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História Perfect - Capítulo 10


Escrita por: vanelope-stars

Notas do Autor


OLÁ!!
gente, essa att tem TUDO. TUDO o que eu queria.
Tem link nas notas finais.
Até!! 🌈💗

Capítulo 10 - Renascer


Minhas mãos estavam trêmulas e inquietas. Eu batia os dedos na perna, pois na mesa fazia barulho. Havia um burburinho atrás de mim e aos meus lados. Nada em que eu conseguisse me concentrar. Palavras soltas: "Nota", "Mas, Juhyun", "Acho que vai demorar", "Ali, ela já…", "Estou com medo!", "Vou começar a rezar."

Eu não sabia quem havia dito as duas últimas frases, mas compartilhava do mesmo sentimento que essas pessoas. Eu estava com medo e prestar a rezar. Preces não eram meu forte, mas biologia também não era, então o que eu tinha a perder?

A professora se sentou na ponta da mesa, ajeitou os óculos e analisou os papéis em sua mão direita. As provas. Minha nota. Minhas horas estudando com Jimin e Yoongi, todo meu esforço e temor. Estava bem ali, bem ali nas mãos dela. E eu estava prestes a gritar.

Ela olhou para toda a turma, se levantou e começou a andar entre as carteiras, deixando as folhas como se fossem só papel. Menos que papel. Para mim eram mais que papel. Muito mais que papel.

Quando a minha mesa recebeu as folhas com marcas em vermelho, fechei os olhos e as segurei. Respirei fundo antes de olhar.

Noventa e dois.

Meu Deus, noventa e dois.

Noventa e dois!

Eu precisava de 70 e diante dos meus olhos havia um noventa e dois. 

Deitei a cabeça na mesa e respirei fundo por longos segundos, desacelerando meu coração.

ㅡ Você teve muita melhora, Jungkook ㅡ disse a professora Cho, parando ao meu lado. Ajeitei a postura na cadeira com rapidez; ela riu. ㅡ Não sei o que você fez, mas funcionou. Continue assim.

Agradeci umas três vezes, quase como quem recebe um milagre. Era assim que me sentia. Eu tinha recebido um milagre.

O nome do milagre era Park Jimin.


{...}


ㅡ Seu filho da puta desgraçado! ㅡ Yoongi exclamou e logo olhou para os lados, temendo ter sido ouvido por alguém além de mim. Balançou minha prova no ar enquanto grunhia; continuou, baixinho: ㅡ Caralho, Jungkook! Noventa e dois! Você… você… você quer me humilhar, é? Fica andando por aí com essa carinha de inocente e fingindo ser burro e aí aparece na minha frente com um noventa e dois? Seu, seu, seu gênio encubado!

ㅡ Para com isso, hyung! Me deixe ver a sua! ㅡ Puxei os papéis de sua mão esquerda e passei os olhos rapidamente. Sorri e ajeitei o cabelo para trás, dizendo: ㅡ É, pelo jeito não sou eu o burro dessa amizade.

ㅡ Você vai sozinho pra casa.

Yoongi saiu andando pelo corredor enquanto olhava minha prova e xingava. Ri e o segui, quase dançando ao andar.

ㅡ Qual, é, hyung! Não é minha culpa se você não acompanha meu intelecto!

ㅡ Jungkook, eu vou te jogar na rua pra algum carro te atropelar!

ㅡ Tá, mas me devolva a prova antes. Quero que os socorristas saibam que estão salvando a vida de um gênio.

ㅡ Você não vale nada. E eu não vou te devolver. Vou escrever meu nome por cima do seu e enganar minha família. Você faz o mesmo com o meu oitenta e três.

ㅡ Bom, oitenta e três não é ruim, mas ainda quero meu noventa e dois muito bem merecido! ㅡ Peguei minha prova de sua mão e a substitui pela sua. Suspirei de felicidade e guardei as folhas na mochila.

ㅡ Bem merecido o meu ovo! Metade da sua nota só está aí porque você espera desesperadamente uns amassos do Sr. Park.

ㅡ E essa conversa acaba aqui.

Virei a cara e desci os degraus da escola, vendo o sol fraquinho que fazia. Andei pelo canto, perto da grama. Era o único caminho por onde podia passar sem risco de esbarrar em ninguém. Yoongi logo apareceu ao meu lado e caminhamos juntos até a rua enquanto falávamos sobre o alívio que estávamos sentindo.

Eu, obviamente, sentia bem mais que ele. Yoongi era bom aluno em tudo. Nunca tirava menos que oitenta em nada. Eu, em contraste, vivia me matando por um setenta ou sessenta e cinco.

Aquele noventa e dois seria grudado na geladeira quando eu chegasse em casa.

No cruzamento entre duas esquinas longe da escola e um shopping, um trio de meninas entrou num estacionamento. Momo estava na ponta direita. Meus olhos quase saltaram para fora quando a vi e minha alegria foi visível. Ela me percebeu também e sorriu, acenou com a mão. Somente retribui. Imaginei que ela ainda não podia falar comigo.

ㅡ Hirai, é? O que será que faz aqui? Não tinha se mudado para o outro lado da cidade? ㅡ Yoongi questionou, com as mãos no quadril. Ri e continuei andando.

ㅡ Não é porque mora do outro lado da cidade que não mora na cidade.

ㅡ É, é, eu sei. Me poupe disso, porque sabe onde quero chegar.

ㅡ Sei. ㅡ Mordi o lábio. ㅡ Acho que ela ainda não pode falar comigo. Mal olhou pra mim.

ㅡ Os pais dela mudaram de bairro e ela de escola só pra ela não respirar perto de você e você vem me dizer que "acha" que ela não pode falar com você? ㅡ Fez um "brrr". ㅡ Se pudessem, te apagavam da memória dela e da Terra.

ㅡ Não sei se é pra tanto.

ㅡ Você tirou a virgindade da menina enquanto eles estavam na igreja, Jungkook. Pra eles é pra tanto, sim. Pelo amor de Deus. Puts, ela gemeu assim? Um "Oh, Deus!"? Porque seria muito engraçado considerando que os pais estavam na igreja rezando por ela.

ㅡ Hyung! ㅡ reclamei e bati no braço dele. ㅡ Para com isso. 

ㅡ Você achou graça que eu sei!

ㅡ Não achei.

ㅡ Achou! Oh, meu Deus, Jungkook, oh! ㅡ gemeu, fechando os olhos e passando a mão na cintura. Não aguentei e explodi em risos.


{...}


ㅡ Noventa e dois! Uau! Isso é incrível, filho! 

