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História Plague - Capítulo 1


Escrita por: e freir


Notas do Autor


sim eu sofro da síndrome do "naopossodeixarospersonagensseremfelizes" estou em tratamento serio mas temo que nao esteja fazendo efeito

boa leitura szz

Capítulo 1 - Vrykolakas


Seus passos que colidiam contra a porcelana reluzente ecoavam pelo pátio aberto, os guardas que guiavam as filas de pessoas não precisavam os segurar, os algemar, ou acorrentar, os prendiam ali apenas com o olhar; o medo nunca havia sido tão palpável. Alguns choravam, outros tremiam, outros já haviam se rendido por completo, os que se debatiam e gritavam já haviam tomado seus lugares, metros atrás. Achava cômico o quão refém estavam, os que lhe rodeavam e encaravam com o queixo erguido estavam certos afinal, humanos são frágeis demais, a única diferença entre estes é que alguns demoram mais para quebrar do que outros. E naquele momento, desejou que fosse o mais quebradiço possível para que pudesse tentar acabar com aquilo tudo de uma vez. Em alguns cenários, a morte se apresenta como a mais apetitosa das opções, entretanto seu orgulho era muito grande, se permitiria passar por toda a tortura que estava por vir do que abaixar a cabeça para os monstros sujos dos quais agora pertencia. 

Finalmente o som dos passos molengas e desesperançosos cessou, os olhares nublados se levantaram para a figura extravagante que sentava num trono no topo do altar logo em frente. Que porra aqueles vagabundos estavam fazendo? Quem pensavam que eram? Agora haviam retrocedido para a era medieval e aquele era o rei? Com olhos profundos e um terno bem ajustado, o tal se pronunciou:

— Por que estes rostos tão desanimados, homens? Até parece que estão indo para um velório. — O homem sorriu, exalando autoridade com sua voz branda e rouca. Seus músculos se contraíram e seu sangue borbulhou. 

— Essas são suas saudações para o seu novo líder a partir de agora? Vamos, vocês não precisam se sentir tão desolados — então se levantou, passando a andar por entre os homens e mulheres temerosos, o som das solas dos sapatos sociais contra o porcelanato lustrado ecoando pelo pátio —, sei o que todos devem pensar sobre estar aqui, todavia quero os contradizer. Não somos psicopatas e nem torturadores, somos apenas seres vivos com necessidades como vocês. Portanto, se apenas seguirem as regras e manterem a ordem, não irão se machucar. — Encarava com uma expressão branda cada um ali que se encolhiam assustados, até chegar sua vez.

Permaneceu firme com seus olhos no rosto próximo, fazendo o máximo para que o outro não conseguisse alcançar o fundo de desespero em sua retina. Não iria deixar que lhe tratassem como lixo. E a expressão amena e quase acolhedora do homem mudou instantaneamente, agora seu olhar expelia toda sua superioridade e poder. 

— Entenderam? — Levantou consideravelmente o queixo. — Apenas aceitem e entendam seu lugar nessa sociedade, e todos vamos poder viver em harmonia. 

Ele realmente achava que todos ali não sabiam o que estava para acontecer? Ele realmente iria tentar viver essa realidade e iludir os corações desalentos daquelas pessoas? Uma vez que este continuou com a cara contra a sua, com aquela expressão desgostosa, seu corpo respondeu por si só. Uma onda de adrenalina subiu por sua espinha, seus olhos embaçaram e cerrou os dentes. Num segundo, seu punho fechado já havia colidido contra o nariz alheio na forma menos delicada que conseguiu. Os guardas logo correram para lhe segurar e seus companheiros de cela estavam estupefatos. Visto os altos reflexos que aquelas criaturas possuíam, eles realmente não estavam esperando resistência naquele nível do campeonato, ninguém o parou a tempo. 

Seus olhos lacrimejaram com a visão do homem de cabelos castanhos com sangue escorrendo até aos lábios, se sentiu tão bem por um milésimo. Foi possível escutar o som característico dos ossos se quebrando quando o homem ajeitou o nariz no lugar com os dedos e logo sua face estava sem sequela nenhuma, a única prova de que aquele soco havia acontecido eram seus próprios dedos ainda vermelhos pelo impacto. A face do moreno agora carregava sentimentos sufocantes demais, nunca havia presenciado uma aura tão irada quanto aquela. Quando finalmente absorveu que havia socado o líder das pestes negras, dos vampiros que aterrorizavam os sonhos daqueles na periferia, já havia levado uma pancada na cabeça e sua visão estava completamente turva. 



