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História Tongue Tied - Capítulo 46


Escrita por:


Notas do Autor


Boaaa noite!1!!! (LEIA GRITANDO)

Tô sem saber o que fazer com a informação de que acabou. Nunca pensei que duraria tanto, e agora que chegou ao fim, estou meio em choque.

Bom, mas sem delongas, bora para o fechamento dessa porra?? :)))

Boa leitura!

Capítulo 46 - When Roses Are On The Grave - Final


  Um borrão.

 

  Tudo era um borrão.

 

  Uma distopia, um pesadelo, o fim do mundo.

 

‘’ -Ela não tá respirando, porra, ela não tá respirando! – Harry gritava desesperado, sacudindo o corpo imóvel de Lauren em seu colo numa tentativa falha de reanimá-lo.

 

  Uma buzina alta estourou na lateral do táxi assim que o motorista furou mais um sinal vermelho. A cada grito apavorado dentro do carro, o homem parecia ficar mais rígido. Não importava o quanto ele acelerasse, o caminho só parecia ficar mais e mais distante.

 

-Calma, ela vai voltar! – Keana rebateu com determinação, voltando a massagear o peito da irmã. –  Vamos, Lauren… –  Sussurrou com agonia, pela primeira vez deixando sua pose confiante cair. – Você prometeu! ‘’

 

  Memento Mori é uma expressão em latim que quer dizer: lembre-se de que você vai morrer. Desde muito pequenos, somos ensinados que o fim é uma das únicas certezas da vida, e, embora evitemos criar caso quanto a isso, sabemos que inevitavelmente o nosso dia chegará. Contudo, o que, efetivamente, fazemos de diferente sabendo disso? De que forma a consciência da morte afeta nossas escolhas? De qualquer jeito, deveria afetar?

 

  A palavra morte pode também ter o sentido de fim, e nesse contexto, é possível afirmar que, por mais habituados que estejamos com os encerramentos, ainda cometemos o erro de nos manter apegados a certas circunstâncias como se elas fossem permanecer da mesma forma, inalteradas. Procuramos segurança, certeza, estabilidade… Acontece que, a natureza da vida, por si só, é mutável e impermanente. O que deixou de ser, jamais, sob hipótese alguma, voltará a ser igual foi antes, independente do quanto tentemos dar um passo atrás e recuperar. 

  

  Muitas vezes nos prendemos desesperadamente ao que já passou e ansiamos voltar atrás, quando na verdade, estamos desejando algo que não existe mais. Como indivíduos, durante a vida, estamos constantemente morrendo na forma de uma identidade e ressurgindo na forma de outras identidades. E, de um modo geral, nós estamos sempre em algum lugar, aspirando ir para um outro lugar. O ciclo contínua, e a permanência é apenas uma ilusão. Nós, assim como cada componente da natureza que nos cerca, desde um pequeno átomo até as teias que maquinam o destino, estamos em um constante processo de transformação e renascimento. 

 

  E assim também acontece com as nossas vidas, que a cada respirar, se encaminham para o desfecho final.

 

  Porém, ainda que estejamos familiarizados com a ideia, dificilmente estamos prontos para despedida quando ela chega.

 

  ‘’ O carro seguia com velocidade na pista da esquerda, costurando e passando todo e qualquer obstáculo com agilidade. Tentando se fazer ouvida sobre o barulho, Ally tinha o celular no ouvido e uma expressão aflita enquanto comunicava ao hospital a situação. Keana se revezava entre a massagem cardíaca e a respiração boca a boca, não se permitindo parar nem por um segundo. Harry quase hiperventilava de nervoso, mas tentava ajudar a fotógrafa da maneira que podia. 

 

  Enquanto isso, sentada no banco da frente,  eu estava em choque.

 

  Absolutamente em choque.

 

  Eu mal piscava enquanto a assistia daquele jeito; pálida e mole no banco de trás. Embora minha mente estivesse enevoada e longe de absorver o que estava acontecendo, eu segurava sua mão com toda minha força enquanto meu interior inteiro berrava: por favor, não vá.

 

  Não vá nunca.’’

 

  Mas no fim das contas, o que é a morte para você?

 

  Para algumas religiões, a morte é um recomeço; o encerramento de um ciclo para o início de outro. Para outras, uma passagem; uma transição.  

 

   De modo subjetivo, para os cansados, descanso. Para os céticos, uma incógnita. Para os acordados, volta para casa. Para os atrasados, a pedra definitiva que os impediu de chegar. 

 

  E quando ela vier, como a receberá?

 

  Com um sorriso? Com horror? Com lamentação? Com aceitação?

 

  Talvez já tenha ouvido falar isso antes, mas repito: os funerais não foram feitos para os mortos, mas sim, para os vivos. Devemos lembrar que nosso tempo aqui é limitado, contudo, o daqueles que amamos também é. Nossos amores se vão; e se vão deixando um buraco que nada jamais poderá preencher. 

 

  Afinal, o que é a morte para quem fica?

 

  Para família, tristeza. Para os amigos, saudade. Para os inimigos, um suspiro. Para os amantes, uma promessa com sombras cruéis de indagação: que nos encontremos de novo.

 

  Quando alguém se vai, inevitavelmente, pensamos. Pensamos nos momentos, nas lembranças, nos pequenos gestos, em como a pessoa nos fez sentir, nos motivos que fizeram com que a amássemos… Pensamos em tudo o que fizemos, mas principalmente, pensamos no que deixamos de fazer.

 

  Pensamos nos erros, nos desencontros, nas omissões, naquilo que deixamos para mais tarde quando poderíamos ter feito antes; pensamos no que poderia ter sido, e em tudo o que nunca vai ser. Então, sentimos saudades de momentos que jamais acontecerão. Ah, e dói! Como dói! São tantos ‘e se’... 

 

  Se não lutarmos contra esses pensamentos, eles nos imprensam na cama e nos mantém lá para sempre.

 

‘’ Com um tranco violento, o taxista parou o carro quando chegamos a entrada do hospital. Mal pude esboçar reação, pois, mais rápido do que pude acompanhar, Harry escancarou a porta e se pôs a correr com ela. Nossas mãos foram separadas, e como se estivesse em outra dimensão, fiquei ali parada; encarando o laço que se desfez.

 

  Mas o momento não durou muito. Talvez tenha durado apenas um segundo, no máximo dois. Uma equipe médica já nos aguardava na rampa, e Harry mal deu meia dúzia de passos antes que mãos fortes a puxassem para uma maca.  É difícil descrever a movimentação que ocorreu nos instantes seguintes, o que consigo dizer é que no meio de toda a confusão, uma enfermeira exclamou: ‘ ela está sem pulso ‘ 

 

  E foi esse o momento em que despertei.

 

  Se antes eu estava imóvel, atônita, em um disparo, eu já me encontrava jogada sobre seu corpo, determinada a não deixar nada e nem ninguém levá-la. 

 

-Lauren, sua desgraçada, você não vai fazer isso comigo, ouviu?! Não vai! – Agarrei os dois lados de sua blusa, sacudindo seu corpo com violência. Logo vários pares de mãos me seguraram, lutando para me tirar de cima dela, mas ao invés de ceder, o que eu fazia era a apertar mais e mais. – Reaja! F-Faça alguma c-coisa! Não ouse, Jauregui, não ouse!

 

-Senhora, por favor, estamos perdendo tempo!

 

  Não sei quando comecei a chorar, só percebi que estava aos prantos quando tentei gritar e fui impedida por uma queimação intensa na garganta. Lutei bravamente contras os braços que tentavam me levar para longe do meu amor, mas um puxão mais forte acabou conseguindo me afastar. Nisso, não demorou nada para que os médicos saíssem em disparada com a maca. 

 

-NÃO! Não! – Me debati desesperadamente contra os braços que me prendiam, tentando a todo custo voltar para perto dela. Eu não ouvia nada, eu não pensava em nada; tudo em mim, desde os pensamentos até as terminações nervosas, era um vislumbre distante. Exceto o terror. Ah, este era real e me asfixiava sem piedade com suas garras maldosas. 

 

-Camila, por favor! 

 

-Não! 

  No fundo, eu sabia que era inútil lutar contra o corpo que prendia o meu, mas isso não me impediu de tentar. E eu tentei, e briguei, e gritei até ver o corpo pálido da minha gringa desaparecer pelo corredor branco. Minhas forças se foram junto com a imagem dela e eu desabei, incapaz de manter o próprio peso de pé. 

 

  Eu não conseguia enxergar, ou ouvir, ou falar. 

  

  Era como se naquele momento miserável, eu nem sequer existisse. 

 

  Minha carne estava ali, mas minha respiração, meus pensamentos e minha existência me deixaram para ir acompanhá-la.

 

  E acompanhariam aonde quer que ela fosse. Seja lá onde fosse.

 

  Oh, mas se eu soubesse!

 

  Ah, se eu soubesse… ‘’

  

  Ora, se a única certeza que temos é a morte, por que não me deu flores em vida?

 

   Mas veja bem, tenha piedade de si mesmo. Fazemos o que podemos com a maturidade que temos no momento, e mesmo que sem querer, a realidade é que as pessoas que amamos, são as que nós mais ferimos. Ainda que o último momento de vocês tenha sido uma tragédia: se perdoe. Independente do quanto um momento possa ser significativo, o que mais vale é o conjunto deles. 

 

  Ainda assim, quem pode nos culpar por esquecer da morte, ainda que ela esteja o tempo inteiro baforando em nossos pescoços? Somos humanos e falhos, predispostos a aprender através da dor. E na maior parte do tempo, estamos ocupados demais simplesmente vivendo. 

 

  Aqueles que amamos jamais nos deixam de verdade; eles criam morada nas nossas mentes e corações e lá vivem até o último respirar. Vivem, mas apenas lá, pois se tratando do material, lugares que um dia foram especiais serão eternamente assombrados pela presença sufocante da ausência. 

 

  Quando algo é prioridade em nossas vidas, damos um jeito. Por isso, não deixe o que realmente importa pra depois, não conte com a sorte.

 

  Às vezes contamos com o mais tarde, e não dá tempo.  

 

  Mostre amor agora e a cada minuto como se estivesse prestes a dizer adeus. 

 

  Me dê flores, me ame loucamente enquanto estou aqui.

 

  Pois eu ei de ir.

 

  Oh, eu estou indo.


 

Tongue Tied! - Capítulo Final: When Roses Are On The Grave.


 

-Normani, o pessoal do Texas deu notícias? – Pergunto sem deixar de revirar a prateleira debaixo do balcão atrás das chaves. 

 

-Sim. – Responde sem ânimo. – O Joe disse que a previsão do pouso é ás 19 horas.

 

-19 horas? Droga, estou atrasada! – Passo a mão pelos cabelos com impaciência, nervosa por não encontrar a porcaria das chaves. 

 

-Camila, o que você está procurando? – Segura meu ombro quando tento passar. – Talvez eu possa te ajudar.

 

-As chaves da moto! – Bufo frustrada, começando a coçar o pescoço. – As pessoas estão chegando, vieram de longe por ela e eu ainda nem arrumei o lugar onde vão dormir!

 

-Calma, não precisa surtar, já está tudo resolvido. 

 

-Resolvido como? – Me solto de suas mãos, indo prosseguir com a minha busca em outro canto. – Lá em casa não tem mais espaço, o andar de cima daqui já está quase todo ocupado e-

 

-Camila. – Me interrompe, puxando meu braço para que eu ficasse de frente para ela. – O Justin disponibilizou a fazenda, lembra? Eu te avisei meia hora atrás.

 

-Ah é? Bom, isso é bom! – Pisco rapidamente, um pouco confusa. Não lembrava dela ter me dito nada. – Tá, mas de qualquer jeito, eu tenho que ir lá! – Anúncio em um disparo, esfregando o rosto com preocupação. –  Alguém precisa arrumar as camas, orientar o pessoal e tudo mais. 

 

-O Justin já providenciou tudo, já está tudo ordem, só relaxa!

 

-Não sei, você sabe como ele é irresponsável, ainda acho melhor ir lá dar uma conferida. – Maldição de chaves! Juro que tinha as deixado no balcão, algum filho da puta deve ter sumido com elas. Melhor ir de Uber mesmo, estou perdendo tempo e-

 

-Camila, olha pra mim. – A mais velha segura meu rosto, o apertando de maneira que não me dava outra escolha se não encarar seus olhos. – Você não dormiu nada nos últimos três dias e não parou um minuto sequer. Eu sei que a situação é fodida e sei o que está tentando fazer, ma-

 

-Não, você não sabe de nada! – Empurro seus pulsos, irritada. – Se soubesse, estaria me ajudando com as chaves ao invés de ficar na merda do meu caminho!

 

-Uau, ok, sem toques. – Murmura cansada, erguendo as mãos em um gesto de rendição. – Tudo bem, posso não saber de nada, ainda assim, não existe a mínima chance de eu te deixar subir em uma moto nesse estado. Xingue o quanto quiser, a realidade é essa. 

 

  Após sua determinação, fiquei a um triz de explodir, porém, ao ver a tristeza estampada no semblante da mulher, a raiva se esvaiu em um instante, dando lugar a empatia.  

 

-Ai, Normani. – Suspiro, puxando a morena para um abraço forte. – Desculpa por isso, não foi minha intenção. 

 

-Sei que não. 

 

  Embora o gesto fosse incomum entre nós, o abraço ainda durou algum tempo; acho que ambas estavam precisando de um pouco de amizade e conforto. Quando nos separamos, cada uma ocupou uma banqueta, permanecendo em silêncio. Respirei fundo, observando o grande salão. Parando para analisar, era a primeira vez que eu me permitia um momento de tranquilidade ao longo das últimas 48 horas. E bem, não me surpreendeu notar o quanto o clima era triste e mórbido.

 

  Assim que soube do que aconteceu com Lauren, Jack encerrou as atividades comerciais no Motoclub. O segundo andar está servindo de abrigo para alguns amigos que vieram de longe para apoiá-la, e o primeiro acabou se tornando um ponto de encontro, onde as pessoas que a amam vem para ficarem juntas e se apoiarem nesse momento inenarrável. Cada um lida de um jeito com o sofrimento, e alguns se sentem mais confortáveis enfrentando a situação sozinhos, no entanto, acredito que Lauren gostaria que ficássemos juntos, então venho tentando atender ao que penso ser sua vontade. Tenho certeza que ela odiaria ver o seu tão amado clube nesse momento, tão calado e sem vida. Ninguém falava mais que o necessário e o silêncio pesava toneladas; todos pareciam perdidos dentro de si mesmos. 

 

  Ai, minha Lo… Só de pensar nela, uma onda de angústia assassina aperta minha alma e sinto um mal-estar quase físico.

 

  Esfrego o peito, tentando, mesmo sabendo que de forma inútil, aliviar aquele sentimento devastador que me atingiu. Tive vontade de deitar em um canto qualquer e não fazer mais nada; tive vontade de apenas me render. De fato, por um segundo, quase o fiz. O que me impediu, foi olhar para frente e me deparar com a imagem deprimente dos meus cunhados. 

 

  Sentados em uma mesa perto do ringue, Zayn, Alexa e Ashley estavam devastados. Alexa abraçava o marido e tentava confortá-lo com carinhos, muito embora sua expressão não fosse nada melhor que a dele. Já Ashley, tinha o rosto inchado e mirava o nada. Vez ou outra algumas lágrimas escapavam pelos seus olhos, mas a loira apenas as enxugava e voltava para mesma posição. Vendo-os desse jeito, desisti de ir até a fazenda e fui até a cozinha no andar de cima, servindo três tigelas com a sopa que Demi e Cachorro Louco fizeram. Coloquei a comida junto com os talheres em uma bandeja e desci, indo até eles e colocando as coisas no meio da mesa.

 

-Não vi vocês comendo nada desde que chegaram. – Sorrio fraquinho quando ganho a atenção do trio. 

 

-Obrigada Camila, mas não estou com fome. – Alexa torce a boca, assim como os outros dois.

 

-Ora, gente, vamos lá! Precisamos ficar fortes. – Tento soar animada. – Você principalmente, Alexa. Não se esqueça que precisa comer por dois. – A mulher suspira, pegando uma tigela. – Vocês também! Por favor, gente…Só um pouquinho. – Abraço Ashley de lado, lançando um olhar pidão.

 

-Tá bom, vou tentar. – Ela acena com uma tentativa de sorriso para mim, sendo acompanhada pelo irmão. 

 

-Isso!

 

-Camila. – Zayn chama após levar a primeira colherada à boca. – Falando nisso, eu também não te vi comer nada desde que cheguei. 