Papai estava sorrindo largo enquanto colocava minha prova na porta da geladeira. Eu sentia uma mistura de felicidade com alívio e ansiedade, pois no dia seguinte Jimin voltaria e eu mostraria a ele que todo nosso trabalho não foi em vão. 

ㅡ Parabéns, de verdade. Jimin realmente fez um bom trabalho com você! Não querendo tirar seu crédito! Sei que se esforçou muito e merece isso. Estou muito feliz. 

Os olhos de meu pai lacrimejaram. Desmontei e caí em toda a emoção que sentia.

ㅡ Aish, pai. Não chore. Vou chorar também.

ㅡ É que você trabalhou tanto pra isso e estava tão nervoso. Fico tão orgulhoso.

ㅡ Pai!

Nos abraçamos na cozinha, ambos chorando baixinho. Qualquer um que nos visse pensaria que houve uma tragédia. No entanto, era totalmente o contrário. Ficamos emocionados porque aquilo era uma vitória. Era uma vitória para mim, e como meu pai sempre comprava minhas derrotas para ele, era uma vitória dele também. Meu progresso era o dele e o dele era o meu. 

ㅡ Ai, temos que fazer o jantar ㅡ falei, nos separando do abraço e secando o rosto.

ㅡ E telefonar para Jihyo depois. Ela vai querer saber, disse que esteve rezando por você. E se alguém tão cético quanto sua irmã esteve recorrendo a divindades é porque importa pra ela.

ㅡ Eu sei, pai.

ㅡ Na verdade, é tolice ressaltar isso. Tudo que você faz é importante pra ela. Pra nós. Você todo é importante pra nós.

Abracei papai de lado enquanto ele pegava uma espátula na gaveta da pia. Deitei minha cabeça no ombro dele e vi seu cabelo escuro e mais comprido, já chegava perto do ombro. Ele não tinha um único fio de cabelo branco, diferente de mamãe, cuja raíz já mudava de cor. 

Mamãe… Quanto tempo que eu não a via?

ㅡ Pai, quando falar com Jihyo, posso pedir que me leve com ela no tempo livre? Faz tempo que não vejo a mamãe.

ㅡ Claro, ela deve sentir sua falta. Só não esqueça de mandar Yoongi ocupar seu lugar como filho. Não quero ficar solitário.

ㅡ Não se preocupe. Ele vem.


{...}


Olhando as paredes do quarto iluminadas pela luz da lua que vinha da janela, pensei em Jimin. Imaginei se ficaria tão feliz quanto eu pelo resultado da prova. Imaginei seu sorriso bonito e senti as borboletas outra vez. Será que ele… me abraçaria?

Não, era demais pensar isso. Nossa relação era de professor e aluno, pelo menos na escola. Fora dela… fora dela talvez ele me abraçasse e dissesse estar imensamente feliz por mim, por nós. Talvez continuássemos com o assunto da chuva. Talvez me levasse de carro até em casa enquanto falava da viagem e sua irmã enquanto eu falava de Yoongi e papai…

Torci para que a chuva voltasse a cair. Queria uma desculpa para entrar no carro dele.


{...}


Esperei a manhã toda pelo almoço. As aulas pareciam mais longas que o normal. Saí da sala com minha pasta debaixo do braço tão rápido quando deu a hora que todos me encararam. Não podia culpá-los, já que nunca me destacava em nada. Eu era o garoto calado que sentava perto da janela, aquele que não era amigo de ninguém além de um menino de outra turma. A única coisa que me dava uma "reputação" era o fato de meia escola se manter longe de mim por pensar que eu era gay. Não era a vida escolar dos sonhos, mas era a que eu tinha.

Andei o mais rápido que pude pelos corredores. Yoongi não estava esperando por mim, sabia onde eu iria. Tinha prometido encontrar com ele no refeitório mais tarde. Antes, antes de qualquer coisa, eu precisava ir até a sala dos professores e falar com Jimin. Não havia visto o carro dele no início da aula, mas estava lá quando olhei pela janela um pouco antes de ser hora do almoço. Ele estava na escola e eu tinha que vê-lo. 

Não sabia dizer se era pela prova ou por meu coração covarde tomado de borboletas. Talvez os dois.

Parei diante da porta. Respirei fundo e ajeitei o cabelo. Bati na porta e mordi o lábio. Um professor me mandou entrar. Não soube qual, não identifiquei a voz, mas chutei ser o professor de educação física. Abri a porta devagar, entrei e fiz uma reverência. 

Segurei minha pasta com força e espremi os lábios. Comecei a me balançar para frente e para trás, me sentindo perto da explosão.

Ele estava ali. Ele estava ali e estava olhando direto pra mim. Seu cabelo não estava mais vermelho. Estava castanho bem escuro como o meu. Os olhos dele estavam em mim. Nos meus. Ele sorriu.

Pelo amor de Deus! Ele sorriu! Ele sorriu pra mim! Como eu podia não estar prestes a gemer e implorar para que falasse comigo?! Como? E por que o cabelo dele estava de outra cor e ele estava tão, tão fodidamente lindo? Merda! O mundo estava desabando e Jimin nem sequer tinha me dito "oi"!

ㅡ Perdão pelo incômodo, eu só queria falar com o Sr. Park ㅡ informei, me surpreendendo por não gaguejar. 

Jimin se levantou, tomou mais um gole de café e se despediu da professora ao seu lado. Eu estava queimando.

Ele andou até mim. O mundo ficou em câmera lenta e também em super velocidade. Eu estava com medo e também não estava.

Me senti muito precipitado e também sem pudor, e ao mesmo tempo não tinha tempo para ligar, mas algo dentro de mim estava tão ansioso por ele que não rejeitaria uma oportunidade de beijá-lo.

Ele despertava em mim uma curiosidade sem igual e após dias sem o ver estava tão sedento que não me lembrava que mal éramos amigos. A parte sedenta ㅡ que eu estava me acostumando a chamar de apaixonada ㅡ de mim o queria. Não exatamente para beijos ou sexo, não exatamente para nada. Somente queria estar perto dele e nada mais. Era saudade misturada com receio e o receio estava morrendo.

ㅡ Jeon, é bom vê-lo. Vamos conversar na minha sala. 

Apenas concordei e o segui até a sala de artes. Encarei sua nuca com desejo. Mordi o lábio. Agora eu me comportaria como um adolescente na puberdade sempre que o visse?

Entramos. Jimin sentou na mesa. Peguei minha pasta vermelha debaixo do braço, retirei dela minha prova e entreguei a ele. Dei dois passos para trás e segurei a pasta na frente do corpo. 

