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História De Repente é Amor - Capítulo 24


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Capítulo 24 - Explicações


Eu iria atender o telefone, isso se ele não tivesse parado de tocar. Samantha não me perguntou mais nada sobre o “telefonema misterioso”. Eu também não quis entrar em detalhes com relação às mentiras que eu havia dito. Não entendi sua atitude, se fosse eu, iria querer explicações, mas agradeci aos céus por ela não ser eu.

Já eram oito e meia quando cheguei na casa de Oliver com Sam. Os dois insistiram para que eu dormisse lá, mas tudo o que eu queria era correr para a casa de Kara e ficar com ela o resto da noite. Ficar com ela na manhã seguinte e todos os outros dias que estavam por vir.

Dez e meia. Essa foi a hora que consegui sair da casa de Oliver. Quase onze horas cheguei na casa de Kara. Luzes apagadas. Toquei a campainha várias vezes, liguei para o telefone da casa dela. Chamava, mas ninguém atendia. Tentei o celular. Estava desligado desde a hora que sai da casa do Ollie. 

Me sentei na calçada. Mãos nos joelhos. Onze e vinte. Nada de Kara chegar. Meia noite. Nada de Kara chegar. Uma e quinze o meu celular tocou. Número privado? Não! Lá de casa.

— Oi. – atendi decepcionada.

— LENA, ONDE VOCÊ ESTÁ? – minha mãe perguntou aos berros, isso já estava virando rotina – Liguei para a casa do Oliver e ele disse que você já havia saído de lá horas atrás! –continuou brava, mas não aos berros.

— Relaxa, mãe. – respondi tranquila embora angustiada pela falta de notícias de Kara. Parei para pensar um minuto. Será que foi isso que minha mãe sentiu quando tentou falar comigo naquela noite que fui para a Lapa sem avisar? Horrível tentar falar com alguém e não conseguir – Já estou indo para casa. – me levantei da calçada.

[...]

Meia hora depois eu já estava em casa. Passei pelo quarto dos meus pais, as luzes estavam acesas ainda. Bati na porta devagarinho. Não entrei.

— Cheguei! – falei e fui para o meu quarto. Olhei para trás e as luzes do quarto deles foram apagadas. Preocupados de verdade? Quem sabe.

Ainda tentei ligar para Kara umas dez vezes. Na sua casa não atendia. O celular continuava desligado. “Onde será que ela se meteu?” – pensei – Com o Luís ela não podia estar. Ele havia viajado, ela mesma quem disse.

Eu estava quase adormecendo quando o telefone tocou. Ele estava embaixo do meu travesseiro, tomei um susto, mas atendi rapidinho. Nem vi o número no visor.

— Alô? – perguntei.

— Oi, Lee... Te acordei?

Olhei o relógio pendurado na parede, em seguida para a janela, as cortinas estavam abertas. Seis e meia da manhã. O sol já iluminava o dia. Sabe quando você tem aquela sensação de que não dormiu e que as horas não passaram?

— Não, Oliver. – me levantei – Já vou levantar para tomar um banho e me arrumar pro colégio.

— Fiquei preocupado contigo. Sua mãe ligou, estava te procurando. Bom, tentei te ligar, mas só dava ocupado.

— É uma longa história, Ollie. – falei.

— Você estava com a professora Kara? Pode falar, não conto pra Sam.

— Não, não estava com a Kara. – bom, não menti pra ele, não é mesmo?

— Não se atrasa, está bem?

— Já estou chegando. – desliguei o telefone e fiquei pensando. 

A última vez que disse isso, me atrasei por horas. Nem sei se teria como compensar esse atraso.

[...]

Cheguei no colégio e fui direto na sala dos professores. Kara não estava. Encontrei Oliver e outros moleques no corredor. Ele abandonou o grupinho e veio falar comigo.

— Lena, você não vai acreditar! – exclamou empolgado.

— Acreditar no que? – não estava tão interessada, isso era visível.

— Sabe onde vou comemorar meu aniversário de dezoito anos?

— Nem vem, Ollie! – continuamos andando – Qual, é? Vai ficar esfregando na minha cara a sua maior idade? Você já foi mais humilde, sabia? – falei quase em tom de brincadeira, embora estivesse morrendo de inveja por Oliver fazer dezoito anos na minha frente. 

Bom, estávamos em Setembro ainda e eu teria que esperar até Julho do próximo ano para fazer dezoito, que desgraça!

