História Ex Melhores Amigos - Capítulo 1


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Categorias Neo Culture Technology (NCT)
Personagens Doyoung, Taeil, Yuta
Tags Yuil
Visualizações 42
Palavras 11.715
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Fluffy, Lemon, LGBT, Shoujo (Romântico), Slash, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


~capa temporária

~nao revisado

Capítulo 1 - Único



Eu ouvia o som da chuva pesada caindo sem dar trégua. Hoje era um daqueles dias que tudo que se mais quer é ficar enrolado nas cobertas e dormir até o outro dia vir a raiar.


O vento frio que se esgueirava pela fresta da janela mal fechada me causava pequenos arrepios em intervalos de tempo. Eu estava entediado, não conseguindo pensar em nada que me fizesse querer fazer. Não que eu esteja reclamando, estar entediado ao contrário do que todos pensam para mim era algo bom. Era a certeza que não iria surtar por trabalhos não feitos da faculdade.


Como todo bom estudante eu deixava os afazeres para a última a hora, o que as vezes me rendia noites em claro porque eu lembrava deles quando já era impossível fazê-los com o mínimo de qualidade. Uma mania que eu persistia em não mudar, mesmo sabendo o quão mal me fazia. O lance era que eu nao queria melhorar.


Sabe quando tudo tá dando errado na sua vida e você não sabe o que fazer, apenas fica olhando as coisas se desenrolar e virar um problema gigantesco? Eu era experiente em ficar olhando as coisas darem errado na minha vida e não mexer um músculo sequer.


Eu sei que as pessoas ao meu redor não entendem o motivo de eu não fazer absolutamente nada para impedir que minha vida se torne o mais medíocre possível. Pessoas ao meu redor, essa pequena frase se torna tão cômica quando se não tem ninguém ao seu redor. O que era o meu caso.


Vejamos, eu tenho meus pais - eu moro com eles, meio óbvio - e fim. Hilário. No auge da minha juventude, como minha tia chata pra caramba insiste em me informar, eu não a desfruto. Eu sou o típico jovem inútil, ocupando espaço.


Começar um curso e me formar vai ser o auge da minha vida provavelmente. Eu nao pretendo fazer grandes coisas ou realizar grandes feitos. Eu meio que torço para morrer antes dos trinta, de preferência rapidamente, não quero uma morte dramática eu me contento com ser uns daqueles que morrem de forma idiota, se a morte for rápida não me importo em como ela aconteceu.


O que o Taeil de 16 anos cheios de sonhos diria disso, provavelmente falaria que eu sou alguém sem propósito e depois tentaria me ajudar a achar um. Tão idiotamente solidário.


Eu gostaria de ter continuado sendo o mesmo Taeil do ensino médio, antes de tudo dar errado. Seria tão mais fácil se eu fosse positivo, pelo menos eu acho. Mas o que eu sei não é?


Meu pais meio que se conformaram que tem um filho que nunca os dará orgulho, eu nunca serei o filho que eles esfregaram na cara dos vizinhos, que tem um ótimo emprego e uma maravilhosa formação. Eu estou cursando história, provavelmente vou sempre ser um desempregado, ou nas melhores das hipóteses um professor de ensino médio, tentando fazer adolescentes idiotas aprenderem algo. Fico satisfeito em saber que não serei essa pessoa, porque bom, eu vou morrer antes dos trinta .


Hoje é a primeira sexta feira do mês de dezembro, o que quer dizer que minhas aulas acabam semana que vem. E então finalmente férias, o que não muda nada em minha vida. Ou não mudaria se hoje pela manhã antes de sequer pisar para fora do quarto minha mãe não me desse a notícia que a família Nakamoto estaria pela parte da noite em casa, com seu filho.


Yuta, fazia três anos que eu não o via. Quando ele deixou a Coreia para ir novamente ao Japão. O lance entre eu e o Yuta era que, quando éramos apenas crianças nos consideramos melhores amigos, daqueles que dormiam na casa um do outro. Tinham um lugar só deles, promessas de que nossa amizade seria eterna, sabe? Aquelas coisas idiotas.


Agora vem a parte hilária, em como a adolescência chegou e disse, não vai ser bem assim meus ingênuos gafanhotos. Era meio óbvio que isso aconteceria, mas não para o pequeno Taeil inocente.


Yuta era bonito, tinha uma beleza que chamava atenção de todos, seus grandes olhos, seu sorriso perfeito, sua inteligência acima dos demais, e para completar tudo isso ele tinha a áurea de garoto problema, que sempre atrai bastante pessoas.


Nossa amizade resistiu até o segundo ano do ensino médio, encontrando barreiras para ficarmos juntos e conversarmos sobre o dia, mas resistiu. Ele era popular, um atleta. E eu apenas o garoto com notas boas, gentil com todos e que constantemente era alvo de gozação.


Mas aí o fatídico dia chegou, o qual eu jurava que nunca aconteceria com nós. Eu não seria mais um coadjuvante de filme adolescente fútil. Mas eu fui.


Yuta era popular e eu nerd - que na verdade nem era tão inteligente, mas eu tinha o perfil- , algo não encaixava nessa equação. Então eu fui descartado da forma mais humilhante possível, em público.


É sério esse foi o acontecimento mais extraordinário da minha vida toda.


Era uma sexta feira - o que eu agradeci um tempo depois, assim não teria que ir no outro dia na escola com os olhos vermelhos e a cara inchada- . Lá estava o ingênuo Taeil indo atrás do extraordinário Yuta, a fim de contar em como no dia anterior tinha achado um livro muito bom, e que provavelmente ele gostaria de ler.


O dia estava muito agradável, ele acordou aquele dia bem disposto, comeu um bolo de chocolate que sua mãe tinha feito, e o melhor de tudo é que o clima finalmente tinha voltado a esquentar, o inverno estava ficando para trás. Tudo iria ocorrer perfeitamente bem naquele dia, eu era bem bobinho mesmo.


Eu achei o Yuta muito facilmente, ele estava com as pessoas do time em uma mesa no pátio. Eu lembro de ele estar rindo abertamente, e isso aquece meu peito porque eu amava ver ele sorrir. Adolescente apaixonado é muito otário. Então eu fiz a burrice de me aproximar e o chamar animadamente.


Se eu fechar meus olhos e pensar com cuidado eu consigo visualizar como as risadas cessaram e como todos os olhos se voltaram para mim. Yuta me olhava desesperado, com medo de algo. E uma frase foi dita que eu nunca irei esquecer, porque foi o início de toda a dor que eu poderia vir a sentir.


"Você não disse que ele iria te deixar em paz?"


Kim Doyoung. Um dos mais famosinhos da escola. Eu não entendi de primeira o que aquilo significava. Então eu esperei por mais alguma coisa, e então veio.


" O que está fazendo aqui? Eu não disse que você deveria parar de falar comigo? "


Yuta, meu melhor amigo disse. E eu estava confuso, o que ele falava não fazia sentido, quando foi que ele me disse isso?


" Você não cansa de perseguir o Nakamoto? Sabe que isso é crime?"


Perseguir. Pensar nisso era tão hilário, porque se alguém fosse perseguidor aqui, seria ele. Era ele que entrava pela janela do meu quarto, e me fazia confortá-lo por ter visto um filme muito triste e não conseguir parar de chorar, quase todas as noites. Teve uma época que eu duvidei que era pelos filmes que ele vinha dormir comigo.


Então eu o olhei achando que talvez ele me explicaria algo. Mas ele nem sequer virou em minha direção.


Depois de algumas horas foi que eu descobri que na noite anterior, Yuta tinha sido confrontado do porque falar comigo. E para alguém tão inteligente quanto ele, falar que eu era um stalker que não conseguia parar de persegui-lo, foi burrice. Mas aí o estrago já estava feito, quando indagado mais sobre isso, ele foi moldando minha imagem para alguém com sérios problemas mentais.


O final do ensino médio foi eu sendo taxado como desequilibrado e tarado. No início eu ainda tinha esperança de uma explicação sobre aquilo, quando eu saia de casa e o via pela janela me observando andar até a lixeira e depositar o saco de lixo. Ou quando nos esbarramos no mercado e ele tentava me dizer algo, mas voltava a se calar.


Por um bom tempo eu fiquei confuso, e depois senti raiva. Eu ouvia o nome dele e meu corpo inteiro tremia. Aí a raiva passou e ficou nada, minhas notas caíram. Eu nao aguentava ficar na escola, a sala de aula me sufocava, os olhares eram como agulhas me furando. Foi ainda nesse tempo que meus sonhos foram morrendo, e o Taeil ingênuo e sempre cheio de ânimo foi desaparecendo e este surgiu no seu lugar, alguém sem perspectiva nenhuma do futuro.