Jimin leu todas as três folhas com atenção. Seus dedos as tocavam com tanta delicadeza, seus olhos eram tão atentos e o cabelo não mais vermelho caía na testa… Ele era um sonho.

Repentinamente seus olhos encontraram os meus. Ele sorriu, andou até mim com os papéis em mãos, parou a distância de três passos e falou:

ㅡ Eu sabia que conseguiria. Você trabalhou muito pra isso, Jeon. Estou orgulhoso de você. Sabia que não estava cometendo um erro a me encantar tanto por você.

Encarei o chão. Meu peito fora de ordem, minha respiração parecendo alta demais para a sala. Minha inquietude se manifestando ainda mais e minhas borboletas voando umas contra as outras.

Não via saída. Não existiam opções, caminhos alternativos ou disfarce. Eu estava diante de Jimin e não havia nada a dizer, pois palavras não pareciam suficientes. Então como mostrar e tornar real?

Ele me devolveu as folhas, as guardei e mordi o lábio outra vez. E agora?

Olhei para a janela. O dia estava tão lindo que era possível ouvir o cantar dos pássaros. Encarei Jimin com as mãos nos bolsos, esperando por minha próxima palavra.

ㅡ Não está mais chovendo, hyung…

O sorriso enorme dele. O meu, ainda maior. Tum, tum, tum… Será que o coração dele também fazia? Ele se sentou sobre a mesa outra vez, apoiou os braços para trás.

ㅡ Não, não está. Nosso cupido foi embora.

ㅡ E o que fazemos sem ele?

ㅡ Eu não preciso da chuva para te oferecer meu carro, Jeon. Só preciso de chance e da sua vontade.

ㅡ E eu nunca diria não pra você…

Silêncio. Sorriso, sorriso. Mais tum e tum e tum. O canto dos pássaros se misturando às nossas respirações.

ㅡ É bom saber. Não podemos conversar sobre isso agora. Temos pouco tempo e pode parecer suspeito. No fim da aula, venha aqui. Conversaremos melhor.

ㅡ Certo, hyung. Vou indo, então. ㅡ Ele assentiu e ficou de pé. ㅡ Com licença, hyung.

ㅡ Jeon…

ㅡ Sim?

Me olhou de cima a baixo. Sorriu.

ㅡ Você fica ainda mais bonito quando está feliz.

Segurei a maçaneta com força e bati o pé esquerdo no chão algumas vezes. Olhei Jimin com o canto do olho. A vergonha surgindo no meio de todo o azul e trazendo o vermelho ao meu rosto.

ㅡ Você está sempre lindo, hyung.

ㅡ São seus olhos.

ㅡ Então eles são sortudos.

Jimin riu, andou até mim e girou a maçaneta. Sua mão por cima da minha e seu peito quase encostando no meu levaram embora minha ousadia. Seu nariz quase raspando em mim me trouxe a loucura.

ㅡ Vamos, Jeon. Te juro que teremos todo tempo do mundo somente para nós depois.

Concordei, me reverenciei uma última vez e segui até o refeitório, onde Yoongi já estava em nossa mesa me esperando. Fez um gesto de: e aí?

Sorri para ele, que retribuiu. Estava tudo correndo bem.


{...}


ㅡ Eu… não sei por onde começar ㅡ confessei.

Jimin parou perto da janela. A luz fraca do sol tornando sua pele brilhante. Me sentei numa cadeira pequena, mas ele não aprovou. "Se sente no meu lugar", disse. E ali estávamos nós: eu em sua cadeira e ele diante da janela. A aula tinha acabado, a não ser que alguém estivesse por ali estudando ou treinando algum esporte, só teria Jimin, eu e alguns funcionários. Essa sensação de privacidade me deixava ouriçado.

ㅡ Você gosta de mim, Jeon?

Sua pergunta tão direta, calma e simples me fez engolir em seco e perder a voz por um momento.

ㅡ G-gosto. Claro que gosto.

ㅡ Não estou perguntando se gosta de mim como seu professor ou amigo, isso não me interessa. Quero saber se quando está perto de mim seu corpo se arrepia e você sente borboletas no estômago.

Silêncio. As batidas do meu coração reverberando minha verdade. Meus sentimentos afoitos nadando dentro de mim, tentando escapar com tanta força que quase rasgavam minha pele.

ㅡ Às vezes as borboletas são tantas que mal posso respirar…

Jimin sorriu. Caminhou até mim e sentou na ponta da mesa, tive que olhar para cima para fazer contato visual com ele.

ㅡ É apenas isso que anseio, Jeon. Não quero ser só seu professor. Quero te conhecer e fazer parte da sua vida. Não preciso que me chame de namorado ou me beije, somente que me deixe te acompanhar. Você me encanta e eu quero mais disso, Jeon. Eu quero mais de você. Quero tudo, na verdade. Lamento se for demais, mas você me torna ganancioso.

Não sabia o que dizer. Grunhi e coloquei as mãos no rosto. Tinha vontade de gritar e falar milhares de palavras que no fim não diriam nada. Eu não sabia se era o amor ou a surpresa. Talvez os dois.

ㅡ Eu… eu também quero que você faça parte da minha vida, mas tenho medo, Jimin. Eu sou só um estudante e você tem trabalho e também é mais velho. Realmente não sei o que posso fazer por você. ㅡ Olhei para minhas mãos, mordi o lábio. ㅡ Sou só um garoto idiota que se apaixonou por seu hyung.

ㅡ Então você está apaixonado? ㅡ Assenti. O sorriso de Jimin foi tão bonito que suspirei. ㅡ Ser amado por alguém como você, Jeon, é o tipo de coisa que me deixa nas nuvens.

Ri, vermelho e sem jeito. E feliz. Muito feliz. Ele pegou minha mão. 

ㅡ Isso é tudo que queria saber, Jeon. Queria sua permissão para estar próximo de você e fazer parte da sua vida.

ㅡ Eu não teria motivos para dizer não. Mas… mas…

ㅡ Mas?

ㅡ E se… e se eu quiser beijar você? Ou quiser… mais que isso?

A risada bonita dele me causou muita vergonha, porém não deixei de sorrir. Não conseguia, também.

ㅡ O sexo com você deve ser incrível. Não existem "poréns" da minha parte.

ㅡ Te juro que da minha também não.

Me sentia um adolescente rendido que só pensava sem transar. E… talvez eu fosse.

ㅡ Então vamos transar.

ㅡ Aqui? Agora? 

ㅡ Não, Jeon. ㅡ Riu alto. ㅡ Quanta pressa…

O arrepio no meu corpo e sangue sendo bombeado a todo vapor me fizeram sentir um idiota. Morri de vergonha.