— Para de bobeira! – falou. Entramos na sala de aula – Não é nada disso, tá? – sentou-se e eu me sentei- ao seu lado – Vou conhecer uma gatinha linda no dia do meu aniversário e sabe para onde vamos?

— Para um Motel? – juro que pensei que fosse isso. Seria bom Oliver perder a virgindade. Bonita idade para se perder a virgindade, não acham?

— Fala sério, Lee! – pediu quase aborrecido. Ele detesta qualquer palavra que o fizesse recordar sua condição de virgem. Puro machismo!

— Então fala, para com esse suspense... – estava impaciente – Antes que eu imagine mais alguma coisa.

— Nós vamos naquela boate em Copacabana! – sorriu olhando pra minha cara surpresa – Isso! A boate que você foi barrada duas vezes.

Olhei bem nos olhos dele segurando a vontade de rir, se não, não teria graça.

— Cara! – exclamei. Ele era toda atenção – Você é gay? Pode falar, eu vou continuar sendo sua amiga. – não resisti e comecei a rir – Só pode! Aquela Boate é GLS. Vai mesmo comemorar seu aniversário lá?

— Odeio suas piadinhas de mau gosto, sabia? – falou aborrecido – Você não captou a mensagem, não é mesmo? – sacudiu meus ombros – Acorda! Eu disse que vou conhecer uma G.A.TA – falou bem devagar – Uma gata linda que conheci na Net e vamos nos encontrar lá. – concluiu com aquele tom de superioridade que as pessoas mais velhas têm.

— Hum... – falei reflexiva – Posso te dar um conselho de amiga?

— Lá vem você com a sua negatividade. – revirou os olhos.

— Sem querer me intrometer na sua vida, Ollie, mas acho que isso não será bom pra você. Namorar uma lésbica só indica que você vai ser trocado por uma mulher mais cedo ou mais tarde – falei e fiquei esperando sua reação.

— Hey! Ela não é lésbica! – sorriu, ele sabia que eu não disse por mau – O tio dela quem é gay e dono da boate, sua ingrata! Pensei que você iria gostar de ir até lá.

— Nossa! Pensei que...

— Pensou errado para variar, né, sua desmiolada?

— Porque nunca falou dessa menina?

— Poxa, Lena, não falei porque não era nada certo, mas agora, acho que estou apaixonado. – respondeu com aquela cara de idiota que ele mesmo descreveu em outra ocasião.

— Interessante... – falei pensativa – Apaixonado por uma garota que nunca viu?

— Já nos vimos por fotos, pela WebCam e nos falamos por telefone também. – tentou justificar.

— Você é uma figura, cara!

— A Sam vai gostar da boate.

— É, vai... – meu sorriso desapareceu do rosto na mesma hora.

[...]

Despistei Oliver na hora do intervalo e fui procurar Kara pelo colégio. A Inspetora disse que viu Kara entrar na secretaria. O Diretor disse que não a viu. Professora Alex... Bom, ela disse que Kara estaria na Biblioteca. Antes que eu fosse correndo para a Biblioteca, ela segurou meu braço.

— Às vezes não é bom conversarmos com alguém quando esse alguém está magoado. — falou, logo soltou o meu braço e saiu.

— O que ela quis dizer com isso? — perguntei. 

Cocei a cabeça, mas logo dispersei meu pensamento novamente. Eu tinha que falar urgente com Kara, o intervalo estava acabando e aquela ansiedade toda estava me sufocando.

Finalmente uma informação correta. Ela estava senta em uma cadeira próxima a prateleira de livros de Geografia. Kara estava concentrada na sua leitura, nem notara a minha presença.

— Oi. — falei completamente perdida. Eu precisava me explicar, não é? Nunca antes precisei dar explicações, como se faz isso?

— Oi. — respondeu e continuou sua leitura. Não moveu um centímetro sequer da posição em que estava.

Sentei-me ao seu lado.

— Não deu... Não deu para... Para eu ir na sua casa...

Ela continuou não me dando a mínima atenção. Puxei o livro que ela estava lendo e o fechei.

— Olha pra mim. – pedi.

— Você não precisa me dar nenhuma explicação. Eu... Eu nem quero uma. — se levantou — Foi bom você não ter ido. Me deu tempo para pensar na besteira que eu estava fazendo. — completou e saiu. 

Fui atrás dela.

— Espera! — segurei seu braço — Você não pode estar falando sério! Eu... Eu tive um problema, mas fui na sua casa sim, fiquei no seu portão até uma da manhã. Tentei te ligar. Seu telefone estava desligado.

