas sem graça. Piadas essas que tinham a maior graça do mundo só de vê-la rir.

- Tenho uma amiga que parece com você, inclusive, também é japonesa – a coreana comentou, fazendo meu sangue gelar – Ela também não me olha muito nos olhos. Bem, com o passar do tempo ela passou a se sentir um pouco mais confortável comigo e com nossas amigas, mas ainda assim parece ter alguma dificuldade em me encarar por muito tempo. O que é uma pena, eu gosto de observar a pintinha fofa que ela tem no nariz.

Em outra ocasião, meu rosto ficaria vermelho e eu sorriria tímida com aquela informação, porém, o fato de Chaeyoung reparar tanto em uma característica que ambos, Kento e Mina, tinham, me preocupava. Ela jamais poderia saber sobre meu eu da noite, jamais poderia saber sobre o que eu era, sobre como eu era.

- Olha, você também tem – quando dei por mim, a garota estava a minha frente, apontando para meu nariz com um sorriso largo no rosto.

Como ela parou ali tão rápido? Ainda mais sem eu perceber? Eu de fato tinha uma péssima atenção, não era atoa que Hiroshi-sensei sempre me dizia que até mesmo um rato cego conseguiria me despistar, eu me perdia muito fácil em meus pensamentos.

A proximidade da garota me fez dar um pulinho para trás, ação que eu não havia planejado e que acabou causando uma risada vindo da pequena. Bem, ao menos um riso dela valia qualquer vergonha que eu passasse.

- Desculpa – desculpou-se se curvando entre suas risadas – Eu não queria te assustar – era evidente que ela estava tentando cessar sua crise de riso, porém não estava tendo sucesso. Algo típico da pequena – Me desculpe mesmo, eu sinto muito...

- Tudo bem – sorri tentando mostrar que minhas palavras eram sinceras – Não tem problema, você não fez por mal. Além disso, ao menos eu lhe fiz rir – aquelas últimas palavras saíram de minha boca sem eu perceber, e logo recebi um par de sobrancelhas saltadas da mais nova.

Um silêncio desconcertante surgiu no ambiente. Eu não tinha coragem de olhar para seu rosto, e aparentemente até a mesma parecia um pouco encabulada com a situação.

- Acho melhor voltarmos, suas amigas podem começar a ficar preocupadas - eu disse, tentando quebrar a tensão que estava havendo entre nós.

- Verdade - Chaeyoung concordou coçando a nuca e olhando para o chão – Vamos então? – voltou seu olhar para mim, e tudo o que eu pude fazer foi concordar enquanto admirava os olhos da mais nova refletir a luz do luar. algo que eu provavelmente nunca mais veria na vida. Algo que eu não deveria, ao menos.

Nosso caminho foi silencioso, somente o som de nossos passos de os sons do festejo vindo de nosso destino. Era irônico como aquela situação não era incomum para nós, Chaeyoung e Mina costumavam fazer a mesma coisa, caminhar lado a lado, em silêncio, enquanto caminhavam para seus destinos, por vezes o mesmo. Não era um silêncio incomodo, era bem leniente, na verdade. Eu gostava da companhia de Chaeyoung, mesmo em momentos como aqueles.

Me permiti a observar de canto de olho, e notei que havia um sorriso tímido nos lábios da mesma enquanto caminhávamos. Seus olhos grudados no chão, seus braços atrás de suas costas. Ela parecia nervosa ao lado de Kento, não num sentido negativo, mas aquilo me deixara incomodado. Ela não costumava agir assim com Mina, nunca agira, pelo o que eu me recordava, então por que estava agindo assim com Kento? Seria por que eu era um estranho? Ou... Por que eu era um homem?

Por algum motivo que eu não sabia explicar, aquilo me incomodava.

- Chaeyoung ah! – uma animada Dahyun acenava de longe para a nossa direção assim que chegamos mais perto de onde havia a fogueira.

- Bem, eu já vou indo, boa noite – me curvei para a pequena, quem logo se virou para mim.

- Espera, não quer passar um tempo com a gente? Não se ofenda, mas você parece solitário – perguntou sendo a mesma gentil Chaeyoung que Mina conhecia.

- A solidão tem seus prós, senhorita – respondi e um aceno – Tenha uma boa noite – e dizendo isso, me afastei me enfiando dentre as pessoas, não dando chance para a pequena insistir em sua oferta.

Me doía o coração ter que dar as costas para ela e as meninas daquela forma, mas eu sabia que era para o melhor. Aquele encontro no pessegueiro jamais deveria ter acontecido, eu jamais deveria ter vindo a aquele festejo, fora arriscado demais. Kento jamais poderia ver as meninas novamente, e o mais importante, elas jamais poderiam conhece-lo.

 


Notas Finais


Se você leu até aqui, muito obrigada! De coração! Ficaria feliz de saber sua opinião a respeito da fic, então se puder deixar um comentário, ficaria mais do que grata.

Até a próxima!


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