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História O diário de George Nicolson - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Capítulo 1


Domingo, 23 de agosto.

Meu quarto.

Chove.

10:00

Papai convidou tio Eddie para visitar a gente e, é claro, os dois tiveram de vir até aqui para meter o bedelho na minha vida. Se o tio Eddie (que é careca como uma bola de bilhar - aliás, como duas bolas de bilhar) me disser mais uma vez que "é dos carecas que elas gostam mais", eu me mato. Ele parece não notar que eu não uso mais fralda. Dá vontade de gritar para ele: "Eu tenho catorze anos, tio Eddie! Minha maturidade está em ebulição, eu uso cueca tamanho G! Tudo bem, ela ainda fica meio larga na parte de trás e um dos lados sempre entra na minha bunda quando corro para pegar o ônibus... mas o potencial gay está aqui, seu ovo careca!"

Por falar em bunda , fico preocupado em acabar como o resto das pessoas da família da minha mãe, com os glúteos muito grandes, parecendo até uma formiga ou algo do tipo. A minha mãe mal consegue passar entres o espaço da mesa e o armário. Não é nada atraente. Eu quero ser um pouco bundudo, mas sem exageros. Por exemplo, não quero ficar como o Doug Fallang. Levei o maior susto no vestiário depois do último jogo de hóquei do trimestre. A cueca dele parece duas sacolas de compras. Desconfio que ele tenha algum desequilíbrio hormonal pois é grande demais pra idade. O desequilíbrio com certeza existe quando ele corre para pegar a bola. Achei que ele ia atravessar a grade de proteção da quadra, tal o impulso de seu "popotão-guandão", como diz Jas, fazendo todos nós morrermos de rir.

AINDA NO MEU QUARTO.

Ainda chove

Ainda é domingo

11:30

Não sei por que não posso ter uma chave na porta do meu quarto. Não tenho privacidade, é como se eu estivesse no Big Brother. Toda vez que sugiro alguma coisa aqui em casa todo  mundo começa a sacudir a cabeça e a fazer "tsc, tsc, tsc". É como viver numa casa cheia de galinhas vestidas de calças ou saias. Ou uma casa cheia daqueles cachorros que balançam a cabeça, ou uma casa cheia de... deixa para lá... Eu não poder ter uma chave na porta do meu quarto é o menor dos meus problemas.

- Por que não? - perguntei calmamente a minha mãe (pegando-a num dos raros minutos em que ela não estava nas aulas noturnas de italiano ou em mais outra festa).

- Por que você pode sofrer algum acidente e a gente não vai ter como entrar - respondeu ela.

- Acidente de que tipo?

- Bem, você pode desmaiar.

Foi aí que o meu pai entrou na discussão.

- Você pode tacar fogo na sua cama e ser sufocado pela fumaça.

Qual é o problema dessa gente? Eu sei por que eles não querem que eu tranque minha porta. É porque esse seria o primeiro sinal de que eu estou ficando adulto e eles não aguentam essa idéia porque isso significa que vão ter que cuidar de suas próprias vidas e me deixar em paz.

DOMINGO AINDA

11:35

Há seis coisas erradíssimas na minha vida:

1. Tenho uma daquelas espinhas internas que nunca vai estourar e conservará seu vermelhidão durante os próximos dois anos.

2. Essa espinha está no meu nariz.

3. Tenho uma irmã de três anos que talvez tenha feito xixi no meu quarto.

4. Dentro de catorze dias acabam as férias de verão e aí voltarei para o Stalag 14 e para a Oberführer Frau Simpson e sua turma de "professoras" sádicas.

5. Eu sou muita feio e preciso ser internado num asilo para gente feia.

6. Fui a uma festa vestido de azeitona recheada.

11:40

Está certo, é isso aí. Vou virar a página. Achei um artigo na GQ da minha mãe sobre como ser feliz quando se é infeliz (o que eu sou). O artigo se chama "Segurança emocional". O que você precisa fazer é Rememorar... Reviver... e se CURAR. Assim você pensa numa experiência dolorosa e se lembra de todos os detalhes terríveis... essa é a parte do "Rememorar", depois você revive as emoções, as aceita e aí você SIMPLESMENTE SE LIVRA DELAS.

