História Titanomaquia - Capítulo 36


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Categorias Eldarya
Personagens Leiftan, Nevra
Visualizações 20
Palavras 3.301
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ecchi, Fantasia, Mistério, Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 36 - XXXV


Leiftan estava certo sobre uma coisa: Nevra não ficou nada satisfeito com o anúncio da nossa “relação”. O sobrolho do vampiro franziu-se assim que nos viu descer as escadas lado a lado e não voltou ao sítio o resto do dia. Fez também um tremendo esforço para me ignorar.

Eu não estava era nada à espera das reações dos restantes! Ezarel continuou a queixar-se da indecência que ouvira. Lee não parou de fazer piadinhas e Karenn só não se juntou a ele porque sabia que eu podia contra-atacar com aquilo que vi acontecer entre ela e Chrome. Lithiel também não parecia nada satisfeita, lançando-me olhares muito desagradados de tantos em tantos minutos, e eu conseguia pensar em duas razões para isso. A primeira era por não lhe ter contado da “relação” com Leiftan apesar da nossa conversa na noite anterior; a segunda era por, no ver dela, eu me estar a envolver com o “inimigo”. Afinal, Leiftan impedira-a de descobrir a verdade e provocara, mesmo que indiretamente, a sua desgraça. Era normal que ela lhe guardasse algum rancor.

A reação que mais me preocupou, no entanto, foi a de Adonis. A tristeza no semblante do rapazinho era tão evidente que quase me trouxe lágrimas aos olhos. Gostaria de lhe ter dado um abraço e explicado que a minha “relação” com Leiftan era mentira, mas arriscar-me-ia a expor o meu segredo. Além disso, não estaria a dar-lhe falsas esperanças? Eu não pretendia envolver-me com ninguém, nem mesmo com uma fofura irresistível como Adonis. Custava-me muito vê-lo triste, mas não havia nada que pudesse fazer… ou foi isso que tentei dizer a mim mesma! Contrariando a minha sensatez, volta e meia lá dava por mim a caminhar ao lado de Adonis, tentando puxar conversa. O centauro sorria e respondia, mas não se esforçava para manter o diálogo. Talvez nem quisesse a minha companhia naquele momento…

O meu cansaço acabou por me distrair do assunto. Não tinha dores graças ao bálsamo de Ezarel, mas sentia as pernas cada vez mais rígidas e pesadas. A mochila parecia um saco de batatas a curvar-me as costas e as pequenas fisgadas na minha omoplata direita voltaram a atormentar-me. Estava já a arrastar-me como um condenado a caminho da forca quando o Mestre da Sombra autorizou uma pequena paragem para almoçar.

— Ai, finalmente — suspirei, empurrando a mochila dos meus ombros — Não aguento mais isto…

— Nós não estamos nem a meio do caminho — lembrou Karenn.

— Vou morrer até lá!

— Não vais nada, não sejas…

Karenn silenciou-se quando uma mão masculina surgiu no meu campo de visão, oferecendo-me um pequeno frasco de vidro. Segui o braço estendido com o olhar e encontrei a carranca enfadada de Ezarel.

— Bebe isto — ordenou — Vai restaurar a tua energia.

Eu pisquei os olhos, surpreendida.

— A sério? Hum… Obrigada — murmurei, aceitando o frasco.

— Não me agradeças, só te ofereci a poção porque estou cansado de ouvir essa tua respiração arranhada — começou a afastar-se na direção dos outros dois chefes de Guarda — Bebe antes de comer ou só fará metade do efeito!

Eu revirei levemente os olhos, agastada. É claro que Ezarel jamais praticaria generosidade desprovida de interesse…

Leiftan juntou-se ao grupo poucos minutos depois de termos começado a comer. Graças à poção do Diretor da Absinto, sentia-me muito mais desperta e fui das primeiras a notar a sua presença. Os nossos olhos encontraram-se e ele dirigiu-me um pequeno sorriso e um aceno.