 

                                                                                                               …

 

Aquela realidade era um futuro distante, onde o Chifre da África já havia se separado do continente por resultado da deriva continental, sendo nominado agora um Estado independente, governado por si mesmo. Afinal, aquelas eram as terras que passaram a pertencer ao inimigo após o tratado de paz assinado pela ONU dar o fim naquela crise que se estendia por todo o planeta. Décadas atrás, não cogitariam nunca uma situação como aquela, parecia ser fantasiosa demais, sobrenatural, mas a natureza humana ainda era imprevisível ao conhecimento geral. O que ainda estavam tentando entender era como aquilo havia acontecido, como um ser humano poderia ter mutacionado para um ser daquela índole. Homens que se alimentam de sangue humano. Não sabiam se eram vampiros, zumbis, se eram uma descoberta ou se já existiam há muito tempo, como nos velhos contos romênicos onde strigois eram temidos bem antes da vinda de cristo. A ciência buscava uma explicação, todos se sentiam tão desolados com o medo do desconhecido. Haviam até teorias da conspiração que diziam que o governo havia os produzido artificialmente para solucionar o problema de superpopulação. Pelo menos a política dava uma esperança ao povo, visto o acordo que abrigou as pestes naquele lugar isolado. As pessoas não podiam continuar trancadas dentro de suas casas, e as que saiam não podiam continuar manchando as ruas de vermelho. Na visão de algumas pessoas, aquele estava sendo o período mais horrendo da história. Famílias quebradas, casas destruídas, saúde não estava sendo um termo para se preocupar, visto que suas vidas estavam em perigo de qualquer jeito. O governo teve que viver assinar o tratado, mesmo que a moeda de troca fosse alta. Os vampiros não ficariam presos sem algo em troca; ficariam em sua própria civilização, quietos, desde que os representantes lhe providenciassem o alimento. As manchetes não falavam isso, é claro, porém presidiários e desempregados das periferias eram enviados todos os dias para o presidente do novo Estado.

 


 

                                                                                                               …

 

Suas pálpebras pesadas se abriram aos poucos, seus pulsos e tornozelos estavam doloridos, se encontrava algemado numa cadeira. 

— O céu é lindo visto daqui de cima.

Virou sua cabeça até avistar o homem de cabelos castanhos mirando a janela. As nuvens se mesclavam em tons de laranja e rosa, iluminando precariamente o quarto desconhecido sem luzes acesas. 

— Quando o céu está bonito, quer dizer que vai fazer frio. 

— Estou algemado, porque está com medo? — questionou rude. 

— Se você está algemado, é porque fez algo para estar, Jeon Jungkook — seu nome num tom tão mesquinho fez suas entranhas revirarem —, ainda não nos apresentamos propriamente, sou Kim Taehyung. Pelo visto viemos da mesma nação.

— Eu não me importo sobre quem você é. 

— Você deveria. 

— Não importa seu nome ou sua nação, eu ainda sinto nojo. 

— Nojo de mim? Ou de você por estar tão impotente? — riu. 

Pressionou o interior de uma das bochechas com a língua. 

— Nojo de gente como você, que ignora qualquer resquício de humanidade em benefício próprio. 

Já não tinha medo de morrer. 

Não tinha mais nada por qual lutar.

Taehyung finalmente desviou seus olhos da janela, se aproximando o suficiente para ficar com o rosto próximo do humano. 

— Você sabe que não precisa agir assim, pode ter uma vida saudável como todos nós. — Seu corpo estava fora dos eixos desde que lhe empurraram para aquele lugar, não tinha mais hesito, tudo que circulava em suas veias era ódio, se sentia cego de aflição, não queria escutar aquele homem falar nem por mais um milésimo. Então cuspiu na face alheia. Ele achava mesmo que iria se entregar assim? Que aceitaria ser manipulado e menosprezado? Taehyung havia paralisado. Até levantar um dos dedos para limpar a bochecha, ficou um breve tempo em silêncio.

— Jungkook, quanto é mil menos sete? — Seus olhos penetravam os alheios, sua mandíbula cerrada. 

Jeon não respondeu.

— Quanto é mil menos sete, Jeon? — elevou o tom.

