História Em nome do desejo. - Capítulo 1


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Categorias Camila Cabello, Fifth Harmony
Personagens Lauren Jauregui
Tags Camila Cabello, Camila G!p, Camren, Camren G!p, Lauren Jauregui
Visualizações 682
Palavras 4.938
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Crossover, Famí­lia, Ficção, LGBT, Mistério, Romance e Novela, Suspense, Yuri (Lésbica)
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Intersexualidade (G!P), Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Oi meus lindos, como eu disse é uma fic adaptada do livro da autora Lynne Graham.

Capítulo 1 - Capítulo Um


Fanfic / Fanfiction Em nome do desejo. - Capítulo 1 - Capítulo Um

 

Camila Estrabão, magnata do petróleo, viajava no banco traseiro do luxuoso veículo e observava a paisagem através dos vidros escuros das janelas do carro. Dois outros veículos faziam a escolta de proteção. Um deles abria caminho e o outro os seguiam, Era algo incomum de ser visto numa estrada secundária que levava em direção de um canto remoto da Rússia, como era a vila de Tsokhrai. Contudo, para os moradores da região, a pequena caravana não oferecia nenhuma surpresa. A avó de Camila era uma senhora muito conhecida na vila e todos sabiam que a neta fazia questão de visitá-la por ocasião da Páscoa.

Camila distraía a atenção enquanto observava a estrada que ela mesma se encarregara de mandar asfaltar a fim de facilitar o transporte de matérias-primas para a fábrica que instalara para promover empregos na região. Ela ainda se lembrava dos invernos rigorosos que enfrentara na época em que vivera ali. A estrada de terra se transformava em lodaçal quando a neve derretia, e o trânsito ficava impossível a qualquer coisa que fosse diferente de uma simples carroça. Nessas ocasiões, a vila ficava praticamente isolada do resto do mundo por semanas a fio.

Algumas vezes, ela mesma achava difícil acreditar que despendera vários anos da adolescência em Tsokhrai, onde tivera experiências amargas e frustrantes. Aos 13 anos de idade já fazia parte de uma gang local e, muitas vezes, infringira a lei e a ordem para poder sobreviver.

Apesar de sua avó Mercedes ser uma mulher pobre e analfabeta, Camila sabia que tudo o que conseguira na vida ela devia aos esforços inesgotáveis dela no sentido de transformá-la em uma mulher de bem.

O comboio parou na frente de uma casa humilde e antiga, construída em madeira e escondida atrás de uma cerca viva de mato crescido.

Dois robustos guarda-costas saíram na frente para vasculhar a área. Depois, acenaram com um gesto positivo em direção do carro onde Camila viajava.

Hailee, sua ex-mulher, costumava apelidar aquela visita anual como "peregrinação para aliviar a culpa", e sempre se recusava a acompanhá-la. Porém, a presença da neta naquelas ocasiões era uma recompensa gratificante para a avó, que nunca permitira que ela lhe comprasse uma casa nova.

Camila esboçou um sorriso comovida com aquela lembrança. Mercedes era a única mulher no mundo que ela sabia não ter interesse em cada rublo que ela possuísse.

Há muito tempo que ela considerava o interesse financeiro e a extrema necessidade de se agarrar a alguém influente como uma fraqueza própria da personalidade feminina.

No instante em que ela se aproximou da entrada da modesta moradia, alguns vizinhos se afastaram para lhe dar passagem e a reverenciaram em silêncio.

Assim que Mercedes a avistou, apressou-se em receber a neta, chamando-a pelo apelido de seu nome, o que costumava fazer para demonstrar o imenso carinho que nutria por Camila.

— Entre, Kaki — a mulher miúda, que já beirava os 70 anos de idade, mas exibia vivacidade nos olhos claros e comportamento prático a convidou. — Já que sempre está sozinha, eu mesma vou preparar o seu prato — ela lamentou e a conduziu até a mesa, farta o suficiente para alimentar os convidados que haviam praticado o jejum conforme a tradição da comemoração da Páscoa.

