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História The Cities: Rio de Janeiro - Capítulo 1


Escrita por: lunarmonth e yua-

Notas do Autor


Como falar sobre ser carioca sem sentir aquele gostinho agridoce na ponta da língua, né?

Capítulo 1 - Que Coisa Mais Linda, Mais Cheia de Graça


Era um sábado de sol.

Um calor digno do bordão “Rio 40°”. O mar azul diante dos olhos, água de sal fria, quase tão gelada quanto o mate que o ambulante passava vendendo para refrescar a alma, o riso solto e o abraço caloroso do sol. Heejin olha pro céu, para as montanhas no horizonte, ela consegue ver o Corcovado de longe, braços abertos sobre a Guanabara, cartão postal que deslumbra os olhos.

Que coisa mais linda, mais cheia de graça.

Ela observa todas aquelas pessoas distribuídas ao seu redor, amontoadas no formigueiro de guarda-sóis que se estende pela faixa de areia, o afago quente sob seus pés. O barulho das ondas se misturando a todas as conversas ao fundo: as amigas fofocando sobre a última festa na Lapa, o choro da criança que derrubou o picolé e o cachorro latindo para o vendedor de queijo coalho. O samba enredo da escola campeã soando pelos auto falantes dos quiosques. Tudo tão familiar quanto comer as mangas no quintal de sua avó.

Cidade Maravilhosa, cheia de encantos Mil.

As crianças correndo espalham areia pela sua canga, ela resolve dar um mergulho. A água é mais fria do que ela imaginava, sempre é, mas acorda os olhos miúdos. As montanhas são ainda mais bonitas vistas do mar, a orla que carrega a poeira do samba e da caminhada, se estende longe de onde os olhos alcançam, o por do sol.

As vezes a gente até esquece o quanto essa cidade vacila.

Ela sabe, sem dúvida era ridículo ser tão sensível assim, mas existe algo quase agonizante em engolir a verdade que não se pode cuspir em palavras. “O coração não acredita no que os olhos não veem”, também diz um bordão.

Heejin anda a passos lentos pelo ladrilho do calçadão, os pés sujos de areia e o par de chinelos na mão, quase tão bela e formosa quanto a garota de Ipanema que a música canta. Pessoas passam por ela, peles bronzeadas e a leveza no olhar de quem sabe flertar com a vida e aproveitar o verão.

O Rio? É doce. Tão especial que nunca perde seu ar de capital.

Ela pega o metrô de volta para casa, observa todas aquelas pessoas distribuídas ao seu redor, amontoadas no formigueiro de corpos que se estendia pelo transporte, a sensação da areia nos pés era desagradável no frio do vagão.

A criança vendendo balas espalha olhares de pena, ela resolve comprar uma, ela chega na parada. As ruas são ainda mais curiosas olhadas de perto, a faixa de concreto carrega a poeira dos moradores de rua na frente dos restaurantes caros. Dessa vez ela está cansada de andar, então sobe as ladeiras de Santa Tereza devagar e pela rua de trás, ela foge dos turistas; longe das praias é mais difícil de lidar com todo aquele flerte no olhar. Heejin para no mirante e vê o mesmo Cristo de braços abertos, a mesma vista de cartão postal, mas as ruas cheiram a mijo e ela não pode demorar muito para ir embora, mulher não sobe a ladeira sozinha depois das seis.

Ela segura firme na alça da bolsa, porque nunca se sabe, começa  a andar mais depressa, os vinte reais na carteira são pra passagem de amanhã.

Ela se sente cansada de andar, sua presença menos presente a cada dia.

Ela para no portão de casa, tira os chinelos antes de entrar, a vizinha chama, tia Rita, ela entrega um pedaço do bolo que assou essa tarde pra família provar, Heejin se sente grata e uma nova semente de conforto planta no coração. Sua mãe está preparando o jantar, o cachorro dormindo embaixo da rede e seu avô fuma um cigarro que comprou no boteco da esquina, enquanto come uma paçoquinha, mesma cena de todo fim de tarde.

Isso afaga mais que areia morna sob os pés, ela se sente feliz, mesmo sem o monte de flerte, o calor no coração ainda lá. Não são muitos motivos, mas talvez o suficiente pra não cansar de andar.

"Carioca saber tirar o melhor da vida", seu pai sempre fala. Heejin sorri enquanto lava os chinelos no tanque, porque nesse bordão ela acredita.



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