 

-Ham, sobre isso… Eu é- – Abro e fecho a boca várias vezes, incapaz de pensar em uma desculpa para escapar da pergunta.

 

  Porém, não precisei inventar nada, pois um motivo muito bom para que eu me movesse dali apareceu. 

 

  Em uma mesa no extremo do outro lado do salão, Jack tomava um copo de whisky enquanto era cercado por três figuras que me despertavam uma antipatia fora de lógica. Imediatamente meu sangue ferveu e comecei a me aproximar, podendo ouvir o que falavam:

 

-Jack, acredite, estamos no mesmo barco. – Jamie, o irmão mais velho, dizia. – Também fomos proibidos de receber informações do hospital e tão pouco sabemos onde a mamãe está. 

 

-Sim, acredite. – Um tio dela que nunca fiz questão de saber o nome continuou. – O que ganharíamos escondendo o quadro da Lauren? Ou colocando seguranças para impedir que as pessoas se aproximem? – O homem gesticulava. – Veja, não faz sentido! Clara deve estar tendo algum tipo de confusão mental por causa do choque, não colaboramos com ela em nada disso.

 

  Se os homens tivessem parado um pouco para reparar, facilmente perceberiam o quanto Jack não escondia estar puto com a presença deles. Seu maxilar estava fortemente travado, ele apertava a lateral da mesa com rigidez e seu olhar tinha uma seriedade de dar medo. Cada palavra que um dos imbecis dizia, deixava o presidente do clube mais vermelho e a veia do seu pescoço chegava a pulsar. Seu ódio era tão palpável, que eu já estava prevendo a hora em que ele se levantaria e acertaria a boca de um dos três com um murro. Porém, sem se dar conta do perigo, Channing prosseguiu com a palhaçada:

 

-Estou tão arrependido… Todos nós estamos. – Lamentou com uma voz embargada que me soou extremamente falsa e forçada. Da parte desgraçada da família da Lauren, acho que ele era de quem eu tinha mais raiva. – É muito fácil pra quem está de fora apontar o dedo, mas a nossa falta de relação com a Lauren nos últimos anos se deu devido às próprias atitudes dela. Ainda assim, não deveríamos ter sido tão duros. Porra, eu daria tudo para poder voltar no tempo e consertar as coisas entre nós! –  Fungou, recebendo um afago nas costas de Jamie. – A Laur é a minha irmãzinha, minha garota. Eu fico louco só de pensar que talvez ela se vá sem saber que, apesar de tudo, a amamos. Por isso, ninguém tem o direito de nos julgar! Somos a família dela, também estamos sofrendo.

 

  Se eu pudesse apostar, diria que esse seria o momento em que Jack os expulsaria daqui aos pontapés. Ele até ensaiou se levantar, mas, para o seu o desprazer, acabei chegando primeiro.

 

-A todo momento me pego rezando, a culpa tem me consumido e-

 

  PAH

 

  Por longos segundos, tudo o que se ouviu no salão foi o som de respirações aceleradas após eu calar o homem conectando meus cinco dedos na sua cara. Channing me encarava com a boca aberta em surpresa, enquanto eu, tinha os olhos marejados pela raiva.

 

-Não ouse. –  Soletrei entredentes. – Eu não permito, de jeito nenhum, que vocês venham aqui e ajam como se merecessem algum consolo! – Respiro fundo, tentando manter a voz firme. –  Vão embora, nenhum de vocês é bem-vindo nesse espaço. 

 

-Camila, está sendo injusta!

 

-Foda-se! –  Explodo, me aproximando ainda mais. – A Lauren tentou se reconciliar com vocês várias e várias vezes e tudo o que recebeu foi julgamento e indiferença. Não venham me falar que querem fazer as pazes agora, não venham querer dizer que se importam com ela, porque o que realmente está em jogo aqui, são suas próprias consciências malditas! Até poucos dias atrás ela estava bem, por que esse arrependimento só surgiu agora, hein?

 

-As pessoas erram. –  Jamie rebate. – Erramos com ela e ninguém, absolutamente ninguém, se lamenta mais por isso do que nós mesmos. Viver com esse peso já não é punição o suficiente?

 

-Ahh, vai a merda! A cada vez que um de vocês fala, eu tenho mais certeza de que essa tentativa de oferecer perdão por algo que, em primeiro lugar, a Lauren nem devia ter se desculpado, não tem nada a ver com ela, mas sim com o remorso que não querem carregar temendo que o pior aconteça. Mas fiquem tranquilos, a Lauren é a mulher mais forte que conheço e vai sim sair dessa, portanto, podem enfiar essa falsa culpa no meio do rabo e ir embora!

 

-Isso está err-

 

-Você ouviram. – Jack se mete no meio, lançando um olhar que não deixava brecha para argumentação. – Guardem suas desculpas e lamentações para quem merece ouvi-las e rezem fervorosamente para que não seja tarde demais. Infelizmente, aqui nós não temos pena de quem menospreza a família por bosta; nós temos nojo. Saiam!

 

  Antes de ir, eles ainda se viraram para mesa onde Ashley, Zayn e Alexa estavam, mas os três apenas desviaram o olhar, não se solidarizando. Me segurei até ver que eles se foram, depois disso, subi correndo para o segundo andar, mais especificamente para o quarto onde Lauren estava ficando. Chegando lá, me joguei de bruços na cama, pressionei fortemente o rosto contra o travesseiro e gritei. Gritei muito, gritei alto, gritei até cansar.

 

  Por isso eu não queria parar, por isso eu não queria ter tempo pra pensar. Toda essa situação é muito mais do que tenho a capacidade de digerir. Em um instante, eu vivia um sonho. Finalmente estava conseguindo dar o rumo que queria para minha vida, me sentia realizada comigo mesma e tinha bons motivos para acreditar que as coisas com a Lauren se acertariam. Já no outro, tudo desabou bem diante dos meus olhos sem que ninguém pudesse fazer nada.   

 

  Me diz, como absorver a ideia de de que sua namorada, na flor da idade e da saúde, tem uma parada cardíaca absolutamente do nada? Como aceitar que talvez ela nunca mais abra os olhos? Não faz sentido!

 

  Ainda que os médicos tenham conseguido reanima-la, nada muda o fato de que ela chegou morta ao hospital.

 

  Morta.

 

  Por um par de minutos indescritivelmente pavorosos e aterrorizantes, Lauren não esteve mais aqui. Durante minutos catastróficos, estava tudo acabado. Todos os seus sonhos, todos os nossos sonhos. O seu futuro, o meu futuro. Ela havia ido, assim como eu. Sim, é verdade que ninguém morre de amor, mas sou incapaz de me imaginar existindo em um mundo onde ela não existe. Lauren ocupou tanto de mim com o seu brilho, que sinto, sinceramente, que definharia de tristeza.

 

  O pior de tudo é que esse inferno ainda não acabou e, para completar, tem sido potencializado uma vez que, por uma completa insanidade de Clara, o hospital está juridicamente proibido de repassar informações sobre o quadro dela. Isso inclui a própria família, já que os irmãos estão igualmente desesperados por notícias e tem sido impedidos de recebê-las. Nem sei por onde começar a descrever essa maldade, ou loucura, chame como for. Na tarde em que tudo aconteceu, Lauren foi levada para emergência. Algumas horas depois, nossos amigos e família começavam a lotar a sala de espera quando o aviso da proibição veio. Fomos convidados a nos retirar do andar e a mulher ainda fez questão de contratar seguranças para garantir que nenhum funcionário fosse intimidado. Desde então, Clara está sumida, e, se alguém sabe onde a mulher está, não diz. O único pronunciamento que ela fez quanto a situação foi para Ian, por via de uma ligação fria, estranha e perturbadora. Perguntada sobre o estado de Lauren, ela respondeu: 

 

‘’ Muito grave. Rezem e mantenham os corações preparados, sua irmã tem poucas chances. ‘’  

 

  Isso foi na manhã seguinte ao ocorrido, ou seja, dois dias atrás. Depois de jogar essa bomba em nossos colos e nos deixar sem saber o que fazer com isso, nada mais foi dito. Lauren é muito amada, e como prova disto, não param de chegar pessoas de todos os cantos imagináveis em busca de estar aqui por ela. Talvez eu não devesse estar surpresa, mas estou. Criamos muitas amizades ao longo da vida, mas a maioria delas não é forte o suficiente ao nível de passar pelas dificuldades conosco. Ter cultivado um carinho tão profundo e em tantas pessoas, a ponto de fazê-las largar tudo para vir estar ao seu lado, só reforça o quanto Lauren é especial.

 

  Me viro na cama, e quando o faço, dou de cara com seu colete do motoclub jogado no braço da poltrona. Pego-o com carinho, o abraçando com força junto ao peito. Provavelmente esse seria o momento em que eu finalmente surtaria, mas a presença inesperada de Jack me freiou.

 

-Filhote? – Chamou, colocando apenas a cabeça para dentro do quarto.

 

-Oi, Jack, entra. – Convidei, me sentando direito na cama.

 

-Trouxe a janta pra você, soube que não comeu nada hoje. – Antes que eu pudesse abrir a boca, ele já atropelou. – Não, não, nada negar, você vai comer sim. E depois, vai fechar os olhinhos e dormir.

 

-Jack, eu não posso. – Tento ser delicada. – Bom, vou aceitar a comida, mas depois ainda tenho mil coisas para resolver. Quando estiver tudo em ordem, tiro algumas horas. 

 

  Pacientemente, o mais velho se senta na ponta da cama e me entrega a tigela. Eu agradeço, me forçando a comer já que não estava com fome. Ele ficou ali me assistindo em silêncio, acho que queria ter certeza de que eu iria me alimentar. Só quando terminei, ele voltou a falar.

 

-Camila. –  Aperta meu ombro, me olhando de um jeitinho paternal e reconfortante. – Apesar do tamanho, você é uma grande mulher. –  Sorrio sem-graça, não estava esperando pelo elogio. –  Estou muito orgulhoso de como tem se mantido forte e sóbria para enfrentar a situação, mas você ainda é humana e tem necessidades biológicas. Se dê algum tempo, você não está sozinha nessa.

-Eu sei que não. É só que… – Esfrego o rosto, ansiosa. – Eu não quero parar, ok? –  Decido ser sincera. –  Sinto que se parar, vou ficar louca, doente, perturbada.

 

-E qual o problema? Ninguém está bem, seria mais do que normal.

 

-É justamente essa a questão: ninguém está bem. Logo, alguém precisa ficar na contenção dos danos, entende? –  Suspiro. –  A Lauren é muito boa cumprindo com suas palavras, e uma vez, ela jurou que só morreria quando quisesse. Então, não tenho com o que me preocupar! Ela me ama e sabe muito bem que acabaria com a minha vida caso sequer pensasse em desistir, por isso, tenho certeza que ela está lutando com tudo o que tem. Seja lá que merda tenha acontecido, em breve ela estará boa. E você sabe que a coisa preferida dela no mundo são os amigos, né? A Lo tem o poder incrível de ser um lar para todo mundo. – Sorrio. – Normalmente eu sou o oposto dela, sou chata, mal-humorada e odeio que mexam nas minhas coisas. Mas aprendi muito nesse tempo de convivência, e já que ela está impossibilitada, como mulher dela, me sinto na obrigação de cuidar das pessoas que ela ama.

 

-Ai ai, filhote. – O homem sorri com compaixão. – É muito legal como está se esforçando para dar uma força para todo mundo, mas já pensou que quem mais precisa de uma força nesse momento, é você? – Abaixo a cabeça e fungo magoada, tentando me impedir de chorar. Porém, foi impossível continuar prendendo as lágrimas quando Jack passou seus braços fortes pelos meus ombros, me envolvendo em um abraço amoroso e protetor. Agarrei sua camisa, me permitindo colocar pra fora um pouco da aflição que surrava meu peito. 

 

-Jack, eu não sei o que fazer! Estou com tanto medo… Chega a me deixar sem ar!

 

-Posso confessar uma coisa? – Faz uma pausa. –  Eu também estou! Apavorado, triste, sem direção. – Respira fundo, acariciando meus cabelos. – Como eu disse, é normal. Uma pessoa que amamos muito está em uma situação complicada e isso dói. Mas princesa, não tenho dúvidas de que em breve aquela idiota ficará bem e muito feliz pelo o que está fazendo. Só não se esqueça que, de todas as pessoas, você é a número 1 para ela. Entenda, como vou explicar para aquela teimosa que todos ficaram cuidados, menos você? – Indaga com carinho, beijando minha cabeça. – Deita só um pouquinho, tá bom? Prometo que se aparecer qualquer notícia, por menor que seja, eu venho te acordar. Ela vai precisar de nós, então, precisamos estar fortes, lembra?  

 

  Ainda pondero por um segundo, mas acabo cedendo. 

 

-Não vai esquecer? Promete mesmo? 

 

-Com todo meu coração.

 

  Depois disso, deitei e Jack me cobriu, fazendo carinho no meu cabelo até que eu pegasse no sono. Adormeci depressa; apesar da minha mente estar a mil, meu corpo estava esgotado e no limite. 

  Acabei acordando mais tarde do que gostaria na manhã seguinte, e quando desci, o pessoal já estava tomando café. O salão estava consideravelmente cheio. A turma que está ficando no nosso apartamento veio se juntar a reunião, assim como o pessoal do motoclub do Texas que chegou ontem e o restante da galera que está abrigada em hotéis. Se está lotado assim agora, me pergunto como ficará quando todos chegarem, já que a todo momento mais e mais presenças são confirmadas. Tenho certeza que a Lauren vai ficar igual pinto no lixo quando ver todos reunidos dessa forma, e só a imaginação me faz sorrir feliz. 

 

  Ainda que o clima fosse péssimo e minha cabeça estivesse uma merda, tentei cumprimentar e receber a todos da melhor maneira possível. Quando perguntada sobre como estava, mudava de assunto. Assim como foi nos dias anteriores, só queria me manter ocupada e com os pensamentos voltados para ações úteis. Até porque, o ânimo entre nosso grupo de amigos mais próximos andava bem instável e sentia que a tensão estava

prestes a explodir.   

 

  Como eu disse, cada um tem sua própria forma de lidar com o sofrimento e essa tese vem se aplicando. Ari, Alexa, Ashley e Vero tiveram uma resposta mais sentimental. Elas se abateram muito com a situação e, em uma descrição superficial, estão introspectivas e muito para baixo. Outros estão sendo mais ativos, como Normani, Harry e Lucy. Normani e Harry tem sido um suporte e tanto; eles rodam por aí e sempre estão ajudando quem precisa, além de terem assumido junto comigo a responsabilidade por várias questões que ninguém está com cabeça para resolver. Já Lucy, se juntou a Ian e contratou um escritório de advocacia; eles estão lutando ferrenhamente para cassar o documento que impede o hospital de repassar as informações sobre o quadro da Lauren para família. Infelizmente, também tem os que estão tendo mais dificuldade, como Zayn, Ally e Keana.

 

  Zayn sempre foi um cara de temperamento forte, e submetido a tamanho estresse, tem se destemperado com facilidade e anda descontando a preocupação na bebida. Quando fomos expulsos da sala de espera, ele partiu pra cima dos seguranças e foi retirado de lá a força. Sem contar que tem tido reações violentas com os tios e irmãos, então precisa ser constantemente cuidado. Enquanto isso, Ally assumiu um personagem e tem vivido em uma realidade paralela onde nada aconteceu e Lauren continua bem. Não a vejo desde a noite do ocorrido, mas frequentemente alguém vai verificar como ela está. Já com Keana, a coisa é mais complexa. A idiota simplesmente desapareceu sem deixar nenhum aviso, porém, ninguém está se preocupando como deveria pois Ashley diz ter bons motivos para acreditar que ela está com Clara. Embora eu concorde com a loira, ainda estou bem aflita com o sumiço da minha cunhada. Keana tenta se fazer de durona, mas além de ser muito sensível e emocional, é a mais apegada a Lauren. Temo profundamente a forma como um baque desses pode tê-la impactado e é angustiante estar de mãos atadas. 

 

  Ainda pensando em nossos amigos, acabei de tomar meu café e já me preparava para levantar quando uma Veronica com o semblante tenso parou na minha frente.

 

-Mila, posso falar com você um minutinho?

 

-Claro. – Preocupada com sua expressão, peço licença para as pessoas que estavam na mesa comigo e a acompanho até um canto mais afastado. – O que aconteceu, Vero?

