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História Sutileza - Capítulo 20


Escrita por: Endora_

Capítulo 20 - Sonho


Fanfic / Fanfiction Sutileza - Capítulo 20 - Sonho

Agnes olhou Gianfrancesco nos olhos, como raramente fazia, refletindo sobre aceitar o convite dele ou não. Aceitou, pensando que se aquela noite pudesse ser a última, a única feliz de sua vida, era melhor aproveitá-la ao máximo. Cheia de coragem, tomou o braço dele e desceu as escadas a seu lado mais uma vez. Ouviram a música terminar, desceram alguns degraus em silêncio, e logo iniciou-se uma nova valsa.

Ele lhe deu uma taça de champanhe para beber antes de tomá-la em seus braços e levá-la para o centro do salão.

— Eu não tenho ideia do que fazer. Vai precisar ser paciente comigo. 

— Serei. São só três coisas: relaxar, sentir a música, e me acompanhar. Eu conduzo você.

Ela pôs sua pequena e fria mão sobre a dele, quente e forte, e a sentiu se fechar gentilmente em torno da sua, tão delicada. Com a outra mão em suas costas, ele a puxou para mais perto de seu peito, e começou a dançar bem devagar, abaixo do ritmo dos outros, para dar-lhe tempo de se acostumar àquele movimento. Aumentou gradualmente a velocidade de seus passos, até estar sincronizado com os outros pares.

Agnes mantinha seu rosto virado para o lado, para ocultar o sorriso tolo, infantil, que trazia nos lábios. Apesar de ter o coração exatamente como estava um segundo antes do desmaio na igreja, a cada volta que dava nos braços de Gianfrancesco, sentia-se mais leve, mais envolta num sonho. Um sonho bonito, sensível, onde todas aquelas pessoas inconvenientes desapareciam até que restassem somente eles dois, sozinhos num cenário pintado por Renoir, onde a música que dançavam vinha de dentro das flores. Junto com esta doce sensação, crescia também uma euforia, que se expandia dentro de seu peito e aguardava por explodir em gritos de felicidade.

A música terminou, trazendo Agnes de volta à realidade, mas era uma realidade nova, onde ela estava feliz, o coração ainda saltava alucinadamente, e ela ainda sentia aquela vontade de gritar, de correr com ele pelos jardins, para bem longe de toda aquela gente, e se esconder entre as árvores, e ali mesmo, sobre as folhas caídas, entregar-se a ele.

Passou de relance por sua mente a ideia de que ela devia se sentir mal com aquilo. Era tão errado. Gianfrancesco pertencia a Maria Madalena, e Agnes, enquanto conformada em meramente viver seu amor secreto, estava em paz com sua consciência, mas quando se flagrou desejando ser tomada por Gianfrancesco e tomá-lo para si, passou a se torturar com o sentimento de culpa. 

Gianfrancesco parecia ter sido a única coisa capaz de devolver calor e brilho à vida da senhora Tremaine, e sequer cogitar retirá-lo de seus braços era um ato grave de traição, uma deslealdade terrível, e a Srta. Winter não podia lidar com tanto remorso. Chorava, perdia o sono, se corroía. Que pessoa horrível! Tinha, em Madame, sua melhor amiga, e sentia que lhe devia tanto…

Vinha sendo atormentada por estes pensamentos fazia alguns dias, mas naquele momento, negou-se o direito de pensar no assunto. Estava tendo a chance de ter Gianfrancesco para si durante uma hora ou duas, e de poder se lembrar disso por toda a sua vida. Não podia arruinar esta linda lembrança com uma crise de consciência.

Ele a viu sorrir como nunca antes, e assim que uma nova música começou a correr pelo ar, tomou-a em seus braços novamente e voltou a conduzi-la pelo salão. Ela deixou a cabeça pender para trás e achou tão bonito ver o teto girar…

Por alguma razão, ver Agnes naquele estado de alegria fez bem a Gianfrancesco. Exceto por Diana, não havia nenhuma outra mulher no salão com quem ele quisesse dançar. 

Agnes se sentia como uma linda borboleta, girando, cortando o ar com a leveza de um pássaro. Como se aquela noite fosse durar para sempre, não se preocupava com mais coisa alguma. Estava nos braços de Gianfrancesco, rodopiando ao som de uma valsa. Era a única coisa que importava.

— Está cansada? — perguntou, ao fim da segunda dança.

— Não, vamos dançar mais uma vez. Só quero beber alguma coisa. 

— Espere bem aqui.