ㅡ Aish, me desculpe, desculpe. Estou agindo como um inconsequente. Me perdoe.

ㅡ Admito que por um momento pensei que você fosse tirar a calça.

ㅡ Hyung! Eu não faria isso! 

Eu achava que não faria, pois uma parte de mim dizia o contrário. Mas Jimin não tinha que saber.

ㅡ Tudo bem, tudo bem. Enfim, acho que está tudo bem claro. Eu vou demorar na escola hoje. Para os preparativos da festa de halloween, você deve saber.

ㅡ Sim, sim. É sempre uma correria.

ㅡ Exato. Vou ficar até tarde hoje e amanhã. Não posso te dar carona. Mas se você não tiver como ir, posso tentar dar um jeito.

ㅡ Não, não. Hoje… não está chovendo. Posso ir.

ㅡ Seria estranho se chovesse, não acha? 

ㅡ Sim…

Sorrimos. Eu me levantei e coloquei a mochila nas costas. Me virei para me despedir quando Jimin beijou minha testa. Um incêndio se iniciou no meu peito e me tornou carvão. Era um toque tão simples e eu estava ardendo.

ㅡ Até mais, Jeon.

ㅡ Até, hyung…

Ele abriu a porta para mim. Andei pelo corredor de olhos fechados, sonhando e torcendo para que não fosse um sonho e Jimin tornasse beijos algo comum entre nós.

Parei na porta de entrada, perto dos degraus. Peguei meu celular e mandei mensagem ao meu pai, dizendo que já estava de saída. Estava checando as mensagens de Yoongi quando um toque repentino me assustou. Jisung passou por mim e sorriu. 

Ele apertou minha bunda.

Fiquei tão chocado que não soube reagir. Paralisei, o olhando se afastar. Minhas mãos tremeram.

ㅡ Ah, Jisung, que prazer é te ver. ㅡ Jimin surgiu de repente. De braços cruzados e com um sorriso no mínimo maldoso. ㅡ Por que não volta e me acompanha até a diretoria? Você deve saber que assédio é crime antes de ser conduta inapropriada.

Jisung mordeu o lábio e encarou a rua, olhou para Jimin e subiu os degraus outra vez, sumindo para dentro da escola. Jimin descruzou os braços e o seguiu.

Se não estivesse tão atônito teria me lembrado das palavras de Taehyung.

"Ele olhava de um jeito tão ameaçador para a turma. Sempre que via ele, sentia calafrios. Ele não é assim com você?"

Não, não era. Mas estava mais do que claro que podia ser.


{...}


Cheguei aéreo na floricultura. Mal falei com Dada, somente limpei, transportei flores pra lá e pra cá é atendi clientes. Mantinha a cabeça vazia para não me lembrar. 

Ele sempre me tratava tão mal, era tão grosso e maldoso… mas jamais pensei que faria algo daquele tipo. E o modo como ele sorriu pra mim… Sempre que me lembrava sentia vontade de vomitar. Meu dia tinha sido ótimo e aquilo estragou tudo. Só de pensar em ver Jisung no dia seguinte, queria entrar em coma.

ㅡ Jungkook! Seu pai está por aqui?

ㅡ Está lá trás, colocando algumas mudinhas em vasos. Pode entrar.

De certa forma, ver que meu pai tinha um namorado me anestesiou. Só de imaginá-lo conversando sobre suas flores com alguém que não era eu ou Dahyun, ficava contente. Pensei que quando fosse visitar mamãe, ele poderia trazer o Sr. Jung para lhe fazer companhia. Era melhor um namorado do que Yoongi o fazendo cozinhar toda hora enquanto reclamava de sua família.

ㅡ Você está bem, Jungkook? Parece muito longe ㅡ Dahyun perguntou; tocou meu ombro. Deixei as rosas que olhava de lado.

ㅡ Aconteceu uma coisa ruim, Dada. Mas vai passar, não se preocupe. Tem planos para o hallowen?

ㅡ Assistir o especial de terror na tv. E você?

ㅡ Vai ter uma festa na escola, mas não sei se vou. Yoongi não vai poder ir. Kyungseok está doente e alguém tem que cuidar dele. Eunwoo tem que estudar e Sana vai passar o fim de semana na namorada, então só sobra ele.

ㅡ Ah, você pode ir sozinho.

ㅡ Eu e um monte de estranhos por horas, Dada? Por que não me esfaqueia logo? ㅡ Ela riu. ㅡ Acho que não vou, mas te aviso. Se não for podemos ver o especial de terror juntos.

ㅡ Pare, não ouse me levar para um programa de casal, seu insensível! ㅡ Dramatizou, com a mão na testa. Foi minha vez de rir. ㅡ Vou adorar, só me avise antes. E seu pai? Vai deixá-lo sozinho?

ㅡ Sinceramente, Dada, acho que na primeira noite que eu passar fora terá outro homem no meu lugar.

ㅡ Ui… Enfim, viva o tio Jeon que tem mais vida amorosa que eu! Vou voltar a trabalhar. E me avise se quiser uma pausa, Jungkook. Você não tem que fingir que está bem.

Eu realmente não estava. Porém também não queria tocar no assunto ainda. Meu pai ficaria tenso, Yoongi seria capaz de perseguir Jisung e o agredir com a primeira coisa que achasse no chão e Dada morreria de preocupação. Agradeci por Jihyo não estar ali. Ela seria cúmplice de Yoongi.

Jimin sabia e estava fazendo algo sobre. Era só o que importava. Jimin resolveria e ninguém seria envolvido. Era o que eu queria.


{...}


Acordei melhor na sexta-feira. Acordei determinado a só seguir a rotina. Não tinha aula, já que era halloween. Uma cortesia que a escola não fazia sempre. 

Me levantei, escovei os dentes e me deitei no sofá da sala só de pijama. Meu pai já estava na floricultura. Trabalharia só pela manhã. Não queria que fosse com ele, mas eu iria. Dada estava de folga e eu queria compensar os dias que saí mais cedo.

Meu plano era: assistir um desenho enquanto tomava café, falar brevemente com Yoongi sobre a festa mais tarde e ir trabalhar. Porém, quando abri a caixa de mensagens todo, absolutamente todo o meu mundo parou. Meu coração queimou, o som da tv parecia longe demais e meus olhos nem piscavam.

Eu não sabia se podia chamar aquilo de maldade ou bondade, se ficava feliz ou chorava compulsivamente. Mas ali estava. Bem ali. Uma mensagem dele.

hyung <3 <3 <3: feliz halloween, dongsaeng.