 

-Antes de mais nada, calma, não é nada relacionado a Lauren. – Só de ouvir isso, meu coração volta a bater mais tranquilo. – Bom, a ideia do Ian de manter alguém de vigia na porta do hospital deu certo. O Niall acabou de ligar avisando que a Clara deu as caras.

 

-Sério?! – Praticamente grito, atraindo alguns olhares para nossa conversa.

 

-Ei, fala baixo! – Repreende. – A Ashley foi pegar o carro, estamos indo pra lá. Mas tem que ser em segredo. Uma confusão é tudo o que menos precisamos agora.

 

-Ok, desculpa, só vou pegar minha bolsa.

 

  O caminho até o hospital foi rápido e silencioso. Enquanto Ashley parecia estressada, eu me esforçava para raciocinar qual abordagem seria melhor visto a personalidade da minha sogra. Chegando lá, acenamos brevemente para Niall e fomos direto para recepção. Embora fosse proibido subir para o andar onde Lauren estava, o acesso ao restante do lugar era livre. Entretanto, logo que alcançamos a portaria, encontramos Lucy e Ian. Ambos pareciam extremamente irritados, e enquanto o homem discutia com alguém no celular, minha amiga andava de um lado para o outro com impaciência.

 

-Oi, gente. – Saudo, chamando a atenção da dupla. Ian forçou um sorriso e se virou, continuando a conversa que parecia ser importante. Já Lucy se aproximou e me puxou para um abraço apertado.

 

-Oi, Mila, como você está?

 

-Tentando seguir. E você?

 

-Por aí… –  Nos afastamos e ela faz o mesmo com as outras duas.

 

-E ai, Lucy, novidades? – Vero questiona com expectativa.

 

-Sim, e não são positivas. – Responde com a expressão fechada. – O advogado chegou a conclusão de que dificilmente vamos conseguir derrubar o documento. 

 

-Ora, mas por quê?

 

-Porque foi a própria Lauren que exigiu um contrato que previsse confidencialidade total, tanto do plano de saúde, quanto do hospital. Ela também passou todo o poder de decisão no caso de estar impossibilitada para uma tutora, então, a vontade dela deve ser resguardada sem que possamos fazer nada.

 

-Mas isso é um absurdo! – Ashley rebate com indignação. – É de se esperar que hospitais não saíam por aí divulgando o quadro clínico de seus pacientes, mas uma vez que a responsável legal, no caso a mamãe, se nega a compartilhar qualquer coisa, tem que haver uma brecha na lei para essa situação!

 

-E estamos procurando, só que tivemos uma surpresa desagradável no caminho. – Lucy bufa com irritação. – A sua mãe não é a tutora da Lauren, a Keana é. É ela quem está se recusando a autorizar o hospital a repassar qualquer notícia. 

 

  Sem que eu perceba, meu queixo cai pelo choque. Devo admitir, por essa eu não esperava! E acho que as meninas também não, pois o sentimento de traição ficou bem escancarado em suas expressões. O trágico é que minha amiga mal terminou de falar e a porta do elevador se abriu, revelando justamente o alvo de nossa surpresa. Keana estava acabada; olheiras profundas cercavam seus olhos, ela usava a mesma roupa de três dias atrás e sua aura era de pura derrota. Porém, seu estado lamentável não foi o suficiente para impedir que Ashley avançasse com fúria sobre ela:

 

-Sua vadia filha da puta, eu vou te matar! – A loira a segurou pelo colarinho da blusa e prensou com força contra a parede. O choque de suas costas contra a superfície dura fez um barulho feio e eu imagino que deva ter machucado, mas a fotógrafa não esboçou nenhuma reação. Nem sequer um suspiro. – Como ousa fazer isso com a gente, Keana?! Todo mundo está louco de preocupação, por acaso você ficou maluca?!

 

-Ashley, para, solta ela! – Agarro os braços da minha cunhada, tentando fazê-la afrouxar o aperto. Lucy e Veronica fazem o mesmo, mas a mulher parecia ter criado uma força sobre humana, dificultando nossa tarefa.

 

-Não vou soltar! Não antes dela responder! – Subiu o tom, denunciando o quanto ficou afetada com a revelação. Enquanto isso, Keana se mantinha atônita e imóvel, sem nenhuma expressão. – Me diz Keana, pelo amor de deus, que merda você tem nessa cabeça maldita?

 

  Keana apenas desviou o olhar, sem responder. Sua atitude irritou ainda mais Ashley, que parecia a ponto de partir para agressão quando os seguranças chegaram para intervir.

 

-Ei, ei, sem confusão aqui dentro!  – Determinou o homem maior, facilmente entrando no meio e separando a briga. – Se resolvam em outro lugar, vocês estão em um hospital, façam o favor de manter o respeito!

 

-Desculpa, já estamos indo. – Murmuro envergonhada, segurando Keana pelo braço e guiando sem dificuldades rumo ao estacionamento. Ian, Lucy e Vero vinham atrás com Ashley, que apesar de aparentemente ter desistido de agredir a irmã, ainda estava bem exaltada e xingava muito. – Ok, pessoal, vamos conversar na boa, sem gritaria ou insinuações! – Assim que paramos, tento colocar ordem nas coisas. Estava muito triste e meu estômago embrulhava apenas com a possibilidade de Keana realmente ter sido a mentora da decisão de esconder o quadro da Lauren, mas lhe daria uma chance de se explicar. – Keana, por favor… A Lucy acha que você é a responsável por estar barrando o hospital de reportar para gente o estado da Lo.... Isso é verdade? 

 

-Sim. – Responde sem hesitar, o que me faz ter que respirar fundo para manter a calma. –  Tenho motivos para ter feito isso e não vou pedir desculpas. 

 

-Certo, e você pode nos dizer quais motivos seriam esses? – Vero tenta.

 

-Não.

 

-Porra, eu não consigo entender, não consigo! – Ian exclama puxando os próprios cabelos, irritado. – Que direito você pensa que tem de controlar as coisas dessa forma? Espero que saiba que está sendo maldosa e muito, muito egoísta!  

 

  Ela nada diz, se mantendo indiferente e distante. Todo o cenário contribuia para que uma discussão acalorada acontecesse e eu podia sentir isso no ar, que cada vez se tornava mais pesado e tenso. Todos estavam muito sensíveis e descobrir que tamanha apunhalada veio de alguém que não esperávamos, foi decepcionante. Entretanto, apesar de também estar sentindo o gosto amargo do desapontamento, algo em mim insistia para que tentasse entendê-la. Keana tem sérios problemas de comunicação e demanda muita interpretação de gestos, mas nem de longe é uma pessoa que ferraria com os amigos por nada, muito pelo contrário. E droga, mesmo que ela confirme que agiu assim por alguma razão escrota e descabida, ainda me preocupo. Ela é minha amiga e é notável o quanto está péssima; jamais conseguiria lhe dar as costas em um momento como esse.

 

  Por isso, antes que o conflito explodisse, resolvi tentar um movimento diferente.  

 

-Keana, podemos conversar a sós um minutinho? – Tenho que juntar toda a tranquilidade que existe em mim para fazer a pergunta em um tom neutro, sem demonstrar julgamento ou estresse. Quatro pares de olhos se viraram contrariados na minha direção, então expliquei. – Gente, por favor! Todos nós estamos desgastados e no limite, e por mais que seja difícil, precisamos ter empatia e tentar nos entender. Estamos juntos nessa e só vamos passar por essa tempestade se continuarmos assim. Ninguém solta ninguém, ok? – Embora tenham baixado a bola, ninguém respondeu, então reforcei a pergunta. – Ok?!

 

-Certo, ok! –  Ashley é a primeira a ceder, suspirando longamente antes de se mover, indicando que sairia. – Conversem, vou tentar encontrar a mamãe. 

 

  E em passos abatidos, se virou, sendo acompanhada pelos demais. Quando eles se foram, respirei fundo uma, duas, três vezes antes de me voltar para Keana, buscando encontrar em mim uma maturidade que possivelmente não existia. Quando me senti preparada, comecei: 

 

-Você não deixou o hospital nenhuma vez, não é?

 

-Não. 

 

-É, imaginei… –  Suspiro, cruzando os braços. – Olha, juro que estou tentando ser compreensiva aqui,  mas espero que saiba que ficar sem saber como a Lauren está tem me matado aos poucos. A todos, na verdade. – A italiana abaixa a cabeça, pela primeira vez expressando algum sentimento: tristeza. –  Keeks, você disse que tem seus motivos e, por deus, eu acredito em você. Mas só isso não basta, entende? Não faz parar de queimar. – Me aproximo, segurando seu rosto. – As vezes eu acho que vou enlouquecer, simplesmente enlouquecer! Só deus sabe o quanto essa falta de respostas tem me consumido, por isso, eu te imploro: nos dê alguma coisa, Keana, qualquer coisa. Desse jeito não dá, está pesado demais!

 

  Ela leva as mãos ao rosto e seus ombros caem, demonstrando o quão exausta ela também estava. Acho que eu nunca vi alguém tão acabado antes e isso fez meu coração apertar. Sem hesitar, a envolvi em um abraço, tentando mostrar que apesar de tudo, ela não estava sozinha; eu estaria do seu lado, independente de qualquer coisa. Keana aceitou o carinho de bom grado, parecia realmente precisar de algum apoio. Ela ficou em silêncio durante um tempo e eu esperei pacientemente até que se sentisse pronta para falar.

 

-Acredite em mim, eu não queria que fosse desse jeito. A responsabilidade é grande demais e eu acabei ficando sem norte. Fiz uma bagunça. – Sussurra com melancolia. – Eu e a  mamãe fizemos uma promessa a Lauren e só estávamos tentando cumpri-la. Só proibi que o hospital divulgasse qualquer coisa porque temia que algum médico desavisado falasse mais do que deveria, e a questão dos seguranças foi um exagero da mamãe. Eu acabei de conversar com o setor responsável e autorizei que as atualizações fossem repassadas.  Também liberei a sala de espera, mas vamos ter que organizar porque não cabe todo mundo. 

 

-Isso é muito bom! Sério, muito bom de verdade! – Sorrio, contente e aliviada na medida que as circunstâncias permitiam. – Mas imagino que não queira falar qual a promessa, não é? Porque parece que todo esse cuidado com a confidencialidade, tanto da parte da Lauren quanto da de vocês, tem o objetivo de esconder alguma coisa.

 

-Camila, foi uma decisão da Lauren, não me cabe dizer. – Se afasta, esfregando os olhos para espantar o cansaço. Ela não negou minha conclusão e esse detalhe não me passou despercebido, mas preferi não pressionar.

 

-E… – Mordo o lábio, hesitando perguntar pois tinha medo da resposta. Porém, sabia que era inevitável, então tomei fôlego e perguntei logo. – Como ela está?

  

-Nenhuma novidade. Ela continua em coma induzido na UTI.  

 

-Ela está em coma? – Tenho que me apoiar no carro mais próximo para não cair. Quando soube o que Clara disse na ligação, até imaginei que esse fosse um cenário possível, mas definitivamente não estava pronta para o baque da confirmação. 

 

-Você não sabia? – Franze o cenho, confusa. 

 

-Não! – Lágrimas invadiram meus olhos e eu nada fiz para conte-las. Mesmo que quisesse, seria impossível. – Sua mãe ligou para o Ian e simplesmente avisou de um jeito super frio que ela tinha poucas chances, não especificou nada. Deus! – Levo as mãos a cabeça, me sentindo sufocada.  

 

-Droga, a bagunça foi pior do que imaginei então. – Se lamenta, a culpa ficando evidente em seus olhos.

 

-Para começar, o que aconteceu? Ela estava bem aquele dia, você viu! 

 

-Foi uma parada cardíaca súbita. – Declara com dificuldade. – E sobre as chances… É v-verdade. – Diz, me causando mais uma onda de pânico. – Foi muito grave, e o fato de ter sobrevivido é um milagre por si só. Mas o d-dano foi feito e teve consequências sérias. Ela precisa ser operada, talvez até precise de um transplante, mas como está muito f-fraca, os médicos acreditam que não aguentaria o procedimento. Eles estão estudando o caso, mas… é c-complicado. 

 

  Cubro o rosto, negando repetidas vezes enquanto amaldiçoava os céus. Eu me recusava a acreditar nisso, me recusava! Eu só queria acordar desse pesadelo. Ou então, dormir e só despertar quando essa tormenta tivesse acabado. Eu realmente daria tudo, tudo mesmo para só abrir os olhos quando Lauren estivesse bem. Porque ela vai ficar… Ela tem que ficar!

 

  Meu amorzinho… Ela não merecia passar por isso, não merecia! Oh, se eu pudesse, trocaria de lugar com ela em um piscar de olhos. Normalmente, acredito que existe um propósito por trás das tragédias, ou então, que é inútil tentar entendê-las. Contudo, nenhuma lógica ou filosofia parece poder me ajudar a engolir essa situação quando ela soa tão terrivelmente injusta.

 

  Sinto um par de braços me envolver; Keana tentava me consolar, muito embora seu corpo estivesse frio e tremendo de maneira preocupante. Respirei fundo e pensei em Lauren. Ela saberia o que fazer nesse momento, ela sempre sabe. Parece que é um dom, e por muito tempo, fui abençoada. Com essas memórias em mente, encontrei forças para reagir. 

 

  Eu confio na minha gringa, e de alguma forma, sei que ela também está confiando em mim. Ela sempre se manteve firme quando precisei, e agora é a hora de retribuir. Dez vezes mais, se necessário. 

 

  Enxuguei minhas lágrimas e me soltei do abraço, passando os braços pelos ombros de Keana. 

 

-Vamos? – Chamei, forçando um sorriso. A fotógrafa estranhou. 

 

-Para onde?

 

-Para casa!

(...)

 

 

  Os acordes melodiosos do violão de Jack inundavam reconfortantemente meus sentidos, trazendo algo parecido com tranquilidade. O salão estava lotado; era o horário do jantar e, por mais que ninguém conversasse muito, a movimentação humana por si só deixava o ambiente barulhento. Embora as vozes e os passos junto ao tilintar dos talheres fossem ruidosos, tudo o que eu podia ouvir, era a música.   

 

  Estava sentada em uma mesa próxima do bar, tinha os olhos fechados e bebia uma taça de vinho. Não tinha apetite algum, logo, optei por não comer. A comida não desceria, de qualquer forma. Estava sentindo uma palpitação estranha desde o meio da tarde. Não sabia descrever e muito menos decifrar, só era uma sensação… inquietante. Começava no pé do estômago e ia subindo, e toda vez que eu me concentrava muito naquilo, sentia minha garganta ameaçando se fechar e meus olhos pinicando de maneira incômoda. Era ruim, era angustiante. Parecia um prelúdio.  

 

  Eu já havia decidido que, se sentisse vontade de chorar ou me desesperar, iria fazê-lo sem vergonha alguma. Ser forte não significa não sentir, e por mais que eu estivesse fazendo mil coisas para tentar manter a sobriedade, a mulher da minha vida está sofrendo. Como eu poderia não sofrer junto com ela? Porém, esse pulsar era diferente e algo em mim sabia disso antes que eu mesma soubesse. Como quando a vi dançar naquela noite quente de verão e soube, de alguma forma, que aquela morena linda até então desconhecida seria importante para mim. 

 

  Se Jack se sentia do mesmo jeito, eu não sei, mas o seu violão não cantava; ele chorava. E por mais contraditório que isso possa parecer, cada nota me tocava como bálsamo na ferida. A melodia calma era incapaz de curar a dor, mas trazia alívio, e isso ganha um peso dobrado em tempos onde poucas coisas são capazes de o fazer.

 

-Oi, meu amor. – Sou tirada dos meus pensamentos pelo colidir dos lábios de Ariana com a minha bochecha. 

 

-Oi, Ari. –  Levanto para abraçar minha amiga, fazendo o mesmo com Harry, que estava bem atrás dela. – Pensei que só voltariam amanhã.

 

-Era o plano, mas não conseguimos. – Admite com uma careta.

 

-Entendo… – Faço um breve carinho em sua bochecha. –  Vocês já jantaram? Se sirvam, enquanto isso, vou puxar mais cadeiras.

 

-Ok.

 

  E assim foi. Os dois pegaram seus pratos e logo voltaram para se unir a mesa, que também era ocupada por Normani, Ashley, Vero, Niall, Demi e Keana. Um assunto se iniciou, mas optei por não participar e os demais respeitaram minha vontade, me deixando quieta. Diferente do que pensei, as notícias sobre Lauren não melhoraram em nada a situação, pelo contrário. As pessoas continuavam a chegar, e saber o que lhe aconteceu e seu verdadeiro estado, só tornava tudo mais real e intragável.  