Camila franziu o cenho.

— Bem, eu não estou...

— Acha que eu não sei? — a avó replicou começando a lotar um prato reforçado para a neta.

O padre ortodoxo de barbas longas que estava sentado à mesa, ornamentada com flores e ovos decorados, deu um sorriso encorajador para a mulher que financiara a reconstrução da torre da igreja que estava em ruínas.

— Coma, minha jovem!

Camila havia dispensado o café da manhã para aproveitar o gastronômico almoço de Páscoa que a avó sempre oferecia. Acomodou-se junto à mesa e saboreou com apetite voraz as iguarias típicas da ocasião. Principalmente o pão caseiro e o bolo especial de banana.

Durante o tempo todo, Camila agiu de maneira paciente com os convidados da avó, ouvindo os inúmeros pedidos de conselhos, apoio e dinheiro. Afinal, ela era reconhecida como a principal fonte filantrópica da pequena vila.

Mercedes permanecia ao lado dela e tentava conter o entusiasmo pelo orgulho que a neta lhe proporcionava. E ela sabia muito bem que ela era o centro da atenção de cada jovem que se encontrava na sala. E não era de se admirar Camila tinha feições extremamente bonitas, bem como a altura e porte físico dignos de uma atleta. E ela estava tão acostumada a atrair a atenção tanto masculina como feminina que já nem dava importância. Mercedes recordou por um instante o quanto as meninas e os meninos a perseguiam quando ela era apenas uma adolescente, mesmo os meninos sabendo de sua condição, não se importavam. E, desde aquela época, nada mudara. Ela ainda mantinha o mesmo e extraordinário carisma.

Camila procurava disfarçar o desconforto que os olhares femininos e masculinos insistentes lhe provocavam. Até quando Mercedes insistiria na manobra de convidar um número surpreendente de moças atraentes com o propósito de despertar-lhe o interesse?

Derivando a atenção para a avó, ela notou que ela parecia mais cansada e envelhecida a cada nova visita que ela lhe fazia. Sabia que ela ficava desapontada com o fato de vê-la desacompanhada, e isso a incomodava. Porém, as mulheres capazes de satisfazer-lhe a insaciável libido e que frequentavam as várias casas que ela mantinha ao redor do mundo não eram do tipo que ela escolheria para apresentar a uma senhora extremamente religiosa, como era o caso de Mercedes.

Ela reconhecia o desespero no semblante de sua avó ao vê-la casada e com filhos. E devia isso a ela. Após todos aqueles anos, enquanto Camila se transformara em uma magnata bem-sucedida, graças ao apoio e educação que a avó lhe proporcionara, Mercedes prosseguira na mesma vida difícil que sempre levara. O marido se entregara à bebida e muitas vezes a espancava; o filho se tornara um ladrão de carros; a nora também se transformara em outra alcoólatra. E, embora a neta fosse à única parenta viva que lhe restasse, ela não se importava nem um pouco pelo fato de ela ser uma mulher rica e influente.

— Não se preocupe com Mercedes — opinou o padre, notando com sagacidade a névoa de tristeza nos olhos de Camila, enquanto ela estudava a avó. — Basta conseguir uma esposa e providenciar um bisneto, que ela ficará feliz.

— Como se isso fosse fácil! — Camila exclamou com um suspiro desanimada

— Com a mulher certa, garanto que não será nenhum sacrifico. — O sacerdote assegurou e exibiu um sorriso orgulhoso e bem-humorado de quem era pai de seis crianças saudáveis.

O grande problema era que Camila havia desenvolvido uma verdadeira aversão pela ideia de se casar novamente. Hailee representara o maior erro que ela cometera na vida. E, mesmo depois de ter decorrido uma década do divórcio, ela não era capaz de esquecer o filho que ela abortara, apenas pela vaidade excessiva em não querer perder as linhas perfeitas do corpo.