Yuta era meu melhor e único amigo, e quando ele resolveu que eu não era bom para sua imagem, me restou ninguém.


No final do ensino médio, depois da formatura. Eu estava indo colocar o lixo para fora quando fui abordado por ele. Seus olhos grande me examinaram inteiro. Eu sentia meu peito doer por apenas o ter tão perto, mas continuei parado o encarando aguardando o que quer que fosse vir.


Eu vi sua mente fica confusa, e ele organizar tudo antes de me pedir desculpa, com um ano de atraso. Eu vi seus sentimentos expostos, ele se arrependia e queria meu perdão. E eu não fiz nada. Apenas o escutei, relatar em como ele se sentia horrível por ter me feito mal, em como eu era o único amigo de verdade que ele já teve, e que tinha perdido isso por idiotice. Em como ele queria poder voltar no tempo e fazer tudo diferente. Em como ele sentia minha falta, dos sorrisos, das piadas, das sugestões de livros, dos abraços. E que ele sabia que talvez não merecesse meu perdão, mas que essa era última chance dele me pedir, pois estaria indo pro Japão daqui umas horas e ficaria lá por anos.


Eu apenas disse "boa viagem". Dei as costas a ele e entrei em casa o deixando parado na frente da minha residência olhando para a porta que eu tinha fechado.


Eu me arrependo do que disse, eu poderia ter falado algo mais criativo como: torce pro avião não cair.


Eu realmente não sei porque não disse nada sobre seu pedido de perdão. Eu não tinha mais raiva dele, eu não sentia nada. Foi nesse momento que eu deixei que minha vida apenas seguisse como quisesse. Me matricular em uma faculdade foi o máximo que consegui fazer, e desde então nada mais.


E agora ele estava aqui, a alguns metros de distância. Provavelmente deitado em sua cama escutando uma das músicas pop que ele nega gostar. E eu aqui ainda apaixonado por ele, ainda sentindo sua falta.


O antigo Taeil, o que não foi quebrado, iria até lá e daria um jeito de iniciarem uma conversa. O Taeil de agora pretende passar o maior tempo em casa a fim de não ter que cruzar com ele.


Eu não estou preparado para todos os sentimentos que surgiram quando eu o ver. Todas aquelas sensações toscas de quem está apaixonado voltaram, e eu não quero amar Yuta, mas parece que eu não tenho escolha. Por que meu coração nesse exato momento está se agitando com a possibilidade da luz acesa na casa vizinha ser ele andando pelo quarto.


[...]


No outro dia eu me arrependi de não ter levantado e fechado minha janela direito, o vento frio meu causou um resfriado que fazia minha cabeça latejar. E pra piorar a droga da luz solar ultrapassava as cortinas fazendo chegar em meu rosto.


Não era pra hoje ter sol, eu estava contando com um clima horrível, para ter mais um motivo para permanecer em casa. Mas lá vem um sol me aparecer entre nuvens. Não era um dia bom.


Chutei minha cobertas um pouco irritado com a situação toda. E espiei furtivamente pela janela se não tinha nenhum sinal daquela pessoa. Com a barra limpa corri para o banheiro, fazendo um lembrete de fecha as persianas nem que minha mãe me matasse depois por isso. Segundo ela um quarto fechado fica com mal cheiro, o que é totalmente verdade. Não que eu esteja ligando pro cheiro que iria ficar neste instante. 


Me olhar no espelho sempre foi estranho, não que eu achasse que não pertencia aquele corpo e essas coisas. E que bom eu odiava a mim mesmo, isso quer dizer que eu odiava a imagem refletida naquele maldito espelho. E hoje especificamente eu estava mais horripilante do que jamais estive. Minhas orelhas eram profundas - era o que acontecia quando ficava a noite acordado refletindo sobre a merda de vida que tinha-, minha cara estava com a característica expressão de idiota. E eu sentia meu corpo inteiro gelado, por estar de pés descalços no piso frio.


As vezes eu me pegava pensando porque eu saia sem chinelos, sabendo que iria ficar com frio assim que pisasse no banheiro. Ou do porquê eu deixar meu celular em cima da cama e ir pra sala sabendo que teria que retornar a buscá-lo pois sou viciado demais para conseguir ficar mais que 15 minutos longe dele.


Eu era meio burro em questões simples. E complexas também. Mesmo minhas notas falando o contrário. O que aquelas pessoas sabiam sobre minha capacidade não é?


Debochar de mim mesmo em pensamentos era meu hobby, se um dia me perguntassem eu falaria com minha típica voz de tédio "eu passo meu tempo debochando de mim mesmo, e me colocando em uma posição inferior aos demais, isso é muito divertido."


Às vezes até mesmo ria de mim mesmo, meus pensamentos são bem engraçados de um modo obscuro, que poucos sabem prestigiar.


Depois da minha higiene feita, e de eu ter me obrigado a dizer pelo menos bom dia para meus pais eu voltei para meu quarto, e imediatamente fechei as persianas. Agora estava seguro de qualquer olhar que eu possa receber do vizinho.


[...]


Minha paz não durou todo o dia, minha mãe veio com a incrível notícia de que a família Nakamoto estaria hoje a noite com nós. Minha expressão deve ter sido hilária, eu até cheguei a derrubar meu celular na cara. Ótimo que eu ficaria com um roxo bem na testa.


Perfeito, Nakamoto Yuta estaria na minha casa. Meu sábado tinha piorado muito. Sobre eu e ele meus pais só tinham conhecimento de que brigamos mas eu nunca disse o porquê ou como aconteceu. Não importava mais.


Foi depois dessa notícia que eu comecei a dar indícios que estava doente, às vezes eu conseguia ser esperto. Nada me faria descer até o andar de baixo hoje a noite.


E foi com uma carinha de sofrido que eu consegui convencer a minha mãe a me deixar no meu canto. O jantar ocorreria mas minha presença não era mais solicitada. Eu até fiz uma comemoração ridícula, e meu sorriso até que foi verdadeiro.


Perto das 18 horas eu comecei a ver game of thrones. Isso me distrairia dos acontecimentos no andar de baixo. Terceira temporada ainda, eu madrugaria novamente nutrindo meu ódio pelo Geoffrey.


Mesmo me concentrando no desenrolar da estória eu conseguia ouvir risadas e conversas. Me deixando em alerta para qualquer indício de que alguém subiria até aqui. O que não aconteceu graças a alguma entidade, ou ao bom senso dos convidados.


Então minha noite estava tranquila, meu plano tinha dado certo e eu estava seguro no conforto do meu quarto. Já tinha passado para o sétimo episódio, quando pensei ser uma boa ideia ir lanchar. Os convidados já tinham ido embora fazia horas e estava tudo certo eu descer as escadas e furtar a geladeira. Talvez ainda tivesse um pouco de bolo e coca cola.


Esqueci outra vez de calçar os chinelos, me causando arrepios pelo corpo. Ao chegar na cozinha sentei em um banco rapidamente, suspirei massageando meus pés gelados. Mania burra de não usar calçados dentro de casa.


Enrolei meus pés no tapete que tinha na cozinha e fui rastejando até a geladeira pegar o bolo e o resto de coca.


Desfrutando do gosto enjoativo do chocolate encarei a janela da cozinha que dava uma ampla visão para o pátio localizado atrás de nossa casa. Era comum eu e o Yuta brincamos ali quando tínhamos 10 anos.


Yuta, novamente ele.


Eu tinha certeza que nada aconteceria hoje, não correria nenhum perigo. Mas minha vida monótona parece que tinha irritado o universo, que decidiu chacoalhar as coisas. E sua chacoalhada foi fazer Yuta aparecer na porta da cozinha batendo no vidro.


Seus cabelos não eram mais pretos, estavam ruivos e bastante longos, quase formando um mullet. Seus olhos grandes me encaram em expectativa, e sua mão acenava pra mim e fazia sinal para eu abrir a porta.


Talvez eu não fosse a única pessoa burra ali, até parece que eu abriria a porta e o cumprimentaria e dialogariamos sobre nossas vidas.


Depois de me recuperar do susto e de quase ter feito eu mesmo me cegar com o garfo, eu me levantei e fiz a coisa mais provável a se fazer nessa situação. Eu corri. Enroscando meus pés no tapete e quase me fazendo cair no chão. Corri para o quarto e fechei a porta com um estrondo. Minha mãe me mataria se tivesse acordada.


Minha respiração estava desregulada, como se eu tivesse corrido vários metros, ou seja, parecia que eu ia morrer de insuficiência respiratória. Odeio exercício físico qualquer coisa me cansa muito rápido.


Com que coragem ele me aparece na porta da cozinha, e me pede para abrir a porta como se fosse um velho amigo. O que ele está pensando? Talvez ele precise que eu verbalize seu perdão, para poder seguir com sua vida com o mínimo de peso na consciência possível ou então ele não da dá a mínima e acha que depois de anos tudo teria se resolvido e nos aproximarmos seria tranquilo.


