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História Terapia - Capítulo 6


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Notas do Autor


Esse capítulo é um pouco mais longo.
Aproveitem :-)

Capítulo 6 - Sessão II


Sentada nesse sofá começo a reparar melhor a sala. O tapete neutro, as paredes brancas, a disposição dos móveis, os objetos de decoração. Tudo parece estar no lugar exato onde deveria estar.

Tem um quadro em preto e branco. É uma foto. Parece uma paisagem, a vista de um deck em uma praia qualquer. Apesar de não ter cor, o sol parece grandioso e a moldura preta se destaca na parede infinitamente branca.

A poltrona em couro marrom, acompanhada de uma pequena mesa lateral branca que se destaca por acomodar uma coruja com traços geométricos em tom de bronze. Laura deve gostar de corujas porque não vejo muitos objetos de decoração além de livros na estante e uma lumiaria de chão.

O sofá é aconchegante, eu dormiria fácil aqui. Adoro linho. E esse tom de cinza deixa o clima sério e ao mesmo tempo calmo.

As cortinas são longas, mas não privam por completo a passagem de luz. O que me deixa mais a vontade. 

O relógio grande na parede marca 14:28h. Laura entra munida de sua agenda. Realmente leva a sério a pontualidade. Admirável. Dinah poderia ser assim também.

 

- Oi Camila. - Laura senta e cruza as pernas – Está confortável?

Tiro a bolça do meu colo para aparentar estar mais à vontade e só aceno com a cabeça que sim.

- Me conte como foi sua semana? O que fez desde a última sessão?

- Como assim o que fiz? É uma pergunta muito abrangente. Desde a última sessão passaram-se quase 7 dias, são mais de 150 horas até o exato momento.

- Engraçado. Na nossa conversa anterior você relativizou o tempo, como desimportante. Lembro de chamar sua atenção para a pontualidade e hoje você não só chegou no horário como está contabilizando o tempo. O que mudou?

Laura tem uma memória ótima, eu nem me lembrava dessa minha fala. Será que conto a ela que não me atrasei por descuido e sim por falta de coragem de pisar naquele consultório? Melhor não. Só respondo:

- 24 de março.

- O que significa essa data?

- Essa semana eu recebi um convite pelo correio. Um casamento. Uma amiga do tempo da faculdade.

- E você é próxima dela?

- Convivíamos. A gente se esbarrava pelo alojamento, corredores, festas da fraternidade, amigos em comum em geral. Esses dias a encontrei em um café, parece que ela voltou a morar em Miami.

- Casamento é um evento muito importante. A gente divide momentos assim com pessoas com quem temos apresso, que torcem pela gente e não com quem a gente esbarra pelos corredores, festas e cafés. Da forma com que você está se colocando, me parece indiferente a felicidade dela. Me é estranho o convite.

- Não é bem assim. Eu gosto da Ally, talvez eu tenha minimizado um pouco isso. Devem ter uns 5 anos que não nos víamos. Eu era bolsista e Ally também, por isso nos encontrávamos fazendo atividades extras no campus como matérias para o jornal interno, grupos de reforço acadêmico, ações de arrecadação para doações e eventos... isso nos aproximou um pouco, além de... é que é complicado. Ally me lembra uma fase que deixei para trás e não quero relembra.

- Qual sentimento te vem com essas lembranças?

- Raiva, mágoa, perda. – Sem olhar para ela, percebo que se movimentou na poltrona pelo rangido do couro, talvez tenha descruzado as pernas, ou cruzado novamente.

- Tem a ver com a montanha russa? – Ela questiona.

- Talvez.

- Camila me conta um pouco sobre a sua infância. O que te vem a memória? – Laura troca o assunto, talvez tenha sentido o meu desconforto.

- Nasci em Cuba. Mas dessa época não tenho muitas lembranças, as vezes me confundo com as fotos e as histórias que minha mãe me contava, me pego na dúvida se realmente as vivi ou se é espelho do que ela dizia, sabe?

Cheguei em Miami com 5 anos. Minha memória de criança era o cheiro da maresia. O sol cruzando o fecho da janela que não fechava direito.

Meu pai era advogado em Cuba, mas aqui nos EUA, ele trabalhava como vendedor em uma loja de departamento. Com o tempo as coisas foram melhorando financeiramente para a gente. Quando criança eu não tinha essa noção de dinheiro. Acho que só me dava conta quando chegava o Natal e não tinham presentes na árvore.