O silêncio continuou junto com a carranca na face do humano, até se assustar ao sentir os dedos de uma das mãos alheias pressionando seu pescoço contra o encosto da cadeira. 

— Quanto é mil menos sete, porra? — exclamou, vendo o fôlego do outro ir embora. Demorou alguns segundos para que se situasse, os olhos alheios incendiando sua pele e os dedos firmes pressionando seus músculos.

— 993 — finalmente respondeu, com a garganta raspando e os pulmões ardendo. 

Tossiu repetidamente quando os dedos finalmente deixaram sua pele.

— Quanto é 993 menos sete? — questionou, agora sentando sobre suas coxas. 

— 986 — respondeu no mesmo momento, sem nem questionar as ações alheias. 

Os dedos finos que antes o sufocavam agora estavam entrelaçados em seus cabelos. 

— Agora você pode continuar a sequência. — Grunhiu. Seus olhos encheram de lágrimas e contraiu todos os músculos. Perdeu a respiração brevemente. Sua mandíbula travou ao sentir as presas alheias fincarem em sua pele, logo ao lado de sua jugular, sentindo o líquido espesso vazar pelos lábios macios e escorrer até sua clavícula. Sentia o aveludado de sua língua passando pelos furos, sentia os dedos alheios puxando seus cabelos, sentia seus braços tremerem e seu nariz buscar incessantemente por fôlego. Sentia tudo. 

— Contar vai fazer com que não perca a consciência, Jungkook — Taehyung sibilou contra sua bochecha ao afastar rapidamente sua boca de seu pescoço, melando sua pele com seu próprio sangue. 

E logo este retornou para sua posição inicial, apertando seus corpos e se esfregando contra seu tronco enquanto sugava sua vitalidade que escorria por seus ombros. A dor aguda também havia retornado, assim como o som das correntes balançando conforme se debatia. 

— 979…

 


 

                                                                                                               …

 

Ilusões de sua mente às vezes o fazia pensar que havia voltado a ter nove anos. Lembrava de ir ansioso para a escola pois mostraria para a sua professora a tabuada que tinha decorado. Adorava decorar tabuadas, as pessoas sorriam e davam batidinhas em suas costas, orgulhosos, quando os contava. Quando perdia muito sangue e ficava meio grogue, sorria orgulhoso por ter decorado os números de 1000 à 363, sempre subtraindo sete. No resto da contagem sempre se embaralhava, era quando Taehyung via que tinha que parar senão seu corpo desfaleceria. 

A imagem do vampiro se transformando para vir até si aterrorizou seus pensamentos e seus sonhos por muitas noites; sempre que este tirava as presas para fora, seus olhos se tornavam vermelhos com grandes veias evidentes abaixo destes, a face de um verdadeiro demônio. Clamou para que o moreno o matasse milhares de vezes. A dor de seus dentes fincando cada parte de seu corpo era insuportável. As feridas demoravam para cicatrizar, demoravam o suficiente para que o outro não conseguisse esperar até que os furos se fechassem novamente para se alimentar. Nunca tinha sido o tipo de pessoa que chora, não importava a situação, mas sentia suas bochechas úmidas involuntariamente de vez em quando. Nunca havia se encontrado tão fraco. Sua visão estava embaçada, não se via num espelho há muito tempo, mas tinha certeza que estava pálido e bem mais magro. Seus cabelos alcançavam seu queixo. Só o alimentavam o suficiente para que não morresse. Taehyung sempre o mantinha limpo, um possível empregado nomeado Hoseok sempre vinha banhá-lo, ele era humano também. Seus olhos reluziam pena ao que se encaravam. Hoseok era gentil e legal, costumava conversar consigo quando se viam, mesmo que muitas vezes nem conseguisse entender o que este falava. Até piscar estava sendo uma tarefa árdua.

O Kim vinha até si pelo menos uma vez ao dia, o olhava com inexpressividade e sentava sobre seu colo, envolvia seus ombros com os braços, quase que com ternura e delicadeza, até que a tortura começasse. Ele parecia pequeno em seu colo, pensou algumas vezes até voltar a gritar. 

— Por favor, Tae… eu não aguento mais — murmurou um dia ao observar Taehyung limpar os lábios sujos com um pano retirado de dentro de seu terno —, dói tanto... — Seus olhos molhados deixavam fileiras de lágrimas escorrerem livremente por seu rosto. Sua voz estava falha, fazia tempos que não mexia sua língua. 