Eu sou meio tapado para algumas coisas, mas isso não quer dizer que ele possa voltar a falar comigo. Eu tenho um pouco de orgulho, e um restinho de dignidade. Não vou submeter meu coração a presença de Nakamoto Yuta e as consequências que isso causaram.


E foi um pouco irritado, com a testa doendo do acidente de mais cedo, e o pé latejando do acidente recente, que eu fui dormir. Me cobrindo furiosamente e fechando os olhos com força, pensando em modos de me acidentar e perder parte da memória. Se possível meu ensino médio todo.


[...]


Meus pais passaram a maior parte do final de semana longe de mim, e fora de casa. Acho que meu mau humor era tão nítido que eles não aguentaram o clima que estava naquela casa.


Eu estava com raiva, de tudo. Eu comia com raiva, caminhava com raiva, olhava pra tudo com raiva.


Com todo esse clima parando na casa, era óbvio que meus pais ficariam o maior tempo possível longe de mim. Isso quer dizer que no domingo no momento que eu acordei eles olharam para mim e avisaram que iriam passar o dia na minha avó. E já sabendo a minha resposta para isso, eles saíram e eu fiquei jogado no sofá, encarando a televisão desligada vendo meu reflexo e sentindo mais raiva ainda.


Meu plano para o domingo era ser o mais inútil possível para o mundo, ou seja, faria tudo que normalmente faço.


Minhas persianas ainda estava fechadas, fazendo uma barreira ridícula entre eu e o Yuta. Isso me deixava mais confortável para andar pelo quarto fazendo minhas coisas sem sentido.


Ali pelas 16h meus pais voltaram e minha mãe veio ver como eu estava, me encontrando deitado de cabeça pra baixo na poltrona no canto do quarto.


"Pelo amor de Deus abre essa janela, isso aqui tá fedendo Taeil"


Eu não sentia odor nenhum, talvez meu nariz já tenha se acostumado com esse cheiro que não fazia mais diferença. Nem tentei impedir minha progenitora de ir até a janela e a abrir, deixando a luz entrar.


"Você ficou o dia todo nesse quarto? "


"Sim"


Até parece que eu iria sair pra fazer algo, não é como se eu tivesse algum interesse nisso, ainda mais com a possibilidade de encontrar alguém por aí.


" Você deveria ir ver o Yuta"


Assim como não quer nada, minha mãe solta essa sugestão, enquanto fingia olhar algo em minhas gavetas de meias.


" Porque eu deveria fazer isso?"


Por algum motivo não desviei do assunto ou me finge de surdo para não responder, me arrumei na poltrona e a encarei.


" Já faz 4 anos que vocês brigaram por algo besta, não é melhor vocês conversarem e se resolverem. Você não sente falta do Yuta?"


Eu realmente queria dar uma resposta satisfatória para minha mãe, mas tudo que pude fazer foi suspirar, e continuar a encarando fazendo ela entender que eu ainda não queria isso, não queria ir falar com ele.


" Você é muito teimoso, Taeil. Eu queria que você voltasse a ter sonhos, como antigamente"


" Isso não vai acontecer, mãe"


Com isso eu vejo ela sair contrariada do quarto e me deixar só novamente. Eu queria que fosse fácil voltar a ser o antigo Taeil, mas algo me impedia disso. Eu perdi um dos meus alicerces no ensino médio e não sabia como voltar a ficar em pé e seguir em frente.


Foi quando eu decidi atravessar meu quarto e ir para onde minha mãe estava mexendo, pegar uma cueca na gaveta e ir tomar um banho, para parar de pensar no que eu deveria fazer, que eu o vi novamente, pela droga da janela aberta.


Ele estava parado estático no meio do quarto me encarando, e eu o imitei parando com a mão sobre a gaveta aberta, o observando. Eu via seus olhos arregalados e seu peito subir rapidamente, além de que eu podia visualizar seu abdômen bem definido, que era totalmente diferente do meu que tinha uma barriguinha protuberante.


Seus olhos passavam pelo meu corpo, e eu me senti constrangido por isso. Eu estava acabado, totalmente desleixado, com os cabelos apontando para tudo que é lado e moletom enorme me cobrindo, mesmo que não estivesse frio. Quando seus olhos voltaram a encarar os meus, que eu me dei conta do que estava acontecendo e desviei o olhar. Com as mãos tremendo e o cenho franzido foi que eu rapidamente peguei o que precisava, correndo pro banheiro logo em seguida.


Eu não me orgulho de dizer que depois de acabar o banho, eu fiquei uns quinze minutos parado na frente do quarto me decidindo se arriscava entrar ou ia para sala esperar mais uma hora para voltar. Maldita hora que deixei minha mãe abrir a janela.


No fim ele não estava lá me observando, no entanto eu sabia que ele estava no seu quarto. Eu podia ver os seus pés no final da cama, pelo canto da janela. Ele deveria estar deitado de barriga pra cima, olhos fechados, com os fones gritando uma música da Ariana Grande. Então eu sentei na minha cama com os cabelos pingando gotas de água no meu moletom, encarando a janela a minha frente na outra extremidade do quarto, consequentemente encarando os pés do Yuta.


Porque ele tinha que voltar depois de três anos? Vir aqui e bagunçar tudo novamente? Eu só queria meu tédio de volta e consequentemente minha paz.


Meus pais me chamaram para jantar mas eu recusei, deitei no escuro do quarto e encarei a janela aberta, sentindo meu peito voltar a doer. O vento gelado voltou a tocar meu rosto, me fazendo arrepiar. Mas eu não ligava para isso, tudo que eu via era a luz do quarto vizinho iluminar o meu, e as sombras serem feitas.


Eu não lembro da última vez que eu tenha chorado, mas hoje eu voltei a ter vontade de me desmanchar em lágrimas. Aos poucos o travesseiro foi ficando molhado e eu deixava que silenciosamente tudo fosse escorrendo por meus olhos, enquanto observava a janela do meu ex melhor amigo.


Ali pelas cinco horas da manhã de segunda feira, eu acordei sentindo minha garganta doer e minha cabeça preste a explodir. A droga da janela aberta. Meu corpo inteiro estava doendo eu sentia meu interior queimar.


Nesse horário minha mãe já estaria acordada por causa do trabalho, então me arrastei para fora e fui em direção à cozinha procurando ajuda.


Foi só minha mãe colocar os olhos em mim para me mandar sentar e vir com um termômetro para cima de mim.


Depois de um tempo, com o resultado do termômetro marcando trinta e oito graus e meio, e eu ter tomado remédio para dor, voltei ao quarto com a certeza que na aula hoje não compareceria.


Eu só voltei a acordar novamente quando a porta do quarto foi aberta. Foi difícil focar meus olhos na pessoa parada na abertura, quando consegui queria nunca ter feito.


Yuta estava lá, segurando a maçaneta e me olhando um pouco receoso. Eu torcia para tudo que é mais sagrado que minha mãe não tenha tido dedo nisso.


“Sua mãe me mandou para cuidar de você”


Então as entidades lá em cima estavam ocupadas com outra coisa para ouvir minhas preces.


A dor de cabeça voltou com toda a força, fazendo a claridade me incomodar. Por isso fechei meus olhos e me virei de costas para Yuta e fingi que ele não estava ali. Não tinha a mínima possibilidade de nós conversarmos.


“Taeil eu preciso ver se ainda está com febre”


A voz que eu sentia falta de ouvir foi chegando mais perto. Até eu sentir a cama afundar do meu lado, fechei meus olhos com força e prendi a respiração.


Talvez fosse apenas um sonho, isso poderia não estar acontecendo.


Quando senti sua mão tocar meu ombro coberto eu me exaltei um pouco, e me encolhi fugindo do seu toque. Enterrei meu rosto no travesseiro e fiquei espremido na parede, tentando ao máximo ficar longe.


“Desculpa”


Sua voz tinha um quê de mágoa, mas não era nada comparado ao que ele me fez passar.


Em uma tentativa de me esconder dele puxei as cobertas e tapei meu rosto, poderia estar sendo infantil. Ok, com certeza eu estava sendo. Mas não quer dizer que essa constatação vai fazer eu parar.


“ Tudo bem, você não quer falar comigo. Mas eu tenho que fazer você comer e tomar os remédio, então colabora. Porque senão eu vou obriga-lo”


Dando sua sentença ele me deixou sozinho, então pude novamente voltar a respirar. Encarando o teto eu sentia meu coração acelerar.


Minha mãe não podia ter feito isso. Ela não entendia o quão grave era ter o Yuta perto de mim? Eu queria tanto poder esquecer tudo que aconteceu e o sufocar em um abraço. Deixar aquele sorriso aquecer novamente meu coração. Mas como eu faria isso? Se tudo que aconteceu ainda me assombra e ainda dói?


