História Lost Girls. - Capítulo 37


Escrita por:

Postado
Categorias Camila Cabello, Fifth Harmony, Machine Gun Kelly
Visualizações 222
Palavras 4.084
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Orange, Policial, Romance e Novela, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


HEEEEEY ESTRELINHAS
Oi
Postando agr pq não sei se terei tempo amanhã aaaaaaaaa
Espero q gostem <3

Capítulo 37 - 34


Acho que já haviam se passado uns dez minutos desde que sentei em frente à Lauren, que estava sozinha hoje, e ainda não havia emitido som algum. Nenhuma de nós conseguia sequer encarar uma a outra. 

 

Não sei o que passava em sua mente, não conseguia focar meus olhos nos seus para tentar desvenda-la. Mas, em meu caso, eu não encontrava minha voz sequer para lhe dizer 'oi', ou lhe agradecer por me colocar em uma cela onde ninguém queria me bater e em um bloco distante das outras. 

 

Fazia três dias que eu não tinha nem ao menos sinal de Janet ou outras detentas. Eu passava a maior parte do tempo na cela, tentando não aparecer em outras áreas do presídio onde eu as pudesse encontrar, ou qualquer outra detenta que quisesse briga. 

O que também me lembrava que eu não conseguia encarar Lauren pelo o que contei a ela e a advogada dias atrás. 

 

Eu nem ao menos sabia como tratar desse assunto com ela, eu não queria que ela sequer soubesse sobre aquilo. Porque nem eu sabia como lidar com tudo aquilo. 

 

A primeira vez que aconteceu eu estava em minha cela e foi horas depois que impedissem que sete loucas me espancassem. Eu tentei sair, eu tentei gritar, eu tentei tudo até simplesmente notar que não havia para onde ir. E então depois, quando Janet saiu da cela e eu enfim me troquei novamente, eu lembro de chorar por horas seguidas. Já era noite e não havia a possibilidade de correr para o chuveiro. Eu tive que esperar até o dia seguinte para conseguir tomar um banho. E todas aquelas horas até o dia seguinte, eu senti meu corpo sujo, eu me senti suja. E em algum lugar da mente eu me sentia como que traindo Lauren, principalmente em vezes depois quando Janet era gentil e calma e onde eu deixava apenas meu corpo agir e sentir a porra que quisesse. 

 

Mesmo que eu não estivesse em um relacionamento com Lauren, mesmo após tudo que eu lhe disse, ela continuava em minha mente e eu me sentia traindo a ela ou a memória dela em mim, ou até traindo os sentimentos confusos em meu peito. 

 

Uma voz em minha cabeça dizia que não era minha culpa e eu não tinha uma escolha, mas ao mesmo tempo era difícil acreditar e realmente encarar o que acontecia de verdade. 

 

— Camila? — a voz suave de Lauren me tirou dos meus pensamentos e ergui meu olhar em sua direção — Oi — ela sorriu levemente. 

 

Não evitei um sorriso de nascer em meus lábios da mesma forma. 

 

— Hey — cumprimentei devagar, mordendo meu lábio em seguida — Veio sozinha — constatei o óbvio por Abby não estar ali. 

 

— Achei que já estava na hora de vir por minha conta — explicou, cruzando os braços um pouco na defensiva — Para falar de outra coisa, já que você está colaborando e estamos tentando reabrir o caso — completou em um tom quase nervoso. 

 

— Como o quê? — perguntei desconfortável, olhando ao redor e vendo outras detentas recebendo suas visitas do mês. 

 

— Nós — Lauren foi direta e eu engoli em seco, desviando meu olhar — Eu quero conversar sobre a gente, Camila — ela insistiu ainda calma e eu soltei um suspiro. 

 

— Não sei se é uma boa hora pra isso — fui sincera, voltando meu olhar em sua direção. 

 

— E por que não seria? — Lauren questionou confusa.

 

— Porque eu não tomei café da manhã e não sei se sabe, mas eu fico um porre quando não tomo café da manhã — respondi com bom humor, vendo seus olhos continuarem confusos por um segundo até uma risada sair de seus lábios no instante seguinte. 

 

— Acha que não é a hora pra conversar mas é pra fazer piadas? — Lauren repreendeu após alguns minutos, mas eu ainda via o sorriso em seu rosto. 

 

— Não é piada, eu dormi demais e não tive o café da manhã — expliquei dando ombros e achando tudo um pouco engraçado. 

