História Manual de como (NÃO) se suicidar - Capítulo 19


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Categorias Bangtan Boys (BTS), Black Pink, Monsta X
Personagens I'M, Jennie, Jeon Jeongguk (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Hyuk, Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin), Rosé
Tags Abuso Sexual, Borderline, Cadeirante, Chaennie, Changi, Crossdresser, Desigualdade Social, Flex, Fobia Social, Hiv, Homofobia, Jikook, Kookmin, Laytoko, Manual, Namjin, Namjin!flex, Preconceito, Sociofobia, Surdez, Taeseok, Trans!taehyung, Trans*, Transexualidade, Transfobia, Vhope, Violência Doméstica, Yoonkook
Visualizações 1.284
Palavras 21.746
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Lemon, Romance e Novela, Shonen-Ai, Suspense, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 19 - Quatro de dezembro


Fanfic / Fanfiction Manual de como (NÃO) se suicidar - Capítulo 19 - Quatro de dezembro

“Esta é a última vez que vocês irão ler algo meu. Não vou dar explicações, pois não é uma obrigação minha, minha vida não interessa a nenhum de vocês. Não vou pedir desculpas, pois o que eu lhes faço é um verdadeiro favor. Também não sei se minhas desculpas dariam conta de consertar meus erros, é mais provável que não. Não sei se dizer que usei vocês como desabafo mudaria algo. Se mudasse, seria para pior.

Porque não adianta mais eu querer salvar ninguém, quando não posso salvar nem a mim mesmo. Meus pensamentos não são bons pra mim, quem dirá pros outros.

Este nunca foi Minseung. E este já não é o Manual de como se suicidar. Até chegar aqui, eu já deveria estar morto.”

 

Respire, Seokjin.

Você precisa respirar.

Mais uma vez.

Mais fundo.

Impossível.

Tudo que eu conseguia fazer era chorar. Minha garganta estava seca. Tentei beber água, mas nada parecia descer pela minha garganta.

Minseung está morto.

Minseung está morto.

Minseung está morto.

Você não é ele, você nunca foi ele, você nunca foi um Jung, você nunca foi o irmão do Hoseok.

Você não passa de uma farsa.

– Pai! – Minha voz saiu esganiçada, enquanto eu lhe procurava pela casa. – Pai?!

Não havia ninguém ali. Eu estava sozinho. Completamente sozinho.

Senti meu peito apertar, então apertei minha camisa, tentando de alguma forma respirar. O que estava acontecendo comigo? Minhas pernas estavam tremendo, o mundo parecia girar rápido demais.

Você cometeu um grande erro, Jin.

Abri a porta da frente, minha respiração estava tão acelerada que mais parecia que eu tinha corrido uma maratona. Apressei meus passos, indo até a casa dos Jung, tinha algo que eu precisava fazer, algo que eu precisava ver.

Entrei sem bater, indo direto ao meu destino. Hoseok e seus pais deviam estar tomando café da manhã. Abri a porta do quarto dos Jung, fui direto até a cômoda velha, me ajoelhando no chão e abrindo todas as gavetas de uma por uma.

No fundo da última gaveta, como eu imaginei, estavam lá.

Várias fotos.

Segurei cada uma delas, como se fosse a coisa mais valiosa do mundo, e talvez fossem mesmo.

Comecei a passar as fotos.

Hoseok e Minseung bebês, uma pulseirinha verde e uma rosa, a rosa era do Minseung, indicava que ele era o mais velho dos gêmeos.

Hyerin amamentando os gêmeos, um em cada peito.

Sunwoo segurando os bebês juntos, sua expressão tinha um pouco de desespero.

Os gêmeos aprendendo a andar.

Os gêmeos tomando banho juntos.

Os gêmeos comendo juntos.

Os gêmeos juntos comigo.

Eram muitas fotos com nós três. Passeando, comendo, rindo, brincando, sorrindo.

Meu peito ficou ainda mais apertado.

Apertei aquelas fotos contra o meu peito e chorei.

Chorei como se eu ainda fosse a criança daquela foto.

– Jin? – A voz de Hyerin me trouxe de volta à realidade, me deparei também com o olhar preocupado de Hoseok, que estava atrás dela. – Tudo bem, querido?

– Mãe... – Minha respiração voltou a ficar acelerada, então ela sentou ao meu lado, acariciando minhas costas.

– O que foi? Pode me contar.

– Eu... – Meu corpo inteiro tremia, eu não sabia como me expressar. – Eu deveria ter sido mais legal com o Minseung.

– Do que está falando, Jin? Você sempre foi legal com ele.

– Não... eu fiz vocês terem que esconder as coisas dele. – Enxuguei minhas lágrimas, então Hyerin me puxou pra mais perto e me abraçou. – Desculpe, mãe.

– Você não tem que se desculpar por nada.

– Eu fiquei com inveja dos seus filhos, eu queria ser um deles.

– Jin... – Hyerin afastou meu rosto, acariciando meus cabelos. – Você é um dos meus filhos.

– Mas... eu queria ser como o Minseung, eu queria ser o irmão do Hoseok, e eu...

– Querido, você já é tudo isso, você é um filho pra gente, você é o irmão do Hoseok, sempre foi.

– Mas eu fui tão horrível com vocês.

– Não, Jin, você era só uma criança, você acabou se deixando levar pelos seus desejos, isso é completamente normal e compreensível. – Eu a abracei novamente, porque eu precisava de um ombro pra chorar.

– O Minseung deve estar tão triste comigo, mãe.

– Não, ele não está triste com você.

– Não mesmo. – Ouvi a voz de Sunwoo, então me afastei pra observá-lo, ele sorriu e bagunçou meu cabelo. – Qual é, garotão! Não fique se martirizando tanto assim, você não tem culpa de nada e ninguém aqui tá triste com você.

– Mas eu... – Passei minhas mãos pelo meu rosto com força. – Eu sinto muito por tudo.

– Nós também sentimos. – Observei Hyerin, enquanto enxugava meu rosto. – Nós sabemos que você se encontrou com sua mãe, Jin.

– Sim.

– E ela te contou coisas que não contamos, certo?

– Sim, ela disse que vocês queriam minha guarda.

– Sim, nós queríamos. – A mãe de Hoseok suspirou.

– Lembro de todas as dores de cabeça que tivemos tentando conseguir isso, mas depois notamos que seria impossível, já que seus pais biológicos tinham condições de criá-lo, então você seria obrigado a ficar com eles. – Explicou Sunwoo.

– Nós queríamos muito que você ficasse com a gente, Jin, talvez nós tenhamos errado em não deixar que sua mãe te levasse. Somos tão culpados nessa história quanto ela.

– Não, vocês não são. Sabe, de verdade, eu não me importo. – Soltei um riso nervoso. – Não me importo se queriam minha guarda pra substituir o Minseung ou se queriam minha guarda porque precisavam de um amigo pro Hoseok, eu não me importo, eu só queria fazer parte da família de vocês, mesmo que...

– Jin, por favor, não se diminua a esse ponto, não tire seu valor completamente. – Hyerin possuía um ar sério. – Você não é um objeto pra substituir outro objeto quebrado, você não é um brinquedo que se dá pra que uma criança se sinta melhor. Eu vou falar com sinceridade, do fundo do meu coração. Nós não queríamos outro filho, foi muito difícil superar a morte do Minseung e também cuidar dos problemas que isso gerou em você. Não, você não estava nos nossos planos, Jin, mas você acabou entrando no meio deles, você acabou entrando no meio das nossas vidas, e eu não acho que isso seja algo ruim, muito pelo contrário, ganhamos outro filho quando menos esperávamos, isso foi incrível.

– Você não nasceu sendo amado por nós, Jin, mas nós aprendemos a te amar, e isso te torna nosso filho tanto quanto Hoseok. – Eu sabia que nunca esqueceria das palavras de Hyerin e Sunwoo.

– Sei que costumamos nos preocupar mais com Hoseok, graças à necessidade especial dele, sei que acabo sendo injusta com você, me sinto horrível sempre que isso acontece. Ainda não consigo deixar Hoseok livre da própria bolha que eu criei em torno dele.

– Também porque ele lembra o Minseung. – Os dois me observaram. – Manter Hoseok sempre seguro é uma forma de manter também Minseung. Mas, mãe... e pai... – Era a primeira vez que eu chamava Sunwoo de pai. – Sei que passaram todo esse tempo projetando a imagem do Minseung em Hoseok, pensando em como ele seria se tivesse crescido e estivesse aqui... mas o Hoseok também não é o Minseung.

– Sim, ele não é. – Os olhos de Hyerin se encheram de lágrimas, enquanto ela acariciava meus cabelos.

– A morte é tão difícil de lidar quanto a vida, nem sempre aceitamos perder alguém. Se existe algum tipo de dor eterna, certamente, seria a dor de perder alguém que amamos muito... pra sempre.

– E nós não queremos perder outro filho. – As palavras de Sunwoo me atingiram diretamente, mas eu continuava me sentindo pequeno demais, culpado demais.

– Posso pegar seu carro, mãe?

– Você está bem pra dirigir?

– Sim.

Levantei e fui até a porta, me deparando com Hoseok, que observava a tudo de longe, enquanto segurava Miri em seus braços. Segurei seu braço, lhe fazendo soltar a cachorrinha e o levei até o lado de fora comigo. Entramos no carro. Havia um lugar em que eu precisava muito ir, mas não poderia ir sozinho.

Eu precisava do meu irmão comigo, sempre.

 

Enquanto eu dirigia, Hoseok não parava de me observar, certamente, ele deveria estar imaginando tudo que estava se passando pela minha cabeça, meu irmão sempre se preocupava demais comigo, aquilo tinha seus lados positivos. Às vezes, é bom saber que tem alguém que te ama e te quer bem, era assim que eu me sentia perto dele.

Conforme nos aproximávamos do nosso destino, mais eu podia sentir Hoseok ficar tenso, agora ele já sabia o lugar que estávamos indo, talvez tivesse sido covarde da minha parte levar ele comigo, mas eu não achei que aquilo era algo que eu poderia fazer sozinho.

Estacionei o carro e saí, suspirando profundamente. Seja forte, Seokjin. Hoseok me seguiu, enquanto tentávamos caminhar naquele lugar apertado. Eu só havia ido lá uma vez, então não sabia onde exatamente estaria o meu destino. Até onde sei, também era a primeira vez que meu irmão voltava ali.

“Você está perdido, certo?”

“O quê? Claro que não, tenho total conhecimento de onde estamos.”

“Onde estamos?”

Maldito Hoseok, sempre fazendo perguntas complicadas, eu te odeio.

“Estamos... no cemitério.”

“Certamente.”

Rimos da nossa própria desgraça. Acho que não íamos mesmo achar a sepultura de Minseung, já haviam se passado muitos anos que não vínhamos aqui. Suspirei, me sentando em uma sepultura aleatória, Hoseok fez o mesmo, me observando com atenção.

“Você está bem? Quer me contar o que tem se passado na sua cabeça, durante todos esses últimos acontecimentos?”

“Se eu fosse fazer isso, passaríamos o resto da vida aqui.”

“Tudo bem, eu aceito um resumo, então.”

Suspirei, pensando em como deveria organizar meus pensamentos, achei que deveria começar contando o que ele ainda não sabia.

“Seus pais queriam me adotar, mas Jiwoo acabou por não querer dar minha guarda, agora acho que ela quer se aproximar de mim, de alguma forma, mas eu não sei o que quero dela... talvez nada.”

“Se não quer nada, por que parece ter pensado tanto nisso?”

“Não sei.”

“Seja sincero consigo mesmo, você sabe que tem algo mais aí dentro, algo que você quer muito, mas acha que é errado aceitar.”

“E o que seria isso?”

“Uma família pra chamar de sua.”

De fato, Hoseok sempre foi dez vezes mais inteligente que eu.

“E, caso escolha os Jung pra chamar de sua família, eu gostaria que soubesse que eu ficaria muito feliz com isso.”

“Às vezes, acho que sou bastante ingrato com vocês, depois de tudo que fizeram por mim.”

“Não é verdade, você também já fez muito por nós.”

Balancei minha cabeça, pensando nas afirmações do meu irmão, talvez ele tivesse um pouco de razão mesmo. Na verdade, Hoseok parecia ser a única pessoa no mundo capaz de me fazer enxergar tudo aquilo que eu me negava repetidamente a ver.

“Obrigado.”

“Não precisa agradecer. Ainda quero que me fale de outra coisa.”

“Tudo bem.”

“Onde meu irmão entrou nessa história toda?”

Senti meu sangue esquentar, eu não queria falar do meu Manual pro Hoseok, nem pra ninguém, era óbvio que ele nunca concordaria com aquilo e acharia uma loucura completa. Porém, mesmo não citando o Manual, eu ainda poderia ser sincero com ele.

“Você sabe que o abandono dos meus pais acabou causando alguns transtornos em mim, eu cresci alimentando uma forte sensação de rejeição, eu sempre quis ser aceito, eu queria que as pessoas me amassem... eu queria que elas não fossem embora, porque eu não queria mais ficar só. E, por muito tempo, eu estive pensando no motivo de eu ter sido renegado, sabe? O que eu tinha feito? Qual era o meu erro? E eu não tinha feito nada, meu maior erro foi apenas ter nascido Kim Seokjin, então eu não queria ser eu. Desejei muito que eu pudesse ter sido outra pessoa, porque assim as coisas seriam diferentes.

Então o Minseung morreu, isso criou um imenso buraco na sua família. Eu era egoísta e invejoso, eu quis preencher esse buraco, eu quis substituí-lo, eu quis apagar a existência dele, junto com meu passado, assim eu sempre seria um Jung, sempre seria Minseung, e eu achava que assim todos sairiam felizes... mas acho que me enganei, isso não me fez tão feliz assim.”

“Não te fez feliz porque não era você, porque não estava sendo você. Isso está errado. Você não é o Minseung, você nunca será como ele, meus pais e eu nunca teremos por você o mesmo sentimento que tínhamos por ele, porque vocês são pessoas diferentes, mas isso não quer dizer que a gente não te ame, mas nós amamos o Kim Seokjin que vive em você. Não quero um falso Minseung, quero meu irmão mais velho, quero o meu verdadeiro irmão, Kim Seokjin.”

Certamente, ainda haviam mais coisas que eu gostaria de dizer, mas não saberia como. Meu corpo parecia paralisado demais pra fazer seja lá o que fosse, então, silenciosamente, tudo que fiz foi chorar, enquanto observava o céu, porque eu estava cansado de todos os meus problemas, estava cansado de fingir que eu estava sempre bem, porque eu não estava, definitivamente, não estava.

É, eu preciso aprender a amar mais a mim mesmo e ao meu coração.

Porque eu sou Kim Seokjin.

 

[Park Jimin]

 

“Por que você sumiu, Jimin?”

Eu já estava completamente cansado dessa pergunta, não sei bem se pela frequência com a qual eu a ouvia ou se por eu nunca ter uma resposta pra ela. Não é como se não houvesse um motivo pra eu sumir, haviam muitos, mas eu nunca saberia explicá-los, mesmo que eu tentasse por toda uma vida.

Às vezes, tenho a sensação de que fico procurando coisas que me deixem mal, talvez eu acabe aumentando meus problemas mesmo, talvez eu desista antes de tentar porque assim parece mais cômodo, talvez eu só esteja procurando uma desculpa pra nunca precisar sair. Quer dizer... eu não acho que realmente tinha procurado uma desculpa daquela vez.

Estávamos na última aula da terça, não faltava muito tempo pro professor nos mandar embora. Mesmo faltando com certa frequência, quando vou pra aula, sempre tento prestar o máximo de atenção possível. Por várias vezes, o professor fez perguntas que não foram respondidas, aquilo começou a me incomodar, porque eram coisas fáceis.

Por que ninguém respondia? Será que eles são tão burros assim? Porque eles estão sempre conversando coisas desnecessárias e causando tumulto no meio da aula, mas quando se faz mais necessário, simplesmente se calam.

Depois da mesma pergunta ser repetida várias vezes, eu acabei por perder minha paciência, então, mesmo meus problemas me impossibilitando de falar em público na maior parte do tempo, eu respondi o professor, de forma clara, rápida e precisa. Tudo bem, eu fiquei nervoso, mas eu estava certo, então tudo bem.

Ou foi o que eu pensei.

– Ah, então ele fala mesmo? – Demorei algum tempo até perceber que era a mim que meu colega se referia.

– Perdemos uma resposta pro Jimin, chegamos mesmo nesse nível? – Uma garota comentou, enquanto ria.

– Para, não tem graça. – Disse outra garota, mas até mesmo isso me irritou, porque eu não queria ninguém me defendendo, não queria nem que notassem minha presença ali.

De repente, a turma iniciou uma discussão sobre mim, onde alguns questionavam minha estranheza e outros tentavam me defender, de qualquer forma, eu odiava todos eles. Quando me perguntavam algo, eu apenas continuava em silêncio, aquilo começou a me sufocar imensamente, então eu apenas peguei minhas coisas e fui embora.

E eu não voltei mais pras aulas, desde então.

– Jiminnie? – Aquela voz me tirou do meu transe, mesmo eu já sabendo que ele vinha.

– Tô indo. – Suspirei, então abri a porta e lhe encarei.

– Oi, amor!

– Oi. – Eu sempre fui péssimo demais em fingir animação.

– Que tipo de “oi” foi esse?

– Do tipo “estou cansado”, desculpe. – Puxei sua cadeira pro interior do meu quarto e tranquei a porta. – Você tá bem?