Taehyung o encarou mais uma vez, o ignorou e o deixou. 

— Porra, me tira daqui! Seu filho da puta, eu te mato quando eu sair daqui! Caralho, merda, me tira daqui! — gritava frequentemente, se debatendo na cadeira com a água salgada que saía dos seus olhos se misturando com o sangue seco ao que caía de seu rosto. — Eu te odeio, seu lixo! Você é um monstro, um monstro.

Não sabia há quanto tempo estava naquela situação, o tempo se arrastava lento e cansado. A janela do quarto em que se encontrava sempre estava aberta, poderia contar os dias e as noites se tivesse um incentivo, mas sua desesperança já estava quase o fazendo desistir. Acordou com o sol nascendo naquele dia, seu corpo latejando e seus músculos distendidos por estar na mesma posição por tanto tempo. Encarou o horizonte, tentando lembrar de quando vivia bem com seus pais e tinha planos de carreira e conquistas, tudo era tão bom naquele tempo, quando a única coisa que podia fazer era querer. A única coisa que lhe mantinha um tanto são ali eram suas memórias, desejou ter vivido uma vida melhor e mais emocionante para que tivesse mais do que lembrar. Naquele dia, Taehyung não havia vindo o visitar. Ele apareceu na madrugada do outro dia, vestindo apenas uma camisa branca sem botões e uma calça de linho. Ele nunca parecia tão casual. Seu rosto carregava a mesma expressão de sempre, porém parecia mais cansado. Veio até si novamente, checou suas sequelas como sempre. Levantou sua camiseta, avistando uma área quase recuperada em seu peito. Se ajeitou sobre si, encaixando o rosto na área de sua clavícula. Deixou suas presas expostas, todavia, no momento em que abriu os lábios, Jungkook murmurou:

— Como você consegue? Sabe, fazer tudo isso sem um pingo de remorso — sussurrou. Taehyung fechou os lábios. — Eu quase admiro, eu tenho certeza de que não conseguiria fazer coisas assim, matar, torturar, machucar; talvez eu só não tenha nascido um bosta, né? Talvez eu só tenha nascido com sentimentos. 

O silêncio tomou o quarto. Taehyung se levantou, e ficou parado em frente à janela. De repente, assustando Jeon, Taehyung socou a parede, deixando um buraco no concreto pintado. 

— Como eu consigo? — Ele chorava. Jungkook arregalou minimamente os olhos com a reação. — Como eu consigo, Jungkook? Talvez você não tenha neurônios suficientes 'pra entender isso, mas todos os que estão aqui já foram humanos — exclamou, passando a andar pela sala conforme puxava os próprios cabelos com uma das mãos. — Vocês não pensam nisso, pensam? Vocês não pensam que pessoas são consequências de um ciclo social, é óbvio que vocês não pensam. Vocês não pensam que pessoas que fazem outras sofrer muitas vezes só não querem sofrer. Você sabe da onde eu vim Jungkook? — questionou, encarando o humano com olhos inquisidores. — Você sabe do meu passado? — perguntou novamente. — Me responde, porra! — gritou.

— … não — respondeu, temeroso. 

— Pois é. Quer saber o porquê de eu agir assim? Eu vou te contar. Eu era humano, como qualquer um, mas acabei virando essa coisa depois de ter tentado ir comprar tomates 'pro jantar. Me arrastaram para um beco, me encheram de porrada e antes que eu apagasse, vi suas presas saírem para fora e eu não tive forças o suficiente para gritar quando meu sangue começou a escorrer. Acordei no mesmo beco no dia seguinte, só que eu não tinha mais ferimentos. Sempre fui criado apenas por minha mãe, morava com ela e com meu namorado, Yoongi. Nós éramos felizes. Quando entendi o que eu tinha me tornado, avisei 'pra eles que iria me afastar e arranjar um lugar para morar onde eu não fosse uma ameaça para a sociedade, só que eles não aceitaram, mesmo eu sendo o que sou, eles continuaram do meu lado, Jungkook. — Seus olhos molhados deixaram o sorriso triste que este lhe deu mórbido demais. — Nós nos mudamos para o interior, numa comunidade protegida pelo governo contra as pragas, eu não sabia lutar contra a fome ou como me comportar agora que eu tinha virado um monstro, logo nossos novos vizinhos descobriram. Minha mãe e Yoongi tentaram explicar, dizer que eu não era perigoso, mas ninguém levou a sério. Nós saímos de lá e nos abrigamos nas redondezas. Entretanto, numa noite qualquer, nossa casa foi invadida com a intenção de me eliminar, e com isso, eles foram mortos, Jungkook. Foram mortos por tentarem me proteger. É claro que eu sobrevivi, matei todos que haviam invadido a casa. Entende agora, Jungkook? Por favor, diz que agora entende. Eu tive que matar antes que todos se virassem contra mim. A maioria dos que vivem aqui são pessoas boas, que só querem viver suas vidas sem extremismos, mas agora sofrem com essa necessidade especial. Se vocês entendessem, não precisava ter acontecido tudo isso. Você entende, Jungkook? — Os olhos arregalados e reluzentes voltaram para si. 