 

Eu havia demorado a dormir, porque ainda não estava acostumada com os roncos de Bianca, então acabei passando da hora pela manhã. O que não me importo, refeitório era um lugar enorme e eu estava evitando todas as presas daquele lugar. 

 

— O quê me lembra que eu passei na casa dos meus pais — Lauren disse subitamente, tirando uma sacola do seu lado e empurrando na mesa em minha direção — Dona Clara disse pra te dar e dizer que logo vem te ver — avisou e eu sorri contente com a nova informação antes de olhar interrogativamente para a sacola — É comida, abre — Lauren contou e eu arregalei meus olhos. 

— Estou surpresa que aquelas chatas deixem alguma coisa passar — comentei me referindo as guardas, enquanto abria a sacola com um pouco de dificuldade pelas algemas nos pulsos. 

 

— Teve um pedágio de duas barras de chocolate — Lauren admitiu me fazendo rir. 

 

— Porra, não acredito! — exclamei surpresa ao ver panquecas e uma calda de chocolate em uma garrafa — Por Zeus, eu amo a Clara! — quase gritei de felicidade, sem demorar a comer. 

 

E ergui meu olhar ao ouvir a risada gostosa de Lauren. Ela tinha os olhos fechados enquanto praticamente gargalhava da minha animação por aquela comida. 

 

Eu senti falta de vê-la rir dessa forma por algo que eu disse eu fiz. E agora, os longos quase sete meses que eu fiquei sem ver isso, pareciam ainda mais longos e era quase difícil lembrar nitidamente de como ela me olhava após rir. 

 

Mas assim que ela abriu os olhos, eu senti como se fosse a primeira vez que a vi rir tão feliz, em nosso primeiro encontro no parque aquático e, ainda que tenha sido há mais de um ano atrás, eu acho que me sentia da mesma forma que naquele dia. 

 

Quis por um momento voltar naquele dia e fazer tudo diferente dali em diante. 

 

Eu não teria atendido nenhum dos telefones do meu pai.

 

Eu não teria ido o ver.

 

Eu teria ficado na festa de Lauren. 

 

E agora não estaria aqui. Ainda estaria com ela. Não teria a machucado de tantas formas. 

 

— É, agradeça a Clara por mim e diga que foram as melhores panquecas que comi em sete meses — me pronunciei depois de um tempo, ainda com um sorriso no rosto — E que mal posso esperar para vê-la — completei, tentando não voltar para o assunto Lauren e eu. 

 

— Irei dizer — ela garantiu enquanto eu ainda comia — Recebeu mais visitas? — perguntou interessada deixando de lado o assunto que eu temia. 

 

Agradeci mentalmente por isso. 

 

— Você, Abby, Mike e Clara — respondi dando ombros, me sentindo satisfeita e feliz após comer aquelas panquecas. 

 

— Ninguém mais? — ela perguntou mais baixo e eu ergui minha sobrancelha — Colson e seus outros amigos — explicou, fiz uma pequena careta, negando com a cabeça — Por quê você...

 

— Não acho que posso vê-lo — a interrompi, sentindo a angústia em meu peito — Eu o coloquei numa cama de hospital e não foi a primeira vez e dessa ele nem sequer acordou, ele ficou em coma Lauren — neguei com a cabeça, engolindo a saliva que se instalava em minha boca — Eu nem ao menos sei como o encarar — expliquei, molhando meus lábios e soltando um suspiro — E Sofia também aliás — falei de minha irmã, vendo seu olhar surpreso — Eu quebrei minha promessa à ela, não acho que posso a vê-la também — comentei, franzindo o cenho em seguida — E sobre os meus antigos amigos da escola, eles estão na faculdade segundo Clara, não quero atrapalhar a vida deles, definitivamente eles não precisam de um problema como eu — murmurei encarando a mulher na minha frente. 

 

— Você disse tanta merda que estou me questionando por onde devo começar — Lauren resmungou e eu até consegui soltar uma risada por aquilo. 

 

— Deixe as coisas assim por enquanto, por favor — pedi, notando como ela respirou fundo antes de acabar assentindo.

 

— Ok se não quer falar sobre isso — concordou me fazendo suspirar aliviada — Podemos falar de outra coisa — disse alguns tons mais baixo, o que me fez erguer a sobrancelha — Eu também vim aqui hoje porque Abby conseguiu as imagens das câmeras de segurança no mesmo dia que viemos aqui — Lauren contou e eu engoli em seco — Ela assistiu a um aleatório, o que foi necessário para ao menos te mudar de cela e bloco — explicou. 

