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História O Amor de Nicolas - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Capitulo II


Para Félix o amor era um sentimento que ele não compreendia muito bem, já que ainda não havia sentido em sua vida e muito menos sabia o quanto poderia significar. Lógico ele amava sua família, amigos e até mesmo Paloma que tanto o irritava. Mas não era desse tipo de amor que estavam falando, Paloma falava do amor tão romantizado nos livros que ambos liam, o sublime amor que nasce dentro do coração de um casal apaixonado.

Não havia como ele compreender algo que nunca havia tido e por essa razão, ele prontamente protestou com o pedido da irmã caçula.

- Não! Definitivamente não Paloma!! – Afirmava decidido após ouvir a história e o pedido dela. – Pode esquecer, não vou compactuar com sua loucura amorosa, peça qualquer outra coisa menos isso… isso é demais até pra mim.

- Félix porfavor eu... – Tentou argumentar, mas foi impedida antes mesmo de completar sua argumentação.

- Não vou servir de ponte que uni você e seu amor impossível.

Se houvesse uma lista de como decepcionar e enfurecer César, a situação que Paloma vivia com certeza estaria no topo ocupando o primeiro lugar e Félix não queria tomar parte disso tudo.

- Você entendeu errado, não vou pedir que faça outra vez. – Explicou-se.

- O que me garante? Sei muito bem como será... sempre haverá um último favor.

- Estou dando minha palavra que não vou pedir novamente.

- Isso é uma insanidade, se o papai descobrir não quero nem imaginar o que ele fará com você… e comigo também se ele souber que eu te ajudei na sua relação com esse rapaz.

- Bruno.

- Isso, o Bruno.

- Por favor, é importante para mim. - Ressaltou enquanto segurava a mão de Félix.

- Então você mesma devia ir. – Sugeriu. 

Afinal Félix concluía que se alguém tivesse de ser descoberto fazendo algo ruim aos olhos do patriarca da família esse alguém tinha de ser a própria Paloma já que o conflito era dela. No entanto ela voltou a explicar á Félix seus motivos de não poder ir.

A mais nova argumentou que o pai já estava desconfiado de suas saídas frequentes para visitar a avó.

- Sei que você percebeu também, afinal ele mandou você me acompanhar sempre que saio.

- E você quer colocar eu como alvo de desconfiança de nosso pai?

- Mesmo sendo muito injusto, papai permite que você saia para qualquer lugar sem questionar alguma coisa sequer porque você é homem. E foi assim com Cristiano, até ele se juntar com Amélie. O que eu quero dizer é que de você ele não vai suspeitar e nem questionar nada.

- Paloma você deve está confusa… não dá pra se apaixonar assim em tão pouco tempo, porque não esquece isso e segue com sua vida como se nunca tivesse cruzado o caminho desse rapaz. – Aconselhou tentando fazê-la mudar de ideia.

- Você acha que é fácil, eu já tentei esquecê-lo, mas não consigo. Félix, por favor. – Implorava com os olhos marejados. - Só dessa vez.

- Não. - Respondeu categórico.

Félix estava inflexível, ele sabia que o envolvimento de Paloma com Bruno acarretaria numa fúria enorme da parte de seu pai. E por mais que fosse gratificante vê-lo se decepcionar com os filhinhos de seus olhos, aquilo era ir longe demais até para Félix.

- Essa é minha resposta, assunto encerrado.

Félix se levantou e deu as costas para a irmã mais nova, mas antes dele chegar até a porta Paloma tentou mais uma vez.

- Por favor... Eu amo o Bruno. 

Félix fechou os olhos e respirou fundo, ela estava visivelmente usando todos seus recursos para convencê-lo.

- E isso deveria significar alguma coisa? - Perguntou friamente ao se virar para ela, Paloma ainda estava sentada em frente ao piano encarando suas teclas. - Eu posso não entender muita coisa, mas sei que só amor não é o suficiente para dá certo, você não é mais uma garotinha ingênua pra achar que sim.

Ela permaneceu calada.

- E eu sinceramente não entendo como você pode dizer que ama uma pessoa que conheceu em um trem há tão pouco tempo. - Félix a viu apertar os punhos. - Eu não consigo entender, não mesmo.