— Ah, o teu príncipe chegou — notou Karenn, escondendo um sorriso matreiro atrás da sua sanduíche.

— Vai cumprimentá-lo com um beijo — sugeriu Lee, dando-me uma pequena cotovelada amigável — Vai lá, anda…

— Parem com isso — resmunguei, sentindo-me corar sem saber exatamente porquê.

— Não precisas de ter vergonha, somos todos amigos aqui — continuou o elfo — Vai lá dar-lhe um beijo, anda. Um beijo a sério, assim… — Lee exemplificou abraçando-se a si mesmo e beijando o ar com uma paixão despropositada.

— Podes parar com isso?! — pedi, corando ainda mais.

— Leiftan… — guinchou ele, meio gemeu, aconchegando mais os braços em seu redor — Oh, Leiftan…!

— Para, seu…! — comecei a rosnar, erguendo a mão para esmagar o meu bolinho de carne na sua cabeça.

— Chamaste, Lee?

Lee parou a sua demonstração e nós virámos a cabeça para encontrar Leiftan na nossa frente. O investigador olhou de mim para o elfo com um pequeno sorriso até que Karenn não aguentou mais e desmanchou-se a rir. Chrome, ao seu lado, ria-se baixinho.

— Ah, Leiftan! — exclamou Lee em jeito de saudação — Vieste buscar a tua namorada? Podes levá-la à vontade, não te preocupes connosco…

— Na verdade, vim buscar a minha porção de comida — revelou Leiftan, virando-se para mim — O Nevra disse que a tens contigo…

— A-ah, sim, é verdade — murmurei, puxando rapidamente a minha mochila — Aqui tens…

— Obrigado — pegou no pequeno embrulho, mas não se mexeu — Será que posso sentar-me aqui com vocês?

Lee e Karenn levantaram-se prontamente e esta última puxou Chrome por uma orelha, deixando-me sozinha no pedregulho em que estivéramos sentados. Adonis, que estivera ajoelhado ao lado da pedra, levantou-se com uma expressão ainda mais triste do que antes.

— Estejam à vontade — disse Lee com um pequeno sorriso malicioso. Afastou-se com os outros, juntando-se aos chefes de Guarda e a Lithiel, que estavam sentados noutro pedregulho a poucos metros de distância.

Leiftan sentou-se ao meu lado.

— Desculpa — murmurou — Não queria afugentar os teus amigos.

Eu soltei um pequeno suspiro.

— Não faz mal. É da maneira que não tenho de ouvir as piadas do Lee…

— Não lhe dês importância e ele acabará por parar.

— Se fosse assim tão simples…

Leiftan fez um pequeno sorriso, mas não respondeu. Em vez disso, ocupou-se do seu embrulho de comida, puxando o que pareciam ser umas grandes bolachas integrais. Eu tentei devolver a minha atenção ao bolinho de carne, mas o silêncio não me agradava. Não era desconfortável, mas… eu queria mesmo conversar com ele.

— Encontraste alguma coisa? — perguntei por fim.

Leiftan sacudiu a cabeça.

— Não, nada… O caminho é seguro.

— Sério? Ainda bem…

O silêncio regressou e eu estava ansiosamente à procura de uma nova forma de o quebrar quando um silvo ameaçador soou atrás de nós. Virei-me, sobressaltada, e vi o panda-vermelho com riscas azuis a lançar-me um olhar pouco amistoso.

— Amaya — ralhou Leiftan — Quieta.

— Acho que ela não gosta muito de mim — constatei.

O investigador abriu um pequeno sorriso.

— Ela odeia-te. A Amaya não gosta nada de partilhar.

— Partilhar? Partilhar o quê? — cheguei à resposta assim que a pergunta me saiu da boca — Espera… Estás a dizer que… ela tem ciúmes da nossa “relação”?