Camila nunca contara esse fato para Mercedes, pois sabia que isso lhe partiria o coração e lhe destruiria os sonhos. E agora, notando-lhe o rosto com rugas cada vez mais profundas, ela se perguntava em silêncio se estaria próximo o dia em que a avó não estaria ali para reclamar do barulho do seu helicóptero pousando e espantando a criação de porcos e galinhas que ela mantinha no quintal.

O súbito pensamento golpeou-lhe a consciência e a fez estremecer. Quem fizera mais por ela e tivera sido tão pouco recompensada? Se havia uma mulher no mundo que merecesse abrigar no colo um bebê tão ansiado, essa mulher seria Mercedes Estrabão.

Camila precisou se superar para conseguir disfarçar a verdade sobre sua decisão de não se casar outra vez, quando, logo em seguida, a avó lhe perguntou, com astúcia no olhar, se ela nunca mais se encontrara com Hailee.

Como faria para explicar que se tornara uma solitária e considerava os relacionamentos pessoais apenas como um prazer de curta duração? E que atuava da mesma maneira como fazia nos negócios? Adorava tirar o proveito máximo de uma competição e derrotar os adversários através de sua extrema habilidade mental e perspicácia. E, no final, obter a satisfação de multiplicar seus lucros com golpes certeiros no mercado financeiro.

Se, pelo menos, o casamento pudesse ser comparado ao mundo dos negócios, com regras bem definidas, e não deixassem espaço para erros e enganos...

No instante em que a mente devaneava por aqueles caminhos, Camila teve uma ideia inusitada: Por que não? Por que ela não poderia escolher uma esposa que lhe desse um filho se utilizando das mesmas regras com que se conduzia nos negócios? Afinal, a tentativa da maneira tradicional acabara em catástrofe.

— Mas existe alguém especial na sua vida? — insistiu a avó, em tom sussurrante, sentindo-se embaraçada por estar se intrometendo na vida particular da neta.

— Talvez... — Ela apenas murmurou, animada com a possibilidade de desenvolver um plano que satisfizesse a questão de proporcionar um bisneto para Mercedes.

No caminho de volta ao heliporto, na privacidade do interior seguro do carro, Camila começou a elaborar as primeiras regras do que tinha em mente para que seu plano desse certo, e iniciou as primeiras anotações no laptop.

Ela pretendia aplicar a experiência profissional em assuntos relativos ao matrimônio. Faria uma lista de requisitos e encarregaria seus advogados de analisar a questão legal e utilizar os serviços de médicos e psicólogos para descartar as candidatas que não fossem satisfatórias ao perfil exigido. E, é claro, o casamento deveria permanecer apenas por um período relativamente curto e garantir-lhe a custódia do filho que sobreviria.

Por um momento, ela se deparou com uma incoerência gritante em suas próprias exigências: não queria uma esposa que fosse do tipo que fizesse qualquer coisa por dinheiro e, ao mesmo tempo, desejava uma mulher disposta a abrir mão do próprio filho no momento em que ela já estivesse cansada do teatro da família perfeita para agradar Mercedes.

Contudo, em algum lugar do planeta, o matrimônio perfeito que acabara de idealizar teria que se concretizar. Ela fora bem específico quanto a nem mesmo precisar conhecer a mulher antes do casamento.

 [...]

 

Quando Lauren avistou a irmã, Michele, saindo de um carro esportivo na cor vermelha e totalmente desconhecido, sentiu um misto de alívio e irritação.

Imediatamente tomou o rumo da escadaria que conduzia ao andar térreo e praticamente pulou os degraus, graças à agilidade proporcionada pelo corpo esbelto. Alguns fios dos cabelos negros despencaram sobre os olhos claros e de tom azul-esverdeado semelhante a uma pedra preciosa como a água-marinha.

— Onde esteve durante todas essas semanas? Por que não me ligou? Eu estava desesperada! E de quem é esse carro? — Ela despejou assim que abriu a porta de entrada da sala.