- Amor é suficiente e você não entende isso porque NUNCA AMOU alguém dessa forma Félix. – Ela finalmente explodiu. - Eu só quero que você entregue uma maldita carta. - Seu rosto estava coberto por lágrimas. - Eu não estou te pedindo muito.

Félix se demonstrou afetado pelo o que havia sido dito, ele mal conseguiu formular uma resposta.

E mesmo diante da raiva e da tristeza que sentia, Paloma se deu conta que estava descontando suas frustrações em quem não merecia.

- Me desculpe, eu não queria...

- Não tudo bem, é a verdade não é? Você tem razão, como eu poderia entender algo que eu nunca senti?

Paloma olhava arrependida para ele, havia passado os últimos minutos reclamando e desabafando com irmão sobre seu amor com Bruno ser impossível, que César nunca aceitaria e acabou por dizer que ele não a compreendia por nunca ter amado. Entretanto esqueceu-se de que se o irmão amasse alguém algum dia também seria impedido de viver livremente aquele amor. Era o peso que Paloma há pouco tempo tinha descoberto que Félix carregava nas costas.

Houve uma noite de festa na casa de amigos da família. Félix havia bebido mais do que devia, Paloma o ajudou a ir para o quarto. A maioria das coisas que ele falava era sem sentido, mas houve um momento naquela noite que ele começou a revelar para ela tudo o que sentia. Falou de seu desagrado com a atitude do pai em ter Cristiano como filho favorito, a dor de achar que nunca seria um filho bom o suficiente, e do desejo de ser feliz não do lado de uma mulher e sim de algum homem que um dia chegasse a amar.

- Félix eu...

- Não vamos falar sobre isso... – Interrompeu Félix. – vou fazer o que você pede, e depois disso nunca mais me peça algo assim.

- Não queria que fosse assim... – Afirmou desolada.

- Mas é o que você quer, eu vou fazer. - Ele andou até a porta, mas se virou para ela para falar uma coisa antes de ir embora. - Você pode fazer um favor por mim também?

- O que você quiser.

- Enxuga essas lágrimas, se arrume e tente parecer o mais feliz possível quando descer para o jantar, aparentemente eu dependo disso pra não ser castigado.


                        ♦


No dia seguinte a conversa com Paloma Félix acordou mais cedo do que pretendia, talvez por não ter tido uma noite de sono sossegado. Enquanto se remexia entre os lençóis procurando uma posição confortável que lhe fizesse voltar a dormir ele repensava se fora uma boa idéia ter cedido ao pedido da irmã.

Enquanto mergulhava em pensamentos Félix começou a escutar sons vindos da frente da casa, risadas mais especificamente. Se levantou e olhou pela janela do quarto e viu Cristiano e a esposa se divertindo com a filha no quintal que estava completamente coberto pela neve que caiu durante a noite.

Sabendo que não conseguiria voltar a dormir ele decidiu se arrumar e ir até eles. Ao chegar ensaiou uma piada para dizer que aquela gritaria estava fazendo seus ouvidos queimarem mesmo com aquele frio todo. Mas ao chegar do lado de fora Félix apenas se sentou na escada da enorme varanda e observou a diversão deles jogando neve um no outro. Quieto, pensativo.

“- Você não me entende porque nunca amou alguém dessa forma Félix.”

Paloma lhe disse muitas coisas na noite passada, mas aquela frase dita pela irmã era a única que ele não conseguia tirar de sua cabeça.

Para Félix aquele tipo de felicidade era algo distante, porém confessando ou não para si mesmo ele desejava sim amar e ser amado da forma como Paloma começou a amar Bruno e como Cristiano amava Amélie.

- Tio Félix vem brincar com a gente. - Sofie correu até ele assim que o viu, os cabelos loiros da pequena estavam cheios de neve.  

- Não meu docinho, quem sabe outro dia. – Recusou com um leve sorriso.

- Vamos, por favor. – Insistiu puxando-o pela mão, mas Félix permanecia inerte, pois tudo que menos queria naquele momento era sua roupa coberta de neve.