– Eu tô ótimo, mas essa não é a questão, o foco aqui é você.

– Jungkook, você sabe que não gosto de ser o foco de nada.

– Você é o foco de todo o meu amor. – Jungkook me puxou, fazendo com que eu sentasse em seu colo, não conseguindo conter minha risada. – Onde tá o meu beijo?

– Não tem beijo pra você aqui.

– O quê?! Como assim?! Vou embora.

– Você só vem pelos meus beijos? – Levantei de seu colo e me inclinei pra encará-lo.

– Claro que não, eu viria só pra te assistir respirar.

– Eu odiaria isso. – Segurei suas bochechas e lhe beijei, sentindo um pequeno suspiro apaixonado escapar dele. Jungkook era fofo.

– Obrigado pelo beijo. – Sorri com seu jeito bobo. – E obrigado por me deixar vir te ver.

– Desculpe pelo tempo que passei sem falar com você, eu estava resolvendo algumas coisas...

– Tudo bem. – Ele suspirou. – Quer me contar o porquê de não ter ido pra universidade nos últimos dias?

– Pode ser. – Empurrei sua cadeira até perto da minha cama, ele apoiou suas duas mãos nos meus cobertores, depois se deitou, sentei ao seu lado, mexendo em seu cabelo.

– Sou todo ouvidos.

– Bem... – Sempre que eu pensava nos motivos que eu tinha pra parar de sair de casa ou por ter parado de conversar com alguém, eu me sentia realmente bobo demais e com vergonha de falar sobre. – Meus colegas... eles meio que começaram a discutir sobre mim, bem no meio da aula, aquilo me incomodou demais, sabe?

– Falaram coisas muito rudes de você?

– Acho que sim.

– Quer que eu bata neles?

– Idiota. – Ri, depositando um beijo em sua testa.

– E o professor não fez nada?

– Ele não entrou na discussão... nem eu, mas tinham alguns colegas me defendendo também.

– Então isso é bom, né?

– Não, claro que não.

– Por quê?

– Não quero ninguém me defendendo, as pessoas nem mesmo entendem como eu me sinto.

– Elas não vão entender mesmo, se você não conta isso pra elas.

– Então tá dizendo que eu deveria me abrir mais pros meus colegas e virar amiguinho deles?

– Talvez fosse bom pra você, não sei.

– Então o errado da história sou eu? – Minha expressão devia parecer muito zangada. – Agora a culpa é minha?

– Não, Jiminnie, não foi o que eu quis dizer...

– Não me chama de Jiminnie! – Eu odiava a ideia de que ele só estava tentando me bajular.

– Desculpe.

– Não quero suas desculpas, quero que continue com seu papo de bom samaritano. Então o que eu deveria fazer? Parar de ser um pé no saco e melhorar a vida dos meus colegas?

– Não, você não precisa ser amigo deles, se não quiser.

– Agora seu discurso já mudou? Por que não fala a verdade, no lugar de simplesmente ficar tentando me agradar?

– Jimin, eu não conseguiria te agradar nem com todo o esforço do mundo. – Jungkook sentou na cama, então eu soube que as coisas estavam começando a ficar sérias.

– Ok, sinto muito se eu sou um estorvo na sua vida, então.

– Não foi isso que eu disse, Jimin, por favor.

– Tudo que eu faço é errado demais, não é mesmo?

– Não, Jimin, não é. Todo mundo comete erros, o tempo todo.

– Mas eu nunca estou satisfeito com nada, é assim que você me vê, Jungkook.

– Não me importo se não está satisfeito com nada, mas me importo se não está satisfeito comigo, e você nunca parece satisfeito com o que eu faço ou digo, não tem ideia de como isso é frustrante pra mim.

– E você acha que as coisas que você diz não são frustrantes pra mim também?

– Desculpe, não é a minha intenção.

– Nunca é. – Soltei uma risada sarcástica, levantando e me afastando da cama.

– Jimin, eu só quero ajudar.

– Você sempre diz isso.

– Porque é a verdade.

– Você não me ajuda em nada, Jungkook!

As palavras escaparam involuntariamente da minha boca, em um tom completamente hostil. Ele estava paralisado, chocado demais, decepcionado demais, eu poderia saber o quão magoado ele estava só por seu olhar triste. Jungkook tentou dizer algo, mas nada saiu, então ele apenas observou suas próprias mãos por um longo tempo.

– Eu não deveria ter vindo, né? Eu só piorei tudo, mais uma vez. Desculpe, Jimin.

Jungkook se esticou, puxando sua cadeira pra perto, ele estava tentando esconder seu rosto, e eu sabia porque ele estava fazendo isso, ele não queria que eu o visse tentando desesperadamente controlar suas lágrimas.

Mais uma vez, me senti o pior ser do universo, senti um imenso ódio de mim, ao mesmo tempo em que senti todo o desejo do mundo de protegê-lo do próprio mal que eu causava.

– Não, não, não! – Afastei sua cadeira, empurrando-a pra longe. – Eu não quero que você vá embora. Ah, meu Deus! Desculpe pelo o que eu disse, não era o que eu queria dizer!

– Jimin, você não... – Suas palavras foram interrompidas por um suspiro, ao mesmo tempo em que uma lágrima solitária escorria pelo seu rosto, sendo rapidamente enxugada.

– Jungkook... – Sentei na cama, segurando suas bochechas, fazendo com que ele olhasse pra mim. – Desculpa, o que eu falei não é verdade, eu só quis descontar a raiva que eu tava sentindo, isso foi totalmente errado. Você me ajuda, é claro que você me ajuda, ninguém teria a paciência que você tem comigo, eu...

– Não quero que fale da minha paciência, como se você fosse uma espécie de monstro e eu estivesse fazendo um favor em ser paciente com você. – Ele não conseguia me encarar.

– Sim, tudo bem, obrigado por não me enxergar como um monstro, mesmo depois das coisas que eu te digo. – Acariciei seus cabelos, tirando-os de sua testa. – Me desculpe, Jungkook, por favor.

– Tá tudo bem, Jimin, eu te entendo.

– Eu sou realmente muito idiota com você, desculpe por isso.

– Não, você não é, tudo bem se quiser que eu vá embora, eu...

– Não! Jungkook, por favor, não! Fica aqui comigo, por favor, pede aos seus pais pra dormir aqui, por favor, por favor, eu tô cansado de ficar só, eu não via a hora de você chegar, mas eu acabei estragando tudo, desculpa, eu... – Parei pra abaixar meu rosto, me sentindo imensamente envergonhado.

– Ei, não fica assim. – Jungkook levantou meu rosto. – Desculpa também.

– Fica aqui comigo, por favor.

– Tudo bem, eu vou ficar. Na verdade... – Ele sorriu meio sem jeito. – Eu já tinha pedido aos meus pais pra dormir aqui mesmo.

Sorri minimamente, ainda envergonhado por toda a situação que eu havia criado. Segurei seu pescoço, lhe trazendo pra mais perto e lhe beijando novamente, então eu empurrei seu corpo, fazendo com que deitássemos um por cima do outro e eu pudesse apoiar meu rosto em seu peito.

– Jimin, você tá chorando?

– Não, só tô com vergonha mesmo, vamos ficar assim até isso passar, assim você não pode ver minha cara deslavada.

– Eu gosto de ver seu rostinho fofo, seja lá como for. – Não tenho certeza, mas sempre achei que Jungkook fingia estar tudo bem pra que eu me sentisse bem, mas eu sentia que ele ainda estava triste com tudo o que havia acontecido.

– Jungkook...

– Jiminnie.

– Desculpe por tudo... eu te amo, de verdade.

 

“Sinto muito por você ter me visto agitado,

Fique comigo por um dia,

Eu não tenho ninguém pra me abraçar,

Porque eu faço todos irem embora.

Eu não quero ficar sozinho,

Mas eu sou melhor sozinho.

Porque eu sou frágil,

Deus, eu sou frágil.

Sinto muito que você tenha me visto quebrar,

Mas fique comigo,

Não se afaste.

Deus, eu gostaria que você me abraçasse de perto,

Não pense que eu não sinto o mesmo.

Eu sou melhor sozinho,

Mas eu não quero ficar sozinho.

Porque eu sou frágil,

Deus, eu sou frágil.

Eu queria poder te amar.”

– Fragile, Gnash, Wreen.

 

[Kim Seokjin]

 

– Agora pronto, eu sou vidente pra adivinhar quando você quer ir no banheiro. Não tem boca pra falar, não, ô seu caralho?

– Eu avisei, seu animal, mas você tava muito ocupado escutando esses kpop da altura do inferno.

– Cala a boca, senão eu coloco funk até estourar seus tímpanos.

– Se fosse o Jimin que tivesse pedido, você teria escutado, mas quando sou eu você finge que não.

– Mas é claro, eu gosto do Jimin, de você eu não gosto.

– Jimin, não fique apenas rindo, me defenda!

– Desculpe, Jungkook. – Jimin cobriu seu rosto, rindo do namorado imbecil dele.

– Inclusive, eu só aceitei ser motorista do casalzinho por causa do Jimin, se fosse por você...

– Tá, tá, já entendi que você me odeia, agora me tira logo daqui, antes que eu faça xixi no carro da Hyerin.

Estacionei o carro em uma lanchonete e lhe ajudei a sentar na cadeira de rodas, depois lhe empurrei pro interior do local, enquanto Jimin nos seguia. A expressão de Jungkook não era das melhores, me senti culpado por negar amor àquela pobre alma.

– Ei, você sabe que eu só tava brincando, né?

– Não, não sei disso.

– Jungkookie, não me leve a sério, por favor, eu sou uma piada ambulante.

– Caguei.

– Vem cá pra eu te dar um beijinho. – Me inclinei, abraçando seus ombros por trás e lhe dando um beijo estalado na bochecha.

– Que nojo! – Jungkook não conseguiu esconder seu riso. – Jimin, bata nele.

– Não posso, ele é maior que eu.

– Me ajudem a entrar, antes que eu faça aqui mesmo. – Comecei a empurrar sua cadeira. – Me ajudem, no caso, é só o Jimin mesmo.

– Vê se não vão ficar se pegando lá dentro e esquecem de mim. – Soltei sua cadeira e fui até uma das mesas vazias, eu estava mesmo com fome, então talvez eu devesse pedir algo.

Enquanto segurava o cardápio, eu olhei rapidamente pros dois novamente, a porta do banheiro era muito estreita, a cadeira não podia passar, então Jimin ergueu o corpo de Jungkook e o ajudou a entrar.

Ver aquilo me fez pensar o quanto é difícil viver em um mundo que não está adaptado a você, viver em um mundo onde fazem questão de te mostrar que você não deveria estar ali, que você não deveria existir. Se os ônibus não têm acessibilidade, se calçadas são irregulares, se portas são estreitas, se locais públicos não possuem rampas, é porque estamos predeterminando que cadeirantes não saem de casa e não frequentam os mesmos lugares que nós.

Sei que, por mais que demore, ainda há uma possibilidade que Jungkook volte a andar, mesmo que seja com o auxílio de muletas, mas e quanto às pessoas que nunca vão recuperar seus movimentos? Elas devem simplesmente se isolar em casa, por saberem que o mundo lá fora as inviabiliza, fazendo com que elas se sintam incômodos quando estão em lugares públicos? Isso é tão...

– Boa noite, qual o seu pedido, senhor? – Pô, moça, você arruinou minha linha de pensamento, sua nojenta.

– Ah... eu ainda tô pensando nisso.

– Está desacompanhado? – Alá, o que isso tem a ver com você, querida? Aposto que tá interessada em mim, não pode ver um macho lindo que nem eu que já cai em cima.

– Não, meus amigos foram no banheiro. Quando decidir o que quero, eu te chamo. – Sorri, depois de dar meu “chega pra lá” nela.

– Tudo bem, pode me chamar, virei rapidamente. – É oficial, sou muito cobiçado.

Aqueles dois realmente estavam demorando a sair, Jimin era menor que Jungkook, então eu acho que deve ser difícil pra ele ajudá-lo sozinho, mas vai que eu vou até lá e vejo o que não quero, né?

Depois de ir no cemitério com Hoseok, voltei pra casa e fiquei pensando na minha vida frustrante, até que uma ligação de Jungkook cortou meus pensamentos, quando ele me chamou pra ver um filme com os dois. Eu não queria mesmo ir, mas o Jimin ia, e eu acho que deveria incentivá-lo mais a sair, criar um clima agradável pra que ele sentisse vontade de sair mais vezes, então eu aceitei.

O que acontece é que, durante todo o filme e também agora, eu ainda não conseguia parar de pensar em Jiwoo, nos Jung, Minseung... pareciam ser muitas coisas pra que eu conseguisse engolir tudo de uma vez. Na verdade, eu estava apenas tentando não chorar, enquanto fazia piadas pra esconder tudo que eu sentia. Admitir isso é um tanto difícil.

– Oi. – Ouvi a voz de Jimin, enquanto ele ajudava Jungkook a sentar do meu lado.

– Jimin, seu pescoço tá vermelho, meu Deus, eu não acredito que vocês realmente tavam se pegando. – Disse, enquanto Jimin sentava à minha frente e cobria seu pescoço.

– Não sei do que você tá reclamando, até que fomos bem rápidos. – Jungkook riu, satisfeito com minha expressão de puro ódio.

– Não tem casa pra fazer isso, não?

– Não vamos falar disso. – Jimin continuava escondendo seu pescoço, aquilo era engraçado e fofo ao mesmo tempo.

– Vão pedir agora? – Mas que mocinha insistente essa garçonete.

Enquanto fazíamos nossos pedidos, e mesmo depois que a comida chegou, Jimin não parava de digitar em seu celular, comecei a achar aquilo estranho demais.

– Jin. – Olhei pro Jungkook. – Como você tá?

– Como assim? Eu tô bem.

– Esse lance da sua mãe, sei que isso te afetou.

– Sim, afetou, mas eu tô bem agora.

– Tem certeza?

– Hm... hoje é quatro de dezembro, eu comecei o dia mal, até no cemitério eu fui hoje, chorei na frente dos meus pais, tudo que eu não pensei em fazer, isso é realmente frustrante, mas eu vou ficar bem.

– E o que isso tem a ver com ser quatro de dezembro? – Encarei seu rosto com tédio.

– Nada.

Senti meu celular vibrar, era uma mensagem de Hoseok.

 

Jin, você precisa vir pra casa.

O quanto antes.

Por favor.

Cadê você?

Jin, apareça, aconteceu algo realmente sério.

 

– Ah, meu Deus!

– O que foi? – Jimin finalmente tirou a cara da tela celular.

– Eu preciso ir, Hoseok disse que aconteceu algo lá em casa.

– Tudo bem, vamos com você. – Rapidamente, Jimin levantou e foi até a cadeira de Jungkook, lhe ajudando a sentar nela.

– Não é melhor vocês pegarem um táxi e voltarem pra casa? – Perguntei, depois de pagar a conta.

– Não, nós vamos com você. – Respondeu Jungkook.

Eu odiava dirigir quando estava muito nervoso, pra piorar tudo, meu celular não parava de vibrar no meu bolso, mas se eu fosse tentar atendê-lo agora, poderia só acabar causando um acidente e piorando seja lá o que estivesse acontecendo.

Quando estacionei o carro em frente à casa dos Jung, notei que as luzes estavam todas apagadas, aquilo era realmente estranho. Onde estariam todos? Apressadamente, saí do carro e fui até a porta, estava aberta, então rodei a maçaneta e entrei.

– Mãe? Ajusshi? Cadê vocês? – Nenhuma resposta. – O que...

– Feliz aniversário, Jin!

De repente, a luz foi acesa, enquanto todos gritavam e gesticulavam um parabéns ao mesmo tempo, me dando um susto do caralho.

– O quê? – A surpresa me deixou completamente sem reação. – Como assim?

– Feliz aniversário, hyung! – Namjoon se aproximou, me dando um abraço apertado, mas eu nem mesmo tive reação pra lhe abraçar de volta.

– O que significa isso, Nam?

– É o seu aniversário, Jin! Organizamos isso tudo por dias. – Ele sorriu e beijou minha testa, então, involuntariamente, senti minhas lágrimas descerem. Ao ver aquilo, Namjoon me abraçou novamente. – Ei, por que você tá chorando?

– Porque vocês são idiotas. – Minha voz tava tão embargada que eu nem entendia o que eu tava falando. – Minha mãe e o ajusshi falaram comigo hoje de manhã e ninguém falou nada, eu conversei com o Hoseok e ele também nem me disse nada, você ficou me mandando mensagem de bom dia, mas nem pra mandar um “parabéns”, Jungkook e Jimin também, eles...

– Eu sinto muito, hyung. – Namjoon enxugou meu rosto, enquanto ria do meu jeito nervoso. – Nós tínhamos combinado de fingir que não lembrávamos de nada.

– Bando de idiota. – Olhei pro Yoongi, tirando um bilhão de fotos minhas. – Tá tirando foto de mim chorando, né? Seu escroto! Pode ir apagando.

– Jamais.

– Eu vou... – Enquanto me aproximava dele, vi meu bolo, então voltei a chorar de novo. – Meu Deus! É meu rosto no bolo! Eu sou muito lindo, socorro! Sério, eu tô muito emocionado com minha própria beleza... e com a surpresa de vocês, claro.

– Então precisamos de uma foto pra registrar o momento. – Disse Taehyung, me entregando o bolo.

– Quem vai tirar?

– Aqui, Jin. – Olhei pra Sunwoo, fiz questão de armar meu melhor sorriso.

