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História Depois que te conheci - Capítulo 2


Escrita por: luzinanda

Notas do Autor


Oi para todos, leitores ativos e fantasmas, bom ter vocês aqui.
Boa leitura a todxs.

Capítulo 2 - Don't you worry child


Havia um tempo em que
Eu costumava olhar nos olhos do meu pai
Em um lar feliz
Eu era um rei, eu tinha um trono dourado
Aqueles dias se foram


'– Não é justo! Não é justo! – Os gritos femininos eram dolorosos, facas afiadas atravessando o peito do garotinho de cabelos escuros. – Ele disse que voltaria, voltaria para nós…

As lágrimas escorrendo dos olhos dela eram grossas, pingando no chão e molhando o piso impecavelmente limpo, o silêncio então foi tudo que Levi escutou nos próximos três dias, sua mãe não saia do quarto, não falava com ele, assim como o garotinho também não se atrevia a falar nada.

Kuchel nunca foi uma mãe exatamente carinhosa, porém com a presença constante de seu pai, ela fazia o básico, lhe alimentava, limpava e ensinava tudo que podia, porém naqueles três dias precisou se virar sozinho, bebendo a água que restava na geladeira e comendo as poucas frutas do cesto em cima da mesa.

Havia um papel jogado no balcão, deixado pela mulher antes de sair em prantos, foram três dias para Levi ter coragem de ler o conteúdo.

E ele só entendeu tudo quando leu com dificuldade a carta largada no balcão da cozinha, o papel pesou com tanta força em suas mãos que doeu, seus dedos doíam, seus braços doíam, seu peito apertou e suas pernas se moveram, correndo para fora da casa sufocante.

A carta ficou no chão, molhada com as lágrimas deixadas.

Sem rumo, correu sem olhar para onde ia, passando pelas ruas vazias e escuras, não havia lua no céu, nem estrelas brilhantes, apenas nuvens espessas e cinzentas.

Mãos pálidas e magras tremeram na frente do rosto quando tropeçou, caindo de testa no asfalto, um grito dolorido escapando de seus lábios rachados, o estômago roncando pelos três dias de fome, a cabeça doendo e o peito apertado, aquilo era um pesadelo?

– Ei! – Uma voz se aproximou, mãos tocaram sua roupa, obrigando-o a se sentar no chão da rua. – Você caiu e ficou aí jogado, está tudo bem?

Olhou para cima, encontrando olhos azuis claros e pequenos, cabelos loiros e um rosto longo e curioso, era um garotinho não muito mais velho que ele.

– Meu pai morreu. – Balbuciou, infeliz.

– E você decidiu se machucar? – O garoto juntou as sobrancelhas. – Levante-se, vou te levar para casa.

– O que… – Suas bochechas coraram quando a mão do outro acariciou seus fios escuros.

– Você é fofo e pequeno, é meu dever como mais velho deixá-lo em segurança. – Sorriu pequeno. – Eu sou Mike.

– Levi… – Lágrimas ainda escorriam de seus olhos.

– Pode chorar, Levi. – Mike não se mexeu para limpar as gotas grossas. – Só não deixe isso te dominar. O mundo não tem pena dos fracos.

Concordando com a cabeça, Levi limpou as lágrimas antes de se levantar e enquanto Mike andava na direção indicada, com ele logo atrás, gotas finas de chuva começaram a cair, marcando o início da primavera.'

Abriu os olhos assustado, o despertador tocando sem parar na cabeceira da cama era incômodo e com um bocejo preguiçoso, se levantou para desligar a música irritante.

Fez toda a sua rotina matinal no automático, mal piscando quando sentou no sofá com uma xícara de café forte nas mãos, Armin fez o mesmo, praticamente se jogando ao seu lado.

– Noite ruim? – O amigo perguntou, sorrindo suavemente antes de tomar um gole do café. – Você não adoçou. – Fez uma careta porém não se moveu de onde estava, continuando a dar goles no líquido escuro.

– A mesma merda de sempre. – Lembranças que mais pareciam pesadelos não eram novidades para nenhum dos dois, principalmente quando o de cabelos escuros acordava aos gritos e precisava ser acalmado. 

– Pensei que tinha sonhado com um certo Jaeger gostoso. – Armin provocou, trocando de assunto propositalmente. Claro que Levi havia contado ao amigo de infância sobre Eren e o homem misterioso com quem ele tinha dormido serem a mesma pessoa, dando munição suficiente para Armin provocá-lo durante dias. – Seu gosto por homens mais velho é incrível, Levi.

– Tch. – Estalou a língua, fazendo o que tinha decidido na última noite. Ignorar o assunto. – Você continua com olheiras horríveis.

– Eu e Annie discutimos por mensagem a noite inteira. – Passou a mão no rosto, exasperado. – Aparentemente não estamos transando o suficiente.