E novamente o ambiente havia se tornado taciturno. Jungkook tinha pensamentos demais acontecendo em sua cabeça e pouca energia para processá-los. Ficou em completo silêncio. Taehyung respirou fundo, limpando o rosto com as mangas da camisa e tentando retirar a expressão vulnerável do rosto. E a partir do momento que nenhum dos dois se pronunciou, o Kim saiu do quarto, deixando Jeon sozinho com seus pensamentos. 

 


 

                                                                                                               …

 

Hoseok agora vinha todos os dias para seu quarto, banhava-no, entregava frutas, pão e água, podendo finalmente se alimentar sozinho por não estar mais algemado àquela cadeira desconfortável que parecia ser acolchoada com pedras. Se sentia revigorado aos poucos visto que fazia alguns dias que Taehyung não vinha até si. Desde que pisou os pés naquele quarto, nunca havia percebido o quão bem mobilhado este era. Cama, penteadeira, bidê, armários e, claro, uma porta. Num momento qualquer, tentou abrir a porta robusta de madeira escura que separava sua alma do precioso e tão desejado mundo externo, mas ainda se encontrava trancada. Haviam retirado suas algemas, porém ainda não estava livre. 

Agora dormia na cama king size, isso quando seu corpo já não tinha mais uma gota de energia restante para manter seus olhos abertos e sua mente a todo o vapor, como sempre estava. Alongava seu corpo pelas manhãs após o trauma muscular de ficar sentado sem se mover direito por tanto tempo. Realmente, se perguntava se a discussão que teve com o Kim afetou-o o suficiente para que decidisse lhe deixar vivo novamente ou era apenas uma rebelião de Hoseok. 

Pensou nos olhos encharcados do vampiro que costumava visitar-lhe todos os dias por muito tempo, desejou que este não voltasse mais para o ver. Entretanto, novamente numa madrugada, o tal abriu sua porta, despertando suas pálpebras pesadas que observavam a chuva rala pela janela aberta. Sentou-se sobre a cama, ajeitando sua postura e apoiando as costas na cabeceira. O outro não o encarava. Jungkook engoliu em seco quando o vampiro se aproximou e sentou na ponta da cama. O soco dado em Taehyung de quando havia chegado no local foi certeiro, mas muito sortudo, não tinha nenhuma resistência física contra o homem, mesmo com as mãos livres. Se este o atacasse novamente, não iria mudar muita coisa, e este pensamento lhe aterrorizava. 

Entretanto, Taehyung permaneceu quieto, intercalando o olhar entre suas coxas e a janela. 

— Como veio parar aqui? — questionou, com a voz mansa e baixa, como se fosse um segredo. — Digo, tem apenas alguns grupos específicos de pessoas que vem para cá, além dos que se candidatam. 

— Tem pessoas que se candidatam para vir? 

— Hoseok é um deles. 

— Por que?

— Seu irmão está aqui. 

O humano parou pra pensar por alguns segundos. Fazia sentido, Hoseok nunca reclamou ou pareceu estar infeliz. 

— Meus pais morreram, ainda antes de tudo isso começar. Eu tinha apenas 19 anos. Nós éramos pobres e na idade eu não tinha emprego ou qualquer parente nas redondezas, então comecei a trabalhar num bar próximo. Não era numa região muito segura ou legal de estar, acabei me envolvendo com umas pessoas não muito legais, fui despedido depois de um tempo. Desde aquele tempo eu me sustentava fazendo uns bicos, ou brigando com uns caras em troca de uns trocados. Então eu fui preso por homicídio. Tive uma briga com um cara que não queria me pagar, ele apontou uma arma para mim e eu fiquei em choque, reagi muito intensamente. A intenção era só apagar ele, mas bati a cabeça dele muito forte na parede. Ao invés de acordar atrás das grades, acordei como carga num caminhão.  