Leiftan anuiu com um risinho.

— Ela pegou as piores partes de mim — acrescentou.

— O que queres dizer com isso?

Leiftan dirigiu-me um novo sorriso, mas não respondeu. Guardou a sua porção de comida na mochila e levantou-se.

— Está na hora de me meter a caminho — anunciou — Vejo-te logo à noite…

— Já comeste? — admirei-me — Tão depressa?

— Tenho horários para cumprir — gracejou — Amaya, vamos!

O bicho passou por mim, parando para me lançar um último silvo irado, e seguiu apressadamente atrás do dono. Lee e Karenn voltaram para junto de mim assim que Leiftan desapareceu no caminho no meio da floresta.

— Desilusão — resmungou o elfo — Não houve beijos, abraços… Vocês nem sequer se tocaram!

— Eu também queria ter visto um beijinho — admitiu Karenn — Nunca vi o Leiftan com alguém antes, estou curiosa…

— Como é que ele é? — perguntou Lee, com os olhos verdes a brilhar de interesse — Beija bem? É dominador? Cuidadoso? Sensual? — acrescentou com um meneio das sobrancelhas.

— Importas-te de parar com essas perguntas estranhas?! — ralhei.

— Mas eu quero saber! — rezingou Lee, sacudindo-me de um lado para o outro — Vá lá, Eduarda, conta, conta, conta…

Um assobio de Nevra interrompeu a repetição insistente do elfo, chamando-nos para retomar a caminhada. Lee continuou a esvoaçar em meu redor, tentando arrancar-me alguma informação, mas eu consegui abstrair-me o suficiente para deixar de o ouvir. Estava muito mais concentrada em colocar um pé na frente do outro. Céus… Estava tão cansada. A poção de Ezarel permitira-me caminhar sem dificuldade durante quase uma hora, mas parecia que o efeito já tinha passado. As dores nas minhas costas eram insuportáveis. As minhas pernas já não davam de si. As minhas pálpebras estavam tão…

— Eduarda!

Só percebi que fechara os olhos quando fui forçada a abri-los para verificar a origem da dor na minha face esquerda. A única coisa que vi foi uma pequena extensão de terra castanha estendida diante do meu nariz e delimitada por tufos de relva verde. Franzi o sobrolho, confusa. Eu estava… no chão?

— Eduarda!

Senti uma mão poisar no meu ombro e um par de joelhos entrou no meu campo de visão, poisando ao meu lado. Lee debruçou-se sobre mim com ar preocupado.

— Eduarda, estás bem?

— O que é que aconteceu? — perguntei com voz entaramelada.

— Não sei, começaste a cambalear e caíste… Nevra! — gritou o elfo — Nevra!

Ouvi passos apressados aproximar-se e perguntei-me a que distância estariam os outros. Parecia que tínhamos ficado bem para trás…

— O que é que aconteceu? — perguntou o Mestre da Sombra, ajoelhando-se ao lado de Lee.

— Eu não sei, ela simplesmente…

Nevra agarrou-me antes de o elfo ter tempo de explicar, puxando-me para o seu colo e aconchegando-me contra o seu peito.

— Estás bem? — perguntou-me num tom menos carinhoso do que estava habituada a ouvir-lhe.

— Estou… cansada… — murmurei, fechando os olhos. As minhas pálpebras pesavam toneladas!

— Deixa-me examiná-la — pediu a voz de Ezarel. Senti o elfo baixar-se ao meu lado e a mão quente e macia poisar na minha testa para verificar a minha temperatura. A outra mão enfiou-se nos meus cabelos até tocar o pescoço, procurando a minha pulsação. Abriu um dos meus olhos com o polegar… e depois deu-me uma pequena chapada.

— Ai! — queixei-me, cobrindo a face atingida.

— Este cepo adormeceu enquanto andava — anunciou Ezarel, levantando-se — Sinceramente… tu dormiste?! — perguntou num tom reprovador.