14:00

Tio Eddie foi embora, graças a Deus. Ele perguntou se eu queria andar no carrinho de carona de sua moto. Será que todos os adultos são do planeta Xenon? O que ele queria que eu dissesse? "Sim, com certeza, tio Eddie, eu gostaria de andar no seu carrinho de antes da guerra e, com um pouco de sorte, todos os meus  amigos irão me ver com um cara careca e pirado, o que será o fim da minha vida. Obrigado."

16:00

Jas veio até aqui em casa. Ela disse que levou séculos para conseguir despir sua roupa de gata depois da festa à fantasia. Eu não estava muito interessado mais perguntei porque isso tinha acontecido por pura educação.

Ela explicou:

- Bem, é que o garoto atrás do balcão da loja de aluguel de roupas era um gato de verdade.

- E aí?

- Bem, aí eu menti sobre o meu manequim e peguei uma fantasia tamanho trinta e oito em vez de quarenta.

Ela me mostrou as marcas em volta de seu pescoço e da cintura; estavam bem fundas. Eu disse:

- Você parece estar com a cabeça meio inchada.

- Não, é apenas o domingo.

Contei a ela sobre o artigo da GQ e depois passamos algumas horas rememorando à festa a fantasia (i.e., a experiência dolorosa) e revivendo as emoções para nos curarmos dela.

A culpa toda é de Jas. Pode ter sido minha a idéia de ir de azeitona recheada, mas ela não me impediu como deve fazer uma amiga. Na verdade, ela pôs lenha na fogueira. A gente fez a fantasia de azeitona recheada com tela de galinheiro e papel crepom verde - isso para a parte da "azeitona". Tinha pequenas alças para prender no corpo e eu pus uma camiseta verde e calças de malha verde por baixo. Foi com o "recheio" que Jas ajudou mais. Pelo que me lembro, foi ela quem sugeriu que eu usasse uma cor viva para tingir meu cabelo, cabeça, rosto e pescoço, um vermelho... tipo pimentão. Devo dizer que foi bastante engraçado na hora. Isto é, quando a gente estava no quarto. A dificuldade surgiu quando tentei sair de lá. Tive que descer a escada de lado.

Quando cheguei à porta, fui obrigado a voltar para trocar minhas calças de malha porque Angus, meu gato, teve um de seus ataques de "saudades da selva".

Ele é completamente pirado. Nós o achamos quando fomos passar as férias no lago Lomond. No último dia eu o encontrei perambulando pelo jardim da pousada onde a gente ficou, que se chamava Fique-Mais-Um-Pouquinho. Isso só para te dar uma idéia do tipo de férias que foram.

Eu devia ter desconfiado de que a caixola daquele felino não batia bem, quando o peguei e ele começou a destroçar meu sweter. Mas era um gatinho tão bonitinho, todo cinza, de pêlos compridos, com olhos amarelos enormes. Mesmo quando ele pequeno já se parecia com um cachorrinho. Eu supliquei e enchi o saco de todo mundo para levá-lo para casa.

- Ele vai morrer se ficar aqui, não tem mãe nem pai - eu disse, sentido.

- Provavelmente ele comeu os dois - comentou meu pai.

É, às vezes ele consegue ser grosso. Eu me concentrei em minha mãe e acabei trazendo-o para casa. A senhoria escocesa disse que ele devia ser mestiço, metade gato doméstico malhado e metade gato selvagem escocês. Lembro de ter pensado: "Ah, que coisa exótica."

Eu não desconfiei que ele ia crescer até ficar do tamanho de um labrador pequeno, só que louco. Eu costumava puxá-lo por uma coleira, mas conforme expliquei à vizinha, ele a comeu.