 

— Obrigada por isso aliás — agradeci sinceramente.  

 

— Assumo que Penélope está sendo agradável — Lauren sugeriu e eu sorri assentindo. 

 

— Ela é quieta, um pouco assustadora de princípio, mas disse que você a visitou — ergui minha sobrancelha, vendo Lauren assentir devagar — Obrigada por o que quer que tenha dito. 

 

— Só a verdade — Lauren respondeu e eu sorri fraco, sentindo que aquilo também era para mim — De qualquer forma, Abby ainda está assistindo e analisando os vídeos — continuou, me deixando novamente tensa — Eu não assisti a nenhum, segundo Abby não seria certo, afinal somente ela é sua advogada, eu sou apenas... 

 

Sua voz morreu devagar, enquanto Lauren juntava suas sobrancelhas tentando achar alguma palavra para que referisse o que ela era ali. Ela não era mais minha namorada. 

 

Isso me incomodou por alguns segundos, então lembrei que fui eu quem causei isso. 

 

— Entendi — sussurrei, para que Lauren pudesse continuar. 

 

Me senti um pouco melhor por ao menos saber que Lauren não assistiu aos vídeos das câmeras de segurança. Porque por mais que eu soubesse que Janet tentava evitar as câmeras o máximo possível, outras detentas não se importavam.

 

E eu não queria que Lauren assistisse aquilo. 

 

— Eu só, digo, só queria entender, porra — ela xingou balançando a cabeça e eu franzi o cenho a vendo respirar fundo e me encarar — Por quê não me contou antes, Camila? — questionou seriamente. 

 

Desviei o olhar do seu, encarando minhas mãos e tentando pensar em uma resposta sem precisar olhar seus olhos que começavam a ficar marejados. 

 

— Você não precisava saber, Lauren — respondi baixo, erguendo meu olhar. 

 

— Como não!? Como eu não precisava saber disso!? — ela indagou incrédula, suas mãos se mexendo nervosamente — Eu sou a porra da tua...

 

Sua voz morreu novamente e eu a observei se conter enquanto fechava os olhos e respirava fundo. 

 

— Eu fui sua namorada — Lauren se corrigiu, voltando a me olhar — A pessoa mais próxima que você teve durante meses, por que não me contou que algo assim estava acontecendo? 

 

— Porque nós terminamos — murmurei em resposta, tendo seu olhar confuso — Nós terminamos porque eu me tornei alguém que você não pode confiar, Lauren. Porque eu te machuquei, porque eu queria você fora da minha vida, porque eu sentia vergonha de mim mesma ao olhar pra você e ver que eu causei inúmeros danos a pessoa que mais me amou — expliquei, tentando não me sentir tão emocional ao ponto de chorar e vendo Lauren mudar o olhar enquanto prestava atenção — Eu fui uma estúpida e ainda nem ao menos sei como me desculpar com você — admiti e respirei fundo, negando com a cabeça sentindo a vergonha e a culpa voltarem a mim — Depois de ter feito tudo aquilo, como eu poderia te chamar subitamente porque eu estava tendo que enfrentar algumas mulheres mais velhas e mais fortes que eu? — questionei retoricamente. 

 

E mesmo que eu tentasse me conter, senti algumas lágrimas em meus olhos. Porque eu pensei em chama-la no começo de tudo, afinal muitas coisas poderiam ter sido evitadas - antes mesmo de eu ter sido presa - se eu tivesse ao menos lhe chamado. 

 

Então enquanto eu era tratada como um puta por Janet ou Dani e levando socos de Tamisa a cada dez minutos, eu pensava em chamar Lauren. Principalmente nos primeiros meses, mas além de sentir como se estivesse a traindo, eu sentia que não tinha o direito de envolvê-la nisso. Não era certo expulsar ela da minha vida e chamar na primeira hora que não consigo me defender. Eu passei 17 anos da minha vida sem Lauren, e então passei apenas alguns meses a tendo como namorada e em seguida a expulsei e a machuquei. Achei então que o justo era passar os próximos quatorze anos sem ela também. 

 

Não aguentei nem um ano sem ver seu rosto. 

 

— Mas agora eu sei — Lauren disse firme sem tirar seus olhos do meu — Então me diga quem é, por favor — ela pediu mas automaticamente neguei com a cabeça. 

 

— Não, eu não posso — recusei, vendo seu olhar chocado enquanto meu coração batia acelerado pelo nervosismo — Desculpe Lauren, eu não...