De repente, eu já estava soluçando. Deixei o celular de lado, contudo logo o peguei novamente e li, reli e reli outra vez, tentando ter certeza de que era real, me torturando mais a cada passada de olho. 

Ele tinha mandado o mesmo para todo mundo? Jihyo teria me avisado na hora. Não havia mensagem dela além de uma me desejando feliz halloween e avisando que poderia me levar viajar quando eu quisesse. Papai me contaria assim que me visse. Mamãe o mandaria para o inferno e depois me ligaria, xingando meu irmão até chorar.

Se papai não me dissesse nada, ficaria claro que a mensagem foi enviada somente a mim. E por quê? Por quê? Com que coragem?

O halloween era a nossa data. Ele não podia, não podia só me desejar feliz halloween como se não fosse nada, como se estivesse no quarto ao lado ou trabalhando.

Ele estava em Toronto! Ele estava na merda de Toronto há mais de um ano e não me mandava um "Oi" há semanas! Rejeitou todas as minhas ligações, todas as de Jihyo, papai e mamãe. Ligamos para sua universidade. Ele estava bem, estava tendo as aulas. Então ele tinha, de repente, sem mais nem menos, decidido nos abandonar? Fingir que não éramos sua família?

E depois de semanas ouvindo meus recados, aqueles em que eu chorava e pedia que me ligasse e dissesse o que tinha acontecido, ele simplesmente me desejava feliz halloween?

Quis ligar para ele naquele momento. Insistir até ele me atender. Mas não tinha força pra isso. Quis apagar a mensagem, mas também não tinha coragem. A deixei ali. Com dor, a ignorei. Li as outras. Li as outras com o peito sangrando.

Yoonie <3: 

não vou mesmo poder ir, jungkook :( você não tem ideia do QUANTO eu tô deprimido - 23:33

o taehyung me chamou pra ir com ele - 23:34

tipo tipo o TAEHYUNG quer que eu vá com ELE e até me chamou pra sair com ele e o amigo dele depois e eu NÃO POSSO IR porque o Kyungseok pegou essa caralha de gripe e o COCÔ AMBULANTE DO EUNWOO não é CAPAZ de ficar com ele por DUAS HORINHAS - 23:34

 eu quero ME MATAR, JUNGKOOK. EU QUERO ME MATAR. ESSA ERA MINHA CHANCE E POR CAUSA DESSE MERDINHA EU VOU MOFAR NO SOFAAA - 23:35

sem falar daquela filha de uma não puta da minha irmã que vai sair com a mina - 23:35

jungkook, você entende que eu não posso dar beijinhos no mister kim porque a minha irmã vai f0d4r a noite toda? jungkook, me mata, por favor. me mata antes que essa dor mate. - 23:36

Ri enquanto lia as mensagens. Senti o gosto das lágrimas enquanto sorria. Daria tudo para poder estar com Yoongi. Passar a noite com ele e os irmãos ou com Dada. Mas sabia que acabaria contando tudo a eles, pois se preocupavam demais. 

Soube que não podia ficar em casa. Meu pai me sondaria. Yoongi e Dahyun fariam pior. Só sobrava a festa e usei da primeira brecha que vi para fugir.

Eu: 

Lamento por você, Yoonie. Podemos marcar um horário para castigar sua irmã. - 09:21 

Mudando de assunto, eu acho que vou na festa. Jimin vai estar lá e como Taehyung vai, eu posso ficar com ele e o amigo dele. Vou falar bem de você. Posso até dizer que seu beijo é o melhor. - 09:21

Não demorou a vir uma resposta:

Yoonie <3: 

boa, boa! fala que já demos uns amassos e você nunca esqueceu minha língua. e se divirta, jungkook, por favor! fique em casa ou vá, só se divirta. sei que é uma data importante pra você. - 09:22

Era. Era uma data importante. E meu irmão tinha acabado com ela com a mesma intensidade que a tornou especial anos atrás.


{...}


"ㅡ Ele não pode entrar vestido assim.

ㅡ O quê? Por que não? É uma fantasia assim como das outras crianças.

ㅡ Não, não é e você sabe.

ㅡ Tá falando sério? Um menino entrou com um machado de plástico há dois minutos. Ele não devia ser barrado? ㅡ retrucou com humor, tentando resolver a situação com uma piada como sempre fazia. ㅡ Ou é por causa da saia? Jihyo entrou de vestido e a senhora não disse nada. Eu mesmo já apareci com vestido quando fui homem das cavernas!

ㅡ Você sabe onde quero chegar, por favor, não dificulte as coisas. Jungkook pode entrar se trocar de fantasia, mas assim… assim não. Lamento, Seokjin.

Eu apenas observava a discussão, segurando na mão de meu hyung. Sentia medo e uma espécie de rejeição. Me senti culpado, estranho e quis sumir.

ㅡ Tudo bem. Apenas me deixe avisar a Jihyo que não vamos entrar.

Jin me levou até o estacionamento, se agachou na minha frente e falou: Vou dizer a Jihyo que não vamos entrar. Me espere aqui, ok?

E eu esperei. Esperei enquanto todas aquelas pessoas passavam me encarando. Puxei a saia do meu vestido. Desejei esconder minhas pernas dentro da meia-calça; arrancar minha peruca. Desejei desaparecer."


Foi inevitável me lembrar daquele dia quando entrei na escola. As fantasias me lembravam dele e os carros do lado de fora me recordavam de nós dois na bicicleta azul. Suspirei, afastando as lembranças. Tinha que me distrair.

Taehyung estava ao meu lado, fantasiado de vampiro. Era realmente uma pena Yoongi não estar ali; teria pirado ao ver o cabelo de Taehyung penteado para trás e com topete. Eu, de última hora, improvisei: vesti uma calça jeans preta, coturnos, uma camiseta de lã vermelha com listras pretas, um chapéu e luvas de jardineiro. Eu Era Freddy Krueger antes do incêndio.

ㅡ Seu amigo não veio, Tae?

ㅡ Veio, veio. Ele está de lobisomem, pra combinar comigo. Nosso plano era Yoongi vir de Bella.

ㅡ Ah, sim. ㅡ Ri enquanto subimos a pequena escada e chegamos no corredor. Uma menina passou correndo por mim com uma garrafa de refrigerante. ㅡ Está uma bagunça aqui. Acha que ele está perto?

ㅡ Na verdade, não sei. Ele devia me encontrar aqui. Vamos achá-lo por aí. Enfim… hmm… vamos procurar algo pra comer?

Concordei. Fomos até a quadra, vimos as mesas com comida e pegamos docinhos em forma de aranha e copos de refrigerante. Me lembrei da promessa que fiz ao hyung e puxei assunto:

ㅡ Você gosta mesmo do Yoongi, Tae?