 

  Ao compartilharmos as infelizes novidades, consegui convencer Ian e as meninas a omitir as intervenções de Keana como tutora. É óbvio que ela seria julgada e condenada por suas ações, e por mais frustrante que fosse não compreender as razões por trás de suas atitudes, concordamos que seria cruel expô-la a mais esse sofrimento. Até porquê, de longe é notável o quanto a fotógrafa está destruída. Mesmo Ashley, que foi quem ficou mais nervosa, me ajudou com ela quando voltamos do hospital. Na hora certa até podemos resolver isso, mas é de comum acordo que o momento atual pede unicamente por cuidado e união.

 

  No mais, o jantar correu bem, sem nenhum grande contratempo. Aos poucos as pessoas foram se retirando, diminuindo a surpreendente lotação. Nossos amigos continuaram engajados em uma conversa, mesmo que nada animado ou energético como em um passado recente. Em contrapartida, continuei na minha; vestida com seu colete, apreciando a música e bebericando vez ou outra meu vinho enquanto repetia o mantra que ela mesmo me ensinou:

 

  Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado.

 

  Resignação para aceitar o que não pode ser mudado.

 

  E sabedoria para distinguir uma coisa da outra. 

 

  Repetir essa frase me fazia bem não só pelo seu significado, mas porque me lembrava Lauren e pensar no meu benzinho sempre me faz bem. Melhor dizendo, pensar em quem ela é de verdade e em seu modo de existir no mundo, e não no que pode lhe acontecer, como tem ocorrido com frequência. Mesmo que a sensação ruim persistisse, as lembranças traziam alegria e nelas eu pretendia ficar presa tanto tempo quanto me fosse permitido. Porém, um trecho da conversa me tirou desse lugar bonito e trouxe de volta para a realidade.

 

-Você tá zoando, né? – Ari tinha os olhos arregalados e um sorriso desacreditado. – Ai, eu não acredito!

 

-Se você duvida da capacidade da Lauren para qualquer coisa, a única doida aqui é você! –  Vero devolveu com bom-humor, causando risadas na mesa. Sim, risadas. Era a primeira vez em três dias que eu ouvia esse som. –  E teve outra vez depois dessa! Lembra aquela vez que vocês foram fazer a tatuagem em grupo e ela atrasou? Pois bem. O que aconteceu foi que ela encontrou um cara chorando no bar porque a garota que ele amava estava indo embora para outro país. Uma pessoa normal teria no máximo ouvido ou algo assim, mas não estamos falando de alguém normal. A Jauregui, super fã do amor como é, conseguiu convencer o homem a correr para o aeroporto e impedir a mulher de ir.

 

-Meu Deus, isso é a cara dela! – Harry bate palmas, animado.

 

-Sim! Mas não pense que foi fácil. Chegando lá, os passageiros já haviam embarcado e o vôo estava prestes a partir. Adivinha o que ela fez pra parar a decolagem?

 

-Roubou uma van e enfiou ela na frente do avião! –  Normani e Demi responderam em conjunto, rindo alto logo em seguida. A mesa inteira fez o mesmo, e nem Keana pode conter um pequeno sorriso com o relato.

 

-Nossa, eu não sabia dessa! – Ari exclama entre o riso. –  E deu certo?

 

-Se deu certo? Tsc. – A morena abriu um largo sorriso. –  A própria ordinária fez o casamento dos dois mês passado. Sabe aquele casal de ruivos que chegou hoje cedo? São eles!

 

  E mais risos e exclamações admiradas se fizeram presentes. Eu mesma tinha um sorriso orgulhoso nos lábios, e ao parar para olhar ao redor, notei que todos em volta prestavam atenção na conversa.

 

-Ai ai, ela é boa em salvar o rabo das pessoas, né? – Niall comenta enxugando uma lágrima. – Sabia que só sou policial hoje por causa dela?

 

-Ora, por quê?

 

-Bem, lá atrás, quando eu tinha acabado de sair da academia e era apenas um recruta, vamos dizer que meu desempenho deixava muito a desejar. Cometi uns vacilos feios e meu superior disse que me daria uma última chance, mas que se desperdiçasse, estaria fora. Nisso, fui colocado para atender um chamado em que três retardadas foram pegas de penetra na festa do Tony Awards. – Lança um olhar divertido para Ashley, que dá de ombros.

 

-Não me olhem assim! Nunca ouviram falar que uma boa festa só começa de verdade depois que alguém invade? E a título de curiosidade, a outra retardada era a Alexa. Estávamos muito performáticas na época, bons tempos!

 

-Performáticas e empenhadas em deixar o departamento doido, né? Deviam estar competindo com a Lindsey Lohan pra ver quem era presa com mais frequência! – Nega. – Enfim, continuando a história, eu tinha que levar o trio de meliantes para a delegacia, mas depois de uma sequência de eventos que é melhor deixar pra lá, acabei algemado sem camisa no porta-malas da viatura. 

 

-Tem certeza que quer deixar pra lá? – Ashley provoca. – Porque eu lembro com riqueza de detalhes o papo furado que a Lauren jogou pra te colocar nessa. – O homem lança um falso olhar de raiva para loira, que devolve com um sorriso de deboche cheio de ameaças.

 

-Então. – Pigarreia, se fazendo de sonso e gerando mais risos. – Como eu ia dizendo, merdas aconteceram e eu já estava pensando na desculpa que daria para o meu pai para explicar a expulsão súbita quando as três voltaram e me deixaram prendê-las. Só fui descobrir mais tarde, quando viramos amigos, que a Lauren ouviu pela rádio da delegacia os caras me zoando e ficou com dó. Sabe-se lá deus como ela tinha acesso a essa merda, só sei que sou eternamente grato!

 

-E só pra ficar claro, a Lex e eu não estávamos nem aí pra você, ela foi a única a ficar comovida.

 

-Eu sei, babaca. –  Mostra a língua para loira em brincadeira. – Tudo bem que, para início de conversa, vocês estavam completamente erradas, mas ainda assim, foi uma atitude muito legal e que salvou minha carreira. 

 

  Terminou de contar e, antes que pudéssemos palpitar na história, uma voz que andou sumida nos últimos dias soou em um tom bem-humorado. 

 

-Ué, quer dizer então que estamos falando sobre a Jauregui aparecendo para salvar o dia? – Ally indaga retoricamente. – Legal, também tenho um caso pra contar! Quer dizer, no mínimo uns duzentos. 

 

-Ally!

 

  Me levantei para abraçar a baixinha, sendo seguida por Normani e Vero. A primeira vista, era ela mesmo, e não uma de suas personagens. De uma forma ou de outra, sua aparência debilitada revelava o quanto o ocorrido com a Lauren a afetou. Após os cumprimentos, ela puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado, se virando para roda que havia se formado.

  

 -E ai, pessoal, por acaso já ouviram sobre a vez em que ela me tirou do harém de supostas virgens de um sheik árabe no sul das Filipinas?

 

  E assim, as próximas horas foram dedicadas a contar histórias sobre Lauren. Deixamos de lado, ao menos durante aquele tempo, a tristeza e a preocupação e ficamos ali, juntos, apenas dividindo as aventuras da nossa anti-heroína favorita. Lauren já me falou diversas vezes que um de seus maiores medos é ser esquecida. Ouvindo aquelas histórias onde ela é descrita de maneira tão grata e apaixonada, só tive mais uma vez a confirmação de algo que já sabia: ela não deveria se preocupar com isso, porque é simplesmente inesquecível. Passamos horas falando dela e de seus feitos em nossas vidas, e no final de tudo, estávamos todos em um misto de lágrimas e risos.

 

-O mais louco é que na minha história, não teve um príncipe encantado, teve uma arrombadora de residências. – Normani enxugava as lágrimas que caiam sobre um sorriso nostálgico. – A branquela entrou na minha casa do nada e me salvou de uma vida infeliz. Como consegue, né? – Questiona, causando mais uma onda de risos e lágrimas.

 

-Não sei, deve ser do mesmo jeito que conseguiu me salvar da máfia norte coreana. – Vero completa, fazendo todos explodirem em gargalhadas.  

 

-Ai ai. – Ally suspira, agora mais séria. – Mesmo com todas as confusões, a maior salvação que aquela idiota me deu foi a da solidão. Para essa, eu nem tenho palavras. – Revela e muitas cabeças assentem, confirmando que sentiam o mesmo. O clima então muda, se tornado menos brincalhão. 

 

-É… A Lauren mudou a vida de muita gente.  – Demi comenta em um tom orgulhoso, e depois disso, fez-se silêncio; todos pareciam refletir sobre a afirmação da mulher.

 

  Eu mesma me coloquei a pensar sobre isso. Lauren me deu tanto, transformou meu destino de tantas formas… Sempre fiz questão de verbalizar sua importância para mim, acontece que, toda vez que paro para analisar, encontro mais e mais motivos para ser grata por tê-la encontrado. É tanto amor, que uma vida parece um nada perto do que seria preciso para expressar a profundidade dos meus sentimentos. 

 

  O celular de Keana começou a tocar, quebrando o silêncio que se instalou no ambiente. Ela atendeu normalmente e a princípio ninguém deu muita importância. Afinal, era só uma ligação, as pessoas recebem ligações o tempo inteiro, certo?

 

  Errado.

 

  Aquela não era qualquer ligação, e isso foi ficando cada vez mais evidente na medida em que suas feições foram se fechando e assumindo um aspecto de puro de horror. 

 

-Keana, quem é? – Normani se aproxima preocupada, segurando seus ombros.

 

  Ao invés de responder, a fotógrafa cobriu a boca, parecendo entrar em choque. 

 

-Keana, porra, o que aconteceu? – Foi a vez de Ashley questionar, com seu tom não escondendo o desespero. 

 

  Nesse momento, a palpitação ruim que eu vinha conseguindo ignorar devido a distração voltou com tudo, roubando o ar dos meus pulmões. Mesmo estando sentada, precisei me apoiar na mesa, pois sentia o mundo girando e prestes a desabar.

 

  Não precisei perguntar de onde era a ligação; mais uma vez, algo em mim já sabia.


 

(...) 

  

   


 

  O mover dos ponteiros de um relógio nunca me soaram tão terrivelmente barulhentos.

Tic Toc


 

Tic Toc


 

Tic Toc


 

Tic Toc 


 

  Cada minuto passado, era um minuto a menos.

 

 

Tic Toc


 

Tic Toc


 

Tic Toc


 

Tic Toc 

 

  A questão aqui é: um minuto a menos para o reencontro, ou para a despedida?


 

Tic Toc


 

Tic Toc


 

Tic To-


 

  Senti um leve toque no ombro e levantei a cabeça, que antes estava enfiada entre os joelhos. Keana depositou um copo de café na minha mão e se sentou ao meu lado, sem me olhar ou dizer nada. Desci as pernas, ajustando corretamente o corpo na cadeira e levando a bebida à boca.

 

  Sem trocar uma palavra sequer, até porque não havia energias para isso, nós duas ficamos ali; lado a lado, mirando algum ponto dentro de nós mesmas. 

 

  Do outro lado da sala de espera, sabia que Clara fazia o mesmo. O que se passava pela cabeça da mulher, era uma grande incógnita pra mim. Fazia um longo tempo desde que a vi pela última vez, e para minha surpresa, parecia que seu rosto tinha envelhecido pelo menos dez anos nesse período. Com tristeza, constatei que sua aparência em nada lembrava aquela velhinha descolada e travessa que um dia me recebeu enchendo minha comida de pimenta.

 

  4:46

 

  Esse era o horário indicado pelo relógio. Eu me encontrava no limite; de todas as formas e jeitos possíveis. A exaustão era tão intensa e profunda, que várias vezes me peguei duvidando se um dia seria capaz de me recuperar. E toda vez que o questionamento vinha, acabava chegando à mesma conclusão: sim, seria capaz. Quando Lauren estivesse de novo nos meus braços.

 

   Estou doente e isso é um fato, só que dessa vez, temo que nenhum remédio, exceto Lauren, tenha o poder de me curar. No entanto, nesse exato momento, não ouso nem nos meus pensamentos mais íntimos desejar qualquer coisa que venha dela para mim, pois, mais do que nunca, minha gringa precisa de cada pequeno ínfimo pedacinho de força que tem para lutar por si mesma.

 

  Lauren teve mais uma parada cardíaca, e esse era o assunto da tão fatídica ligação.

 

  Agora, ela está no centro cirúrgico, passando por uma operação de emergência de altíssimo risco, visto que os médicos ainda não haviam chegado a um acordo sobre qual procedimento seria o ideal para o seu caso e não estavam preparados. O mais provável é que ela não suporte a operação e já fomos avisados disso; contudo, quando todas as opções racionais se extinguem, o que resta é a esperança. 

 

  Desde que cheguei, já passei pelos mais variados estados, indo de chorar, me espernear e amaldiçoar a noite em que nos conhecemos, a me sentir completamente vazia e anestesiada. No momento atual, estou aqui, apenas a espera de um milagre e desesperadamente apegada a fé de que ela sairá dessa. Meus pensamentos se movem extremamente rápido, e ao mesmo tempo, incrivelmente devagar. E, sem padrão algum, vão transitando entre lugares sombrios e de luz. De fato a minha cabeça está uma loucura, mas não me culpo. 

 

  Os meses separadas me ensinaram a trabalhar com a possibilidade de que talvez não ficássemos juntas como um casal, e por mais dolorosa e torturante que a ideia pudesse ser, ainda conseguia visualizar um amanhã nesse cenário. Isso porquê, independente do nós, eu saberia que em algum lugar Lauren estaria seguindo com a sua vida, então, eventualmente, encontraria forças para fazer o mesmo. No fim das contas, tudo o que eu sempre quis foi a sua felicidade.

 

  Porém, perdê-la para sempre já é demais. Entra no campo do inimaginável, do insuportável. Mal aguento a menção desse pesadelo se concretizando, portanto, me apego a esperança com todas as minhas forças. É tudo o que eu tenho.  

  

  Os ponteiros continuaram a se mover, assim como as horas. Parei de me atentar ao barulho do relógio uma vez que demandava toda a minha concentração o simples ato de não surtar. Olhei para frente em determinado momento e vi que Clara já não estava mais lá, o que pouco me importei.

 

  Aguentei o máximo que consegui, até que a preocupação ficou intensa demais e me pus de pé para ir em busca de informações mais uma vez. Nenhuma novidade, é claro. Quando voltei, Keana dormia reclinada sobre a cadeira que eu ocupava, e aproveitando a falta de vontade de ficar parada, decidi dar uma volta pelo hospital. Joguei o casaco que usava sobre a minha amiga e sai, andando sem rumo. 

 

  Dei algumas voltas pelo lugar, aproveitando para passar na recepção, onde parte do pessoal aguardava notícias, já que a sala de espera do andar só permitia três pessoas. Fiz algumas ligações também, repassando a situação. Havia acabado de enviar uma mensagem para o grupo do motoclub e já me preparava para voltar quando uma cena me chamou a atenção.

 

  Estava passando pela porta da capela quando vi Clara lá dentro. A mulher estava sentada na primeira fileira, e com um olhar apático, mirava uma imagem de Jesus. Antes que pudesse me conter, meus pés já estavam me levando até ela. Me sentei ao seu lado e permaneci em silêncio, olhando para o mesmo ponto que minha sogra. Sei que ela percebeu minha presença, muito embora mal tenha virado a cabeça, mas levou um longo tempo até que se manifestasse.

  

-Você está me julgando. – Ela afirma, não pergunta. 

 

-Sim, estou. – Confirmo simplesmente, sem me virar. 

 

-Sabe, Camila – Toma uma longa respiração antes de continuar. –  A vida tira muita coisa dos idosos. Tira o grande amor, às amizades, a juventude, a energia, a independência e, muitas vezes, até a sanidade. Com o tempo, você acaba aceitando que esse é o fluxo da vida e aprende a superar e seguir em frente. Porém, nada, absolutamente nada, prepara uma mãe para a morte de um filho. Não importa a idade deles ou quantos você tenha, quando um filho morre, parte de você morre junto. 

 

  Abaixo a cabeça, sem saber onde a mulher queria chegar ou como responder ao seu desabafo. Diante da minha mudez, ela prossegue.