– Quanto tempo?

– Semanas? – Levi levantou uma sobrancelha, fazendo Armin suspirar. – Dois meses.

O murmúrio do loiro fez com que se virasse na direção dele de uma só vez, quase derrubando o café.

– Vocês não estão transando o suficiente.

– Estamos juntos a dois anos, eu tenho que estudar e trabalhar, ela também…

– Armin, você só tem dezoito anos.

O Arlert deu de ombros.

– Com a gente brigando todos os dias assim, eu não consigo, parece errado, eu não sei… – Encolheu os ombros, fazendo Levi suspirar.

– Se você não sente vontade, então não tem que fazer. – Terminou sua xícara de café. – Você sabe como isso soa, não é? Já pensou sobre o assunto?

– Estou pensando… – A resposta de Armin foi tão baixa e distante que Levi decidiu ficar quieto e respeitar o momento, se levantando então em um pulo, lavou a xícara na pia e voltou para o quarto, organizando suas coisas para a aula.

Antes de sair, verificou a geladeira e os armários. Suspirando preocupado, percebeu como as prateleiras estavam vazias, não havia muito mais além de água, café, algumas latas de suco e cerveja, cereais e macarrão instantâneo. Ele e Armin precisavam urgentemente fazer compras, no entanto ainda faltavam alguns dias para que o salário dos dois caísse na conta, isso significava que ele teria que trabalhar no bar depois do seu turno no café, conseguir algumas gorjetas e ter o que comer por alguns dias. – Tanto ele quanto Armin não têm a quem pedir ajuda, sendo que Armin é quem mais contribui com as coisas de casa, já que têm uma bolsa de cem por cento na faculdade enquanto Levi precisa pagar a mensalidade todo mês, sobrando pouco e tendo que fazer extras para cobrir sua parte. Por isso, não permitiria que Armin se esforçasse trabalhando demais quando era ele quem praticamente sustentava os dois.

É difícil não se sentir culpado.

Alcançou uma das latas na geladeira, fechando com força o velho eletrodoméstico antes de seguir até a porta, esperando o amigo do lado de fora.

Ele e Armin foram em silêncio para o campus, ambos perdidos nos próprios pensamentos. Sem surpresa, a dupla foi abordada por Isabel e Farlan, que os acompanhava na ida para as salas e no almoço no refeitório, os dois mais novos falando muito mais que Armin, que comentava algumas coisas esporadicamente e Levi, que só abria a boca para mandar Isabel falar baixo ou Farlan sair de perto. Já sabia que não adiantaria mandar calar a boca ou ir embora, então fingiu que eles não estavam ali.

Foi durante uma aula de programação que sua monotonia diária foi quebrada por memórias inapropriadas que encheram sua mente, deixando suas calças apertadas e seu rosto vermelho;

'Arqueando as costas, Levi gozou com um gemido vergonhosamente alto, tremendo com a velocidade e força que o orgasmo lhe alcançou, tampou os olhos com os braços para evitar olhar para os malditos olhos verdes hipnotizantes, a boca inchada e vermelha ao redor de seu pênis e o corpo bronzeado e forte bem na sua frente.

Respirou fundo e choramingou ao sentir um dedo encharcado de lubrificante lhe invadir, suas pernas tremeram e suas coxas pressionaram o rosto entre elas, estava hipersensível ainda, mas não conseguiu pedir para parar, era fodidamente delicioso.'

Respirou fundo antes de afundar o rosto na mesa, sua concentração na aula quebrada. Mais tarde precisaria pedir as anotações de Armin. Ele nem ao menos tinha pensado em Eren naquele dia, por qual motivo sua mente decidiu simplesmente lembrar de um momento tão intenso no meio da aula? Ele não precisava desse tipo de situação.

'– É isso, baby, venha para mim. – Eren sussurrou contra sua orelha, a língua percorrendo cada centímetro de pele suada, corpo grande e forte batendo contra o seu de forma implacável, mãos grandes prendendo as suas acima da cabeça.

Foi como uma avalanche, seus dedos dos pés dobraram e sua cabeça caiu para trás, gritou, alto e longo, se desfazendo pela terceira vez, soluçando sensível quando o outro homem se movimentou mais uma dúzia de vezes, cavalgando o próprio orgasmo com gemidos roucos e baixos em suas orelhas.'

Piscou, agarrando a cabeça com as duas mãos, a vontade de puxar e arrancar o próprio cabelo em desespero foi grande, mas Levi conseguiu se controlar, apenas grunhindo baixo com a boca abafada contra seu caderno.

Sua mente estava armando uma armadilha, colocando-o em uma situação que não tinha saída. Era inútil lembrar ou se apegar a qualquer sensação – por melhor que tenha sido –. Eren Jaeger foi um evento único em sua vida, não fazia sentido se iludir considerando qualquer coisa.