Tal qual uma criancinha, Agnes ficou chateada e inquieta com aquele breve afastamento. Ele voltou em menos de um minuto, com duas taças de champanhe.

Dançaram outra vez. O álcool subia à cabeça de Agnes, e ela começava a deixar de se preocupar em esconder dele o que sentia. Abraçou Gianfrancesco quando a música terminou, colando seu corpo ao dele. Ria displicentemente ao conversar com o italiano. Ele permitiu que ela ficasse tão próxima de seu corpo porque gostava de calor humano, de toque, de contato físico, e não precisava se preocupar com aparências. E ela olhava tolamente para cima, a esperar por um beijo que não viria.

Diana flagrou a cena, Agnes com a cabeça encostada no peito do italiano, agarrada a ele como se seu corpo fosse um mastro de navio durante uma tempestade. Ele não parecia dar a ela a mesma importância, tinha um dos braços solto ao lado do corpo, e o outro estava ocupado sustentando uma taça de champanhe.

O coração de Madame Tremaine disparou e ela sentiu as pernas enfraquecerem. Se assustou com o barulho da taça que segurava a se estilhaçar no chão. Apoiou-se discretamente numa mesa e bebeu um pouco para tentar se recompor. Os músicos faziam uma pausa. Ela se sentou e começou uma conversa com uma amiga que conhecia havia 15 anos, mas de quem nunca fora muito próxima. 

Viu Gianfrancesco pegar Agnes pela mão e puxá-la para fora de suas vistas. Tentou esconder sua fúria num gole de champanhe e procurou não pensar mais nisso, pelo menos até o fim da noite.

O frio ar noturno contra o corpo agora quente de Agnes a fez arrepiar-se toda.

— Está arrependida de ter ficado na festa?

— Esta é a melhor noite da minha vida! Obrigada por não desistir de mim.

— Vamos caminhar um pouco?

Gianfrancesco esperou que estivessem já um pouco afastados da casa para começar algum assunto. Caminhavam calmamente por uma alameda de ciprestes quando ele fez o primeiro comentário:

— Eu achei que fosse mais velha do que Diana, mas você é mais jovem.

— Eu tenho 47 anos — confessou, após uma certa hesitação.

— Você ficou mesmo desconcertada com o que flagrou hoje pela manhã, não foi?

— Eu não estava esperando por aquilo.

— Mas foi apenas um beijo. O melhor já havia passado.

— Um beijo como aquele é um pouco demais para mim.

— Mas você já foi beijada. Não foi?

— Fui… mas por que esta conversa? Está me deixando encabulada.

— Me conte sobre você. O que fazia antes de trabalhar para os Tremaine? 

— Acho que eu não existia. Eu nasci na casa da família Tremaine. Não nesta, que foi construída para Madame, mas na casa dos pais de Lorde Christopher. Meu pai era jardineiro lá, e minha mãe cozinheira. Eles se apaixonaram e se casaram, e aqui estou eu. Ele morreu quando eu tinha oito anos, e ela quando eu tinha 14. O sogro de Madame me mantinha lá, como sua protegida, gostava muito dos meus pais e não me deixaria desamparada, mas a mulher dele tinha um ciúme tão bobo! Ele morreu pouco depois de Madame ter entrado para a família, e como Elizabeth Tremaine ia me pôr na rua, ela decidiu me acolher. E aqui estou eu até hoje.

— E você nunca pensou em ter sua própria vida?

— Pensei, mas não funcionou — fez uma pausa, a princípio sem pretender voltar a falar, mas depois continuou: — Eu me apaixonei uma vez, mas ele só queria se divertir comigo. Eu não deixei, e ele sumiu. Em uma semana ouvi falar dele outra vez. Estava casado com uma jovem de posses. Jamais voltei a pensar nestas coisas. Mas estou bem agora. Tenho uma boa vida.

— Você acha suficiente?

— Não sei. Já cheguei a achar. Mas agora… bem, poderia ser pior. Acho que não tenho do que me queixar.

De repente ele se lembrou do que Joseph havia dito mais cedo, sobre o pulso cortado de Agnes. Precisava ver aquilo por si mesmo.

— Posso ver suas mãos?

Sem pensar ou estranhar a pergunta, Agnes estendeu-lhe, obedientemente, suas duas mãos. Ele despiu a longa luva de uma delas, depois da outra. Virou as palmas para cima. Lá estavam as cicatrizes dos cortes, que não procuravam ser discretas. Ela carregava a marca dos suicidas. Ele passou o dedo por cima de uma delas, e ela recolheu suas mãos, desconcertada.