Ele quase cuspiu a Pepsi. Tossiu e pigarreou.

ㅡ Por que a pergunta?

ㅡ Ah, o hyung é meu melhor amigo e eu… sei lá, gosto de saber. Sabe? Conhecer quem é próximo dele.

ㅡ Hmmm… bom, eu… eu gosto, sim. Bastante. Se ele te mandou perguntar, dê a ele a certeza de que gosto. Queria muito que ele tivesse vindo. Iria brigar com o lobisomem pelo amor dele. ㅡ Eu ri e mordi minha aranha; ele prosseguiu: ㅡ Yoongi é muito legal. Espero mesmo que… isso que nós temos evolua. Aish, que vergonha de falar disso com você… 

ㅡ Não, não, não fique assim. Eu sei bem como é… querer que algo evolua. E o hyung vai… o hyung vai entender você e fazer funcionar. Ele nunca desiste.

ㅡ Então espero que não desista de mim.

ㅡ Ele não vai. Mesmo.

Taehyung sorriu e pegou mais doces. Procurei Jimin pelo vai e vem de alunos. Havia alguns professores aqui e ali fazendo a segurança e dando ordem às crianças. Mas nenhum era o meu professor. 

Provavelmente as salas de aula estavam cheias de adolescentes jogando jogos ou dançando alguma música antiga, talvez tivesse alguma televisão transmitindo filmes de terror para várias fileiras de alunos se enchendo com pipoca. O mesmo que na casa de Yoongi ou Dada, porém com mais convidados, bagunça e regras. Olhando ao redor, percebi que de fato não havia razão para eu estar ali. Se não precisasse tanto esquecer Seokjin e meus amigos e família pudessem me deixar mofando no silêncio sem perguntas, nem estaria ali.

Voltar para casa não era opção. Não depois de meu pai ficar tão feliz por me ver saindo sozinho. Eu não podia voltar para casa e dizer: Oi, pai. Desisti outra vez.

Além de que ele não disse nada sobre meu irmão. A mensagem tinha mesmo sido enviada só pra mim e se eu encarasse meu pai por muito tempo contaria a ele. Acabaria com o dia dele também. Ele ficou tão alegre na floricultura e, mesmo que negue, merecia um descanso e tempo só pra ele. Não precisava passar seu dia de folga me consolando. O mesmo para Dahyun e Yoongi. Então eu teria que me virar por pelo menos uma hora e meia. Só pra não levantar suspeitas.

Vi o Sr. Jung passando com copos de plástico. Se ele estava na escola, papai estava sozinho, provavelmente vendo tv enquanto tomava cerveja e comia um pote de geleia com colher. Ao lado do Sr. Jung, estava Jimin. Estava falando alguma coisa enquanto apontava para um grupo de meninas que andava pelo corredor. Ele me viu. Acenei. Ele piscou pra mim.

Virei a cara, virei de costas, enchi a boca com doce. Ele piscou pra mim.

ㅡ Hmm… ele está demorando. Vou sair procurar meu amigo. Tudo bem por você, Jungkook? ㅡ Taehyung perguntou, engolindo os doces que mastigava. Concordei.

ㅡ Claro, vai lá. Eu vou… andar um pouco e ver se encontro alguém conhecido. Nos vemos depois.

A paixão de Yoongi desapareceu pelas escadas, enquanto eu suspirei e bebi o resto do meu refrigerante. Fui pego de surpresa por Jimin atrás de mim e quase cuspi a bebida.

ㅡ Nossa, que susto, hyung...

ㅡ Perdão. Está gostando da festa?

ㅡ Sim. Os doces estão ótimos.

ㅡ Eu sei, já comi vários. Yoongi não veio?

ㅡ O irmão dele ficou doente. Ele está muito deprimido em casa.

ㅡ Eu imagino. Ele parece ser bem… festeiro. ㅡ Apontou com o dedo para Taehyung descendo as escadas, perdido. Ri.

ㅡ Ah, sim. Ele ama festas. E você? Está se divertindo? Para os professores deve ser mais trabalho que festa.

ㅡ Infelizmente, mas são ossos do ofício. Vou indo, Jeon. Nos vemos mais tarde.

ㅡ Até, hyung. ㅡ Enquanto via Jimin se afastar me lembrei de uma pergunta martelando dentro de mim. ㅡ Hyung, espere! Posso fazer uma pergunta? ㅡ Assentiu com a cabeça. ㅡ Por que pintou o cabelo de castanho?

ㅡ Quando apareci ruivo, quase fui demitido. Aproveitei ao máximo meus dias de vermelho, mas tenho que pagar as contas. Você deve entender. Nunca usa os brincos na escola.

Concordei. Apertei o copo plástico com mais força. Pensar que Jimin e eu dividíamos um mesmo sentimento me fez sentir próximo dele e isso deu arrepios. 

ㅡ Até logo, Jeon.

E ele foi. Me despedi, o vendo se afastar. Suas costas se misturando com a dos alunos.

ㅡ Até, Jimin…

O tempo passou. Não uma hora e meia ou duas, mas quarenta minutos. Quarenta minutos que passei vendo O Exorcista com alunos de outra turma. Tinha até uma criança escondida no canto, fugida de seus amigos e professores para assistir filmes proibidos. Me sentei ao lado do menino e o ofereci um doce. Assistimos parte do filme juntos. Saber que me sentia mais à vontade com uma criança de 9 anos que mal conhecia do que com pessoas da minha turma que estudavam o mesmo que eu e tinham minha idade me surpreendia um pouco.

Se Yoongi estivesse ali, teria dispensado o menino e me levado para fora, para ficarmos na grama falando mal dos outros ou jogando pedras em garotos que não gostamos. Uns dois anos antes tínhamos acertado uma bem no olho de um garoto que chamou Yoongi de "veadinho". Fugimos quando ele começou a chorar.

ㅡ Jungkook? ㅡ Taehyung apareceu na porta da sala, correndo os olhos por todos até me achar. Marchou até mim. ㅡ Qual é, Jungkook! Te procurei por todos os lados! Vem, o pessoal da minha turma se juntou com outra para jogar. ㅡ Me puxou pela mão, me carregando para fora. Acenei para o menino que via o filme comigo, cujo nome não sabia. ㅡ Você será o substituto do Yoongi.