Se forçou a levantar a cabeça e tentar prestar atenção, falhando completamente.

Na hora do almoço seus pés bateram com força no chão quando se dirigiu até a cantina, pedindo baixo por uma lata de álcool para acompanhar a refeição que faria no refeitório, a cabeça parecia que iria explodir e o estresse já estava em seu auge, e era apenas o começo do seu dia.

Armin observou o amigo inquieto, decidido a não se meter nisso por enquanto, ele próprio tinha suas merdas de relacionamento para lidar, então não pressionaria Levi, ainda não.

A tarde na academia foi bem aproveitada, com foco no ringue agora que ele deveria lutar em uma competição pequena, o trabalho com Armin no café foi entediante e a noite sem mais incidentes, os dias se seguiram assim e logo uma semana se passou.

Levi se sentiu minimamente orgulhoso, ele tinha se convencido a não pensar no belo moreno de olhos verdes e na maior parte do tempo, realmente conseguia, com exceção de quando lembranças embaraçosas surgiam em algum momento importuno, o que era cansativo e deixava o Ackerman ainda mais estressado que o normal.

Nos dias que se passaram, esteve com Mike mais uma vez e como antes, foi seco, rude e doloroso. Aquilo não era novidade, o loiro sempre estava cercado de problemas, oprimido pela carreira difícil de modelo e assim como Levi, precisava de uma válvula de escape. Então entendia o ex namorado, já que fazia a mesma coisa, não poderia ser hipócrita, a dor era bem vinda, nublava seus pensamentos o suficiente para esquecer. Contudo, assim como da outra vez, Levi se viu mergulhado em lembranças com olhos verdes, braços tatuados e boca perfeita. Eren tinha conseguido levá-lo à loucura sem fazer muito esforço, era quase natural a forma como ele se movia, tratando-o com força porém cuidado, garantindo seu prazer antes do próprio.

 E mais uma vez havia gozado pensando em outro, enquanto Mike se movia de forma descoordenada, cavalgando o próprio orgasmo sem dar muita atenção para a pessoa de quatro em sua cama, Levi se masturbava pensando em Eren Jaeger, comparando em como dois paus grandes poderiam ter efeitos totalmente diferentes em seu corpo, em como sua entranhas ficaram quentes com o mínimo toque de Eren, enquanto ele estava ali, se esforçando para chegar ao orgasmo com Mike.

E enquanto voltava para casa, Levi se sentiu uma vadia suja e egoísta. Sempre acreditou ser alguém desprezível, isso era um fato consumado em sua vida, ele sempre foi lembrado da realidade e nunca se enganou pensando diferente. Levi sempre soube seu lugar, porém agora sabia estar agindo ainda pior, sendo um traidor pelas costas da única pessoa que lhe deu a mão um dia, que lhe sustentou quando seu pai morreu e sua mãe enlouqueceu na própria dor.

Não estava certo, nunca esteve.

&&&

– Isabel! – A voz de Nicolo chamou da cozinha, fazendo a ruiva surgir quase que imediatamente no cômodo. – Pode pôr a mesa do jantar? Eren está quase chegando.

O loiro cortava legumes de forma rápida e precisa, o som da faca nunca parando, mesmo quando virou o rosto para falar com a mais nova.

– Onde está a mãe? – Perguntou enquanto recolhia os pratos e talheres nos armários modernos. – E o pai? Eles disseram que iriam te ajudar.

– Sasha está no escritório, alguma coisa sobre uma inauguração no hotel. – Juntou as sobrancelhas claras. – Seu pai saiu para comprar salsinha, cebolinha e mais algumas ervas que faltavam.

– Eu vou arrumar a mesa e te ajudo então, pai. – Sorriu lindamente na direção de Nicolo, que corou ainda desacostumado em ser chamado assim.

Isabel na realidade é sobrinha de Sasha, porém ficou órfã ainda criança, sendo criada então pela Braus e seus dois maridos a partir disso. Ela sempre soube quem foram seus pais biológicos e os amou muito quando eram vivos, ainda os ama, na verdade. Porém Sasha fez um trabalho incrível, lhe dando tudo, uma casa linda, amor e carinho o tempo todo, dois pais atenciosos e um padrinho que a mimava sempre que podia.

Com isso, não via porque não chamar os adultos por suas denominações corretas, ela é filha do trisal e tem muito orgulho disso, mesmo com todo o bullying que a relação diferente deles gerou em sua vida, nada nunca lhe abalou a ponto de culpá-los.

Se os outros não conseguiam aceitar o diferente, mesmo que eles estivessem felizes, então os outros estavam errados.