As palavras simplesmente jorravam da boca de Lauren sem que ela conseguisse refreá-las.

Com um brilho divertido no olhar, Michele adiantou um passo e abraçou a irmã gêmea.

— Oi! Também estou feliz em vê-la — espicaçou.

— Desculpe-me, é que eu estava tão preocupada que algo de ruim tivesse acontecido... Tentei ligar várias vezes. O que aconteceu com o seu celular?

— Quebrou e eu precisei comprar outro com um novo número. — Michele explicou franzindo o nariz para provocar a irmã. — Quer saber a verdade? Quando as coisas ficaram complicadas demais, eu preferi esperar até ter algo de mais concreto para lhe falar. Então, quando finalmente isso aconteceu, achei melhor vir até aqui e lhe contar pessoalmente.

Lauren apenas encarou a irmã sem entender nada e, ao mesmo tempo, sem esperanças de que entenderia. Os fatos sempre se repetiam da mesma maneira. Embora elas fossem gêmeas idênticas, desde muito pequenas ficara evidenciada a discrepância de personalidades. Michele sempre fora determinada, ambiciosa e pronta para lutar pelo que desejava a qualquer custo. E, por isso, a facilidade em fazer inimigos era imensa. Já Lauren era do tipo comportada, calma e atenciosa. E também possuía um grande senso de responsabilidade.

Aos 23 anos, ao contrário de quando eram crianças, nem mesmo na maneira de como se vestiam e se produziam pareciam gêmeas. Michele mantinha os cabelos lisos e negros sempre bem modelados e o corte em camadas até a altura dos ombros, enquanto os de Lauren eram bem mais longos e constantemente presos no estilo tradicional de rabo-de-cavalo.

Também era completamente oposta a maneira como se vestiam e se comportavam. Michele usava roupas de grife provocativas e sentia-se recompensada quando os homens a olhavam com cobiça. Lauren gostava de modelos conservadores e enrubescia a cada vez que era alvo da atenção masculina.

Depois de entrar na sala, Michele retirou o casaco e o empilhou junto com a bolsa e acessórios na poltrona mais próxima. Caminhou na direção da cozinha, enquanto perguntava em voz alta:

— Onde está a mamãe?

— Na loja. Eu vim mais cedo para terminar a contabilidade. — Lauren esclareceu ao mesmo tempo em que colocava um pouco de água na chaleira para providenciar um chá. — Imagino que você conseguiu um emprego em Londres, não é?

— Claro que consegui! E fui considerada a melhor vendedora de carros de luxo da concessionária. Recebi comissões fantásticas! — Michele exclamou com um sorriso satisfeito e se recostou no balcão da pia. — E como está nossa mãe?

— Considerando as circunstâncias, diria que está bem. Ao menos, não ouço mais seus soluços durante a noite.

— Acha que ela está superando o trauma?

Lauren deu um suspiro.

— Não acredito que ela consiga fazer isso tão rapidamente. Não enquanto nosso pai desfilar garboso pelas redondezas enquanto ela ainda enfrenta o tamanho das dívidas. Fora o fato de ter que precisar vender a própria casa por uma ninharia.

Michele exibiu um sorriso triunfante antes de revelar a novidade que tinha para contar.

— Prepare-se para uma grande surpresa... Eu consegui um acordo financeiro para resgatar a hipoteca da casa e liquidar o restante das prestações do financiamento. Também deixei com o advogado dinheiro suficiente para ele pagar para o bastardo do nosso pai a metade dos bens que está reclamando por conta do divórcio e convencê-lo a permanecer fora das vistas de nossa mãe.

— Não fale assim do nosso pai, embora eu saiba que ele mereça.

— Ora, não vamos ser hipócritas! Mamãe perdeu o filho e eu o meu namorado naquele acidente pavoroso. E ela ainda teve forças para cuidar do papai durante o tempo em que ele sofreu com o câncer. E qual foi à recompensa dela? Ser abandonada por causa de uma cabeleireira com a metade da idade dele?