Deixei que Taehyung me levasse até uma sala de aula e me sentasse no chão, em uma roda. Tinha uma garrafa no centro. Automaticamente olhei para a porta. Se os professores pegassem alguém jogando o jogo da garrafa seria advertência ou algo muito pior pra todo mundo. E eu não estava a fim. Não só de levar uma bronca horrível e ter um aviso de mau comportamento na minha ficha, mas também de participar de um jogo daquele tipo com pessoas que não conhecia. Até se eu conhecesse seria estranho. Fossem eles dar selinhos ou só confessar segredos sem graça, não queria participar.

ㅡ Taehyung, não quero brincar disso. Desculpe, mas eu não gosto. 

ㅡ Por favor, não vá ainda! Espere só chegar mais uma ou duas pessoas. E não vamos fazer nada errado, Jungkook. Se alguma boca encostar em outra será milagre.

Me calei, esperando que alguém viesse ficar logo no meu lugar. Algumas garotas me cumprimentaram e uma delas sentou ao meu lado. Tinha um rosto redondinho, cabelo preto comprido e olhos bem pequenos. Bati os dedos nas coxas, olhando para saída a todo tempo. 

ㅡ Qual seu nome? Você é da turma da Hyejin, não é? ㅡ perguntou ela, mascando um chiclete. Assenti. ㅡ Sou a Suhyun.

ㅡ Jungkook. 

ㅡ Aah, você é o amigo do Yoongi! Ele é legal, então você deve ser também. Não ligo muito para o que o pessoal babaca diz. Vocês parecem legais.

ㅡ Agradeço muito por isso, Su… Ah, qual sua idade?

ㅡ 18. Sou sua dongsaeng, não sou?

ㅡ S-sim, é sim. Mas não precisa me chamar de oppa. Jungkook está ótimo. Enfim, ah, Suhyun, agradeço sua gentileza e… e não quero que pense que é por sua causa, mas eu tenho que ir. Não gosto de brincar disso.

ㅡ Tudo bem, eu entendo. Você é tímido.

Ri, apertando os joelhos. Olhei para a saída outra vez. Um menino com máscara de lobisomem entrou, pensei ser o amigo de Taehyung e tive certeza quando ele se sentou entre mim e Tae.

ㅡ Nossa, Hoseok, que demora! Por onde andou?

Meu corpo gelou. Virei para o lado. O menino tirou a máscara. Me olhou de canto bem rápido, espremeu os lábios e observou o chão. Eu não conseguia parar de encará-lo.

Instantaneamente entendi porque o Sr. Kijoon me lembrava alguém. Jung Kijoon. Jung Kijoon. Jung Hoseok.

ㅡ Eu tenho que ir. Te vejo amanhã, Taehyung.

Me levantei e saí tão rápido que nem soube se ele me ouviu, porém não me importei. Estava tudo girando. Eu não sabia se era impressão minha ou tontura. Andei até o banheiro, passei água no rosto. Estava ofegando. Estava sem ar. Queria me trancar em algum banheiro. Me lembrei daquela noite outra vez.


"ㅡ Eu não odiei a sua roupa, Jungkook, eu… eu só, eu só não esperava, entende? Jungkook, você é diferente. Diferente do que eu, papai, mamãe ou Jihyo esperávamos. E você nos choca às vezes. Me perdoe por demorar a te entender, mas… juro que tento e sempre vou tentar, dongsaeng. Eu sou muito comum e você é… diferente. Isso assusta os outros às vezes, mas sua família te ama assim. Jungkook ㅡ deixou o sorvete de lado e segurou meus ombros, olhou nos meus olhos vermelhos e inchados ㅡ, não vou mentir: se você continuar sendo assim e se expressando assim, as pessoas vão odiar você. Vão te tratar tão mal quanto nessa noite. Mas isso não significa que você tem que parar, isso é escolha sua e tudo bem se quiser; só significa que vai ser difícil e você terá que ser forte. Entende? Mas não se preocupe, nós vamos estar com você. O hyung sempre vai estar com você."


Eu estava tentando ser forte. Tinha acabado de encontrar uma das piores lembranças do meu passado e estava doendo. Eu estava sozinho em um banheiro, chorando e prestes a vomitar. Olhando minha imagem no espelho e desejando morrer.

Os olhos vermelhos escorrendo… O que tinha naquele eu que o tornava diferente do menino que foi proibido de entrar na escola porque sua fantasia não era "apropriada" e chorou nos braços do irmão sentado na rua? O que me diferenciava daquela criança?

Eu ainda era fraco. Ainda era difícil. Mas ele não estava ali como prometeu estar.

ㅡ Jungkook? Você tá bem? ㅡ Ouvi a voz de Suhyun junto de batidas na porta. ㅡ Você não parecia bem. Taehyung quis vir, mas Hoseok o impediu. Aconteceu alguma coisa?

Enchi as mãos de água e joguei no rosto. Estava soluçando. Peguei papel higiênico e me sequei o máximo que pude. Tinha que sair. Tinha que ir embora. 

Jimin. Será que podia me ajudar? Estava tão ocupado!

ㅡ Su-Suhyun, pode me fazer um favor? ㅡ questionei, gaguejando devido aos soluços.

ㅡ Sim, sim! Claro! Do que precisa? Quer uma bebida? Vou avisar ao Tae que você não está bem.

ㅡ Não, não! Não faça isso! Suhyun, vá... vá até os professores e procure Park Jimin, tá bom? A-ache o Sr. Park e pergunte se ele pode me ajudar. Tudo bem? Só isso. Diga que se não puder, não tem problema. Pode fazer isso pra mim, Suhyun, por favor?

ㅡ Claro que posso! Já volto!

Ouvi os passos apressados dela e me sentei no chão do banheiro, ao lado de uma privada. Grunhi e enfiei o rosto nas mãos, morrendo um pouco mais a cada puxada de ar. Tentei me calar quando outro garoto entrou na cabine ao lado, contudo não pude. Apenas falei que estava bem e o escutei ir embora. Passaram uns 3 minutos e a porta foi aberta com força e a voz de Suhyun dizendo "Ele está ali" adentrou o ambiente, seguida da voz de Jimin.

ㅡ Jeon, você está aí? O que houve?

Sequei o rosto outra vez, respirei fundo e abri a porta. Jimin andou até mim, segurou meu rosto e o analisou. Queria desaparecer.

ㅡ O que aconteceu na sala, Suhyun? ㅡ ele perguntou, como se soubesse que eu não contaria.

ㅡ Nada que eu tenha visto. Ele só disse que não queria brincar e foi embora assim! O que ele tem? Devo chamar um médico?

ㅡ Não, não. Suhyun, obrigado por me avisar. Vá até a sala dos professores e avise que vou levar o Jeon pra casa e depois volto. 