Não era meu primeiro aniversário, os Jung já tinham feito outros pra mim antes, mas sempre era apenas eu, Hoseok e nossos pais, aquela era a primeira vez que eu comemorava meu aniversário com amigos e até com um namorado, me senti bem como não me sentia há tempos.

– Feliz aniversário, garotão. – Sunwoo me abraçou, depois pegou o bolo de volta. – Desculpe por não podermos fazer algo melhor.

– Mas isso aqui tá ótimo!

– Não precisa mentir, Jin. – Disse Hyerin, enquanto me abraçava e dava um beijo em minha bochecha. – Feliz aniversário, você merecia coisas bem melhores.

– Vocês estão exagerando, eu tô realmente muito feliz com isso aqui.

– Feliz aniversário, hyung. – Taehyung ficou na ponta dos pés e me deu um abraço apertado, me fazendo sorrir. – Tente colocar um pouco de juízo na sua cabeça, você tem 21 anos agora.

– Vou tentar. – Eu estava começando a ficar constrangido com tanta atenção, isso era algo raro.

– Feliz aniversário, hyung, e obrigado por ter ido assistir ao filme comigo e Jungkook, ou o plano nunca teria dado certo. – Abracei Jimin apertando-o o máximo possível.

– Eu só não te bato porque você é fofo, Park Jimin.

– E eu também? – Jungkook soltou um sorriso sarcástico.

– Lógico, você é a pessoa mais fofa de todo o universo. – Me inclinei pra lhe abraçar e dei um beijo no topo de sua cabeça.

– Feliz aniversário, imbecil.

– Obrigado, babaca.

– Jin, Jin, eu quero te apresentar alguém. – Me virei pra encarar Yoongi, ele estava acompanhado de Changkyun e outro garoto. – Esse aqui é o Minhyuk, irmão do Changkyun.

– Oi, Minhyuk! – O garoto parecia nervoso demais.

– Ele é surdo. – Disse Changkyun.

– Ah. – Gesticulei um cumprimento pro irmão dele, depois me aproximei e lhe abracei, mas o garoto pareceu ficar ainda mais sem jeito.

– Ele é meio tímido. – Explicou Yoongi. – Mas ele gostou do Hoseok e do Taehyung, de verdade.

– Deviam trazer ele pra ficar com a gente mais vezes. – Sugeri.

– Eu acho o mesmo. – Eu e Yoongi olhamos pra Changkyun e seu irmão.

– Tudo depende dele. – Respondeu Changkyun.

– Vou aceitar isso como um sim.

– Feliz aniversário, Jin! – Yoongi me abraçou, senti que uma energia muito boa emanava dele, aquilo deveria ter uma boa explicação.

– Feliz aniversário, Jin hyung. – Changkyun me abraçou, então pensei “aqui pode estar a explicação”.

Senti alguém bater em minhas costas, então virei e abracei meu irmão o mais apertado que podia, até senti-lo bater em mim pra que eu o soltasse.

“Gostou da foto do bolo? Fui eu que escolhi.”

“É realmente uma escolha difícil, já que todas as minhas fotos são incrivelmente lindas.”

“Você gostou? Se sente melhor agora?”

“Bem melhor.”

Abracei meu irmão novamente, eu estava realmente me sentindo muito bem, admito que até senti vontade de chorar de novo, mas eu não faria isso, aquele era um momento onde só cabiam sorrisos.

– Ei. – Senti Namjoon me abraçar por trás, então sorri. – Eu ainda tenho outro presente pra você, depois que sairmos daqui.

– Vamos sair daqui ainda? – Perguntei, apertando suas mãos, que estavam na minha barriga.

– Não sei, eu pensei em te levar na minha casa, se você quiser.

– O presente que vou receber dos seus pais é um tiro no meio da testa. – Ri de nervoso.

– Eles nem vão saber que você vai tá lá. Relaxa, tá bom? – Namjoon beijou meu pescoço, fazendo com que meu corpo arrepiasse.

– Podem, por favor, não se comerem no meio da sala? – Pau no teu cu, Yoongi quebra clima. – Estamos aqui diante da família tradicional coreana, não podemos aceitar essa pouca vergonha.

– Se fosse o Changkyun te beijando tava tudo de boa. – Esse Namjoon tá atrevido, hein.

– Que calúnia! – Yoongi tentou se defender.

– É verdade. – Eu adorava o jeito do Changkyun de provocar o Yoongi, ele acabava provando do próprio veneno. – Se eu te beijasse, não teria problema nenhum.

– Como pode ter tanta certeza disso?

– Muito simples. – Changkyun puxou Yoongi pelo pescoço e lhe beijou, depois se levantou e saiu, com um sorriso sarcástico.

– Obrigado, Seokjin. – Yoongi não poderia negar que estava feliz.

– De nada.

Depois de comermos, eu também abri os presentes que cada um tinha trazido pra mim, fiquei realmente feliz com aquele momento, significava muito pra alguém com um sentimento de rejeição tão grande quanto o meu.

– Jin hyung. – Namjoon sentou ao meu lado, acariciando minha nuca. – Acho que temos que ir agora, pra que você volte cedo pra casa, mas antes preciso deixar Jimin, Jungkook, Yoongi, Changkyun e o irmão dele em casa.

– Tudo bem, eu levo o Changkyun e o irmão dele pra casa.

– Não, é o seu aniversário, tem que aproveitar, deixa que eu levo eles.

– Não, eu levo eles. – Insisti. – Depois eu volto e vamos pra sua casa.

– Por quê?

– Eu preciso falar com o Changkyun sobre umas coisas do trabalho. – Acho que eu não era muito bom em mentir.

– Ok, quer que eu vá com você?

– Não precisa. – Antes que Namjoon fizesse mais alguma pergunta, levantei e fui até Hyerin. – Mãe, me empresta seu carro?

– Tá, a chave tá no meu quarto, eu acho.

– Ok. – Fui até lá, peguei a chave e me aproximei de Yoongi. – Vou deixar seu namorado e o irmão dele em casa, você vem também.

– Medo de voltar sozinho, Seokjin?

– Pode ser.

Yoongi não pensou duas vezes antes de concordar e entrar no carro, ele tinha planos de sentar atrás, junto com Changkyun, mas acabou sobrando, então teve que sentar na frente mesmo. Descobri que os irmãos Im moravam realmente em um lugar distante e muito perigoso, e até mesmo o lugar que você mora diz muito sobre você, pensei nas dificuldades que eles deviam passar.

– Você pode deixar a gente aqui. – Disse Changkyun.

– Não, eu posso deixar vocês em casa, sem problemas.

– Melhor não.

– Tá tarde pra vocês caminharem.

– Também tá tarde pra um carro desconhecido entrar nessas ruas, nós caminhamos, todo mundo conhece a gente aqui, não tem problema.

– Tem certeza? – Suas palavras realmente mexeram comigo, porque me fizeram notar o quanto é difícil pra algumas pessoas só realizar a simples tarefa de chegar bem em casa.

– Sim, não se preocupe.

– Manda uma mensagem quando você chegar em casa, Kyunie. – Pediu Yoongi, mas Changkyun apenas revirou os olhos e riu.

– Feliz aniversário, hyung. Tchau, Yoongi.

– Não ganho nem um beijinho?

– Não.

Observei seu irmão sair do carro, um tanto sem jeito, então eu acenei pra ele, Minhyuk sorriu timidamente, ele era fofo. Do meu outro lado, fingi que não vi quando Changkyun deu um beijo rápido em Yoongi. Então os irmãos se afastaram, enquanto observávamos por algum tempo, antes de dar a partida novamente.

– O amor é lindo, não é mesmo, Min Yoongi?

– Me diga você, Kim Seokjin.

– Eu te digo que é. – Nunca achei que um momento como esse de agora fosse acontecer entre eu e Yoongi, o carinha riquinho de medicina que eu odiava mais que tudo. – Espero que não esteja só usando ele.

– Pra sua informação, não estou, nós nunca nem transamos.

– O quê? Você não é o mais transudo de todo o universo?

– Não, talvez eu só goste que as pessoas achem isso de mim. Na verdade, não sei mais se gosto tanto assim.

– Tudo bem, não se preocupe, vou te dar umas dicas de sexo, Yoongi.

– Cala boca, você só transou uma vez na vida, mano.

– Como sabe disso?!

– Namjoon me contou, claro.

– Traidor!

Enquanto Yoongi ria e continuava fazendo chacota da minha cara, eu estava começando a ficar nervoso demais, então achei melhor parar o carro na beira da estrada, fazendo ele me encarar com estranheza.

– O que foi, Jin?

– Eu preciso conversar com você, Yoongi.

– Por isso insistiu em vir deixar eles em casa?

– É.

– Você queria ficar sozinho comigo?

– Sim. – Suspirei profundamente.

– Jin, desculpe, você até que beija bem, mas eu não posso ficar com o namorado do meu melhor amigo.

– Ah, vai pra inferno, seu cabecinha de pica! – Yoongi riu, mas eu sabia que ele também estava um pouco apreensivo com a situação.

– Aconteceu alguma coisa?

– É, aconteceu.

– Por que quer falar sobre isso comigo? Não sou bom com essas coisas.

– Porque você é o único que sabe disso.

– Disso o quê?

– Quando pegou meu celular...

– Isso foi em 1654, você ainda lembra?

– Cala boca! Quando pegou meu celular, você me chamou de Min Seung, então nem adianta negar que você leu o que eu escrevi. – Ele estava sério agora. – Você leu, não foi mesmo?

– Manual de como se suicidar, eu li.

– Ótimo.

– Ainda anda escrevendo ele?

– É sobre isso que quero falar. Primeiro de tudo, eu preciso te contar quem é Minseung.

– Um nome aleatório que você criou pra se referir a si mesmo?

– Errado. Era o irmão gêmeo do Hoseok, ele morreu quando ainda era criança, então, de alguma forma, eu acabei tentando tomar o lugar dele. – Doía falar sobre aquilo, mas era necessário.

– Isso... é algo chocante.

– É, mas eu não vou mais usar o nome dele.

– Acho que é o mais adequado a se fazer, logicamente.

– E tem outra coisa.

– Calma, eu ainda tô absorvendo a primeira informação. – Ele suspirou. – Vai.

– Eu vou parar de escrever o Manual. Quer dizer, eu já parei.

– Por quê?

– Sabe, quando comecei a escrever, minhas pretensões eram outras, na verdade, foram objetivos bastante egoístas que me fizeram começar a escrever, eu só queria ter um lugar pra desabafar, um lugar pra colocar as coisas que me atormentavam, e eu achava que tudo bem se algumas pessoas lessem e se identificassem com aquilo, só que, de repente, as coisas começaram a tomar proporções maiores do que o que eu planejei, isso acabou gerando muitas coisas negativas, o Manual começou a me sufocar. Eu criei meu próprio monstro.

– Isso te abalou muito, não é?

– Sim. De repente, notei que o Manual estava me trazendo mais coisas ruins do que boas, que eu estava me sentindo constantemente frustrado com aquilo e que, se eu não parasse logo, as coisas poderiam tomar proporções que eu não poderia controlar.

– Se não te fazia bem, acho que fez o melhor parando de escrever lá, também não é como se você não pudesse escrever em outros lugares.

– Esse é o problema, me sinto vazio agora que sei que não vou ter mais onde escrever.

– Talvez você só precise de outro foco, Jin.

– Não consigo pensar em nenhum.

– Claro que consegue, pensa em todas as pessoas que você tem ajudado ultimamente, você me ajudou muito, sinto que foi por causa de você e de outras pessoas que consegui me tornar alguém um pouquinho melhor. Então escreva algo que possa ajudar os outros, Jin.

– Não sei como fazer isso.

– Faça o mesmo que você fez comigo, faça as pessoas perceberem o quão hipócritas e mesquinhas elas são, mas que isso não é o fim do mundo, que só reconhecer tudo isso já é um grande passo pra tentar se tornar alguém melhor e que, mesmo que você não possa tornar o mundo inteiro num lugar melhor, você pode tornar o mundo de alguém melhor.

– Quando foi que você ficou tão inteligente assim, Yoongi?

– Quando virei seu amigo. – Um sorriso sincero surgiu lentamente em seu rosto.

– Então... eu deveria escrever um Manual de como não se suicidar agora? – Ri da minha própria frustração.

– Sim, diga aos outros que eles devem sobreviver.

– Tudo bem. – Suspirei, ligando o carro novamente. – Yoongi, você precisa sobreviver.

– Vou tentar.

E ele realmente tentou, eu juro que Min Yoongi tentou.

 

Quando voltamos pra casa, meus pais, Hoseok, Jimin e Namjoon estavam cuidando da bagunça que ficou.

“Cadê o Jungkook e o Taehyung?”

“Os pais do Jungkook vieram buscar ele, Taehyung teve que voltar logo, ele fugiu de casa pra vir, o Taesun que estava cobrindo ele.”

“Essas fugas de vocês ainda podem acabar muito mal, hein?”

“Já acabou.”

Hoseok riu e eu bati em seu ombro, rindo junto. Depois de tudo arrumado, lembrei de devolver a chave do carro à minha mãe. Me aproximei da janela, observando a casa do meu pai, as luzes estavam apagadas, talvez ele fosse chegar mais tarde hoje.

– Você quer ir lá? – Senti Namjoon me observar de longe, ele parecia apreensivo.

– Não, vamos pra sua casa, antes que fique muito tarde. – Sorri, tentando afastar qualquer tipo de pensamento ruim que eu pudesse ter.

– Tudo bem. – Ele procurou a chave do carro em seus bolsos. – Yoongi, Jimin, vamos.

– Vocês já vão? – Perguntou Hyerin. – Tenha cuidado com o Jinnie.

– Tudo bem. Boa noite, ajumma, ajusshi. – Namjoon deu um abraço em cada um deles, fiquei feliz que eles se dessem bem.

“Até mais, Hoseok, obrigado por tudo.”

“Boa noite, Namjoon hyung, lembre-se de elogiar muito o Jin hyung, é aniversário dele.”

– O que ele disse? – Ri da expressão confusa de Namjoon.

– Que você tem que me elogiar muito.

– Desculpe, eu juro que vou me empenhar mais em aprender libras.

– Eu realmente espero que faça isso mesmo.

Namjoon abraçou Hoseok, Jimin fez o mesmo, eu também. Então saímos e entramos no carro.

– Jimin, lembre-se de ficar longe do quarto do Namjoon essa noite. – Yoongi não tem controle próprio.

– Vai começar. – Revirei os olhos.

– Eu sempre fico longe do quarto dele mesmo.

– Não responde o Yoongi, Jimin, vamos fingir que ele é só uma mosca.

– Se eu fosse uma mosca, também não te deixaria em paz.

– Eu sei disso.

– Namjoon, sabia que o Jin deu em cima de mim, enquanto voltávamos da casa do Changkyun?

– O quê?! – Eu estava rindo com aquilo, mas a expressão de surpresa de Namjoon acabou chamando minha atenção. – Como assim?

Todos ficamos em silêncio, aquilo era realmente algo surpreendente, acho que nenhum de nós conhecia aquele lado do Namjoon, talvez também porque eu fosse seu primeiro namorado. Porém, acima de tudo, achei aquilo verdadeiramente decepcionante.

– Você sabe que ele só tá brincando, né?

– Uma brincadeira totalmente sem graça. – Suspirei profundamente com suas palavras.

– Ok, Namjoon.

Eu não queria discutir na frente do primo e do melhor amigo dele, mas aquela atitude não saía da minha cabeça. Era o nosso primeiro relacionamento, mas não éramos mais adolescentes, Namjoon já tinha idade suficiente pra saber o que era certo ou errado, ou era o que eu queria acreditar.

Deixamos Yoongi em casa, depois Namjoon estacionou e nós entramos em sua mansão, vulgo casa. Mesmo tendo falado sobre outras coisas durante o caminho, eu ainda me sentia incomodado com a atitude do Namjoon.

– Feliz aniversário, hyung. – Jimin me abraçou novamente, antes de começar a caminhar até seu quarto. – Boa noite, hyungs.

– Boa noite, Jimin.

– Boa noite. – Namjoon parecia animado, como se estivesse tudo dentro dos conformes. – Jin.

– Sim.

– Vem cá! – Ele segurou minha mão e me levou até seu quarto, trancando a porta em seguida, mas eu não conseguia esconder minha expressão séria. – Você...

– Sim.

– Tudo bem com você? Por que tá com essa cara? É seu aniversário.

– Talvez pela cena constrangedora que você nos fez passar no carro.

– Como assim?

– Você sabe do que eu tô falando, não se finja de lerdo.

– Não foi culpa minha, foi culpa do Yoongi.

– Namjoon! – Eu estava perplexo com a tamanha infantilidade dele.

– Jin, às vezes, você também exagera, não é como se você precisasse ficar abraçando e beijando todo mundo, o tempo todo.

– Não acredito que estou ouvindo isso. – Eram as minhas mais sinceras palavras. – São os meus amigos.

– Eles podem interpretar isso da forma errada.

– Namjoon. São. Os. Nossos. Amigos!

– O Taehyung já gostou de você, quem garante que ele pode não gostar ainda?

– Você tem noção do que tá falando?! Ele é o namorado do meu irmão!

– Ok, desculpe. Eu posso estar sendo idiota pensando nessas coisas, mas é meio que inevitável, porque eu gosto de você, hyung.

– Não, isso não tem nada a ver com gostar, ciúmes não é sinônimo de amor, é sinônimo de possessão, e você sabe que não somos donos um do outro.