- O tio Félix tá indisposto, olha lá seus pais eles sim estão bem animados com a brincadeira.

A menina olhou os pais sorrindo e correndo feito duas crianças pelo enorme jardim. Sofie acenou concordando e apesar de triste por não ter convencido o tio a ir com ela foi se divertir com Cristiano e Amélie.

- Eu gosto desse clima assim... – Comentou Paloma se sentando ao lado dele, Félix mal a viu chegar. – É aconchegante, mas confesso que sinto falta das cores, da vida que há nelas.

Após o comentário de Paloma os dois permaneceram calados apenas observando o irmão mais velho brincar com a família. Talvez Cristiano fosse mesmo o mais afortunado dos irmãos, pensava Paloma, ele era feliz com quem amava e tinha a aprovação de César.

- As coisas parecem ser tão fáceis para ele não é?

- Ele age e pensa como nosso pai, deve ser por isso. - Disse Félix com a voz melancólica. - Às vezes eu queria ser como eles.

Paloma engoliu em seco, seu coração estava em pedaços, a culpa a corroía por dentro. Definitivamente suas palavras havia o magoado demais.

- Félix... me perdoa por ontem.

Félix continuou calado, sem olhá-la, não queria demonstrar que estava fragilizado pois odiava se sentir assim.

- Eu disse coisas que não deveria ter dito. - Continuava. - pressionei você a fazer o que eu queria e ainda o machuquei…

Ela pôs as mãos sobre o rosto.

- Não começa, eu odeio ver pessoas chorando na minha frente.

Paloma olhou para ele com os olhos marejados, Félix estava com uma expressão divertida.

- Sem chorar perto de mim porfavor o fiscal de lágrimas está logo ali na frente…

- Félix…

- Ou para ou eu não levo mais sua carta.

- Félix não precisa… - Disse enquanto enxugava o rosto.

- Paloma apesar de tudo que eu penso... – Disse a interrompendo. – eu vou fazer.

Apesar da ponta de felicidade por ver Félix disposto realmente a ajudá-la Paloma teve que perguntar:

- Porque essa mudança repentina?

- Você me disse ontem que amor é o suficiente para dá certo, eu quero ver isso com meus próprios olhos. 

Paloma o abraçou fortemente, aquela atitude pegou Félix de surpresa.

- Obrigado, isso significa muito pra mim…

- Eu vou fazer o que é melhor para você Paloma.



Félix se sentia um peixe fora d'água enquanto caminhava pelos corredores do trem a procura de Bruno, aqueles vagões selecionados para o uso das pessoas de classes mais simples eram muito diferentes dos que ele costumava frequentar em suas viagens. Eles não possuíam qualquer tipo de luxo, regalias ou pessoas dispostas a servi-lo a hora que quisesse, o cheiro era quase insuportável, a aglomeração era sufocante e havia sempre uma pequena batalha quando um assento era desocupado.

E quanto mais o tempo passava ali mais ele começava a ficar impaciente por não encontrar Bruno, sua aparência mais sofisticada estava chamando atenção demais e isso lhe incomodava.

"Será que ele veio?" Se questionava quando viu que estava chegando ao fim do último vagão.

Paloma havia dito que quando ela e Bruno não se esbarravam um no outro pelos corredores costumavam se encontrar no último vagão, era seu ponto de encontro, dizia ela sorridente. Pensando nisso Félix se pôs a olhar em volta com mais atenção, aquele vagão tinha menos pessoas que o anterior, porém ainda sim uma quantidade considerável, algumas delas estavam sentadas e outras se acomodando, mas ninguém se encaixava na descrição que Paloma havia lhe dado.

Bruno não havia chegado, teria que esperar, e para piorar ainda mais aquele dia que vivia, o clima não era dos mais agradáveis. Nevava com mais intensidade naquela tarde do que no dia anterior, o que parecia loucura alguém querer ficar ao fim do vagão na pequena parte externa do trem, mas Félix preferia assim.

Félix se apoiou com as mãos na grade de proteção, enquanto visualizava a rapidez com que as paisagens ficavam para trás com a velocidade que a locomotiva se movia, o barulho das rodas do trem percorrendo pelos trilhos era muito alto, nunca uma viagem de trem havia sido tão desconfortável. 