– Não se incomode, Isa, vá tirar sua mãe do escritório, sim? 

Concordou com a cabeça, correndo até o escritório bem decorado depois de arrumar a mesa – o melhor que podia.

– Mãe. – Bateu na porta, escutando um muxoxo enrolado, dando permissão para entrar.

Enquanto Nicolo era alto com cabelos loiros e olhos cor de mel, Sasha era uma mulher não muito alta, com cabelos cor de cobre e grandes e focados olhos castanhos. Isabel não poderia negar que eles faziam um belo par quando estavam juntos, principalmente quando ambos, com trinta anos, carregam juntos pequenas e quase imperceptíveis rugas ao lado dos olhos, deixando-os com um brilho maduro, como se soubessem de tudo e tivessem a resposta do mundo nas palmas das mãos.

– Hum? – Sasha tirou os olhos dos papéis, encarando Isabel com seus óculos de leitura. – O que foi?

– Está na hora do jantar, o dindo já está vindo. – Caminhou despreocupada até o sofá no canto do escritório, se jogando nele e afundando no estofado macio. – Pai Nicolo está fazendo tudo sozinho, você prometeu que ajudaria dessa vez.

– Você está certa. – Suspirou, tirando os óculos e limpando os olhos. – Estou um pouco obcecada com algumas mudanças que Eren pediu em um dos hotéis.

– O que é dessa vez? – Os olhos verdes brilharam quando Sasha sorriu animadamente.

– Um restaurante quatro estrelas Michelin vai ser inaugurado no hotel do centro. – Os olhos de Sasha brilharam também. – Não deixe seu pai saber disso, ele é ciumento com a comida que como.

– Pode deixar. – Se espreguiçou, esperando pacientemente a Braus mais velha organizar sua bagunça de papéis. – Será que ele consegue estrelas Michelin no restaurante um dia?

– Claro que consegue, a comida do Nicolo é divina. Ele trabalha muito para que tudo no restaurante corra perfeitamente, isso é questão de tempo. – Soltou o cabelo bagunçado, prendendo-o novamente com mais firmeza. – Com trabalho duro você pode alcançar qualquer objetivo.

Isabel sorriu, se levantando quando Sasha se aproximou, porém seu sorriso foi diminuindo lentamente enquanto pensava nas palavras da mãe.

– Isso não se aplica a todo mundo, não é?

– Claro que sim. – Sasha encolheu o cenho, confusa. – Todos podemos trabalhar duro para conseguirmos o que queremos.

– Mas não faz sentido. – Isabel cruzou os braços, os olhos verdes agora presos no chão. – Tem uma pessoa da faculdade, um amigo, Levi, eu observei a rotina dele nos últimos dias, e é um pouco opressor.

– Como assim? Ele machucou você?

– O que? Nunca. Levi é um pouco distante e grosseiro, mas ele nunca foi verdadeiramente desagradável ou me bateu. – Fez bico. – Ele é difícil, mas eu consigo o que quero. – Suspirou, ficando séria novamente. – A questão é que ele trabalha muito, sabe? Outro amigo da faculdade, Armin, deixou escapar que ele faz turnos em dois lugares diferentes para conseguir pagar a faculdade e as contas de casa, os dois moram sozinhos e não recebem ajuda.

– Isa…

– Ele trabalha duro, todos os dias, é muito esforçado nos estudos também. – Respirou fundo. – Ele se vira sozinho, é muito forte, mas isso não deveria ser assim, não é? Ele trabalha duro para conseguir o básico, então não funciona para todas as pessoas, você e o pai tiveram apoio desde sempre, seu chefe é seu melhor amigo, e eu nem mesmo preciso trabalhar…

– Querida. – Sasha se aproximou, segurando o queixo pequeno da ruiva, levantando então seu rosto para que visse os olhos verdes. – Você está certa, não é? Oportunidade é o que falta para alguém como seu amigo, existem muitas pessoas como ele nessa mesma situação. – Mordeu os lábios, pensando em suas palavras. – Eu errei com as minhas palavras, pois nem sempre o trabalho duro é o suficiente mesmo, sem oportunidades e sozinho é praticamente impossível alcançar qualquer coisa.

– Então…

– Mas agora ele tem você, não é? Ele tem esse amigo, Armin. – Pontuou. – E é uma pessoa muito forte, muito mesmo, eu o admiro. – Piscou um dos olhos. – E pessoas fortes nunca desistem, mesmo com todas as dificuldades, desde que ele tenha alguém como você do lado, ele vai conseguir conquistar seu lugar, tenha um pouco de fé no esforço alheio.

– Eu tenho. – Fez bico ao receber um peteleco na testa. Abriu a boca para fazer outra pergunta, porém a campainha tocou, fazendo as duas mulheres sorrirem animadas antes de correrem até a porta da frente para atender.