— Nem por isso… Não consegui…

— Tens poções para a manter acordada? — perguntou Nevra.

— Tenho, mas esse cepo está esgotado. Se lhe der uma, o corpo poderá não reagir bem.

— Para de me chamar cepo — resmunguei, sem energia para erguer a voz mais do que aquilo.

— Não podemos parar agora — disse Nevra, ignorando a minha intervenção.

— Ela precisa de descansar. Vai dar-lhe uma coisinha má se a forçarmos a continuar.

— E-eu… — ouvi o murmúrio inseguro de Adonis — E-eu posso levá-la. Ela pode dormir no meu dorso enquanto caminhamos.

— Vais ficar de rastos — avisou Nevra — Não tens força suficiente para carregá-la o resto do caminho.

— Eu consigo — garantiu o pequeno.

— Ela vai matar-se se cair — murmurou a voz de Valkyon — É perigoso…

— Eu seguro-a.

— Tens a certeza? — perguntou Ezarel, duvidoso.

Não ouvi a resposta de Adonis, mas presumo que tenha feito um aceno afirmativo, porque os chefes das Guardas soltaram pequenos suspiros de derrota.

— Muito bem — cedeu Nevra — Eduarda, estás a ouvir-me?

— Sim…

— Nós vamos ajudar-te a subir para o dorso do Adonis, está bem?

Acenei com a cabeça e, alguns minutos depois, estava sentada em cima do centauro com os braços firmemente enrolados no seu tronco e o rosto poisado entre as suas omoplatas. Adonis poisou as mãos sobre os meus pulsos, segurando-me contra ele.

— Estás bem? — perguntou-me por cima do ombro, num tom baixo e preocupado.

— Ótima — respondi com um bocejo — És quentinho — admiti, esfregando a minha bochechas nas suas costas.

Imagino que Adonis tenha corado, mas não abri os olhos para verificar. Estava mesmo muito cansada…

Fiz o resto da viagem inconsciente. Quando acordei, a noite estava prestes a cair e os restantes membros do grupo estavam a preparar-se para montar um acampamento no meio da floresta. Adonis ajudou-me a descer do seu dorso e percebi, pelos tremores dos seus membros, que estava muito cansado. Ainda assim, dirigiu-me um sorriso amoroso e perguntou-me se dormira bem. Ele era demasiado adorável…

— Precisas de alguma coisa? — perguntei enquanto o via deitar-se no chão — Uma poção para as dores, uma massagem, alguma coisa?

Ele soltou um risinho e corou ao ouvir a minha segunda sugestão.

— Estou bem. O Ezarel tratará de mim quando o acampamento estiver montado.

— Tens a certeza?

— Sim, claro. Não te preocupes comigo.

— Tudo bem — comecei a dar meia volta para ir ajudar os outros, mas voltei para trás e espetei um beijo na bochecha do centauro. Os olhos do rapaz arregalaram-se desmesuradamente e corou tanto que temi que sangrasse do nariz — Obrigada por me deixares dormir no teu dorso, foste muito querido.

Adonis abriu a boca e gaguejou alguns sons incompreensíveis até que desistiu, baixou o rosto e apenas acenou com a cabeça.

O acampamento já estava montado quando Leiftan e Chrome se juntaram a nós, vindos de direções opostas. Uma fogueira alegre ardia no centro do enorme círculo que Ezarel desenhara com um pau. Um conjunto desordenado de tendas rodeava a fonte de luz. Eu preferia chamar-lhes tocas: eram demasiado pequenas para merecer o título de tenda, com espaço apenas para uma pessoa, e o tecido de que eram feitas fora encantado para copiar o solo, camuflando-se na perfeição. Só o buraco de entrada as denunciava, quando se encontrava aberto.