Os minutos se passavam, pequenos flocos de neve já começavam a fazer presença sobre seus ombros enquanto ele pensava no quanto mais aguentaria ficar esperando pelo amado de Paloma.

Alguém se aproximou e ele pode ver que era à sombra de um homem, Félix que já estava bastante estressado por ter tido que esperar tanto tempo se virou já reclamando sem nem ao menos ter a certeza de que era a pessoa que procurava.

- Já não era sem tempo, se ela não insistisse tanto eu sequer…

Félix se virou tão bruscamente que seu corpo parou bem perto do rapaz, as reclamações cessaram instantaneamente ao se deparar com um par de olhos verdes confusos.

Podia-se dizer que Félix esqueceu todas as palavras que conhecia quando o viu, em parte por perceber que ele não era quem pensava e também por estar tão próximo de um rapaz. Um rapaz deveras bonito.

Não saberia dizer ao certo qual dos motivos vinha em primeiro lugar e o que vinha em segundo, mas sabia que esses eram os motivos pelo qual ficou apenas o olhando sem conseguir dizer uma palavra.

Niko sorriu para ele e essa foi à deixa para Félix sair de sua breve hipnose.

- Me desculpe… eu pensei que fosse outra pessoa... – Sorriu desconcertado. - Você não é o Bruno ou é?

- Bruno? Não. – O loiro estendeu a mão a ele. - Meu nome é Nicolas, ou só Niko se preferir.

- Félix... Khoury. – Cumprimentou.

- Khoury? Como Paloma Khoury? - Perguntou empolgado.

- Sim, ela é minha irmã, você a conhece? - Questionou confuso.

- Sim, inclusive… - Niko olhou para a parte interna do vagão e depois para Félix novamente. - Vim encontrá-la aqui, ela veio com você?

- Não… - A cabeça de Félix estava a mil. - Espera um pouco, ela veio encontrar com você ou com o Bruno??

Niko coçou a cabeça pensativo, as explicações rasas de ambos estava deixando os dois confusos. O loiro se sentou na grade de ferro daquele pequeno compartimento que eles estavam, um ato corajoso pensava Félix, aquelas barras não pareciam nada confiáveis.

- Paloma e Bruno tinham um encontro aqui hoje, certo? - Falava enquanto estendia a mão para fora da pequena cobertura, podendo assim agarrar alguns floquinhos de neve. -  Bom ele não pôde vim, então eu vim em seu lugar para dar o recado dele para a Paloma.

- Um recado? Bom...

Félix retirou suas luvas, coisa que Niko observou atento e nem em seus maiores devaneios cogitaria fazer o mesmo com as suas. Apesar de achar uma época bonita o loiro não se dava muito bem com aquele tipo de temperatura, preferia dias mais quentes.

Félix pegou a carta de Paloma do bolso de seu casaco e estendeu para o mais novo.

- Vim entregar isto para o Bruno em nome da minha irmã… bom, ela mandou entregar diretamente a ele, mas se você veio em nome dele acho que posso confiá-la a você.

Niko assentiu com um leve sorriso.

- O amor e suas peculiaridades.

Antes de pegar a carta oferecida por Félix, Niko retirou rapidamente do bolso um envelope parecido.

- Deixa eu adivinhar, é do tal Bruno para Paloma?

- Aham.

Os dois sorriram.

- Então nós dois fomos feitos de carteiros?

- Acho que sim.

Eles trocaram as cartas e as guardaram, após isso Niko se voltou para a imensidão branca a sua frente. Ele tinha uma bela fisionomia, observava Félix, ele era o tipo de garoto que César não se importaria de ter como genro.

- Se você fosse o Bruno tudo seria mais fácil.

- Quê? Porque… - Olhou para Félix confuso.

- Por nada. - Desconversou. - Digo, eu queria falar pessoalmente com ele.

- Ahh...

Niko voltou seu olhar para a paisagem, eles passavam agora por um lugar cercado por árvores, tanto de um lado quanto do outro, a neve as cobria quase que por completo.