 

-Sou velha, já vi muita gente morrer, e se tem algo que aprendi, é que após a morte, as pessoas tendem a se esquecer dos erros e santificar a imagem daquele que se foi. Na minha opinião, isso é uma grande hipocrisia. A morte ou a doença em nada deveriam afetar o julgamento quanto aos atos de alguém. –  Cerro fortemente as mãos, não gostando do rumo da conversa. – Você me olha como se eu devesse estar arrependida da relação que tive com Lauren nos últimos anos, mas quero deixar bem claro que minha consciência está tranquila. Eu amo a minha filha, e caso ela se vá, não ouse duvidar que parte de mim irá com ela, mas a vida é a vida, e a morte é a morte. Não tenho arrependimentos.

 

-Ora, bom saber que estamos partindo do mesmo parâmetro, porque penso exatamente o mesmo. – Assevero. – Com a diferença que, pra mim, é um completo absurdo que ela tenha que estar nessa situação para própria família, que jura se importar, demonstrar qualquer sentimento diferente da rejeição. 

 

-Você não entende mesmo… 

 

-Eu não entendo o que, Clara? – Rebato com irritação. – A Lauren pensa a vida de uma forma completamente diferente da de vocês, e eu não quero apagar os erros dela, ou tentar dizer que as escolhas que fez não causaram dor, até porque, não tenho esse direito. Só não me peça para ficar indiferente quando tive que acompanhar por anos a mulher que amo sofrendo com o afastamento da mãe por causa de um julgamento injusto.

 

   Tive vontade de acrescentar que foi uma vida de julgamentos injustos. Lauren sempre se sentiu desvalorizada e teve bons motivos pra se sentir assim. Contudo, optei por segurar a língua; aquele não era o momento para ataques. 

 

-A Lauren sofreu muito e por muito tempo, e ainda assim, não desistiu de vocês. Mesmo quando pensava estar certa, engolia o orgulho, porque dizia que a vaidade destrói o amor. – Minha voz embarga e sou obrigada a parar um pouco para tomar fôlego. Clara ouvia a tudo com uma expressão afetada. – Bom, independente do que aconteça naquela sala de cirurgia, sei que ela não estará levando nenhum rancor, porque diferente do que possam pensar, a Lauren tem uma religião sim: o amor. Ela é todinha feita de amor, dos pés a cabeça. Eu, por outro lado, não sou evoluída a esse ponto e tenho muita, muita raiva.

 

-É realmente uma pena… Apesar de nunca ter escondido meu descontentamento com a relação que tem com a minha filha, não me alegro em cultivar esse tipo de sentimento. – Declara com sinceridade. – Talvez um dia, quando for mãe, compreenda que o amor, às vezes, precisa ser rígido para ser amor. Não pense que eu não vejo as qualidades da Lauren, pois eu vejo. Mas também vejo o egoísmo, a inflexibilidade e a incapacidade de amadurecer e ter uma postura correta. É muito fácil pedir compreensão quando não se dá o mesmo em troca, e a Lauren nunca se esforçou para compreender minhas motivações. Se fui dura, foi com a intenção de educá-la. Passar a mão na cabeça perante os erros só contribui para normalizá-los, e o amor de uma mãe não pode ser cego ou omisso. 

 

  Mais uma vez, tive que me segurar muito para não cometer a injustiça de trazer o que sabia sobre Chris a tona. Em contrapartida, não pude evitar o tom amargo que veio a seguir.

 

-Ok, mas custava, ao menos de vez em quando, falar sobre os pontos positivos? Porque mesmo que você perceba, a Lauren pensa que não, e enquanto isso, sabe as críticas de cor. 

 

-Talvez. – Desvia o olhar para as mãos, adotando um ar reflexivo. – Mas ela também podia ter sido melhor. Ou você acha que não é decepcionante ter um filha que com essa idade não quer nada com nada? Que não pensa em uma carreira, estabilidade ou no dia de amanhã? Não é fácil, Camila!

 

-Clara, me desculpe, mas a sua fala é absurda e só reforça o quanto não a conhece. – Começo a bater os pés no chão, tendo dificuldades para manter a calma. – A definição de sucesso é subjetiva e muda muito de pessoa para pessoa. E olha que engraçado, dinheiro nenhum paga o que ela precisa agora, mas a poucos quilômetros daqui, existe um salão lotado de pessoas que, de bom grado, doariam de graça se pudessem. Porque esse é o tipo de pessoa que a Lauren é, esse é o tipo de sentimento que ela desperta nas pessoas. – Me emociono, deixando algumas lágrimas escaparem. – Como não vê a grandeza desse patrimônio?  

 

-É uma conquista importante e reconheço o valor, só que ainda assim, é o meu dinheiro que está pagando a conta do hospital. Julgue ou diga o que for, tomei as atitudes que achei que deveria e mantenho minhas convicções, independente do que venha a acontecer. 

 

-Se esse é o caso, acho que não tenho mais nada a dizer. Eu errei muito com a Lauren, muito mesmo. Por um longo tempo, pensei muito no nosso futuro e negligenciei completamente o nosso presente. E são acontecimentos como esse que reforçam a importância das escolhas. Tenho implorado ao universo com todo meu coração para que deixe ela ficar mais um pouco, mas sei que talvez ela se vá. Não há nada de feliz sobre essa possibilidade, mas o que me consola, é saber que não precisei temer perdê-la para mostrar o quanto a amava em vida. Espero de verdade, sem deboche ou ironias, que possa dizer o mesmo. 

 

  Me levanto, vendo que o melhor era encerrar a discussão. Apesar da frustração, precisava ter em mente que Clara é uma mulher idosa e que também está sofrendo com o estado da filha. A conversa já passava muito do tom, e de modo algum queria brigar ou fazê-la se sentir pior.                                                           

 

  É muito óbvio para mim que Clara nunca quis apenas compreensão, ela queria que Lauren se adequasse ao que julga ser o estilo de vida ideal. A briga envolvendo seu não comparecimento ao enterro do irmão foi só a gota d’água, o choque de filosofias e inabilidade de conciliá-las já existia. O que é indescritivelmente triste, uma vez que, por baixo da camada de babaquice, irredutividade e intolerância, acredito de verdade que eles a amam. De qualquer jeito, seria cruel e totalmente descabido confrontá-la dessa forma em um momento tão delicado.

 

  Sendo assim, enxuguei o rosto e forcei um sorriso em sua direção, virando as costas para sair. Já estava prestes a alcançar a porta quando, expressando um enorme cansaço, a mulher me chamou de volta.

 

-Camila, espera. –  Girei sobre meus calcanhares, aguardando. Ela abriu e fechou a boca várias vezes, como se hesitasse. Diria que, dentro de poucos segundos, minha sogra travou uma intensa batalha interna, até que, com um suspirar, decidiu prosseguir. – Tem algo… – Se remexe, desconfortável. – Tem algo que você precisa saber.

 

-Tem?

 

-Sim. – Encara meus olhos com uma seriedade mórbida. – Essa parada cardíaca não foi um episódio isolado.


 

(...) 


 

  Praticamente salto a escadaria da entrada, saindo correndo às cegas pela rua movimentada.

 

  As lágrimas embaçavam minha visão, todavia, não estava disposta a parar. 

 

  Queria acreditar que, se corresse rápido o bastante, chegaria a um ponto onde nada daquilo poderia me alcançar. Eu escaparia e escaparia para sempre, porque a realidade era dura demais e eu não queria enfrentá-la.

 

  Acho que finalmente entendi o porquê de Lauren preferir fingir que certas coisas nunca aconteceram. A verdade liberta, mas muitas vezes também destrói; e naquele momento, estava em cacos.  

 

  Afiadas como lâminas, as palavras de Clara ecoaram na minha mente causando mais uma onda sufocante de lágrimas. Em resposta, acelerei meus passos, decididíssima a não deixar que nenhum fantasma me pegasse. Nisso, não vi que tinha corrido para o meio da avenida, e só percebi meu erro quando uma buzina alta me fez levantar a cabeça. O susto deixou meu corpo paralisado, e sem conseguir esboçar reação, fiquei ali com os olhos bem abertos, apenas esperando. 

 

  Não tenho dúvidas de que o acidente teria se concretizado se mãos fortes não tivessem me puxado para trás no último instante. O carro passou tão perto, que cheguei a sentir levemente a lataria da lateral se arrastando pelas minhas coxas. 

 

-Meu deus, Camila, você tá bem?!

 

  Pisquei rapidamente várias vezes, tentando me reconectar com o mundo externo. Eu estava assustada, muito assustada. Tanto, que levei um tempo para assimilar que era Harry quem me tinha em seus braços. Vendo seu semblante igualmente desesperado, não demorei nada para pular em seu colo, carente de conforto. 

 

-Oh, meu amor… 

 

-Harry, me leva pra casa, por favor! – Implorei aos prantos, tremendo de nervoso. – Por favor, p-por favor, por favor.

 

-Claro que levo, Mila, calma, está tudo bem, você está bem. 

 

  Seu sussurro amoroso foi a última coisa que ouvi, ou que me lembro de ter ouvido. Ele fez como pedi e me levou para seu apartamento. Meus pensamentos eram um turbilhão tão disforme e confuso, que mal notei o caminho. Chegando lá, imediatamente me rendi a exaustão e dormi. Aquele sono veio como uma bênção, visto que estar acordada nunca havia machucado tanto. Nos meus sonhos, encontrei a paz. Normalmente, nos esquecemos dos sonhos assim que acordamos, contudo, desses pude me lembrar.

 

  Primeiro, sonhei com a minha mãe. O que é estranho, já que faz um longo tempo que parei de pensar nela. E o pior, é que foi um sonho feliz, quase como a memória de um passado que nunca aconteceu. No sonho, eu ainda era criança, uma bem pequena. Nossa antiga casa em Miami tinha decorações de natal e cheiro de biscoitos e amor. Sinu, muito diferente das minhas lembranças de infância, existia de maneira doce e gentil, além de me olhar como se eu fosse seu tudo. Vivíamos uma alegre manhã de natal e eu estava feliz. Em dado momento, ela me pegou no colo e naquele calor gostoso, me senti segura. Até que tudo se desfez.

 

  Acordei com um pulo, olhando para todos os lados. Vi que estava no quarto de Harry, e pelas brechas da cortina, pequenos raios de sol teimavam em invadir o ambiente parcialmente escuro. Ouvi sussurros vindos da sala, mas não me esforcei para ouvir o que diziam. Na verdade, fiz o contrário. Deitei de volta no travesseiro, fechando os olhos e me permitindo ser tragada de volta para aquele lugar bonito distante da dor.   

 

  Dessa vez, sonhei com ela; com a minha gringa. O sonho se misturava com uma lembrança real, que ocorreu há alguns anos. Na ocasião, eu havia acabado de tirar a carteira de moto e nós fomos para uma longa estrada pouco movimentada, passar a tarde correndo. Ela acelerava na frente e eu vinha atrás, rindo e me divertindo, tentando alcançá-la. Nesse dia, depois de muito me sacanear, Lauren desacelerou e me deixou pegá-la. Fomos para o alto de uma montanha assistir o pôr do sol e trocamos inúmeras juras de amor. A diferença do sonho para memória original, foram as palavras ditas por ela. Dessa vez, Lauren segurava meu rosto enquanto declarava, com a boca colada a minha, que iria se casar comigo, que me amaria para sempre e que nunca iria me deixar. Por coincidência ou não, tais promessas eram absolutamente tudo o que eu mais ansiava ouvir de novo.

 

  Depois disso, os sonhos ficaram fragmentados e desconexos, variando entre curtas lembranças e doces cenários criados pela minha mente. Todos envolviam ela; seu cheiro, seu toque, seus olhos. Tudo, para minha felicidade, era sobre Lauren. Quando acordei pela segunda vez, o apartamento estava silencioso e escuro do lado de fora. Continuei deitada, apenas mirando o teto por mais tempo do que posso precisar. Em determinado momento, resolvi levantar e tomar um banho. Enquanto a água quente escorria pelo meu corpo, eu tinha os olhos fechados. Sabia que o tempo de fugir havia acabado, precisava me recompor e voltar para realidade, ainda que estivesse apavorada.

 

  Sai do banheiro, buscando reunir coragem para ir atrás de Harry e do resultado da cirurgia. Sabia que, dado o horário, a operação já havia terminado. O medo congelava meus ossos e me sentia doente do estômago, a ponto de querer vomitar. Nunca senti uma angústia tão profunda, mas independente de qual fosse o desfecho, ele já era real e conhecido. 

 

  Despedida ou esperança. Tragédia ou milagre. Segunda chance ou fim.  

 

  Era hora de descobrir, mesmo que a resposta me matasse. Deus, a incerteza era perturbadora, torturante, quase me tirava a sanidade! Alcancei a sala com as pernas moles devido a loucura de sentimentos, e para minha surpresa, Harry estava lá. Ele se virou para me encarar e eu fiz o mesmo, analisando sua expressão sem saber se queria encontrar o que estava procurando. A troca de olhares durou alguns segundos, até que seu rosto se contorceu e ele começou a chorar. É impossível descrever o que senti naquele instante, mas certamente, não desejo para ninguém. 

 

  A dor foi cortante, desumana, cruel. Fiquei muda, vazia, sem ar. 

 

  Então era isso? Assim era o fim do mundo, o fim de tudo? 

 

  A enxurrada terrível e devastadora veio de uma vez e tenho certeza que desmaiaria devido a tontura apavorante que escureceu minha visão. Entretanto, antes que tal reação pudesse se desencadear, meu amigo avançou como um tiro e me tirou do chão, e aos pulos começou a me rodar no ar. 

 

-Mila, ela conseguiu! Ela conseguiu, porra! – Ele repetia com alegria na medida em que ria e chorava. Fiquei imóvel, sem conseguir compreender o que estava acontecendo. – Você ouviu? – Parou, segurando meu rosto com um sorriso enorme sendo banhado pelas lágrimas. – A operação deu certo, a Lauren está bem!

 

-O-O que? – Balbuciei atônita, ainda tendo dificuldades para captar a mudança de perspectiva. Ora, então o choro dele era de alegria, e não porque o pior aconteceu?!

 

-Deu certo! – Sacudiu meus ombros, agitado e muito comovido. –  Não te acordei antes porque você precisava loucamente descansar um pouco, mas a Keana ligou para avisar faz umas duas horas. A cirurgia foi um sucesso, a Laur vai ficar boa, Mila!

 

-V-Você, você tá falando sério? –  Pergunto com a voz falha.

 

-Sim, juro! – Me abraça mais uma vez, tentando transmitir segurança e, ao mesmo tempo, extravasar seu próprio entusiasmo.  – Já sei a resposta, mas que tal irmos para o hospital e lá você vê com seus próprios olhos?

 

  Apenas assenti fracamente, e dentro de poucos minutos, já nos encontrávamos no estacionamento do lugar. Sendo muito honesta, não me permiti acreditar. Nem mesmo quando chegamos a entrada e fui recebida pelos abraços eufóricos de Lucy, Vero e Ashley, fiquei totalmente convencida. Não sei o que esperava ou o que era necessário para que pudesse enfim respirar aliviada, só temia demais estar fantasiando aquele final feliz e sofrer o dobro quando descobrisse que tudo foi uma invenção da minha cabeça. 

 

  Entre o momento em que Harry me comunicou sobre o sucesso da cirurgia e o que estive de frente para o médico responsável, recebendo autorização para vê-la na UTI, deve ter se passado mais de uma hora, da qual pouquíssimo absorvi. Minha mente ainda estava conectada a uma sintonia diferente, que como forma de proteção, tentava me manter em um plano distante do caos. No entanto, quando a vi toda entubada através do vidro que cercava o quarto, tudo em mim voltou.

 

  Acredito que, para alguém que vive da escrita, é especialmente complexo um momento onde faltam palavras. Em menos de um segundo, incontáveis sentimentos distintos e conflitantes explodiram no meu peito, indo dos mais deprimentes, aos mais eufóricos. Para começar, senti uma tristeza densa e muito dolorosa. A Lauren é um fenômeno inexplicável; uma força da natureza conhecida por sua vitalidade, paixão e independência. Deitada naquele leito; pálida, tendo a sobrevivência condicionada a numerosos aparelhos e estando tão frágil, ela parecia o oposto de suas principais características. Meu coração se contorceu em dor ao imaginar tudo o que ela passou e ainda iria passar. Me matava com requintes de crueldade vê-la sofrer daquela forma, e tudo o que eu mais queria era poder encontrar um jeito de impedir que qualquer mal chegasse perto da minha branquinha. 