— Tentou me ligar, foi? — perguntou irônica — Não precisava ter me ligado, bastava atender as minhas ligações.

— Não... Não deu.

O sinal tocou.

— Me dá licença, tenho que ir. –a pediu áspera olhando minhas mãos no seu braço — Solta!

— Então é assim? A primeira vez que a cachorrinha não sai correndo ao seu encontro... Pronto! Ela não serve mais, é isso?

— Quer um conselho?

— Não.

— Mas, eu vou lhe dar... — falou — Fica com a sua namoradinha, vai ser muito melhor pra você.

— Ciúmes, Kara? — sorri — É isso? Eu te amo, sua idiota! 

— Pode pensar o que quiser desde que não me venha mais com as suas gracinhas.

— Eu te amo! — falei e repeti várias vezes, mesmo ela já estando distante. 

Na hora da saída, procurei Kara novamente. Eu não desisto? É isso o que vocês acham? Bingo! Acertaram. Fui até o estacionamento do colégio, ela estava dentro do carro. Não quis sair para falar comigo. Abri a porta do carona e entrei.

— Tá agindo feito criança, sabia, dona Kara? — perguntei sorrindo.

— Desce, Lena! — desligou o carro — Preciso ir para outro colégio agora.

— Almoça comigo? — perguntei.

— Não! — respondeu — Desce, alguém pode nos ver.

— Deixa ver, qual o problema? Podemos estar conversando sobre o “zero” que você me deu no teste. — coloquei a mochila no banco de trás do carro —Não podem nos julgar por estarmos dentro do seu carro conversando sabe se Deus sobre o que?

Ela quase riu, no entanto, manteve a cara amarrada.

— Você é muito folgada, menina! – rodou a chave na ignição, apertou os botõezinhos que ficavam na sua porta para suspender os vidros negros do carro. Insul-filme, sabe? Olhei de relance. Ela ligou o ar-condicionado.

— Vamos? – perguntei.

— Eu vou, você desce. – respondeu autoritária.

— Me leva em casa? – insisti. 

Chata? Sim!

Ela balançou a cabeça no sentido negativo.

— Já disse, vou dar aulas em outro colégio. – respirou fundo, estava perdendo a paciência comigo, meu pai também fazia aquela cara quando estava perdendo a paciência comigo.

— Pode faltar! – sorri debochada – Adoramos quando o professor falta. De Matemática, então? Nossa, quase festa.

— Porque você não foi ontem? – virou seu corpo completamente na minha direção. Fiz o mesmo – Veja bem, não quero uma explicação... – me olhou nervosa – Curiosidade, apenas. – completou sem jeito.

Uns segundos de silêncio. Falar a verdade pra ela? “Minha namorada não permitiu que eu fosse.” Não, eu não diria isso. O que dizer com aqueles olhos penetrantes procurando respostas nos meus?

— Assim que desliguei o telefone... – comecei medindo as palavras – Eu estava saindo de casa quando... Quando a Samantha chegou e... – estava literalmente gaguejando, onde estavam as minhas desculpas? – Poxa, Kara! Eu não podia dizer pra ela simplesmente que iria na sua casa. – concluí.

— Samantha é sua namorada? – colocou as duas mãos no volante – Ela chegou, vocês ficaram namorando e não deu tempo de ir até a minha casa, certo?

— Não, quer dizer... Não! Não ficamos namorando. Ela demorou para ir embora. Depois fui até à casa do Oliver com ela e saí correndo de lá. Cheguei na sua casa e você não estava. Afinal de contas, onde você se meteu? Fiquei te esperando por horas.

— Isso não é da sua conta! – respondeu.

— Beleza! Você quer minhas explicações, mas quando eu te peço umazinha, bem pequenininha, você diz que não é da minha conta? – perguntei.

— Desce, Lena! – olhou o relógio – Você está me atrasando.

Puxei-a pelos braços, segurei bem forte.

— Se você me der um beijo, eu desço. – falei olhando em seus olhos assustados.

— Para com isso! Olha onde estamos!

— Ninguém vai ver. – uma rápida olhada nos vidros do carro – Não dá para ver aqui dentro, esse carro não passa numa vistoria com esse Insul-fime, sabia? – falei e tomei sua boca com paixão. 

Ela retribuiu ao beijo, com tanta vontade quanto eu, mas, não sei o que acontece com ela. No minuto seguinte, Kara já estava armada de palavras e gestos novamente.

— Chega! – pediu se afastando de mim – Agora desce e entenda de uma vez por todas que eu não quero me envolver com você. – continuou fria e sincera. O que eu podia fazer diante da sua negativa “sincera”? Aquele olhar estava sincero demais.