Não precisava realmente contar sua história, sabia disso. Porém, por um momento, segundo a história contada, se identificou com o vampiro em sua frente. Culpou ele de matar e machucar, porém já havia feito o mesmo, só que não por querer. Hyongjun era o nome do cara, teve pesadelos com ele por muitas e muitas noites seguidas. E Taehyung… parecia que este precisava ouvir. Ele parecia tão frágil no momento. Imaginou entender os sentimentos alheios, talvez ele estivesse se sentindo do jeito que se sentia por ainda mais tempo que este. Talvez eles pudessem conversar, talvez Jeon pudesse aconselhar o outro. Passou a ver Taehyung apenas como um homem perdido em sua própria mente. Afinal, ninguém seria capaz de fazer coisas tão horrorosas sem uma justificação por trás.  

— Eu entendo, Taehyung.  

Ainda queria fugir, ainda queria voltar para casa. Ainda tinha medo, ainda sentia raiva, ainda sentia dor. E sentia pena. De si mesmo, dele. Cortando seus pensamentos, Taehyung avançou contra si, recuou em reflexo, até paralisar ao sentir... seus lábios contra os dele. 

Não esboçou reação, até a língua alheia romper sua vergonha. Seus troncos estavam colados, Jungkook nunca tinha percebido o quão Taehyung era quente, mesmo sempre estando em contato consigo. Sua boca ainda estava perdida, sem saber como reagir, portanto instintivamente ela acariciava a do outro, lenta e acanhadamente. Os lábios do vampiro eram macios quando estavam úmidos apenas por sua saliva. 

De pouco em pouco, o corpo magro se deslizava para cima do seu, sentando sobre suas coxas como costumava fazer. Seus braços retraídos prostravam ao lado de seu corpo, mas ao sentir o corpo alheio ondular contra o seu, direcionou suas mãos para os quadris sobre seu colo em reflexo. Ele fazia o mesmo quando estava se alimentando, esfregava seu corpo contra o do humano, ao sentir prazer. Jungkook, com olhos arregalados e músculos tensos, se sentiu bem, talvez por estar emocionalmente frágil e há muito tempo sem um contato relacionado, e mais uma vez, desejou fugir. Entretanto, talvez ele estivesse precisando disso. Precisando de afeto, algo que possivelmente este não tinha acesso há tempos. E o Jeon também precisava. 

O toque aveludado da língua alheia fez parecer com que as gotículas de água lá de fora passassem a ser fogo, visto que não sentia mais frio. Aos poucos, seus músculos se soltaram e seus olhos, fecharam. Queria recuar, todavia a bagunça em sua linha de pensamento não deixava sua coerência prevalecer. Não estava entendendo aquilo, aqueles toques, só entendia que as mãos de Taehyung eram leves e macias, e gostou de sentí-las contra seu rosto. Os dentes afiados mordendo seus lábios antes de invadir sua segurança de volta eram muito confortáveis, prazerosos, se sentiu vivo outra vez. Será que ele estava se sentindo assim, vivo? Um contato que desejava não ter, mas que seu corpo ansiava. 

Os dedos gelados invadiram sua camiseta, como ele costumava fazer dias atrás, tateando a pele em busca de áreas não dominadas pelas cicatrizes, mas naquele momento eles não estavam ali para o assustar, apenas para dedilhar seu torso e fazer com que sua língua cedesse completamente o domínio alheio. Na verdade, o que poderia fazer a não ser se render? Não tinha confiança o suficiente para negar ao outro, ainda tinha medo, e seus lábios formigavam sob os dele, numa sensação agradável que acordou todo o seu corpo. Se arrepiou, um frio na barriga conforme as pontas dos dedos alheios viajavam pela parte de baixo de seu ventre, perto da braguilha de sua calça. Queria tomá-las e guiá-las por si mesmo, tirá-las dali ou talvez direcioná-las um pouco mais para baixo enquanto os quadris largos se atritavam contra si, porém não tinha liberdade o suficiente. Queria ter, queria inverter as posições e pressionar o corpo curvilíneo contra os lençóis, prendê-lo ali para que conseguisse fugir e voltar para sua vida, ou talvez quisesse machucá-lo como este fazia consigo. Por um instante, desejou viajar com seus dentes nas coxas grossas, fazer sangue escorrer de sua pele clara e fazê-lo gritar como sempre fazia consigo. Sentiu raiva também, raiva por estar cedendo seu corpo novamente para o homem que havia o maltratado por tanto tempo, raiva por estar sendo vítima novamente, por estar imponente novamente. 