Depois meu pai virou gerente da loja e com o tempo abriu uma franquia só dele. Já minha mãe, fazia paisagismo. Sempre gostou disso. E ela é boa mesmo.

Sofia é um temporão. Temos 10 anos de diferença. Minha infância foi mais feliz ao lado dela.

- Como é o seu relacionamento com seus pais?

- Meu pai morreu pouco depois que entrei na faculdade. Quando criança meu pai era o meu herói. Lembro dele me colocando não ombro, brincando comigo na sala de casinha.

Quando Sofia e eu brigávamos, ele obrigava a gente a ficar um tempão abraçadas. Dizia que irmãos não podiam brigar, por que o dia em que ele e Sinu não estivessem mais aqui, seriamos só nós duas. Uma ajudando a outra.

Com o tempo meu pai ficou mais distante de casa. Ausente nos fins de semana. Não ia mais nas apresentações ou reuniões da escola. Sentíamos muito a falta dele, principalmente a Sofia. O trabalho sugava ele.

Minha mãe, sempre foi do lar e muito religiosa, com a ausência do meu pai ela se distraía indo as missas e fazendo arranjo de flores,  que depois evoluiu para paisagismo quando conheceu a Céu (dona da floricultura) em uma Mostra de Orquídeas no Centro.

Me acostumei com a ausência do meu pai, e com a frieza progressiva da minha mãe.

Eu estudei na Universidade de Miami (U.M.), não era distante de casa, mas quando surgiu a oportunidade de morar no campus, não pensei duas vezes. Queria muito sair de casa.

- Porque essa vontade de sair de casa?

- Eu era uma jovem restrita a escola, igreja e casa. Presenciava as constantes brigas entre meus pais. Me colocavam como um para-raios entre eles, e fazia de tudo para amortecer ao máximo o que chegava na Sofia. Depois que ele morreu me mudei para o alojamento. Acho que só queria me distanciar de tudo.

- Me conte um pouco sobre o seu pai. Como foi essa perda?

- Meu pai viajava com frequência a negócios. A loja tinha muitos fornecedores e clientes em diversos estados. Sua última viagem era para Geórgia, mas só descobrimos depois que na verdade nunca teve a intenção de ir para lá. Ele morreu em um acidente de carro no Norte de Miami quando foi encontrar a amante em um quarto de hotel. A polícia rastreou a reserva do hotel e foi um choque para a minha família.

Imagina a Sinu, “exemplo” de mãe e esposa, religiosa ao extremo. Ela não só perdeu o marido e pai dos filhos dela, mas perdeu também o espelho de família perfeita.

- Como foi esse período de mudança para você com a perda do seu pai?

- Ninguém nunca me perguntou isso. É difícil até de responder.

Eu me lembro do telefone tocando. O som dele nítido no silencio de uma manhã de domingo. Do desespero da Sinu ao atender o telefone, o grito estridente dela que acordou a Sofia.

Eu lembro da falta de ar. De perder completamente o chão. Da sensação de tontura. Por mais ausente que fosse, ele ainda estava lá. Sempre esteve. E de repente, não estava mais.

Com o tempo a falta começa a assentar na rotina, e a gente se “acostuma” com a ideia de perda. Mas ainda me pegava ouvindo o barulho das chaves quando ele passava pela porta. Reconhecia o cheiro do perfume dele em pessoas desconhecidas no ônibus ou numa fila de banco. Às vezes ligava para o celular dele só para ouvir sua voz na caixa postal.

A faculdade me ajudou muito nesse período. Senti a necessidade de sair de casa. De estar em um ambiente novo e morar no campus foi libertador para mim.

- É absolutamente normal desejar a mudança de ambiente para criar novas lembranças. Novas vivencias não diminuem a relevância das antigas, mas ajudam a cicatrizar e amenizar perdas e dores. Entendo o quanto foi difícil para você passar por esse momento e ainda ser solidária a sua mãe e irmã. Senti isso na sua fala.

As vezes as pessoas ficam com medo da mudança. Medo de sair da zona de conforto e se jogar em um universo novo com uma rotina nova. Mas com você foi exatamente o contrário. Sua necessidade de mudar de ambiente foi seu respiro. Seu folego. Seu ato não foi só corajoso, mas necessário para sua saúde emocional.

Vamos ficar por aqui e na próxima sessão continuaremos de onde paramos. Ok?



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