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História Demore-se - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Capítulo II


 

Ansioso, nervoso, apaixonado e feliz.

Era assim que Sasuke se sentia um ano depois na Plataforma 2, às 15:45.

Não podia dizer que o ano passou rápido pois ele contou cada dia. Nunca pensou que uma noite lhe renderia uma paixão tão longa.

Sentou-se em um banco em frente à parada de trem beirando ao desespero para ver a figura loira que desceria de alguma locomotiva prestes a chegar. Mexia as pernas freneticamente e sorria bobo, às vezes. Não tentou fazer nada além de esperar, não conseguiria se concentrar mesmo, então era melhor só sentar e contar os minutos. E foi o que fez.

Os minutos passavam devagar, mas nada poderia o abalar.

15h50m…15h55m…15h59m…

Faltava apenas um minuto e com isso, levantou-se.

16h00m.

Como será que Naruto estava? Teria ele mudado muito?

16h01m…16h02m…16h03m…16h04m…16h05m…

Era normal um atraso, não era? E não importa o quanto Naruto se atrasasse, ele esperaria.

Os trens paravam e as pessoas desciam e… nada.

O relógio não parava e quando o relógio da estação apontou para às 16h30m, Sasuke pegou o celular para confirmar a data… Será que tinha errado o dia?

Mas, não.

08 de junho. Ele se lembrava bem e era exatamente essa data que combinaram. Então, ficaria ali. Naruto viria.

Sasuke sentiu as esperanças se esvaindo quando o relógio apontou para às 19h00m.

Havia Naruto se esquecido?

— Tsc! – Soltou impaciente enquanto andava para um lado e para o outro.

Um atraso de três horas? Não é possível.

Mas foi quando o relógio apitou e o dia virou: 00h00m (meia-noite), dia 09/06 que Sasuke percebeu que Naruto não apareceu...

...E nem apareceria…

***

Olhando pela janela do edifício alto e bonito, com seu uísque em mão remexendo de leve o gelo dentro do copo, Sasuke se preparava para mais uma comitiva em uma biblioteca renomada de Paris.

Paris.

Era impossível não se lembrar daquele francês loiro de olhos azuis, mesmo depois de nove anos.

Ainda era dolorido pensar no fim que tiveram, mas o moreno nunca o esqueceu. O moreno nunca parou de reviver as sensações que tiveram e ainda, depois de tudo, se perguntava: “Como ele estava?”; “Onde estava?”; “O que estaria fazendo?”.

Sorriu triste e balançou a cabeça para espantar aqueles pensamentos.

— Senhor, é a sua hora! – Suigetsu anunciou abrindo a porta.

— Ah, ok! Já vou me arrumar e estou indo. – Respondeu brando.

Oh, sim. Suigetsu, agora, era seu agente pessoal. Quando voltou para Viena ao reencontro falho com o loiro passou no bar, pagou o vinho com juros e reencontrou o barqueiro que ouvira todas as suas angústias. Desde então, se tornaram amigos e companheiros de trabalho. A vida, talvez, nunca era por acaso mesmo.

Sasuke havia se tornado um escritor renomado no mundo inteiro. Havia escrito um único livro cerca de quatro anos atrás e este, simplesmente, bombou. “Uma noite em Viena” estava sendo cogitado a virar um filme. É, não era pouca coisa...

Respirou fundo e foi.

A mídia estava enlouquecida, o salão estava cheio de repórteres para lhe encher de perguntas. Não que o moreno não gostasse, é só que apenas a mídia poderia ser bem invasiva, às vezes.

Sentou-se em uma mesa em frente aos convidados e começou a falar um pouco sobre seu livro, ele não falava muito sobre sua vida pessoal. Os flashs se acalmaram, mesmo assim, isso irritava um pouco, mas não tinha muito o que fazer. Suigetsu sempre se sentava ao seu lado, mesmo sem falar nada, era um ombro amigo muito bem-vindo. Finalizou sua fala.

— Agradeço a presença de todos e agora vou abrir para perguntas. Sintam-se à vontade. – Anunciou o escritor com muita simpatia, após muita desenvoltura falando sobre a obra.

A primeira repórter levantou a mão e, logo, Sasuke assentiu para que ela se levantasse e perguntasse.

— Senhor, a sua obra é uma autobiografia?

Sasuke sabia o porquê daquela pergunta. O livro era uma história de amor entre dois desconhecidos que se tornaram dois apaixonados. Um francês e um americano. Todos queriam saber a inspiração por trás daquela história, ele nunca havia falado que aquela história era real, ninguém sabia exceto seu amigo de cabelos brancos e o próprio Naruto, se este tivesse lido. Porém, ele era sempre evasivo e misterioso na resposta.

— Bom, considero que tudo é uma autobiografia. Vemos o mundo de uma pequena fechadura, certo? Somos a soma de momentos que vivemos e o escritor usa acontecimentos de sua vida para se moldar. É algo inevitável. Quando penso em minha vida, admito que nunca vivi grandes tragédias, mas ela é drama. Então, se eu pudesse escrever um livro que captasse como é conhecer alguém e se conectar, de verdade, com essa pessoa, eu poderia acrescentar amor na vida das pessoas. Fazer com que elas acreditassem na paixão, entende? Foi apenas isso.

— Vou tentar ser mais específica, senhor. – Falou a moça, ainda em pé. – Você conheceu um jovem francês e passou uma noite com ele?

Sasuke sempre esperava esse tipo de pergunta e, mesmo assim, era desconfortável. Aquela repórter era uma atrevida, isso sim.

— Senhora, esse tipo de pergu… – Suigetsu tentou amenizar para o lado do amigo, mas foi interrompido pelo mesmo.

— Não se incomode, Sui. – Sorriu amarelo olhando a moça em pé ao meio do salão, com um caderninho anotando cada palavra dele. – Eu creio que isso não seja relevante para a obra.

— Então, sua resposta é sim? – Continuou a moça.

— Como estou na França e é minha última entrevista, vou lhe dar a resposta… Sim.

É possível perceber a inquietação de todos os presentes, sem contar, a surpresa que envolveram todos. Era a primeira vez que ele admitia isso.

— Obrigada, senhor! – A repórter responde sorrindo de olheira a olheira.

— Eu gostaria de perguntar, senhor. – Diz um moço de óculos, se levantando. Sasuke o mira e assente para que ele prosseguisse. – Sr. Uchiha, o fim do seu livro é ambíguo. Não dá para entender. Eles voltaram a se encontrar depois de doze meses como prometeram?

— Eles prometeram? – Queria conseguir ignorar aquela pequena dorzinha ainda em seu coração. – Acho que a melhor maneira de responder isso é: Use sua imaginação. Se for romântico, eles se encontraram. Se for cínico, melhor pensar que não. – Sasuke se levanta, caminhando até uma outra repórter qualquer, a questionando. – Você! Você acha que eles se reencontraram?

— Sim, claro. – Ela respondeu.