Eren estava na porta, bonito como sempre, vestindo camisa de botões e jeans escuro, mais casual que o comum, visto que estava indo jantar na casa de seus melhores amigos e afilhada. Carregava em uma das mãos uma garrafa de vinho branco.

– Princesa! – O Jaeger abriu os braços, recebendo um abraço de urso, que retribuiu rindo. 

– Eren, finalmente apareceu. – Sasha brincou, dando espaço para o amigo entrar. 

– Posso dizer o mesmo, Sa, trabalha tanto quanto eu. 

– Desde que o velho te deu os hotéis, eu não tive mais paz. – Falou dramática. – Meu melhor amigo virou meu chefe e se aproveita disso para me fazer trabalhar.

– Exatamente, eu sou o chefe, não deveria trabalhar tanto.

– Mesmo assim, trabalha. – Balançou a cabeça negativamente. – Eu acho que deveria receber alguma regalia, no mínimo.

– É isso, vire chefe dos seus amigos e tenha os bolsos esvaziados. – Disse com falsa decepção, arrancando então um riso divertido de Sasha.

– Oh, isso é vinho branco? – Nicolo surgiu com seu avental de chefe e um pano nos ombros. – Vai combinar perfeitamente com o salmão que estou preparando.

– Mesmo? – Sorriu malicioso. – Eu sou bom em adivinhar, então.

Sasha encarou os dois homens com descrença, claramente não acreditando na ladainha de Eren, suas mãos se movendo para fechar a porta ainda aberta enquanto Eren se acomodava na sala.

– Hei! – Connie gritou, entrando na casa antes da porta fechar. – Você já chegou?

Seu tom de desânimo não foi levado a sério por Eren, que levantou uma das sobrancelhas.

– Ele vai comer toda a comida deliciosa do Nicolo, amor, vai esvaziar nossas panelas. – Connie exclamou, falsamente indignado enquanto aponta um dedo na direção de Eren. Sua outra mão segurando o pacote de comida, que deixou na primeira superfície que encontrou.

– A comida de Nicolo realmente é deliciosa. – Eren elogiou, ignorando as implicâncias do Braus.

– E essa delícia é resguardada para nós, Jaeger. – Connie sorriu abertamente, olhando então Nicolo que estava corado, lhe encarando de volta, desviou o olhar, fitando a esposa. – Você saiu daquele escritório, uau, sinto que o Eren é mais importante que eu.

– Não seja dramático, amor. – Sasha se aproximou do careca, beijando seus lábios suavemente, Isabel sorriu junto de Nicolo enquanto Eren fazia vômito ao fundo.

Com Connie, um homem da altura de Sasha, com olhos castanhos tão claros que pareciam dourados e cabeça raspada, Sasha carregava um brilho jovial diferente, quase como se ela tivesse ainda seus vinte anos, o sorriso é aberto e os olhos pequenininhos, como se os dois fossem adolescentes descobrindo o amor.

 – O jantar já está pronto. – Nicolo avisou, sendo o primeiro a ir para a sala de jantar, retirando seu avental e lavando as mãos. Todos seguiram o loiro, com Connie e Isabel no fim da fila.

– Fui eu quem falou do vinho. – Connie sussurrou para a filha. – Eu tenho certeza que ele se gabou de ter escolhido a bebida certa.

– O dindo é péssimo com bebidas, eu sabia que ele estava mentindo. – Isabel sussurrou de volta, rindo da careta do mais alto.

– Ei, vocês dois! – Eren chamou. – O que estão fofocando?

Isabel assobiou, indo sentar ao lado do padrinho enquanto Connie sentava à esquerda de Sasha e Nicolo à direita.

O jantar foi apreciado em silêncio, este sendo cortado apenas por suspiros de satisfação, estava completamente delicioso a ponto das duas pessoas de olhos verdes repetirem o prato. Isabel até mesmo recebeu a permissão para beber um pouco de vinho, esta que pulou animada em sua cadeira com a possibilidade.

– Então, Isabel fez alguns amigos na faculdade. – Sasha começou, recebendo um olhar apertado da ruiva. – O que? Todos nós sabemos que você é hetero.

– Mãe! Não é assim.

– Amigos, é? Porque não pode ter amigas? – Connie mastigou o peixe com força depois de salientar o 'a' de 'amigas'.

– Eles são legais! – Quase gritou, recebendo então um olhar de Nicolo que lhe fez respirar fundo. – Desculpe. – Desviou o olhar. – Não é assim, Levi é gay e Armin namora, e o Farlan é bobo demais para tentar qualquer coisa.

Eren engasgou com a comida, batendo no peito enquanto tosse, seus talheres caindo no prato em um baque exagerado. Nicolo arregalou os olhos, se levantando para ajudar, Connie riu sem disfarçar enquanto Sasha e Isabel apenas olhavam a situação com desconfiança.