— Como vê, eu nem sempre gostei da vida. Hoje estou conformada. Acho que é o melhor que posso conquistar.

— Você quer voltar? Está frio aqui fora.

Ela abraçou o braço direito dele, e o acompanhou de volta até a casa. Vestiu suas luvas novamente antes de entrar. Ele lhe deu apenas mais uma dança, e despediu-se dela com um beijo em cada mão. 

— É chegada a hora de nos separarmos. Foi um prazer dançar com você esta noite, Agnes. Aproveite a festa sem mim a partir daqui.

Virou-lhe as costas, deixando-a sozinha e desolada no salão. O sonho havia terminado, e ela agora sentia-se pequena naquele lugar tão grande, como uma criança perdida numa estação de trens. A opressora sensação de abandono a fez querer buscar refúgio entre as paredes de seu quarto. Não esteve presente para ver o tumulto que se seguiria dali menos de dez minutos.

Gianfrancesco encontrou Diana a movimentar-se pelo lugar, por um instante sem estar acompanhada de ninguém. Pegou-a pelo braço e a puxou para um canto.

— O que deu em você?

— Se não dançar a próxima comigo, acabou.

— Acabou o quê? 

— Acabou tudo. Eu volto para a Itália.

— Não! Querido, por favor — pediu, espantada.

— Vai dançar comigo?

— Claro, claro, o que você quiser. 

— Ótimo, finalmente! Venha, venha.

Tirou os óculos e guardou num bolso interno antes de começar a valsar com Diana. Queria ver apenas a ela, e mais ninguém. Estava contente com ela em seus braços, e disposto a esquecer todo o mal estar que tivera até aquele momento diante das seguidas rejeições a seus convites para dançar. Ela havia aceito, por fim, dançar com ele diante de todos. Uma certa pressão havia sido necessária, mas ela havia aceito. Ele estava contente.

Mas uma farpa estava para insinuar sua ponta potencialmente nociva na carne de Gianfrancesco.

Terrence Wright se aproximou dos dois, e dirigindo-se a Lady Tremaine, como se Gianfrancesco fosse invisível, perguntou:

— Posso raptá-la para esta dança?

Gianfrancesco não esperou para saber se ela ia aceitar ou não. Acertou a face de Terrence com uma esquerda fulminante, e tão violenta que o homem foi ao chão. As pessoas ao redor só perceberam o que estava acontecendo quando o advogado se levantou e acertou o rosto do italiano com igual violência.

Os pares à volta deles foram aos poucos parando de dançar, até que foi solicitado à orquestra que suspendesse a música. Os dois continuavam a trocar golpes como se quisessem aniquilar um ao outro. Trêmula, Madame Tremaine apenas assistiu à cena sem saber como pôr fim àquilo. Viu os três amigos de Gianfrancesco, a quem ela detestava, vibrando com a luta, torcendo pelo amigo como se fosse uma competição de boxe. Aproximou-se deles e disse palavras imperativas para que pusessem fim àquela altercação. Dois deles puxaram Gianfrancesco para um lado. O terceiro recebeu ajuda de um outro cavalheiro para afastar o advogado. Ambos se debatiam na tentativa de se desvencilharem dos apaziguadores e terminar a luta.

— Nós vamos terminar isto lá fora! — gritou o Italiano.

— Não! Ninguém vai terminar coisa alguma! — interveio a dona da casa — Vá para a sua casa, Terrence. E você, vá para o seu quarto. Agora, por favor.

Terrence, caminhando com dolorosa dificuldade, e Gianfrancesco com o sangue que descia de seu nariz escorrendo por entre os dedos, encararam-se com hostil desprezo até se perderem de vista. William acompanhou Gianfrancesco até as escadas, e ele subiu sozinho.

Abaladíssima, Lady Tremaine tentou levar a festa adiante sem deixar transparecer o desconforto que aquela situação lhe causara, mas o ar amargo não a abandonaria até o dia seguinte. 

Agnes, só e alegre em seu quarto, ainda tinha a sensação de flutuar, sorria e cantarolava, e dançava sozinha, vestindo apenas suas roupas de baixo, quando ouviu batidas na porta. Foi só então que se deu conta de que a música havia parado.

— Agnes, está acordada?

Seu coração parou por uma fração de segundo ao ouvir Gianfrancesco à sua porta depois de tudo o que aquela noite havia sido. Parecendo perdida em seu próprio quarto, demorou a encontrar seu robe, e por fim abriu a porta. Levou um susto ao ver o estado do rosto dele. Mas ele foi bem humorado, apesar das dores que sentia:

— Fiz arte. Cuida de mim?



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