 

  Por outro lado, fogos de artifício pipocavam devido a festa que acontecia em mim. Ela conseguiu, porra, ela conseguiu! Se o desespero a pouco quase me fez desmaiar, o alívio chegou perto de fazer mesmo. A felicidade era tamanha, que chegava a causar dor. Confesso que, pela madrugada, quando uma médica explicou a gravidade do seu quadro de maneira tão pessimista e praticamente a desenganou, o meu lado racional começou a se preparar, pois não acreditava que ela sairia viva. Por mais que um fio de esperança sempre ouse resistir, no fundo, sabemos quando a fé é apenas uma forma de conforto, e não realista. Bom, agora que passou, sinto que fui uma completa tola por ter duvidado de sua capacidade.

 

  Ela disse que só morreria quando quisesse, e Lauren nunca descumpre suas promessas, nunca! Uma pessoa normal certamente teria morrido, mas Lauren não é uma pessoa normal e eu mais do que ninguém deveria saber disso. Ela é tão estupidamente poderosa, que começo a acreditar que só não domina o mundo porque não quer. Para minha total infelicidade, tive pouquíssimos minutos para observá-la, e durante esse tempo, me revezei entre chorar, sorrir e agradecer a todas entidades existentes pela oportunidade de ter mais tempo com ela. Quando uma enfermeira veio me chamar de volta, tenho dificuldades para explicar como meu coração não pulou do peito e invadiu o quarto, ficando deitado bem do seu ladinho. Talvez ele tenha ficado, pois sei que, de alguma forma, eu fiquei. 


 

(...)


 

  Lauren passou os cinco primeiros dias de sua recuperação no centro de tratamento intensivo, e apesar do susto maior já ter passado, esse tempo foi, sem dúvidas, repleto de medo e desgaste. Era sabido que ela passaria por um pós operatório complicadíssimo e que teríamos que conviver com o risco de um retrocesso em seu quadro, o que potencializou a nuvem de estresse que nos cercava. Descobri que, embora a operação tenha sido considerada um sucesso, nem de longe foi tranquila. Me chame de covarde ou o que for, mas me recusei a ouvir mais detalhes depois que Ian começou a narrar as complicações. Estava me fazendo muito mal escutar e já estava cansada de me sentir assim.

 

  Embora Keana tenha autorizado o repasse de informações, elas foram limitadas e superficiais, mesmo que o pessoal não tenha ciência disso. Quais motivos teriam para desconfiar, não é? Afinal, ninguém nem imaginava o esforço que estava sendo feito para manter a verdade sobre a saúde de Lauren em segredo. Até a manhã na capela, eu mesma não sabia, e nesse sentido, a ignorância é uma benção na qual sinto inveja. O que foi relatado é que a parada cardíaca foi causada por um mal súbito consequente de fatores genéticos. Já a operação, se tratou de um procedimento para restaurar partes do sistema cardíaco, que sofreu danos severos e possivelmente irreversíveis devido ao tamanho do trauma. Bom, essa narrativa é um excelente exemplo de como é possível mentir dizendo apenas a verdade.

 

  Mas tirando a parte do medo constante de que algo desse errado e do cansaço emocional causado pela situação, as coisas melhoraram muito em comparação aos quatro dias anteriores. Ainda era péssimo, porém, o pior provavelmente já tinha passado. Durante esse período, Lauren permaneceu sedada e sob um monitoramento rigoroso. As visitas também eram limitadas, somente duas pessoas podiam entrar e para vê-la á distância. No decorrer da semana, grande parte dos amigos  que vieram prestar apoio tiveram que ir embora. Para que ficassem mais tranquilos, dei a ideia de gravar vídeos com mensagens de carinho e prometi mostrar a Lauren assim que ela acordasse.

 

  E graças aos céus, mostrando mais uma vez o mulherão foda que é, Lauren respondeu muito bem a internação e no sexto dia foi transferida para um quarto normal. Aí veio um ponto que pode parecer bobo, mas que gerou um verdadeiro inferno: a questão das visitas e do acompanhante.  

 

  Obviamente, todo mundo queria os minutinhos permitidos para ficar ao seu lado, e para surpresa de zero pessoas, briguei feio com a parte filha da puta da família dela. Eles, que nunca fizeram questão nenhuma, queriam a todo custo reivindicar a preferência pelas visitas. Só sobre o meu cadáver que iriam! Minha relação com Clara até tinha melhorado ao longo dos dias, mas depois desse episódio, amargou de vez. Quando nos víamos no hospital, mal olhávamos uma na cara da outra e eu não poderia me importar menos. Acabou que sobrou para pobre da Keana colocar ordem nas coisas, e para o meu deleite, minha cunhada, na qual nunca critiquei, também achou que os mais próximos deveriam ter a prioridade e assim ficou determinado. 

 

  Na manhã da primeira visita, estava tão empolgada, que cheguei ao hospital três horas antes. Existia a expectativa dela acordar a qualquer momento, mas sabia que não era o provável. Ainda assim, fui toda arrumada e cheirosa, levando um buquê escandaloso de todo tamanho. Em grande parte, fiz isso por mim mesma, estava precisando muito me sentir ao menos um pouquinho bem. Eu já estava ficando estressada com a demora quando, para a minha felicidade absoluta, o maldito horário chegou. Ashley e eu subimos juntas, já que devido ao tamanho da fila, ninguém teria o privilégio de vê-la a sós. 

 

  Recebemos as devidas orientações e passamos por um processo de higienização antes de poder entrar no quarto. Quando o fizemos, duvido que surpreenda a alguém o fato de que quase morri de emoção. Claro, sempre fui chorona e nunca fiz questão de esconder isso, mas nesse caso em específico, como não se comover? Depois de longos, quase intermináveis dias, finalmente podia chegar perto do meu amor. Soava como o paraíso! Deixei o buquê sobre uma bancada e me aproximei, fazendo uma força enorme para não correr e pular em cima dela. Só não o fiz porque a mataria, e seria muito desagradável sobreviver a tudo isso para no final ser assassinada pelo peso da namorada desnutrida. 

 

  E nossa, Lauren parecia tão fraquinha! Seu aspecto melhorou muito em comparação ao que vi logo após a operação, mas ainda assim, era terrível. Desde que entrei já estava chorando, porém, quando toquei sua mão pela primeira vez, os soluços e espasmos vieram com força total. Ela tinha emagrecido muito, estava pálida, gelada, tinha o braço lotado de acessos e respirava com a ajuda de aparelhos. Apesar disso, o que verdadeiramente me surpreendeu, foi seu semblante pacífico. Mesmo estando em um estado tão vulnerável, a gringa continuava carregando aquela aura de paz pela qual sou apaixonada. É incrível, né? Vim aqui para dar uma força para ela, mas no final, foi ela quem deu uma força para mim.  

 

  O tempo de visita passou infinitamente mais rápido do que gostaria, e muito antes que estivesse preparada para me afastar, fui obrigada a fazê-lo. Ainda não tinha falado ou feito nenhuma das coisas que queria, parece que literalmente pisquei e já estavam me tirando dela de novo. Quis fazer um escândalo e não sair porra nenhuma, juro que quis. Qual é! Só chorei como uma maluca e segurei sua mão e já acabou? É muito injusto! Contudo, quando me vi sendo pressionada e sem alternativas, me apressei pra sussurrar perto do seu ouvido as palavras que estavam no meu coração naquele momento:

 

-Ai amor, tenho tanta coisa pra chorar na sua orelha, que quando começar, vai querer voltar para o coma. Vê se acorda logo, princesa. Prometo que vou cuidar muito bem de você, vou ficar do seu lado o tempo inteiro, até cansar. – Deixo um leve beijinho em sua testa. – Te muito amo Lo, estou te esperando. 

 

  Com o coração quentinho de amor e expectativa, fui retirada, mal podendo esperar pelo encontro seguinte. Acontece que, naquela tarde mesmo, uma notícia agridoce chegou. A parte doce, foi que Lauren havia acordado. Porra, a alegria foi geral! Assim que a ligação acabou, queimamos uma caixa de fogos de artifício nos fundos do motoclub e rolou a maior festa. Era como se enfim a tormenta tivesse acabado e pudéssemos respirar sem medo. A comemoração foi realmente linda e tenho certeza que jamais vou me esquecer da euforia que dominou a todos nós. Já a parte salgada – pelo menos para mim – é que a bonita escolheu abrir aqueles lindos olhinhos justamente quando quando Channing e Jamie estavam com ela. Puta merda, que raiva! Sei que ela não teve controle sobre isso, só que me soou como um tremendo desaforo. Tirando esse detalhe indigesto, fomos abastecidos apenas com novidades empolgantes naquela tarde. Após ter acordado, Lauren passou por diversos exames e obteve resultados positivos em todos. Infelizmente, por causa da porrada de remédios, foi dito que ela logo voltou a apagar. Depois que soube disso, senti que não aguentaria esperar até a manhã seguinte para vê-la novamente e cheguei a implorar a Clara para trocar comigo e me deixar ser a acompanhante da noite, mas para o meu sofrimento e frustração, ela se recusou. 

 

  A ansiedade para encontrá-la logo foi tanta, que nem dormi de noite. Eu ainda estava ficando em seu quarto no segundo andar, preferi assim. Além de um grupo de amigos estarem hospedados no nosso apartamento, me sentia melhor e mais próxima de todos estando ali. Repetindo o processo, cheguei três horas antes toda bonitinha no hospital. Dessa vez subi ao lado de Jack e só faltava saltitar no lugar de animação. Entretanto, algo que nem sequer cogitei e que veio como um puto banho de água fria aconteceu: Lauren não acordou.

 

  Acho que nunca, nunquinha mesmo, fiquei tão decepcionada na minha vida. Jack ainda teve a ousadia de rir da minha cara de cachorro sem dono, o que achei uma sacanagem, visto que fiquei chateada de verdade. De qualquer forma, foi muito bom passar aqueles minutinhos ao seu lado. Aproveitei a visita melhor que no dia anterior e não lhe poupei carinhos. Apesar da data de cada um ficar como acompanhante já estar definida, tentei mais uma vez trocar, recebendo outra recusa. 

 

  Já na outra manhã, me encontrava em um misto de expectativa, nervosismo e receio. E se ela estivesse dormindo de novo? Meu deus, eu ia dar um chilique! Fui com o plano de discretamente cutucá-la até que acordasse se fosse esse o caso. Até podia ser infantil da minha parte, mas deus sabe que eu não estava aguentando mais esperar. No entanto, não foi preciso, pois, assim que abri a porta, meu olhos favoritos no mundo todo me encaravam como se estivessem apenas me esperando.   

 

  Meus batimentos, que antes já estavam acelerados, explodiram de vez e quase tive um teto preto. Acompanhando minha reação, a máquina que monitorava seu pulso também disparou de maneira escandalosa. Um sorriso enorme e apaixonado rasgou meu rosto, e mesmo com a máscara respiratória, pude ver o brilho radiante de seus olhos na minha direção muito nitidamente. Sem perder tempo, corri apressada até a cama, envolvendo seus ombros do modo como pude. 

 

-O-Oi, minha linda! – Sua voz soou falhada e fraquinha, ainda assim, nunca fiquei tão feliz em ouvi-la. A tendo daquela forma; acordada, falando e em meus braços, pude enfim sentir os pedaços que se partiram em mim começando a se unir. O êxtase era inexplicável! Eu só queria sair por aí cantando, dançando e gritando que essa mulher é a minha vida. 

 

-Oi, meu amor! – Respondo mais do que contente, me afastando o mínimo possível apenas para segurar seu rosto. Lauren me olhava de um jeitinho lindo que me derretia todinha, e quando ergueu a mão para entrelaçar seus dedos com os meus, quis falecer de amor. Ela sorria e parecia muito feliz, mas certamente lutava bravamente para não fechar os olhos e eu podia afirmar isso pelo jeito engraçado como suas pálpebras tremiam. – Ai Lo, eu tô tão feliz que nem sei o que dizer!

 

-Acho que eu também não. – Inicia um carinho na minha mão com seu polegar. – Eu queria muito te beijar agora.  

 

-Eu também. – Suspiro mexida. – Será que é perda de tempo ir perguntar para enfermeira se pode?

 

-Tenho certeza que sim. – Uma terceira voz, na qual tinha me esquecido completamente, se manifesta. – Meninas, que orgulho! Vocês não perdem tempo mesmo, hein? – Vero se aproxima com um sorriso zombeteiro. – Oi, branquela! Você deu um susto fodido na gente, sabia?

 

-Que besteira. Me insulta que pensem que eu morreria fácil assim. – Devolve a brincadeira quase morrendo para pronunciar as palavras. Vendo sua dificuldade, já me preparava para ir em busca de água quando Vero tomou a iniciativa.

 

-Não, Cabello, fica ai, deixa que eu pego. – Avisou já se encaminhando para o armário ao lado da porta.

 

-Ei. – Lauren chama minha atenção de volta. – E você, Camz, c-como está?

 

-Agora estou melhor. – Forço um sorriso. – Eu que deveria estar fazendo essa pergunta. Como está se sentindo? Está com muita dor?

 

-Ah, me sinto um lixo. Até piscar dói e eu nem q-quero imaginar como está meu cabelo. – Sem conseguir me conter, acabo rindo.

 

-Sério mesmo, Lauren? Seu peito está todo costurado e sua maior preocupação é o cabelo?

 

-Não, minha maior p-preocupação é você. – Abaixo o olhar, toda sem graça. – A Kea me contou que você  f-foi muito forte, que cuidou de todo mundo.

 

-É verdade! – Veronica aparece de supetão, sorrindo orgulhosa. – Quando o surto coletivo explodiu e eu jurava que alguém ia matar um ou dois dos seus tios, a mãebello apareceu e segurou a onda de geral. A bunduda brilhou, sem ela, tudo teria vindo abaixo! 

 

-Para, não é pra tanto! – Reviro os olhos para o seu exagero. – Todos se ajudaram, e eu mesma surtei e precisei ser socorrida várias vezes.

 

-Laur, ela só está sendo modesta. – Nossa amiga rebate, se inclinando para colocar o canudinho na boca dela. 

 

-Eu acredito em v-você. – Até pensei em retrucar, porém, seu olhar para mim expressava uma admiração tão grande, que fiquei hipnotizada e perdi a deixa. – Muito, muito, muito obrigada mesmo, baby. Você foi tão altruísta, tão incrível… – Suspira, e mais uma vez, ouvimos a máquina de monitoramento cardíaco disparar. – Tudo o que f-fez, a barra enorme que teve que aguentar… Nossa! Acho que nunca vou ser capaz de compensar para você.  

 

-Calma, não se emocione. – Brinco, deixando um beijo em sua mão. – Relaxa que eu consigo pensar em várias formas, só vou te esperar ficar melhor. – Pisco pra ela, decidindo entrar em outro assunto. – Lo, já te contaram que veio gente até da Ásia pra te ver? 

 

-Da Ásia? Poxa, a mamãe só disse que muitos amigos de longe vieram. 

 

-Há, você nem imagina! O salão do motoclub ficou lotado. – Vero puxa uma cadeira para o seu lado, me oferecendo uma também. – É sério Laur, só a galera que veio por você deve ter movimentado os números do turismo dessa cidade por um ano.

 

-Nossa, mas foi tanta gente assim? – Pergunta insegura, mas seu sorriso iluminado não escondia a felicidade.

 

-Veja você mesma. – Pego o celular, erguendo a tela na altura de sua visão. – Por causa do trabalho, família e outras questões, muitas pessoas acabaram tendo que ir embora, mas fiz um vídeo pra você. Olha!

 

  Dei play, e durante o restante do tempo que tivemos, mostrei o compilado de mensagens de apoio deixadas pelos nossos amigos. O mais bonitinho, foi vê-la se segurando para não chorar sendo que estava na cara sua surpresa e emoção. Deu a maior trabalheira filmar e editar as gravações, mas só de ver a expressão grata e eufórica em seu rosto, percebi que não poderia existir recompensa maior. A mais velha lutou muito para se manter desperta, mas acabou sendo vencida pelo cansaço e antes que pudéssemos nos despedir, já havia adormecido. Plantei um beijo carinhoso em sua bochecha e fui embora com as energias renovadas. 

 

  E não podendo ser diferente, a minha vida nas próximas semanas foi totalmente dedicada a sua recuperação. Inevitavelmente, foram tempos conturbados, embora muita coisa boa tenha acontecido também. Na primeira semana, Lauren mais dormia do que ficava acordada. Ela tomava uma penca de remédios e passava por exames diários para garantir que o processo havia sido bem-sucedido e que se recuperava de acordo com o esperado. Quando bati a moto e fiquei dependente de terceiros até para as atividades mais básicas, tivemos uma conversa sobre o quão difícil era se ver em tal condição, e na ocasião, Lauren disse que jamais suportaria passar por algo semelhante. Conhecendo sua personalidade e princípios quanto a aparência, me preparei para tempos terríveis. Contudo, para minha surpresa, a mais velha lidou muito bem com o fato de estar temporariamente impossibilitada.   