Os dedos esguios infiltraram sua intimidade, se esfregaram contra a carne quente até a retirar para fora. Gemeu baixo, mesmo sem querer. A mão alheia encaixava tão bem em seu pau, deslizando para cima e para baixo lentamente, se familiarizando. O toque firme contra seu prazer o fazia suspirar fundo enquanto os lábios delineavam seu maxilar. Seu toque acintoso foi interrompido momentaneamente, para que então retirasse sua camiseta. Suas cicatrizes foram beijadas, uma por uma, até que os lábios pecaminosos alcançassem seu membro duro. Taehyung desviou os olhos para seu rosto antes de colocar sua glande contra os lábios e sugar a pele sensível até que gemesse rouco com o ventre se esquentando. A boca do vampiro desceu lentamente, abrigando seu desejo com gula. Os movimentos que começaram lentos se aceleraram conforme a saliva depositada servia de lubrificante, tão em excesso que escorria esfriando para suas bolas. A pressão colocada o fazia abrir os lábios, pressionar as pálpebras e puxar os cabelos longos alheios que estavam sob sua mão. Havia esquecido o caminho de volta para casa. Taehyung definitivamente estava precisando daquilo, Jungkook percebeu conforme a cabeça alheia levantava e subia e seus lábios brilhavam melados numa mistura de saliva e pré-gozo. Ele chupava com vontade, como se sentisse muita falta disso, lambendo seu pau e o deixando apoiado em sua bochecha conforme recuperava a respiração. Contudo, a demora fez com que o humano sentisse a liberdade que estava faltando-lhe. Segurou o outro firme pelos cabelos e passou a movimentar o quadril contra a boca alheia, se deleitando ao sentir sua glande atingir o fundo da garganta do Kim e seus olhos lacrimejarem ao engasgar. Percebeu que gostava da visão de Taehyung chorando, ele ficava bonito assim. Estocou a boca alheia, o sentindo engasgar e perder o fôlego enquanto arranhava suas coxas por cima da calça. Agora gemia grave mas alto, sentindo seus músculos se contraírem e um frio na espinha fazer seu corpo tremer. Antes que gozasse, retirou seu pau da boca alheia e pulsou a mão sobre este até derramar-se no rosto angelical, melando-no de branco. 