Não demorou muito para ele voltar com uma bandeja nas mãos, contendo uma tigela de sopa. Fui até que compreensivo em me sentar e deixar ele ajeitar a comida em meu colo. Mas desviei do seu toque quando ele furtivamente tentou tocar em minha mão.


“ Preciso que me diga se está com dor ou não, para eu lhe dar os remédios”


Pegando a colher, neguei com cabeça qualquer sinal de dor, mesmo tendo ela fortemente atingindo minha cabeça.


“Eu sei que está mentindo”


Observo seus dedos tirarem um comprimido da cartela de analgesico, não consegui o encarar. O ter tão perto de mim, apenas algumas palmas de distância, me deixava confuso e cheio de sentimentos que eu tinha enterrado há muito tempo.


Por Deus, eu só queria poder ficar novamente com a minha solidão.


Eu tomava minha sopa sentindo o peso do seu olhar em mim. Talvez ele estivesse preocupado com minha saúde, ou só não soubesse como recusar o pedido de minha mãe para ficar de olho em mim.


Quando termino de comer, ele estende sua mão em minha direção, e eu viro a minha deixando para ele colocar o remédio na palma dela.


Para conseguir engolir o remédio tive que erguer meu rosto, e foi impossível não encara-lo. Seus olhos sempre tiveram algo que me prendiam neles. E era difícil de desviar quando isso acontecia. Por isso depois que engoli o analgésico, seus olhos me prenderam e passamos um bom tempo nos encarando.


Seu rosto tinha amadurecido, mas ele ainda era incrivelmente lindo, com seu maxilar bem marcado e seu rosto magro. Sua face séria ainda fazia as borboletas se agitarem em meu estômago.


“Você precisa de mais alguma coisa?”


Nego com a cabeça, e me forço a desviar meus olhos dos dele, mas nenhum efeito. O que me dá vontade de me espancar, eu não consigo acreditar que a droga do efeito Yuta estava voltando a me atingir.


Eu via ele se agitando aos poucos, como se estivesse se preparando para falar algo, mas provavelmente ele desistiu e pegou a bandeja de cima das minhas pernas e saiu de cabeça baixa do quarto.


Voltei a deitar sentindo o remédio me deixar sonolento, porém não consegui tirar um mísero cochilo. A presença do Yuta na casa me deixava em alerta, eu não sabia como agir com ele por perto.


Demorou um pouco para ele voltar para o meu quarto, eu estava divagando sobre a existência de inumanos andando entre pessoas comuns, quando ele voltou a surgir pela porta.


“Você está melhor?”


Olhei para seu rosto, vendo ele preocupado me encarando. Eu meio que sabia que ele estava incomodado com o meu silêncio, porém isso não me faria abrir a boca.  


“ Você realmente não vai falar nada?”


Eu quase sorri com a sua voz irritada, isso me satisfazia um pouco, o deixar ao ponto de ter um surto. Era minha forma de vingança.


“ Taeil, é sério isso? Você ainda me odeia pelo que aconteceu no ensino médio?”


Franzi as sobrancelhas e me sentei na cama escorado na cabeceira. Eu não o odiava, pelo contrário eu era apaixonado por ele. Eu odiava a mim mesmo por ser assim.


“ Você sabe que eu me arrependo do que fiz, eu te disse isso a 3 anos atrás. Mas você não me deu uma resposta sobre meu pedido de desculpa, e agora você nem ao menos fala comigo ou me responde”


Sentado na ponta da minha cama e segurando seus dedos fortemente ele despeja tudo em cima de mim. De alguma forma isso me irrita e me deixa com raiva, como ele pode cobrar algo de mim?


“ O que você quer que eu diga? Seja bem vindo Yuta, você ferrou com meus dois últimos anos na escola mas é claro que podemos ser bons vizinhos ainda.”


Minha voz sai rouca e baixa pelo desuso e pela dor que atingia minha cordas vocais. Ele finalmente volta a me encarar, seus olhos ficam marejados.


Essa era uma das poucas coisas que tínhamos em comum, facilmente nos desmanchamos em lágrimas.


“ Eu senti falta de você, da sua voz. Você não consegue me perdoar? Faz 4 anos Taeil, por favor”


Sua mão para em cima do meu colo, e eu a encaro para depois voltar a olhar em seus olhos.


“ Você não pode voltar depois de tanto tempo e querer que eu faça parte da sua vida, você me deixou sozinho Yuta. Por anos eu fiquei sem um alicerce na minha vida. E agora não importa mais”


Eu segurava o quanto podia minhas lágrimas, já ele não se importava mais e deixava lavarem seu rosto. Eu sabia que estava doendo nele, mas também doía em mim, doeu por anos a falta da presença dele. Eu não sabia como era não sentir mais dor.


“ Eu me arrependo, isso vale alguma coisa para você?”


Meu peito ardia, e eu queria falar que eu o aceitava de volta. Só que não dava, não ainda.


“ Sim”


“Então me deixa fazer parte da sua vida de novo, por favor”


A droga dos olhos me prenderam novamente me deixando com a mente nublada outra vez, eu queria tanto poder ter ele novamente. Ter as noites em que deitavamos em minha cama para conversar, novamente. Poder ter alguém ali por mim.


“ Não posso” minha voz sai em um fio.


“ Porque não? Você não sente mais minha falta?”


Ele estava desesperada por algo, para uma confirmação de que eu sentia saudade.


“ Eu sinto, mas ainda dói”


“ Eu não vou desistir de você como fiz no passado”


“Porque não?”


É nesse momento que eu senti tudo parar, e aqueles sentimentos que eu trancava em meu peito explodiram.


“ Porque eu te amo”


Seus olhos me transmitem firmeza em sua fala, e eu só queria ficar sozinho. Ele me amava? Mas em que sentido?


“ É melhor você me deixar sozinho”


Digo sem segurança nenhuma, agitando meus pés embaixo da coberta, e segurando minhas mãos uma na outra com força.


“Tudo bem, pelo que eu me lembro sua mãe já deve estar chegando. Eu não vou desistir Tae, espero que saiba que estou falando sério.”


Então tudo ficou ainda mais estranho, se não bastasse admitir que me ama, ele teve a capacidade de antes de sair do quarto deixar um singelo selinho em minha testa quente. E isso bastou para que eu queimasse de vergonha, e meu coração quisesse sair para fora. Ele não podia fazer isso, chegava a ser jogo sujo.


[...]


Na terça feira minha rotina foi estabelecida novamente. Sentindo o famoso tédio se apossar de mim eu fui para a faculdade, o dia não ocorreu com muitas novidades ou mudanças.


Depois que voltei para casa fiquei zanzando pelo local, me sentindo ansioso por motivo nenhum.


Eu continuava revivendo a cena do Yuta sentado na minha cama falando que me amava. Eu estava quase voltando ao hábito de roer as unhas de tanto pensar nisso.


Foi a noite que o dito cujo dono dos meus pensamentos durante o dia todo, não que nos outros dias eu não pensasse nele, apareceu no meu campo de visão.


Não que ele tenha me visto, estava de costas para mim, saindo de casa e indo até um carro parado no meio fio.


Eu reconheci da janela do meu quarto que o modelo do carro era o mesmo do Doyoung, um de seus amiguinhos do ensino médio. E um perfeito babaca.


Ótimo ele diz não querer desistir de mim, mas está lá indo sair com o Kim. É claro que eu estava com ciúme, e já estava aceitando que tudo dito no outro dia foi da boca pra fora. Ele não deixaria sua vida com pessoas famosinhas para correr atrás de mim. Era patético eu ter por um segundo acreditado nisso.


De madrugada que um som de algo se chocando ao vidro da minha janela me acordou, e segurando na mão de Deus e pedindo pra não ser nada sobrenatural chegando para me assombrar que eu fui ver o que era.


Eu até tentei não sorrir ao ver Yuta voltando correndo para sua casa, ainda com a roupa de mais cedo, mas ele corria de uma forma muito estranha.


Olhei para janela vendo um papel grudado no lado de fora. Descolei o post-it suspirando antes de ler o que estava escrito com sua costumeira caligrafia impecável.


“Boa noite TaeTae, hoje não pude ir atazanar sua paz, desculpa por isso. Mas eu não desisti de você, caso tenha pensado isso. Enfim eu vi um filme triste hoje, mas não acho que seja mais bem vindo na sua cama. Espero que um dia possamos retornar a fazer isso.


Sinto falta da sua voz, mesmo que seja para me xingar ou gritar comigo, por favor me responda quando falar com você sim?