- Aconteceu alguma coisa com Paloma? - Questionou após algum tempo pensando na ausência da irmã de Félix.

- Nosso pai está de olho nela, ela saiu com muita frequência nos últimos dias o que o deixou desconfiado. Ele preza muito pelo nome da família, e não quer que ela de alguma forma faça coisas erradas.

- Bruno não gosta da situação como está, o que ele queria mesmo é oficializar tudo conversando com o pai de vocês...

- Não tem muito o que conversar com nosso pai, não é como se ele um dia fosse aceitar o Bruno como genro… - Félix colocou suas luvas novamente. - Paloma não sabe ainda, mas nosso pai tem conversado muito com um amigo que serviu no exército junto com ele, que convenientemente tem um filho da idade dela. Eu já vi essa história antes...

- Mas isso não pode acontecer, ela e o Bruno se amam isso não seria o bastante para o seu pai deixar as diferenças de lado e pensar na felicidade dela?

Nesse momento Niko ficou de pé em frente ao moreno. Ao contrário de Félix ele não parecia ficar desconfortável com tal aproximação. O encarava com um olhar ríspido, Niko parecia ser um grande cúmplice do amor de sua irmã com Bruno.

- Você e Paloma são amigos não é?

- Sim, porque a perrgunta?

- Vocês são bem parecidos, acham que amor é a solução de tudo, mas não é… - Afirmou sereno. - Amor não é o bastante.

- Sabe a Paloma me falou de você, achei que pensasse diferente do seu pai e irmão. - Disse com um certo tom de tristeza.

- Eu penso, pra mim tanto faz por quem Paloma se apaixona, mas não confunda as coisas, ainda assim sou realista. Essa relação é impossível de dar certo.

Niko cruzou os braços e o apertou perto do corpo, ventava mais forte naquele momento, o loiro não estava tão bem agasalhado quanto Félix. Ele se afastou e foi para um dos assentos vagos, o moreno o observava atentamente. Aquela atitude não parecia ser apenas pelo frio, ele aparentava de certa forma estar chateado.

- É perigoso continuar com esse romance… - Explicou Félix ao sentar do lado dele.

Niko escorou a cabeça no vidro da janela, parecia bem triste com a situação de Bruno e Paloma.

- Era isso que eu vim dizer ao Bruno. - Confessou.

Niko o olhou com atenção.

- Eu sou mais velho do que a Paloma e apesar de não termos a melhor das relações como irmãos, eu preciso cuidar dela. Se meu pai souber desse namoro, ele será capaz de matar o Bruno. Ele é um ex militar, não seria algo difícil.

- Seu pai é o que? Algum tipo de monstro sem coração? - Comentou horrorizado sem pensar muito se Félix se irritaria com tal comentário, afinal era seu pai apesar de tudo.

Félix apenas o encarou com um semblante neutro.

- Me desculpe falar assim, afinal ele é sua família... é só que...

- Tudo bem, eu te entendo. – Afirmou, ele mais do que ninguém sabia como era sofrer com as convicções de seu pai. - Acho que você tem direito de pensar assim. Mas o fato é que nunca vai dá certo, eles vão ter que continuar tendo encontros escondidos se quiserem se ver… E não durará por muito tempo, nosso pai não permitiria que Paloma ficasse "solteira" para sempre.

- Bruno não gosta nada da ideia dos encontros escondidos, inicialmente ele pensou em pedir permissão ao pai de vocês, mas Paloma não deixou. Disse que primeiro queria preparar o pai para a notícia de que estava namorando Bruno.

- Preparar nosso pai? - Perguntou Félix perplexo. - Paloma bateu com a cabeça ou que? Não há o que argumentar a resposta dele sempre será não.

- Sei que seu pai considera Bruno inapropriado para Paloma por conta da diferença social da família dele para a sua, mas Bruno é um rapaz esforçado, trabalhador e ama sua irmã de verdade…

- O quê? diferença social? - Félix estava em um misto de confusão.

Enquanto Niko fazia um discurso interminável sobre o amor não ter classe, que dinheiro é importante, porém não o mais importante para um relacionamento dá certo, o moreno foi percebendo a situação que Paloma havia criado.