— Está vendo? – Voltou a fitar o moço de óculos. – Ela acredita que sim, mas há gente nessa sala que acredita que não. E, também, tem gente que tem suas dúvidas. Aí, vai de você.

— Mas, e você, Sr. – O moço volta a falar. – Na vida real, o reencontrou?

— Se eu responder isso, acabaria com o suspense. – Tenta se mostrar convincente, voltando a se sentar atrás da mesa.

— Temos tempo para apenas mais uma pergunta. – Anuncia Suigetsu.

— Qual será seu próximo livro? – O moço de óculos pergunta.

— Eu não sei, cara, eu não sei. – Responde. – Eu sempre quis escrever um livro sobre um cara deprimido. Ele sonhava em ser aventureiro e amante da vida… Que pega uma bicicleta e atravessa o continente. Em vez disso, ele está preso em um escritório. Tem um bom emprego, uma boa esposa e tudo o que precisa. Mas não importa. Ele quer lutar por um significado em sua vida. Se sentir feliz, sabe? Um dia, enquanto está sentado diante da mesa, sua filha pequena chega e pula sobre ela. E ele se preocupa com ela, mas ela está tão feliz. Ele olha para ela e volta a ter seus 20 e poucos anos. E em pensamentos, ele está lá vivendo os dois momentos: o passado e o presente. Por um instante, a vida dele se desdobra. Ele percebe que o tempo é uma mentira. – Quando Sasuke passa os olhos pelo salão ditando sua ideia, ele vê uma figura ao lado de fora da porta de vidro do salão que faz seu coração errar uma batida. Uma não, duas. Três. Quatro. Era possível ter um ataque cardíaco? Naruto estava ali, sorrindo para ele e era impossível desviar o olhar. - Está tudo acontecendo ao mesmo tempo. Um momento contém o outro. É isso.

— Nosso autor tem que ir até o aeroporto agora. – Suigetsu diz levantando-se da cadeira. – Agradecemos a presença de todos e, principalmente, a presença do Sr. Uchiha. - Todos batem palmas. - Vão ser servidos alguns comes e bebes. Sintam-se à vontade.

A multidão se dissipa e o barulho das vozes começam, então Sasuke se aproxima de Suigetsu e sussurra:

— Quanto tempo até eu partir para o aeroporto?

— Você deve partir às 19h30m. No mais tardar.

— Ok, tudo bem!

Em passos lentos e nervosos, o moreno atravessa o salão e alcança a porta para o lado de fora da biblioteca. Se aproximando do loiro encostado em uma grade, aquele ser que tanto lhe tirava o sono. Sem nunca desviar o olhar daquelas orbes azuis.

— Oi. – Sasuke o cumprimenta.

— Olá! – Naruto o responde evidentemente nervoso.

— Como vai você?

— Bem, e você?

— Estou bem… Hm… Quer tomar um café, sei lá? – O mais alto convida tentando disfarçar sua ansiedade.

— Você não precisa tomar um avião?

— Sim, mas ainda tenho um tempinho.

— Tudo bem.

— Ok, me espere aqui.

O moreno se vira mergulhando de volta à biblioteca para encontrar o amigo. Quando encontra, o avisa:

— Eu vou sair para tomar um café e volto umas 19h15m, ok?

— Você autografou todos os livros?

— Sim, todos.

— Leve o número do motorista, caso precise de algo. Eu vou colocar suas malas no carro para ir adiantando. – Diz bagunçando os próprios fios brancos. – E, Sasuke, só faça isso, se não for se machucar de novo. - Adverte.

— Estou bem. Não se preocupe.

Ele começa a andar de novo até reencontrar Naruto.

— Eu não acredito que você está aqui, Naruto.

— Eu moro aqui… Você tem certeza que não precisa ficar?

— Não, não. Já estão todos cansados de mim. – Os dois riem, eles ainda estavam parados e Sasuke volta a fitar o mais baixo. – Isso é muito estranho.

— É bom ver você. - Diz sorrindo até fechar os olhinhos.

— Para mim, também.

Os dois ficaram em silêncio por um bom tempo em uma situação constrangedora até o loiro voltar a dizer:

— Então, vamos tomar o café?

— Oh, claro.

— Tem um logo ali. – Diz apontando para a direção do café e começa a andar sendo acompanhado pelo maior.

— Eu quase perdi o rumo quando te vi ali. - Confessa o Uchiha. - Como sabia que eu estaria aqui?

— É minha biblioteca favorita. Passo horas dentro dela. Vi sua foto na programação do mês semana passada e soube que estaria aqui.

— Faz sentido. – Sorri para o menor.

— Eu li uma reportagem sobre seu livro e me pareceu um pouco familiar. – Constata divertido.

— Um pouco? – Eleva um pouco a voz de forma irônica. O loiro ri alto e Sasuke não contém sua curiosidade. – Você leu o livro?

— Sim, fiquei muito surpreso. Eu o li duas vezes, na verdade. – Confessa sem jeito coçando a nuca.

— Você gostou?

— Sim! É muito romântico e super bem escrito. Você está de parabéns.

— Obrigada. Eu fico feliz.

Naruto segura no braço alheio fazendo o maior parar de andar e ficar de frente para ele. Os dois se encararam por alguns segundos, até o loiro expressar:

— Espera…

— O quê?

— Antes de irmos em qualquer lugar, eu preciso lhe perguntar…

— Claro… O que foi?

— Você foi em Viena naquele junho?

Sasuke suspira cansado e responde arqueando uma sobrancelha:

— Você foi?

— Eu não pude ir, Sasuke. Mas você foi? Eu preciso saber. É importante.

— Por que, se você não foi?

— Só responda, poxa. Você foi?

— Não. – Deu de ombros.

— Oh! Graças a Deus você não foi. – Naruto diz aliviado colocando uma das mãos no coração.

— Ainda bem que não fomos, né? Se só um de nós tivesse ido, seria uma droga. – E foi.

— Eu sei. Eu estava preocupado. Eu me senti tão mal, mas não pude ir. Minha avó morreu e foi enterrada aquele dia, 08/06. Eu não poderia ir.

— Sua avó Tsunade?

— Isso. Você se lembra?

— Lembro de tudo.

— Oh... É verdade, estava no livro. – Mexeu nos cabelos loiros bagunçando-os um pouco. – Eu ia. Eu juro que ia. Mas, quando minha avó morreu, eu não podia.

— Sinto muito.

— Mas você não foi à Viena. – Naruto o encara com o cenho franzido. – Por que você não foi? Eu teria ido, se pudesse. Eu programei tudo. É melhor você ter uma boa desculpa. – Finaliza cruzando os braços.

Sasuke olha de um lado para o outro. Totalmente inquieto. Encara Naruto algumas vezes. Encara o chão. Reveza o peso de uma perna para outra totalmente sem graça.