Presumo que foi por causa dessa particularidade das tocas que Nevra se lembrou de me chamar para treinar depois do jantar. Estendeu-me um pau comprido que apanhou do chão e puxou-me para um espaço livre que havia perto da fogueira.

— Dormiste a tarde toda, por isso não deves estar cansada — constatou, encontrando outro pau no chão — Vamos corrigir isso…

— Eu não vou lutar contra ti! — neguei, escandalizada.

— Porque não?

— Nem contra os recrutas consigo ganhar, quanto mais contra ti!

— A ideia não é ganhares, é aprenderes — olhou para o resto do grupo — Karenn, Lee, vocês também precisam de treinar. Juntem-se à Eduarda.

Karenn ergueu-se com um pulo, mas Lee protestou:

— Ah, tem mesmo de ser? Eu só sou bom com arcos…

— Justamente por isso. Se não aprenderes a contornar as tuas fraquezas, os teus inimigos aproveitar-se-ão delas. Vem lutar connosco!

Lee soltou um pequeno suspiro aborrecido, mas juntou-se a nós. Karenn estendeu-lhe um dos dois paus que encontrara entretanto.

Nevra colocou-se em posição de combate.

— Prontos?

Eu e Lee erguemos as nossas espadas improvisadas. Karenn atirou-se ao irmão. Nevra desviou-se e passou-lhe uma rasteira que a deveria ter deixado estendida ao comprido, mas a vampira deu uma pequena cambalhota e voltou a endireitar-se. No entanto, quando se virou para continuar a luta, Nevra já percorrera os poucos metros que nos separavam e estava a erguer o pedaço de madeira acima da cabeça. Eu arregalei os olhos, apavorada com a sua velocidade, e acreditei mesmo que o vampiro me ia rachar a cabeça com uma paulada. Eu ia morrer… Não conseguiria desviar-me, muito menos pará-lo!

Lee foi a minha salvação. Atirou-se a Nevra com um grito de guerra e este último foi forçado a parar o golpe à minha cabeça para se desviar das investidas do elfo. Karenn rapidamente se juntou à luta com as presas afiadas à mostra… e eu caí sentada sobre o traseiro quando os meus joelhos deixaram de conseguir suster o meu peso.

— Eduarda?

Leiftan ajoelhou-se ao meu lado, poisando uma mão no meu ombro.

— Eduarda, estás bem?

Não, não estava nada bem. Eu vira a morte passar-me mesmo à frente dos olhos!

— Eduarda? — chamou Nevra ao notar-me no chão, parando a luta com os outros recrutas — O que é que se passa?

— Eu não… posso lutar contra ti — murmurei.

— Porquê?

— Vais matar-me!

— Disparate…

— Eu sou humana, Nevra! — quase gritei — O que teria acontecido se me tivesses acertado com aquele golpe?!

— Eu não ia acertar o golpe. Sei que te magoaria…

— Sabes?! Sabes mesmo?!

— O Nevra jamais te magoaria de propósito, Eduarda — tranquilizou-me Leiftan, acariciando o meu cabelo — Não precisas de ter medo…

— Tarde demais!

Nevra soltou um pequeno suspiro.

— Prometo que terei mais cuidado. Agora, levanta-te e regressa à luta.

— Não quero!

— Não queres? Não queres o quê? Sobreviver? Porque é isso que te estou a tentar ensinar! — exclamou Nevra, arreliado — Nós estamos a caminho de enfrentar um titã, Eduarda! Tens de aprender a lutar se queres viver tempo suficiente para regressar a casa! Não te tinha já dito isso?

Eu baixei a cabeça para os meus próprios pés, trincando o lábio. Sim, Nevra já me dissera aquilo… e eu concordava. No entanto, ver a facilidade com que ele quase conseguira matar-me fizera-me entender a dimensão da minha própria fraqueza e a infrutuosidade do treino. Eu jamais chegaria ao nível de Nevra, Karenn ou mesmo do mais fraco dos faeries. Leiftan podia dizer que eu era uma titânide, mas eu não me via como uma… eu não sabia ser uma. A única coisa que sabia ser… era uma humana.