 

— Não, não peça desculpas — ela balançou a cabeça, soltando um suspiro — Nisso você não tem culpa, então não faça isso Camz — sua voz soou mais mansa enquanto dizia meu apelido e me permiti sorrir fraco — Eu só queria saber quem é a culpada no caso aqui — completou em insistência. 

 

— Entende, eu não posso dizer — resmunguei, a vendo bufar frustrada — Porque eu sei que você faria algo ou diria para Abby tomar providências ou até Mike, e eu não quero ele saiba aliás — avisei claramente, vendo ela suspirar e cruzar os braços — E se algo acontecesse à ela, seria fácil saber que eu contei e se alguém souber que eu contei...

 

— Você sofre as consequências — Lauren seguiu minha linha de raciocínio soltando mais um suspiro enquanto eu assentia — Eu não irei insistir nisso agora, mas eu não vou esquecer e vou tratar da forma como se deve — completou seriamente. 

 

Parte de mim suspirou de frustração por ela simplesmente não esquecer essa merda. Mas outra parte se sentiu protegida. Tentei me agarrar a essa parte. 

 

— Teve problemas esses dias? — Lauren perguntou preocupada enquanto me analisava, provavelmente a procura de hematomas novos. 

 

— Não — respondi quase aliviada — Tenho ficado mais tempo na cela, evitando esbarrar com qualquer detenta — expliquei dando ombros — E, apesar de aparentemente ter problemas com meu pai, Penélope não quer me bater — completei ainda agradecida por aquilo.  

 

— Ela sabe que não é sua culpa todos os crimes de Alejandro e as coisas que ele causou à essas mulheres. Também sabe que te agredir não faria nada sobre isso — Lauren comentou sabiamente, um tom levemente rude ao dizer indiretamente sobre as mulheres que faziam isso. 

 

Pensei em um instante sobre o que Janet disse. Sobre arranjarem um jeito de meu pai ter conhecimento sobre o que acontecia. Sobre ele ter reagido agressivamente ao saber o que eu estava passando aqui. 

 

Senti minha língua coçar para questionar isso a Lauren. 

 

— Por sinal, antes que eu me esqueça, entre em seu antigo quarto na casa dos meus pais — Lauren interrompeu meus pensamentos e franzi o cenho. 

 

— Já voltou a ser o quarto de hóspedes? — brinquei divertida. 

 

— Na verdade está do jeito que deixou — Lauren respondeu, me deixando surpresa — Ok, nem tão do mesmo jeito já que Taylor entrou para roubar alguns livros do seu último ano — completou, o que me fez rir. 

 

— Eu não, quer dizer, não achei que...

 

— Eles estão te esperando voltar — ela me interrompeu novamente. 

 

Senti algumas lágrimas em meus olhos porque mesmo após tudo isso Mike ainda deixava meu quarto do mesmo jeito. Era a forma deles dizerem que eu ainda poderia morar lá se saísse daqui, que eles ainda me ajudariam com o que fosse preciso. 

 

Como eu sequer pensei que poderia seguir na vida sem eles? Clara e Mike eram mais meus pais que Alejandro. 

 

Sorri por essa constatação. 

 

Ouvimos a guarda avisar que o horário de visita estava acabando e suspiramos ao mesmo tempo. 

 

— E eu nem pude falar sobre o que queria — Lauren reclamou e eu me permiti sorrir. 

 

— Quem sabe outro dia — sugeri, sentindo meu rosto ruborizar ao ver seus olhos incrédulos — Não vou poder fugir dessa conversa pra sempre — expliquei dando ombros e a fazendo sorrir. 

 

— Ok, então eu tenho que ir. Volto com Abby, juro — prometeu e eu me limitei a assentir — Ah e, meio atrasado mas feliz ano novo — desejou em um tom suave, mesmo que o ano novo tenha sido dias atrás. 

 

E mesmo que Lauren estivesse aqui na minha frente, e eu sentisse minhas mãos algemadas me lembrando de onde eu estava, simple me senti na varanda do seu apartamento quando dissemos "eu te amo" pela primeira vez e nos beijamos enquanto os fogos explodiam no ar. 

 

— Feliz ano novo — respondi baixo, sabendo pelo olhar de Lauren que ela pensava o mesmo que eu. 

 

A observei se levantar devagar, apenas acenar antes de me dar as costas e sair dali. Senti falta do seu abraço. Senti falta de encostar em Lauren e sentir a maciez de sua mão entrelaçada a minha. 