— O que foi? – O loiro estava confuso com a reaçao do outro. – Olha pra mim. – Levanta o queixo do maior com o polegar e indicador para que ele o fitasse. – O que foi, Sasuke? – O moreno estava com os olhos marejados. E então, Naruto entendeu tudo. – Oh, não. Você esteve lá, não é? Você foi… – O maior apenas assente. – Oh, que horrível. Meu Deus! Eu não acredito. – Naruto começa a andar de um lado para o outro. – Você me odeia? Claro… Você deve me odiar. Começou a me odiar desde então?

O moreno segura os braços do menor para que ele se aquietasse e diz olhando em seus olhos:

— Não. Eu não te odeio.

— Como não? Você deve ter sentindo raiva de mim. Sasuke, não me odeie agora. Minha avó… Ela…

— Naruto, ok! Já entendi. Eu NÃO te odeio, ok? Está tudo bem. Eu fui lá, você me deu cano. Acontece. Eu fiquei na fossa, mas agora já passou.

— Não diga isso.

— Estou brincando. Está tudo bem, ok? Uh?

— Sinto muito… Eu sinto tanto… Não quero que você me odeie. Eu queria ir mais que tudo no mundo, eu juro.

— Eu entendo. Juro que entendo. Eu fiquei mal porque não trocamos contato e eu não tinha como saber.

— Essa foi uma decisão tão estúpida. Eu queria que a gente tivesse recomeçado de onde paramos.

— Seria ótimo se tivesse dado certo.

— Mas não deu… Quanto tempo você ficou em Viena?

— Uns dois dias, apenas.

Levou um tempinho para que o loiro se acalmasse e voltasse ao normal. Ele se culpava, não era mentira. Ele se preparou, tinha comprado a passagem, mas a vida lhe pregou uma peça quando tirou de si a pessoa mais importante de sua vida bem no dia em que poderia reencontrar uma grande paixão. Ele não tinha como controlar essas coisas e só poderia torcer para que o perdão de Sasuke fosse verdadeiro mesmo que se achasse indigno no momento.

— Vamos continuar andando? – O mais alto pergunta docemente.

— Sim… – O loiro responde voltando a andar lado a lado.

— Bem que me disseram para ter cuidado com os franceses. – O Uchiha brinca tentando quebrar o clima ruim que se instalou. Levou um tapinha de leve e sorriram.

— Por que você não escreveu no livro: “Depois de um ano o puto não apareceu?” – Naruto questiona divertido e Sasuke ri.

— Ah, eu escrevi isso. Pode acreditar. – O Uzumaki encena uma expressão de falsa ofensa. – Eu escrevi, também, uma versão que você aparece.

— O que aconteceu?

— Hm… Oh… Bem, primeiramente, nós fazemos amor por dez dias. – Eles riram. – Mas depois passamos a nos conhecer melhor e percebemos que não damos certo.

— Gostei dessa. É mais real.

— Sim, mas meu editor não gostou.

— Ah sim, todo mundo quer acreditar no amor. Vende bem.

— Exatamente.

— As coisas têm ido bem pra você, então, não é? – Conclui o loiro. – Quero dizer, seu livro é um grande sucesso.

— Não exagere.

— Mas, eu preciso falar… Você me descreveu um pouco neurótico no livro… Quero dizer, o personagem. O personagem que parece baseado em mim. Não sei, enfim…

— Mas você é, não é?

— Você acha que eu sou neurótico? – Naruto abre a boca em um perfeito ‘o’.

— Não, estou brincando. Mas eu não fiz isso. Fiz?

— Talvez tenha sido impressão. Ler algo sabendo que é baseado na gente é honroso, mas, ao mesmo tempo, incômodo.

— Incômodo como?

— Sei lá, saber que fazemos parte das lembranças de alguém. Me ver através do seus olhos. Quanto tempo levou para escrever o livro?

— Três ou quatro anos, mais ou menos.

— Bastante tempo para uma única noite. Eu achei que você tivesse me esquecido.

— Não, tenho uma imagem bem clara de você em minha cabeça. – Pega na mão de Naruto e o encara, parando de andar. – Faz tanto tempo que quero falar com você... É tão surreal agora, sabia?

— Quanto tempo temos antes de você partir? Uma hora? – Questiona olhando para o relógio, se desfazendo do toque e voltando a andar. – Vamos...

— Um pouco mais. Quero saber sobre você...  O que anda fazendo? O que anda aprontando?

— Hm... Por onde começo? – Questiona pensativo. - Eu trabalho para o Horto Florestal. É uma organização ambiental.

— O que fazem?

— Trabalhamos em várias questões de sustentabilidade desde água limpa até desarmamento de armas químicas. Ajudamos nas leis para manter o meio ambiente salvo.

— E o que você faz?

— Coisas diferentes. Por exemplo: ano passado, viajei para o Brasil, trabalhei em um estação para tratamento de água.

— Uau! – Sasuke exclama impressionado. – Parece que você, realmente, faz algo pelo mundo. Não é só alguém que fica por aí reclamando da vida. Como entrou nessa?

— Me formei em Ciências sociais e políticas. Lembra-se da minha faculdade, não lembra? – O maior assente. – Então, eu queria trabalhar para o governo... Fazer algo para melhorar aquela bagunça. E eu fiz isso, mas foi horrível. Eu queria arrumar um jeito de consertar as coisas, mas quando você participa do governo... O máximo que faz é falar. Infelizmente.

— Eu sempre imaginei que faria algo incrível assim.

— Obrigada. Eu agradeço por fazer algo que gosto.

— Eu sempre tento ser positivo e tento achar que o mundo está indo bem.

— Indo bem? – O loiro diz em um tom inconformado. – Me desculpe, eu sei que o seu mundo está lindo. Seu livro é um sucesso, mas o mundo está encrencado. – Os dois soltam risos altos. – Há países que não existem leis ambientais e não há tratamento de água. Onde isso é estar indo bem, Sr. Uchiha? – Debocha.

— Eu sei, eu sei. Por outro lado, as pessoas estão mais bem informadas. Talvez, lutem mais pelo planeta. Existem pessoas como você.

A dupla seguiu andando alguns quarteirões à frente, ainda conversando. Vale ressaltar que Sasuke estava extremamente impressionado por quem Naruto se tornara, ele havia, realmente, se tornado um grande homem. Um ativista. Um homem que seguiu seu ideal. A conversa fluía bem. Fazia nove anos que não se viam, mas, ainda assim, se consideravam importantes um para o outro. Era, de fato, um sentimento rico. Chegaram em um café e sentaram-se de frente um para o outro em uma mesa na parte externa do local.

— Analisando todo o tempo que passou, eu me pergunto: será que estou melhorando? Ou piorando? Quando eu era mais jovem, eu era mais saudável... Por outro lado, era mais inseguro. Agora que sou mais velho, meus problemas são mais profundos... Mas estou mais bem preparado para lidar com eles. – Desabafa o moreno.

— Quais são seus problemas agora? – Questiona o loiro compadecido.

— Agora? Nenhum... Neste momento, não tenho nenhum problema. – Diz alcançando a mão do menor sobre a mesa. – Estou feliz por estar aqui.