  Claro, nem de longe estava sendo fácil para nenhum de nós, mas dentro das possibilidades, ela aceitou bem a necessidade e não se deixou afundar em um buraco de constrangimento. Na verdade, na maior parte do tempo, ela foi a mesma Lauren de sempre; brincalhona, sorridente e bem-humorada. Queria poder dizer que também me saí tão bem, mas estaria mentindo, pois fiquei triste e estressada em uma frequência bastante considerável.  

 

  A parte da tristeza, obviamente se deu por acompanhar a mulher que amo em uma situação tão frágil. Foi impossível não me deixar abater vez ou outra, eu odiava que ela tivesse que passar por isso e doía profundamente em mim. Já o estresse teve muito a ver com a questão de eu já estar sensível e a abençoada da família dela fazer de tudo para puxar briga. Batemos muita boca por aqueles corredores afora, mas sem deixar que Lauren soubesse, já que passar nervoso só foderia sua recuperação. 

 

  Na segunda semana, Lauren já estava bem melhor e isso contribuiu muito para que os 

ânimos se acalmassem. Ela já conseguia tomar partido e decidir muitas questões por si mesma, então as discussões nesse sentido diminuíram significativamente. Acompanhando sua melhora, todos ao redor ficaram mais calmos e a vida aos poucos foi começando a voltar ao normal. Assim que nosso apartamento foi desocupado, voltei para lá. Os amigos de longe um a um foram se despedindo, e seguindo as próprias orientações da gringa, convenci Jack a reabrir o restaurante. Quando não estava no hospital com ela, estava na cozinha ou no salão, ajudando como podia. 

 

  Nosso grupo de amigos nunca esteve tão próximo, passávamos todo o tempo que podíamos juntos e essa ajuda mutúa foi fundamental para o processo de cura após tamanho susto. Porém, admito que nada me fez tão bem quanto poder estar com ela de novo. Evitava pensar que a essa altura deveríamos estar de férias em algum lugar bonito da Europa, realizando nosso sonho de viajar o mundo juntas, até porque, era o menos importante. Eu só queria ficar com meu amor, mesmo que apenas jogando damas, e não existe nada mais precioso para mim do que o tempo ao seu lado, seja como for, ou fazendo o que for. Em um curto período, a perdi como mulher e, antes que pudesse me recuperar, quase a perdi para sempre. Hoje valorizo infinitamente mais cada minuto em que estamos juntas, porque finalmente consigo entender o tesouro imensurável que cada instante é.

 

  Sobre o nosso status, nada mudou. Não falamos nada a respeito de voltar, mesmo que nossa relação esteja muito parecida com a que tínhamos antes do término. Nos beijamos, falamos sobre nossas vidas como se elas ainda fossem só uma e agimos como um casal. Tanto, que em certo ponto, até já estava considerando que havíamos voltado mesmo, mas vi que estava enganada quando um enfermeiro perguntou se eram namoradas e Lauren negou bem na minha cara. Bom, o rótulo realmente não me importa, e em um outro momento, poderemos nos acertar direitinho nesse quesito. 

 

  Entre as turbulências que se desenrolaram nessas semanas, uma das piores foi a revelação de que Keana era a responsável pelas restrições do hospital. Por mais que tenhamos tentando manter esse tópico em segredo, a verdade acabou vindo a tona e causou um tremendo mal estar. Acontece que nenhuma ala, muito menos a equipe médica, revelava nada sem a devida autorização, e quando isso se estendeu até mesmo para Clara, as suspeitas saíram de controle e a informação estourou. O real problema da minha cunhada foi com os próprios parentes, já que nosso círculo conseguiu compreender suas motivações assim que Lauren saiu em sua defesa e explicou que a irmã apenas cumpriu com sua vontade. A de olhos verdes não esclareceu muito bem o porquê de querer tanto sigilo e já ter tudo planejado no caso de uma emergência, mas ninguém pressionou muito e acabou ficando por isso mesmo.

 

  Eu sei o porquê, e por isso, em vários níveis e sentidos, qualquer comportamento minimamente estranho me deixa preocupada além do normal. Sempre fica a dúvida: é paranoia minha ou mais um segredo está sendo guardado? Como um ótimo exemplo disso, posso citar o atual ar contemplativo que Lauren adotou logo após uma longa consulta com o cardiologista responsável por seu caso. Obviamente, ela inventou uma desculpa para ser acompanhada somente por Keana e só compartilhou um amontoado de informações vagas. Esse episódio ocorreu há três dias, e desde então, direto a pego presa nos próprios pensamentos, como se enfrentasse uma brutal batalha interna. 

 

  Não insisti em obter respostas e nem nada parecido. Sim, estava preocupada, mas havia tomado a decisão de ficar ao seu lado independente das circunstâncias e não voltaria atrás, ainda que desconhecesse grande parte da história e tivesse ciência de que talvez esse cenário nunca mudasse. Eu estava bem com a minha escolha e seguiria em paz com ela, esse era o plano.    

 

  E então, chegamos ao presente momento. Depois de mais de vinte dias de internação, essa seria a última noite de Lauren no hospital. Já na manhã seguinte, bem cedinho, finalmente poderia levá-la para casa e estava em êxtase num nível onde nada poderia abalar minha felicidade. Eu saltiva pelo quarto feliz da vida, juntando suas coisinhas na mala sem poder ver a hora de tirá-la dali.

 

-Ai Lo, eu comprei uma cama nova pra gente, uma daquelas boas, da nasa, sabe? Nossa, o bendito do colchão fez uma mágica na minha coluna, você vai amar!

 

-Hum, parece bom, fico feliz. – Responde avoada, o que me faz virar para olhá-la.

 

  Lauren estava infinitamente melhor, tanto que, tirando a perda de peso e o aspecto pálido, sua aparência já havia praticamente voltado a beleza descomunal na qual nunca me acostumei. Ela também se encontrava muito mais forte; conversava normalmente, conseguia andar, realizar várias atividades básicas por si mesma e aos poucos ia voltando a sua melhor forma. 

 

  O que me instigou, no entanto, foi a maneira como ela me encarava. A mais velha tinha o corpo virado na minha direção, e sem desviar o olhar nem um milímetro após perceber que havia sido flagrada, continuou me estudando atentamente com seus olhos sagazes, como se buscasse em mim algo além do visível. 

 

-O que? – Inclino a cabeça confusa, não obtendo resposta ou qualquer sinal de que ela pretendia parar com aquilo. A morena continuou a me analisar, e com um sorriso sem-graça, tornei a perguntar. – O que foi, Lo?

 

  A mais velha por fim interrompeu sua busca e mirou o teto, tomando uma longa respiração antes de afirmar:

 

-Você sabe.

 

-Sei o que?

 

-Você sabe o porquê de eu estar aqui. 

 

  Pisco rapidamente várias vezes, tentando compreender se ela se referia ao que eu pensava. 

 

-Bom, depende. – Me aproximo e repito seu gesto de instantes atrás, passando a estudar suas feições. Não precisei de muito para chegar a uma conclusão. Com um suspiro, arrastei uma cadeira para o seu lado, puxando sua mão para deixar um beijo na palma antes de prosseguir. – Você quer conversar sobre isso?

 

-Não, mas acho que precisamos, não é? – Me lança um sorriso triste e eu retribuo, abaixando a cabeça em seguida.

 

  Não estava esperando que um assunto de tamanha importância entrasse em pauta assim, do nada. Honestamente, por mais que já tivesse pensado nisso, não fazia nem ideia de como começar. Por sorte, não precisei, pois, após algum tempo em silêncio, Lauren se adiantou.

 

-Primeiro, quero que saiba que não me arrependo de nada. – Foram suas palavras, proferidas de maneira simples e direta. – Seria muito hipócrita da minha parte esconder um segredo que afeta tanto a sua vida por anos e, agora que descobriu, pedir perdão e dizer que faria diferente se tivesse a chance. Eu não faria, muito pelo contrário, e preciso que saiba disso antes de qualquer coisa.

 

-Uau. – Coloco a franja atrás da orelha, sorrindo surpresa para a sinceridade de sua fala. – Acho que é justo, Lauren. Sendo honesta, estaria desapontada se me dissesse algo diferente disso.  

 

-Menos mal então, acho. – Coça a garganta, desconfortável. – Quem te contou e até qual parte?  

 

-Sua mãe. – Admito sem rodeios. – Ela contou o que sabia, da forma como sabia. De qualquer jeito, a única versão em que estou verdadeiramente interessada, é a sua. Você compartilharia comigo, Lo?

 

-Sim, Camz. Depois de tudo, é o mínimo. 

 

  Ajeitou sua posição na cama de forma que pudesse ficar de frente para mim. Lauren parecia nervosa, como sempre ficava quando tinha que entrar em assuntos que não gostaria, mas além disso, também parecia confiante e conformada. Enquanto isso, eu estava bem tranquila. Queria deixar claro que não me sentia enganada ou algo assim, o que era verdade. 

 

-Como já deve saber a essa altura, a parada cardíaca não aconteceu do nada, e tão pouco foi a primeira. Explicando de maneira simples, nasci com uma condição onde meu coração é fraco e envelhece em um ritmo muito mais acelerado do que o restante dos meus órgãos e corpo. É uma herança de família e, até onde a medicina estudou, não tem solução. Portanto, a cada ano que envelheço, meu sistema cardíaco envelhece três. E também há o risco de entrar em pane e simplesmente parar de funcionar de repente, como aconteceu. 

 

  Respiro fundo, me esforçando para absorver o baque melhor do que da primeira vez.

 

-Certo, e… Como você descobriu sobre essa condição?

 

-Eu sentia muitas dores no peito desde novinha e a mamãe me levou em diversos médicos, mas como se tratava de uma síndrome rara, demorou bastante até que o diagnóstico correto fosse feito. Eu tinha dezenove anos quando descobri, e talvez, essa seja a pior parte da história. – Suspira, e pela primeira vez, fala olhando para baixo. – Recebi o diagnóstico na pior fase da minha vida. Tinha acabado de ser expulsa de casa e havia me metido em um espiral tóxico de excessos, raiva e escolhas erradas. Mesmo ouvindo que podia morrer a qualquer momento, não me importei, porque era isso o que eu queria. – Seguro sua mão na tentativa de transmitir apoio, muito embora, quem precisasse de apoio ali fosse eu. Deus sabe o quanto foi difícil ouvir tais palavras saindo de sua boca, ainda que sobre um passado distante. – Um transplante já deixou de ser uma opção viável pra mim há muito tempo, mas na época da descoberta, talvez, pudesse ser a solução. Depois, a doença avançou e comprometeu todo o sistema cardiovascular, então um novo coração não resolveria o problema. Essa é a verdadeira tragédia pra mim, sabe? Fiz várias escolhas irresponsáveis movida pela emoção e me safei, mas se tratando da mais importante, não houve perdão. – Ri sem humor algum. – É… A vida nunca falha em nos ensinar uma boa lição.

 

-Ai Lauren. – Nego com tristeza, sentindo uma coisa horrível na boca do estômago. – Você disse que essa não foi a primeira parada cardíaca? 

 

-Não, foi a segunda. Você já me perguntou o porquê de eu ter decidido largar tudo e ir viajar o mundo sem a intenção de voltar. A razão foi essa, a primeira vez que meu coração parou de bater. – Faz uma pausa, buscando a melhor forma de continuar. – Depois que descobri, não contei para ninguém e continuei vivendo como se nada tivesse acontecido. O tempo foi passando e eu não sentia nada que pudesse interferir na minha vida, então era fácil esquecer. Até que chegou um dia onde decidi que queria me dar uma nova chance. Foi depois de uma conversa com o Jack, refleti muito e percebi que queria tentar voltar a ser feliz, sem fingimentos. Lembro que assim que me despedi dele, fui até a boate que dançava e avisei que estava saindo. Depois, fiz as pazes com a Keana depois de dois anos sem conversar e pretendia de verdade parar com as merdas que fazia e tentar encontrar um rumo. Ai ai, queria até mesmo voltar no cardiologista e perguntar sobre o transplante… – Revela em um tom de lamentação. – É um pouco engraçado como justamente nesse dia a merda toda aconteceu. Lembro de ter sentido uma dor forte no peito, e depois, acordei no hospital.

 

  Por mais que o relato fosse triste, Lauren não parecia exatamente abalada ao contá-lo. Ela narrava demonstrando emoção em certas partes, mas não parecia ter dificuldades para falar ou se lembrar do assunto.

 

-A primeira vez não foi tão grave quanto agora e me recuperei bem mais rápido. Na época, a fofoca que correu foi que eu tinha passado mal por causa de drogas. A Keana foi a única a saber sobre a real causa, já a mamãe só foi descobrir depois, bem depois. 

 

-Ninguém além das duas sabe?

 

-Não, ninguém. Camila, sei muito bem que não estou na posição de te pedir compreensão, ainda assim, acho importante explicar que o meu maior medo era, e continua sendo, que as pessoas descubram o que provavelmente me espera. – Revela com pesar, apertando minhas mãos entre as suas. – Eu estou disposta a fazer de tudo, tudo mesmo, para que esse seja um capítulo oculto da minha passagem por aqui. Não quero que a morte esteja presente nos meus dias e muito menos que a doença altere o modo como as pessoas me enxergam ou agem comigo. Mesmo que não seja proposital, é o que acontece. Não quero carregar esse peso, Camila, só quero andar com aquilo que me faz bem. Poucas coisas importam tanto para mim, e por saber disso, a minha mãe e a Keana prometeram cumprir com a minha vontade caso eu estivesse impossibilitada. A minha intenção nunca foi enganar ou mentir para alguém, por outro lado, contar soa como me assassinar antes da hora. 

 

  Apenas assinto, sem acrescentar nada. Nem de longe era necessário conhecer Lauren profundamente para saber que tal visão se encaixa perfeitamente na sua forma de pensar a vida. E sendo honesta, acredito que faz sentido. 

 

-Bem, continuando, se o primeiro susto serviu para algo, foi para mostrar o quanto meu caso havia piorado muito rapidamente. O doutor deixou claro que, no ritmo que estava, eu não viveria muito. Foi quando eu decidi juntar minhas coisas e ir embora. Já que meu tempo era limitado, por que desperdiçá-lo deixando de fazer as coisas que tinha vontade? E não me arrependo de ter ido, a viagem foi uma das melhores experiências que já tive e me fez aprender muito. Lá no começo, quando tomei a decisão, admito que estava revoltada. Parecia injusto demais ter uma bomba dessas explodindo justo quando me abri para as mudanças que precisava, mas com o passar das experiências, a raiva se transformou em compreensão. Odiar o destino não faria com que ele fosse diferente, então, percebi que o melhor que podia fazer, era aceitar minha condição tal como ela era e a partir disso viver da melhor forma possível, sem me preocupar com o amanhã. 

 

-Entendo... Quando você decidiu voltar?

 

-Quando me dei conta de que a única vida extraordinária que me interessava, estava junto às pessoas que amo. – Seus olhos brilham e um sorriso tímido repuxa os cantos dos seus lábios. – Eu vivia em busca de experiências fantásticas, emoções fortes e momentos memoráveis. Só que com o tempo, tudo isso foi ficando tão pequeno perto das saudades. Chegou um ponto onde percebi que preferia ter uma vidinha simples em Nova York, passando raiva por causa dos parentes e sendo obrigada a ter um emprego de merda, se isso significasse estar perto daqueles que me importavam. Foi quando voltei.

 

  Ela desfaz a junção de nossas mãos para jogar os cabelos para trás.

 

-A partir daí, passei por um longo processo, com altos e baixos que me conduziram a aceitação. Sabe quando você experimenta um momento tão intenso, que antes mesmo dele acabar, já sabe que foi importante? Um dos mais significativos para mim aconteceu quando eu finalmente, com todo meu ser, me senti conformada com a situação. Eu lembro que a sensação me atingiu de repente, e foi tão bom, que só consegui fechar os olhos e dançar. Foi como se eu tivesse feito as pazes com o destino e sorrido para ele, e em troca, ganhei a cura para as minhas dores mais profundas. Durante aquele par de minutos mágicos, todos os elementos que formavam meu universo estavam no lugar que deveriam, e todas as merdas que antes pareciam inconcebíveis, ganharam sentido. Quando sai de casa, não estava esperando por tanto, só queria beber com meus amigos. Foi em uma noite quente de verão, em uma festa viking numa fazendinha ao leste de Nova York. Lembra de alguma noite assim?