Lauren considerou a situação por um momento e franziu o cenho. Ainda que a irmã fosse uma excelente vendedora de carros luxuosos, não seria possível que, em apenas três meses, tivesse condições financeiras de arcar com toda aquela despesa.

— Onde conseguiu tanto dinheiro, Michele? Não acha que eu vou acreditar em comissões astronômicas, acha?

— Bem... Na verdade, eu consegui um novo trabalho que incluiu um pagamento adiantado em dinheiro. Pelo menos o suficiente para saldar as dívidas e manter nosso pai afastado.

— Como também para comprar um carro novo e renovar seu guarda-roupa...

Michele recolheu o sorriso dos lábios no momento em que se defrontou com o olhar de desaprovação que a irmã sustentava.

— Ah, você já notou a etiqueta no meu casaco novo?

— Não foi preciso. Basta olhar para ele. E que tipo de trabalho é capaz de render tanto dinheiro?

— Será que não ouviu uma só palavra do que eu lhe disse? O que importa é o fato de eu ter conseguido o dinheiro para livrar nossa mãe de perder a casa, livrar-se das dívidas e recuperar a autoestima.

— O problema é que eu não acredito em milagres. No mundo de hoje é preciso ter competência e trabalhar duro para se conseguir um mínimo de resultados financeiros — argumentou Lauren, sabendo que a irmã nunca tivera inclinação para enfrentar sacrifícios daquela natureza.

— Confesso que é um pouco complicado para lhe explicar. Para começar, eu precisei usar sua identidade para conseguir o meu propósito.

— Usou a minha identidade? Como?

— Você é a que possui grau universitário e eu precisava disso para poder concorrer ao cargo. E... Também usei o seu nome. Não poderia correr o risco de eles descobrirem a fraude no instante em que fossem comprovar as informações, descobrindo que não cursei nenhuma faculdade.

Lauren já estava chocada com a atitude inconsequente da irmã em relação ao dinheiro que ganhara, mas a descoberta daquela mentira passava dos limites da compreensão.

— De qualquer forma — prosseguiu Michele — eu achei que valeria a pena tentar. Só não imaginava que iria conhecer alguém e...

— Você está namorando? — Lauren perguntou surpresa e animada ao mesmo tempo. Depois de Michele ter perdido Peter no mesmo acidente que tirara a vida do irmão delas, ela ficara tão amargurada que jurara nunca mais se apaixonar por outro homem. E ela podia entender muito bem a extensão da dor da irmã. Como vizinho e amigo Peter fazia parte da vida deles e era considerado como um membro da família.

— Será que estava tão ocupada criticando o meu casaco que nem notou isso? — Michele perguntou e exibiu a mão que ostentava um valioso anel de compromisso.

— E já está noiva?

E grávida — confidenciou.

— Grávida? E nem mesmo ligou para contar?

— Eu avisei que quando as coisas se complicaram eu preferi esperar a ocasião certa para vir até aqui e lhe dizer pessoalmente o que estava acontecendo. Eu estava correndo atrás daquele trabalho e não queria contar a Harry sobre isso... Esse é o nome do meu noivo. Ele é fazendeiro e cuida de todo o patrimônio da família. Todos estão preocupados com o meu bem-estar e o do bebê e nem um pouco incomodados por eu não pertencer a uma classe social semelhante ao da família. Porém, tenho certeza de que ninguém aceitaria o fato de eu ter me candidatado para aquela proposta antes de conhecer Harry... Ou ter aceitado o dinheiro oferecido como adiantamento, embora por motivos relevantes.

— Mas, afinal, do que se trata esse emprego?

Michele escolheu um lugar na mesa da cozinha e se acomodou para provar o chá, antes de responder.

— Eu nunca pensei que faria isso. Eu estava estudando o formulário apenas por curiosidade. E não se trata de um emprego ou trabalho propriamente dito.