— Eu também. – Confessa sem jeito, desviando-se do toque alheio para pegar sua xícara de café. – Há quanto tempo está em Paris?

— Cheguei ontem. Viajei dez países em quinze dias. Cansei. – Sorve um pouco do seu líquido preto e revela sorrindo para o loiro. – Eu adorei esse bar, sinto muita falta de lugares assim lá no meu país.

— Sim! Eu senti falta disso quando morei lá. – Anuncia o loiro, enquanto o sorriso de Sasuke vai desaparecendo do rosto. – Havia alguns lugares que eu realmente amava...

— Você morou nos EUA? – Interrompe.

— Sim, dois anos. – Responde simples. – Fiz meu mestrado em Nova Iorque.

— Não me diga isso, Naruto. Eu moro em Nova Iorque há anos.

— Que estranho... Eu sempre me imaginei trombando com você... Mas a chance era tão pequena. Eu nem sabia qual cidade você vivia. Eu achava que era em Texas.

— Eu me mudei para Nova Iorque tentando uma nova vida. – Se encaram com pesar até o maior voltar a falar. – Por que voltou?

— Terminei meus estudos, fiquei sem visto e voltei. Mas gostei de morar lá. Até gostei de algumas coisas.

— Tipo, o quê?

— As pessoas aqui são menos simpáticas, já percebeu?

— Não, elas são legais. Todos parecem felizes.

— É, mas não são. – Naruto diz como se contasse um segredo. – Os homens daqui me deixam doido.

— Por quê? Qual é o problema?

— São simpáticos. Gostam de vinho e de cozinhar. É legal estar com eles, até. Mas acho que dei azar. – Ri derrotado. – Mas, enfim...

Sasuke não sabia o que dizer. Ele, talvez, nem queria dizer nada. Apenas fitou os olhos alheio de forma profunda e foi correspondido. Os dois se olhavam com muitos dizeres nos olhos... Esperança, carinho e, até, saudade...

— Acredita que faz nove anos que nos encontramos em Viena? – Constata o maior.

— É impossível acreditar, parece que foram dois meses... Eu mudei muito? – Naruto pergunta curioso. – Olha para mim... Você acha que eu mudei? – Gesticula com a mão para seu próprio rosto.

— Preciso vê-lo nú.

— O quê? Você é doido. – Conclui rindo.

— Eu estou brincando. – Acompanha o riso. – Dá uma bagunçada no cabelo... – O moreno pede divertido. - Ele parece que está mais arrumado.

Naruto leva as mãos ao cabelo e bagunça de forma desajeitada.

— E então? – O loiro volta a questionar. – O que acha?

Lindo. – Isso foi o que o Uchiha pensou.

— Parece mais magro. – Mas, isso foi o que disse. – E eu mudei?

— Não. Nenhum pouco. – Naruto responde prontamente. - Uma ruga aqui no meio, apenas. – Diz relando um dedo no meio da testa do moreno.

— Eu só tenho 34 anos... Por favor. – Estava inconformado.

— Qual é... Eu tenho 29 e já tenho rugas. Mas estou brincando contigo. Você continua lindo.

Naruto desvia o olhar pegando um cigarro em seu bolso o acendendo. Os dois estavam em silêncio agora. Eles tinham boas conversas entre eles, mas agora não sabiam o que dizer.

— Posso dar uma tragada? – Questiona o mais velho.

— Claro. – Responde lhe passando o cigarro.

— Você poderia me dar um?

— Uhum... – Alcança o cigarro em seu bolso oferecendo para o moreno que o pega. Logo em seguida Naruto se aproxima do rosto do outro com seu cigarro na boca para que o outro pudesse chegar mais perto para acender o cigarro recém conquistado no processo, sem desviar os olhares. Eles se afastam e voltam a conversar.

— Sabe, eu sinto que ando insatisfeito com minha vida... Eu desejo sempre estar melhorando em algo. Mas, aí eu penso: “Foda-se... O desejo estimula a vida.” - O Uchiha desabafa.

— É saudável sentir desejo, não é?

— Mas há quem diga: “Livra-se dos desejos e verá que tem tudo o que precisa.            “

— Oh não... Eu me sinto bem desejando algo além da sobrevivência. Sabe, querer estar com alguém... Ou até mesmo desejar um celular novo. - Conclui o mais novo.

— Querer as coisas é bom... Difícil é não se aborrecer quando não conseguimos. – Eles se fitaram alguns instantes, mas nada disseram. Então, Sasuke prossegue. – Sabe, eu realmente admiro o que está fazendo. Você não está desligado da vida. Canaliza sua paixão para a ação. Isso é legal.

— Estou tentando.

— Sabe de uma coisa? – Naruto faz uma expressão como se dissesse “hã?” e o maior continua. – Vou estar em um avião por oito horas... Eu adoraria ver mais de Paris. Quer andar comigo mais um pouco por aí?

— Sim, sim! Claro! – Os dois se levantam jogando o filtro do cigarro no cinzeiro da mesa. Pagando a conta, na verdade, foi Sasuke que fez a cortesia e voltaram a caminhar, juntos, pela cidade.

Estavam subindo uma escada para alcançarem um parque bonito de Paris, com muitas árvores e bancos. Se embolaram em uma conversa corriqueira sobre assuntos mundanos, se divertindo um com a reação do outro.

— E como anda sua vida sexual? Resolveu suas inseguranças? – Questionou o loiro.

— Como assim? Eu não tinha inseguranças quanto ao sexo.

— Oh, sério? – Debocha o loiro e ri com a expressão inconformada do moreno. – Eu estou brincando. Não tem como eu saber isso, afinal nem transamos.

Se o maior tinha uma expressão inconformada, agora, ele estava com uma reação decepcionada.

— Peraí, Naruto, isso é uma piada, não é?

— Não, não transamos. - Afirma o mais novo com convicção.

— Wow, wow, wow! Claro que transamos.

— Claro que não. Onde transaríamos? Ao ar livre? Eu não faço essas coisas, Sasuke.

— Cacete! É assustador saber que você não se lembra.

— Eu posso não ter escrito um livro, mas eu me lembro daquela noite.

— Não, eu lembro claramente da nossa transa. Eu não idealizei isso para o livro. Eu até lembro que…

— Ok, ok! Não precisamos discutir isso, ok? – O loiro o interrompe.

— Foi no parque de madrugada. Dá para esquecer algo assim? Sério?

— Talvez você tenha razão. – O mais novo oferece um sorriso. – Dói menos arquivar certas memórias do que conviver com elas. Me desculpe.

— Oh, entendi… Aquela noite é uma memória triste para você?

— Estou dizendo em um geral.

— Eu me lembro mais daquela noite do que de anos que vivi. Que merda! Eu devo ser um otário.

— Eu também lembro muito bem daquela noite. – Naruto diz e Sasuke lhe oferece um olhar de “ Hm, é mesmo?” levantando as sobrancelhas e os dois riem. - Talvez eu tenha arquivado a noite pois minha avó foi enterrada no dia que nos reencontraríamos.