Durma bem Moon ♡”


Ergui meu olhar depois de ler não conseguindo segurar o sorriso ao ver o coração desenhado no final, eu sou a droga de um apaixonado, e encontrei Yuta escorado na sua janela de frente para a minha me olhando atentamente.


Ele sorriu radiante como costumava fazer, e foi impossível não corar. Segurei fortemente o papel entre meus dedos, e desmanchei o pequeno sorriso que adornava meu rosto. Não ia dar esse gostinho a ele.


Com um sinal para abrir a janela, que foi prontamente ignorado por mim que estava tentando não surtar e regularizar minha respiração.


Vi seu lábios se tornarem um bico e ele juntar suas mãos em súplica. Neguei com a cabeça, e dei uma aceno rápido antes de correr para cama e voltar a me deitar ainda segurando fortemente o papel na minha mão.  


Meu ciúme tinha relativamente diminuído mas ainda existia. Eu não gostava de Doyoung, e eles serem tão próximos me incomodava.


[...]


Quarta feira.


Meus pais tinham saído para ver uns amigos e eu novamente fiquei sozinho, o que me deixava extremamente feliz.


Ou deixou por um tempo, a partir das 22h comecei a sentir fome, só que não era uma fome de vamos ver o que tem na geladeira e comer, não. Eu queria comer o ramen da conveniência, feito lá, talvez até uma salsicha. Minha boca salivava em pensar no sabor.


E indo contra tudo que eu tinha como rotina eu coloquei um casaco e um tênis, pegando o dinheiro e o meu celular, sai. Depois de uns 4 meses sem sair de casa para nada além da faculdade, eu fui até a lojinha de conveniência para comer.


A distância até lá era relativamente longa, e durante esse tempo que levaria para chegar coloquei os fones de ouvido e me deixei levar pela música. Meus pensamentos sendo dirigidos diretamente para meu vizinho.  


Hoje pela manhã, ele me esperava na frente da sua casa quando sai para pegar o ônibus. Ele estava com um moletom e uma touca em seus cabelos, sorriu assim que me viu cruzar a porta e correu até mim.


“ Bom dia TaeTae”


Eu estava bem surpreso por ser 7 horas da manhã e ele estar ali sorrindo radiante como se fosse 2 horas da tarde.


“Bom dia”


Minha voz sai baixa quase num sussurro, e provavelmente minha cara estava com uma expressão de surpresa.


“ Vou te acompanhar até o ponto de ônibus”


E com isso ele se pôs ao meu lado e começou a caminhar. Eu ainda receoso continuei meu caminho um pouco encolhido em mim mesmo, o que não passou despercebido por ele. Assim como não passou despercebido por mim o aroma do seu perfume amadeirado, que fazia eu internamente gritar por querer enfiar meu nariz na curvatura bonita do seu pescoço.


Ele esperou comigo pelo ônibus em completo silêncio, o que eu agradeci pois não estava conseguindo lidar com apenas sua presença, sua voz seria demais para mim. E mais uma vez comprovei como Yuta me desestabilizava inteiro.


Antes de entrar no ônibus ele me desejou uma boa aula com seu sorriso radiante, e eu apenas sorri pequeno sem mostrar os dentes, e subi como um raio para dentro do coletivo.


Eu estava começando voltar a acreditar no lance de não vou desistir, o que era um problema pois eu podia novamente bater com a cara no chão.


A terceira música começava a tocar, nervous do the neighbourhood. Comecei a ver a loja onde iria deixar minhas moedinhas. Só de imaginar o gostinho do macarrão meu estômago doía de fome.


E era para ser apenas um pacote de ramen, mas acabei ingerindo um segundo além de um garrafinha de coca e uma salsicha empanada. Meu estômago estava devidamente cheio, eu sentia que mais um gole de água ingerido me faria vomitar tudo. Como sempre exagerei na hora de comer, e lentamente começava a me arrepender.


Voltando para casa retornei pelo mesmo caminho, porém ao cruzar pela praça notei algo diferente. Tinha pessoas lá que antes não estavam, e infelizmente reconheci eles, Doyoung, Johnny e Yuta.


Ver o cara por quem sou apaixonado durante 6 anos abraçado com um das pessoas que eu mais desgostava. Fez com que o gole de água faria. Meu estômago revirou de uma forma dolorosa. E antes que pudesse fazer algo estava vomitando em uma lixeira da rua.


As risadas altas aos poucos foram se tornando mais baixas, ao ponto em que tudo voltava pela minha garganta. O arrependimento de ter saído de casa me abatia com força.


A garganta doía pela bile, os meus olhos estavam lacrimejando, e minhas pernas estavam quase falhando em me manter em pé. Eu deveria ter comido algo durante o dia, mas minha única refeição foi a que estava sendo colocada para fora.


“Taeil!”


Ai que ótimo chamei a atenção de quem não queria, porque Deus não me poupa de certas coisas?


“ Ele ta bem?”


“ Ele parece bem Doyoung?”


“ Eu vou ajudar ele a voltar para casa, não vai dar pra ir na casa do Taeyong”


“ Tá bom, cuida dele ai”


Escorregando e segurando na lixeira consegui me sentar no chão gelado, apertando meu estômago e esperando ele parar de revirar como uma máquina de lavar.


Agora eu tinha a certeza que Deus me odeia.


“ Taeil hyung, está melhor?”


Uma mão foi posta em meu ombro, e uma garrafa de água surgiu no meu campo de visão. Com as mãos tremendo agarrei o litro, tomando devagar o líquido gelado.


“ Taeil?”


“Estou”


Meu estômago voltava a se acalmar, aí eu resolvi olhar para o garoto agachado do meu lado. E porra era ofensivo como ele conseguia ficar bonito de qualquer jeito.


“Quer ajuda para levantar, ou quer esperar mais um pouquinho?”


Eu não sei se ele tinha noção do que causava em mim, mas quando tomei um gole de água e uma gota escorreu pelo meus lábios eu senti a manga do seu casaco a secar calmamente. E apenas isso fez com que o coração idiota que eu possuía bater como louco.


“ Eu consigo sozinho.”


Não que eu tivesse muita certeza disso, mas segurando na mão da minha teimosia me pus de pé, e meio cambaleante comecei a andar para casa.


“ Não acho que você consiga chegar em casa sem que acabe caindo em algum momento.”


Eu também achava que não. Eu deveria começar a me alimentar melhor e parar de pular refeições, usando a desculpa para meus pais que já tinha comido quando nada além de água tinha sido ingerido.


“ É só ir devagar.”


Lentamente eu me movia. Eu não estava tonto, minha visão estava perfeita só sentia minhas pernas pesarem mais do que deveriam, e minha força que já não era muita ter desaparecido.


“ Deixa eu te ajudar.”


Senti suas mão no meu ombro e o calor do seu corpo muito próximo ao meu. E eu queria fingir que não era nada demais, porém apenas esse gesto fez eu estancar no chão.


“ O que está fazendo?”


Eu não tinha culpa de estar tão surpreso e indefeso nesse momento, era de conhecimento geral que Yuta já mexia comigo só estando perto, imagina me tocando.


“ Te dando apoio, porque?”


E para piorar seu rosto apareceu na minha frente, muito perto do meu. Mas muito perto mesmo. A cada segundo que passava eu respirava com mais dificuldade.


“ Não acho que precise”


“ Pois eu acho, vamos indo”


E delicadamente sua mão pressionou meu ombro me fazendo andar novamente. Nos primeiro minuto em que ele estava tão perto de mim, praticamente abraçando meu corpo, eu me concentrava em não parar de respirar.


Porque não bastava ele estar me tocando, sua mão ainda fazia círculos imaginários com seu polegar em meu ombro.


“ Você comeu algo que não fez bem?”


Eu vi algo que não me fez bem.


“ Eu acho.”


“ Você anda se alimentando direito?”


Suspirei, sem fazer questão de o responder. Ele saberia se eu mentisse.


“ Taeil, você precisa comer”


Não era segredo nenhum que desde a infância eu tinha surtos de baixa autoestima e fazia coisas idiotas para emagrecer. Mas não era esse caso agora, eu não comia porque tinha preguiça de fazer algo. E sempre que eu cozinhava depois de pronto minha fome passava e ficava a comida intocada na panela. Era frustrante.


“ Eu sei”


O que mais poderia dizer? Ainda não me sentia pronto para iniciar uma conversa decente com ele.


“ Ok, isso não está dando certo” de repente ele para e se move para minha frente, segurando em meus ombros e me prendendo em seus olhos.


“ Você ainda está receoso e pensando demais antes de me falar algo, e eu mereço isso, sei que sim. Mas será que podemos conversar e falar tudo que queremos um pro outro de uma vez por todas. Se não para continuarmos tendo uma relação apenas para seguirmos em frente?”


Como eu poderia negar algo a ele? Quando seu perfume chegava até minhas narinas e me embriagavam.