De qualquer forma, ele às vezes sente o chamado das montanhas escocesas. Foi então, quando eu ia passando como azeitona recheada, que ele pulou de seu esconderijo atrás das cortinas (ou seu covil, como acho que ele o imaginava na sua cabeça de gato) e atacou minhas coxas, ou a "presa". Eu não conseguia fazê-lo soltar batendo na sua cabeça, porque ela pulava de um lado para outro. Finalmente, consegui pegar o capacho do lado de fora da porta e bati nele até que ele largou. Depois, eu não conseguia entrar no Volvo do meu pai.

Ele perguntou:

- Por que você não tira a parte da azeitona e a gente põe na mala?

Sinceramente, como assim?

- Pai, se você acha que vou sentado a seu lado todo vestido de verde, você ficou louco - eu disse.

Ele ficou todo irritadinho, do jeito que os pais ficam depois que você mostra como eles são burros e inúteis:

- Bem, então você vai ter que ir a pé. A Jas entra, eu vou dirigindo o carro bem devagar, e você vai andando do lado dele.

Não dava para acreditar.

- Se eu tenho que andar, por que não andamos Jas e eu, os dois, e deixamos o carro para lá?

Ele ficou com aquela cara de idiota, com os lábios apertados, que os pais ficam quando acham que têm razão:

- Porque eu quero saber aonde você vai. Não quero você andando pela rua à noite.

Incrível!

- O que você acha que eu poderia estar fazendo andando pela rua à noite vestido de azeitona recheada ... tentando entrar de penetra em algum coquetel? - perguntei.

Jas riu, mas Papai ficou todo ofendidinho:

- Não fale comigo assim, senão você não vai sair coisa nenhuma.

Como assim?

Quando finalmente chegamos à festa (eu andando do lado do Volvo do meu pai, que ia a seis quilômetros por hora), foi horrível. As pessoas primeiro riram, mas depois praticamente me ignoraram. Num impulso de orgulho azeitonal, dancei sozinho, mas não parava de derrubar as coisas que estavam ao meu redor. O dono da festa pediu para que eu me sentasse. Fiz uma tentativa, mas não adiantou. No fim, eu já estava há uma hora no portão quando o meu pai chegou, e botei a fantasia de azeitona na mala. Não nos falamos no caminho para casa.

Por outro lado, Jas se divertiu à beça. Ela disse que foi cercada por Tarzans, Robin Hoods e James Bonds (que imaginação fértil os garotos heteros têm... ou não).

Eu estava me sentindo meio irritado durante a parte da "Rememoração" .

- Bem, os garotos teriam chegado em mim se eu não estivesse vestido de azeitona - eu disse amargamente.

- George, você achou engraçado e eu achei engraçado, mas é preciso lembrar que os garotos não acham que as meninas foram feitas para serem engraçadas... E os gays também...- comentou Jas.

Ela deu uma de "sábia" e "madura", o que foi irritante. Por acaso, o que ela sabe de garotos? Principalmente gays... Meu Deus, que franja horrorosa ela tem. Cala a boca, franjinha.

Eu perguntei, irônico:

- Ah, é, então é isso que eles querem? Menininhas de sorriso afetado vestindo fantasias de gato?

Pela janela do meu quarto eu podia ver o poodle do vizinho pulando para cima e para baixo na nossa cerca, latindo. Devia estar tentando amedrontar nosso gato, Angus... bela possibilidade.

Jas continuava a distribuir sabedoria:

- Querem sim, acho que eles gostam de meninas um pouco doces e não tão ... Bem... você sabe.

Ela estava fechando o zíper de sua mochila. Olhei para ela:

- Não tão o quê?

- Preciso ir, a gente janta cedo lá em casa - ela disse.

Quando ela saiu do meu quarto, eu sabia que devia ter ficado calado. Mas sabe quando você devia calar a boca porque devia mesmo fazer isso, mas, mesmo assim, continua? Bem, foi o que aconteceu.

- Continua... Não tão o quê? - insisti.

Ela murmurou qualquer coisa ao descer a escada.

Gritei para Jas quando ela passou pela porta da frente:

- Não tão parecido comigo, você quer dizer, não é?!!!

23:00

Já me sinto enjoado dos garotos e ainda nem tive nada com eles.

Oh, meu Deus, não me obrigue a fingir de hetero como Shawn Mendez e Camilla Cabelo!



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