 

Agora entendia porque cedi tão rápido após sentir seus braços ao meu redor no hospital, afinal passei meses em que qualquer toque de uma pessoa significava dor ou enjoos (as vezes os dois). Então quando Lauren me abraçou só sentido conforto. 

 

Queria sentir isso novamente. 

 

Respirei fundo observando seu corpo sumir antes de ser obrigada a me levantar e sair dali.

 

— Hora de ver a luz do dia, detenta — a guarda avisou, me guiando para o caminho até o pátio. 

 

Fiz uma careta involuntária, eu estava evitando esse lugar. Cheguei até a cogitar fazer alguma merda e acabar na solitária, mas eu sabia que não seria muito inteligente. Então apenas continuei andando, tendo minhas algemas soltas antes de ser empurrada para fora. 

 

Franzi o cenho ao sentir o sol em meu rosto e abaixei a cabeça, colocando as mãos nos bolsos da calça e tentando andar sem chamar atenção. Era um pouco estranho caminhar sozinha por ali enquanto todas as outras tinham seus grupos, ou companheiras de cela, ou até mesmo namoradas - que tinham sexo consensual - com relacionamentos sérios. 

 

Balancei a cabeça para afastar esses pensamentos e cheguei perto da arquibancada de cimento, que nada mais era do que uma escada de cimento enorme que dava para a parede e ficava em frente a quadra. Porém mesmo sendo de cimento para evitar que ficássemos atrás dela, ainda havia um espaço entre a parede lateral e ela. Perfeito esconderijo para ficar quieta. 

 

Já escapei de umas surras me escondendo ali. 

 

Então me sentei no chão, meus joelhos batendo no cimento a frente quando os dobrei, e minhas costas apoiadas na parede atrás de mim. 

 

E após alguns minutos me arrependi de não estar com algum livro ou qualquer coisa para passar o tempo. 

 

— Olha só as coisas que encontramos quando só queremos um cantinho pra fumar sozinha — arregalei meus olhos ao ouvir a voz que soava conhecida e em seguida sentir um chute em minhas pernas. 

 

— Porra, solta — xinguei, tentando me soltar quando senti mãos firmes me puxando para cima e me jogando para fora do meu esconderijo. 

 

Fiz uma careta quando fui levantada e jogada contra a parede. Gemi de dor e finalmente ergui o olhar, reconhecendo a detenta que tentou me socar novamente e foi impedido pelo trio de bruxaria. 

 

A detenta que teve o filho assassinado por meu pai. 

 

Ao mesmo tempo que a odiava, sentia pena por ela. 

 

— Hey — tentei sorrir e praticamente atravessar a parede. 

 

— Lembra sobre o que disse do meu filho!? — questionou irritada e eu a encarei confusa. 

 

— Eu disse que não fui eu quem o matou, apenas isso — me defendi, erguendo minhas mãos para tentar evitar os socos que viriam. 

 

— Mas teu pai sim, e eu vou garantir que ele saiba que dessa vez quem vai te mandar pro hospital sou eu! — ameaçou furiosa, fechei meus olhos instantaneamente me preparando pra dor que eu sentiria. 

 

Porém a dor não veio e sim xingamentos e resmungos da detenta. 

 

Abri meus olhos confusa e os arregalei ao vê-la no chão, bufando de ódio enquanto Penélope estava em pé, se colocando protetoramente em minha frente, os braços cruzados e a postura rígida, os olhos mais assustadores que já vi. 

 

— Sério Roxye!?  Agora deu pra proteger essa daí!? Já não bastasse Janet!? — a detenta reclamou do chão. 

 

— Ela é uma criança, se quer bater nela vai ter que passar primeiro por mim, alguém do teu tamanho — Penélope respondeu calmamente, enquanto a outra se levantava. 

 

— Pela chance de levar aquela dali pro hospital eu também te dou uns socos! 

 

Arregalei meus olhos ao ver que elas ajeitavam-se em uma postura de briga e senti meu corpo tenso, mas antes que pudesse reagi, outras mais puxaram meu braço. 

 

Encarei assustada a detenta que me puxava, mas relaxei ao ver minha outra companheira de cela. 

 

— Vem — Bianca chamou, me puxando mais forte para fora dali, conseguindo permissão para voltarmos a cela — Ei, está bem? Ela te machucou? — perguntou assim que me sentei na cama. 

 

— Não — neguei com a cabeça, começando a sentir meu corpo tenso, minhas mãos puxando a manga do macacão nervosamente. 