— Eu imagino. Foi um dia difícil para mim, mas deve ter sido pior para você.

— Sim, eu chorei e não sabia se chorava porque não veria mais ela ou não veria mais você. Quando eu li seu livro, eu lembrei de toda a esperança que eu vivi aquele ano. E, depois tudo ficou tão… sei lá. As lembranças podem ser lindas se a gente não tem que lidar com o passado.

— Olha só, vou colocar essa frase no meu próximo livro.

— Sabe o quê? – Agora os dois já estavam andando pelo parque.

— O quê?

— Já que nos encontramos de novo, vamos mudar a lembrança daquele 08 de junho. Não tivemos um final triste sem nos encontrarmos. Afinal, estamos aqui.

— Certo…

— Sabe, às vezes, acho que morrerei sem fazer tudo que eu queria fazer.

— O que você quer fazer?

— Hm… Quero pintar mais, tocar mais meu violão. Quero aprender falar chinês. Compor canções. Quero fazer tantas coisas que acabo fazendo nada. - Diz o loiro coçando a nuca.

— Então, deixe-me te perguntar. Acredita em fantasmas ou espíritos? Reencarnação? Deus?

— Não. - Responde o menor. - Mas, mesmo assim, não quero ser uma pessoa que não acredita em mágica.

— Então, acredita em astrologia?

— Sim, claro!  Você é de Leão; e eu, de Libra. A gente se combina. - Os dois soltam risos audíveis. - Não, não. Eu estou brincando. Enfim, Einstein disse algo que gosto muito: “Se você não acredita em nenhuma magia ou mistério é como estar morto.”

— Gostei. A vida acontece aqui e agora. É isso. Cada dia é como se fosse o último.

— E quanto a nós?

— Como assim nós? - Sasuke pergunta confuso.

— Ué, se hoje fosse nosso último na terra… O que faríamos? Será que estaríamos conversando sobre seu livro? Do meio ambiente? O que você me diria?

— Seguramente, eu pararia de falar sobre o meu livro. Não falaria sobre seu trabalho e o meio ambiente. Porém, eu ainda falaria sobre a magia do universo. Só que ia querer conversar… - Naruto prestava bastante atenção enquanto o mais velho falava. - Num quarto de hotel… Intercalando sexo e carinho. - Finaliza a fala sorrindo para o loiro.

— Uau! Nossa! - Expressa arregalando minimamente os olhos azuis. - Mas… Por que perder tempo em um hotel? Seria o último dia das nossas vidas… Poderíamos fazer isso naquele banco. - Exclama apontando para um banco logo a frente deles.

— Sim? É isso? Você iria querer transar naquele banco ali? - O Uchiha diz divertido enquanto encara o mais novo. - Ok… - Sem que o loiro esperasse em um movimento muito rápido, Sasuke o pega no colo correndo em direção ao banco, Naruto assustou muito e não teve muito tempo para pensar em uma reação ao não ser agarrar-se no pescoço alheio. O Uchiha se senta no banco ainda com o mais baixo em seu colo.

— Caramba! Você é maluco. - Não se desfez do enlace no pescoço e sentia leve apertos em sua cintura e coxa, sem jamais desviarem os olhares. Naruto bem se lembrava que Sasuke tinha uma certa fixação por sua cintura, assim como ele tinha pelos cabelos morenos. Quando se encontraram há nove anos atrás, o mais alto nunca perdia a oportunidade de lhe apertar. Eram toques anestésicos. Talvez, nunca deixaram aquela paixão de lado realmente. Quando Naruto percebeu que estavam pertos demais, pigarreou e disse: - Vamos caminhar mais um pouco? - Saiu do colo alheio se levantando.

— Claro… - Responde acompanhando os passos alheio. - Então… Que tipo de músicas você compõe?  Eu não sabia disso.

— Oh, nada demais. Só músicas comum. Eu escrevo sobre sentimentos, sobre meu gato… Essas coisas.

— Cante para mim.

— Não vou fazer isso, não tenho o violão.

— À capela. - Insiste o moreno.

— Nem a pau! Não, agora.

— Se não for agora, quando? Quer combinar de me encontrar daqui um ano, de novo? Eu venho de avião, você de metrô, mas aí você não aparece. Que tal?

— Ok! Já chega, engraçadinho. - Finge um risada cínica. - Vamos ao rio antes de você partir. Você vai voltar para Nova Iorque? - O Uzumaki questiona.

— Isso.

— Eu li em um artigo que você é casado e tem uma filha. Isso é muito legal, Sasuke.

Oh sim, tem isso!

Sasuke era casado e tinha uma filha. Não que ele fizesse questão de esconder, afinal usava uma aliança dourada em seu dedo anelar da mão esquerda. Esse tempinho com o loiro quase o fez esquecer desse detalhe, mas agora ele entendia o porquê Naruto estava evitando seus toques.

— Sim, sim! Ela tem cinco anos.

— Qual o nome dela?

— Sarada. Sarada Uchiha. Ela é divertida.

— Imagino que seja. - Sorriem um para o outro. - E sua mulher, o que ela faz?

— Ela é médica. Você tem filhos?

— Sim, dois! Oh, meu Deus! Eu os esqueci na creche. - Disse exasperado, mas logo após ri. - Estou brincando. Não tenho, mas um dia quero ter.

— Você é bem doidinho, né? - Sasuke ri. - Mas, está casado? Namorando?

— Sim, tenho um namorado bem legal. - Confessa o loiro.

— Tem? Que bom. - Diz o moreno pouco interessado. - O que ele faz?

— Ele é fotógrafo. Ele cobre guerras. Viaja bastante, mas é bom porque eu sou muito ocupado.

— Não é um trabalho perigoso? Ele não corre risco de morrer?

— Ah, ele jura que não se arrisca, mas eu me preocupo. Ele entra em transe quando está fotografando.

— Mas não é bom ser assim para fazer um bom trabalho?

— Sim, não estou o julgando. Ele faz um trabalho incrível.

— Ei! O que acha de darmos uma volta de barco? - Convida o mais velho.

— Não, você vai se atrasar para o avião.

— Por favor, eu tenho mais um tempinho.

Após insistir mais um pouco, o loiro cede e eles decidem pegar o barco para dar um passeio. O barco era turístico, mas tinham poucos visitantes. Sasuke comprou duas passagens e eles entraram, as pessoas estavam espalhadas e tinha bastante espaço para escolherem. Eles deram preferência para a proa do barco. Poderiam ficar ao livre, recebendo o vento em seus rostos e era, no momento, o lugar mais vazio. Sem contar, que o clima do dia estava super fresco e ameno. Teriam mais liberdade para conversarem. Eles ficaram em pé um de frente para o outro.

— Você está apaixonado por esse cara? - Sasuke questiona após um tempinho em silêncio.

— Hã?

— O fotógrafo de guerra.

— Claro que sim.

— Hm, entendi.

— Olha, dá pra ver Notre Dame daqui. - Naruto diz apontando em direção à catedral.