– Eu não disse que era seu dono. – Ele suspirou profundamente, evitando me encarar.

– Então qual o propósito desse comportamento infantil, Namjoon? Olha, nós não somos mais adolescentes, temos 20 e 21 anos, se você acha mesmo que eu vou romantizar os seus ciúmes e achar uma coisa fofa, eu não vou, sinto muito.

– Jin, não faça parecer que eu tenho um ciúme doentio de você, por favor.

– Não importa se não é totalmente doentio, ciúme não é algo saudável pra ninguém, pode começar como uma coisa pequena, que você acha fofo, que você acha que significa que o outro te ama muito e quer demonstrar isso, mas depois isso toma proporções maiores e sai totalmente do controle.

– É, você tem razão.

– Não é esse tipo de relacionamento que eu quero, não importa se eu vou abraçar o Yoongi ou dar um beijo na bochecha do Jungkook, eles são meus amigos, eles são seus amigos. Se um dia eu quiser te trair, não é o seu ciúme que vai me impedir de fazer isso, e se você confia em mim, também não precisa fazer toda aquela cena só com uma brincadeira do seu melhor amigo.

– É. Me desculpe. – Namjoon sentou em sua cama, passando as mãos por seus cabelos.

– Só tente não fazer isso de novo, por favor.

– Tudo bem. Desculpe ter estragado as coisas, não era minha intenção.

Observei seu nervosismo por algum tempo, não sei se acabei pegando pesado demais, mas, às vezes, é melhor ser o mais realista possível o quanto antes, talvez assim eu tivesse evitado outras coisas piores. De qualquer forma, ver seu jeito desanimado apertava meu coração.

– Ei. – Me aproximei, sentando ao seu lado. – Tá tudo bem, tá? Desculpa se eu pareci muito grosso.

– Não, tudo bem, você tem razão.

– Mas não tava nos meus planos que você ficasse assim. – Acariciei seu cabelo, vendo um pequeno sorriso surgir em seu rosto. – Quer que eu conte uma piada?

– Jin...

– Tá bom, tá bom. Me diz, por que a aranha é o ser mais carente do universo?

– Jin... – Ele já estava rindo, antes mesmo da conclusão, que sem graça.

– Responde, responde!

– Eu não sei.

– Porque ela é um aracneedyou. – Comecei a rir sozinho. – Arac need you... need you, entendeu? Pô, você não entendeu?

– Eu entendi. – Namjoon sorriu. – Então eu sou uma aranha agora, sou o ser mais carente do universo.

– Nossa, você consegue ser pior do que eu nas piadas. – Aproximei nossos rostos, lhe dando um beijo rápido, mas ele me puxou novamente, prolongando o toque dos nossos lábios.

Lentamente, Namjoon deitou na cama, me puxando junto com ele, enquanto continuávamos a nos beijar e eu o sentia acariciar os cabelos da minha nuca. Nossos corpos estavam muito próximos, qualquer movimento mínimo nos fazia tocar por completo o corpo um do outro. Suas mãos saíram do meu cabelo, apertando minhas costas, depois sendo enfiadas por debaixo da minha camisa, ao saírem de lá, elas foram direto até minha bunda, apertando-a de leve.

– Espero que meu presente seja o que eu estou pensando que é. – Depois de dizer aquilo, mordi seus lábios, sentindo ele apertar minha bunda com força dessa vez.

– Talvez isso não estivesse nos meus planos, mas hoje é seu aniversário, então seu desejo é uma ordem.

– Não minta pra mim, Namjoon, tava nos seus planos, sim, não se faça de sonso.

– Tá, tava nos meus planos. – Namjoon riu e voltou a me beijar.

Interrompendo nosso beijo, me sentei em seu colo pra que eu conseguisse tirar minha camisa, sentindo suas mãos acariciarem meu peito e minha barriga. Puxei sua camisa, Namjoon respirou profundamente e mordeu seus lábios, enquanto eu levantava e tirava minha calça e minha cueca, depois fiz o mesmo com ele. Com nossos corpos próximos novamente, mas dessa vez sem roupa, nos permitimos tocar um ao outro.

Senti as mãos de Namjoon me apertarem, enquanto eu me concentrava em seu pescoço, ouvindo os suspiros baixos que ele deixava escapar. Levantei meu rosto, voltando a lhe beijar, depois beijei seu peito e sua barriga, ele voltou a acariciar meu cabelo, apertando-os de leve, conforme meus lábios desciam por seu corpo. Namjoon soltou um gemido demorado, quando coloquei seu membro em minha boca.

Depois de algum tempo, voltei a beijá-lo, sentindo seu membro pulsar embaixo de mim. Afastei nossos rostos e sorri, então me deitei ao seu lado, lhe puxando pra cima de mim, Namjoon me olhou com um pouco de confusão.

– Dessa vez, o hyung deixa com você, boa sorte, seja gentil.

– O quê? – Ele parecia nervoso agora. – Isso não tava nos meus planos.

– Vai dizer que nunca se imaginou fazendo isso?

– Claro que já imaginei, mas na prática é diferente.

Ri, puxando seu rosto e lhe dando um beijo demorado. Afastei nossos lábios, mas nossos rostos continuavam extremamente próximos, então eu sussurrei pra ele.

– Tem razão, na prática é melhor.

Namjoon suspirou, beijando meu pescoço e mordendo minha orelha, por alguns segundos, olhei pro seu pescoço, notando as marcas que eu havia deixado ali, estavam começando a aparecer.

– Ah, desculpe, acho que deixei algumas marcas no seu pescoço.

– Tudo bem, agora tenho um motivo pra me vingar de você e fazer o mesmo.

Sorri, antes de sentir Namjoon morder meus lábios. Enquanto sua boca tocava todo o restante do meu corpo, se demorando nos meus pontos sensíveis, eu fechava os olhos e abria minha boca, tentando facilitar minha respiração cada vez mais agitada, conforme eu sentia sua língua tocar em meu membro.

Ele ergueu seu corpo, voltando até meu pescoço, toquei sua pele, descendo minha mão e começando a masturbá-lo, enquanto eu acelerava meus movimentos, Namjoon mordia meu pescoço com ainda mais vontade. Voltamos a nos beijar, havia tanto desejo nos nossos beijos que respirar parecia uma tarefa quase impossível. Nossos corpos se encostavam, nossos membros pulsavam colados um ao outro.

– Espera. – Namjoon levantou da cama e eu supus que ele estava indo buscar um lubrificante. Quando voltou e me beijou, seu nervosismo era evidente demais. – Eu...

– Tá tudo bem, Nam. Só relaxa e vai.

– Vou tentar.

Quando Namjoon colocou o primeiro dedo em mim, depois de usar o lubrificante, eu pensei que “ok, não é tão ruim quanto eu imaginei”, quando ele colocou o segundo, esse pensamento já mudou pra “ah, entendi, é aqui que as coisas começam a complicar”, no terceiro eu já tava tipo “mas que caralho pra doer é esse?”.

E aqui eu censuro minha narração, porque as próximas cenas foram apenas de dor, sofrimento e lágrimas, literalmente. E não tem essa parada de meteu e já veio o prazer, isso dói pra porra, mano, cê é louco?! Parece que tem algo te rasgando por dentro, doeu tanto que eu achei que era a vida que tava me fodendo. Isso porque o pirilau do Nam nem é isso tudo de grande, hein, imagina se fosse.

Pois é, menines, minha dica de hoje é: pensem bem antes de darem o boga, dói muito.

 

Quando saí do banheiro e me joguei na cama do Namjoon, já passava um pouco da meia-noite, então eu suspirei. Ele pegou uma roupa e jogou na minha direção, vesti com preguiça, afinal, ainda estava tentando me recuperar da minha dor corporal, depois ele se vestiu e sentou ao meu lado.

– Desculpe, acabou ficando tarde demais, acho que seu pai vai brigar com você, então é melhor irmos...

– Eu não vou pra casa. – Respondi com convicção, me deitando novamente em sua cama.

– Como assim?

– Eu não vou, Namjoon, simples assim.

– E o seu pai?

– Que se dane. É meu aniversário, não é? – Eu só não queria ir pra casa e pronto, não queria estragar um dos melhores dias da minha vida, assim como também não queria ficar falando dele.

– Sim, com certeza! – Namjoon deitou ao meu lado, me puxando pra perto e beijando minha bochecha. – Que bom que vai dormir comigo, então.

– Espero que você não ronque.

– Jiwoo disse que eu falo enquanto durmo. – Ele falou com uma tremenda naturalidade, mas depois se retraiu. – Desculpe.

– Tudo bem. Vamos ver se você me conta seus podres enquanto dorme.

– Ah! – Namjoon pareceu lembrar de algo, então ele levantou rapidamente, indo até sua estante e voltando com algo. – Eu quase esqueci do seu presente, hyung.

– Pensei que já tivesse ganhado meu presente.

– Tem outro. – Ele estava sentado ao meu lado, então decidi fazer o mesmo, apesar de estar me sentindo extremamente exausto. – Eu espero que goste.

– É uma coisa cara? Se for, eu vou gostar.

– Jin! – Namjoon riu, me entregando o presente.

Antes de abrir, hesitei, pensando em como eu havia acabado vindo parar aqui, ganhando um presente dele, acho que a vida é mesmo uma caixinha de surpresas. Então, finalmente, eu abri, observando os dois moletons que estavam ali. Eram iguais, rosa claro e com a frase “same love”, escrita em letras brancas. Um sorriso involuntário escapou de mim.

– Os dois são pra mim?

– Sem graça! – Ele bateu de leve no meu ombro. – Você gostou?

– É claro que eu gostei, Nam. Qual dos dois é o meu?

– Tem o mesmo tamanho.

– Então tudo bem. Onde você comprou isso?

– Ah, eu encomendei.

– Você que escolheu a cor?

– Sim, é a sua favorita.

– Sim. – Sorri. – E a frase?

– Também fui eu que escolhi.

– Por que escolheu ela?

– Bem, ela já fala por si só, não é? Nosso amor é como o de qualquer outra pessoa, independentemente do nosso gênero, e acho que o amor que sinto por você é o mesmo que você sente por mim. Também é o nome de uma música que eu gosto muito.

– Você... – Encarei seu rosto, eu não sabia o que dizer. Na verdade, eu estava com vontade de chorar.

– Sabe, Jin, eu só queria poder te ajudar mais, você tá sempre rindo e fazendo piada, enquanto tenta ajudar todo mundo, mas eu sei que você não tá bem, só não quer demonstrar isso. Todas as noites, eu tenho medo que você vá dormir chorando e eu nunca nem fique sabendo disso, eu não queria que tivesse bons momentos só quando está comigo, queria que você estivesse sempre feliz, sempre sorrindo de verdade. Você é uma pessoa incrível e nem tem noção disso, você merece todas as coisas boas do mundo, e eu vou te dar todas que eu puder. – Namjoon me encarou, mas eu continuava sem saber o que dizer. – Hoseok e Jimin que me ajudaram a escolher isso, eles disseram que uma roupa de casal seria legal e... Me desculpe... se você não gostou, eu posso...

Suspirei profundamente, antes de abraçá-lo com força, enfiando meu rosto em seu ombro, porque eu não queria que ele me visse chorar, porque eu não sabia o que dizer, não sabia como agradecer por ele ter feito com que eu me sentisse menos só e triste. Namjoon me deu um momento especial do qual eu não poderia esquecer.

E, entre tantos outros, aquele era mais um motivo pra que eu o amasse. E eu o amava. Eu realmente o amava.

– Desculpe, eu acabei te fazendo chorar.

– Seu idiota, agora eu tô sensível. – Minha voz saiu tão abafada e embargada que nem dava pra entender o que eu falava.

– O quê? O que disse?

– Que eu te amo. – Levantei meu rosto, apertando as bochechas dele e lhe beijando.

– Eu também te amo, Jin, mas não pareceu que foi isso.

– Eu disse que você me deixou sensível.

– Desculpe, era pra você ficar feliz, não pra chorar. – Namjoon segurou meu rosto e enxugou minhas lágrimas com seus polegares.

– Eu tô feliz, tão feliz que não sei como agradecer.

– Se você me der um sorriso, eu já vou considerar como o melhor agradecimento do mundo. – Soltei um imenso sorriso bobo, involuntariamente. – Isso, assim mesmo.

– Obrigado, Nam.

– Você gostou?

– É claro que eu gostei, eu amei, e eu tô falando muito sério.

– Isso me deixa feliz, hyung. – Namjoon pegou o moletom e o enfiou pela minha cabeça, ri enquanto ele me dava um beijo na minha testa. – Feliz aniversário, Jin.

– Obrigado. – Peguei o outro moletom e fiz o mesmo, enfiando-o em sua cabeça, então lhe dei um novo beijo estalado. – Obrigado por tudo, Nam, de verdade, muito, muito obrigado.

– Que bom que consegui te deixar feliz.

– Você sempre consegue. – Terminamos de vestir os moletons, então sorrimos juntos.

– Roupa de casal, hyung.

– Sim. – Me aproximei, abraçando-o com força, fazendo com que nos deitássemos e eu encostasse minha cabeça em seu ombro. – Eu te amo, Nam.

– Também te amo, hyung.

– Quando vai parar de me chamar de hyung?

– Nunca, hyung. – Dei um beijo em seu pescoço, enquanto ria baixinho. – Agora você precisa dormir, deve estar cansado.

– É, eu tô.

– Desculpe te cansar.

– Tudo bem, espero que me canse muitas outras vezes.

– Jin! – Sua risada agradável preencheu meus ouvidos.

– É muito macio, você deve ter gastado muito nisso.

– Não se preocupa, eu tava juntando meu dinheiro pra isso fazia um tempo.

– E quem disse que eu tô preocupado? Eu tô é feliz, primeira vez na vida que vou usar algo caro.

– Seu materialista.

– Ei, cuidado como fala comigo, é meu aniversário.

– Já passou da meia-noite, não é mais.

– Eu não dormi ainda, o dia só acaba depois que eu durmo.

– Boa lógica. – Rimos mais uma vez, então tudo ficou em silêncio, somente nossas respirações calmas podiam ser ouvidas.

– Namjoon...

– Sim, amor.

– Não espere que eu te dê nada caro no seu aniversário, eu sou pobre, viu?

– Jin! – Ele riu, me abraçando apertado. – Eu não tô esperando isso.

– Mesmo que se esperasse. – Novamente, tudo ficou em silêncio, ele estava começando a adormecer. – Namjoon...

– Hmm... – Ele mal conseguia abrir os olhos.

– Aracneedyou... need you... – Namjoon sorriu, se aconchegando mais junto a mim.

– Boa noite, hyung. – Então, ele acabou adormecendo de vez.

– Boa noite, Nam. – Encarei seu rosto, Namjoon era fofinho dormindo, senti vontade de beijá-lo, mas fiquei com medo de acabar acordando ele. – Eu gostaria que todas as noites fossem assim.

Abracei Namjoon, aproximando meu rosto do seu pescoço, sentindo seu cheirinho agradável.

– Eu também, hyung.

 

Quando acordei e notei Namjoon colocando nosso café da manhã ao lado da cama, eu sabia que aquilo não era meramente por causa de um sentimento romântico.

– Bom dia, hyung.

– Bom dia. Evitando que seus pais me vejam? – Soltei um riso forçado.

– Desculpe por isso.

– Não precisa se desculpar, não é como se eu estivesse te culpando por isso. Se fosse na minha casa, eu faria o mesmo.

– Isso é realmente triste.

– É suportável.

– Acha que algum dia as coisas vão mudar? – Notei a seriedade em sua voz.

– Como assim?

– Não sei, depois que eu me formar, posso sair de casa, alugar algum lugar pra viver, se você... por acaso... quisesse, quem sabe, de repente...

– Vamos comer! – Disse, pegando um pão e colocando quase inteiro na boca.

– Jin!

– Namjoon, eu não gosto de fazer planos. Fazer planos é a forma mais potente que satanás achou de destruir nossas vidas, você faz e estraga tudo que já estava predestinado a dar certo. Eu nem sei se vou tá vivo amanhã.

– Entendi.

– Não me leve a mal, eu te amo, de verdade, mas se as coisas tiverem que dar certo, elas vão dar, independentemente dos nossos planos.

– Tudo bem.

– Desculpe, eu não queria te deixar triste.

– Sem problemas, você tem razão.

– Você sempre diz que eu tenho razão, me sinto um opressor, se tem algo que não gosta em mim, pode dizer, eu sei que não sou perfeito.

– Pare de perder a paciência comigo tão facilmente, por favor. – Naquele momento, eu pude notar uma pontada de mágoa em sua voz, e aquilo realmente mexeu comigo.

– Desculpe, Nam. Eu realmente fui rude com você, muitas vezes. Não era minha intenção, eu vou tentar mudar isso.

– Tá...

– E não me diga que tá tudo bem. Tem mais alguma coisa que queira falar? O momento é agora, pode falar tudo de ruim que quiser sobre mim.

– Ok. – Namjoon suspirou. – Você ronca enquanto dorme.

– O quê?! Que absurdo! Isso é mentira!

– Claro que não!

– Você também ronca!

– Eu não, você que... – Nossa conversa foi interrompida por batidas na porta, Namjoon estremeceu. – Quem é?

– Sou eu, Namjoon. – Ao ouvir aquela voz, foi minha vez de estremecer.

– Ah. – Ele me encarou, como se tivesse acabado de lembrar de algo. – Ela quer conversar com você, disse que era rápido.