Sorriu, vendo o rosto sujo alheio. Ele parecia tão submisso daquela forma, como se pudesse fazer tudo o que mandasse. Se sentiu no controle pela primeira vez em muito tempo. Segurou o rosto alheio com uma das mãos, limpando com o dedão o sêmen que manchava seus lábios. Ele parecia tão vulnerável. Os olhos castanhos com cílios longos estavam entreabertos conforme lambia os lábios inchados. Ao recuperar o fôlego, este se sentou sobre seu colo novamente, atacando sua boca num ósculo mais firme e agressivo que antes. As roupas de Taehyung deslizaram para o chão ao decorrer do beijo, passaram a ser muito quentes para a ocasião. Uma das mãos deste guiou a sua até chegar na base de sua coluna, onde se atreveu a descer mais um pouco e apertar a carne farte da bunda do que estava sobre si, se deleitando com o arfar alheio e beijando seu pescoço com gula. Seus dedos, um de cada vez, adentraram a entrada apertada entre as bandas que se contraíam como se chamasse por Jungkook, lubrificados com a saliva do próprio Kim. Jeon apreciou a visão do vampiro se contorcer, gemer e tremer conforme se movimentava dentro dele enquanto continuava com os lábios nas clavículas marcadas e sua outra mão agarrava uma das bandas dando espaço para sua mão trabalhar. O membro molhado do vampiro melava sua barriga conforme este se esfregava em si, buscando por mais atrito, buscando por mais do humano. Os dedos longos atingiam fundo em seu interior, com força, e sua entrada pulsava por não ser o bastante, mesmo que já não tivesse mais fôlego com seu ventre continuando a se contorcer enquanto seus músculos se contraíam. Antes que chegasse ao ápice, rebolando contra os dedos de Jungkook, este parou a estimulação, parando de preencher Taehyung, dando um leve tapa contra a entrada molhada. Antes que qualquer um cortasse o silêncio, o humano encaixou o pau entre as bandas da bunda do vampiro, a glande roçando o buraquinho inchado, o Kim escondeu seu rosto no pescoço do outro. Jeon não teve tempo para temer os lábios alheios tão pertos de sua jugular. Segurando os quadris alheios, penetrou-o aos poucos, agraciando os soluços manhosos do moreno. Sentiam-se tão confortáveis, tão completos, tão bem e essa era a questão; sentiam algo, sentiam algo bom após tanto tempo. Ambos juraram internalizar aquela sensação de prazer, talvez pudessem tentar lembrar dela mais tarde, quando tudo voltasse ao normal, e se voltasse ao normal. Seus movimentos eram fortes e intensos, lentos, como se quisessem apreciar cada segundo do ato. Taehyung rebolava e quicava sobre Jungkook enquanto puxava seus cabelos, os olhos fechados e os lábios abertos, gemendo rouco. As peles se atritavam, úmidas pelo suor que Jungkook provava ao beijar os ombros do outro. Seus músculos aos poucos iam se exaurindo, mas precisavam de mais, queriam mais. Queriam mais toques, mais proximidade, mais saliva, mais úmido. E aquele calor só crescia na boca de seus estômagos, mais se acelerava o jeito que os quadris do vampiro subiam e desciam, a entrada inchada latejando contra o pau de Jungkook que arranhava a bunda macia com a cabeça agora pendida para trás. As mãos do Kim estavam inquietas, tateando o corpo alheio conforme tentava se mover mais rápido, sedento, tornando movimentos desajeitados que os faziam gemer em harmonia, na agonia de um ápice próximo ainda não alcançado. O humano puxava o outro cada vez mais para si, ajudando os movimentos a se intensificarem com os próprios quadris. Arrepios passavam pela espinha de ambos e seus músculos já se mexiam de maneira inconsistente, estavam ficando fracos conforme tremiam e seus membros latejavam expelindo pré-gozo, as barrigas se contraindo assim como os dedos dos pés, e antes que a explosão acontecesse, Taehyung expôs as presas pra fora com os olhos mordazes de vampiro, e mordeu Jungkook. No pescoço. Instantaneamente, ele gozou, se derramando contra o abdômen do humano e gemendo alto contra seu ferimento. O humano gemeu também, intensificando ainda mais seus movimentos ao sentir que estava ainda mais próximo de gozar. Estava doendo a mordida profunda em sua pele, sentia seu sangue sendo sugado para os lábios maliciosos alheios, porém sentiu a dor multiplicar o seu prazer. Com sua vitalidade sendo sugada, a característica corrente elétrica correu por seu corpo e preencheu o interior do Kim com seu líquido. O vampiro retirou os dentes de si para lhe encarar, sorrindo com os lábios melados de vermelho escorrendo por seu queixo. Achou ele fodidamente atraente naquele instante. Ele sorriu e voltou a se alimentar. Jungkook decidiu não resistir naquele momento, apenas deixá-lo fazer o que tinha que fazer, sabia que era uma necessidade deste. Arfava conforme seu sangue era sugado e apertava as nádegas fartas para descontar o desconforto. Podia sentir as veias com a pressão alterada pela sucção, tentava aos poucos recuperar a respiração, mas ao que os minutos se passavam, ficava apenas mais difícil. Taehyung continuou, ele nunca tinha ficado tanto tempo assim em si. Aos poucos sentiu suas forças se esvaindo. Tentou chamar sua atenção exclamando seu nome porém este tampou sua boca com a mão, mesmo que tentasse falar tudo saía apenas como murmúrios desconexos. Ele sabia, ele sabia que se ele não parasse, ia… morrer. Ele não parou. Algum tempo depois, parou de se debater, sua visão se nublou, até a escuridão tomar sua visão. 


Notas Finais


talvez eu tenha desistido de escrever longfics e va me dedicar em escrever oneshots pra projetos vcs me amariam do mesmo jeito?
aceito reclamações sobre o final no chat
obrigada pela atenção szzzzzzz
inclusive obrigada pela @chimyun que betou esse monstro, vc eh um anjo
eu fiz a capa então obrigada pra mim god


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