- Espera… espera um pouco. A Paloma não contou?

- Contou o que?

- Sobre tudo.

- E tem mais alguma coisa?

Félix estava sem acreditar, Paloma estava escondendo o real motivo.

- Então Bruno acha que dinheiro é o problema e que é isso que os impede de ficarem juntos?

- Sim... – Respondeu Niko intrigado com aquela pergunta.

Félix estava estarrecido demais para falar qualquer coisa, Niko estava com um mal pressentimento.

- A Dona Bernarda disse que ficaria do lado da Paloma caso ela quisesse enfrentar o pai… - Comentou Niko.

- Vovó sabe dessa história? Desde quando? - As surpresas não paravam.

Niko ficou calado, percebeu que estava falando o que não devia. Se Paloma não havia contado para o irmão era porque não queria que ele soubesse do envolvimento da avó no assunto.

- Me desculpa, pensei que soubesse. É melhor eu fechar minha boca.

Félix riu de sua próprio desatenção, como não havia percebido antes?

- Não poderia ser de outra forma, não sei como não me dei conta. Paloma jamais teria tanta coragem de manter esse relacionamento às escondidas de nosso pai se não fosse com apoio de alguém.

- Eu e minha boca grande. –Niko recriminava a si mesmo.

- Quer saber vou aproveitar a viagem e visitar a dona Bernarda. – Afirmou Félix. - Ela tem muito o que me explicar.



Félix se despediu de Niko e saiu apressado, mas o loiro não deixou por isso e foi atrás dele.

- Ei espera. - Niko o chamou mas Félix não o ouviu. - Tudo que eu tinha que fazer era só entregar a bem dita carta… - Recriminou-se enquanto corria até o moreno.

Niko não pode evitar segui-lo, estava preocupado com o que Félix iria falar com a avó e temia que sua atitude pudesse prejudicar ainda mais a relação de Bruno e Paloma. Além do que ele se sentia culpado por ter falado demais.

Atado em seus pensamentos Félix não percebeu que Niko se aproximava dele.

- Você não vai discutir com sua avó ou algo assim vai? – Niko se pôs na frente de Félix e colocou a mãos em seus ombros o fazendo parar. Apesar da tensão em que estavam seu toque era gentil.

- Pensei que havia ficado no trem e seguido viagem.

- Não desvie do assunto. - Niko cruzou os braços para amenizar o frio que sentia.

- Está mal agasalhado sabia? - Félix se desviou dele e começou a andar novamente.

- Não ignore minha pergunta. Por favor. – Pediu sutilmente.

Félix olhou para ele e viu que os olhos verdes transbordavam preocupação, parecia até que o moreno seria o sopro que desmontaria seu castelo de cartas.

- Não falarei nada demais, só quero conversar, pois acredito que Paloma não foi tão transparente como pensei.

- Só isso?

- Sim!! O que mais haveria de ser?

- Nada, só queria ter a certeza.

Félix estranhou ele ter aceitado tão facilmente sua resposta, uma vez que geralmente lidava com pessoas que desconfiavam sempre de sua palavra. 

Com o passar dos minutos deles caminhando lado á lado o moreno realmente se perguntava a cada quadra que passavam quando Niko tomaria um rumo diferente do seu. Mas o loiro continuava andando perto dele e não dava nenhum indício de que pretendia se afastar.

- Sua casa fica nessa direção? – Questionou, pois já não faltava muito para chegar a casa de Bernarda.

- Não. – Respondeu.

Após aquela resposta Félix finalmente entendeu o que ele pretendia fazer.

- Você não vai...

- Vou acompanhá-lo até a casa da sua avó Félix. – Disse com um sorriso afetuoso.

Félix havia acabado de conhecê-lo porque que com ele seria diferente? Nem mesmo sua família confiava em sua palavra porque um estranho confiaria?

- Foi ingenuidade minha pensar que você acreditaria em mim.

- Me desculpa… Não quero que pense que desconfio de você... - Niko parecia mesmo triste com a situação. - Mas eu não posso simplesmente chegar em casa e dizer pro Bruno que eu criei um caos e fui embora. Mas… se você realmente não quiser minha presença, eu não vou.