— É muito lindo.

— Você acredita que nunca entrei em um barco turístico, mas é bem legal. - Confessa o loiro.

— Nada mau em ser turista, né?

— Obrigada pelo passeio de barco, Sr. Uchiha. - Agradece o loiro, dando um sorriso ao maior.

— Sabe, acho que escrever aquele livro foi como construir algo que... me impedisse de esquecer o tempo que passamos juntos. Algo que me lembrasse que realmente estivémos juntos. - Sasuke confessa olhando seriamente nos olhos azuis, um se perdendo na imensidão do outro. - Que foi verdade. Que aconteceu.

— Fico feliz que tenha dito isso. Sempre me sinto anormal por não conseguir seguir em frente. As pessoas têm casos, relacionamentos… terminam e esquecem tudo. Sinto que não consigo esquecer. Dói um pouco. Tenho um pouco de obsessão por pequenos detalhes, como… seu sorriso… seu olhar… como aperta minha cintura... Essas coisas que passariam despercebidas, mas para mim, não. Você é a soma de pequenos e belos detalhes. - Sasuke estava lhe escutando com toda a atenção. Estava com o coração acelerado e percebia um leve tremor nas mãos de Naruto enquanto ele gesticulava. - Aquele dia que você partiu, o sol brilhou em você e seu cabelo ficou meio azulado… Eu me lembrei disso; e senti saudades. É um pouco louco , né? - Naruto ri tentando quebrar o clima um pouco tenso.

— Quer saber por que escrevi aquele livro imbecil?

— Por quê?

— Para você vir à comitiva de entrevista em Paris e para poder lhe perguntar: “Onde diabos você andou?”.

— Achava que eu estaria aqui hoje? - Questiona o loiro.

— É sério. Eu escrevi para tentar encontrar você.

— Ok. Sei que isso não é verdade. Mas foi gentil você dizer isso.

— É verdade. Quais eram as chances de nos encontrarmos novamente?

— Depois daquele junho, acho que zero. Aquela cigana deve sonhar com a gente até hoje. - Ri triste.

Sasuke se aproxima um pouquinho mais do menor, encosta uma das mãos de leve nas pontas dos dedos do outro para lhe suplicar:

— Por quê? Por que você não apareceu em Viena aquele dia?

— Eu te exliquei… - Olhos nos olhos.

— Eu sei o motivo. É que… Eu queria que tivesse aparecido. Nossa vida poderia ter sido diferente.

Naruto abaixa o olhar e diz:

— Talvez, a gente se odiaria.

— A gente não se odeia agora. Não creio nisso. - Dá um toque no queixo para Naruto o fitar.

— Quiçá, só nos damos bem em encontros breves perambulando por cidades europeias. -  Diz o loiro um pouco divertido e se afasta um pouco.

— Oh, Deus! Por que não trocamos telefone e essas coisas? Por que não fizemos isso?

— Porque éramos jovens e estúpidos. - Responde o loiro.

— Acha que ainda somos?

— O passado é passado. Vamos deixar ele lá. É assim que as coisas são.

— Acredita nisso? Que tudo está predestinado?

— Talvez sejamos menos livres do que imaginamos.

— Como você acha que seria se sua avó tivesse morrido uma semana depois ou uma semana antes? Tudo iria ser diferente, eu tenho certeza.

— Não podemos pensar assim.

— Alguma coisa deu errado pra gente. Sabe, Naruto, nos meses antes de me casar, eu pensei muito em você. A caminho dele, no carro, meu amigo me levou… eu olhei pela janela e imaginei ter te visto… Não muito longe da igreja, você estava fechando um guarda-chuva e entrando em uma loja… Na esquina da Rua 07 com a Broadway. Na época, eu achei que estava ficando louco, mas agora acho que era você pois você morou lá.

— Eu morava na Rua 06 com a Broadway. Provavelmente era eu. - Quanto desencontro!

— Viu? - Soltam um riso rápido e triste, encarando o menor.

— Como é ser casado? Você não falou sobre isso. - Disse Naruto, rumando para um pouco longe do mais alto, mas ainda permanecendo de frente, com passos mais longos de distância.

— Não falei? Que esquisito. Por que será que não falei do meu casamento com VOCÊ? - Ironiza o moreno; talvez porque é a última coisa que quero falar contigo (pensou) - Não sei. Nos conhecemos na faculdade, terminamos e voltamos várias vezes, e daí… Voltamos mais ou menos e ela engravidou. Então, nos casamos.

— Como ela é? - Naruto pergunta curioso.

— É uma boa médica e boa mãe. É esperta, bonita e tal. Eu não sou muito feliz com meu casamento. Acho que podemos falar sobre outra coisa.

O barco encosta em sua parada e os dois descem voltando a andar.

— Eu sinto muito saber disso… Que você não é feliz em seu casamento. A gente espera que depois de anos de convivência a paixão continue a mesma. Mas se dedique à sua família, à sua filha…

— Claro, isso sem dúvidas.

— No fundo, a gente só precisa amar e ser amado. - Naruto olha para o relógio. - Oh, já está na hora. Acho que chegou a hora da despedida.

— Não, não, me dê mais um tempo. Me deixe levar até sua casa. É muito longe?

— Até que não, mas não quero atrapalhar e, também, não quero que perca o avião. Eu posso ir de metrô.

— Não vai atrapalhar, eu tenho algum tempo ainda. Por favor, assim podemos continuar conversando.

— Ok, tudo bem. - Sorri.

— Eu posso ser melhor que o metrô. - Retribui o sorriso.

Andaram até chegar em uma ponte para curtirem um pouco o começo do fim da tarde. Ficaram um de lado para o outro olhando o horizonte de cores bonitas.

— Eu estava pensando. – Começou o loiro. - ... Achei melhor, com o passar do tempo, parar de romantizar as coisas. Eu sofro menos se fizer isso. Tenho muitos sonhos que não envolvem minha vida amorosa. As coisas são assim.

— É por isso que mantém um romance com alguém que está sempre longe?

— Obviamente, não sei conviver com um romance no meu dia-a-dia. Ele viaja, eu sinto saudade, matamos a saudade. E é bom assim. Não morro por dentro.

— Mas, você mesmo disse que é legal amar e ser amado.

— Sim, porém quando isso acontece, sinto enjôo. – Os dois riem. – É um desastre, pode acreditar. Eu sou feliz sozinho. – Muda seu tom e expressão para algo melancólico. - Melhor ser sozinho do que estar com alguém e se sentir sozinho, sabe... Me dei mal em alguns relacionamentos. Não que os caras fossem ruins, mas faltava uma conexão emocional verdadeira. Pelo menos, faltava da minha parte.

— Sinto muito. – Lamenta o mais velho. – Está tão ruim assim?