“ Ok”


Digo e ele sorri, e calmamente pega em minha mão me puxando rapidamente para andar mais rápido, não se importando que eu estivesse tropeçando.


“Yuta” tento reclamar da forma rápida que ele me puxava, e surge algum efeito porque ele desacelera porém continua me puxando para algum lugar, espero que minha casa.


.


No final não era minha casa, era a dele. O que eu achei um pouco estranho, esperava que ele me levasse para dentro a fim de conversarmos, mas não.


Ele me levou até o nosso lugar, atrás de sua casa tinha uma árvore imensa e como crianças clichês e fãs de filmes americanos, quando pequenos obrigados nossos pais a construírem uma casa na árvore.


Agora depois de mais de 10 anos, ela estava meio precária, um pouco destruída. O que me fazia ter medo de subir até lá, porém o fiz. Não estava querendo contestá-lo e minha curiosidade tava falando alto demais novamente. Então subi, com a ajuda do japonês.


A casa ficou pequena para dois adultos e um pouco sufocante, mas não comentei sobre isso. Me sentei em um canto e aguardei que ele começasse a falar.


“Então, vamos começar.”


Ele se arrastou no chão e ficou sentado na minha frente em posição de Lótus, nossos joelhos se tocando.


“ O que aconteceu com você? Digo nesses anos que estive fora.”


Desistindo de todas minhas resposta malcriadas ou alfinetadas, fui sincero.


“ Nada, eu não fiz nada, não aconteceu nada, Yuta.”


“ Então porque me parece tão sem vida, você não tem mais aquele brilho no olhar de antigamente.”


Eu não pensei que fosse tão difícil falar sobre isso.


“ Porque não existe mais aquele Taeil.”


Meus olhos começavam a lentamente arder, aquele incômodo na garganta estava surgindo.


“ E para onde ele foi?”


“ Não tenho certeza, ele se perdeu no caminho, provavelmente ficou na escola.”


De um modo indireto eu disse que ele foi um dos causadores do meu estado atual.


“ Desculpa, se eu não tivesse feito aquilo, seria tudo diferente não é?”


“ Seria, você não teria seus amiguinhos populares. Apenas eu.”


Seus olhos também estavam marejados, e a dor que eu sentia era parecida com a dele.


“ Eu deveria ter percebido que você era tudo que me bastava.”


“ Era mesmo?”


Eu tenho dificuldade em acreditar que sou importante é suficiente para alguém.


“ Taeil, você era o suficiente para mim talvez eu não fosse para você.”


Um risada escapou por meus lábios junto a algumas lágrimas. Doía demais falar sobre o ensino médio.


“ Não me fala isso para justificar o que fez.”


“ Não foi isso que quis dizer. Olha, na época eu realmente falei tudo por egoísmo, não era por você ser alguém melhor que eu. Era porque eu queria ser destaque em algo, e ser popular era um jeito.”


Eu não fazia questão de secar minhas lágrimas, apenas as deixava sair me encolhendo em mim mesmo, atrás de conforto.


“ Você me quebrou você tem noção disso?”


“ Eu tenho.”


Suas lágrimas também já saiam e seu nariz começava a ficar vermelho de um jeito adorável, e eu não queria o achar lindo ou que meu coração acelerasse tanto com ele perto. Mas estava acontecendo.


“ Você me deixou sozinho, e até hoje eu não tenho mais ninguém. Nenhum amigo, nenhum suporte. Eu estou perdido Yuta, desde aquela época. E cansei de tentar encontrar sentido nisso tudo, eu só quero que.....”


Me calo quando percebo o que eu vou dizer, e sei que ele também sabe bem qual palavra ia vir depois. Em um ato de desespero ele senta ao meu lado, com seu corpo ainda na minha direção segurando meus braços.


“ Não fala isso, por favor. Você não pode...”


“ Porque não? Porque eu deveria tentar fazer algo?”


“ Porque eu te amo, droga.”


Suas mãos caem ao meu lado e eu aproveito para esconder meu rosto em meus joelhos. Os soluços começam a sair descontrolados, doía demais.


“ Eu errei, e vou me arrepender pelo resto da minha vida. Todo dia longe de você foi horrível, eu sei que você sofreu muito mais que eu, e que eu deveria sofrer duas vezes mais. No entanto, eu voltei, voltei depois de anos eu sei. Mas não dava mais para ignorar o que eu sentia cada vez que meus pais tocavam em seu nome. Ou então quando eu via algo que o antigo Taeil ia gostar. Não dava mais para fugir de você.”


Levantei meu rosto encharcado de lágrimas, e fiz algo que mas tarde iria vir a me arrepender. Deitei meu rosto em seu ombro apertei seu tronco com meus braços, retornando a chorar quando meu coração acelerou e o seu perfume se impregnou no meu ser.


Eu sentia tanta a sua falta, falta dos seus abraços, que sempre eram apertados como se tivesse medo que eu fugisse ou desaparecesse. De como era a sensação de sentir seu coração bater contra meu peito, suas mãos acariciarem meus fios de cabelo. E principalmente do conjunto todo. Eu sentia sua falta por inteiro.


Era óbvio que depois disso ia ficar um pouco constrangedor, mas ele se empenhou em tornar mais ainda quando tocou meu rosto e acariciou minha bochecha, com seus olhos percorrendo meu rosto.


“Você me perdoa?”


“ Eu... sim, você não vai me trocar por alguém mais bonito ou mais famoso?”


Ele sorriu sem olhar nos meus olhos, pois eles estavam focados na minha...boca?


“ Não existe alguém mais bonito que você, e eu não me importo mais com popularidade ou com que pensam de mim. Faz um tempo que o que você pensa de mim se tornou mais importante do que as outras pessoas.”


Graças a deus seu olhar voltou aos meus olhos, porque quando estavam nos meus lábios me deixavam muito nervoso.


“ Mas você vai embora no final.”


Eu tentava me concentrar no que tinha que falar e arrancar as verdades dele, porque não podia ser abandonado novamente. Mas era tão difícil me focar com suas mãos acariciando meu rosto e sua respiração tão perto da minha face.


“ Eu não vou embora Taeil, no final das férias eu não volto pro Japão. Eu vou ficar.”


“Sua faculdade...”


“Eu transferi pra cá.”


“ Porque?”


Eu pergunto confuso, não me dê esperanças de ter sido o motivo. Ele sorriu mais largo ainda e retira sua mão do meu rosto.


“Acho que não está na hora de você saber disso.”


Que?


Pensando sobre o passado e tudo que aconteceu, eu sentia a dor do arrependimento socar meu peito. Umas das coisas que mais me arrependo na vida, foi ter machucado ele.


Eu era um completo idiota naquela época, colocando meu egoísmo na frente de tudo. Olhando minhas ações, Taeil realmente era demais para mim em qualquer sentido,na amizade ou então romanticamente.


Ele era realmente a luz na minha vida, com seus sorrisos brilhantes seus olhinhos pequenos, e sua voz calma que quando cantava me fazia o amar ainda mais.


Ainda é surreal como eu não enxerguei que o perder, seria como deixar uma parte minha ir embora. Eu lembro de toda dor, porque ainda dói.


Depois de tudo o ver pelos corredores da escola, ou então pelos canto da cidade, até mesmo pela janela do meu quarto, doía demais.


Às vezes na madrugada, nos dias que ele deixava a persiana aberta, eu ficava até perto das 5 horas o vendo dormir pela minha janela. Não que eu conseguisse ver muita coisa, mas sua silhueta era nítida em cima da cama. E saber que ele ressonava calmamente na outra casa me acalmava para poder dormir também.


Eu acho que só me dei conta de toda a intensidade dos meus sentimentos por ele quando cheguei ao Japão, porque na primeira semana eu chorava só de olhar pela janela do meu quarto. Ai eu entendi, entendi que o que eu sentia ia além de amor de amigos, que meus sentimentos eram também nas área romântica.


Que não o ter deixava uma parte em mim vazia, que eu precisava dele nem que seja para o ter apenas como vizinho. Aí reuni toda a coragem que tinha e voltei para Coreia. 


A primeira vez que eu o vi depois de anos, foi como se tudo girasse ao meu redor, ele estava distraído comendo um bolo em cima da bancada. Tão lindo. Seus cabelos estavam bem grandinhos e eu via seus olhinhos quase se fechando de sono. Meu coração estava enlouquecendo em meu peito, ele estava tão perto.


Mas fugiu de mim assim que me viu, e continuou tentando fugir até que hoje eu consegui ter uma conversa de verdade com ele depois de muito tempo e um peso saiu de cima das minha costas quando ele me abraçou, porque eu sentia falta do seu corpo perto do meu.