– Tudo bem? – Sasha perguntou depois que o Jaeger se acalmou.

– Sim. – Sorriu amarelo. – Acho que foi um espinho.

– Mas eu tirei os… – Nicolo começou, olhando para um Eren vermelho. –… espinhos?

– Farlan, é? – Connie cutucou de novo, recebendo um revirar de olhos. – Não faça isso, mocinha, ou eu posso te fazer cosquinhas até que faça xixi nas calças!

– Pai… – Isa choramingou manhosa, ela detestava cosquinhas. – Farlan é só um amigo.

– Eu também era só um amigo da sua mãe, vê agora? – Apontou para Nicolo e Sasha, o primeiro corando e desviando o olhar.

Tanto Eren quanto Isabel observaram os dois em silêncio, havia algo acontecendo ali e avoada como era Sasha, tinham certeza que ela não repararia nunca.

Os dois homens são casados com Sasha, recebendo seu sobrenome, porém a relação poliamorosa se estende apenas da morena para os dois, nunca tendo se expandido entre eles, porém com a convivência, Eren sentia que isso poderia estar prestes a mudar.

– Então dindo, podemos ir no café do Levi de novo, não é?

Pego de surpresa, Eren corou, desviando o olhar e respirando fundo antes de responder.

– O café não é dele. – Tacou um tomate cereja na afilhada, que tentou pegar com a boca, errando. – Mas podemos ir sim, sempre que quiser.

– Eu te amo! – Isabel gritou, feliz.

– Você mima demais essa menina. – Sasha suspirou, balançando a cabeça.

– Tudo pela minha princesa.

&&&

– Hoje é minha folga. – Levi esclareceu. – Vou na biblioteca pegar alguns livros e adiantar matéria, não vou na academia também não.

– Infelizmente eu tenho que correr, vou fazer um turno mais cedo com o Hanji. – O loiro disse, a semana na faculdade estava sendo infernal, rotina monótona e irritante. 

– E eu vou procurar Isabel, ela esqueceu a mochila na sala. – Farlan disse, recebendo um olhar desinteressado de Levi, que deu as costas, saindo andando, e uma confirmação silenciosa de Armin, que correu dali para não se atrasar. – Tchau para vocês também…

A ida à biblioteca foi mais demorada do que o esperado, fazendo Levi bufar a cada segundo de fila que enfrentou. Quando enfim conseguiu sair do campus, um gemido desanimado saiu de seus lábios, pois estava chovendo e não pouco e mesmo com um guarda chuvas nas mãos, precisou proteger a mochila, enfiando dentro de seu moletom rosa claro, seu all star vermelho estava encharcado e as calças jeans claras arruinadas, respingada de lama e chuva.

Tentou correr até o ponto de ônibus, mas apenas sua mochila se manteve a salvo da tempestade que se formava aos poucos.

Para ajudar o ponto de ônibus estava cheio de estudantes, que a cada trovoada empurravam Levi para fora da proteção extra, as pessoas falavam alto em seus ouvidos e encostavam desnecessariamente, fazendo com que trincasse os dentes de frio e nervoso.

Com a chuva forte, trinta minutos se passaram sem que qualquer ônibus ficasse as vistas, Levi estava enumerando palavrões quando um tesla preto parou diante o ponto, chamando a atenção das pessoas envolta, que sussurravam o quanto seria agradável ter uma carona desse tipo de carro.

A janela desceu lentamente, revelando a pessoa no banco de carona; cachos vermelhos em um coque, olhos verdes e um sorriso enorme no rosto.

– Levi! – Isabel gritou, afobada. – Está indo para casa?

Levi concordou silenciosamente, seus olhos se prendendo em Isabel, evitando propositalmente a segunda pessoa no carro, que dirigia.

– As vias principais estão alagadas. – Explicou ao ver a quantidade de gente junto de Levi. – Quer uma carona? Meu dindo não se importa.

– Isabel tem razão. – A voz aveludada de Eren veio de dentro do carro. – Está frio e você pode ficar doente molhado assim.

– Eu… – Piscou, pronto para recusar, porém um trovão particularmente forte fez seus ombros se encolherem, seus olhos se pregaram no chão e com a boca torcida em linha reta, Levi se viu concordando com a cabeça.

Tudo para sair da tempestade infernal.

Eren destrancou as portas automáticas e Levi foi capaz de sentar no banco de trás, atrás de Isabel.

– Que bom que encontrei você. – A Braus começou casualmente. – Foi uma boa coincidência, não é dindo?

Eren abriu um meio sorriso, concordando sem tirar os olhos da estrada escorregadia.

– Então Levi, onde mora?