Ela concordou com a cabeça, afoita, olhou nos meus olhos, me fez desviar o rosto, e perguntou:

ㅡ Nada mais? Ele vai ficar bem?

ㅡ Sim, vai. Seja rápida.

E então ela saiu. Jamais esqueceria seus olhos assustados. Era aquilo que eu fazia com as pessoas. Devia sempre me lembrar. Eu era uma preocupação constante, uma bomba relógio que estragava dias bons. E sempre seria.

ㅡ Vamos para o meu carro.

Jimin me guiou para fora até o estacionamento, entramos em seu carro e saímos. Não disse uma palavra. Não poderia. Não podia chegar em casa. Não tão cedo, não daquele jeito.

ㅡ Hyung, por favor, para o carro. Não me leva pra casa. Me deixa em outro lugar. Por favor, não me leva pra casa…

Minha voz soou tão baixa e fraca que quis me estapear. Jimin desviou os olhos da rua por um segundo, virou a esquina para outra rua. Não reconheci o caminho, no entanto confiava em Jimin e não temi.

ㅡ Por que não devo te levar pra casa? Você sabe que tenho que voltar pra escola.

ㅡ Sim, eu sei, eu sei, eu só… ㅡ Água salgada verteu em minha face outra vez. Cobri o rosto com as mãos e solucei. Tão envergonhado quanto deplorável. ㅡ M-me deixa aqui. Eu ando até algum lugar e você volta.

ㅡ Eu não posso te deixar, Jeon.

ㅡ Ninguém vai saber se você voltar rápido!

ㅡ Não é pela escola, Jeon. É porque me importo. Será que nossa conversa ontem não significou nada? Eu quero fazer parte da sua vida, Jeon. Quero te ajudar. 

Seu tom foi calmo, mas incisivo e atento. Fez tudo em mim se agitar.

ㅡ Mas você tem que voltar… ㅡ Solucei, passei o antebraço no rosto e grunhi. ㅡ Faz qualquer coisa, hyung, qualquer coisa, mas não me deixa em casa.

ㅡ Certo. Espere um pouco.

O carro parou em uma vaga vazia perto de uma farmácia. Jimin tirou o cinto, me mandou esperar e deixou o carro. Fiquei no banco do carona, soluçando e secando os olhos com a manga da camisa. Vi Jimin comprar alguma coisa e fazer uma ligação. Me senti muito mais que um incômodo. A noite dele também estava arruinada por minha causa.

Ele voltou com uma garrafa de suco de maracujá e uma caixa de lenços. Se sentou ao meu lado e me entregou a compra.

ㅡ Beba, vai ajudar. E seque o rosto.

Minhas mãos trêmulas seguraram a garrafa de suco. Não conseguia abrir. Jimin a pegou, tirou a tampa e me devolveu. Agradeci e tomei longos goles. Meus batimentos cardíacos mudando de ritmo. Parei quando o suco estava pela metade e minhas lufadas de ar se tornaram lentas. Deixei a garrafa de lado e sequei meu rosto com os lenços. Já conseguia enxergar e não sentia ânsia de vômito.

ㅡ Obrigado. O que… o que você disse à escola?

ㅡ Que iria demorar um pouco mais porque tive problemas com o carro.

ㅡ Lamento por ter te feito mentir. Vou assumir toda a responsabilidade por isso se quiser voltar atrás ou descubram.

ㅡ  Não pense demais, Jeon. Vai ficar tudo bem. Agora pode me dizer por que não quer ir até sua casa?

Suspirei, brinquei com a garrafa de suco na mão. Eu confiava em Jimin, contudo… naquele momento mal podia pensar. Eu teria fugido da situação se não estivesse sozinho com ele em um carro e dependendo dele para resolver tudo.

ㅡ Meu pai… meu pai ficou muito feliz quando eu disse que iria à festa mesmo sem Yoongi. Não posso aparecer assim. Não posso.

ㅡ E Yoongi? Não pode ir até lá?

ㅡ Hoje… hoje é um dia de folga e festa para todo mundo e eu não quero estragar a noite de ninguém. Sei que já estraguei a sua e parte da de Taehyung e Suhyun e, de verdade, eu sinto muito! Nem teria te chamado, mas precisava sair de lá e estava entrando em crise e eu sinto muito! Jimin, eu sinto muito por te tirar do trabalho e te fazer mentir e gastar dinheiro com suco e lenços e estar aqui agora me ouvindo me lamentar! Mas não quero estragar o dia de mais ninguém, então, por favor, só me deixa na rua de casa ou… não sei, não sei. Só não me deixe fazer mais ninguém que eu gosto infeliz.

Tinha voltado a chorar, não de forma desesperada, mas penosa. A culpa estava me corroendo. Tudo estava uma bagunça, colapsando, se misturando. De repente, eu não sabia mais quem ou o que era ou devia fazer. Subitamente, eu não era nada.

Começou a tocar aquela música. Aquela que ele me disse o nome uma vez; "Only". O som do violão e a voz suave do cantor adentrou meu interior, me fez encarar Jimin.

Ele me pediu para ir para o banco de trás. Se sentou comigo lá. Me puxou para perto, me colou ao peito dele e acariciou minha cabeça. O abracei após um momento, carregando em meu âmago a culpa de precisar de sua ajuda. 

ㅡ Não precisa dizer mais nada, Jeon. Só se acalme e pare de chorar, tá bom? Depois vemos o que fazer. Não pense em nada.

Os dedos dele na minha nuca, o bater de seu coração… Encostei meu ouvido mais perto. Sua melodia me distraindo junto da música. 

ㅡ I was only falling in love, coming from the cold, buried under heat… Lembra? ㅡ perguntou baixinho. ㅡ  Eu só estava me apaixonando. Vindo do frio, enterrado sob o calor.

O segurei mais forte, afundando tão profundamente que quase sentia sono. Me prendendo nele e seu cantarolar.

ㅡ Cut me like a rose, turn me like a beast…

Até que eu não fosse um nada, mas sim não sentisse nada. Até que eu fosse uma cápsula vazia, aguardando os próximos sentimentos.

ㅡ Hold you to the floor, heavy like the force between us…

Aproveitando o primeiro renascer que Jimin me proporcionava. 

ㅡ I was a ghost, halted in flight, bleeding…



Notas Finais


A música que tocou no carro, não sei se já linkei: https://youtu.be/WC1hSeomsAc

Link de como Sr. Jung parece, porque, sério, eu acho esse homem MUITO parecido com o Hoseok: https://images.app.goo.gl/2tEa7ptqA2Q7w5H97

Enfim... quanta coisa!! KSKSKS
Até!! 💗🍉


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