Naruto encara Sasuke com um “quê” de raiva no rosto e diz:

— Não é bem isso, sabe? – Ao dizer isso, Naruto encara mais profundamente o moreno que o vê com os olhos marejados. – Eu estava bem, Sasuke, até ler a porra do seu livro. Mexeu comigo. Me fez ter esperança e me lembrar de ser romântico. – Balança a cabeça negativamente antes de voltar a fitar as orbes negras. – Agora, eu não acredito no amor e nem sinto isso pelas pessoas que me relaciono. – Continua, mas se entregando aos poucos à algumas lágrimas. – Me entreguei à isso aquela noite e nunca mais senti nada daquilo. É como se, naquela noite, eu entreguei tudo à você e você partiu. Senti que fiquei frio e como se o amor não fosse feito para mim.

— Eu não acredito que seja assim, Naruto. Não acredito nisso. – Sasuke estava prestando atenção em cada palavra. O loiro estava abrindo seu coração. O moreno achava que era um otário por sentir o que sentia pelo menos até agora, mas ele pôde perceber que Naruto apenas reprimia seus sentimentos, mas agora estava falando. E ele queria saber tudo.

— Vou te dizer, Sasuke... Para mim, a realidade e o amor são contraditórios. Os homens saem comigo, depois a gente termina e sabe o quê? Eles se casam... Depois, me ligam ou escrevem livros idiotas dizendo que EU ensinei sobre amor.

Oh, por Deus... É isso que acha?

— Eu queria te matar agora. – Eleva o tom de voz. – Por que não me pediram em casamento? Eu teria recusado. Mas poderiam ter pedido! Porém, é tudo minha culpa, eu sei... – Ele estava com um tom de voz que beirava ao desespero com nenhuma pausa entre as palavras. – O que significa isso? Que existe apenas um amor na vida? É ridículo. Só nos completamos com UMA única pessoa? Que sinistro.

— Posso falar? – Sasuke pediu depois de ter tentado falar várias vezes, porém o loiro não parava de vomitar palavras.

— Eu sofri e me recuperei. Agora, não me forço à nada. Sei que as coisas não vão acontecer para mim.

— Não dá para viver a vida dessa maneira evitando a dor.

— Falar é fácil. Blá-blá-blá. – Naruto começa a andar de um lado para o outro. Até se voltar para o moreno. – Eu quero ir embora. Preciso sair daqui. Sair de perto de você.

— Não, por favor, não faça isso. – Segura os braços do menor.

— Não me segure! - Diz se afastando do toque. - Quero ficar longe de você!

— Não faça isso, porra! – Eleva a voz um pouco. – Eu fui lá. Eu fui te reencontrar. Não me culpe. - Quando percebe que o mesmo se acalmou ele olha para Naruto. – Ok, tudo bem... Eu estou tão feliz de estar ao seu lado e ter ouvido tudo o que me falou... Sério. Estou feliz por não ter se esquecido de mim. Olhe para mim, por favor. – Pediu e foi atendido.

— Não, não esqueci. E isso me irrita. Você vem para Paris, Sr. Uchiha... Você... – Aponta o dedo na cara do maior. – ... Você vem aqui todo romântico e...casado. Casado, Oh... Então, vá se foder! Não me leve a mal. Não quero te conquistar. Eu só não preciso de um homem casado me confundindo. O que tivemos foi um momento que se foi para sempre, é só isso que é difícil de aceitar.

— Você diz isso, Naruto, mas nem se lembra que transamos.

— Claro que eu me lembro, seu babaca. – Confessa o loiro fazendo o outro tremer da cabeça aos pés. – O que quer que eu diga? Que estávamos em um parque no fim da madrugada depois de matarmos um vinho? Que você me deu uma jaqueta de couro estúpida para limparmos a bagunça depois? Que eu estava entregue olhando as estrelas brilhando no céu?

Sasuke não sabia o que dizer. Na verdade, ele não sabia nem o que estava sentindo.

— Me desculpe, Sasuke. Eu me alterei... Não sei o que deu em mim. Perdão.

— Acha que é só você que está morrendo por dentro, não é? – Questiona Sasuke. – Minha vida é eternamente ruim. – Naruto ri sem humor pedindo ‘perdão’ por ter rido logo depois. E o moreno continua. – Só me sinto feliz quando passeio com minha filha. Já fiz terapia de casais, já fiz coisas que nunca imaginei fazer. Acendi vela, comprei livros, comprei lingeries... – Enumera com os dedos.

— As velas não ajudaram? – O menor pergunta divertido e Sasuke ri.

— Nem um pouco. Eu não amo minha esposa como ela precisa ser amada, nem como ela merece. Não vejo um futuro para mim e para ela, mas, aí, eu vejo nossa filha... E penso que eu suportaria qualquer coisa por ela. Mas, na minha casa não há diversão, nem risada, sabia?

— Sem risada? Que terrível. Meus pais são casados há trinta e cinco anos e dão risada até quando brigam.

— Eu quero ter uma boa vida. Eu quero que minha esposa tenha uma boa vida. Ela merece, de verdade. Mas vivemos presos em um casamento fracassado. Vivemos como pessoas comuns, mas eu tenho alguns sonhos...

— Que sonhos?

— Eu sonho que estou em uma plataforma e você fica passando de trem. E você passa, passa, passa, passa, mas nunca desce ao meu encontro... E eu acordo suando. E tenho outro sonho também... Em que você está deitado em minha cama e eu quero loucamente te tocar e quando vou te tocar, nossos filhos nos interrompem. E eu acordo chorando. Após isso, eu olho minha mulher e sinto que há uma grande distância sentimental entre nós... E que o errado sou... eu. Eu sei que preciso viver mais do que isso, mas eu penso que eu desisti do romântico, na verdade, eu desisti de tudo depois daquele dia em que você não apareceu...

— Por que está me contando tudo isso? – Naruto questiona com a voz fraca.

— Sinto muito. Eu não sei, na verdade. Eu deveria... Eu não deveria ter contado.

— É muito estranho. Quando li seu artigo achei que sua vida fosse perfeita. Tinha uma mulher, uma filha, um livro famoso... Mas a sua vida é tão encrencada quanto a minha.

Os dois são risadas.

— Acho melhor irmos... Você me deixa em casa e vai para o aeroporto. Para voltarmos para o mundo real. - Dita Uzumaki.

***

Sasuke sentia que se pegasse o avião naquele dia ele estaria, mais uma vez, abandonando a sua chance. Chance de ter o loiro pra si e ser dele. Ele não poderia mentir sobre o que sentiu ao ver a figura bonita parada do outro lado da porta da biblioteca. As mãos tremendo, o coração batendo rápido, a respiração entrecortada... Isso deveria significar algo.

Ele tinha se apaixonado por aquela noite há nove anos atrás, ele tinha se apaixonado por Naruto. E, agora, não tinha dúvida dos sentimentos do loiro. Ele tentou há anos fazer dar certo aquilo, não deu. Mas agora ele estava de frente para aquilo que foi seu tormento por anos. Ele sentia que seria incapaz de esquecer. Afinal, não esqueceu até hoje. E, mesmo sem ver o loiro após todo esse tempo ele ainda pensava sobre ele. Mas agora ele não precisava só pensar, era mais velho e maduro, podia tê-lo. Era só abandonar sua vida  na América e não pegar aquele maldito avião. Mas aquela decisão não era fácil e rápida de fazer, mas como da última vez, ele, também, não tinha tempo.