Lauren sentiu o coração dar um salto no peito.

— É algo imoral?

— Antes de me julgar, raciocine sobre o bem que aquele dinheiro fará por nossa mãe. E tudo o que eu precisei fazer para conseguir o dinheiro foi concordar em me casar com uma magnata russa e agir como esposa dela.

Mas por que uma mulher dessass precisaria pagar para conseguir uma esposa?

— Parece que ela pretende que o casamento seja feito em bases negociáveis. Inclusive com adiantamento em dinheiro, contrato assinado e concordância com o divórcio depois de um curto espaço de tempo. E a exigência dela é que seja uma jovem inglesa, culta, atraente e saudável.

— Deixe-me ver se entendi direito. Você planejava se casar com essa mulher apenas pelo dinheiro?

— Por Deus, Lauren! Eu só pretendia fazer isso pelo bem de nossa mãe!

Lauren se manteve em silêncio por algum tempo a fim de analisar os argumentos da irmã. O fato de ela mesma ter se demitido do excelente emprego que mantinha em uma biblioteca de Londres e voltar para casa também fora por causa da mãe. As duas jovens adoravam a mulher que estava passando por um momento de depressão profunda e nem de longe lembrava a pessoa alegre e cheia de vida que costumava ser. A perda do filho, a doença do marido e o posterior abandono, após 30 anos de casamento, foram demais para a pobre mulher. E, para piorar, com o divórcio ela ainda seria forçada a vender a casa e a loja que mantinham na vila para dividir o dinheiro e pagarem as dividas assumidas pelo financiamento e garantidas por hipoteca. E tudo para satisfazer a luxúria de um homem que a trocara por uma mulher bem mais jovem.

Lauren ficara tão decepcionada com o comportamento do pai, que ela julgava ser tão bom e honesto, que uma insegurança sem precedentes se formou na mente dela. E ficou temerosa pelo que aquela magnata russa pudesse pretender de uma esposa por tempo limitado.

— Devolva o dinheiro, Michele. Não pode se casar com uma estranha por causa da riqueza dela.

— Bem... Eu não poderia fazer isso, mesmo que quisesse. Estou grávida de Harry e ela quer que nos casemos dentro de duas semanas. Será você quem deverá ir adiante e casar-se com a russa em meu lugar. Ou serei forçada a considerar o aborto como uma única opção.

Abalada com a inesperada afronta, Lauren afastou a cadeira ruidosamente e se ergueu furiosa:

— Está tentando me chantagear? Ou eu me caso com uma magnata excêntrica ou você faz um aborto?

— Não é isso, Lau. Mas o que quer que eu faça? Eu já assinei o contrato e aceitei o dinheiro. Não há como devolver

— Gastou todo o dinheiro?

— A maior parte para socorrer nossa mãe. E o restante para satisfazer minhas vaidades. Afinal, eu pretendia cumprir a minha parte no acordo. E não precisa me olhar com toda essa crítica! Era eu quem estava pretendendo me sacrificar para salvar nossa mãe, enquanto você fica aqui sentada o tempo inteiro apenas verificando os extratos bancários. Sabe de uma coisa? Só muito dinheiro será capaz de solucionar os problemas por aqui!

Quanto mais Michele alterava o tom de voz, mais Lauren empalidecia. No final, decidiu sentar-se outra vez e discutir o assunto com mais calma:

— Você está certa, Michele — finalmente Lauren admitiu. Tem a coragem suficiente para fazer algo que eu não seria capaz, e não tenho o direito de condená-la por isso. E tem razão quando diz que só muito dinheiro será a solução de nossos problemas.

Michele estendeu as mãos e segurou firme nas de Lauren, como se estivesse procurando pelo apoio dela.

— Não acha que eu mereço ser feliz?

— Eu nunca duvidei disso — afirmou Lauren.