O Ackerman tossiu com Eren falando diretamente com ele, as bochechas esquentando enquanto murmura seu endereço.

– É mais longe que sua casa, Isa. – Esclareceu o mais velho. – Tudo bem se eu te deixar primeiro?

– Sim. – Isabel sorriu grande, dando de ombros sem se importar com a ordem. – O pai parecia ansioso mais cedo, disse para eu não ficar fora o dia todo.

– Connie? – Isabel concordou com a cabeça, enquanto um brilho conhecedor passava pelos olhos do Jaeger. – Não se preocupe com isso, princesa, é só ele sendo esquisito, como sempre.

– Não seja tão mau com ele.

– No ensino médio sua mãe costumava roubar comida na cozinha, Connie era uma série menor, mas se misturava com a gente. – Começou Eren nostálgico, Levi permaneceu parado, quase imóvel, sentindo-se um intruso no momento em família. – Então os dois se escondiam no telhado e faziam guerra de comida, Connie sempre fazia aquelas poses esquisitas de luta, enfim, ele é estranho.

– Você estava junto, dindo. 

– Verdade. – Eren então riu, todos os dentes à mostra enquanto o som acariciava cada partícula de Levi. – Todos fomos um pouco esquisitos no ensino médio.

– Eu não fui. – Isabel respondeu quase indignada. – Eu saía com meus amigos, fazia as lições, nada estranho assim. – Eren continuou rindo enquanto Levi afundava mais ainda no banco, seu ensino médio tinha sido uma droga, quando não estava sofrendo bullying, estava isolado em algum canto do colégio, ele não tinha histórias legais para contar, não haviam colegas que levou para a vida, não havia nada.

– E você, Levi? – Eren olhava para Levi pelo espelho retrovisor, olhos verdes azulados que pareciam saber demais, não, olhos que sabiam demais. – Você acabou de sair do ensino médio, não é?

Levi tentou pensar que aquela era uma inocente pergunta, porém o tom usado foi rouco, baixo, quase como se Eren estivesse provocando-o, brincando com o fato de que os dois tinham muitos anos de diferença de idade.

– Sim, saí do médio faz pouco tempo. – Estreitou os olhos, sua voz caindo vários tons. – Não sou um velho. – Completou, recebendo um olhar divertido de Eren.

– Mas tem o humor de um. – Isabel se meteu, rindo da expressão de merda que tomou o mais baixo.

– Calada. 

– Nah! – Virou para trás, mostrando a língua infantilmente.

– Você é uma pirralha.

– Chegamos. – Eren anunciou, se despedindo rapidamente de Isabel que beijou sua bochecha e acenou para Levi. – Pode sentar aqui na frente se quiser, Levi.

A forma como Eren dizia "Livai" ao invés da pronúncia mais comum, entoando perfeitamente seu nome de origem francesa, fez com que suas pernas virassem gelatina. Levi não estava preparado para lidar com Eren agora, ainda haviam muitas memórias, muitas sensações em seu corpo.

Mal percebeu quando saiu do carro, atravessando a chuva rapidamente para sentar no banco de carona.

Eren não disse nada, dirigindo o resto do caminho em silêncio, olhos verdes presos na estrada, terno bem encaixado no corpo, cinzento, mãos grandes envoltas do volante, as veias cheias das mãos subindo pelo braço, sumindo dentro da roupa onde Levi sabia ter muitas tatuagens.

Levi não estava preparado para ficar sozinho com esse homem. Ainda não acreditava ter saído como alguém como ele, parecia surreal.

Olhando de perto, sem a euforia da bebida e do tesão, Levi pôde perceber o maxilar quadrado e bem marcado dele, os olhos grandes e o nariz arrebitado, dando uma beleza quase feminina. Apostava que Eren se parecia com a mãe, pois era etéreo demais para ter puxado do pai. 

Respirou fundo, aspirando o cheiro maravilhoso da colônia provavelmente muito cara de Eren. Quase ronronou com a medida perfeita, não era forte e sufocante, apenas estava ali, flutuando ao redor de Eren sutilmente.

Subitamente Eren virou o rosto, pegando-o olhando, seu rosto queimou e um sorriso tomou conta do rosto perfeito.

– Chegamos.

Olhou para a janela, assistindo o pequeno conjunto de apartamentos velhos onde mora se aproximando rapidamente.

– Sim, obrigado. – Quando o carro parou, tentou abrir a porta, mas Eren não destravou a trava elétrica, suas mãos soltando lentamente o volante. – Pode… abrir?

Sua voz falhou quando recebeu toda a atenção do Jaeger, rosto completamente virado em sua direção.

– Gostaria de falar com você. – Eren começou com cuidado, usando um tom leve que Levi percebeu imediatamente.