- Quer saber, você pode vim.

- Você não se importa que eu vá? – Questionou surpreso já que esperava uma reação diferente.

- Pensando por outro lado será bom você ouvir o que eu minha avó vamos conversar.

Da estação até onde Bernarda morava não era tão longe, porém não chegava a ser perto, ainda teriam alguns passos pela frente. Enquanto caminhava Félix podia perceber a diferença entre o bairro que morava para aquele, a avó nunca foi uma mulher de se encantar por muito luxo por isso preferia morar em um lugar mais simples.

Pessoas indo e vindo, algumas conversando em frente á suas casas, crianças brincando e correndo pelas ruas, nem mesmo a neve caindo sobre suas cabeças as impedia de praticar seus atos cotidianos, coisa que pouco se via onde morava, sua vizinhança tendia a ser bem reservada até em climas mais convidativos. 

- Você parece saber bastante sobre mim e minha família… – Indagou Félix. - Paloma deve ter contado muitas coisas, aquela lá adora falar…

Niko sorriu.

- Paloma é uma pessoa adorável, eu adoro conversar com ela.

- Eu pareço estar em desvantagem aqui já que não sei nada sobre você.

- Sobre mim? - Perguntou surpreso, Félix estava interessado em saber sobre sua vida?

- Sim.

- Não há muito o que dizer sobre mim. - Afirmou desmotivado.

Paloma já havia falado tanto sobre os irmãos e sobre a família para Niko: as viagens, a infância, as tradições, as festas... Félix era um rapaz que já experimentou e viu coisas fantásticas o que poderia haver de interessante em sua caótica vida para lhe chamar a atenção?

- Tente! – O encorajou.

- Bom, eu nasci aqui mesmo em Berlim e vivi aqui até os meus... 14 anos eu acho… - Dizia pensativo. - Quando meu pai recebeu uma boa proposta de emprego na Polônia, país onde ele nasceu, nos mudamos para lá, morei na cidade de Varsóvia por uns 4 anos e meio.

- Varsóvia? A que chamam de "Paris do Norte"?

- Sim… - Respondeu sorrindo, Niko tinha boas lembranças da época que viveu com os pais lá. - É considerada uma das cidades mais bonitas do mundo. - Contava animado.

- Parece um lugar bom pra visitar.

- É sim… Era tão bom viver lá.

- Se era tão bom porque voltou?

- Alguns problemas aconteceram e eu tive que voltar pra Alemanha e comecei a morar com meus tios.

Félix percebeu que seu semblante carregava um pouco de tristeza, os motivos de sua volta não parecia ser algo agradável para se contar.

- Espero um dia poder visitar a Polônia, eu já viajei por muitos países e esse seria uma boa opção pra próxima vez. - Afirmou Félix tentando mudar o rumo da conversa.

Niko acenou sorrindo entendendo o que ele estava fazendo.

- É uma ótima opção.


 


Após a pequena conversa não demorou muito para os dois chegarem a casa de Bernarda. Era uma casa modesta.

Ao abrir a porta, a simpática senhora não soube disfarçar a surpresa de ver o neto acompanhado de Niko. E antes de qualquer abraço que pudesse acontecer Bernarda olhou para o loiro que fez um gesto com a cabeça, estavam se comunicando de um jeito que só eles entendiam.

- Estão mentalmente armando um plano para me ludibriar com mentiras? - Brincou.

- Nada disso… - Bernarda abraçou o neto. - Sei que você é esperto demais para conseguirmos tal feito.

Após abraçar Niko, Bernarda os convidou para entrar.

- Eu estava me preparando para tomar meu chá da tarde sozinha, mas já que chegaram me fazem companhia? – Perguntou ela com a feição alegre.

- Claro vó.

- Será um prazer dona Bernarda.

- Então venham, venham.

Bernarda apontou para o sofá e Félix logo se sentou enquanto Niko se prontificou a ir na cozinha ajudá-la a trazer o jogo de chá para a sala.