— Deixa-me treinar a Eduarda — pediu Leiftan de súbito.

— O quê? — inquiriu o vampiro num tom muito desagradado.

— Deixa-me ser eu a treinar a Eduarda. Por favor…

Ergui a cabeça para averiguar a reação de Nevra e vi o seu rosto contrair-se num trejeito zangado e contrariado, mas encolheu os ombros.

— Claro. Porque não? Presumo que o namorado com quem ela só passou quatro dias desde que chegou a este mundo a conheça melhor do que o Mestre que a acompanhou nos treinos e com quem conviveu desde o início!

Leiftan disfarçou um pequeno sorriso e ajudou-me a levantar.

— Ficarias surpreendido — murmurou num tom enigmático antes de erguer o queixo — Posso levar a Eduarda para fora do círculo?

— Para quê? — perguntou Nevra, erguendo uma sobrancelha desconfiada.

— Quero falar com a minha namorada longe dos teus ouvidos. Espero que compreendas…

Nevra cerrou os dentes com tanta força que vi o músculo do seu maxilar mover-se por baixo da pele.

— Eles vão agarrar-se um ao outro! — festejou Lee, dando uma pequena cotovelada cúmplice a Karenn. O elfo falou em voz baixa, mas foi perfeitamente audível no meio do silêncio sepulcral. E o facto de nem eu, nem Leiftan negar-nos as suas palavras só intensificou ainda mais o seu “barulho”.

— Estejam à vontade — disse Nevra num tom cínico — Não gostaria nada de atrapalhar a vossa relação.

— Não parece — espicaçou a irmã, devolvendo a cotovelada cúmplice a Lee.

Eu tinha o pressentimento de que uma coisa muito má estava prestes a explodir ali, por isso agarrei o braço de Leiftan e puxei-o para fora do círculo desenhado por Ezarel. O meu “namorado” seguiu-me sem opor resistência.

— O que foi aquilo? — perguntei quando já estávamos longe o suficiente.

— Aquilo o quê? — volveu num tom inocente.

— Porque é que alfinetaste o Nevra?!

— Não fui eu quem o alfinetou. Foram a Karenn e o Lee. Eu só pedi para treinar-te.

— E porque raio queres treinar-me?

Foi a vez de Leiftan segurar o meu braço e puxar-me ainda mais para o interior da floresta.

— Vamos afastar-nos mais — pediu — O Nevra ainda consegue ouvir-nos daqui.

— A sério?

— Ele é um vampiro, o que esperavas?

Entrámos tanto na floresta que a luz da fogueira deixou de nos alcançar. Felizmente, a lua ainda se encontrava cheia o suficiente para iluminar o caminho. Encontrámos um pequeno ribeiro com pouco mais de um metro e meio de largura e Leiftan parou junto à margem com as mãos dadas atrás das costas.

— Eu quero treinar-te, Eduarda — começou a explicar sem erguer o olhar para mim —, porque, ao contrário do Nevra, sei o que és. Conheço as capacidades da tua raça e posso ensinar-te a dominá-las. É tão simples quanto isso.

— Isso não fará emergir ainda mais o meu lado titã? — perguntei, erguendo uma sobrancelha — Pensei que a ideia fosse esconde-lo…

— A questão é justamente essa. Se não controlares os teus poderes, poderás perder o controlo e revelar a tua verdadeira identidade. Se os controlares, é menos provável isso acontecer e ainda poderás recorrer-lhes para te defenderes num aperto. É muito melhor esconder uma espada afiada do que uma lâmina romba, não concordas?

Soltei um pequeno suspiro, mas assenti.

— Por onde começamos, então?

Leiftan fez um pequeno sorriso e empurrou o manto dos ombros.

— Mostra-me o que já aprendeste.



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