– O quê? – Eu não sabia se queria aquilo.

– Eu não quero me meter nisso, vou respeitar totalmente a sua decisão.

Suspirei profundamente, arrumando minha postura, enquanto pensava no que deveria fazer. Apesar de tudo que havia acontecido, eu não sentia raiva ou ódio de Jiwoo, não mais, e eu falo isso de verdade, mas era óbvio que eu guardava uma mágoa e tristeza sem fim. Porém, algo em mim – aquela parte que você não conhece bem, que sempre te contradiz naquilo que você achou que jamais faria – me dizia que estava tudo bem ouvir o que ela tinha a dizer.

– Tudo bem, pode deixar ela entrar.

– Eu vou esperar lá fora, você se incomoda? – Sim, eu me incomodava, eu não queria ficar sozinho com ela, mas não era justo continuar metendo Namjoon nessa história.

– Tudo bem.

Namjoon levantou e saiu, fechando a porta, levou alguns minutos até que ela fosse aberta novamente, mostrando uma mulher um tanto tímida, que caminhou meio sem jeito até perto da cama, então sentou ao meu lado. Ela estava escondendo algo em suas costas.

– Feliz aniversário, Jin.

– Obrigado. – Eu não conseguia encará-la.

– Eu... comprei algo pra você, não sei se vai gostar. – Não disse nada, apenas esperei que ela continuasse. – Sua cor favorita ainda é rosa, não é mesmo?

Um tanto acuada, Jiwoo ergueu um ursinho rosa em minha direção, que automaticamente me trouxe um forte sentimento de nostalgia.

– Ele... é igual ao que eu ganhei com...

– Sete anos. Fui eu que comprei aquele pra você também, pedi ao Sunwoo que te entregasse.

– Ele me disse que tinha sido o papai Noel que tinha me dado antecipado. – Lembrei daquele momento, mesmo que eu fosse só uma criança.

– Desculpe por não ser o papai Noel.

– É, assim como o papai Noel, por muitos anos, eu achei que você não existisse mais. – Me arrependi das minhas palavras assim que elas saíram da minha boca, falar sobre os meus sentimentos com Jiwoo, abriria uma ponte entre nós que eu não sabia se estava disposto a atravessar.

– Desculpe. Eu sei que presentes nunca vão poder pagar tudo que eu fiz.

– É.

– Você pode aceitá-lo? – Apertei o ursinho, ele tinha um sorriso fofo, quando era criança, eu costumava apertar o nariz do antigo ursinho, naquele momento senti que já era velho demais pra fazer aquilo.

– Sim. – Respondi de forma fria, como se eu estivesse extremamente longe dali, talvez estivesse mesmo, talvez eu estivesse atrás da minha barreira de proteção, tentando me esconder das possíveis mágoas do futuro.

– Que bom, eu fico feliz. – Ela sorriu, era o mesmo sorriso de quando eu a ajudava a cozinhar, ou de quando eu acertava um chute na bola e corria pra ela, ou de quando ela se escondia pela casa e eu a encontrava.

Era o sorriso da minha mãe.

Por que eu nunca consegui esquecê-lo, mesmo com todos esses anos e com tudo que ela, de certa forma, me fez passar?

Talvez eu fosse mais sentimental do que imaginava.

– Feliz aniversário, fi... Jin.

– Obrigado, Jiwoo. – Olhei bem nos olhos dela, por uma fração de segundos, mas foi o suficiente pra que eu sentisse vontade de abraçá-la.

Mas eu não iria fazer aquilo.

– Eu preciso ir agora. – Levantei, agarrando o ursinho e indo até a porta.

– Tudo bem. Até mais, Jin.

– Tchau, Jiwoo.

 

Quando cheguei na casa do meu pai, faltava pouco pras nove da manhã, eu sabia que o que me esperava não era o melhor dos cenários. Namjoon estacionou o carro e nós nos despedimos rapidamente, antes de eu me apressar em entrar em casa. Pra minha grande tristeza, meu pai estava em casa, na cozinha. Fiquei imóvel por alguns minutos, abraçando meu ursinho com força, pensando se o chamava ou não, foi então que notei o embrulho em cima da velha poltrona dele.

– E aí, moleque. – Ele se aproximou da porta da sala, enquanto coçava sua barriga e me observava de cima a baixo.

– É pra mim? – Perguntei, apontando pro embrulho.

– Pra quem mais seria? – Ele riu, enquanto eu pegava o presente. – Abre logo, vê se presta em você.

– Tá bom. – Rasguei o embrulho e estiquei a camisa vermelha que era tão feia que eu tinha certeza que jamais usaria na vida, mas, mesmo assim, eu não conseguia parar de sorrir.

– Você gostou?

– Sim, eu gostei. – E eu não estava mentindo por completo, aquilo tinha um valor simbólico muito grande pra mim. Eu esperei uma surra, mas acabei ganhando um presente. Não era todo dia que aquilo acontecia. Me aproximei dele, lhe dando um abraço, ele me apertou forte. – Obrigado, pai.

– De nada. Você merece, Jin. – Aquele sorriso largo e, sobretudo, sóbrio era o maior presente que eu poderia ganhar do meu pai. – Como você cresceu rápido, parece que foi ontem que era só um molequezinho, agora tá maior que eu.

– É porque você é baixinho, pai.

– Me respeita, moleque. – Ele riu, me fazendo rir junto.

– Desculpe ter passado a noite fora.

– Tudo bem, era seu aniversário. Por essas marquinhas no seu pescoço, deu pra notar que aproveitou muito a noite.

– É. – Soltei um riso baixo.

– Ela é bonita?

– Sim.

– Ela é uma garota sortudo.

– É, acho que é. – Eu ainda estava sorrindo, mas então, a próxima pergunta desfez completamente meu sorriso.

– É mesmo uma garota, não é, Jin?

 

[Im Changkyun]

 

Minhyuk nunca foi um garoto muito extrovertido, sempre teve esse seu jeito meio acanhado, não sei se era algo natural dele já, mas eu tinha certeza que a vida que nós levávamos influenciou muito nisso. Meu irmão tinha medo do mundo, e com razão. Eu queria que ele saísse mais de casa, que tivesse outros amigos além de mim, que se divertisse como qualquer outra pessoa, mas até mesmo eu não tinha tanto amigos, nem saía tanto assim.

Ao ver ele tentar conversar com Yoongi, mesmo com seu jeito acanhado, eu ficava realmente feliz. E eu não podia negar também que ver o Min se esforçando pra aprender libras era algo que eu não achava que pudesse presenciar, ele havia mudado, desde que nos conhecemos, e isso era evidente demais.

Enquanto comíamos, na mesma lanchonete que Yoongi me encontrou fora da universidade pela primeira vez, ele não parava de fazer gracinhas, tentando fazer meu irmão rir. Só o fato dele ser alguém pra quem eu senti que poderia apresentar Minhyuk, já era aliviante demais, porque eu não apresentaria meu irmão pra alguém que eu sabia que traria algum tipo de incômodo.

– Kyunie, leva o Minhyuk hyung na minha casa.

– Pra quê?

– Pra vocês dormirem lá, ora. Vocês já dormiram na casa de um amigo alguma vez?

– Não podemos deixar nossa mãe dormindo sozinha.

– Ah, é verdade.

– Se ele for dormir na sua casa, tem que ser sem mim, e eu não sei se confio tanto assim em você.

– Quando eu vou ser confiável pra você?

– Nunca.

Yoongi revirou os olhos dramaticamente, me fazendo rir. Terminamos de comer, então pedimos a conta, pagamos e saímos da lanchonete. Ficamos na calçada enquanto eu chamava um táxi, Minhyuk estava mexendo em seu celular, então Yoongi se aproximou de mim, encostando seu queixo em meu ombro e falando perto do meu ouvido.

– Você não quer dormir na minha casa hoje?

– Não.

– Mas por quê?

– Preciso levar o Minhyuk pra casa.

– Depois.

– Não sou rico pra tá passeando pela cidade.

– Eu pago pra você voltar.

– Não quero que pague nada pra mim. – Respondi de forma rude, pra que ele não insistisse mais naquilo.

– Tudo bem. – Yoongi deu um sorriso forçado.

Enquanto estávamos no táxi, os três no banco de trás, Yoongi desistiu de tentar se comunicar com meu irmão, afinal, estava escuro demais ali atrás. Primeiro, nós pararíamos na casa dele, que era logicamente mais perto do que a minha e de Minhyuk. Então, em algum ponto perto da casa dele, eu senti minha mão ser lentamente apertada.

Bem, eu estaria mentindo se dissesse que aquilo não tinha me espantado um pouco. Automaticamente, olhei pro Yoongi, mas ele não me olhou de volta, apenas manteve seu olhar fixo na janela do carro, então eu soube que ele não queria dizer nada, ele apenas queria segurar minha mão.

Quando paramos em frente à sua casa, Yoongi pagou sua parte da viagem, então ele esticou sua mão, batendo-a na do meu irmão.

– Até mais, Kyunie. – Ele sorriu meio sem jeito, se apressando em sair do carro.

– Yoongi. – Puxei sua camisa e lhe beijei rapidamente, me certificando de que o motorista não estava nos vendo. – Até mais.

Yoongi sorriu, depois suspirou, colocando suas mãos no bolso e fazendo um aceno de cabeça pra se despedir de mim e do meu irmão.

– Pode ir. – Eu disse ao motorista, enquanto sentia uma sensação verdadeiramente estranha dentro de mim.

Enquanto caminhávamos até minha casa, porque certamente nenhum motorista iria querer entrar na nossa rua, Minhyuk tentava se comunicar comigo, mas eu não queria conversa com ninguém, eu estava sentindo algo que não sabia explicar, isso estava fazendo com que eu realmente sentisse muita raiva de mim mesmo.

Entramos em casa e eu fui direto pro nosso quarto, me apressando em me jogar na nossa velha beliche, apertando meu rosto contra o travesseiro.

– Chang? – Ouvi a voz da minha mãe e levantei meu rosto, ela me observava da porta do quarto.

– Sim.

– Você tá bem?

– Tô. – Ela me observou por algum tempo, sem dizer nada, ela sabia que eu estava mentindo.

– Ok. Obrigada por levar seu irmão pra sair.

– Não precisa agradecer por isso, não é como se eu estivesse fazendo um favor, mãe.

– Mesmo assim, obrigada. – Minha mãe se aproximou, gesticulando algo pro meu irmão, antes de dar um beijo em sua testa. – Vão dormir, já está tarde.

– Não somos mais adolescentes. – Respondi, enquanto me virava, na parte debaixo do beliche.

– Não quero saber. – Ri com seu jeito durão de sempre, ela fez o mesmo. – Você é um bom garoto, Changkyun.

– Obrigado, mãe.

Naquela noite, eu me apressei em dormir, porque não parecia valer a pena perder meu tempo pensando em coisas que pareciam confusas demais na minha cabeça. Continuar negando o óbvio parecia mais seguro.

 

[Min Yoongi]

 

Eu nunca gostei muito de ficar na minha casa, deve ser por isso que eu vivia saindo ou vivia na casa dos outros (leia-se casa do Namjoon). No geral, aquele lugar quase sempre estava vazio, já que meu pai não morava com a gente, desde que minha mãe mandou ele ir embora; minha mãe trabalhava sete dias por semana, 24 horas por dia; Yoora estudava em um colégio interno feminino, provavelmente pra não ter que conviver com a minha família, eu entendo ela.

Naquele dia, eu não saí de casa, primeiro porque eu estava me sentindo meio pra baixo, nem sei bem o motivo, mas eu sabia que tinha algo a ver com Changkyun... ou com a forma que ele continuava me evitando e tentando se esconder de mim. Segundo porque eu também não estava me sentindo bem fisicamente, mas não acreditei que fosse nada demais.

Tomei os meus remédios diários, como sempre fazia, e voltei pra cama, avisei ao Namjoon que não iria pra primeira aula, porque eu queria dormir mais, ele não estranhou, aquele tipo de coisa era frequente. Ele achou que eu apareceria nas outras aulas, eu também achei, mas as coisas começaram a sair do meu controle.

Eu não conseguia nem mesmo dormir, e já eram dez da manhã, minha respiração estava mais acelerada que o normal, meu corpo parecia prestes a congelar de tanto frio. Notei que as coisas não estavam mesmo normais quando comecei com uma tosse sem fim.

Na verdade, eu costumava adoecer com frequência, já que eu tinha a imunidade baixa, aquilo era um problema pra quem não tinha uma família muito presente, com exceção do meu pai, claro, mas agora ele estava viajando. Claro que, se eu ligasse, ele viria correndo sabe se lá de onde pra me ajudar, mas eu não queria atrapalhar, não devia ser nada demais.

Ligar pra Yoora não era nem de longe uma opção, porque (1) ela não poderia sair do colégio sem uma autorização dos meus pais, e (2) minha irmã não dava a mínima pra mim. Liguei pra minha mãe, várias e várias vezes, claro que ela não deu o mínimo sinal de vida, devia estar ocupada demais, como sempre.

Em casos como esses, havia se tornado comum que eu ligasse pro Namjoon, ele sempre me ajudava, mas agora eu senti que era diferente, porque ele sabia que eu era soropositivo, e como um estudante de medicina, ele poderia facilmente ligar uma coisa à outra, apesar dele sempre ter dito que eu tinha uma saúde muito fraca, antes mesmo de entrarmos na faculdade.

 Bem, não era como se eu tivesse muitas outras opções, então apenas dei o braço a torcer e liguei pro meu melhor amigo. Agora já eram quase onze da manhã, Namjoon devia estar perto de sair da última aula da manhã, era uma boa hora pra ligar. O celular não chamou muitas vezes, antes que ele atendesse.

– Nam?

– Sim, quer que eu vá te buscar pras aulas da tarde?

– Quero que venha me buscar, mas não pra aula.

– Aonde vamos, então?

– Hospital.

– Aconteceu alguma coisa? Você se machucou ou...

– Eu tô doente, isso não é nenhuma novidade, você sabe disso.

– Ah, meu Deus! Eu já tô indo.

– Namjoon, vê se para, tá bom? Não é a primeira vez que isso acontece, não é como se eu fosse morrer, então faça-me o favor.

– Sim, mas você tem... – Ele se interrompeu.

– Viu? É por isso que eu nunca te contei que tenho HIV. Agora cala boca e vem logo. – Desliguei o celular, antes que ele viesse com mais um dos papos dele.

Deve ter demorado uns vinte minutos até que ele chegasse e entrasse correndo na minha casa, me pegando deitado no sofá, da forma mais encolhida possível, Jin estava com ele.

– O que você tá sentindo? – Perguntou ele, enquanto me ajudava a levantar, meu corpo estava realmente fraco, minhas pernas pareciam tremer.

– Sei lá.

– Yoongi! Me diz logo.

– Vai se foder! Você não tem um diploma de médico ainda!

– Eu tô tentando te ajudar!

– Meu Deus do céu! – Seokjin afastou Namjoon, passando a mão por debaixo do meu braço e me levando mais rapidamente até o carro. – Vamos logo com isso, tá bom?

Deitei no banco de trás, com a ajuda dele, os dois sentaram no banco da frente, enquanto discutiam alguma coisa, Namjoon parecia mais nervoso do que das outras vezes e aquilo realmente estava me deixando estressado. Tentei sentar, porque eu iria apagar se continuasse deitado.

– Fica deitado, droga! – Havia um tom autoritário na voz do Namjoon.

– Não. Vê se abaixa esse teu fogo aí, caralho, eu não tô morrendo.

– Não importa, você precisa tomar mais cuidado com a sua saúde, Yoongi!

– Olha como você tá sendo... – Dei uma pausa pra tossir. – Idiota! Não é a primeira vez que isso acontece, eu já fiquei assim muitas vezes antes, e você que me levou pro hospital em quase todas elas.

– É diferente agora! Antes eu achava que você só tinha uma saúde frágil! – Ele estava suando, se não estivesse me sentindo tão fraco, eu daria um soco na boca dele.

– Namjoon, eu tenho HIV, não um atestado de óbito!

– O quê? – Jin me encarou, seus olhos estavam arregalados, eu tinha esquecido totalmente da presença dele ali. Eu não conseguia nem dizer mais nada.

– Não vamos falar disso agora. – Namjoon quem quebrou a tensão.

– Não, tudo bem, eu confio no Jin. – Encarei o mais velho de nós três. – É isso que eu disse mesmo, mas eu tô bem.

Logo depois de dizer isso, eu tive um novo acesso de tosse, então senti Namjoon acelerar o carro, enquanto eu me rendia e deitava no banco de trás.

Tenho vagas lembranças de chegar no hospital e avistar minha mãe e a mãe do Jungkook conversando, enquanto me examinavam e minha mãe me dizia quais os exames que eu faria. Eu estava realmente cansado, então, enquanto elas cuidavam de mim, eu me permiti adormecer um pouquinho.

Não sei que horas eram quando acordei, mas sei que fiquei surpreso com o que vi. Changkyun. Ele estava sentado ao lado da cama, me olhando de forma espantada, sem esboçar nenhum sorriso.

– Geralmente, as pessoas ficam felizes quando as outras estão no hospital e acordam. – Brinquei.

– Eu estou feliz.

– Não parece.

– Não preciso sorrir pra demonstrar minha felicidade.

– Tudo bem, então vou acreditar que você tá feliz.

– Obrigado.

– Você não devia estar no seu trabalho? – Perguntei, depois de olhar pela janela e notar que ainda devia ser tarde.

– O Jin me contou sobre você e disse que me cobriria pelo resto da tarde.