 

— Ei, eu não vou te machucar — Bianca disse baixo, se sentando ao meu lado, notando meu desconforto. 

 

Mas essa frase soava familiar. 

 

— Eu sei — respondi baixo, sem soltar as mangas da blusa, a frase saindo quase monótona dos meus lábios. 

 

Porque eu estava acostumada a dizer isso. Mesmo sabendo que eu seria machucada em seguida de algumas formas. 

 

— Camila? Certeza que está bem? — ela insistiu, tocando em meu braço. 

 

Me encolhi por puro reflexo. Tentando focar meus olhos na parede do quarto enquanto eu concordava com a cabeça, sentindo minha perna começar a balançar sem que eu pudesse controlar. Eu sentia minha respiração alterada e minha mente confusa. 

 

E eu só queria que essa sensação parssse. 

 

— Eu não entendo, ela não te bateu, Roxye e eu te tiramos de lá — Bianca resmungou e eu engoli em seco pelo tom de sua voz. 

 

— E é por isso que ela está assustada — ergui meu olhar ao ouvir a voz de Penélope e me encolhi um pouco mais ao vê-la entrar na cela lentamente — Ela não consegue nem ao menos dizer algo — continuou, senti meu estômago embrulhar por ela falar como se eu não estivesse ali, me deixando irritada. 

 

Mas ela estava certa, mesmo irritada eu não conseguia produzir som algum. Eu não queria falar, eu só queria que fosse rápido. Nada era de graça naquele lugar. 

 

— Espera, a gente livra essa criança de uma surra, e ela se assusta com a gente!? — Bianca reclamou um pouco mais alto e eu praticamente gemi de dor só por ouvir seu tom e a forma como me chamou. 

 

— Aquela detenta que estava sempre perto de você, Janet não é? — Penélope questionou, se abaixando na minha frente para olhar em meus olhos, me limitei a assentir com a cabeça, querendo cruzar meus braços mas segurando em minhas mangas para não fazer isso — Ela te livrara de algumas surras, não é? 

 

— Sim — murmurei a contragosto, mordendo meu lábio inferior. 

 

— Mas ela te obrigava a transar com ela por isso, certo? — perguntou um pouco mais baixo, respirei fundo antes de apenas concordar com a cabeça, me sentindo enjoada demais para falar. 

 

— Oh merda — Bianca xingou e rapidamente se levantou, saindo de perto de mim, franzi o cenho — Garota, eu não vou encostar em você assim — explicou, mas continuei sentindo meu corpo tenso e desconfiado. 

 

— Não somos assim — Penélope completou seriamente e observei as duas se afastarem e se sentarem na cama da mais alta. 

 

As vi longe de mim, relaxadas, sem se aproximarem para dizer que eu devia algo à elas ou como eu tinha que agradecer por terem me ajudado. Respirei fundo começando a sentir meu corpo relaxar, minha perna se estabilizar, mas ainda segurei as mangas do macacão um pouco nervosa. 

 

— Por quê me ajudaram? — consegui perguntar minutos depois. 

 

— Somos colegas de cela, defendemos uma a outra — Penélope respondeu calmamente, olhando para a mulher em seu lado que concordou com a cabeça. 

 

— Meu primeiro mês aqui Roxye impediu que algumas detentas abusassem de mim — Bianca contou e eu me mexi desconfortavelmente — E desde então defendemos uma a outra da forma que dá — explicou dando ombros — Digamos que Roxye é a força e eu a estratégia — completou e eu sorri fraco pela cara que a mais velha fez.

 

— E agora você também está nessa cela então é uma de nós, te ajudamos e você agradece por fazer o mesmo quando precisarmos — Roxye disse me encarando seriamente. 

 

— Ok — assenti devagar, conseguindo ficar ainda mais calma — Obrigada, aliás — agradeci, coçando minha nuca meio envergonhada do meu pequeno surto. 

 

— Não por isso — Penélope respondeu já distraída. 

 

— E, se quiser, debaixo da beliche tem alguns livros, pode pegar — Bianca ofereceu com um leve sorriso. 

 

Olhei por debaixo da cama e peguei um livro aleatório e acabei sorrindo surpresa ao ler o título. 

 

"Peter Pan by J.M Barrie" 

 

Minha história preferida. E ainda se tornou uma referência para me lembrar de Lauren. 

 

— Posso? — mostrei a Bianca que apenas deu ombros — Obrigada! — agradeci novamente, me sentindo muito melhor ao me deitar na cama e começar a ler. 


Notas Finais


E então?? @semiharmonizer


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