Depois disso ele falou que iria embora para casa, e eu deixei porque agora sabia que talvez eu pudesse retornar a invadir seu quarto e estaria tudo bem para ele. Mas não vou negar que me doeu ter que deixar ele sair dos meus braços, porque o que eu mais queria era poder ficar até o outro dia com ele na mesma posição o encarando e sentindo meu peito explodir com cada detalhes seu.


Estávamos recomeçando, e eu não me contentaria apenas com sua amizade eu queria ter ele por inteiro. Experimentar tudo com ele, senti-lo de todas as formas possíveis.


Na quinta Doyoung me chamou para ir na casa de Taeyong para fazermos o que no outro dia não pudemos, mas eu neguei. Neguei porque meu plano para esta noite era ver um certo garoto da casa ao lado.


Eu esperei ele desligar a luz do quarto para sair de casa e ir até a dele, com um pouco de dificuldade consegui escalar a parede e chegar até a janela.


Já lá dentro eu vi ele sentado na cama me encarando com seus pequenos olhos arregalados.


“Você me assustou”


Eu nunca me cansaria de sua voz, e como ela ficava adorável quando saia em um tom mais baixo. Me aproximei da sua cama e me sentei ao seu lado.


“Desculpa, você já comeu?”


“Comi sim.”


“Que bom”


Ele me encarava ainda surpreso, e eu só queria poder o encher de beijo, por todo seu corpo. Ele é simplesmente lindo demais.


“O que veio fazer aqui?”


“ Ver você.”


Ele sorri meio acanhado e se move para sentar perto da cabeceira da cama. Silenciosamente me coloco ao seu lado, e seguro sua mão entre as minhas.


“Como foi seu dia hoje?”


“Foi normal, eu acho.”


Seus pés não paravam quietos, mexendo de um lado pro outro. Esse garoto me faria infartar de tanta fofura.


“ E normal é bom?”


“ É só normal, não sei dizer se é bom ou ruim.”


Ele mantinha a cabeça baixa olhando para nossas mãos juntas, apertei um pouco a dele vi surgir quase um sorriso.


“ Você quer fazer algo amanhã?”


“Tipo o que ?”


Seus olhos voltaram para meu rosto, e por estarmos muito pertos eu conseguia ver nitidamente a cor dos seus olhos. A vontade de o beijar era imensa, sentir seus lábios nos meus e provar do gosto, acariciar seu rosto e o trazer para mais perto pela cintura.


“ Lembra que quando crianças ficávamos o dia todo vendo filme? Podíamos fazer isso.”


Toquei seu rosto com a palma da minha mão, acariciando a pele delicada dele, tão macia as bochechinhas gordinhas.


“ Lembro sim, tudo bem por mim fazer isso amanhã.”


Sorri, sentindo minhas bochechas quase rasgaram. Me inclinei para mais perto dele e por um segundo eu pensei em beijá-lo, finalmente colar meus lábios nos seus. Mas afastei essa ideia ao ver que ele estava um pouco receoso, ri e deixei um beijinho em seu nariz vendo ele o franzir e resmungar.


“Taeil, senti muito a sua falta.”


Me virei de lado ainda segurando em seu rosto com uma das minhas mãos, ficando mais confortável o olhar. Ele me imitou e escorou a cabeça na cabeceira me encarando com seus pequenos olhos, e um sorriso despontando em seus lábios.


“ Mesmo?”


“ Mesmo! Nunca mais vou sair de perto de você.”


Ele riu, e o som foi uma das coisas mais lindas que eu ouvi.


“ Um dia você vai, quando se casar com alguém não vai mais ter tempo para ficar vindo aqui no meu quarto a noite.”


“ Não se eu casar com você, e o seu quarto for o nosso.”


Ele arregalou os olhos e eu deixei minha risada soar pelo quarto.


“ Você precisa tanto ficar perto de mim, para se casar?”


“Você não imagina o quanto.”


Meu polegar ainda acariciava seu rosto, então eu senti suas bochechas esquentando, e isso me fez criar uma centelha de esperança para que algo fosse recíproco.


“Para de falar bobagem.”


Sua voz saiu sussurrada


“ Você está envergonhado? Hum, interessante Moon Taeil.”


Ele estapeou meu peito sorrindo acanhado. Talvez existisse uma esperança.


Com o tempo ele foi deixando sua cabeça tombar em um dos meus ombros e fechando os olhos. Cada ação dele fazia meu coração acelerar tanto. Envolvi meus braços em sua costas, o abraçando como podia, aproveitei para acariciar seus cabelos que estavam grandinhos.


“ Você quer dormir ?”


“ Quero.”


“Quer que eu vá embora?”


“Não.”


Um pouco alegre demais deitei o corpo do outro na cama e depois me deitei ao seu lado nos cobrindo. Fiquei encarando seu rosto, ele de olhos fechados, sua boca levemente aberta, e seus suspiros que saiam às vezes, beijei o canto de sua boca com calma e sorrindo logo depois.


Não lembro quando foi que eu caí no sono, só sei que foi enquanto encarava seu rosto.


◇◇◇


Ansioso era pouco para o que eu estava, meu coração tava fazendo aquela palhaçada de se jogar contra minha caixa torácica com força. Yuta estaria em poucos minutos ali para fazermos algo que a muito tempo não acontecia.


O dia dos filmes, tudo já estava arrumando para isso. Tinha colocado as almofadas e travesseiros que eu tinha no tapete do quarto, formando um lugar confortável e aconchegante.


Enrolado já em um cobertor com o controle remoto nas mãos, estava esperando o mais novo chegar enquanto olhava para a lista de filmes da Netflix.


“ Oi”


Yuta chegou pela porta sorrindo radiante.


“ Achou a porta dessa vez?”


“engraçadinho”


Sorri disfarçadamente sentindo ele se ajustar ao meu lado, continuei vendo os filmes que tinha.


“ o que vamos ver primeiro?”


“ O que você quer ver?”


“Amizade Colorida.”


O encarei, e ele sorriu depois mordeu os lábios. E eu tentei não prestar atenção nesse detalhe, mas foi difícil.


“ok”


No final, vimos o filme inteiro e começamos outro, simplesmente acontece. Todos escolhidos por ele, e eu comecei a desconfiar dos temas, todos eram sobre amigos que ficavam juntos. E isso mexia comigo, porque ontem ele falou que queria casar comigo, e hoje o tema dos filmes.


Um pouco iludido que isso poderia ser algo? Totalmente.


No final para o meio do filme, eu senti Yuta se mover inquieto. O encarei franzindo as sobrancelhas e fiquei surpreso em já ter a atenção dele em mim.


“ Tá tudo bem?”


“ Está sim.”


Voltei a prestar a atenção na estória, sentido seus olhos ainda me queimando.


“ Yuta, porque está me encarando?”


Perguntei, voltando a encará-lo e ele sorriu mas não me respondeu. Continuando correndo seus olhos por meu rosto.


“ Yuta!”


Eu estava impaciente com seu olhar fixado em mim, sem me dizer nada. Era intimidante ter seu olhar cravado em mim.


“Você fica lindo emburrado.”


Foi de imediato eu sentir as bochechas esquentaram, e instintivamente me encolhi tentando esconder meu rosto.


“Não esconde seu rosto não.” Ele riu e me impediu de o cobrir com uma almofada.


“ Para.”


Não tinha orgulho de estar soando como uma criança emburrado.


“ Garoto, você é lindo demais.”


Então um pequena disputa pela almofada começou, eu a puxando para conseguir esconder meu rosto e ele tentando a tirar a minha mão. Até que eu desisto e largo a parte que estava agarrando, sem a almofada entre nós eu percebo que estávamos muito perto, perto demais.


Confesso que meus olhos estavam totalmente focado nos seus lábios bem desenhados, que surpreendentemente estavam ficando mais próximos. Meu olhar se dirigiu para seus olhos, encontrando suas orbes escuras.


Acho que foi ambos que tiveram atitude de acabar com a distância.


Sentir seus lábios nos meus foi como uma explosão de cores na minha mente. Eu sentia aquilo que sempre imaginei, seus lábios se mexendo lentamente contra os meus, nossas línguas se entrelaçando enquanto suas mãos me puxavam para mais perto pela cintura ao mesmo tempo que ele se inclinava para cima de mim.


Mesmo querendo me entregar totalmente ao momento, de continuar sentindo o corpo dele em cima do meu. Eu me sentia inseguro e nervoso, eu estava com medo. E por isso parei de retribuir seu beijo o fazendo parar e me encarar.


“ Taeil, olha pra mim.”


Sua voz saia preocupada por eu estar com olhos fortemente fechados e a respiração pesada. Minhas inseguranças estavam voltando e a vontade de chorar estava cada vez mais forte.


“ Ei meu amor não chora.”