O Ackerman sabia que algo assim poderia acontecer, Eren é padrinho de Isabel, em algum momento ele lhe abordaria. Mas não estava surpreso, longe disso, um homem rico e poderoso, que frequentava festas de famosos e bailes sociais não poderia ser visto com alguém como ele.

Levi já sabia como funcionava, por isso disparou a falar:

– Não precisa se preocupar, eu não vou contar para ninguém. – Falou rapidamente, encerrando o assunto, desejando evitar qualquer constrangimento.

Eren juntou as sobrancelhas, parecendo confuso por um momento, a boca se abriu e fechou como um peixe enquanto a porta continuava trancada, Levi se sentiu impaciente com isso, seu coração disparou.

– O que? – Um sorriso de descrédito surgiu em seu rosto. – Você entendeu errado, Levi.

Ele não tinha o direito de dizer seu nome desse jeito, era injusto.

– Eu estava tentando pedir seu número de telefone. – Eren então suspirou, uma das mãos indo até as costas enquanto as bochechas se pintam de vermelho, parecendo ridiculamente adorável. Porra, o coração de Levi bateu com mais força, deixando-o sem ar. – Nossa noite juntos foi… divertida, não só a parte sexual, isso também foi bom, claro, mas você é divertido com seu jeito diferente, eu só… me senti muito bem.

– Você está divagando. – Não conseguiu controlar a própria língua, corando junto com Eren, que concordou com a cabeça.

– Desculpe. – O Jaeger é lindo envergonhado desse jeito. – Eu fiquei um pouco preocupado com a idade, mas… eu não consegui esquecer. – Deu de ombros. – Então se você quiser, podemos repetir, sair para comer alguma coisa ou eu posso cozinhar para você, er…

Eren fucking Jaeger estava dizendo que gostaria de sair com ele? Piscou atordoado, parecia fantasia, era demais para ser verdade. Gente como Mike, Eren, não saem com pessoas como Levi, no máximo serviria como uma foda única, sem coisas cafonas como jantares e conversas, ele não era o tipo de pessoa que recebia isso.

– Eu… também gostei. – Disse baixinho, seu rosto ficando quente de tão vermelho. Estava sendo honesto, mesmo que não acreditasse que aquilo era real, estava bêbado? Alucinando? – Você está falando sério?

Seu súbito tom desconfiado teve o efeito menos esperado, Eren paralisou por um segundo, piscando devagar e então um sorriso cresceu em seus lábios grossos.

– Me dê seu número. Levi. – Novamente aquele tom ronronado, agora muito mais evidente pois não havia platéia.

Sentindo as palmas das mãos suadas, Levi puxou seu velho celular de dentro da mochila, estendendo então para Eren, que fez o mesmo, lhe entregando seu iPhone de última geração.

Se enrolou um pouco para conseguir salvar seu contato no sistema diferente, mas acabou se virando e quando terminou, levantou os olhos encontrando os de Eren sobre si, olhos verdes focados em sua figura com algo que parecia adoração.

Impossível.

Coçou a garganta, fazendo o moreno destrocar os aparelhos.

– Você se sentiria confortável comigo enviando mensagens? – Eren parecia receoso, quase como se conhecesse Levi o suficiente para saber que deveria agir exatamente assim. – Se quiser podemos marcar algo.

– Eu não me importo. – Foi sincero novamente. – Meu plano é uma droga, ele para de funcionar às vezes, mas quando puder, eu respondo.

– Certo. – Eren mordeu os lábios, olhando em volta. – Até mais.

– Sim. – Olhou pela janela, sem graça. – A porta…?

– Ah claro. – Eren corou terrivelmente, destravando então o carro. 

– Até mais, Eren. – Levi não precisou se virar para saber que Eren sorria com a forma como disse seu nome, exatamente igual como tinha feito semanas atrás, no quarto de hotel.

Quando entrou em casa, Levi foi direto para a geladeira, pegando uma lata de cerveja. A situação era demais para passar batido, em que mundo, ele, logo ele, estaria trocando contatos com Eren Jaeger?


Lá na colina, do outro lado do lago azul
Foi lá que meu coração se partiu pela primeira vez
Eu ainda me lembro como tudo mudou




Notas Finais


Então gente, o que estão achando, o que esperam dessa história?
As coisas parecem estar indo rápido demais, mas é proposital, ok? Tem muita coisa para acontecer, então vamos ter sim uma aproximação entre os dois, mas isso não significa muito, afinal, ambos tem algumas questões para resolver ainda.
Vimos a dinâmica da família Braus, em como o Eren se encaixa em tudo isso, eu amo essas tramas kkkkk Connie e Nicolo se olhando corados 🤧🤧🤧

Próximo capítulo temos o ponto de vista do Eren, os motivos dele estar bebendo naquela boate e um pouco da família dele.


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