— Depois da morte de Peter eu achava que minha vida amorosa estivesse terminada para sempre. Mas, quando conheci Harry, as coisas se modificaram. Eu realmente o amo e desejo me casar com ele e ter nosso filho.

Lauren ficou comovida com o discurso emotivo da irmã e, gentilmente, afagou-lhe as mãos em gesto de compreensão. — Estou certa de que será feliz com ele.

— Acontece que, se Harry descobrir o que eu fiz, será o fim para nós dois — declarou com amargura na voz. — Ele nunca me perdoará por ter sido tão mercenária. Harry é um homem de princípios rígidos.

De repente, Lauren teve a mesma sensação de proteção que costumava sentir quando ambas eram crianças. Michele sempre se envolvia em confusões e depois lhe pedia socorro. E, muitas vezes, Lauren assumia a culpa pelas travessuras da irmã, quando, na realidade, ela mesma sempre agira de modo comportado. No entanto, Lauren tinha uma personalidade mais forte para enfrentar os problemas quando eles saíam de controle. Embora Michele fosse mais ousada, também era a mais frágil para enfrentar as consequências de suas próprias atitudes.

— E se apenas não disser nada para Harry? Como ele descobrirá?

— Se o acordo não for honrado ou o dinheiro devolvido, acha possível que uma mulher como Camila Estrabão seja complacente o suficiente para permitir que alguém desapareça com o dinheiro dela e, ainda por cima, o faça de boba?

— Camila Estrabão, a bilionária russa? É ela quem pretende contratar uma esposa? Por Deus! A mulher tem modelos e atrizes se ajoelhando aos seus pés para conseguir uma oportunidade de desfilar ao lado dela! Por que pagaria para que uma desconhecida o desposasse?

— Porque ela foi casada há muito tempo atrás e o casamento não deu certo. Agora, ela pretende fazer um casamento por conveniência com regras bem definidas, como se fosse um acordo de negócios. Isso é tudo o que o advogado revelou. Apenas um contrato de trabalho. Um pouco diferente dos demais, mas, ainda assim, um contrato de trabalho.

— Um contrato de trabalho... — Lauren repetiu, exibindo nos olhos expressivos a franca desaprovação.

— Se você se casar com a Estrabão, eu estarei livre para me casar com Harry e poderemos ficar com o dinheiro que foi dado como adiantamento. Nossa mãe ficará bem e tudo voltará ao normal. A russa nunca me viu e, por isso, nunca saberá que você não é a mulher que foi selecionada para se casar com ela.

— Isso é loucura! Não farei isso! — recusou-se Lauren, tentando resistir à pressão que a irmã lhe impunha.

— Acontece que eu preenchi o formulário com o seu nome e o seu número de identidade. E, se o contrato não for cumprido, será você que os advogados irão processar.

— Eu me defenderei. Afinal, não assinei nenhum contrato!

— Infelizmente será difícil provar que não foi você quem assinou o contrato. A falsificação ficou perfeita — Michele desabafou com um suspiro. — Sinto muito, mas ambas estamos envolvidas nisso até o pescoço. Não temos como devolver o dinheiro e, no momento, seria impossível conseguir um empréstimo para salvar a casa e saldar as dívidas feitas para a compra da loja. E, a não ser que acertemos na loteria, não existe outra maneira de resolver a situação.

Lauren se manteve em silêncio por algum tempo e, após um longo suspiro, ergueu-se da mesa e avisou:

— Está chovendo. Prometi buscar a mamãe se isso acontecesse.

Lauren se acomodou atrás do volante do velho Hatchback que pertencia a sua mãe e seguiu em direção da loja. No instante em estacionava o carro em frente ao estabelecimento comercial, avistou uma moça morena que acabava de sair da loja e abrir uma sombrinha de cor amarela para se abrigar da chuva. O corpo curvilíneo e a saia curta chamavam a atenção de quem passava por perto. Assim que a reconheceu, Lauren sentiu um arrepio na espinha. Tratava-se da namorada de seu pai, Maggie Lines. Logo que a viu se afastar, Lauren saltou do carro e se encaminhou para a porta da loja, que já estava trancada. Bateu repetidas vezes até que a mulher de meia-idade baixa e loira surgiu para recebê-la.