Nem percebi que já estava chorando, e que ele secava as lágrimas com seu polegar, abri meus olhos e encontrei seu rosto parado acima do meu.


“ Você não queria?”


Seus dedos continuavam secando minhas lágrimas, e eu achei fofo a forma que ele mantia seu corpo perto do meu mas sem encostar. Eu encarava através das malditas lágrimas os seus olhos, tentando achar respostas para as minhas questões.


“Porque..... Porque você me beijou?”


Peço em um fio de voz, ele também diminui o volume da sua.


“ Porque eu queria, na verdade eu quero a muito tempo já.”


Suspiro e aperto a barra da sua blusa que eu estava segurando entre as mãos, sinto seus dedos acariciaram meu rosto com cuidado me fazendo arrepiar.


Era inacreditável que eu tivesse beijado o meu vizinho, e que ele estivesse agora me olhando com tanto carinho. As coisas que eu via em seus olhos seriam reais mesmo?


Ele sela nossos lábios com ternura, e não vendo relutância mais por parte minha volta a me tocar, escorregando sua mão para minha cintura a embrenhando por baixo da camisa tocando em minha pele quente. Suspiro quando seus lábios voltam a tocar os meus, eu perco um pouco dos meus sentidos quando fixo meus olhos nos seus.


Era gentil a forma que ele tocava minha barriga com seus dígitos, e meu rosto com seus lábios. Fechei meus olhos e ofeguei quando senti meu pescoço ser marcado, tudo era tão bom.


Mandei a puta que pariu a voz que me dizia para parar. Pelo menos uma vez eu iria me deixar levar pelo momento e não ser tão racional.


Minhas mãos foram para sua nuca e eu puxei sua boca em direção a minha, sem relutância nenhuma sua língua adentrou em minha boca.


O filme continuava passando na televisão, a luz era pouca mas conseguia iluminar do corpo do Yuta sob o meu, me tocando como eu nunca fui tocado, me proporcionando as melhores sensações, e me arrancando gemidos quanto mais intenso ficava suas ações.


Sua pele nua colada na minha, seus gemidos sobrepondo os meus, seu rosto contorcido em prazer acima do meu, eu tentava encará-lo mas era demais para mim. Quando tudo terminou eu estava ofegante com ele ao meu lado, minha primeira reação foi me cobrir com o cobertor que tinha, me encolhendo em mim mesmo.


O que tinha acabado de acontecer?


Único som provinha da televisão e de nossas respirações ofegantes, eu tinha acabado de perder minha virgindade com meu ex melhor amigo? Ou melhor amigo?


Amigos não se beijam, amigos não transam, pelo menos a maioria não, e minutos atrás nós fizemos os dois. Meu lado idiota apaixonado se iludia achando que poderia significar algo, meu lado racional gritava comigo para me fazer acordar.


“Taeil.”


Me virei o encarando e corei ao o ver nu, o corpo dele era perfeito. Sua mão acariciou meus cabelos calmamente.


“ Yuta, o que aconteceu aqui? Porque nós ....”


“ Eu não queria dizer isso assim, deveria ser de um jeito mais romântico.”


Franzi minhas sobrancelhas em confusão, ele se levantou e começou a se vestir, se sentou na minha frente e me puxou para ficar sentado.


“Eu te machuquei?”


“Não.”


Sorrindo ele pegou meu rosto com suas duas mãos me deixando sem opção a não ser encará-lo.


“ Moon Taeil, o que eu vou dizer agora pode soar confuso para você ou até mesmo que esteja mentindo. Mas não estou, coloca sua mão aqui.” Ele apontou para seu peito e curioso demais a espalhei onde ficava o coração dele, o vendo sorrir.


“ Tá sentindo? Como ele bate mais rápido do que o normal? Isso só você consegue fazer. Você tem o poder de me deixar abobalhado, sorrindo como um idiota enquanto olho pela janela. Ou então de me fazer sentir um vazio enorme por não o ter mais na minha vida, durante esse tempo que ficamos longe meu me sentia perto de sufocar. Quando eu voltei e te vi foi como se o ar voltasse a entrar corretamente em meus pulmões, e por Deus ter você perto é maravilhoso. Resumindo o que eu to tentando te dizer é que durante a época que fiquei no Japão eu percebi que não sentia isso por ninguém além de você, que meu amor por meus outros amigos era diferente do que eu sinto por você, então eu estou tentando dizer que sou apaixonado por você a um bom tempo. E não querendo ser convencido ou arrogante sei que tem uma grande chance de ser recíproco. Então você pode ter certeza do que acabou de acontecer aqui não é o tesão falando, ou então algo de uma noite e que depois nunca mais vou tocar no assunto, não é desse jeito.”


Em minhas fantasias, onde eu imaginava alguém se declarando para mim minha primeira reação seria chorar como um idiota, mas não aconteceu eu fiquei apenas o olhando nos olhos e tentando ter certeza que aquilo era verdade. E era, Yuta estava sendo sincero. E por um momento eu fiquei feliz até sorri mas depois fiquei aterrorizado com a confissão.


“ Você tem razão, sobre ser recíproco eu amo você a muito tempo e não é como apenas amigos. Já faz um tempo que eu sei disso, mas o que acontece agora?”


“ Você quer começar um relacionamento? Ser meu namorado?”


“Eu não sou suficiente para você, eu sou apenas o Taeil.”


Doía dizer isso, mas o que eu poderia oferecer a ele?


“ Não diga isso, você é incrível. E eu amo cada partezinha sua, você é suficiente para mim e deveria ser para você também.”


“Eu não consigo pensar assim.”


Calmamente ele secou pequenas lágrimas que escorriam do meu rosto.


“ Vamos fazer o seguinte, sabe essa parte sua que fala que não é o suficiente para algo? Silencie ela, apenas agora, e me diga você quer tentar algo? Quer melhorar?Você me quer?”


“ Eu quero você...mas....” Ele me calou da melhor forma possível, selando meus lábios nos seus gentilmente.


“ Sem mas, agora como seu namorado,seu parceiro e seu amigo eu vou te ajudar a sair desse lugar obscuro que você está.”


Deixando beijos pelo meu rosto ele me fez rir um pouco, meu coração estava em êxtase mas minha mente ainda me pregava peças me colocando para baixo.


“ Não é fácil sair Yuta.”


“Eu sei meu amor, mas nós vamos conseguir por você, ok?”


“ Ok.”


Apoiei meu rosto em seu peito e ele envolve seus braços em mim.


“ Agora, é melhor tomarmos um banho quente. Vem eu te ajudo.”


Me coloquei de pé sentindo um incômodo na minha bunda, o que o fez rir e eu me envergonhar mais ainda, quando ele tentou tirar o cobertor do meu corpo eu o apertei mais.


“ Não quer tirar? Tudo bem, deixa eu te levar até lá, vai ser difícil caminhar.”


Me apoiei nele que se abaixou e me pegou no colo como se eu fosse uma noiva, isso até que era engraçado. No banheiro eu pedi pra ficarmos no escuro, ainda não tinha confiança para mostrar meu corpo na luz, o que recebi em resposta foi um selinho em minha testa.


“Taeil, você poderia fazer terapia, pode ajudar.”


Quase acabando o banho ele me solta essa frase. Eu já tinha pensado nisso várias vezes mas não tinha nenhum incentivo para querer ir.


“ Eu não sei onde ir.”


“ Se você deixar eu procuro para você.”


Encarei seu rosto que estava com os olhos fechados embaixo do chuveiro, sorri acho que pela primeira vez aproveitando dele estar aqui comigo sem nada me dizendo que eu não merecia ou que ele deveria pagar pelo que fez comigo. Com uma coragem que não me pertencia colei meu corpo no seu e o beijei como várias vezes imaginei, me entregando totalmente ao meus sentimentos que estavam guardados.


Com sorrisos entre o beijo, mordidas nos lábios, risadas quebrando o ósculo, e mãos acariciando a pele do outro o banho demorou por vários minutos.


Eu não tinha certeza que conseguiria voltar a ser a pessoa antes de tudo ocorrer, não sabia nem se eu queria ser aquela pessoa. Yuta estava de volta e me trouxe de volta a vontade de me reerguer, dessa vez eu não estava fazendo ele de pilar para reconstruir minha vida, ele estava me ajudando a ser eu mesmo o meu pilar. Eu estava ansiando pelo momento em que eu iria me amar, quando eu olhasse no espelho e veria a mais pura beleza que existia em mim.


Então foi naquela noite, deitado em minha cama sentindo o valor que Yuta me transmitia, e beijos serem depositados em minha pele que eu pensei que talvez eu pudesse voltar a ser feliz, que teria um dia que não existiria mais ódio por mim mesmo. Eu estava relativamente feliz, um pouco apreensivo mas feliz. Queria que tudo desse certo no final.



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