– E por que você veio? – Changkyun me encarou, um tanto perplexo.

– Como assim?

– Mesmo o Jin te cobrindo, você poderia... sei lá... ter ido pra casa.

– Por que eu faria isso?

– Por que você teria um motivo pra vir me ver?

– Ok, eu vou embora. – Ele levantou.

– Ei, ei, ei! Não foi isso que eu quis dizer! Fica aqui!

– Por que eu teria um motivo pra ficar aqui?

– Não vale inverter as posições, Kyunie.

– Ok. – Ele voltou e sentou novamente. – Eu fiquei preocupado, então vim. Como você tá?

– Eu tô legal.

– Sua mãe acha que você tá com pneumonia.

– Ah, mas que inferno!

– Você vai ficar bem. – Olhei pra ele, suas palavras pareceram tão reconfortantes quanto seu olhar.

– Obrigado por vir, Kyunie.

– Não foi nada, Yoon.

Então ele sorriu, um sorriso verdadeiramente doce, que Changkyun não costumava mostrar pra muitos. Talvez eu tivesse começado a amolecer seu coração, finalmente.

 

[Im Changkyun]

 

Desde o aniversário do Jin hyung, eu e Minhyuk já havíamos saído boas vezes seguidas com o Yoongi. Levar meu irmão comigo parecia bem melhor por dois motivos: (1) eu queria mesmo que ele saísse mais de casa e (2) com Minhyuk por perto, eu poderia evitar que eu e Yoongi acabássemos chegando em certos assuntos. Já faz algum tempo, desde que eu tenho evitado sair sozinho com ele.

Geralmente, ele me mandava algum tipo de mensagem, todos os dias, mesmo que fosse só pra falar algum tipo de bobagem. Nos dias em que esteve doente – ele realmente estava com pneumonia –, isso aconteceu com menos frequência, então eu notei como, involuntariamente, acabei sentindo um pouco de falta daquilo.

Se eu tentava manter Yoongi afastado de alguma forma, não era sem motivo. Tudo isso tinha uma explicação, por mais que eu não contasse a ninguém. Talvez eu nem precisasse contar, a explicação parecia óbvia demais.

Min Yoongi era o garotinho rico, mimado, com um melhor amigo também rico, o cara bonitinho que ia em muitas festas, que todo mundo achava legal, que não se esforçava na faculdade, mas que teria um bom futuro mesmo assim. Enfim, ele era a representação de tudo que eu poderia odiar em alguém.

Ou era isso que eu pensava.

 O mundo é um lugar totalmente injusto e isso não é mais novidade pra ninguém. Quando você nasce e cresce sendo pobre, sem pai, sem boas oportunidades, tendo muito mais obrigações do que deveria e se vestindo como o gênero oposto, pode ter certeza, a vida não vai ser tão legal assim com você, e ela não foi comigo.

Quando você está em uma situação socialmente desfavorável, você se torna alvo frequente de ataques de todos os tipos. Com o tempo, eu aprendi a ver todas as pessoas com maus olhos, eu aprendi a não confiar em ninguém, eu aprendi a ser grosso com quem quer que fosse. E isso não foi porque Im Changkyun queria se tornar uma pessoa grosseira, isso foi porque a vida tornou Im Changkyun em uma pessoa grosseira.

Se você é constantemente oprimido, tendo total ciência disso, você vai criar um verdadeiro ódio por toda e qualquer pessoa ou sistema que representem uma forma de opressão pra você. Então não importava se Min Yoongi nunca tinha me feito mal, ele era um cara rico, eu odiava pessoas ricas, porque, pra mim, elas não passavam de um símbolo de opressão.

Eu odiava sistemas heteronormativos, porque eles sempre me oprimiram e não havia nada de bom neles. Eu odiava dia dos pais, porque eu nunca tive um maldito pai. Eu odiava quem conseguia ir mais longe do que eu, se esforçando muito menos, enquanto eu precisava me esforçar mil vezes mais, se quisesse chegar ao mesmo lugar, não porque eu era burro, mas porque eu era socialmente inferior.

Não importava se não era diretamente comigo, automaticamente, eu odiaria todas essas coisas, porque eu estava cansado de ser tão humilhado por tudo e todos.

É extremamente comum que pessoas oprimidas se tornem revoltadas com tudo, porque – adivinhem? – elas não tiveram os mesmos privilégios que outras pessoas, não tiveram as mesmas oportunidades e, certamente, não tiveram as mesmas preocupações.

Aos quatorze anos de idade, minha preocupação era saber se eu chegaria vivo em casa, depois da escola, atravessando um bairro perigoso com meu irmão. Aos quinze anos, eu tinha que pensar numa forma de colocar comida na mesa. Aos dezesseis, eu tinha que cuidar do meu irmão, cuidar do meu futuro e ajudar minha mãe a pagar as contas, enquanto, todas as malditas semanas, o dono da nossa casa vinha nos ameaçar de despejo.

E eu pergunto: quantos de vocês tiveram essas preocupações com a mesma idade? Será que as preocupações de vocês se limitavam a irem bem na escola? A serem correspondidos por quem vocês gostavam? A irem naquela festinha que todo mundo vai? E eu não estou desmerecendo esses problemas, é o normal pra adolescência, então tudo bem, reclamem dos seus problemas de adolescente, é um direito de vocês, eu queria ter reclamado somente disso também, mas eu não pude, e foi aí que minha personalidade foi se moldando.

O que me irrita realmente é a forma como as pessoas me olham, ou a forma como me chamam de grosso, ou como dizem que eu deveria ser mais simpático e sorrir mais, quando essas mesmas pessoas levaram vidas completamente diferentes da minha, quando elas não tiveram motivos suficientes pra se tornarem como eu.

E se vocês tiveram as mesmas preocupações que eu: bem, eu compreendo vocês, então sejam fortes, muito fortes, porque eu sei que não é fácil.

Então eu sei que é errado tratar as pessoas mal sem um motivo direto, eu estou completamente ciente disso, mas, naturalmente, eu criei uma proteção banhada à grosseria, hostilidade, agressividade e descaso, pra que ninguém mais pudesse me fazer mal, porque eu estava perturbadoramente cansado de ser sempre o inferior, o garoto que todos podiam tratar mal.

É realmente chocante que eu tenha tentado tomar o lugar de um opressor, porque, sem nem mesmo notar, eu acho que minha agressividade serve como forma de opressão pra que ninguém mais me oprima, porque eu vou oprimir os outros primeiro. E isso é algo totalmente vazio, não importa que eu diga coisas duras pras pessoas hoje, amanhã e depois elas vão continuar sendo socialmente superiores e tendo mais chances que eu na vida, eu vou continuar sendo deixado pra trás.

Essa proteção natural que criei tem servido pra afastar as pessoas de mim, principalmente na universidade, onde todos são, de alguma forma, superiores a mim. Eu tenho afastado todos, é meio solitário, mas é mais seguro. Eu sei que a verdadeira solução pra isso seria parar de ver todas as pessoas como símbolos de opressão, mas se você não teve a mesma vida que eu, não me peça pra ser legal com todo mundo, porque eu não vou conseguir.

Talvez Yoongi seja a chave pra que eu comece a mudar isso em mim, mas eu não sei, eu ainda tenho muito medo de como isso pode acabar, eu ainda me sinto inferior perto dele. Parece que se tornou inevitável não me comparar aos outros, até mesmo quando fui visitá-lo no hospital, eu pensei sobre como seria se fosse eu no lugar dele, certamente, eu passaria dias apenas esperando uma consulta, enquanto ele já estava sendo medicado e bem cuidado.

Essa também era a explicação pra que em desse tão bem com Jin hyung, porque eu sabia que ele também já havia passado por muitas coisas difíceis, então eu conseguia criar uma boa relação com ele. Eu sabia que ele me entenderia quando eu reclamasse da conta de luz atrasada da minha casa, ele diria que estava passando pelo mesmo, mas Yoongi jamais entenderia isso.

O que era realmente o pior de tudo isso é que, apesar de ter tentado, eu não conseguia odiar Min Yoongi, eu hesitava com as palavras dele, eu pensava demais nele, isso não estava certo, eu precisava afastá-lo, assim como eu fazia com todo mundo que estava fora dos meus padrões de compreensão.

E eu não acredito que todos esses meus pensamentos de agora se desenrolaram a partir de uma simples mensagem, que eu encarava há tempos.

Você pode vir me ver hoje?

Não, Changkyun, você não deve ir, sabe que as coisas vão acabar mal. Enquanto pensava isso, eu já estava enfiando minhas coisas na mochila.

– Mãe, eu vou dormir na casa do Yoongi hoje.

– Tá. – Ela me lançou um olhar desconfiado. – Precisa de dinheiro pro ônibus?

– Não, eu tenho, obrigado.

– Toma cuidado.

– Vou tomar, tchau.

Abri a porta e saí, ainda sentindo o olhar da minha mãe me questionar.

 

– Quem é? – A voz no interfone não era nada amigável, era uma voz feminina, então julguei ser a irmã do Yoongi.

– Um amigo do Yoongi.

– Quero saber seu nome. – Não era porque eu era grosso com as pessoas que eu gostava quando eram iguais comigo.

– Im Changkyun.

Ouvi a ligação ser encerrada, então suspirei profundamente. Essa mimada deve estar achando que eu sou um bandido, na verdade. Como eu odeio gente rica.

– Oi. – Me assustei com o portão sendo aberto repentinamente, quando eu já estava decidido a ir embora. Voltei novamente.

– Olá, Im Changkyun. – Estendi minha mão, mas ela apenas me olhou com descaso.

– Min Yoora. – Ela deu as costas e voltou pra dentro, enquanto eu lhe acompanhava. – O quarto dele...

– Eu sei onde é o quarto dele. – Respondi de forma rude, passando por ela e indo direto ao quarto. – Yoongi, abre essa merda aqui!

De longe, a garota me olhava com espanto, estava parada, talvez esperando pra ver o que aconteceria em seguida. Yoongi abriu a porta, com seu sorriso quadrado.

– Boa noite, meu amor!

Entrei e fechei a porta novamente. Fui até sua cama e me deitei, suspirando mais uma vez.

– Tá tudo bem?

– Não, eu odeio sua irmã.

– Ela é chata mesmo, não ligue pra ela. – Yoongi se deitou ao meu lado, lentamente.

– Como você tá?

– Bem melhor, mas eu tossi tanto nos últimos dias que meu corpo ainda dói.

– Você vai ficar bem logo.

– Obrigado. – Ele me encarou por algum tempo, Yoongi parecia realmente contente com a minha visita e aquilo causava um sentimento estranho em mim, então coloquei minha mão em sua bochecha e lhe dei um beijo rápido. – Obrigado de novo.

– Quando foi que você se tornou essa pessoa tão doce e gentil?

– Talvez quando tomei conta do quão idiota eu tava sendo. Isso foi ruim?

– Não, acho que prefiro você assim.

– Acho que eu também.

– Sua mãe foi trabalhar hoje? – Perguntei, enquanto me levantava e ia até o banheiro dele.

– E quando ela não vai?

– Onde ela enfia tanto dinheiro? – Notei que na casa dele nem mesmo havia alguém contratado pra fazer os serviços domésticos.

– E você acha que eu sei? Deve tá tentando comprar a Coreia.

– Como é viver sem nunca se preocupar com dinheiro? – Se controle, Changkyun, se controle. – Desculpe, não precisa responder isso.

– Desculpe.

– Você tem se sentido muito cansado? – Resolvi mudar de assunto.

– Mais ou menos, eu dormi tanto nesses últimos dias que acho que cansei até de dormir.

– E agora, você tá cansado?

– Não muito, mas não sei se seria bom eu sair.

– E quem disse que a gente ia sair? Existem formas de se cansar sem sair de casa. – Esperei sua resposta, mas ele não disse nada. – Yoongi?

– Sim.

– Você tá vivo?

– O que você quis dizer?

– Vai fingir que não entendeu? – Saí do banheiro e voltei até a cama. Yoongi apenas me encarou, sem dizer nada.

Me deitei ao seu lado, passando minha mão por seu pescoço e lhe puxando pra mais perto. Quando lhe beijei, Yoongi pareceu sair de seu transe, me correspondendo rapidamente, enquanto suas mãos deslizavam pelas minhas costas. Puxei seu corpo pra cima do meu, ele sentou no meu colo, então eu me apressei em puxar a camisa dele. Eu odiava admitir, mas estava com pressa, porque já havia esperado demais por aquilo.

Nos beijamos novamente, enquanto eu puxava seus cabelos levemente, me sentei na cama, ainda com ele em meu colo, senti Yoongi puxar minha camisa fora. Mais uma vez, eu lhe puxei pra perto de mim, abraçando seu corpo magro, encostando minha boca em seus mamilos e sentindo Yoongi suspirar lentamente. Quando minha mão desceu até o cós de sua calça, ele parou por alguns segundos e me encarou.

– Você pode acabar adoecendo, Kyunie.

– Yoongi, você é burro ou se faz? Você é estudante de medicina e seus pais são médicos, você sabe que pneumonia não é contagiosa.

– Você sabe que não é disso que eu tô falando.

– Você sabe que existe camisinha.

– Você nunca quis isso, Changkyun, por que quer agora?

– Porque eu não consigo mais te dizer não. – Falei baixinho, olhando bem em seus olhos, talvez minhas bochechas tivessem tomado um tom mais avermelhado.

Yoongi voltou a me beijar, enquanto eu sentia suas unhas arranharem minhas costas. Talvez eu fosse mesmo alguém fraco, porque eu não conseguia mais negá-lo, eu queria muito Min Yoongi e não podia mais esconder isso.

Eu não posso dizer não.

Está me rasgando.

Em um quarto escuro,

Em lençóis gelados,

Eu não consigo sentir coisa nenhuma.

Joguei seu corpo na cama, beijei seu pescoço, mordi, enquanto ele jogava sua cabeça pra trás e puxava meu cabelo. Minhas mãos percorriam sua cintura, conforme minha boca descia por sua barriga, eu podia ouvi-lo gemer baixinho. Voltei a beijá-lo, enquanto apertava seu membro coberto, Yoongi mordeu meus lábios, apertando minha coxa.

Eu podia sentir seu corpo se mover embaixo de mim, junto com sua respiração acelerada, eu sabia que ele queria aquilo tanto quanto eu. Me apressei em tirar sua calça, depois sua cueca, ele me olhava, mas só até eu tocar em seu membro em minha boca e começar a masturba-lo, então Yoongi voltou a jogar sua cabeça pra trás.

Inclinei meu corpo. Quando coloquei seu membro em minha boca, seu gemido se tornou mais alto.

Eu me perdi entre suas pernas,

O seu remédio está na minha cabeça.

Você sabe que eu prefiro ficar sozinho,

Mas então você me liga no telefone.

Todos os hábitos do meu coração,

Eu não posso dizer não.

Está me rasgando.

Você chega muito perto.

Você torna difícil te deixar ir.

Quando eu lambia sua glande, involuntariamente, suas pernas deslizam pela cama e meus cabelos eram puxados com um pouco mais de força. Voltei a beijá-lo, enquanto continuava a tocar em seu membro, suas mãos deslizavam freneticamente por todo o meu corpo, bagunçando meus cabelos e apertando minhas costas com força.

Yoongi empurrou meu corpo, fazendo com que sentássemos. Ele continuava a me beijar, depois eu pude sentir sua língua e seus dentes em meu pescoço, então fechei meus olhos, aquela sensação era realmente boa, e era a primeira vez que eu a sentia verdadeiramente.

As mãos dele apertavam minha cintura, acariciavam minha barriga, então ele desceu até meu membro. Senti algo revirar dentro de mim. Yoongi abriu minha calça, depois a puxou, minha respiração estava acelerada, e não era pelo motivo certo. Quando ele me tocou por debaixo da cueca, involuntariamente, eu afastei sua mão.

Nos encaramos por algum tempo. Eu estava com vergonha de mim mesmo. O clima havia ficado completamente desconfortável.

– Desculpe. – Foi ele quem falou primeiro.

– Não, eu que... desculpe por isso, eu... – Não tinha nada que eu pudesse dizer.

– Desculpe, nós não... eu não vou fazer nada com você.

– Não foi culpa sua. – Eu não conseguia nem mesmo encará-lo.

Ficamos em silêncio por algum tempo, então ele levantou, pegando suas roupas e vestindo-as apressadamente, depois saiu do quarto. Vesti minha camisa novamente e deitei, tentando não chorar. Já haviam se passado quase quatro anos, por que aquilo ainda me afetava tanto? Será que eu nunca mais conseguiria ser o mesmo de antes.

Depois de alguns minutos, ele entrou novamente no quarto, trazendo comida e água.

– Eu trouxe pra você.

– Obrigado, mas... eu não quero.

– Desculpe. – Ele colocou a comida em sua escrivaninha e se deitou ao meu lado, então ficamos os dois olhando pro teto branco de seu quarto.

Eu não estava me sentindo bem, eu queria ir embora, mas eu não podia, eu sentia que precisava dizer algo a ele.

– Como ele te tratava? – Perguntei.

– Quem?

– O cara... o que ficava com você.

– Ah... bem, até certo ponto.

– Era mais um daqueles caras com fetiche em adolescentes?

– Acho que sim. O seu ex também era?

– Ele não era o meu ex! – Minha alteração causou surpresa em Yoongi. – Desculpe.

– Você não gosta muito de falar dele, né?

– Não, eu odeio ele, sempre odiei na verdade, eu só desejava que ele morresse.