- Me desculpe dona Bernarda, eu falei demais e ainda coloquei a senhora nessa situação. - Niko lamentou assim que ficou a sós com ela.

- Não se martirize assim.

- Se eu tivesse ficado calado…

- Essa era uma situação que eu sabia que minha neta não conseguiria levar às escondidas por muito tempo. - Bernarda o confortou. - Nada disso é culpa sua.

A mãe de Pilar arrumou as últimas xícaras na bandeja.

- Agora vamos voltar, se demorarmos muito meu neto vai pensar que fugimos.

Niko adorava o jeito divertido de Bernarda, nisso ela e Félix se pareciam. Não fazia muito tempo que Paloma o havia apresentado a ela, mas o loiro já sentia um enorme apego. Ela havia se tornado como uma avó para ele também.

- É uma surpresa te ver novamente Félix. – Disse Bernarda assim que chegou à sala. - Não é do seu feitio me visitar dias seguidos.

- Me desculpe por isso vó, estou em falta com a senhora.

- Sim está, seu irmão nem se fala... Paloma é a única que me visita com frequência.

- A pouco soube que não era com tanta frequência assim. - Disse em tom sarcástico.

- Entendo. - Bernarda sorriu.

Niko a ajudou a se sentar e se pôs ao lado dela no sofá.

- E a senhora ri vovó?

- E o que eu deveria fazer?

- Colocar juízo na cabeça de Paloma é um bom começo.

- Paloma é uma moça crescida, o erro não é dela de ter se apaixonado, se seu pai não fosse um autoritário preso em costumes e ideologias desumanas nada disso seria um problema.

Niko observava os dois com atenção.

- Porfavor vovó… - Félix se levantou e começou a andar enquanto falava. - a senhora sabe muito bem que ele é assim e não vai mudar, Paloma insistir nesse relacionamento será uma perda de tempo que poderá custar caro.

- E o que sugere? Que ela se submeta às regras dele?

- Enfrentá-lo seria loucura…

- César não pode impedir sua irmã de ser feliz por conta de visões distorcidas...

Félix se sentou, tomou um gole do chá e refletiu mais um pouco sobre o que Niko havia lhe dito quando estavam no trem e o que a avó havia dito agora pouco.

- Paloma não está só mentindo para papai, você sabe disso? - Félix era um homem inteligente, atencioso, bastava apenas algumas peças e ele conseguia montar todo o quebra-cabeça. - Ela está mentindo para Bruno também.

Niko mudou o semblante e chegou quase a se engasgar com o chá que tomava quando ouviu aquilo de Félix. Tentou imaginar sobre o que Paloma havia mentido para Bruno mas nada vinha a sua cabeça.

- Paloma me pediu que entregar uma carta á Bruno, e eu disse que entregaria. Mas não vou mentir, meu propósito em ir ao encontro dele era outro. Queria convencê-lo a esquecer minha irmã.

- Porque faria isso? - Na cabeça de Niko só se formavam mais e mais perguntas. – Será que o seu pai não pode enxergar que o amor vai além de classes sociais?

- Está vendo. - Disse Félix apontando para Niko. - É disso que estou falando.

Bernarda baixou o olhar.

- Ela está escondendo o verdadeiro motivo deles, Bruno não tem noção do problema que está lidando.

- Sobre o que você está falando? Com o que ele está lidando? - Niko começava a ficar extremamente preocupado.

- Meu pai é adpto do antissemitismo… - Félix foi direto ao ponto. - Paloma se apaixonou por Bruno, mas soube que esse amor era impossível a partir do momento que descobriu que ele é Judeu. Esse é o real motivo de eles não poderem ficar juntos, a diferença financeira foi só uma desculpa que ela inventou para não contar o motivo verdadeiro. Bruno sendo quem é, ela pode chorar, se ajoelhar, implorar ou até mesmo tentar fugir, mas não adiantaria nada. Nosso pai tem muita influência na cidade e de alguma forma acharia ela mais cedo ou mais tarde, para ele isso seria questão de honra. Para ser mais específico e direto, nosso pai preferiria ver Paloma morta do que com alguém como Bruno. Então imagine o que o senhor César Khoury não faria com o próprio Bruno.



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