Eles chegaram em frente ao apartamento de Naruto. E era hora da despedida, de novo…

— Tá aliviado por ter uma vida tão estragada quanto a minha? – Pergunta o moreno.

— Claro, estou melhor. – Ele ri. – Mas, eu lhe desejo o melhor, de verdade.

— Tenho certeza que será muito amado algum dia.

Oh… Mesmo? Obrigada!

— Está pronto? Para se despedir de mim?

— Posso te abraçar?

Sasuke não respondeu, apenas envolveu o menor em seus braços, lhe abraçando pela cintura enquanto é enlaçado pelo pescoço.

— É bom ter você em meus braços. – Constata se desfazendo do abraço, porém, ainda se mantendo à frente do loiro. – É o seu apartamento?

— Sim, moro na parte de baixo.

— Vou levá-lo até a porta. – Começam a andar até a porta. – É incrível, é lindo onde mora. Há quanto tempo está aqui?

— Há quatro anos. Olha, meu gatinho… Está na porta me esperando! Own. - Diz se aproximando da porta e do gatinho e o pegando no colo. - Ele se diverte pelo condomínio. Ele sobe em árvores. Ele se deita no estacionamento. Ele cheira tudo com esse fucinho… - Toca o fucinho. - É um folgado! - Sasuke olhava ao redor, imaginando com seria se tudo aquilo, também, pertencesse à ele. – Hoje é dia de festinha no condomínio. Jajá eu vou descer com um tabule. – Diz sorrindo.

— Sabe, eu estava pensando se não posso entrar pra tomar um chá... ou te ouvir tocar... – Ele só queria prolongar a despedida e iria prolongar o quanto pudesse.

— Você vai perder o avião. – Constata com o gato, ainda, no colo.

— Não vou não. Eu vou ficar lá lendo jornais pensando que poderia estar com você.

Naruto apenas abriu a porta e os três adentraram.  Sasuke olhou tudo ao redor.

— Caramba! Sua decoração tem uma pegada toda antiga. – O moreno diz admirando a decoração do lugar. Não era grande, mas era muito bem arrumado. Discos de vinis (ele ainda não perdera esse gosto) na estante. Plantas pela casa. Livros espalhados. Placas e pôsteres de grandes músicos pendurados. Fotos de Naruto em alguns lugares pelo mundo formavam uma boa harmonia com o lugar. O abajur envelhecido dando um ar aconchegante. A sala e a cozinha eram separadas por um balcão. Os sofás que eram dois tinham mantas em tons pasteis os cobrindo. - É super legal. Gosto disso.

O loiro despejou a ração misturada com sachê para o gato.

— Vou fazer um chá, ok? Sinta-se à vontade.

E o maior se sentiu. Sentou-se em um dos sofás enquanto fitava o loiro preparando o chá: fervendo a água e misturando as ervas. Ele escolheu sabor hortelã, não soube porquê, mas Naruto achava que sua companhia iria gostar desse. Entregou uma xícara para Sasuke, enquanto estava com outra xícara se sentando no sofá em frente.

— Eu ia lhe dizer, Sr., seu francês melhorou.

— Merci (obrigada)! – Responde o moreno lhe dando um sorriso.

— Eu vou colocar mais mel em meu chá. Aceita? – Diz se levantando em direção à cozinha.

Sasuke recusa e se levanta e olhando as fotos de Naruto na parede.

— Essa é a sua avó? – Aponta para uma foto onde se encontram dois loiros: Naruto e Tsunade.

— Sim... – Responde doce.

Sasuke caminha até a estante de discos. Fuçando encontra um que lhe chamou a atenção: “Demo de Naruto.”

— Esse aqui é um disco seu? - Questina o moreno.

— Oh sim... Eu gravei uma música aí. – Diz mexendo um pouco o chá.

— Vou ouvir... – Avisa colocando o disco para tocar.

Aos pouco é possível ouvir o som do violão, era uma música acústica: violão e voz. Sasuke não voltou a se sentar e Naruto começou a andar pouco a pouco em sua direção se esquecendo do chá. E, então, eles escutaram a voz começar a soar.

“Vou lhe cantar uma valsa

Que saiu do nada de meus pensamentos...”

O moreno reconheceu que era a voz de Naruto. Eles se encararam. Caminharam cada vez mais diminuindo a distância. Sem pressa...

“...Vou lhe cantar uma valsa

Sobre um caso de uma noite...”

Os dois ainda se encarando, sorriem.

“...Você foi meu naquela noite,

Foi tudo o que eu sonhei a vida inteira...”

Sasuke encara Naruto como uma expressão de “Sério?” e o loiro ri sem graça, mas muito bonito.

“... Mas agora você foi embora

Você foi para longe...”

Naruto dá de ombros e Sasuke respira fundo.

“... Foi para sua ilha, longe de mim

Para você foi apenas um caso de uma noite...”

Sasuke gira sua aliança no dedo até arrancá-la e deposita em um cômodo qualquer. Naruto o encara com o cenho franzido, mas continua caminhando a passos curtos até o maior.

“... Mas para mim foi muito mais

Só para você saber...”

Naruto faz um expressão de ‘viu?’ e Sasuke coloca as mãos para cima simulando um ato indefeso. Eles riem, mais uma vez...

“... O que disserem pouco importa

Sei o que você foi para mim naquele dia...”

Um pouco mais próximos, Naruto fita o chão e o moreno segura seu queixo com o polegar e o indicador para subir o rosto até que voltassem a se encarar.

“... Só quero tentar de novo

Só quero mais uma noite...”

Continuam se encarando. Suando frio e se arrepiando.

“... Mesmo se não der certo

Você significou para mim muito mais do que qualquer um que já conheci...”

O Uchiha escorrega as mãos pela nuca do loiro que arfa ao toque.

“... Uma pequena noite com você

Vale mais do que mil com outro qualquer...”

A outra mão do moreno desliza pela cintura do outro até que ele estivesse devidamente encaixado.

“... Não estou amargurado, meu amor

Jamais esquecerei este caso de uma noite...”

O aperto na cintura diminui a distância até ela ser pouca, quase nada.

“... Mesmo amanhã nos braços de outro

Meu coração será seu até morrer...”

Naruto entrelaça os braços no pescoço alheio.

“... Vou lhe cantar uma valsa

Que saiu do nada da minha tristeza...”

Olhos nos olhos.

“... Vou lhe cantar uma valsa

Sobre aquela noite maravilhosa.”

A música finaliza. O silêncio paira. Eles estão pertos em um toque romântico e Naruto diz bem próximo dos lábios alheio:

— Senhor Uchiha, você vai perder o avião.

E Sasuke responde findando a distância:

Eu sei...



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