– Então por que você ficava com ele?

Yoongi havia me desarmado pela primeira vez, eu não tinha nada a dizer, porque eu não conseguia dizer aquelas palavras. Minhas lágrimas desceram contra minha vontade.

– Eu sinto muito, Kyunie, você não merecia algo tão horrível.

– Ninguém merece, Yoongi.

 

 

Meu relógio biológico me acordava às cinco da manhã, todos os dias, até mesmo quando eu não precisava acordar cedo. Yoongi ainda estava dormindo, e ele dormiria por mais algumas horas, tenho certeza. Tentei cochilar novamente, mas eu não conseguia, meus pensamentos estavam me atormentado demais. Eu estava extremamente irritado comigo mesmo, e eu estava irritado com Yoongi, porque ele havia se aproximado demais, quando isso nunca fui parte dos meus planos.

Quando ele acordou, já passava das sete da manhã. Yoongi se espreguiçou e me observou, com um sorriso no rosto.

– Bom dia, Kyunie. – Não respondi nada. – Como você tá?

– O que nós temos?

– Como assim? – A expressão dele não foi das melhores.

– Que tipo de relação nós temos? E o que você sente por mim? Mesmo me procurando sempre, você nunca deixou isso claro.

– Eu...

– Você só quer me usar?

– Não! Claro que não! Eu gosto de você! Eu realmente gosto de você, nem achei que poderia gostar tanto assim de alguém, mas...

– Mas...

– Eu não poderia te dar um relacionamento completo do jeito que você gostaria, porque eu sou um risco pra você.

– Você não é um risco.

– É claro que eu sou.

– Yoongi. – Me aproximei, segurando seu rosto e olhando fixamente em seus olhos. – O que nos afasta não é a sua doença, é você mesmo. Eu não dou uma foda se você tem HIV, e você sabe muito bem disso.

Me afastei, levantando da cama e pegando minhas coisas, pronto pra ir embora.

– Changkyun... – Sua voz estava embargada.

– Só me procure de novo quando tiver certeza do que sente por mim, Yoongi. Se não sente nada, não me procure nunca mais. – Encarei seu rosto uma última vez, então fui embora.

 

“Por fim, não entendo nada.

Eu tento fazer o melhor que posso,

Eu sei que você tenta fazer o mesmo.

Nós somos tão obrigados a cometer erros,

Você poderia chamar isso de disposição.

Peço desculpas por todas as suas lágrimas,

Eu gostaria de ser diferente,

Mas ainda estou crescendo

Naquilo que você pode chamar de amor,

Não sei se serei suficiente.

Estou jogando minhas fichas,

Acho que tendo a empurrar minha sorte.

E, finalmente, eu acredito que vamos ficar bem.

É tão clichê dizer essas coisas.

Mas a repetição é uma chave.

Acho que estou melhor quando estou com você,

Mas eu me preocupo quando você se vai.

Eu acho que preciso aprender a me amar.

Eu devo aprender a ser forte.

Então agora vamos dizer adeus,

Embora me doa no coração.

Suas palavras vieram a mim em memórias,

Eles cantam para mim como músicas.

Não demorará até eu estar aqui,

Em breve, vou fazer a minha chegada.

Sob as árvores sombreadas,

Uma rua tranquila.

As estradas que eu viajei,

Por fim, é uma coisa linda.

Como flores florescendo em um campo solitário,

As pétalas flutuam através dos ventos de cruzamento.

Eles encontram seu caminho para os rios.

...

Isso me leva de volta a você.”

– Ultimately, Khai Dreams

 

Quando eu era criança, achava que o mundo não ia muito além da minha rua, e que as coisas da televisão existiam somente lá, distantes de mim, nenhuma daquelas coisas poderiam me alcançar nunca, boas ou ruins. Infelizmente, eu estava enganado, e muito.

Eu não poderia contar com um pai que eu nunca conheci, minha mãe já trabalhava demais, não tinha tempo nem pra ela mesmo, e ainda ganhava tão pouco. Mesmo sendo novo, eu aprendi que tinha responsabilidades e eu precisava assumi-las. Lembro de como minha mãe ficou contente quando, aos doze anos, eu consegui meu primeiro emprego, ajudando uma vizinha a vender na rua os lanches que ela fazia.

Eu não podia comprar um celular ou tênis legais, mas eu ficava feliz quando nós conseguíamos comprar uma comida melhor no fim de semana. Meu mundo era pequeno, só minha mãe e meu irmão cabiam nele. E eu adoraria que tudo tivesse continuado daquela forma.

Eu tinha quatorze anos quando o conheci. Estranhei que alguém bem vestido e em um carro chique parasse pra comprar lanches de rua. Por muito tempo, aquilo se repetiu, ele era sempre muito legal comigo, até deixava que eu ficasse com o troco, um homem realmente generoso, era o que eu pensava.

Depois, ele começou a conversar comigo, perguntando onde eu morava e estudava, eu respondia normalmente, eu o achava legal, não via nenhum problema naquilo. Então ele começou a me dar carona, ele me pegava na escola e me levava pro trabalho, algumas vezes ia me deixar em casa também, aquilo era muito bom, eu economizava tempo e o dinheiro do ônibus.

Mas foi então que eu notei algo. Aquele não era o caminho dele, aquilo não era uma carona.

Foi então que eu comecei a achar que ele era meu pai, porque não conseguia encontrar nenhuma outra explicação pra que ele fosse tão legal comigo. Eu tinha vergonha de perguntar isso a minha mãe, então só perguntei que idade meu pai deveria ter, descobri que aquele homem era mais velho que meu verdadeiro pai. Achei muito estranho, mas ele nunca havia me apresentado nenhum tipo de desconforto.

Depois ele começou a levar dinheiro, comida e outras coisas pra minha mãe, será que ele estava interessado nela? Eu pensei que seria legal ter ele como um pai, Minhyuk também parecia gostar dele. Lembro de quando eu pensei “é, ainda existem pessoas boas no mundo”.

E eu nunca me arrependi tanto por pensar aquilo.

Já fazia mais de dois meses que nos conhecíamos, naquele dia, ele me ofereceu uma carona pra casa e, por alguma razão, pela primeira vez, eu hesitei.

– Vai, menino! – Incentivou minha patroa. – Aproveita, que não é todo dia que alguém faz essa generosidade.

Entrei no carro, ele parecia um pouco diferente naquele dia, sua mão foi direto pra minha coxa, me acariciando, ele já havia feito isso outras vezes, eu não gostava, mas também não achava que fosse nada demais, talvez fosse só o jeito dele.

– Oi, querido.

– Oi, o senhor tá bem?

– É... – Ele suspirou. – Hoje não foi um dia muito fácil.

– Muito trabalho?

– Sim, ser adulto é estressante.

– O senhor precisa descansar mais.

– Eu preciso de algum tipo de alívio. – Não respondi nada, apenas me concentrei em olhar o mundo pela janela, como eu sempre fazia. Depois de algum tempo, ele parou o carro, então eu lhe encarei. – Vou precisar comprar algo aqui, já volto.

– Tudo bem.

Quando voltou ao carro, trazendo algumas sacolas, ele parecia nervoso... ou impaciente. Ele dirigiu por mais algumas ruas, então parou novamente, quando me virei pra encará-lo, tudo que pude sentir foi sua boca me sufocando. Suas mãos apertavam minhas coxas e sua língua passava por meus dentes, me fazendo querer vomitar.

Ele se afastou, eu estava assustado, sem a mínima reação, mas eu não disse nada, ele também não.

Lembro do quanto me senti mal naquela noite, eu estava assustado, confuso, eu não conseguia parar de pensar naquilo, eu queria não ter que ver ele nunca mais. Disse a minha mãe que não estava me sentindo bem, não sai de casa no outro dia. Porém, à noite, ele apareceu na minha casa, trazendo novas coisas pra gente, mas eu nem sequer saí do meu quarto, até minha mãe ir lá.

– Olha o que o senhor _____ trouxe pra nós, Chang! Ele deve gostar muito de você.

Naquela noite, eu senti vontade de chorar com as palavras da minha mãe.

 

Passei uns dias sem vê-lo, as coisas na minha casa ficaram mais difíceis. Então ele voltou a me dar “carona”, e as coisas melhoraram.

– Você não está magoado comigo, não é, bebê?

– Não. – O dinheiro que ele dava ajudava minha mãe, então eu não deveria me sentir magoado com ele, era assim que eu pensava.

Todos os dias, a mesma mão estava lá, acariciando minha coxa, subindo até minha virilha, enquanto eu não conseguia mover um músculo. Quando parávamos em frente à minha casa, ele me beijava, sempre, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se eu não estivesse extremamente assustado e com nojo daquilo.

Naquela época, eu já tinha completado quinze anos, Minhyuk estava tendo uma série de problemas na escola, ele não conseguia mais frequentar aquele lugar, porque ele estava reprovando em todas as matérias, os colegas faziam piadinhas com sua surdez, ele se sentia horrível, passava o dia trancado no nosso quarto, chorando.

Minha mãe decidiu que seria melhor se ele largasse a escola, mas, sem a escola, meu irmão não poderia garantir um futuro, pelo menos, um pouco menos pior. E eu pensava constantemente em como poderia ajudar meu irmão, só tinha uma forma, ele precisava de um aparelho auditivo, Minhyuk precisava ouvir, isso mudaria tudo.

Mas eu nunca poderia comprar um, nem que eu juntasse todo meu dinheiro por anos.

Eu estava decidido, no dia em que entrei naquele carro e tentei excluir toda a minha humidade, diante de tudo que eu sabia que estava prestes a acontecer.

– Você pode dar um aparelho auditivo pro meu irmão?

– Hm... isso é algo são realmente caro.

– Eu... faço o que você quiser. – Parecia muito difícil segurar minhas lágrimas, mas eu consegui.

– Bom, eu posso tentar conseguir um, sim. – Ele sorriu, me causando ânsia de vômito. – Tem certeza que quer isso, querido?

– Sim.

Naquele momento, eu achei que estava ajudando meu irmão, mas só estava piorando tudo mais ainda.

E eu suportei tudo. Dentro daquele carro, eu suportei as vezes em que ele apertava meu pênis, as vezes em que ele me fazia tocá-lo com as mãos ou com a minha boca, os beijos nojentos dele. Tudo. Porque não eu não parecia ter outra opção.

E eu lembro do pior dia da minha vida. Era um domingo, eu estava jogando xadrez com meu irmão, sentados no chão da sala, quando um carro parou em frente à nossa casa e minha mãe foi ver quem era. Escondido atrás da porta, eu ouvia a conversa dele com a minha mãe.

– Estou mudando de escritório e preciso de ajuda, acha que o Changkyun pode me ajudar?

Não! Não! Por favor, mãe, diga que eu não posso! Por favor, por favor, eu não quero ficar sozinho com ele.

– Ele pode, sim. Changkyun! – Ela me chamou, entrando em casa.

– Eu não quero ir. – Respondi, relevando que eu estive escutando a conversa.

– Ora! Não seja mal-agradecido! É claro que você vai, você sabe o quanto ele tem nos ajudado nesse último ano.

Aquele certamente se tornou um dia do qual eu nunca iria esquecer, foi o dia em que ficou claro pra mim o quanto o ser humano poderia ser horrível, porque ele não se importou em me ver chorar, ele não se importou com a minha cara de espanto, nem com o meu corpo tremendo, nem com todas as vezes que eu pedi pra que ele parasse. Na verdade, ele gostava de tudo aquilo, quanto mais eu me sentia perturbado, mas o prazer se estampava em seu rosto.

– Quando você vai dar o aparelho auditivo do meu irmão? – Perguntei, com meu corpo totalmente encolhido e cheio de dores, escondido debaixo de um cobertor.

– Logo, bebê.

– Você não vai fazer isso, não é? Você só tá usando isso pra...

– Não diga isso, querido.

– Eu vou contar tudo a minha mãe. – Minha voz saiu trêmula demais, com meu coração acelerado, eu o senti me abraçar por trás.

– Não, bebê, você não vai, porque você não quer deixar sua mãe triste.

As coisas começaram a se tornar cada vez piores, de tantas formas que eu nem conseguia explicar. Ele me levou até sua casa mais vezes, sempre inventando desculpas pra minha mãe, eu tentei de várias formas fugir dele, eu até mesmo pedi educadamente, mas é claro que ele apenas soltou um “eu não posso fazer isso, querido”. Seu falso carinho era o que me dava mais nojo ainda.

Nunca, enquanto eu vivesse, aceitaria que alguém me chamasse novamente de “querido” ou “bebê”.

Eu poderia contar tudo que estava acontecendo, mas pra quem eu contaria? Quem acreditaria em mim? Ou melhor, quem acreditaria que um cara tão legal quanto ele faria esse tipo de coisa? Era eu que entrava no carro dele, era eu que saía com ele, era eu quem dava um sorriso forçado toda vez que nos víamos, era eu que não dava nenhum indício do que estava acontecendo. Como alguém poderia acreditar em mim, então?

Tudo só piorava. Aos dezesseis anos, fiquei sem emprego, não tinha mais como ajudar minha mãe e meu irmão. Todos os abusos sexuais só pioravam, eu me sentia cada vez pior. Não conseguia mais dormir, quando fechava meus olhos, eu tinha a sensação de que ele estava me tocando. Não conseguia comer, nada passava pela minha garganta.

Eu estava, enfim, definhando.

– Chang, o que você tem?

– Nada, mãe, eu estou bem.

“Dongsaeng, nos últimos dias, você tem parecido triste demais.”

“Não foi nada, eu estou bem.”

Parecia que nada mais na minha vida fazia sentido, eu só tinha que me manter vivo e esperar pela próxima vez de ser abusado, então o dinheiro entraria na minha casa. E isso já acontecia há mais de um ano. Quando fechava meus olhos e tentava pensar em outra coisa, que qualquer adolescente de dezesseis anos deveria pensar, tudo que vinha à minha mente eram as palavras dele.

“Não conte a ninguém.”

“Ninguém vai acreditar em você, sabe disso, não é?”

“Sua mãe ficaria tão triste se soubesse disso.”

“O que seu irmão vai achar de você?”

“Seria melhor se ninguém soubesse disso, querido.”

“Esse é o nosso segredo.”

 Sei que tem muitas coisas na vida que podem nos destruir, mas uma das piores, com certeza, é o fato de você saber que está numa situação horrível e vai permanecer nela, aquilo me atormentava mais do que qualquer coisa. Às vezes, eu pensava que estava ficando velho, então logo ele perderia o interesse em mim, mas parecia ser só uma desculpa que eu estava criando pra mim mesmo.

Mas a verdade é que todos têm um limite. E eu cheguei no meu.

Em uma tarde de domingo, Minhyuk estava cozinhando animadamente, enquanto eu e minha mãe jogávamos dominó. Como sempre, ela decidiu meter ele na conversa, sempre mostrando sua enorme gratidão pela gentileza e bondade dele.

– ... porque, sabe, essas coisas a gente não vê muito por aí, ricos só se importam com eles mesmos, pobre que se vire, mas ele é tão bom, e olha o tempo que faz que ele ajuda a gente, eu acho...

– Mãe, é sua vez.

– ... eu fico mesmo muito feliz por Deus ter colocado ele no nosso caminho, porque, olha...

– Mãe, é a sua vez!

– Vai morrer se esperar?! Eu tô achando que você tá sendo muito mal-agradecido com ele, hein, tanta coisa que ele dá pra gente e...

– E você acha que ele dá tudo isso de graça?! Você acha mesmo, que durante todo esse tempo, ele não quis nada em troca?!

– Como assim? – Me levantei, já sentindo as lágrimas virem. – Changkyun! O que você quis dizer? Nunca demos nada a ele.

– Você não deu! – Entrei no quarto, trancando a porta, sentindo meu corpo tremer de nervosismo.

Minha mãe não era do tipo que esquecia as coisas facilmente, e eu sabia que ela não esqueceria daquilo até saber de tudo. De noite, enquanto Minhyuk e eu assistíamos TV, ela chegou por trás do sofá.

– Chang, vamos conversar.

– Não.

– Vamos, é uma ordem.

– Eu não quero.

– Não me importa. – Minha mãe agarrou meu braço, me levando até meu quarto. – Vai, me diz, o que tá acontecendo com você.

– Nada. – Eu não conseguia encará-la.

– Eu quero a verdade.

– Nada, mãe.

– O que ele tem feito com você? – Senti minhas mãos tremerem, enquanto um nó se formava em minha garganta. – O que ele fez com você, Changkyun?!

– Nada! Me deixa em paz! – Levantei, empurrando ela pra fora do quarto, enquanto dava início ao meu choro compulsivo.

– Changkyun! Abre essa porta!

– Não! Vai embora! Eu quero ficar só!

– Por que você nunca me contou nada?!

– Porque você não ia acreditar em mim!

Acho que dizer aquilo abriu um imenso buraco na minha mãe, porque, de alguma forma, eu acabei jogando uma parcela de culpa nela, quando não era verdade, minha mãe não tinha culpa de nada, ela já dava um duro danado pra criar dois filhos sem a ajuda de ninguém. Ela não tinha culpa por nosso pai ter nos abandonado, pela família dela a ter desamparado, por Minhyuk ter nascido surdo, por sermos tão pobres e por alguém ter se aproveitado da nossa pobreza pra me usar. Minha mãe era tão vítima quanto eu.