— Então... – eu não sabia onde pôr às mãos – Pode ser do seu jeito. Podemos nos ver quando der. Você escolhe o dia, a hora... Eu vou... – falei sem pensar. Cadê meu orgulho? Eu estava compactuando com o que mais abomino em alguém: “falta de amor próprio” – Me dá uma chance, Kara? Não te cobro nada, tá legal? Fica com o Luís, se case com ele, mas continua comigo, por favor?

Podem dizer, isso é deprimente, não é? É que... Eu fiquei desesperada com o que vi nos olhos dela. Sabem o que eu vi? Convicção, segurança, certeza... Fiquei desnorteada? Claro! Quem não ficaria diante da real possibilidade de nunca mais ter nada da pessoa que amamos? Bom, se o que ela podia me oferecer eram alguns minutos de prazer e nada mais, teria que me contentar.

— Não faz isso... – pediu com olhar profundo e triste – Você merece mais. O que eu posso te oferecer é muito pouco, não vale a pena.

— Deixa eu decidir se vale a pena! – chorando? Sim, meus olhos estavam vermelhos e as lágrimas teimavam em se fazer presente.

— Falei com o Luís hoje por telefone e... Me senti culpada mesmo não tendo acontecido nada entre nós esta noite. Ele não merece. Você não merece. Eu, bom... Eu não quero fazê-los passar por nada disso! – levantou meu rosto – Você conseguiu me fazer a pessoa mais feliz do mundo. Todas às vezes que estivemos juntas, apesar das nossas brigas constantes... – sorriu, um sorriso misturado com lágrimas – Você tinha razão quando disse que uma simples menininha de dezessete anos fez eu sentir mais coisas do que o Luís ousou sonhar em fazer.

— Eu disse “simples garotinha”.

— Que seja! – sorriu – Foi você quem fez eu me sentir desta forma, Lena. 

— Você me ama, Kara? – olhei em seus olhos.

— Eu não posso te amar. – fugiu bem da minha pergunta, tive medo de perguntar novamente.

— Fica comigo? Pode ser de vez...

— Não repita mais isso... – colocou o dedo nos meus lábios – Sua namorada é bonita, Lena. – falou forçando um sorriso.

— Ela é legal. – falei e me ajeitei no banco do carro. Iria pegar a mochila no banco de trás, mas Kara impediu meu gesto.

— Vou te levar em casa. – sorriu, ainda não era “aquele sorriso” – Não gosto quando você fica com essa carinha de cachorro sem dono. – um novo sorriso forçado – Quero só ver se meus alunos vão gostar do meu atraso. Se você estiver mentindo, puxo sua orelha, viu? – brincou. 

Sem graça seu tom de voz. Não se deve fazer uma brincadeira com aquele tom de voz.

Sorrimos. Fiquei o caminho todo olhando para ela. A gente não conseguia sentir raiva uma da outra por muito tempo. Como nós não dizíamos nada, Kara ligou o rádio. Que música estava tocando? Sei lá! O que eu sei era o que estava passando pela minha cabeça. Porque eu tinha que ter nascido depois dela? Essa porra de idade é tão importante assim? Opa! Perdão, saiu sem querer. Porque ela não podia jogar tudo pro alto e ficar comigo? Nem de vez em quando? Ela queria de vez em quando, o que mudou?

— Porque não podemos ficar de vez em quando? – perguntei num impulso.

— O que? – abaixou o rádio, fingiu que não entendeu, sabe como?

— Você ouviu. – respondi com segurança – O que mudou?

— Não acho que seja bom pra você, só isso. – eu não disse que ela tinha ouvido?

— Não me convenceu.

— Não está sendo bom pra mim, pronto! – parou o carro no portão da minha casa – Até segunda! – falou.

— Deixa eu ir na sua casa hoje? Prometo não me atrasar.

— Já conversamos sobre isso... – me olhou novamente – Nem pense em aparecer de surpresa na minha casa, está bem mocinha? Vou para a casa do meu pai hoje e só volto amanhã à noite.

— Você está magoando o meu coração, sabia?

— Tchau, Lena. 

Ela ligou o carro, acelerou e eu fique parada, vendo o carro virar na terceira esquina. 

Já viram alguém sem esperança? Quem nunca viu, dá uma boa olhada em mim. Olhei para o céu. Nenhuma nuvem. Azul. Azul. Como o céu podia estar tão lindo e tudo a minha volta tão feio? Vai entender.



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