— O que aquela mulher estava fazendo aqui? — berrou Lauren, contrariada por observar os olhos marejados da mãe e um tremor incontrolável nas mãos.

— Ela disse que precisava falar comigo.

Lauren ficou estupefata com o comportamento dócil da mãe. Achava inadmissível que o pai tivesse a audácia de permitir que a amante perturbasse a mulher que fora sua companheira por mais de 30 anos.

— Você não deveria recebê-la. Ela é problema dele, e não seu. E Maggie não devia meter o nariz em problemas alheios! E, afinal, o que ela queria?

— Dinheiro. O dinheiro que é devido ao seu pai. E, embora eu não goste de ouvir, o que ela me disse está certo. De acordo com a lei, sou obrigada a dividir o que restar depois de pagarmos as dívidas. Mas, o que posso fazer se ainda não apareceu ninguém interessado em comprar a casa?

— Só o que eu sei é que ela não deveria vir aqui e nem você deveria falar com ela.

— Ela é uma moça determinada, Lauren. Porém, eu não tenho medo de falar com ela e você não deveria se envolver nisso. Se o seu pai decidiu fazer uma nova vida com ela, é problema dele. Essas coisas acontecem. Por isso, acho que seria prudente não ser tão rigorosa com seu pai.

Lauren tomou as mãos da mãe entre as dela e assegurou:

— É que eu a amo tanto que sinto meu coração se despedaçar ao vê-la sofrer dessa maneira.

Clara Jauregui forçou um sorriso para acalmar a filha e avisou:

— Em algum momento, eu acabarei por superar tudo isso. Acontece que é ainda muito recente e eu ainda amo o seu pai — confessou embaraçada. — E essa é a pior parte. Não consigo mudar meus sentimentos tão de repente.

Lauren olhou, comovida, para a mãe e revoltou-se com a ideia de vê-la perder a casa e o comércio que a sustentava, ficando quase sem nada para sobreviver. Tudo lhe parecia tão injusto!

—Michele está em casa, mãe. E ela trouxe boas notícias. Conheceu um homem e...

A mulher alargou o olhar com surpresa.

— Está falando sério?

— Sim. E tem mais. Eu e ela encontramos uma maneira de arranjar o dinheiro para salvar a situação. Talvez não seja mais preciso vender a casa.

— Isso não é possível! — exclamou Clara.

— Milagres acontecem. —Lauren comentou, surpresa com a própria afirmação. Será que isso significava que interiormente já havia tomado à decisão de se casar com Camila Estrabão, ou estava apenas tentando animar a mãe com falsas esperanças?

Pouco tempo depois, enquanto Lauren se ocupava em preparar o jantar, Michele sussurrou-lhe em um dos ouvidos:

— Enquanto você esteve fora, eu recebi uma ligação do advogado de Camila, dizendo que a russa resolveu me conhecer antes do casamento. Por isso, você precisa decidir agora se vai adiante e ajudar nossa mãe ou se vai desistir de uma vez.

Lauren percebeu, pela determinação que via nos olhos da irmã, que ela não titubearia em fazer um aborto se as coisas se complicassem. Por outro lado, ela mesma não tinha compromisso algum e amava a família mais do que tudo na vida. Mas será que teria coragem de fazer de um casamento uma maneira de salvar a situação? Ou deveria seguir seus princípios e virar as costas para a única chance real de resolver o problema? Por certo que o dinheiro não traria o pai de volta e nem acalmaria a dor da mãe por ter sido abandonada. Contudo, o futuro seria mais tranquilo se a casa e a loja fossem mantidas. E, com essa certeza em mente, Lauren afastou as dúvidas e, finalmente, concordou com a sugestão de Michele.

 



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