Ela não disse mais nada, nem naquele dia, nem durante o resto da semana, continuamos vivendo como se nada tivesse acontecido. Até chegar o sábado, o dia em que eu sabia que ele viria me buscar. Quando ouvi o barulho de seu carro, pesarosamente, peguei meu casaco e caminhei até a porta, mas minha mãe já estava lá.

– Eu não entendo o que você quer dizer. – Quando ouvi aquelas vozes, me encostei na porta, tentando ouvir a conversa.

– Não se faça de sonso! Você esteve se aproveitando do meu filho, durante todo esse tempo!

– O Changkyun quem te contou isso? Sabe que ele pode estar inventando coisas, não é?

– Cala boca! Meu filho não é um mentiroso como você!

– Você precisa se acalmar.

– Isso é crime, eu poderia te denunciar!

– Você? Olha pra si mesma, tudo que tem na vida são seus dois filhos, eu poderia transformar sua vida num inferno facilmente. – Senti meu sangue ferver, tentei ir até o lado de fora, mas Minhyuk apareceu e segurou meu braço, me impedindo.

– Vai embora! – Os gritos da minha mãe vinham acompanhados por suas lágrimas agora. – Nunca mais chega perto do meu filho!

Minha mãe entrou rapidamente, trancando a porta, sua respiração estava acelerada, então ele notou os olhares assustados meu e de Minhyuk.

– Obrigado. – Foi a única coisa que eu consegui dizer.

– Desculpe por tudo, filho.

Eu nunca pude esquecer do abraço que ela me deu naquele dia, nem da sensação de liberdade que eu senti.

 

Claro que isso não resolveu tudo. Nossa situação financeira só ficou mais difícil ainda, além de eu viver constantemente com medo. Eu não saía de casa, porque eu tinha a impressão de que ele me seguia por todos os lugares que ia. Constantemente, eu tinha a sensação de que estava sendo observado por ele, mesmo quando eu estava em casa. No meio da noite, eu tinha pesadelos horríveis, então eu acordava e chorava baixinho. Lembro de ter vendido meu celular com a desculpa de que precisávamos de dinheiro, mas, na verdade, eu só queria eliminar todas as possibilidades dele me encontrar ou se comunicar comigo.

Além de não termos muito o que comer, quando tínhamos, eu não sentia fome, era bastante visível o quanto eu já havia emagrecido. Eu sentia muito sono, eu estava dormindo na maior parte do tempo, tendo pesadelos. Acho que as coisas tomaram outras proporções quando eu estava enxugando a louça e comecei a deixar cair tudo que eu segurava, porque minha mão não parava de tremer.

Minha mãe decidiu me levar num médico, mas ele disse que não tinha muito que pudesse fazer, meus problemas não eram causados por uma doença física, eu devia estar com algum problema psicológico. Sentado naquele lugar, escutando as recomendações do médico, eu não pude esquecer da pergunta da minha mãe.

– Você precisa levá-lo num psicólogo.

– Psicólogos são muito caros?

Aumentando nossas dívidas, ela conseguiu me levar em um psicólogo, que além de caro, ficava do outro lado da cidade. Eu achava que aquilo estava me ajudando, mas eu me enganei. De que adiantava eu continuar fazendo um acompanhamento que deveria me fazer se sentir melhor, se depois eu chegaria em casa e veria que não tínhamos nada pra comer?

As coisas não mudam quando sua realidade não muda. Tentar consertar um problema causando outros, não é uma solução, é só um problema a mais.

Então eu decidi que não iria mais, e sempre tentei mostrar à minha mãe o quão bem eu estava, porque ela não precisava fazer mais esse sacrifício por mim. Eu ia ficar bem, com ou sem psicólogo, porque eu tinha uma família pra cuidar.

E uma promessa a cumprir, eu iria fazer meu irmão ouvir.

 Nunca mais me relacionei com ninguém. Hoseok, certamente, foi a primeira pessoa por quem eu me apaixonei depois de muito tempo, mas eu vi que não era pra mim, e eu nunca fui muito de insistir nas coisas. Então Yoongi apareceu, e não estava nos meus planos gostar dele, não mesmo.

Depois de três anos, eu realmente achei que estivesse bem melhor em relação ao meu passado, que alguém me tocar não me faria mais nenhum mal, que eu havia perdido por completo o medo de ser usado novamente, mas eu estava errado.

É bobagem negar que eu gosto dele, porque isso já está evidente demais. Eu estava apaixonado por Yoongi, e eu queria que ele me quisesse tanto quanto eu queria ele. Mas eu não iria deixar ninguém mais me usar.

 

[Park Jimin]

 

Eu tentei. Eu realmente juro que tentei. Mas parece impossível que eu consiga contornar tudo. Por mais que eu saia de vez em quando, que eu converse com meus amigos e ria, parece que, no final, as coisas sempre vão terminar do mesmo jeito. Eu trancado em um quarto, me sentindo a pior pessoa do mundo, sozinho.

Fiz todo um discurso sobre como eu deveria voltar a estudar, porque eu não era mais um adolescente e precisava fazer algo da vida, mas não durei uma semana e desisti das aulas de novo. Era sempre assim, eu parecia bem demais em um dia, eu achava que tudo ia começar a dar certo pra mim, mas, no outro dia, eu já estava chorando sem nem mesmo saber o motivo direito.

Eu preferia fingir que não tinha nada, se alguém me perguntasse como eu estava, eu diria que bem, diria que não tinha nenhum problema, que minha saúde era completamente normal e boa, porque assim parecia mais fácil, sem causar um sentimento de pena nos outros, sem sentir que eu estava me expondo em vão. Mas, trancado no meu quarto, eu deixava que todas aquelas coisas me consumissem.

Parecia inevitável não ficar remoendo coisas de anos atrás, brigas com meus pais, discussões com Somin, os amigos que eu afastei, todas as vezes que explodi e falei o que não devia. Mesmo que conseguisse o perdão das pessoas, eu não me sentiria menos pior, meu instinto de autocondenação sempre falaria mais alto.

Eu gostava de Jungkook, verdadeiramente, e eu gostava dos meus amigos, mas eu me sentia uma bomba relógio, alguém que poderia explodir a qualquer momento e por qualquer coisa, então seriam mais nomes pra lista infindável de pessoas das quais eu precisaria me afastar.

Qualquer sinal de alguém tentando invadir meu espaço pessoal parecia o fim do mundo pra mim. Não importava se era fisicamente ou através de perguntas, alguém querendo saber sobre a minha vida ou meus problemas. Eu iria me sentir incomodado e reagir mal. E esse era o problema de namorar Jungkook, já que, sendo meu namorado, ele iria manter sempre certa proximidade de mim.

E proximidade era um verdadeiro problema quando se tratava de mim.

Proximidade significa mais perguntas e cobranças, e isso eram coisas com as quais eu não sabia lidar muito bem. Meus pais estavam longe, minha tia tinha seus próprios problemas e seu próprio filho pra se preocupar, meus amigos e meu primo também pareciam ocupados demais com suas próprias complicações.

Às vezes, eu sentia que não tinha ninguém por mim, além de mim mesmo, ninguém pra se preocupar ou pra perguntar se eu tinha dormido bem, mas isso não me incomodava por inteiro, acho que passei a gostar de não ser lembrado, assim eu me mantinha longe dos problemas que eu sabia que causaria aos outros.

Mas agora tinha o Jungkook, ele se preocupava comigo, de alguma forma, ele queria me ver bem e saber o que poderia estar acontecendo de bom ou ruim comigo, isso me deixava sempre apreensivo demais, porque eu nunca sabia explicar as coisas que eu sentia, ou porque eu as sentia daquela forma.

Fazia um bom tempo desde que eu não ia pra aula, também não mantive muito contato com ele. Eu sabia que, quanto mais eu sumia, mais ele se preocuparia e mais complicado ficaria pra que eu explicasse o porquê de estar me isolando mais uma vez. Talvez eu devesse...

Uma batida na porta interrompeu meus pensamentos.

Por favor, não seja ele.

Ou seja, eu queria mesmo vê-lo.

Mas você andou evitando-o.

Mas você sabe o quanto gosta dele.

– Jiminnie? – Ah, o que eu faço agora?

– Oi! – Respondi, como se eu não estivesse travando uma guerra interna enquanto caminhava até a porta.

– Senti saudades. – Foi a primeira coisa que ele disse, depois que abri a porta e sorri pra ele.

– Também senti. – Puxei sua cadeira, fechando a porta e o abraçando por trás.

– Você tá bem?

– É.… acho que sim.

– Você não tem respondido minhas mensagens.

– Desculpe.

– Tudo bem, eu entendo que você queira um tempo. – Ele olhou pra minha escrivaninha, observando os livros que estavam ali. – Você tava lendo?

– Sim.

– O que tem lido, ultimamente?

– Hm... – Peguei um dos livros e lhe entreguei. – O título é “Lemon Boy”, é a estória de um garoto contada por outros seis garotos.

– E ele se chama Lemon Boy?

– Uhum.

– E o que ele tem de especial?

– Muitas coisas, mas a história gira em torno dele tentando reencontrar um amigo de adolescência, e esse amigo também tenta reencontrar ele.

– Você gostou da estória?

– Sim, acho que eu tenho algumas coisas em comum com ele.

– Como o quê?

– Lemon Boy sumia do universo sempre que se sentia sufocado demais por parecer um peso na vida dos outros ou por só causar problemas. E, sempre que ele sumia, era um belo dia.

– Nunca é um belo dia quando você some, Jimin.

– Um dia vai ser.

– O que você tem sentido? Talvez fosse melhor se me contasse.

– Eu não sei, não sei como explicar.

– É isso mesmo? Ou você só não quer me contar? – Engoli em seco, olhando pras minhas próprias mãos.

– Você não precisa se preocupar tanto assim comigo.

– Isso é inevitável, eu sempre vou me preocupar com você.

– Então temos um problema.

– Isso não é um problema.

– Jungkook, não me faça se sentir sufocado. – Baguncei meus próprios cabelos, me sentando na cama.

– Então não me faça se sentir tão preocupado, Jimin. Você some, não diz nada, eu não faço ideia do que aconteceu ou tá acontecendo com você, não sei o que fazer pra te ajudar, é completamente frustrante.

– Eu sei, me desculpe. – Minhas mãos estavam tremendo. – Mas eu não estou acostumado com ninguém se preocupando comigo.

– Não é verdade, seus pais se preocupam com você, seu primo também.

– Meus pais? Eles me mandaram pra cá porque estavam cansados de mim, porque não sabiam mais como lidar com um garoto tão problemático. O Namjoon hyung já tem os próprios problemas dele.

– Tá, mas eu me preocupo com você.

– Mas não devia.

– Por que não?

– Porque você só tá criando um problema novo, Jungkook.

– Que problema, Jimin?

– Eu! Eu sou seu problema! – Não consegui mais me segurar. – E eu não quero ser o problema de ninguém.

– Você não é problema de ninguém, Jimin! Você só tem seus próprios problemas, como qualquer outra pessoa, não é nada que não possamos resolver.

– Você não pode e não vai resolver nada por mim, Jungkook. – Ele suspirou profundamente, então ficamos em silêncio por um longo tempo.

– Por que eu tenho a impressão de que você sempre tá tentando me afastar?

– Desculpe, eu faço isso sem notar.

– Não pode tentar me dar uma chance, Jimin?

– Eu posso, é só que... eu não sei.

– Na verdade, acho que eu sou o problema aqui, o seu problema.

– Não é verdade, a culpa é todo minha, as coisas sempre acabam assim por minha causa.

– Então vamos tentar mudar isso, Jimin!

– Falar é fácil, queria ver se fosse você no meu lugar.

– Olha, eu te entendo, mas...

– Não, você não me entende, você não sabe o que eu sinto e você não sabe como eu me sinto.

– Eu saberia se você me contasse. – Nossos olhares se cruzaram, uma mistura de mágoa e raiva.

– Não tenho obrigação de te contar nada. – Jimin, não faça isso, mantenha a calma.

– Mas eu preciso saber como te ajudar, Jimin.

– Eu não estou pedindo sua ajuda! – Cale a boca, Jimin, você sabe que vai perder o controle e vai falar o que não queria.

– Eu gosto de você, não posso te ver definhar e não fazer nada.

– Então é só não ver, Jungkook! – Chega, Jimin, não diga mais nada, por favor, depois você vai se arrepender de tudo que disser.

– Isso é impossível.

– Você faz parecer que é um grande bom samaritano, enquanto sou eu que complico tudo, mas você nem me entende!

– Mas eu estou tentando!

– Mas você não consegue! Ninguém consegue! Todo mundo só fica cobrando as coisas de mim, mas ninguém se importa de verdade em saber como eu me sinto!

– Eu me importo, Jimin! Eu tô dizendo isso pra você o tempo todo, mas você nunca enxerga os meus esforços, você sempre diz que tá só, jogando fora o esforço que eu faço por você.

– Esforço?! – Suspirei, sentindo minhas lágrimas virem. – Então o que você faz por mim é um esforço?

– Não foi isso que eu quis dizer, Jimin.

– Deve ser um verdadeiro sacrifício ter que lidar comigo.

– Jimin, por favor, eu... – Seus olhos se encherem d’água. – Eu não sei o que posso fazer, preciso que me ajude com isso.

– Você quer que eu te diga o que tem que fazer? – Jimin, pare, se controle. – Você só tem que ir embora e me deixar em paz!

– Jimin, é melhor você se acalmar.

– Eu não vou me acalmar! Vamos ver até onde seu esforço aguenta!

– Desculpa, eu falei uma idiotice.

– Não me pede desculpa!

– Jimin, por favor, eu não quero brigar.

– Tarde demais.

– Não é, só precisamos nos acalmar e conversar.

– Jungkook... – Suspirei, meu coração parecia prestes a sair pela boca. – Vai embora.

– Tá, eu posso ir e voltar depois, eu vou...

– Não! Não precisa voltar! Eu tô cansado! Tô cansado de você fingindo que me ajuda, quando você só serve pra me deixar pior! Eu quero que você fique longe de mim, eu quero ficar só! Você só tem me causado problemas! Você nunca, nunca me ajuda! Eu não suporto mais você, Jungkook!

– Jimin...

– Vai embora e não me procura nunca mais!

Um longo silêncio possuiu o quarto. Minha respiração estava agitada, eu parecia prestes a explodir de raiva. Então... Jungkook chorou, e ele chorou como uma criança, seus soluços invadiram meus ouvidos, era a primeira vez que eu o via daquele jeito.

– Você tem certeza disso, Jimin?

Meu corpo tremeu, minhas lágrimas acompanharam as dele.

– Sim.

– Tudo bem. – Jungkook empurrou sua cadeira até a porta, abrindo-a e saindo. – Desculpe por tudo, Jimin, eu não vou mais te procurar, nunca mais.

Quando Jungkook passou por aquela porta, eu realmente achei que tivesse feito a melhor escolha, pra mim e pra ele, mas por que eu estava sentindo meu coração partir em mil pedaços, então?

 

“Você deve pensar que sou estúpido,

Você deve pensar que sou um tolo,

Você deve pensar que sou novo nisso,

Mas eu já passei por isso antes.

Nunca vou te deixar se aproximar,

Mesmo que você signifique tudo pra mim,

Porque, toda vez que eu me abro, dói.

Então eu nunca vou ficar muito perto de você,

Mesmo que eu signifique tudo pra você.

Caso você vá embora e me deixe na lama.

E quanto mais você me machuca,

Menos eu choro.

E a cada vez que você me deixa,

Mais rápido as lágrimas secam.

A cada vez que você vai embora,

Menos eu te amo.

Querido, não temos chance.

É triste, mas é verdade.

Eu sou bom até demais em despedidas.

Você não vai me ver chorar,

De jeito nenhum.

Eu sou bom até demais em despedidas.

Eu sei que você está pensando que sou cruel,

Eu sei que você está pensando que sou frio,

Estou apenas protegendo minha inocência,

Estou apenas protegendo minha alma.

Eu nunca vou te deixar se aproximar,

Mesmo que você signifique tudo pra mim,

Porque, toda vez que eu me abro, dói.

Então eu nunca vou ficar muito perto de você,

Mesmo que eu signifique tudo pra você.

Caso você vá embora e me deixe na lama.

E quanto mais você me machuca,

Menos eu choro.

E a cada vez que você me deixa,

Mais rápido as lágrimas secam.

A cada vez que você vai embora,

Menos eu te amo.

Querido, não temos chance.

É triste, mas é verdade.

Eu sou bom até demais em despedidas.

Você não vai me ver chorar,

De jeito nenhum.

Eu sou bom até demais em despedidas.”

– Too Good At Goodbyes, Sam Smith.

 

“Acredite em mim, eu posso e vou consertar tudo o que fiz. Até lá, vocês precisam sobreviver.”

– Kim Seokjin


Notas Finais


A música que aparece na parte do Yoongi e Changkyun é "Habits Of My Heart", do Jaymes Young.

Playlist do Manual: https://open.spotify.com/user/22ajbv4lcb33ajhlmwh2lx6hi/playlist/1gbHNm1eC0TrAIwcQfhsAO?si=XX5lXSfaStiQmBaJws1FGw

Especiais do Manual: https://www.spiritfanfiction.com/historia/manual-de-como-nao-se-suicidar--especiais-12208456

Lemon Boy (que o Jimin mencionou no final do capítulo): https://www.spiritfanfiction.com/historia/lemon-boy-12547206

Jornal com os personagens do Manual respondendo as perguntas que vocês mandaram: https://www.spiritfanfiction.com/jornais/o-manual-responde--parte-3-13035148

Obrigado por lerem.


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