 

-Foi na noite em que nos conhecemos? – Pisco surpresa e Lauren sorri para mim, segurando meu rosto e dando início a um carinho gentil.  

 

-Sim, foi. E adivinha? Em pouco tempo, você fodeu com tudo. – Franzo o cenho, confusa com sua acusação, o que apenas faz com que seu sorriso aumente. – Camila, eu já tinha me apaixonado antes e sabia qual era a sensação de querer morrer de amor, mas com você, tudo foi diferente, porque te amar me fez ter vontade de viver para sempre. – Declara com seus olhos verdes derramando devoção e eu viro uma geleia em suas mãos. Sério, quase que me esparramei toda no chão, mas ao invés disso, preferi me inclinar e juntar nossos lábios em um beijo apaixonado. 

 

-Lauren, sua maldita. – Murmuro com a boca ainda colada a sua. – Não pode ficar me olhando assim e dizendo essas coisas quando estamos tratando de um tema tão importante. Perco a concentração. – Encerro o beijo com um último selinho e me afasto, voltando à posição anterior. – Mas explica isso direito, o que exatamente eu fodi?

 

-A minha tão custosa e recém adquirida paz de espírito. – Responde com humor, mas volta a seriedade na fala seguinte. – Não é como se eu tivesse desistido de buscar alternativas e estivesse de braços abertos apenas esperando pela morte, mas desde o princípio sabia que as chances de encontrar uma cura definitiva eram baixíssimas. A minha aceitação era no sentido de que continuaria procurando, mas caso tudo desse errado, estaria bem com isso. Te conhecer me tirou completamente da zona de conforto e me fez querer lutar com ainda mais determinação.

 

-Nesse caso, fico muito feliz por ter destruído sua paz de espírito. – Brinco, apoiando as costas na cadeira. – E durante esse tempo, você esteve se tratando?

 

-Sim, e não pense muito sobre como nunca descobriu, eu me esforçava muito para disfarçar. – Explica praticamente lendo meus pensamentos.

 

   De fato, fiquei encabulada por nunca ter desconfiado visto os anos que passamos juntas. Também fiz uma nota mental para lembrar de avisá-la sobre a noite em que Normani, Ally e eu arrombamos seu cofre. A questão dos remédios com certeza ganhou relevância após a parada cardíaca e é provável que elas a confrontem com isso quando a deixa surgir.  

 

-Não entenda mal o que vou dizer agora, mas ter as esperanças reacesas não me fez muito bem em um primeiro momento. Digo, lá no início do nosso namoro, fiz vários exames e fui em uma porrada de consultas com os melhores médicos que pude encontrar. Havia um tratamento promissor em desenvolvimento e fiquei muito otimista, talvez até um pouco além da conta. Quando recebi a notícia de que não se aplicava a minha condição…Nossa!  – Seus ombros desabam com um suspiro, como se sentisse de novo a mesma frustração. – Foi muito arrasador, Camila. Tanto, que considerei seriamente a possibilidade de te contar tudo e deixar a escolha em suas mãos, ou se não, terminar e te deixar livre. Nunca quis te iludir, meu amor, por isso, durante muito tempo, evitei falar sobre o futuro. E sei que muitas vezes falhei, mas só porque é impossível viver sem sonhar. O que me segurou, foi que semanas depois, outro tratamento apareceu. O que tenho feito desde então.

 

  Faz uma pausa para retomar o fôlego e novamente muda de posição na cama antes de voltar a falar.

 

-Ainda que meu coração tenha falhado mais uma vez, ao longo desses anos, meus resultados vinham apresentando melhoras. O tratamento não faz a síndrome desaparecer, mas retarda o avanço, e no fim do dia, tudo sempre foi sobre o tempo. A medicina está avançando muito rápido e a equipe que cuida de mim diz que devo segurar firme até que a solução apareça. Ainda que as chances sejam mínimas e eu saiba disso, tenho feito o meu melhor. Parei de beber, adotei hábitos mais saudáveis e cumpri a risca com tudo o que foi solicitado. Mesmo que sirva para pouco, ainda que me garanta apenas um minuto a mais, eu quero. – Sem que possa me conter, sinto meus olhos marejando. – Em certo ponto comecei a crer de verdade que tudo daria certo no final, e foi quando decidi de uma vez por todas que manteria segredo. Não queria preocupar mais ninguém com uma tormenta que poderia não se concretizar, e mesmo que tudo viesse abaixo, já te expliquei como me sinto sobre essa marca.

 

  Penso nas diversas vezes que senti que Lauren escondia algo, e também em como ela sempre confirmou que escondia mesmo. Me pergunto qual seria minha reação caso soubesse da verdade, e de que maneira teria afetado minhas atitudes. De uma forma ou de outra, saber ou não soa tão irrelevante agora, tão pequeno. 

-Não está brava com a sua mãe por ela ter me contado? 

 

-Não, não mesmo. Apesar de nunca ter concordado comigo e com as minhas motivações, a mamãe foi até às últimas consequências para cumprir com o que prometeu anos atrás, quando a nossa relação era outra. Se ela sentiu que devia contar, não vou cobra-la por isso. Até porque, sei que o meu desejo só tornou o fardo de todos ainda mais pesado.

 

-Ai Lauren, a sua mãe é uma mulher peculiar. A respeito, ainda assim, tenho vontade de enforcá-la às vezes. Sem contar que não me entra na cabeça que mesmo sabendo da sua situação, ela passou anos te afastando. É muita frieza!

 

-Sei que vai discordar de mim nesse ponto, mas a admiro muito por ter agido da mesma maneira que agiria se eu fosse perfeitamente saudável. Acredite, o oposto seria uma punição ainda pior para mim. Claro que ser tratada com indiferença ainda dói, mas são coisas diferentes. Além do mais, depois do que aconteceu, seria muito egoísmo da minha parte continuar com você sem te dar o direito de escolher tendo todas as cartas na mesa. De várias formas, ela me fez um favor.

 

-O que você quer dizer com escolher?

 

-Você sabe. – Diz com gentileza, pegando minhas mãos em um pedido mudo para que eu me aproximasse. – Você ouviu, comentou e fez perguntas, só que ainda não disse como se sente sobre tudo isso. Não precisa se segurar, eu estou bem e quero te ouvir, Camz, ainda que não goste do que vai dizer. Mas antes, já que estamos colocando tudo as claras, tenho uma última coisa para te contar.

 

-Tudo bem, o que é?  

 

-Na última terça, os resultados de alguns exames que fiz ficaram prontos e o doutor me chamou para conversar.

 

-Sim, eu vi.

 

-Então, são sobre esses resultados que preciso te contar. – Um nervosismo terrível brota no meu peito e aperto mais suas mãos, incapaz de disfarçar o medo mesmo que Lauren parecesse tranquila. – Calma, linda, calma. – Beija os nós dos meus dedos e eu respiro fundo, tentando atender ao seu pedido, por mais difícil que ele fosse. Sem enrolar muito, a mais velha prossegue. – Vou ser muito direta aqui, porque não tem outro jeito de falar. Em suma, o doutor disse que eu não suportaria outra parada cardíaca, e que caso venha a acontecer, será a última. Ele também me deu um ultimato. O tratamento tem impedido que a doença avance muito rápido, mas se não surgir uma maneira eficaz de melhorar o funcionamento do meu coração, a minha perspectiva de vida é curta. Veja bem, não é como se eu fosse morrer amanhã ou depois em decorrência da síndrome, mas após tantos danos, o risco de que meu coração pare de novo é muito grande.

 

  Em algum ponto de sua fala, a minha mente correu para outro lugar, assim como meus olhos. Entrei em um semi estado de choque, contudo, processava o que era dito muito rapidamente. Em um piscar de olhos, mil e um cenários cruzaram a mente e comecei a divagar longe, me esquecendo completamente que deveria respondê-la. As minhas emoções estavam desalinhadas dos meus pensamentos, porém, através da tristeza, uma conclusão simples brilhava em cores quentes. Não sei quanto tempo fiquei distante, imóvel; mas foi a própria Lauren que me puxou de volta para a realidade.

 

-Camila. – Chama com carinho, acariciando meus cabelos. – Nada mudou para mim depois desses resultados, mas não vou ser cínica ao ponto de fingir que não possa ter mudado para você. Continuo tendo os mesmos medos e incertezas de antes, e se essa experiência serviu para algo, foi para reforçar ainda mais a preciosidade que é estar viva. – Revela com tamanha paixão, que me sinto tocada. – Eu passei quatro minutos morta e tive a sorte indescritível de ganhar mais uma chance. Sabe o quanto isso é grande? Não pretendo e não vou cometer a ingratidão de gastar um minuto sequer do tempo que tenho reclamando por aquilo que o futuro possa vir a ser. Eu tenho tanto amor na minha vida, são tantas coisas lindas acontecendo… Triste seria nunca conhecer sentimentos tão bonitos. 

 

  Abre um sorriso e posso ver seus olhos brilhando em lágrimas de emoção. A minha reação é a mesma, com o acréscimo de mãos suadas e um coração disparado.

  

-Eu só quero aproveitar ao máximo enquanto ainda estiver aqui, independente de quanto tempo for. Meu compromisso comigo mesma é continuar sonhando e é o que vou fazer, até o fim. Por outro lado, entendo que não posso cobrar que fique comigo nessa caminhada quando ela se mostra tão ingrata. – A gringa abaixa o olhar e posso ver sua garganta se movendo ao engolir com dificuldade a saliva. – Eu sou teimosa, Camila, jamais vou me entregar fácil. Enquanto houver chances, vou seguir tendo fé. Se fosse diferente, já teria saído do seu caminho a muito tempo. Só que agora, não me cabe mais decidir isso. – Solta minhas mãos e se afasta, e com esse gesto, entendo que está me dando espaço para pensar. Que bobinha! – Conheço seus sonhos para o futuro, viramos várias noites sonhando eles juntas. Não posso continuar te olhando nos olhos e prometendo coisas quando até o minuto seguinte é tão incerto. – Suspira fortemente, me encarando com seriedade. – Eu te quero de volta, Camila, eu quero tudo o que sonhamos. A viagem, o casamento, os filhos, tudo. Caso aceite, vai ser difícil, vai ser complicado, e no final, você é a única que tem a perder. Pensa com cuidado, ok?  

 

  Encerra sua fala com uma aura de tranquilidade enorme enquanto eu só sabia estar admirada. Cheguei a abrir a boca para responder, e justamente nesse momento, duas enfermeiras entraram no quarto para realizar os procedimentos de rotina. Acho que as moças sentiram o clima, pois pareciam super envergonhadas enquanto trocavam o curativo de Lauren e preenchiam o formulário com as atualizações sobre o seu dia.  

 

  Quando elas saíram, ainda fui até a porta e coloquei a cabeça para fora para garantir que ninguém estava por perto. Vendo que não, andei tranquilamente até a cama e empurrei os ombros da italiana, indicando que queria subir. Ela estranhou um pouco, mas fez como pedi e abriu espaço para mim. Deitei de frente para ela e fiz questão de embolar nossos pés, levando minhas mãos até suas orelhas antes de começar a falar.

 

-Sabe Lo, desde que conversei com a sua mãe, várias e várias vezes me peguei pensando sobre o que fazer. – Confesso baixo, como se contasse um segredo. – Quando ela acabou de me contar sobre a sua condição, os riscos e tudo mais, não vou mentir, fiquei devastada. Fiquei mal mesmo, entende? No nível de soluçar de chorar e perder a fé na vida. A conversa aconteceu enquanto você estava passando pela cirurgia e veio como um pedra nas minhas esperanças. Você estava sendo submetida a uma operação onde tinha pouquíssimas chances de sair viva, e com as novas informações, era como se um milagre naquela sala fosse inútil, porque o jogo já estava perdido. Senti que estava recebendo uma punição terrível, um castigo. 

 

  Lauren me ouvia com atenção e parecia sofrer com o meu sofrimento, mesmo que o relato correspondesse a sentimentos que já mudaram. 

 

-Mas essa perspectiva durou pouco, sabe por que? – Pergunto com um princípio de sorriso e a mais velha nega, aguardando com expectativa a continuação. – Você sabe que sou escandalosa, e nesse lance de crise de choro e desespero, sai correndo no meio da avenida e quase fui atropelada. Sendo mais precisa, só não fui porque o Harry apareceu como um príncipe e me salvou na última hora. – Assustada, Lauren tenta falar, mas coloco um dedo em seus lábios, impedindo. – Calma, deu tudo certo. Certo até demais! Foi por causa desse quase acidente, que percebi o quanto a vida é imprevisível. Veja bem, era você quem estava passando por uma cirurgia super complexa, ainda assim, poderia ter sido eu a ter morrido. Isso não é louco? Velhos ou jovens, doentes ou saudáveis, podemos morrer a qualquer momento. – Mordo o lábio inferior, movendo o carinho para o seu pescoço. – Claro, não cheguei a essa conclusão na hora, na verdade, depois desse susto, minha mente foi para um universo paralelo e só voltou depois que soube que estava bem. Mesmo assim, foi importante, me ajudou a entender a situação.

 

  Organizo meus pensamentos, analisando por um segundo como continuar. Minha respiração estava acelerada e sentimentos intensos faziam o sangue nas minhas veias pulsar.   

 

-Lauren, se eu soubesse tudo isso desde o início ou a pouquíssimo tempo atrás, acho que dificilmente teria maturidade o suficiente para lidar. Tal conhecimento só traria dor e condicionaria minhas decisões, ainda que eu não tenha dúvidas de que teria escolhido ficar com você, contra qualquer circunstância. O que eu quero dizer, é que não preciso pensar, porque a minha escolha já foi feita semanas atrás. – Posso sentir o exato momento em que sua respiração fica presa na garganta e sorrio. – O que eu acho que deveríamos fazer, é viver um dia de cada vez e não permitir que o medo do que possa te acontecer mude nossas vidas. Nada mudou para mim, Lauren. Você pode morrer amanhã, ok, mas e dai? Eu também posso. Você não pode garantir que vai cumprir suas promessas, mas adivinha? Eu também não. Meu amor, você está aqui hoje e cada respirar seu significa tudo, tudo pra mim. O risco de te perder cedo só faz com que eu queira aproveitar dez vezes mais a sua companhia, porque você é a melhor coisa que já me aconteceu.  Eu vou lutar ao seu lado, mas também, vou sonhar ao seu lado. A morte é só um segundo, e se for para morrer, morremos, mas primeiro... – Seguro firmemente seu rosto, deixando nossas bocas bem próximas e conectando nossos olhos. – Fazemos todas as coisas que vem antes, pode ser?

  

  A primeira reação de Lauren foi piscar rapidamente, como se assimilasse o que eu havia dito. Ela parecia demasiadamente surpresa, o que achei uma gracinha. É uma bobona mesmo! Porém, quando finalmente absorveu minhas palavras, o fascínio ficou evidente na maneira como me olhava. Lentamente, um sorriso começou a nascer em seus lábios, e como reflexo, os meus acompanharam o movimento.

 

-Eu já disse o quanto você é incrível ho-  

 

  Sem permitir que terminasse, lancei minha boca contra a sua, a beijando da forma como queria há muito tempo. 

 

  Ali eu não temia o destino, a dor, a vida ou a morte. Não sabia qual dessas forças era a mais forte, mas sabia que o amor era maior que todas elas.  
 

  Memento Vivere é um termo em latim que quer dizer: lembre-se de viver.

 

  Mas afinal, o que a vida é pra você?

 

  O que diabos deveria significar viver, quando mal sabemos o que viemos fazer aqui?

 

  Os seres humanos encontram de diferentes formas o significado para a própria existência, e talvez, apenas talvez, não estejamos aqui para encontrar o sentido, mas sejamos nós mesmos uma indagação do universo que careça de resposta.

 

  Estamos em uma corrida que não leva necessariamente a um destino, mas sim, a uma transformação. E nesse caminho coberto de delícias e dores, o tempo é precioso demais. 

 

  Oh, nós vamos embora.

 

  Nós estamos indo.

 

  Mas por enquanto, estamos aqui. 

 

  Então, que aproveitemos a jornada, ela é curta.  

 

 






 


Notas Finais


AAAAAAAAAAAAAAAAAA

Carai, acabou mesmo??? Minhas tardes já se sentem órfãs :((

E ai, como foi a experiência da fic pra vocês? O que acharam do final?

Vai ter epilogo, vou deixar pra me despedir de maneira dramática e desproporcional lá.

Até logo!


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